Este blog vai morrer

Sim, na verdade ele já morreu. Mas eu estou em outro projeto, muito melhor que este. Gosta do que leu aqui? Acompanhe o A Tétrica Narrativa ou A Narrativa do Absurdo.

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Um conto sobre xícaras

Um conto sobre xícaras

Hoje eu vi um homem empurrando uma bicicleta amarela toda enferrujada. Seria algo banal, se não fosse pelo fato dele me lembrar o Freddy Mercury. Ele amarrou a bicicleta velha no poste e entrou na padaria. Pediu um café e um pão. Não colocou açúcar. Seus gestos e expressões no rosto, lembra a feição triste de meu velho pai que sorri apenas pelo canto dos olhos. Baixei os meus. Tomei um gole do meu café expresso duplo, extra-forte e sem açúcar. Saudades do café de meu pai e os sermões que muitas vezes me fizeram chorar.

Um homem grisalho e barrigudo observa a mulher do balcão espremer laranjas. Ele tem olhos de homem apaixonado, pois todos os dias ele senta e a observa. Não tem olhar de doido psicopata, ele baixa os olhos timidamente quando a mulher do balcão devolve o olhar. Eu fico quieta, pensando na espuma do meu café. Alterno o olhar para a janela que dá para calçada: estranha… Estranha magnificência dos dias. As pessoas passam pela larga calçada, algumas esbanjam risadas, outras caminham soturnas, olhando para o chão, como se elas pegassem toda a tristeza delas e as colocasse à venda, num leilão luxuoso. Sempre há alguém disposto à pagar pelas nossas tristezas…

Algumas pessoas, andam com as mãos sempre dentro dos bolsos. Talvez elas tenham colocado todas as crenças delas dentro deles, por isso estão sempre aquecendo as mãos na tentativa sórdida de aquecê-las em um pouco de fé. Às vezes, a procura pelos bolsos cheios de crenças acaba desabando. As crenças em sua maioria são suicidas ou homicidas: ou as matamos ou elas se matam arremesssando-se do décimo quinto andar do nosso prédio de convicções. Mas temos esperança. Tal como moedas que caem ao chão, juntamos tudo novamente, pois nossas crenças talvez sejam tão singelas quanto uma tempestade e no meio desta, temos 93 milhões de milhas para percorrer. E nunca acaba, nunca termina. Sempre colhemos os fragmentos aqui e ali das nossas crenças despedaçadas. É um vitral forte e poderoso na janela de nossa capela chamada existência.

Do outro lado da rua, estranhos e estranhas queimam-se no calor das manhãs, transbordando em suor, preguiça e cansaço. Entre fumaças e cigarros dos velhos da entrada da padaria, deduzi que ali ocorreu uma piada muito engraçada. Uma maldita piada ao qual colocamos num prato, temperamos e comemos no café, almoço e janta. É a nossa dose de piada diária, aquilo ao qual você ama e acredita. Nesse tempo todo nunca paramos de rir. Percebeu? Está rindo agora? Qual é a sua maldita piada?

“Ao final da tarde, há prenúncio de chuva”.

Enquanto eu termino o meu café, a mulher sempre bonita e impecável do tempo fala na tv que é para eu tomar cuidado. Não importa. Eu não me importo. Estou correndo atrás dos pássaros. Eles costumam se abrigar da chuva em buracos de árvores frondosas ou buracos nefastos nos telhados das casas. Mas eu tenho medo desses lugares comuns. Eu me abrigo na minha gaiola. Ás vezes eu saio, assim, na surdina, tento voar para bem longe, e pousar nos seus ombros. Mas apenas tento. Não sei se existe palha o suficiente para construir meu ninho.

Fim dos disparates. O café chegou ao fim. Sobrou apenas algumas borras decantadas naquele universo branco ainda morno para quase frio da peculiar xícara de cerâmica. Lá fora, todos os dias são como xícaras de café. Quantas xícaras tu quebraste hoje meu amigo?

 

Navio e armas de caça

– Não hoje. Hoje não é o dia de acordar de ressaca e ir trabalhar. Hoje é dia de fugir da cidade.

 Olhava lá embaixo e via a noite em volúpia. Não tinha medo de cair da janela, sabia que não era um gato com sete vidas, mas gostaria de sentir todo o torpor de uma queda. Seria torpor? Qual a sensação de cair? Seria como os sonhos? Ele é apenas um garotinho explosivo, bebendo para morrer, procurando os sonhos perambulando na cara de agonia dos outros amigos bêbados no sofá e em outros cantos da casa. Tropeçando em garrafas e vômito, encontrou a porta para dar o fora. Desceu as escadas cambaleando, com um indefectível cigarro mentolado na boca.

 -Coisa de mulher… Cigarros mentolados, cigarros de cereja…

Mas ele precisava de cigarro. Suzy fumava cigarros Black sabor cereja. E apenas fazia pose, segurando uma taça cheia de vinho barato. Mas era bonito, seus trejeitos de musa dos anos vinte, com sua piteira preta, talvez faltasse as luvas pretas…

 Chegou na rua, olhou no horizonte. As luzes amareladas penduradas no poste, mostravam um longo e reto caminho. Talvez, quem sabe, isso o levaria até Deus, aquele velho tolo.

 -Não posso parar agora, não posso… Existe algo na estrada me esperando.

 E andava, pisando em merda de cachorro, chutando lixo. Cantarolava canções incompletas e sem ritmo. Queria romper o silêncio. Os vizinhos xingavam, atiravam lixo na sua cabeça. Ele, de repente silenciou. Era preciso o silêncio, para encontrar as respostas que tanto precisava. O silêncio precisava ser ouvido… Escutou o barulho do líquido marrom balançando na garrafa… Acendeu outro cigarro, tomou mais um gole do velho Jack, que tanto lhe dava razão… Razão… Olhou pro céu. Pensou que as estrelas poderiam cair, de graça, um vacilo sabe? Talvez encher a rua de pequenos pedaços valiosos.

-Mas papai disse que estrelas são apenas brilho do passado. Papai bobo. Bobo… Morto… Papai Morto.

 Perdeu sua fé, elas estavam em slides do pastor da igreja. Queria encontrar o oceano, pegar um barco e desaparecer.

 -Barco não… Não quero um barco, quero um navio…

O oceano era agora, o que ele precisava para o seu dia. Queria ter um navio, igual ao que estava na vitrine da loja, ao qual parou. –

-Um navio… Papai tinha um desses, em cima da mesa, talhado na madeira.

O que ele escutava era apenas o som da sua própria voz, e o vento, fazendo papel de jornal voar pela rua, passar e enroscar pelas pernas.

Um navio… Quanto custava um navio? O da loja custava setenta reais. Mas ele não queria um navio dentro da garrafa, ou daqueles que enfeitam mesas… Queria um de verdade. Continuou andando na rua reta e longa…

-Não posso parar agora, não posso, talvez eu encontre Deus no final da estrada, eu não posso parar agora. Preciso de um oceano, profundo, tão profundo quanto meus dias.

Goles e goles do velho Jack Daniels junto a passos cambaleantes. Acabou os cigarros. Parou e sentou na sarjeta. Pensava… Pensava na temporada de caça. Quando menino, caçava capivaras com o pai.

 -Papai tinha uma espingarda…

 Ele apenas acompanhava, com sua arma de chumbinho. Era apenas um garotinho, com sonhos de pegar em armas, romper com o silêncio, barulho de tiros, bicho agonizando, queria ter o cheiro de ferrugem escarlate nas roupas.

-Você não aguentaria o tranco da espingarda… Você não aguentaria o tranco da espingarda. Você é apenas um garotinho franzino… – diziam as vozes paternas susurrando na cabeça…

 Vários tiros depois e as capivaras apareciam ensanguentadas. Ainda lembrava-se do cheiro de ferrugem do sangue coagulado na camisa do pai. Eram ícones de pesadelos escarlate. Nas noites do acampamento de caça, ele apenas queria fugir. E hoje, ele bebe até a morte. Hoje é o seu dia de rei, em busca de um navio. Ele era apenas um garotinho que queria uma arma de caça e algumas capivaras mortas pelos seus tiros e risos de sadismo.

