Houses of the Holy

Abriu os olhos durante aquele instante em que os sonhos davam-lhe uma bofetada sonora no meio da madrugada. Foi tropeçando como uma bêbada até a geladeira. Buscou a garrafa de vidro com água bem gelada, e um pote de sorvete que mal sabia quanto tempo estava lá. Sentou-se ao pé da geladeira aberta, vestindo um camisetão do Led Zeppelin que era de seu irmão. Queria ser como as crianças da capa do  Houses of the Holy. Queria ficar pelada numa pedra, sem que ninguém se importasse. As pessoas se importam muito com as coisas, queria um dia sair descabelada e com a primeira roupa que suas mãos alcançassem no armário, mas sua “chefa” a olharia com reprovação, “imagem é tudo” – sempre dizia  isso em alguma conversa qualquer, num almoço executivo qualquer. Escutava essa pérola dos ditados populares todos os dias, e queria pegar um pedaço do pudim de chocolate intragável que tem nos almoços de negócios e brincar de tiro ao alvo. Queria sujar o blazer branco impecável de sua chefe vazia e cheia dos clichês que lia em seus livros de negócios, que ela dizia que não era auto-ajuda, mas sim, leituras de negócios. “Ohh desculpe, imagem é tudo não é?” – diria ela com um sorriso sarcástico no rosto como a cara de Jack Nicholson em “O Iluminado”. Queria ver como a “chefa” se sentiria desconstruída com a mancha no seu casaco, queria vê-la gritando no meio do restaurante enquanto ela era insolente. Queria ver aquela mulher perder a classe. Ela odeia gente que é perfeitinha o tempo todo. Sairia rindo, desempregada. Talvez pegasse mais um pouco de doce e comeria com requintes de crueldade. Mas ela tem contas pra pagar, e uma mãe doente que depende dela para comprar remédios para diminuir sua dor. Sente saudades da mãe, queria vê-la mais, conversar, mas na maioria das vezes ela está dopada demais para entender e compreender as dores da filha. Mas de alguma forma, sabe sua mãe que ela está ali, ao segurar sua mão e sentir o aperto quente. Quando ela vai embora, as mãos de sua mãe afagam o lençol. É uma maneira de dizer que vai ficar com saudades ou dizer adeus.

Havia uma bandeja de morangos frescos na geladeira, e eles combinariam com o sorvete. Precisavam ser lavados, mas eles talvez não sejam mais tóxicos que os dez cigarros de menta que ela fuma quando vai a shows de blues ou nos dias chuvosos. Adora fumar na janela, escutando “Rain Song” no último volume. Adora quando sua vizinha mal amada bate na sua porta dizendo que está tentando descansar e a música barulhenta não a deixa em paz. Maldita convicção dos dias de chuva. Eram dez horas da manhã de um sábado, Robert Plant cantava e sua vizinha coroca estava “enchendo o saco” dela. A vizinha na porta de sua casa, com um enorme guarda-chuva amarelo embaixo de uma chuva tranquila e fria de inverno. “Desliga isso, por favor!”, e ela soltava as baforadas mentoladas na cara daquela mulher que deve dormir cedo todos os dias e acordar religiosamente nos mesmos horários, comer o mesmo número de torradas e exatamente uma xícara pequena de café ou chá com exatas quatro gotas de adoçante. Ela deve ir à igreja toda quarta-feira e domingo, almoça sempre nos mesmos horários. Ficou olhando na cara daquela mulher que esbravejava na janela, cansou-se. Não gostava das pessoas mal amadas. Fechou a porta, aumentou o som e ignorou a mulher. Viu a infeliz gesticulando brava pela calçada. Ela por sua vez, continuou na janela, sentindo a frieza do seu próprio inverno. Acendeu outro cigarro e encheu a terceira xícara de café. Aquela mulher amarga nunca deve ter ido ao cinema, o jardim dela é tão artificial quanto o sorriso que ela distribui ao lado do padre na porta da igreja…

Let me take you to the movies

Can I take you to the show?

Let me be yours ever truly

Can I make your garden grow?

Os morangos sem lavar tinham um gosto triste. Sua mãe plantava morangos no quintal de casa. Ela costumava apanhar os morangos ao final da tarde, e fazer geleia para comer com torradas e chá. Seu pai nunca esteve presente. Ele era um fantasma desde que ela nasceu. Queria os morangos silvestres de sua mãe, e não aquela porra tóxica e sem gosto. Mas dava-lhe certo prazer ficar sentada na penumbra da cozinha, apenas parcamente iluminada com a luz da geladeira. E aquele frio nas costas e nas pernas, e a água gelada escorrendo da boca, molhando a camiseta. Queria ter um cão. Ele estaria olhando pra ela com cara de reprovação. Ela deveria estar na cama, aquecida pelos braços de um homem, mesmo que seja aquele que aparece de vez em quando e deixa no ar um misto de saudade. Um homem vazio, tão fácil de amar. Ela ama o vazio, nele há um silêncio sedutor que a atordoa. Viu isso em um livro de Rubem Alves. Devorou aquele livro numa tarde despretensiosa, embaixo de uma árvore. Gosta do bucolismo, sente-se bem em contato com a natureza e a calma e compreensão que ela oferece. A natureza vazia… Nunca o vazio foi uma coisa tão linda e necessária.

“A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdade e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas, quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade” (Rubem Alves, “Quando eu era menino”)

E ali, naquela madrugada fria, aos pés da geladeira, no silêncio quase sepulcral, se não fosse o primeiro ônibus das quatro e meia da manhã passar na rua, ela refletia sobre a sua vida simples, entre morangos, sorvete e água gelada. Tudo por causa de um sonho que lhe roubou o sono que tanto precisava. Precisava de um pouco de paz, mesmo que ela seja obtida do ato de comer compulsivamente, com Led Zeppelin tocando mentalmente. Poderia chover naquele momento, a chuva lhe traria algumas poucas horas. Gostava de ver o amanhecer em dias chuvosos, e sempre pensava na pouca atenção que as pessoas dão a ele. Existe a beleza em tons cinzentos, por mais triste que seja, a tristeza tem uma beleza sensível, mas as pessoas andam insensíveis, recolhidas dentro de um padrão ditado a quatro cantos. Odeia padrões, e tudo que é pré-determinado. Aquilo lhe traz uma vontade de não estar, um desconforto, uma fuga. Queria uma casinha no alto da montanha, sem pessoas, apenas uma geladeira e um cão. O cão cuidaria dela, sem exigir nada em troca. Não queria perder o sono, queria estar num templo, na frente do templo uma pedra enorme. Talvez ficasse pelada ali, esperando que a frieza do inverno lhe trouxesse uma razão, aquela que ela acha que está perdida nos confins de um tempo que não voltará mais. Já não é mais uma menininha. As gotas de chuva que molharam suas roupas no varal, as gotas de chuva que escorreram no rosto tem um gosto amargo. Talvez na primavera, o silêncio do inverno se dissipe, e quando chegar o verão, as tempestades de fim de tarde trarão aquele instinto de medo e delírio, e a vontade de sorrir mesmo quando não há motivo algum para tal. Talvez ela vá ao cinema, a um show de blues. Talvez as rosas de seu jardim floresçam novamente, talvez ela vá correr na chuva como uma tola, perdendo fôlego, talvez ela espere o seu Amor numa esquina errada. E ela é apenas uma garotinha inocente, nua e crua, como as crianças do Houses of The holy, nua e crua, correndo pela areia, vivendo o delírio e suspiro da inocência e saudade.