-Quando eu terminar de percorrer o oceano, eu vou vender meu navio lotado de armas de caça. Vou dar o dinheiro para um abrigo de criancinhas. A temporada de caça acabou… Os meninos não colocam as mãos em armas de caça. Eles não sonham com navios, assim como eu… Como vou vender meu navio e minhas armas de caça?

 Andou mais alguns metros, encontrou um morador de rua tentando dormir. Ofereceu um gole de uísque. Sentou ao lado do velho, começaram a conversar como se fossem amigos de longa data. Acabou os cigarros, acabou a bebida. Restam-lhe boca seca, visão entorpecida e a praia a poucos metros.

– Hey amigo, neste longo caminho, tentei encontrar Deus e um navio. Deus não apareceu,mas a praia está ali, vou procurar meu navio e encher o convés dele de armas de caça. Se você tivesse dinheiro, você compraria meu navio e minhas armas?

O velho balançou a cabeça, talvez aquilo seja uma afirmação.

– Adeus meu velho… E se as estrelas caírem de graça, guarde-as e compre um barco. Não… Compre um navio, cheio de armas o que lhe sobrar, compre um pouco de sorte. Qual o preço que você pode pagar por ela? Deve custar um bocado de poeira de estrelas tolas. Eu não posso parar agora, eu tenho uma coisa me esperando ao longo da estrada.

 Ele procurou um oceano profundo, encontrou uma maneira triste de dizer que naqueles tempos ele era um escravo dos próprios sentimentos. Talvez, seus sonhos estejam enterrados na areia. Talvez ele tenha encontrado Deus no meio do caminho. Mas, pra ele, tudo era apenas ilusão, tal como as armas de caça e os navios. A ilusão nunca teve um gosto tão salgado…

Se eu fosse jovem, fugiria desta cidade
Enterraria meus sonhos debaixo da terra (“Elephant Gun”, Beirut)

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Estoicismo de coisas monásticas e mundanas

I

Santiago estava tomando um café. Era uma noite quente, 35 graus às 20h00. Estava esperando o funcionário novo chegar. Um aprendiz. De pouco sabia da vida, mas da Morte sabia que ele não sabia era nada. A campainha tocou. Olhou pelo circuito, o rapaz miúdo, tacanho, sem nenhum estereótipo aparente. Estava mais pra um nerd, pensando bem, na segunda análise. Tomou um gole lento e saboroso do café, abriu a porta, esboçou um sorriso,

-Boa Noite Tadeu! Tudo bem? Está preparado?

-Boa Noite Senhor Santiago! Acredito que sim… Vai ser um desafio e tanto não é? Já temos algo? – disse o guri, com ares de surpresa, misturada com curiosidade e aquela pitada de medo do desconhecido, disfarçado com a fala rápida, afobada e insegura.

— Oras! Que entusiasmo! Aceitas um café, antes de ir pra sala de preparo? E pode me chamar de Santiago, tenho 35 anos apenas. Sou um jovem adulto, digamos assim!

Tadeu sentou-se na poltrona, olhou para o quadro na parede: “Ajudando na hora da partida”. Um quadro bonito, retratando um campo de lírios brancos.

— Bem melhor que crisântemos não é? – disse Santiago, estendendo o café.

— Crisântemos? Nem sabia o nome dessa flor. Pra mim, é tudo flor. Minha mãe gosta de plantas. Eu gosto de cactos. Não precisam de água, sobrevivem comigo.

—Crisântemos são bonitos, mas são flores tristes. Uma flor clichê. Fico feliz quando a coroa fúnebre não é de crisântemos. A Morte poderia ser menos clichê. Mas eu entendo: o clichê custa-nos mais barato.

—Vamos, vou te mostrar o laboratório. Coloque essas roupas de proteção, e não se esqueça das luvas e da máscara. O cheiro de formol é forte.

Desceram as escadas, na casa do fundo dava para uma garagem com 2 carros fúnebres e 2 furgões.

— Quando vamos no IML ou hospitais retirar um corpo, utilizamos as vans. Elas tem de ser higienizadas todos os dias, de preferência após a retirada do corpo. Se o cadáver estiver em decomposição, a desinfecção deve ser imediata, senão o fedor fica, e demora muito tempo pra tirar ou, nunca sai.

— Senhor, opa, Santiago, o cheiro é tão ruim assim?

— Acredite amigo. Quando sentir nunca mais vai esquecer. Ele gruda em você, é persistente. Parece atá que nossa alma fica com isso. Mas sai, com um bom banho tomado, um pouco de borra de café ou limão.

Entraram numa sala de tamanho mediano, com três macas de anatomia, uma bancada com aparelhos de infusão, uma mesa móvel com bisturi, dissecadores, aspirador nasal, tesouras, agulha e linha, um armário com produtos químicos e um rádio, que tocava baixinho uma frequência de músicas antigas. Tadeu ficou imóvel, olhando aquele ambiente branco, as canaletas de escoamento de material biológico, o líquido na bomba de infusão e sobretudo, o cadáver coberto na maca central.

— Venha, vamos preparar este corpo. – Disse Santiago, colocando um avental por cima da roupa de proteção. Tome, vista também. Vamos começar devagar.

Ainda meio paralisado, mas voltando a si, olhou para o corpo disposto na maca. Era um homem, aparentemente 45 anos.

— Este é o Fabiano. Vítima de bala perdida. Morava na região do Paiol. Infelizmente estava na rua quando começou o tiroteio entre facções rivais. A bala perfurou o pulmão, ele já tinha problema de enfisema pulmonar. A família deixou a roupa e os sapatos não quer que tire a barba, pois ele amava ela e tinha um cuidado especial com a mesma. Foi a única exigência, querem um velório simples, caixão compensado. Nada muito luxuoso.

—Vamos fazer um processo para higienização e conservação do corpo. Chama-se Tanatopraxia. Faremos infusão de soluções de formol através de uma incisão perto da clavícula, para pegarmos a carótida e a jugular e vamos introduzir uma cânula de infusão. Faremos também aspiração de cavidades abdominal e intracraniana. Intracraniana a partir das fossas nasais. Parece assustador né? Mas isso traz maior segurança para o velório e consequentemente um pouco de conforto para a família.

— Parece difícil, na verdade. O que eu vou fazer?

— Você ai massagear o corpo para auxiliar no dreno do sangue. Depois do processo, vai me ajudar na lavagem do corpo e tamponamento, para prevenir qualquer tipo de vazamento. Hoje, no processo mais complexo, vai observar. Aos poucos pegarás o jeito.

O corte necroscópico desenhava um Y no corpo. Um cheiro forte e incomum ao Tadeu, junto com o cheiro de solução de formol das bombas injetoras o faziam respirar devagar, mas o coração batia acelerado.

— Está pensando quem está aí?

— Oi? – disse Tadeu, num pulo.

— Sabe, eu sempre trabalhei sozinho. Sem exceções, desde o acolhimento da família, a venda, a preparação do corpo, o funeral: em todos esses anos, me deparo com essa pergunta.

— Não entendi, que pergunta?

— Conheço esse olhar meu caro. Você está se perguntando: “Quem realmente era ele? Será que viveu intensamente?” – disse, Santiago, com um olhar de quem sabia e viveu tudo aquilo, pois dia após dia, a Morte sempre bate na sua porta.

— Pois é… Desculpa, está certo. Só não queria demonstrar minha perplexidade. Quero ser forte, e fazer meu trabalho. Não quero que me aches um maricas. Mas isso… – disse ele massageando as mãos rígidas do cadáver – É o momento mais sórdido ao qual eu passei. Minha pergunta: Seria ele, essa pessoa boa ou má? Como lidar com isso? Dia a dia? Poderia ser meu pai, homem bom, de honra. Poderia ser um uma pessoa cruel, aqui nessa mesa!

— Independente de tudo, você sempre realizará o seu trabalho como se fosse uma obra de arte. Você vai lapidá-la. Se a pessoa era má, com o seu trabalho, você irá deixá-la muito boa.

— É complexo!

— É complexo meu caro, mas, ao mesmo tempo, além disso, filosófico, quase metafísico.

— Metafísico? Por conta dos questionamento do “além” da vida?

— Muito mais do que isso. Aqui nesta mesa, esse corpo frio é resultado de milhões e milhões de anos de evolução.

— Uma evolução explicada pela ciência, mas e a alma? Eu acredito que exista uma alma, mesmo ela a ciência não tendo explicações para o fato.

— E temos o que intriga os filósofos desde tempos antigos: a ótica do bem e do mal. O que será que este homem foi: bom ou mal?

II

— Sarah, já lestes “Admirável Mundo Novo”? – disse Hélio, enquanto tomava um gole de cerveja escura.

— Já sim, por que? – olhei pra ele enquanto colocava o molho de receita secreta, num anel de cebola de esfera perfeita.

— Lembra da cena, do enforcado, balançando, demasiadamente humano?

— Sim! Cena extremamente perturbadora. Fiquei dias pensando no corpo, balançando tal como um pêndulo e o quanto somos robóticos num mundo ao qual, deveríamos ser selvagens.

— Enquanto houver sensibilidade entre nós, estamos bem. Quando encararmos a vida como pêndulos, vamos terminar como sobreviventes na luta pela vida, cada qual a sua maneira, porque no fundo, a vida sempre foi isso mesmo: SOBREVIVER.

E então Hélio deu aquele sorriso triste de Pierrot: digno de uma cena tragicômica da commedia dell’arte, apertando os olhos daquele jeito que eu tanto amava.

Foi a última vez que eu vi Hélio.

Eu, Sarah Almeida, 28 anos, tal como um pêndulo, dei voltas, Fui uma bússola, mas por vezes vivi quase sem rumo. Meu corpo e mente foram ao sul, norte, nordeste. Esquerda, direita, centro. Ele se deteve no sudeste, numa São Paulo louca e apressada, e meus pés apontaram para o sol que nasce de frente pra minha janela, quando meu corpo parou de convulsionar de desespero.

AGORA,

Há uma fileira de formigas negras entrando e saindo pelas minhas narinas. Sinto o fervilhar de larvas brancas e macias dançando em meu ouvido esquerdo. Sinto o tragicômico pedaço de carne entalado na minha garganta. A garganta que já se entalou de anos e anos de pequenas decepções do cotidiano, mas que bradou feliz durante os momentos de felicidade. Dias atrás, derrubei gelo em meus pés quando me desesperei momentos antes da minha morte, enquanto gritava-me o desespero ao sentir-me sufocada. Tentei gritar, mas a voz não saia, o ar não entrava em meus pulmões. A casa impecável e limpa me recebia. O pedaço quente de carne tenra e saborosa obstruindo o ar que me mantinha viva.

O chão duro e frio era como a Morte me chamando:

VENHA.

III

Duas semanas atrás, antes da Indesejada vir me chamar em sua jornada solitária, a crueza do verão já não me era mais contemplativa.

Eu enxergava ao meu redor uma sordidez de sorrisos desconhecidos e alheios num misto de emoção e raiva atenuadas por uma pitada tênue, porém sagaz de emoção. Olhava meu destino no redemoinho de espuma que formava-se na dose de café forte com mancha de leite. Pedi um pão com manteiga levemente aquecido, com toda aquela gordura amarela e sorridente. Uma mordida, e minhas artérias entupindo… E eu imaginando minhas lamúrias ao longo de exames de colesterol, diabetes, triglicérides e eletrocardiogramas. O destino foi tão trágico que agora estou agonizando com o corpo decomposto largado ao chão. O piso antes branca está repleto de uma mancha marrom e preta.

Daqui a pouco os vizinhos reclamam do cheiro. Em breve. Logo vão reparar nas moscas zombeteiras no vidro da janela, e a quantidade de besouros que circulam pela casa. Apesar de morta e putrefata, sinto saudades do cheiro de café…

A saudade talvez seja a delicadeza mais triste que podemos ter. Sempre pensei nisso, quando viva.

A saudade de sentar numa cafeteria ou bar e observar a beleza e a crueza do caleidoscópio das relações humanas: lembranças, associações e detalhes, as pequenas ranhuras de um quadro que estava se formando ali, naquele momento. Os gestos, as expressões, as rugas, os olhos… Os olhos se apertando, os olhos sorrindo, os corpos se abraçando, os corpos se afastando e tudo isso me abraçando com tanta força a ponto de rasgar meus poros. É como se todas as falácias que sangram alimentassem minha vida, gritando nos meus ouvidos. Eu me refugiava nas minhas aquarelas tímidas e a cada pincelada eu construía traços que podiam servir de refúgio na minha pele. Os pássaros de Bukowski me acompanharam nas costas em forma de tatuagem aquarela. O pássaro azul trancafiado na costela do lado esquerdo. Os pássaros vermelhos das quatro e meia da manhã sempre voavam em liberdade do flanco das costas e se tornavam pequeninos em volta do pescoço.

O pássaro azul… Escapuliu com o descolamento da minha pele putrefata. Os pássaros de tom vermelho lançaram suas cores para o pecado. Estou morta. Mas ainda assim sou dura demais comigo mesma.

IV

Um dia antes de morrer, quatro horas despretensiosas da tarde, estava numa esquina observando os maxilares do motorista de ônibus se movendo com o pão cheio de vinagrete. A gordura da carne estava escorrendo pelos beiços. As mãos do churrasqueiro mexiam com a carne e dinheiro ao mesmo tempo. Os homens da construção ao lado do ponto de ônibus limpavam as bocas no antebraço. Os traços grosseiros cansados dos anos de labuta pesada, misturavam-se sutilmente com o instinto mais primitivo: a fome. Eu estava ali, parada e quieta nas minhas observações com um berro tresmalhado, uma virulenta congestão causada por um mero axioma da vida, com um alívio de culpa. Culpa por que? Oras, eu julgava a pausa merecida do motorista de ônibus, que pediu dois espetinhos e pediu para colocar num pão velho com vinagrete. Comeu com um sofrimento que doía, pois os olhos se fechavam quando a boca se abria inteira para devorar o pão e os poucos minutos da pausa merecida.

Estava ali um homem simples, com uma gratidão que não cabia dentro de si. Ele subiu no ônibus, cumprimentou cada passageiro cansado e suado da labuta de todos os dias. Cada corpo cansado e intoxicado do sol que insistia em provar sua existência. O sol que aquecia o corpo daquelas pessoas, era o mesmo cujos raios entravam pela janela e tentavam, em vão, aquecer meu corpo gelado e sem vida no piso na sala de jantar. A única coisa que me olhava, era um girassol sorridente no parapeito da janela.

Enquanto uns amaldiçoavam o verão, senhoras com traços brandos e alegres diziam que a tarde estava perfeita.

Perfeita… Quais nossos critérios para a perfeição? Lembro-me de que anos atrás, numa conversa despretensiosa com cerveja e batata frita, um amigo dizia em ares de contemplação:

“Porque ela era perfeita. Um ser intocável, loiro, olhos claros, shorts jeans e uma camiseta do Superman. Ela queria passar e eu estava no seu caminho. Ela me pediu com doçura: Com licença.”

Ela era perfeita. PER-FEI-TA. Os lábios dele se mexiam como se estivesse soletrando. E eu pensava se aquilo, aquela contemplação era de fato uma felicidade clandestina ao qual eu nunca tive. Uma felicidade clandestina unicamente dele, mas ele estava lá, dividindo comigo essas pequenas ilusões e devaneios, essa espécie de Amor Inventado, um Amor platônico que sustenta por anos. Talvez um dia, quando lhe baterem à porta e chamá-lo de volta, ele abandone aquele amor inventado de um metro e sessenta.