Lembra-se dos nossos sonhos de areia?
Brincávamos na praia construindo castelos
E vinham as ondas de convicções e destruíam tudo
E apenas olhávamos um ao outro, silenciosos
Sonhos de marolas ao entardecer, ventania
E nossos cabelos bagunçados sem querer
E eu beijava seus cílios, tirava grão de areia intruso
Mas você cresceu meu Amor, e a única coisa que me resta
É você vindo em sonhos de cardume, um reflexo metálico
Sua sombra de menino sem medo correndo na areia
E o barco de velhos pescadores no horizonte ao amanhecer
Saudade… Sonhos de sílica.

"Eu tive um sonho. Um sonho louco. Qualquer coisa que que eu quisesse saber..."
“Eu tive um sonho. Um sonho louco.
Qualquer coisa que que eu quisesse saber…”
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Incêndio

“Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.” Albert Camus

Chamas. Naquele acampamento do auge de meus quinze anos, eu via as chamas dançando enquanto a batata com fondor (aquele pó amarelo que segundo a lenda, “amacia” carne), assava na fogueira, envolta de papel alumínio. E eu aprendi, que se você esquentar a água com uma pedra dentro, a temperatura se mantém como uma garrafa térmica. E me perguntam, “não seria mais fácil ter levado uma garrafa térmica?”. Sim, seria, mas eu penso que o ato falho do esquecimento da bendita garrafa, nos faz voltar a um estado primitivo. Tem gente que odeia acampar… “Onde vou conectar minhas máquinas? Ou ainda, existe camping com energia elétrica, já vi gente levando o grill, aquela coisa que só faz sujeira e deixa a comida borrachuda ou máquinas de fazer pão. Muitas vezes queria fugir para um lugar onde não existissem tantas máquinas de fazer coisas. Penso que daqui a pouco teremos máquinas que vão sorrir por nós.  Algo como uma tela com um visor, e várias opções:

  1. Bom dia!
  2. Boa Tarde!
  3. Boa Noite!
  4. Tudo ótimo!
  5. Sim, muito! ( aquele sorriso de concordância, sabe?)
  6. Tudo bem!E você?
  7. Tive um lindo final de semana
  8. Eu te amo!
  9. Sou feliz!
  10. Que dia lindo hoje!
  11. Tenho dinheiro na conta! (mentira, você está no cheque especial!)

Acordaremos de manhã, faremos nossas tarefas por vezes odiosas, tal como sair da cama, arrastar-se até o banheiro e começar a amaldiçoar o dia desde as seis horas da manhã, e isso se torna insuportável desde a segunda-feira. Normal, estamos sempre reclamando, jogando o celular na parede quando ele não para de despertar. Imagino nossas cabeças explodindo junto ao nosso ódio das passagens do tempo, junto com nossas convicções de que estamos ficando velhos. Sendo assim, viveremos com nossa máquina de sorrisos, talvez um aplicativo no celular que manda sinais para algum chip implantado nas nossas cabecinhas perturbadas, algumas bem ocas, só com o eco do vento entrando pelas têmporas e saindo por outro lado. Vamos emular sorrisos eletrônicos! Bons eram os tempos de criança. Criança não tinha a maldade de simulação…

Parece que pintamos uma fotografia daqueles tempos de criança sem compromisso, sem malícia e aquela perspectiva de que a vida seria uma eterna brincadeira, ou como os filmes da TV. Eu me lembro de que sempre quis viver uma aventura, brincar de pirata, e nunca mais envelhecer. Um sonho na Terra do Nunca. Crianças e seus sonhos… Um dia, eu queria ser caixa de supermercado. Na minha cabeça de criança, eu imaginava que todo aquele dinheiro que entrava no caixa, seria todo meu. Eu achava que as caixas de supermercado eram donas de tudo e moravam em suas confortáveis casas com uma piscina no quintal. Eu tive um amigo que dizia que seu sonho era ser coletor de lixo. Ele pegava os sacos de lixo escondido da mãe e espalhava no quintal, alguns com brinquedos dentro, e outros ele pegava da lixeira.  Tinha um triciclo azul, e andava pelo quintal, apanhando os sacos, colocando nas costas e levando até a lixeira. Quando o caminhão de lixo passava, saía no portão e olhava emocionado para aqueles homens que corriam atrás do caminhão. E sempre ele mandava “tchau” para os coletores que passavam no portão. No final do ano, ele pegava parte de suas economias, e entregava para os coletores, que passavam nas ruas, fazendo festa. Ele me contou que um dia, ao entregar o dinheiro para um deles, ele disse com um sorriso que quando crescesse, ele queria ser “catador de lixo”. O coletor sorriu, e quase chorou, porque aquele menino de cabelos bagunçados e boca suja de chocolate, dizia que se sentia orgulhoso, e não ligava para o cheiro ruim do caminhão de lixo. No meio de tantas pessoas passando e tampando o nariz, estava ali um ser que nunca deixou de cumprimentar ou dizer “Boa Tarde”.

“Não queira ser lixeiro bom garoto!Promete?”

E então o coletor saiu, correndo atrás do caminhão e olhando pra trás, deu um sorriso para o garotinho com ares de incógnita, parado no portão, com o cachorro louco correndo e latindo no pequeno jardim que havia na casa de infância. Para ele, não importava se a mãe dizia que aquilo era serviço de quem não estudou para ser alguém na vida. Aquele garotinho que mais tarde se tornou meu amigo e contamos nossos sonhos de criança numa mesa de almoço corporativo, não conseguia imaginar a sobrevivência em um mundo cheio de lixo. E nesse nosso mundinho de chorume, eu penso que acordaremos, e vamos escolher num visor a opção de sorriso. Sorrir dá trabalho, existem máquinas de fazer arroz, máquinas de fazer sanduíche, máquinas de fazer café… Enfim, máquinas. Hoje eu apertaria o botão: “Sorriso sarcástico com ponta de ironia”, mas a máquina de sorrisos apenas simula sorrisos de felicidade. No mundinho de lixo, acordamos emulando “sem querer querendo” sorrisos de felicidade, apenas para agradar, e evitar perguntas desnecessárias. Hoje, simulamos que somos correspondidos, por mais que nosso Amor nem nos olhe na cara ou que se preocupe com você da mesma ou na mínima maneira como você se importa,  ou quando dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” às pessoas e as desgraçadas não respondem, quando nos sentamos no banco de terminal de ônibus, cansados e introspectivos, com fone de ouvido ou um livro… Ou os dois… Chega sempre alguém querendo conversar, e você quer apenas fugir dali, mas sente-se obrigado a ouvir ou expressar um “É…”, “Hummm”, “Legal”, “É mesmo” na conversa. E quando chegamos finalmente em nosso lar, podemos pensar o quão nós somos mesquinhos. Já dizia Renato Russo, estamos mergulhados em nossa arrogância, esperando um pouco de atenção, sabe? Aquela que não damos aos outros. E eu vou lá, emular o meu sorriso de “Estado de Felicidade incondicional”, mas na verdade, estou com olhos de saudade, e um sorriso de lábios secos. Sabe? Arrogante, esperando um pouco de atenção e todo Amor do mundo para incendiar…

O presente.

O presente.