SESSENTA…

V

Sessenta besouros nascendo de minha boca e orifícios agora. Sessenta dias atrás pensei num poema do Augusto dos Anjos Eram 18h30 e horário de verão… Da janela do ônibus durante o trânsito caótico da cidade vi uma mulher aparentemente grávida fumando crack. Era um local conhecido por toda sordidez de acontecimentos mundanos da cidade. Com vestes sujas e mãos trêmulas, acendia um cachimbo improvisado. A cada tragada eu saia da minha introspecção e sentia meus pulmões queimarem. Eu sentia a dor dela, de alguma forma muito íntima, era como se eu também fosse um ser jogada à sorte do próprio destino, e agora, tal como ela, apodreço no chão da minha própria casa, com toda a impertinência de um abandono, exceto as bactérias e toda variedade de insetos necrófilos fazendo de meu corpo seu alimento e uma espécie de útero gigante. Da morte nasceu a vida: milhares de insetos carregando o meu DNA. E aquela mulher das 18h30? Qual era seu alimento? Qual seria sua morte? Ao lado dela um velho de costelas protuberantes quase que perfurando a pele, comia uma marmita com as mãos, pegando os grãos de arroz e feijão com as pontas dos dedos, mastigando de maneira afoita. A mulher que carregava um filho no ventre estava totalmente fora de si. Acendia, puxava, soltava. Delirava. E a criança gritava, dentro daquele ventre como se implorasse para sair dali. Um grito ensurdecedor, um corpo talvez já morto, tal como o meu, mas que não estava em paz. E o homem que engravidou aquela mulher? Foi amor ou apenas um escarro de violência, de esperma bruto, cruel e insensível? A dor que rasga as genitálias num ato de prazer não consentido. Quando na vida o prazer podia ter tudo para ser lindo, a sordidez da bestialidade humana dá um sorriso, e escarra…

“Escarra… Escarra nesta boca que lhe beija”, dizia Anjos.

Uma cópula forçada nas vielas da grande cidade. Ela estava lá, sozinha, tentando ter uma falsa paz teleguiada causada por pedrinhas amarelas venenosas e traiçoeiras. O velho da marmita escarrou no chão, limpou as mãos engorduradas na bermuda rasgada e entregou parte da marmita para a mulher grávida. Alucinada e quase paralisada, exceto pelas mãos trêmulas. Retribuiu um sorriso agradecido ao velho das costelas protuberantes. Foi o sorriso mais delicado e perturbador que eu já vi, nos cinco minutos de trânsito que foram uma eternidade dolorida.

VI

Na casa ao lado da minha uma mulher reclama do cheiro. Diz que há dias sente cheiro de “bicho morto”. Somos reduzidos a isso: bichos. Os jornais e correspondências se acumulam na minha porta há dias. Na primeira semana de minha morte, a vizinha da casa ao lado varreu minha calçada. Ninguém sentiu minha falta, o telefone tocou, mensagens chegaram, devem ser mensagens preocupadas, mas e as visitas? Cadê o “bater em minha porta”? Cadê a preocupação de fato? Como eu poderia dizer que estou ali, trancada e sozinha, esperando por um pouco de atenção e um velório com caixão aberto, para que possam olhar para meu rosto e dizerem o clichê: “ela era tão nova e bonita”, “para morrer, basta estar vivo”. Nenhuma mulher… Nenhum homem. Nenhum homem que eu amei.

Já amei muito nessa vida, já amei muito poucos homens. O pouco no muito. O muito, no pouco. Já amei muito os relevos que formam a tatuagem desenhada no peito e no antebraço. Duas cicatrizes artísticas que resumiam em cores e traços o homem deitado ali, que me ligava uma e meia da manhã querendo me ver. Falácia. Mentira. Não amei, mas fingi que amei. No primeiro acorde de uma canção desafinada eu fui embora sem olhar pra trás. Ele era cheio de acordes desafinados e cordas arrebentadas. Cinco minutos depois ele colocou uma foto de um outdoor em forma de guitarra paralelo à lua cheia que estava no céu. Era apenas a Lua e somente ela que ele amava. Essa coisa brega. Fui embora sem olhar pra trás. Ele nem sequer notou minha presença, mas o relevo das tatuagens dele, ainda permanecem na ponta dos dedos, não como uma lembrança, mas como um erro.

Já amei um homem que tinha olhos gentis e um abraço acolhedor. Uma mente brilhante e um olhar gentil. Mas foi platônico. Um velho amor de tempos de pré-puberdade, reencontrado anos mais tarde, mas que nunca foi real, via de fato.

Já amei um homem ao qual eu fui apenas um pequeno grão de areia existente em seu imenso planeta chamado “cama”. Entre uma canção e outra, fui apenas uma nota solta e esparsa.

Já quase amei um homem, mas gostei mais do guarda-chuva dele, ao qual nunca mais devolvi. Ele também nunca mais voltou. Estamos quites. Ao menos tenho como me proteger da chuva.

Já amei um homem que cantava murmurando no banheiro da pousada de nosso romance de 2 dias. Um romance de dois dias ao qual eu olhava aquele homem cheio de inseguranças, encolhido como um feto. Fiquei na penumbra encostada na parede tentando entender toda aquela dinâmica de amores, desamores, política, educação e toda a modernidade tão líquida quanto o copo de água que em vão, foi uma tentativa falha de salvar-me do pedaço de carne traiçoeira. A carne que peca, que se contraí, tal como um copo de cólera, nos dá aconchego porém nos adoece. Tal como um lobo das estepes, à procura de alimento. Penso nos pecados da carne metaforizados na figura de um lobo: o lobo rastejando e arranhando a presa. Sentimos a dor, os uivos, ficamos cegos, pois o Lobo em sua fome nos arrancou os olhos, nos umedeceu com sua língua, nos enrijeceu com seu toque. Paramos. Nos lamentamos. E dizemos: “Nunca mais”. O tempo passa, e o Lobo está lá, na espreita, sempre com fome, com seus olhos brilhantes na penumbra. As cartas de amor se extinguiram, palavras de ceticismo tomaram seu lugar, num mundo mesquinho cheio de desespero e incertezas.

Alimentei meu ceticismo e pecados da carne mal sucedidos…

Com álcool.

VII

Displicentemente, tal como uma criança implorando por doce, afogava minhas maledicências diárias em um copo de uísque sem gelo. Descia garganta adentro, queimando. Calhamaços e mais calhamaços de lamúrias, piadas de humor negro e ossos do ofício ecoavam no boteco do bairro. Havia ali uma disputa entre poucos amigos. Quem bebia mais? Vira um, vira outro… E a conversa rolava solta, entre risos alegres e etílicos. Quando bebia sozinha, os monólogos eram ao mesmo tempo, incríveis e enfadonhos. Sozinha, eu não gostava de falar muito. Sou excelente ouvinte, péssima em dar conselhos. Ouvia meus monólogos internos. Jamais respondia, porque não sabia o que dizer.

— Parei de beber. Mas voltei. – disse Fábio, depois de pedir um velho Jack.

— Porque? Pensei que você era mais forte que eu. Que bom, não aguentava mais te ver com seu copo de água com gás, gelo e limão.

— Pensa pelo lado bom! Você voltava pra casa com segurança. Eu era o sóbrio da história toda. Teve aquela vez, que eu abri a porta pra você. Sua coordenação motora estava pior que o normal—rindo, de canto de lábio.

— Bullshit! Você sempre conta essa. Sempre consegui abrir portas. Mas me conta, porque voltou pra essa vida de boemia?

— Ser professor é complicado. Fiz uma proposta aos alunos. Pedi para representar um ponto de vista sobre a violência urbana usando literatura.

— Ótima proposta, mas o que lhe atormentou tanto a ponto de em menos de 5 minutos já ter matado mais da metade da dose de uísque?

Fábio pegou a pasta, tirou uma folha de caderno. Lá tinha o nome do aluno, série e data. O texto, cercado de rabiscos e desenhos aleatórios, era cercado de erros crassos de português. Olhei a série,

— Segundo ano do ensino médio?

— Sim. Mas leia o texto.

O texto falava de um jovem na comunidade. O funk rolando adoidado, a polícia também.

“Varios carro de som tudo tocano mc zax e jerry” (sic)

Ai a b.a.e.p pia… dano tiro de boracha ai acerta na perna se corre mancano locão a b.a.e.p passano por cima dos outro os mlk caino de moto sangue pra todo lado”

Me encolhi na cadeira. A princípio, me deu horror os erros crassos de português. Era o horror aos ossos do ofício, horror da ignorância alheia, horror à falta de perspectiva de tentar sair do que era comum. Depois me deu outro desconforto: o que estava escrito ali era muito mais horrível do que o analfabetismo em si, e talvez as falhas de um sistema educacional. Bebi outro gole de uísque. Olhei nossos copos então quase vazios. Chamei o garçom. Ele encheu os copos.

“os mano da tiro leva tiro da facada leva facada e tudo numa boa. isso e a violencia.

ass: cachorro”

– Os mano da tiro leva tiro da facada leva facada… E TUDO NUMA BOA. – disse Fábio. – Tudo numa boa.

– Ok. – coloquei o papel na mesa. Suspirei, retornei pra minha zona de conforto, que já não era mais a mesma.

– Um brinde! – ergui o copo

– A que? – disse Fábio, erguendo o copo e parando poucos centímetros antes do meu.

– Ao estoicismo do seu aluno, tão resignado em aceitar seu destino e a nós que não sabemos levar tudo numa boa.

– Zenão era um cara meio louco não é? – disse ele ao tilintar nossos copos.

Também foi a última vez que eu vi Fábio.

IX

Tic-tac Tic-tac tic-tac

Há 15 dias eu escuto os segundos do meu relógio passarem. A vizinha viajou, meu quintal ficou sujo. Meu telefone tocou e eu não atendi. Eu trabalhava em casa, como tradutora e revisora. Estava sem trabalho, mas com dinheiro suficiente pra passar razoavelmente bem durante um mês, ou talvez dois. Uma vida tranquila, mas sem muito luxo. Estava pensando em chamar Fábio e Audrey para uma noite de conversas despretensiosas e a base de uísque barato, mas me engasguei antes de mandar a mensagem.

Meus pais morreram em um acidente de carro, quando eu tinha 23 anos. O caixão foi lacrado. O meu também vai ser. Meu rosto corpo está inchado, com uma coloração horrível. Dificilmente vão conseguir limpar esse lugar. Meu cheiro, minha morte, minhas larvas, minhas moscas… Estão por toda parte. Provavelmente meu braço descolará do meu corpo quando me jogarem dentro da padiola e por fim, uma voltinha no rabecão.

– Relaxa, pra tudo nessa vida dá-se um jeito! – Audrey sempre me dizia isso, quando eu estava na merda.

Mas agora estou numa merda sem volta.

Olha só. Pancadas na porta. Primeiro foram toques de campainha, primeiramente calmos, depois sem a paciência de antes. Quem seria? Quem estava ali?

Sarah??? Sarah?? Você está aí? Responda Sarah!

Era o Fábio. Ele vai se transformar em um alcoólatra inveterado depois dos próximos cinco minutos.

XI

—Caramba esse cheiro! Argh! – disse Fábio, respirando com o nariz nas dobras do braço.

—Ela tem animais em casa senhor? – disse uma voz.

— Não, mora sozinha. Ela era bem reservada, às vezes sumia, mas sempre dava notícias.

— Vamos ter que estourar a porta, saiam de perto. – disse o policial, pedindo pra Fábio e o vizinho que não sei o nome saírem de perto.

Porta estourada. O vizinho ao qual eu nunca conversei deu um grito. Fábio não gritou. Se encolheu num canto, com as mãos no rosto. O silêncio nunca foi tão perturbador.

A mosca que nasceu dentro do meu corpo, carregava meu DNA e deu seu último adeus, pousando nas roupas pretas de Fábio. Ele estava ali, no canto, encolhido como um feto que acaba de sair de dentro de um útero, tremendo e chorando como uma criança, observando meus fragmentos espalhados pelo piso gelado. Estava eu ali, despedaçada, na luz tranquila que atravessava o vitrô. Era minha densidade, minha libertação. Os meus cacos espalhados ali, formaram o meu mosaico, e ele tinha um milhão de histórias pra contar. Já não estava mais trancada neste mundo de coisas monásticas e mundanas. Eu me libertei de minha cela.

Um brinde Fábio.

Cheguei ao ponto final do meu estoicismo. Extirpei minhas paixões, abracei minha razão. Aceitei meu destino.

XII

— Chefe… – disse Tadeu com cara de quem chupou um limão azedo.

— É difícil lidar não é? – o cheiro, a situação. Morrer em casa, uma morte mesquinha, causada por hábitos do dia a dia.

— O rapaz disse que ela quer ser cremada. Colocaremos bastante pó de grafite, cal e então lacramos o caixão e mandamos pro crematório. – disse Santiago, enquanto batucava no volante do furgão, esperando o semáforo dar permissão de avanço.

— Que triste. Morrer sozinha. E só perceberem por causa do cheiro. Ela devia ser uma mulher detestável. Quem era Sarah Almeida? – disse Tadeu, passando um pouco de Vick Vaporub na narina, para disfarçar o cheiro pútrido do cadáver de Sarah.

— Olha caro aprendiz… Presenciei muitos suicídios, mortes mesquinhas, ao qual as pessoas eram muito solitárias, mas sempre tinha alguém no velório, ao mesmo tempo que já realizei um funeral de uma pessoa que não valia nada e mesmo assim, do meu bolso, coloquei uma roupa nela. Mas, hoje, eu não consigo mais realizar um pré-julgamento de alguém que morreu sozinho. Não sei mais lhe dizer se a pessoa era boa ou má. Talvez a questão mais pertinente é se era feliz ou triste. Existe alegria na maldade, existe tristeza nas pessoas boas. Aprendi isso com nossa profissão.

Tadeu concordou com a cabeça, ligou o sistema de ar, Passou mais Vick nas narinas, pegou um chiclete no console.

— É pesado não é? Como conseguimos suportar tudo isso? Minha irmã morre de medo de morrer sozinha. Ela tem pesadelos ao qual volta do trabalho e encontra a casa sem móveis, com o vidro das janelas pintadas de preto, com muito mofo na parede. Quando ela entra no quarto, ela se vê morta no chão. Isso entra em conflito com a opção dela não querer casar e ter filhos. Eu sempre peguei no pé dela, pra ela ter filhos, ter um marido, mas sabe aquela vez que fomos no asilo São Vicente? Dois cadáveres de uma só vez. Eles tinham filhos que nunca mais foram visitá-los. Morrem de depressão e abandono. Parei de brigar com ela. Ela seguirá a vida dela, e o que tiver de ser será. Acho que essa profissão me deixou frio como uma pedra de gelo.

— Asilos são depósitos. Uma ode ao individualismo contemporâneo, à falta de gratidão. Não nos tornamos frios Tadeu. Tornamo-nos racionais demais.

— Chefe… Me lembro que um dia você disse que nosso trabalho era por deveras filosófico. Ontem minha namorada me perguntou se eu acredito que exista algo depois da Morte.

— O que você respondeu?

— Teria importância se soubéssemos o final da história antes de terminá-la?

— Eu penso assim também. Tudo o que eu tenho são minha esposa, minha filha, quatro cães e minha bicicleta. A funerária é nosso sustento. Sou órfão de pais, passei uma boa jornada na solidão, beijando suicídios, afundado em drogas. Mas eu saí. Se eu morresse agora, morreria feliz, pois além de não estar sozinho, sei que deixei algo de bom. Eu não vivi em vão. Se estamos neste planeta, temos de fazer barulho, e não apenas respirarmos. Isso me lembra Ouro de Tolo:

Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes  esperando a morte chegar.

— Sabe o que estava escrito no quadro da parede da sala da moça? – disse Tadeu, enquanto olhava as mensagens no celular.

— Não vi. Na verdade tenho o costume de não reparar muito em objetos de decoração da casa dos defuntos. Mas o que estava escrito? – disse Santiago, rindo.

— Enquanto houver sensibilidade, entre nós, humanos, estaremos vivos.

Silêncio.

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Death Contemplating Life – David Ho

PS: O título foi retirado de um trecho do livro “Um copo de Cólera”, do escritor Raduan Nassar, um dos meus livros favoritos.

Agradeço ao amigo Marcos da Silva, profissional da área fúnebre, pela nossa conversa numa manhã de sábado, ao Wagner Galesco e suas experiências com a docência e aos amigos que me deram força para voltar a escrever num momento tão difícil.