Está lá, em cima de uma mesa, uma caixa bonita em azul marinho e amarelo creme. Tem um lindo laço que eu comprei já pronto, pois sou péssima em fazer laços, dobraduras, embrulhos e essas coisas que ditam que toda mulher deve saber fazer. Talvez escrever seja a única coisa que eu saiba (ou acho que sei) fazer. No fundo da caixa, há papel em seda azul dilúvio… Sei lá, acreditei que combinava com teus olhos. Tudo bem cuidado, numa perfeição incontida em um carinho que talvez os deuses e toda a natureza aturdida e talvez desnecessária, sejam incapazes de compreender. Tem coisas nessa vida que são impossíveis de ter uma aceitação dentro de uma esfera viável ou pelo menos, de compreensão, outras, carregam um tempo considerável para completa aceitação. Eu vejo este presente em cima do banco e eu quase consigo entender que talvez nunca lhe seja entregue. Hoje eu entendo e levo comigo um profundo silêncio dentro de meu espelho d’alma. Nunca fui tão reclusa, ando de mau humor e com uma perspectiva de que a vida é uma grande merda e o segredo é ignorar todo o fedor. Lembro-me de um dia que me disseram que a vida é um balde de merda, e a cada chute que damos, a merda se espalha, e o fedor fica insuportável. Vivemos em um mundo mesquinho, de pessoas que não possuem a mínima noção do bom senso. Talvez eu e você estejamos inclusos neste mapa de horrores, mas com nossas casinhas dispostas em uma casa no campo distante, tentando, talvez em vão, fugir desses horrores. Você se diz desacostumado, eu estou assim, desacostumada, silenciosa e talvez, desalmada. Não carrego mais comigo aquela coisa sonhadora de que podemos mudar o mundo. Sinto as coisas ao meu redor cada vez piores. Tenho velhos fantasmas me atormentando, pincelando meus pensamentos com perguntas talvez sem respostas. E o que falar de Amor? Eu lhe digo que nunca acreditei na felicidade, mas acredito nos momentos bons, e nos momentos ruins que nos soca como se fossemos sacos de pancada. Eu digo que eu sinto Amor e acredito nele, mas muitas vezes dentro de uma esfera de improbabilidades e incompatibilidades, amores e desamores.  Eu lanço um olhar para a caixa do laço azul, eu vejo mensagens sem respostas e talvez uma falta de atenção apenas aparente. Silêncio, a saudade fala mais alto, mas quem sou eu para obrigar alguém a me dar atenção? E assim eu saio, vou caminhar para comprar pão. As faces de pessoas alegres no supermercado me dão talvez uma falsa sensação de que a felicidade possa, de fato, existir e minha tentativa de salvar aqueles que vão cair do abismo, não é um tempo perdido. E quando eu deito meu corpo na madrugada, eu confesso, que espero meu peixe perdida em alto mar. Protejo-me em minhas manhãs presas em leituras inspiradoras, estudando um pouco de xadrez, mesmo que eu não consiga decorar movimentos e que eu caia novamente na pegadinha do Xeque Pastor. Prefiro jogar conforme os minutos passam, sem estratégias prontas, e assim, você “rapela” minha aristocracia e metade de meus peões.

Fico clicando em botões de “Enviar currículo”, e perdida em bits e bytes de um editor de texto, rindo de meu amigo que não faz a barba há 150 dias, escrevendo alguns textos, ensaios e trechos de meu livro, ou apenas procurando anotações de observações aleatórias que escrevi enquanto esperava no terminal de ônibus.  Minhas tardes são muito bem aproveitadas assistindo documentários da BBC, History, National e Discovery. Assisti aquele que tu falaste, sobre as formigas. O que eu pensei, foi que eu adoraria ficar sentada por perto, com aquelas roupas de proteção… Horas vendo aquelas formigas, estabelecerem a pequena paz de espírito delas no caos de um chute de botas. Não poderia usar sapatinhos de plástico e eu não teria mais oito ou nove anos.

Às vezes eu bebo, mas apenas para me aquecer e tecer saudades. Não saio, estou sem dinheiro para viver uma boêmia pandemônica. Às vezes vou para a Praça da Paz ler embaixo de árvores, queria fazer isso hoje, mas está chovendo. Uma garoa fina, daquelas que você diz que lhe deixa desanimado. Mas eu gosto do tom cinzento que está lá fora. Combina com meu estado de espírito. Cinza… E não tem nada a ver com sadomasoquismo, e, aliás, o livro é uma grande merda, escarrada, escancarada nas estantes para leituras vazias, pura Literatura Oca. E eu sonhei esses dias que eu era uma Ghost Writer. Eu poderia ser, mas me recusaria a escrever coisas ruins. Mas achei divertido, eu falava com um cara e o mais engraçado foi o fato dele ter um saco de pão na cabeça. Coisas de sonho… E eu lá, fazendo anotações em um papel laranja, e a caneta falhava, e aquilo me irritava profundamente. Sabia? Caneta que falha me deixa enraivecida. É difícil tirar-me do sério, um dos motivos, porque tenho tendência de guardar o que me corrói dentro de um baú a sete chaves. Mas chegarão os dias que o baú estará lotado, e tudo, uma grande bomba, pessoas ao meu redor à mercê de um apocalipse. Mas as canetas falhas não chegam nem perto de eu guardar alguma mágoa muito grande. Apenas alguns “filha da puta”, “maldita”, “vai se foder”, emitidos com um sorriso cínico e sarcástico de canto de boca. Depois, simplesmente eu esqueço. Ou dou risada, horas mais tarde, quando faço um apanhado de minhas resoluções bem sucedidas ou uma lista de fracassos.

Olhei novamente nesse instante para o teu presente… Eu poderia aprender a fazer laços bonitos. E talvez até caixas bonitas artesanais. Um dia, eu pintei telas. Parei… Um dia, fui xeretar revistas de ponto cruz ( aqueles bordados bonitinhos em toalhas) e me estressei, não tenho esses talentos, serei eu apenas uma garotinha? Talvez eu seja como a música de Bob Dylan

“But she breaks just like a little girl.”

Emoções rasgadas.

Depois de uma noite de insônia, poucas horas de sono, e aquela sensação de resfriado chato querendo derrubar, acordei quase rouca, com voz estranha, que sumia em poucas palavras. Quase desmarquei a entrevista, mas não desisti: salto alto, camisa, meia fina e saia executiva. Sapato fino, de tom bordô em couro aveludado, cujo salto enganchava nas malditas calçadas de pedras soltas. E eu penso… Por quê dificultamos tanto? Tudo poderia ser mais simples. Eu me irritei com minha meia-calça. Passei em uma loja no meio do caminho, comprei outra, entrei no banheiro do estabelecimento e troquei minha neura por outra neura… Fiquei com medo de rasgar a meia de fio 15 em lycra, fato que realmente aconteceu, mas foi no portão de casa, quando a coroa do abacaxi que eu comprei encostou-se a minha meia. Quando fui trocar as sacolas de braço, escutei o barulho desesperador de fios rasgando. Olhei, dei risada. Pedreiros na espreita… Um naco de minha coxa branquela debaixo do rasgo seria normal e mais divertido se fosse à hora de um bom sexo, aquela coisa de desespero. Melhor uma meia rasgada em cima da cama pelas mãos de um homem do que pela coroa de abacaxi pérola comprado na promoção que estava azedo. Nada que um açúcar resolva. Devorei três fatias com requintes de crueldade e sadismo, sentada em minha cama, marcando trechos de “Cartas de um Escritor Solitário”, de Sam Savage. Joguei fora a meia, fiquei em mangas de camisa e adormeci. Não passei na entrevista, recebi um e-mail frustrante, mas sou forte, paciência! Terei outros momentos para rasgar meias por aí e dar risada de meu próprio medo. Pelo menos tenho algo divertido com tons de tragicomédia para contar. Adormeci esparramada na cama e sonhei com teus braços com veias e tendões aparentes de tua pele branca e combinando com meus tons embaixo de minha meia rasgada…

Entrega rápida – Versos e trechos esparsos

1- Só para constar…

Não, eu não uso nenhum tipo de droga para escrever as verdades, as bobagens, meu Amor, minha devoção, minha fúria. O máximo que eu cheguei a fazer foi tomar uma garrafa de vinho sozinha e escrever um poema safadinho ao qual eu não me lembrava no dia seguinte. Acordei ao lado do notebook, com ressaca, deitada na diagonal, com a roupa no corpo. Mas gostei do que estava ali. Não editei pra ficar bonitinho, afinal estava bêbada!

Quem quiser ler, o poema bebum está aqui: Drunk Poem

2 – Erotique

Esta noite queria poder lhe beijar de corpo inteiro,
Queria tocar teu corpo como um piano numa sala de jazz,
Pediria para que me devorasse inteira sem pudores,
Olharia em teus olhos e lhe pediria que rasgasse minhas roupas,
E que tirasse minhas meias 7/8 com os dentes…

3 – Brincadeira de criança

Quando criança, tinha poucos amigos. Era daquelas crianças sozinhas, que se divertiam criando histórias e situações em livros que minha mãe me dava. E eu subia no telhado, escondido, e então eu passei a observar a vida de cima, e então eu pude ver pela primeira vez em minha vida, que a maioria das pessoas andam cabisbaixas com seus problemas e medos, e que nenhuma delas contempla a beleza das pequenas coisas. A vida vista de cima, apesar de tudo, era mais bonita, e me dava a compreensão necessária que eu com meus 8 anos de idade na época, eram completamente capazes de entender. E eu assimilava aquilo apenas como o quão chato poderia ser o mundo das pessoas adultas.

4 – Insônia

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Neste ano minha insônia piorou. Minha hiperatividade mental tomou proporções quase desastrosas. Cinco dias seguidos sem dormir, uma injeção de diazepam no hospital me fez dormir. Minha mãe me acordou para jantar. Eu acordei meio desnorteada e sem saber onde realmente estava. Comi o jantar numa loucura misturada com sonhos vívidos. Voltei a dormir e só acordei no outro dia, ainda dopada, mas com o corpo descansado. E mais uma vez, chego eu num consultório confortável para tratar de minha ansiedade, insônia e hiperatividade. Mais um ano de Fluoxetina, para tirar a ansiedade e Rivotril para fazer dormir. Se eu bebesse uma garrafa de vinho todos os dias antes de dormir, eu dormiria igual um anjo, mas isso se dá um outro nome: alcoolismo. Prefiro ficar com o Rivotril…

5 – Banho na penumbra
Era de madrugada, depois de um tempo imersa numa boa leitura e estudando francês (estou tentando pelo menos, e estou gostando muito), resolvi tomar um outro banho para dormir em paz. Queria fazer alguma loucura, talvez tomar um banho com as luzes apagadas, acender um incenso e relaxar. No meu pequeno banheiro tem duas luzes, uma fluorescente bem forte e uma daquelas luzes amareladas, perto do espelho. Estava cansada, tomei minhas pílulas de dormir, resolvi tomar um banho na penumbra, com apenas uma luz amarelada de fundo. Acendi um incenso de sândalo e tomei um banho relaxante. Creme hidratante no corpo todo, um camisetão e fui dormir, em paz, com algumas gotas de meu perfume favorito atrás do pescoço. Era este cheiro que eu queria que você sentisse, mas eu dormi sozinha mais uma noite. Seria legal nossos corpos nus entrelaçados embaixo do chuveiro, água morna e meia luz…

6 – Prazer, meu nome é Desejo

Prazer, meu nome é Desejo, tu me conheces?
Porque eu sei que eu lhe conheço de algum lugar.
Eu já passei por aqui antes, você se lembra do meu rosto?
Já estive nesse velho teatro, nesta velha igreja, estive te observando,
Você já me procurou pelas noites, quando estavas sozinho,
Naquelas noites de luzes amareladas, ruas vazias,
E o seu coração tocava uma balada tão triste, seus olhos perdidos,
Tinham o brilho e a intensidade um milhão de estrelas.

Essa tua vida tão solitária, você têm amigos, mas se sente bem?
Existe algo que lhe completa, algo que você ama acima de tudo?
Você me conhece, prazer eu sou o Desejo, e eu sei que estou,
Escondido, você me ignora, eu conheço teu Orgulho, tão soberano,
Um dia ele me contou, um segredo teu, você quer saber o que é?
Meu nome é Desejo e só lhe conto se você estender as suas mãos,
E dançar comigo a noite inteira, em passos da canção que quiser,
Prazer, meu nome é Desejo, e neste teu corpo estarei presente,
Sua mente o tempo todo me nega, mas você sabe, estou te observando…

7 – Frase do dia: ainda vou escrever sobre isso…

“Inventamos amores procurando O amor. Amargamos tristezas pra achar a felicidade perpétua.

8 – Este ano liguei o botão foda-se

Eu fiz, na virada do ano, dentro dos conformes. Coloquei uma calcinha nova vermelha, comi três sementes de romã quando deu meia noite, comi outras três hoje, dia 06 de janeiro, dia de reis, enchi a cara e desci na beira de um rio e pedi para a lua e as estrelas que eu tenha um anoa mais tranquilo, uma vida mais calma, pois afinal, mais da metade dos meus problemas eu consegui resolver. E um muso inspirador que valha a pena.

Cores de Almodóvar

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar…

"Ouça-me bem amor Preste atenção, o mundo é um moinho Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos Vai reduzir as ilusões à pó."
“Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.”

Acordou, eram sete horas da manhã quando o despertador tocou. Ela colocou um ringtone de um galo cantando, pois isso a lembrava os bons tempos em que morava com os pais numa chácara de uma cidade do interior. Estava gostoso, ali, na sua cama, debaixo das cobertas. Deixou o modo “cochilo” por 10 minutos, apenas para colocar os pensamentos em ordem. Ela não gostava de se levantar em movimentos bruscos, acordar logo após o despertador. Era necessário um tempo, para retomar a realidade que a esperava todas as manhãs, um tempo para se recordar como foram seus sonhos, um tempo para se recompor de um pesadelo, simplesmente um tempo efêmero, que equivale a finalmente abrir o olhos, se espreguiçar e deixar as roupas ao chão em direção ao chuveiro. Uma paradinha básica para ver o rosto amassado no espelho do banheiro e os olhos de ressaca. Ficou contemplando a imagem matutina no espelho, até que o vapor do banho morno borrou sua face. Entrou pra debaixo do chuveiro, e em 15 minutos, no seu ritual diário de purificação, limpou o corpo e a alma dos fantasmas da noite passada, e em meia hora depois, trancou as portas de casa e atravessou a rua para o ponto de ônibus.
O dia lá fora estava de cores mistas. Um lado do céu estava triste, em tons de cinza. Do outro lado, um azul tímido queria surgir entre o alaranjado do amanhecer que estava desvanecendo. A brisa batia suave, e o cheiro era de orvalho de grama da ruazinha de baixo. Naquele bairro suburbano, as árvores davam um tom mais amistoso na cidade de pedra e nos dias de outono, as folhas amareladas davam o tom nas calçadas de concreto. No ponto de ônibus, pessoas com seus maus-humores habituais. Ela diz “Bom dia!”, mas talvez, o talvez o tom acinzentado do céu transmita às pessoas um tom mais frio, certa vontade de recolher-se pra dentro. Na esquina, na beirada da calçada com a rua, uma rama de flor nascia no asfalto, e não estava “atrapalhando o trânsito”, nasceu amaldiçoada pela falta de atenção. As pessoas poderiam pisar nela, e nem ao menos perceberiam que aquela flor ali encontrou seu espaço de vida ali, naquele lugar tão incomum. Suas pétalas eram brancas, e naquele dia de uma provável tarde chuvosa, o seu instinto de sobrevivência seria agradecido pela água da chuva que desce calmamente pela rua.