(In)delicada

 Há meses a água me acalmava. Há meses ela me era suficiente todas as noites e amanheceres. Ela sempre foi um toque delicado, um pacto com minha pele, um beijo, um abraço, uma carícia. Nas noites quentes de verão, a água fria escorrendo nas costas era tudo o que eu poderia ter de melhor. Chegou o outono e a água morna me acalentou, como um abraço, e eu me sentia como se fosse abraçada pelas folhas de outono. Centenas de folhas coloridas, tal como minha infância, embaixo de árvores. Gosto de ver as folhas caírem e me alegra sentar no chão coberto de folhas, e jogá-las para o alto. O sol bate nelas, por entre os galhos de árvores, e as cores brincam.

A água sorri pra mim, cada vez que eu vejo as pequenas gotas d’água escorrendo pelo meu corpo, cada gota daquela que preenche meus poros, é um sorriso, é uma cócega, uma dádiva de estar viva e vendo algo tão pequeno como uma gotícula, algo tão comum… Era a paz que eu precisava, para este meu corpo tão cansado, minha alma já tão envergonhada do caos, do barulho, da falta de afeto, da falta de respeito, da falta de Amor… Ou de um Amor? A água trazia-me de volta a consciência que eu poderia ser amada de novo. Ela fazia amor comigo, e eu com ela. Ela me bastava. Não importava as estações do ano, o calor, o frescor, a pressão, o toque: poucos minutos para eu fugir do mundo lá fora e me sentir plena. Algo tão simples, mas que nos meus dias cinzentos, era como um abraço. Mas ela não me basta mais. Falta algo nesta dinâmica toda, neste palco úmido das pequenas coisas que nos trazem felicidade. Todas aquelas gotas beijavam cada poro de meu corpo, cada toque delas no meu ventre era suficiente para que as mariposas dançassem. Era como se eu sentisse Amor. Amor por  aquele momento.  Hoje sinto  falta de alguém,  que contemple esta forma de amor comigo. Amor com Amor.

Aos meus olhos, o Amor é uma espécie de objeto disposto numa prateleira trancada dentro de uma loja empoeirada de souvenires, tal como um quadro inacabado, abandonado, com cores desbotadas. Ou aquela outra metáfora, o Amor em campo de batalha, agonizando na sarjeta, tomando injeções de morfina apenas para suportar a dor e aceitar que não vai sobreviver muito tempo.  Qual o preço que eu poderia pagar para obtê-lo? Porque Amar é tão dolorido?

Se dói, então não é Amor…

Algo (in)delicado poderia chegar sem pedir permissão. O verbo delicado sem conjecturas, sem conjugações, que percorrerá minha pele com a mesma delicadeza selvagem da água que hoje não me basta mais. Entre uma tentativa frustrada de escrever algum poema com métrica perfeita, voltei para minha prosa singela. Eu queria escrever um poema com métricas e sonoridades perfeitas, tal como o barulho da chuva, apenas para metaforizar a minha sede por Amor. Um Amor que dê certo. Mas tenho apenas minhas metáforas expressas em linhas insones e totalmente (in) delicadas como numa tempestade carregada de desejos. Essa, é a minha dinâmica do afeto. Esta  é minha  forma (in)delicada de sentir algum Amor, mesmo que seu dono não tenha nome. Ele é um completo estranho.

 

 

A moment’s Grace

A desumanidade presente na busca de uma vida perfeita. Marta trancada em seu mundinho de poucas pessoas, na calada da noite, uns poucos convites para tomar uma cerveja. De repente todos somem, as paredes do quarto a engolem, ela se olha no espelho e se vê desconstruída, mil fagulhas queimando-lhe o ventre, de dentro pra fora. A gota d’água pingando sem parar na torneira do banheiro, os gritos do vizinha noite afora durante o sexo, o sorriso do namoro dos gatos no muro em frente. Sai para fumar um cigarro na soleira da porta enquanto o pio agourento da coruja canta uma maldade sem razão. Antes, a hipótese da maldade a assustava, a hipocrisia alheia lhe apertava a garganta ao ler as páginas do jornal nos primeiros minutos do trabalho enquanto o cheiro de café invadia as narinas. Café… Seus olhos realmente estavam abertos de fato depois de três goles de café. As sombras, o toque, o vento, o barulho das teclas dos computadores alheios se tornavam palpáveis depois do amargo gole, era depois disso, que a vida tinha sentido, era depois disso, que seus assombros ganhavam contornos de aquarelas tristes. Era isso que queria pintar na tua pele, mas não há espaço para todos aqueles contornos, por mais que metaforicamente eles fazem cicatrizes em tua pele, a dor é invisível.  A coruja continua piando, o primeiro cigarro acabou, mas ainda tem cinco dentro do maço, acende outro,  gato sorri com os olhos, ela sorri intimamente, por dentro. Uma gargalhada dissonante, quase úmida e de um sarcasmo digno de uma tragédia tragicômica com máscaras e ventríloquos assustadores. Ahhh se ela pudesse contar histórias, seriam todas da boca pra fora, mas seriam cantadas em verso e o riso seria seguido com lágrimas, a tragédia do rir para não chorar, ou chorar, para depois cair no deleite do riso.

Cais de poesia

1 – Assombro

Barcos no horizonte, sombras na areia
O sorriso incontido de felicidade clandestina
Andando pela praia, sol que deita na pele
Baixei os olhos para o silêncio de meus dias
Enquanto uma marola de beleza invadia meu peito
E as palavras ditas e não ditas, escritas em tinta preta
Soltas em devaneios que dançam conforme a maré
E as cores intransigentes no horizonte vespertino
Buscaram sua paz naquele quadro de sol com dilúvio
Ao longe, a tempestade se aproxima com seus raios e trovões
E um eco de perfeição ao longe que escorre na pele
A chuva que molha meu corpo e ensandece meu juízo
Tinge minha paz no conforto daquele gosto de céu
E longe do caos, do barulho ensurdecedor de minhas dores
Caminho sem rumo, como um barco em alto mar
Guiando-me pela minha necessidade de solidão egoísta
Deveria voltar, e aceitar aquela chama que não se apaga
Suspirar pelas trilhas de pedras e erros no meio do caminho
Eu deveria ficar, tingindo meu céu de cores de Dalí…
Debaixo de um pano cinzento e silencioso de nuvens parvas
O meu amanhecer é quase estoico… E as tardes são transigentes
A noite chega para me contar sua beleza e seus encantos
Os dias trazem as carícias de desejo e assombros.

2 – Dilúvio

De repente o céu desaba, é um dia de Verão
Crianças brincando na rua, desatinam a correr
Algumas lambem o céu, outras pulam as poças
Mulheres na calçada correm para o lar
A chuva cai e leva consigo papéis e folhas
Cada gota que escorre dos meus lábios
É o gosto de um amor amargo de Verão

3 – Acaba?

E nunca acaba, nunca termina
Dia após dia a soma de aquarelas bucólicas
Desenhos canções e tragédias em furta-cor

4 – Encore, une fois

Tingindo de vermelho os caminhos desnudos,
Todos os caminhos solitários na bruma da noite
Meus quadros de cores esvaídas ao fundo
Instinto animalesco de depravações conscientes
Aquele softporn solitário, satisfações pesadas
Fazendo o desalinho em lençóis solitários
Domina-me por completo meu conjunto de sombras
Chamando para dançar na beira de um abismo
Lá embaixo, apenas metáforas e desejo úmido e incontido.

5 – Baque

Causa-lhe horror,
Rasga-lhe a alma
O martírio e o dedo na ferida
Resigna-se… Cruel
Ofereço o céu
As cores
As dores
O corpo
Mãos em desespero
Desorientadas
Quentes,
Como uma estrada no verão…
Perfeita esta ilusão
O baque,
De nossos corpos
Caindo…

6 – Just another night in Portland

Apostei todos os meus medos
Em copos de rum e deslumbres
Teci minhas metáforas em linhas de seda
Tão macias quanto aquela canção de fim de tarde
Na manhã de domingo a névoa me envolveu
E encheu meus cabelos de orvalho
Preenchi meus dias com vinho e cigarro
Preenchi meus dias com amores vazios
E na tarde de domingo deitei meus olhos
Para nunca mais voltar, apostei meus medos
Misturei desejo em um copo de gin
Joguei cartas e quebrei garrafas
Foi apenas uma noite como outra qualquer.

Emulador de emoções

“Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.” Albert Camus

Chamas. Naquele acampamento do auge de meus quinze anos, eu via as chamas dançando enquanto a batata com fondor (aquele pó amarelo que segundo a lenda, “amacia” carne), assava na fogueira, envolta de papel alumínio. E eu aprendi, que se você esquentar a água com uma pedra dentro, a temperatura se mantém como uma garrafa térmica. E me perguntam, “não seria mais fácil ter levado uma garrafa térmica?”. Sim, seria, mas eu penso que o ato falho do esquecimento da bendita garrafa, nos faz voltar a um estado primitivo. Tem gente que odeia acampar… “Onde vou conectar minhas máquinas?Ou ainda, existe camping com energia elétrica, já vi gente levando o grill, aquela coisa que só faz sujeira e deixa a comida borrachuda ou máquinas de fazer pão. Muitas vezes queria fugir para um lugar onde não existissem tantas máquinas de fazer coisas. Penso que daqui a pouco teremos máquinas que vão sorrir por nós. Algo como uma tela com um visor, e várias opções:

  1. Bom dia!
  2. Boa Tarde!
  3. Boa Noite!
  4. Tudo ótimo!
  5. Sim, muito! ( aquele sorriso de concordância, sabe?)!
  6. Tudo bem!E você?
  7. Tive um lindo final de semana
  8. Eu te amo!
  9. Sou feliz!
  10. Que dia lindo hoje!
  11. Tenho dinheiro na conta! (mentira, você está no cheque especial!)

Acordaremos de manhã, faremos nossas tarefas por vezes odiosas, tal como sair da cama, arrastar-se até o banheiro e começar a amaldiçoar o dia desde as seis horas da manhã, e isso se torna insuportável desde a segunda-feira. Normal, estamos sempre reclamando, jogando o celular na parede quando ele não para de despertar. Imagino nossas cabeças explodindo junto ao nosso ódio das passagens do tempo, junto com nossas convicções de que estamos ficando velhos. Sendo assim, viveremos com nossa máquina de sorrisos, talvez um aplicativo no celular que manda sinais para algum chip implantado nas nossas cabecinhas perturbadas, algumas bem ocas, só com o eco do vento entrando pelas têmporas e saindo por outro lado. Vamos emular sorrisos eletrônicos!Bons eram os tempos de criança. Criança não tinha a maldade de simulação…

Parece que pintamos uma fotografia daqueles tempos de criança sem compromisso, sem malícia e aquela perspectiva de que a vida seria uma eterna brincadeira, ou como os filmes da TV. Eu me lembro de que sempre quis viver uma aventura, brincar de pirata, e nunca mais envelhecer. Um sonho na Terra do Nunca. Crianças e seus sonhos… Um dia, eu queria ser caixa de supermercado. Na minha cabeça de criança, eu imaginava que todo aquele dinheiro que entrava no caixa, seria todo meu. Eu achava que as caixas de supermercado eram donas de tudo e moravam em suas confortáveis casas com uma piscina no quintal. Eu tive um amigo que dizia que seu sonho era ser coletor de lixo. Ele pegava os sacos de lixo escondido da mãe e espalhava no quintal, alguns com brinquedos dentro, e outros ele pegava da lixeira.  Tinha um triciclo azul, e andava pelo quintal, apanhando os sacos, colocando nas costas e levando até a lixeira. Quando o caminhão de lixo passava, saía no portão e olhava emocionado para aqueles homens que corriam atrás do caminhão. E sempre ele mandava “tchau” para os coletores que passavam no portão. No final do ano, ele pegava parte de suas economias, e entregava para os coletores, que passavam nas ruas, fazendo festa. Ele me contou que um dia, ao entregar o dinheiro para um deles, ele disse com um sorriso que quando crescesse, ele queria ser “catador de lixo”. O coletor sorriu, e quase chorou, porque aquele menino de cabelos bagunçados e boca suja de chocolate, dizia que se sentia orgulhoso, e não ligava para o cheiro ruim do caminhão de lixo. No meio de tantas pessoas passando e tampando o nariz, estava ali um ser que nunca deixou de cumprimentar ou dizer “Boa Tarde”.

“Não queira ser lixeiro bom garoto!Promete?”

E então o coletor saiu, correndo atrás do caminhão e olhando pra trás, deu um sorriso para o garotinho com ares de incógnita, parado no portão, com o cachorro louco correndo e latindo no pequeno jardim que havia na casa de infância. Para ele, não importava se a mãe dizia que aquilo era serviço de quem não estudou para ser alguém na vida. Aquele garotinho que mais tarde se tornou meu amigo e contamos nossos sonhos de criança numa mesa de almoço corporativo, não conseguia imaginar a sobrevivência em um mundo cheio de lixo… E nesse nosso mundinho de chorume, eu penso que acordaremos, e vamos escolher num visor a opção de sorriso. Sorrir dá trabalho, existem máquinas de fazer arroz, máquinas de fazer sanduíche, máquinas de fazer café… Enfim, máquinas. Hoje eu apertaria o botão: “Sorriso sarcástico com ponta de ironia”, mas a máquina de sorrisos apenas simula sorrisos de felicidade. No mundinho de lixo, acordamos emulando “sem querer querendo” sorrisos de felicidade, apenas para agradar, e evitar perguntas desnecessárias. Hoje, simulamos que somos correspondidos, por mais que nosso Amor nem nos olhe na cara ou que se preocupe com você da mesma ou na mínima maneira como você se importa,  ou quando dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” às pessoas e as desgraçadas não respondem, quando nos sentamos no banco de terminal de ônibus, cansados e introspectivos, com fone de ouvido ou um livro… Ou os dois… Chega sempre alguém querendo conversar, e você quer apenas fugir dali, mas sente-se obrigado a ouvir ou expressar um “É…”, “Hummm”, “Legal”, “É mesmo” na conversa. E quando chegamos finalmente em nosso lar, podemos pensar o quão nós somos mesquinhos. Já dizia Renato Russo, estamos mergulhados em nossa arrogância, esperando um pouco de atenção, sabe? Aquela que não damos aos outros. E eu vou lá, emular o meu sorriso de “Estado de Felicidade incondicional”, mas na verdade, estou com olhos de saudade, e um sorriso de lábios secos. Sabe? Arrogante, esperando um pouco de atenção e todo Amor do mundo para incendiar…

Front

Já estive aqui antes, contemplando outros amanheceres. Já estive aqui, andando de um lado para o outro, com as mãos manchadas de sangue. Já vi meus velhos amigos perderem a luta em campos de batalha, minhas mãos e roupas cheias de sangue. Matei meu melhor amigo com um tiro na cabeça, porque ele me implorava para acabar com os sofrimentos que sentia. As tripas saltando da barriga, e ele segurando-as nas mãos, numa tentativa desesperada de botá-las para dentro de novo. Mate-me, por favor, por amor à sua vida, mate-me… Ouço isso me atormentando, dia após dia, ano após ano… Já ouvi os sinos da velha capela anunciar muitos funerais. Pessoas de luto a murmurar orações, cujos ecos invadem meus ouvidos, levando ao longe velhos murmúrios já tanto desgastados, e aquele som entalado na minha garganta. E Deus, aquele velho tolo que não existe… Estou sempre cansado de lamentações. Se eu pudesse, andaria milhas e milhas pelos campos de centeio, e como Holden Caulfield, eu salvaria as crianças de caírem dentro do abismo. Muito prazer minha amiga, sinta todo o calor de minhas mãos trêmulas. Mas você tem as mãos tão frias, que me sinto diante de minha própria morte. Teu rosto já tão fundo, as olheiras marcando um profundo desespero embaixo de teus olhos. Tens a fala mansa, muitas vezes eu não escuto. E olhando dentro dos teus olhos, vejo apenas uma garotinha aturdida, perdida. Talvez, falte algumas mãos empurrando-lhe, naquele balanço velho, perto do velho poço. Quando eu era um garotinho, sem barba na cara, você chegava e me pedia para empurrar-lhe no balanço. Você não tinha forças, minha cara amiga, para dar sentido ao teu próprio voo. Dizia-me que me encontraria algum dia, perto da velha capela. Fiquei esperando, anos e anos. Amigos morreram, guerras aconteceram, ouvi tiros, explosões, gritos de desespero. Cruzei rios, pegando cadáveres que boiavam ao meu redor. Esperava que com o tanto de peso que tinha, eu afundasse, para abraçar o inferno que tanto me espera. Mas era apenas eu e o fedor de meus companheiros mortos em campos de batalha. E hoje carrego no peito uma medalha  de ouro ridícula, pelo trabalho realizado, salvando vidas e a honra de companheiros. Consegue ver, o quão bonito é isso? Lembro-me das noites que passei em bares, enchendo a cara, e ao final da noite saía com prostitutas. Elas amavam um homem de farda. Algumas me davam de graça, e por mais que eu implorasse que aceitassem o pagamento, diziam que um homem de honra deve ter amor todos os dias. E que merda de Amor é esse?