Nasceu assim, entre a calçada e a rua, sobrevivendo ao caos do bairro do subúrbio.
Nasceu assim, entre a calçada e a rua, sobrevivendo ao caos do bairro do subúrbio.

Ela ouve então o barulho do ônibus virando na esquina. As pessoas ao seu redor, continuam de mau humor. Se ela pudesse ver a aura daquelas pessoas, elas seriam de um tom cinza escuro, como se uma tempestade estivesse ao redor delas. Engraçado até, ela pensar desta forma, tendo em vista que gosta de tempestades. A tempestade a tranquiliza, e ela acredita que a chuva tem um poder de sedução muito forte, é algo triste, para a maioria das pessoas, mas pra ela, tempo de chuva é algo absurdamente sexy, tal como uma mulher de vestido e salto alto vermelho, Penélope Cruz e um homem comendo pêssegos, amarelos, macios e carnudos. E já lhe disseram um dia: “Você é assustadora”. Ela apenas concordava, com um sorriso sádico de canto de boca, um sorriso carmim.
Subiu no ônibus, e não era mais aquele motorista que não devolvia-lhe o seu “Bom Dia”. Este motorista era alegre, ele respondia bom dia e perguntou se estava tudo bem. Coisas assim fazem toda diferença, e as pessoas que estavam com ela, talvez por isso, pelo bom humor e cordialidade do novo motorista daquele horário. O tempo, aos poucos está mudando lá fora, os primeiros tímidos raios alaranjados do sol estão brilhando, naquela janela do ônibus. Enquanto as pessoas se protegem debaixo de seus Ray-Ban, ela apertava os olhos, gostava daquilo. Gostava de sentar sozinha no banco de ônibus, porque todos lhe pedem para fechar a cortina por causa do sol, como se já não bastasse os óculos escuros, e ela então deixa uma fresta pela janela, só pra ela. Ela aprecia viajar com músicas nos ouvidos, não gosta de conversar muito nas viagens, gosta de observar lá fora, “viajar na maionese”, como dizia sua mãe, ficar com os olhos perdidos, pensar num poema, rabiscar as palavras que lhe chegavam, convidando para brincar. A beleza da vida em movimento, a velha que todos os dias cuidava do jardim, estudantes andando de bicicleta, as barracas de cachorro quente, crianças sonolentas esperando a van que as levaria para a escola, os cachorros e seus respectivos donos, senhoras e senhores se exercitando no gramado e existia o caos, e ela de uma certa forma precisava disso, e ela acreditava, que todos nós devíamos enxergar a importância dos caos nessa nova vida. Sem ele, talvez as coisas perderiam um pouco de sentido, e tudo poderia ser entediantemente fácil. Ela ficaria irritada com o tom azul demais das coisas. Tempos negros, são necessários…
Chegou na empresa, cumprimentou os colegas. Chegou na máquina de café, pediu um expresso com pouco açúcar. Um amigo a recebeu com dois pães de queijo quentinhos, se atualizaram sobre o final de semana. O dela foi pacato, tranquilo, umas boas leituras, alguns rascunhos no papel, chá com bolachas e seriados ao final da noite. A vida dela necessita de um pouco de calma, uma paz, no meio de todo o caos, um tempo sozinha para respirar, é o que precisa. Um tempo para pensar na vida, e nas suas consequências e inconsequências. No final das fofocas de expediente e expectativas daquele dia de trabalho, o dia tomou rumo, com suas tarefas, compromissos e stress. Foi embora, no final do dia passou pela passarela que corta a rodovia. Era horário de verão, e ela amava aquilo, porque nos tempos de criança, significava que podia brincar até tarde na rua, e quando eram oito horas da noite, seu pai gritava seu nome no portão, para ela entrar e tomar um banho. Ela se lembra, das suas férias, suja de lama, do campinho de futebol do vizinho. Nunca foi fã da cor marrom, mas essa cor lhe traz boas lembranças. Embaixo da passarela, os carros, ônibus e caminhões passavam, com suas luzes amareladas, e os mais modernos, com luzes de farol azuis. O mesmo cheiro, de poluição e fim de tarde. Ao longe, a cidade universitária a convidava para passar em casa, tomar um banho e caminhar sem pressa, contrariando o aviso que lhe foi dado para não caminhar ali à noite, mas sua alma era pura teimosia e lá no fundo, ela gostava de ser assim.

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Enquanto isso, numa segunda-feira à noite…

Na segunda-feira, dia 02 de julho, resolvi sair do trabalho e pegar um cineminha. Eu estou sem dinheiro, mas pelo menos eu tinha oito “dinheiros” para dar na entrada do cinema. De segunda-feira, é mais barato lá no shopping Dom “Pedra”, e de quebra caiu o meu vale-refeição na segunda. Como eu já costumo dizer, pobre é uma desgraça, vai sempre no dia em que as coisas estão mais baratas. Saí do meu trabalho, atravessei a passarela, onde sempre tem um povinho fumando maconha. Eu já até conheço o pessoal, pois costuma ser sempre os mesmos. Seguro a respiração e sigo o rumo, pois senão dá para ficar meio alterada porque há extensa nuvem desse treco fedido no ar. E sinceramente, não sou fã, acho fedido demais e minha cabeça já tem parafusos a menos sem eu usar nada ilícito. Para isso temos o álcool, que é permitido, muito apreciável(depende da “grife”, não dá para comparar uma Orloff com uma Absolut), gostoso, une as pessoas sem preconceito(todo mundo fica lindo e legal) e o máximo que pode acontecer, como diz minha sábia amiga Lisiane,  é você perder o os amigos, o carro, a família e o fígado. Maconheiros e álcool a parte(prometi que vou fazer um post todo especial sobre o “Álcool, o universo e tudo mais”), segui o meu rumo, esperando o ônibus na estação do Tapetão. Peguei o 331, um ônibus maledeto no qual já fui assaltada e quase encontrei a criatura mais linda do universo se eu não fosse distraída e apressada. E mês passado eu tive a visão do inferno, mas essa foi no 332, eu dentro e o ser cuja beleza não pode ser conjugada(beleza defectível) do lado de fora, bem em frente ao prédio de engenharia, para minha alegria ou infelicidade, pois ao certo eu não sei mais de nada, esses dias ele disse que estava vivo, e isso já me deixa um pouquinho feliz. “Never More, Never More”, isso me lembra Edgar Allan Poe…

Aquele momento em que eu vi o bonitão da janela do ônibus. Ohhhh Jesus Christ what do I do?

Fiquei cerca de 3 minutos dentro do 331 até chegar no terminal Barão Geraldo, que estava bufando de gente, inclusive pessoas aromatizadoras de ambiente, que geralmente tem dois aromas: pastel de carne e pastel de queijo. É uma delícia, principalmente quando está com fome e quando é de manhã, depois do banho. Nada como um cheirinho de pastel grudado nos cabelos. Puro Tesão!Quando é depois do trabalho, eu não ligo, posso chegar em casa e “despastelizar” com um banho maravilhoso e depois partir para as cobertas com um livro a tiracolo, ou meditação, ou ouvir um sonzinho.

Fiquei lá no terminal, no ponto do 338, que é a linha do shopping Dom Pedro. Enquanto o ônibus não passava, eu me distraia com Jeff Buckley nos ouvidos e um livro biográfico sobre Giácomo Casanova, o “muleque piranha”, “putón”, de Viena, na era do Iluminismo. O ônibus não chegava, mas lá na frente vinha vindo o 300, então apertei o passo e subi nele. Fiquei de pé no ônibus, guardei o livro na bolsa, e pensei que, apesar de ser segunda-feira, eu não sei bem o motivo, mas estava muito feliz, mesmo naquele momento, apesar de estar ouvindo “We all fall in love sometimes”, interpretada por Jeff, cuja letra, escrita por Elton John, é de derrubar muros, eu estava lá com um sorriso no rosto, talvez um sorriso sádico, mas um sorriso.

We all fall in love sometimes
The full moon’s bright
And starlight filled the evening
We wrote it and I played it…
Duas músicas depois, eu estava no shopping Dom Pedro. E eu ingenuamente imaginei que por ser segunda-feira, e a galera ainda não ter recebido, o shopping não estaria cheio…ohhhh engano meu!!!O shopping estava lotado!Pode ser que todo mundo tenha tido o mesmo pensamento meu, foi aí que eu lembrei o detalhe do recesso escolar. Mas isso não era problema, de vez em quando eu gosto de ver pessoas…Entrei pela entrada das águas, pois é mais próxima do cinema. De longe avistei a fila quilométrica do cinema, mas estava de bom humor, e eu tinha um livro, eu poderia ler ele na fila, enquanto esperava. Chegando no cinema, entrei na fila daqueles terminais de compra com cartão. A fila estava enorme, mas não tão grande quanto a fila do caixa com atendentes. Entrei na fila e tirei o livro da bolsa. Tinha uma moça na minha frente que a princípio estava sozinha. De repente chegam as amigas dela e a cabeçuda deixa elas entrarem na frente. A vontade de mandar as duas vadias entrarem na fila lá atrás era grande, mas mantive meus nervos em ordem. Depois de cerca de 20 páginas lidas, estava perto do meu objetivo, que no momento era comprar o ingresso. Quando chegou na hora das vadias fura-fila, elas eram muito burras e não perceberam que elas teriam que inserir o cartão ao invés de passar o cartão, tendo em vista que era um cartão com chip. Então eu com toda a paciência do mundo:
O cartão de vocês é chipado, vocês terão de inserir o cartão ao invés de usar a tarja magnética…
 Enfim, chegou a minha vez e as 3 vadias anencéfalas, mesmo eu tendo passado as manhas, elas insistiram passar a tarja. Eu comprei meu ingresso, e ouvi a vadia nº 02 falar pra vadia nº03: “Aiiiii a moça conseguiu…ACHO que tem que inserir mesmo.” Dei risada, quase dei um troféu jóinha de “parabéns, você finalmente compreendeu”, e segui meu rumo.
Sobre a escolha do filme, eu iria assistir “Sombras da Noite”, mas na real não estava com muito saco, até porque o Depp está fazendo alguns papéis muito repetitivos. Outro fator também, além disso, é que a sessão de “Sombras da Noite” só teria 21h45, e eu sou uma pessoa pobre que depende de ônibus para voltar pra casa. Tendo em vista que o última linha do Vila Santa Isabel sai do terminal as 0h40, eu resolvi não arriscar, até porque eu não teria dinheiro para o táxi. O último dinheiro que eu tive, além da entrada para o cinema, eu gastei no Bar do Zé com cerveja Murph’s e depois com o táxi, porque resolvi não arriscar voltar 04h00 da manhã de domingo, semi-embriagada, a pé para casa. Como eu digo, pobre é uma desgraça, mas eu sou limpinha e feliz.
Pobre só pensa que existe: “Penso, logo existo!”
Estava olhando a programação do cinema e vi que estava passando “Para Roma com Amor”, um filme de Woody Allen. Olhei no elenco, só tinha gente foda, o filme é em italiano e tinha minha musa Penélope Cruz, que simplemente acho a mulher mais linda do universo:
Na pele de Maria Elena, em Vicky Christina Barcelona, também de Woody Allen. Ela ganhou o Oscar pela atuação.

Depois da escolha do filme, cuja sessão começava as 21h15, como era 20h00 ainda, resolvi dar uma voltinha. Pela primeira vez na história deste país, entrei numa livraria e não comprei nada, mas isso aconteceu porque realmente não tinha dinheiro, mas tinha vale-refeição. Meu vale-refeição é até que versátil, pois às vezes ele se transforma em vale-álcool, poderia muito bem servir como “vale-livros”. Levando em conta que uma vez ouvi uma história que tinha um cabeleireiro que aceitava vale-refeição ou vale – alimentação como pagamento de escovas progressivas/definitivas, aquelas que alisam o cabelo da mulherada. É cada uma que se vê por aí…da hora a vida não é?

Então, durante o meu tour, passei a pesquisar(pobre pesquisa) o melhor preço da minha nova loucura (na verdade vou renovar uma atividade que antes já fazia). A nova loucura é voltar a andar de patins street. Eu fazia isso muito bem, descia a toda velocidade, andava muito de patins dos meus 09 aos 15 anos, e eu andava muito bem. Só caí uma vez, quando tinha 10 anos, e foi uma queda bem feia, pois estava a toda velocidade numa ladeira, e no meio do caminho tinha uma pedra…não preciso terminar a história. Me lembro até hoje que naquela época era aqueles merthiolate que tinha álcool na composição. Só sei que quando relaram aquela “coisa antibactericida” nos meus machucados, eu vi Jesus Cristo, Chuck Norris, Maomé…ardeu muito…muito. Os patins que eu quero, que são profissionais para ruas mesmos, daquelas meio termo igual aqui em Barão Geraldo, ora com buraco, ora sem, terrenos acidentados. A faixa de preço está a partir de 280,00. O que eu quero, está 429,00, que é um Rollerblade, um dos melhores para patinação street. Como sempre gostei de andar de patins, e adoro caminhar por aí, estou pensando em voltar nessa vibe. Além de ser extremamente divertido, ajuda a manter a forma, pois é praticamente como estivesse correndo. Tenho pavor de academia, gosto de interação, ar livre, mente, equiçíbrio, expressão, arte. Por isso gosto de dança, yoga, caminhada, até mesmo uma corridinha no Taquaral, acho muito interessante. Eu sou uma pessoa hiperativa, então acredito que essa interação seja um fator para amenizar essa minha “aceleração”. Quando eu danço, por exemplo, tenho um sono mais tranquilo.

Depois de pesquisar patins, nas lojas do gênero, senti meu estômago roncar loucamente. Eu recebi meu vale, logo, como todo pobre que se preze, fui fazer um rango. Shopping lotado, queria um lugar para poder comer sossegada. Vi que lá perto do restaurante “Fogão Mineiro”, tinham várias mesas vazias. Olhei para o restaurante mineiro e pensei: bom, uma comidinha mineira vai bem. Peguei brócolis ao molho e queijo, abóbrinha recheada, batata doce frita, uma salada aleatória, suco de laranja e de sobremesa, manga em pedaços e mousse de limão. Fui pesar e a brincadeira não saiu lá muito agradável, deu 32,00, mas eu esperava que estivesse tudo gostoso. Peguei um copo com bastante gelo, e para a minha infelicidade, ao sair com a bandeja, o desgraçado tombou e foi gelo pra tudo quanto é lado(ok, exagerei um pouco, nem foi tanto gelo assim), o suficiente pra que eu fique envergonhada e todo mundo olhe para minha cara:

Você ri né?Você acha engraçado?Tomara que escorregue no gelo e caia de boca no chão”

Fiquei meio sem reação, mas o rapaz, muito simpático aos olhos do caixa do restaurante me ajudou e me deu um copo novo com gelo, e disse “Não se preocupe moça, acontece…volte sempre”. Ainda envergonhada, eu procurei uma mesa num cantinho, olhando o chão para não pisar em um gelo que eu derrubei e cair de pernas de ar, afinal estava de vestido e salto alto, não seria uma cena muito bonita, apesar de eu estar em forma, não gostaria de ficar exibindo atributos por aí ou a cena ir para alguma vídeo-cassetadas promovida no youtube. Arrumei uma mesa perto do quiosque de cachorro quente, meio escondida, mas dava para observar o movimento sem ter que necessariamente estar no meio da multidão. A comida não estava boa para justificar o preço, mas a sobremesa estava uma delícia. A mistura manga + mousse de limão foi uma boa idéia. A mulher da limpeza levou minha bandeja embora, e lá tinha os talheres que separei para a sobremesa, pois não daria para cortar a manga com aquela colher de plástico, mas tive que me virar. No primeiro pedaço de manga, foi tudo ok, mas no segundo a colher quebrou. Tive que deixar um pedaço da manga lá. Descobri um outro detalhe enquanto esperava o tempo passar, sentada na mesinha, observando o movimento. No shopping Dom Pedro tem uma capela!Sim!Ela fica escondida num corredor próximo aos banheiros, atrás do quiosque de cachorro quente. Na minha próxima ida, pretendo ir lá para ver como que é. Depois de me frustrar com a quebra da colher de sobremesa, fui ao banheiro escovar os dentes, pois uso um maldito e nada esteticamente bonito aparelho ortodôntico, que é um verdadeiro pára-raio de comida. Logo, desenvolvi o tique-nervoso de sempre escovar os dentes depois de comer qualquer coisa., que seja uma bala, por exemplo, pois sempre se tem a sensação que tem algo grudado, mas são apenas as malditas borrachinhas.Manias…manias condicionadas por uma situação, um mal necessário. Mas em breve vou tirar os aparelhos, pelo menos é o que eu acredito. Olhei o relógio, eram 21h00, resolvi ir para minha sessão. Cheguei lá, nem olharam meu ingresso, entrei direto na sala do cinema. Eu achava que pelo número de pessoas na fila do cinema, a sessão teria um número razoável de espectadores…só tinha eu e mais dois forever alone e três casais. Mas isso não foi motivo nenhum para me sentir uma frustrada, aliás, acho maravilhoso poder curtir um filme sozinha, mas não vou negar que ter alguém para segurar sua mão ou dar uns beijinhos em momentos propícios é bem interessante, principalmente em comédias românticas do Woody Allen que é um romance mais real do que os outros filmes água com açúcar. O fime foi muito bom!Me diverti bastante, o filme é ótimo, garante boas risadas. Eu quase me matei de rir nas cenas do cantor de ópera. Recomendo esse filme para quem tem bom gosto. Eu sai da sessão bastante satisfeita e com um sorriso no rosto, e rindo assim, de repente, ao lembrar das cenas cômicas. Procurei a saída das colinas, olhei o relógio, 23h30, precisava correr para não perder o ônibus. Cheguei no ponto de ônibus onde passam as linhas para Barão Geraldo. Chegando lá, fui obrigada a aceitar uma amostra de perfume, desta vez de churrasquinho de gato. Mas não me incomodei, cheguei em casa 00h20 e tomei um banho pré-soninho que não chegava. Enfim, fui dormir, a segunda-feira foi muito agradável, e o amanhã é outro dia. Como eu sempre digo, a vida pode ser muito ingrata, mas basta acariciá-la e não querer brigar com o Tempo. As coisas então tomam o seu rumo, e tudo se acerta. Aproveite o dia!Carpe Diem!

E para encerrar, o trailer do filme e músicas italianas romantiquinhas…sim é gay…eu sei, mas eu confesso que muitas vezes sou uma mulher sentimental e gosto de romantismo…

l’Aurora: Eros Ramazzotti, marcou meus 12-14 anos, por causa do coral da Fundação Romi, comecei a garimpar músicas em italiano por aí. O meu pai tem o cd com essa música, e este cd tocou tanto que quase “furou no meio”. Encontrei esse vídeo da apresentação dele ao vivo. Ficou muito bom, mas muito bom. O cara tem uma bela voz ao vivo também, sem contar que italiano é uma língua muito bonita, e vou parar por aqui ao descrever essa música, antes que eu fique EMO…

Luna: Alessandro Safina. Caramba!!!Eu assisti aquela novela “O Clone” e pirei nessa música. É brega bagaralho, fim de carreira, mas eu gsoto dessa música. ahahahhahahahahaahaha

Nessun Dorma: adoro essa música, e ela já me arrancou lágrimas. No seriado “Six Feet Under” tem um episódio que fazem um réquiem no velório, e um cara canta essa música. Me arrepiei.

Volare: uma versão flamenca, com toques de salsa, letra em espanhol e o refrão em italiano. Pirei nessa versão. Fiquei cantando e dançando isso enquanto fazia uma faxina. E…ahhhh…o violão espanhol, o ritmo quente…ME GUSTA!!!

CARPE DIEM!

 

“Oh baby, when I feel this way…”

A minute seems like a lifetime
Oh baby, when I feel this day

Olha só esses lençóis brancos nessa cama de solteiro,
Impecáveis e imaculados nesse quarto tão vazio,
Eu ando dormindo num velho sofá, com um livro a tiracolo,
Apenas adormeço escutando o tic-tac voar pela noite,
Apenas um minuto para balbuciar algumas palavras sensatas,
Mas eu sinto que esse tempo congelou tudo ao redor,não há mais palavras,
E quando eu me sinto assim, eu apenas dou um sorriso sarcástico,
Porque o que eu tinha para dizer já foi dito, mas eu repito,
Eu repito quando eu me sinto assim…quando eu me sinto assim,
Meus pensamentos não tem chão…sou eu que escorrego nas horas,
Tic-Tac, Tic-tac…derretendo, dançando,escorrendo,bebendo…sozinha.

Eu estou retomando minha sensatez minuto a minuto,
Mas Amor, é muito difícil pra mim, então eu desisto,
Há muitas coisas a serem ditas, e quando eu me sinto assim,
Estou me embriagando com um vinho barato, sentada num velho sofá,
E então eu acordo e ainda estou com meus sapatos e roupas
Os dias escorregam devagar em minhas emoções, é assim que eu me sinto,
E quando eu me sinto dessa forma, não pergunte porquê, apenas aceite
Apenas aceite os meus lençóis sem vincos, esticados de forma militar,
Por quê?Por quê ando dormindo em um velho sofá, e quando eu acordo,
Quando eu acordo quero apenas voltar a dormir novo, lá onde as horas não passam,
Lá onde estou a recolher roupas amassadas pelo chão, duas taças em cima da mesa,
E pela manhã eu lhe observo do sofá com papéis e caneta, está dormindo agora,
Nessa cama com lençóis amassados…eu posso ouvir sua respiração devagar.
Nessa cama, com lençóis pecaminosos há provas de um crime…

Sittin lookin at the clock
Oh time moves so slow
I’ve been watchin for the hands to move
Until I just can’t look no more

Horas e horas de trabalho todos os dias, talvez eu escreva algo,
Ou talvez eu apenas quero ficar com olhos bem abertos,
Porque cada vez que eu sonho, é como se todas as manhãs,
Durassem uma eternidade, e quando chega a noite,
Há um raio de sol que me aquece, porque durante o dia,
Durante o dia eu tento em vão esquecer aquele que me tira o sono,
E então as horas seguem rolando como as pedras de uma montanha errante,
Durante um terremoto noturno eu ando descalço pelo quarto,
Talvez eu me deite novamente, e de olhos bem fechados, eu peço
Peço para não acordar mais, eu peço por lençóis trocados,
Sapatos, roupas, vergonha, medo, ansiedade, sensatez,
Peço para que tudo isso esteja atirado no chão,
E que eu continue escorregando, deslizando,sem abrir os olhos,
Porque toda vez que eu fecho meus olhos embriagados,
Toda vez que eu me sinto deste jeito, vem um Incubus me visitar…

A velha Johanne

A Velha Johanne está sentada no banco,
Lendo seu velho jornal de 1955.
Com o velho Seamus deitado ao seus pés,
Nos seus olhos há um brilho morto
O médico lhe avisou da catarata,
E das suas veias pulsam o Tic-tac,

Tic-tac , Tic-Tac
O cuco canta,
O Silêncio mata,
A Saudade cura
O Amor derruba!
Tic-tac, Tic-tac

Velha Johanne observa um quadro,
Nas úmidas paredes rachadas do seu quarto,
Cheios de fotografias velhas e outras boas lembranças,
Deus levou seu marido e depois seu filho
O que restou agora Velha Johanne?

Anoiteceu e Velha Johanne se prepara pra deitar,
Todas as luzes da casa estão acesas,
Ela está sozinha agora…Toda noite Velha Johanne chora!
Apenas o tempo ameniza nossas dores! – disse Mamãe
Faz 15 anos e eu nunca me esqueci! – disse Velha Johanne!

Velha Johanne está sonhando agora,
Ela está fazendo o jantar da ceia de Natal.
Seu filho adora Arroz a Grega, seu marido também
Eles beijam cada um, um lado do seu rosto,
E assim dorme a Velha Johanne…
Com os olhos bem abertos e um sorriso nos lábios!

Tic-Tac – Tic-Tac…

Sobre o Efêmero

O que podemos falar sobre o efêmero?Fugaz, passageiro,momentâneo?É aquela paixonite de adolescente no auge de seus quinze anos achando que encontrou um príncipe encantado e 15 dias depois nos “desapaixonamos porque o príncipe virou sapo“. É aquela visão rápida mas que marca a gente pra sempre?É aquele sono que logo vai embora quando uma pessoa interessante aparece para conversar contigo?

Há dias e dias que eu ando pensando nas coisas fugazes da vida. É engraçado quantas vezes nos meus 24 anos, passei por situações que as pessoas se pegam falando para nós aquela típica frase: “Fica calma, isso passa, logo logo você se esquece!”. Quando eu era criança, um dia estava voltando da escola e encontrei uma pomba no chão. Não era aqueles pombos horríveis, sabe?Era uma pomba rolinha e aparentemente estava deitada no chão. Eu, na minha alegria e inocência  de criança achei que a pomba havia se machucado e eu queria salvar ela. Peguei um gravetinho e comecei a cutucar o pássaro no chão. Ela não se mexia, e eu achei estranho. Virei o bicho de barriga pra cima e vi que tinham vermes devorando sua barriga. Foi a minha primeira experiência que eu tomei consciência que as coisas vivas morrem. Elas morrem e podem ser devoradas, daquela forma, e uma menina piolhenta(eu estava fazendo tratamento contra piolhos na época…) ficaria chafurdando o corpinho putrefato e ficaria alguns minutos entendendo que porra era aquela. Eu ficava me perguntando o que aconteceu com aquele bichinho. Cheguei em casa e perguntei para minha mãe porque tinha “bigatos” na barriga daquela pombinha tão bonitinha. Bem, ela disse: “-Ela morreu!Isso acontece com todo mundo!”. Minha mãe adotiva não tinha tanto tato para explicar as coisas. Na época, comecei a assistir os primeiros filmes de terror. Um deles foi um da “saga” Sexta-Feira 13. Quando abrem o caixão do meu querido Jason Voorhees, aparecem novamente os malditos vermes rastejando na cara dele junto com baratas e besouros cenográficos de gosto bem duvidoso.  Sendo assim, me lembro que entrei em pânico na mesma proporção de quando assisti “A Colheita Maldita” achando que toda espécie de milharal da face do nosso planetinha acolhia uma espécie de demônio que poderia arrancar sua espinha dorsal pela cabeça. Imagina uma criança fazendo associações: “Um dia eu vou morrer, e vou ser devorada. Eu não quero morrer, eu não quero vermes me comendo”. Sei que fiquei uns 2 dias pensando só nisso. Mas, como os adultos dizem, “isso passa”. Isso passou e eu esqueci mesmo. Nem liguei mais para as coisas mortas, pois os adultos me disseram que as pessoas podem ser cremadas, então esse fato me tirou todo aquele pavor. Isso foi um exemplo de algo efêmero. Foi uma visão de uma pomba morta que me deixou em pânico durante 2 dois e depois eu nem me lembrava mais, até que um dia uma coisa que todo mundo tem, chamada memórias cognitivas de curto prazo, no caso, o tal do efêmero, momentâneo, passageiro, transitório.  Foi um episódio de curto prazo, mas é algo que eu voltei a me recordar quando tinha 15 anos,pois eu vi uma criança na praça central de Santa Bárbara d’Oeste cutucando a pomba morta com um graveto de algodão-doce. É engraçado que foi a partir desta idade que eu comecei a ter flashes de memórias perdidas. Sabe?Aquelas memórias banais, que a gente não dava importância no começo, ou que nos deu um trauma leve, porém passageiro, ou simplesmente nem nos lembrávamos mais. Coisas que eu via e não conseguia entender o que era exatamente, e de repente aquilo volta, em decorrência de algo no nosso cotidiano nos trazer de volta qualquer tipo de acontecimento correlato.

Andei pensando esses dias, sobre essas coisas rápidas, como o simples fato de uma pessoa olhar pra você num metrô lotado e sorrir numa plena segunda-feira. Hoje uma senhora bem idosa olhou pra mim e me deu um sorriso, e eu retribui. No meio de várias pessoas mal-humoradas porque era segunda-feira e mal esperavam a sexta-feira chegar, uma pessoa que lhe retribui ou distribui um sorriso, é algo marcante não é?Ela foi embora, desceu na estação da Saúde e eu vi ela bem devagarzinho com sua bengala em direção da escada rolante. Aquele sorriso durou frações de segundo, mas é algo que vou conservar comigo, assim como a visão de meu pai, meus irmãos menores e minha mãe na beira do mar. Eu estava sentada no guarda-sol observando eles de longe. E minha irmãzinha de 10 meses se descobrindo nas marolinhas do mar e sorrindo mostrando seus 2 dentinhos inferiores. Quanto tempo durou isso?10 minutos?Sim, foi muito rápido, mas daqui alguns anos, naquele mesmo local, aquilo que foi efêmero se transformará em saudade e numa lembrança permanente. Quem disse que tudo isso é passageiro?