Encarei a vida como um pássaro voando sem rumo no horizonte. Lembro-me, quando criança, de matar um a um com estilingadas, sentia todo o prazer de enterrá-los, um cemitério de pássaros, no jardim de minha casa. E você me ajudava, colhendo flores para fazermos o enterro. Eu já gostava do teu sorriso sádico, desde quando você era uma criança, descabelada, desdentada, com seu vestidinho branco impecável, sempre sujo de terra ao final do dia.  São essas doces lembranças que me fazem escorrer lágrimas de delírio.

Queria agora, dar tiros em todas as direções, ver pessoas correndo de desespero, implorando por misericórdia, enquanto seguro a arma, ouvindo um coral de anjos desafinados a cada gota de sangue derramado, e eu poderia lhe ver dançando nua em cima do mar de sangue formando-se aos seus pés e então eu amaria cada pedaço de tua pele, como se fosse a coisa mais divinamente perfeita neste mundo. E diante de deuses em fúria, cometeria o maior pecado do mundo, e seria então feliz, discordando da boa moral e costumes das pessoas que eu mais amei, apenas você e eu, num mundo vermelho, manchado de injúrias, apenas com a dor e tristeza de passeatas fúnebres. Mas estou aqui neste funeral, e a marcha militar fúnebre vai começar. E o barulho dos tiros ao alto, sou apenas um homem na multidão, um homem condecorado, um herói de guerra, manco… Salvei vidas e quase acabei perdendo a perna. A ironia da vida quase me mata, e os gritos de sofrimento ainda me perseguem, ainda tenho o mesmo pesadelo durante anos. Ainda amo a mesma mulher, ainda desejo casar e ter filhos e contar-lhes crônicas de guerra. Ainda quero andar embaixo da chuva, mas sem que nenhum pensamento me atordoe. No próximo anoitecer, durante a madrugada, serei um andarilho miserável vagando pela casa com uma arma na mão, uma garrafa e murmúrios. Vejo você, dizendo-me que sou apenas um homem fracassado, largado à sorte de meu próprio destino. Se chover nesta noite querida, deixarei que cada gota d’água escorra para meus lábios e que lave este meu rosto de ressaca. Poderei estourar os vasos que herdei de minha mãe. Dentro de cada um deles tem as cartas que ela me enviava durante a guerra. Muitas se perderam no front de batalha, algumas têm manchas de sangue, algumas outras me trouxeram alguns minutos efêmeros de paz e aconchego. Minha velha mãe na soleira da porta me dando adeus. Foi a última imagem dela que eu tive em minha vida. E a saudade do aconchego dos braços de minha velha mãe, é o único calor que me traz um sorriso no rosto. O calor do amor materno, as palavras de apoio, os sermões. Se eu pudesse trazer algo de volta, seria ela, mas os anos passaram, perdi amigos, amei e fui amado. Tento parar de pensar nesses disparates, a fim de manter longe o canhão de meu revólver longe de minhas têmporas.  E é assim todas as noites. Tenho apenas uma bala no tambor do revólver, e sei bem como usá-la. Quando vier me visitar, limpe o meu sangue, troque os lençóis, apague a luz e feche as portas.

Something

O gato dos olhos amarelados no muro, encarando-a enquanto sentada na soleira da porta. Está no momento de frescura momentânea de tragar cigarros de menta. Dispensou o álcool esta noite, será que ela deveria? Talvez um vinho merlot descendo na garganta seja mais anestésico. Anestésico de quê? Talvez ela perca um pouco da razão que restou, já que grande parte dela foi embora, partindo com a ventania e o aroma de eucalipto, enquanto mirava seus olhos no horizonte, naquelas luzes amarelas, pequenas, distantes… O esplendor e a fúria do caos urbano lá no horizonte, como um sorriso, sarcástico, cínico. Ela sussurra uma canção, em tom baixinho, só pra ela. Nem o gato pode ouvir, mas parece que aqueles olhos grandes e brilhantes do gato gatuno a traduzem, lendo-a, como um caleidoscópio. Conheceu um único olhar de caleidoscópio, um azul claro, que muda de cor, fica cinzento, de acordo com o tempo.

A imoralidade cantando uma doce canção, o vento lá fora e a sensação da chuva que caiu em seu corpo enquanto caminhava numa longa avenida num bairro pacato e distante da cidade. A cabeça, cheia de preocupações, de medos, sentimentos, verdades, meias-verdades, mentiras, quase-mentiras, as verdades camufladas, todas elas descendo, corpo encharcado e cada gota d’água que escorria nos lábios dela, era uma dádiva de sentir-se viva. Ela poderia sentir-se completamente bem, e tomar apenas para si, as íntimas sensações egoístas e despudoradas. Queria fumar um cigarro, mas ela estava no meio da chuva. Tinha onde abrigar-se, onde entrar e tomar um café quente. Tinha um livro na bolsa, um bloco de anotações. Talvez ela encarasse o biscoito no pires do café, e poderia rir sozinha, um riso bobo e tímido. Poderia encontrar outros olhos de dilúvio em olhares alheios, mas eles não contariam histórias. Gosta de histórias, de palavras, o silêncio a incomoda ao mesmo tempo em que a encanta. Ela gosta do caos, da desordem, da orgia das palavras criando falácias, traçando, transando e traduzindo o incômodo, desassossego, amargor, pequenas felicidades tímidas querendo uivar feito um lobo, mas aquele nó na garganta, que estrangula, impedindo a maldita e talvez nefasta vontade de colocar para fora todas as palavras que ficaram presas nas estações passadas. Ela poderia falar sobre as folhas secas que chutou durante o outono, as mesmas em que ela sentou em cima nas manhãs e finais de tarde. Ao olhar para a cópula da árvore de folhas multicoloridas, ela via toda a beleza e simplicidade dos raios de sol brincar com as cores, enquanto o vento balançava as folhas que por fim, caiam em seus pés. E teve toda a frieza, mistério e quietude do inverno, e agora a primavera, com todas as cores. Cores… Ela adora cores. Existem pessoas com cores lindas, mas que trancam suas cores dentro de uma caixa. Ela coloca todas as cores dela em um papel ou editor de texto. No dia-a-dia, em frente à outras pessoas, ela carrega as cores dela fechadas, dentro de uma caixa. Elas dançam lá dentro, pintam quadros, cantam, bordam… Tem medo de elas esvanecerem, são como aquarelas, diante das lágrimas do mundo, elas borram e a ação e exposição do tempo e outros eventos externos, fazem com que elas percam a força, a beleza e o poder. Ela não quer perdê-las em um mundo que não para de gritar.

E sentada na beira da cama, ela contempla o tempo cinzento lá fora. Só Deus sabe… Aquele velho bobo, louco e talvez inexistente, o quanto ela torceu para um dia ensolarado. Deixou seu egoísmo de lado, por ela, poderia cair um dilúvio, para poder ficar olhando a água descendo na rua, carregando pequenas flores e frutos da mangueira a alguns metros acima na rua de casa. Ela poderia ver as pessoas caminharem com suas cabeças baixas, escondidas embaixo de negros guarda-chuvas, poderia esperar que uma mulher passasse de mau humor e com uma sacola de supermercado na cabeça, ou um homem com um guarda-chuva prateado que me lembrasse de filmes de caos futurístico. Poderia ver crianças brincando na enxurrada, mas sabe… Faz tanto tempo que ela não vê isso. Ela contentou-se com as gotas d’água escorrendo na janela, e toda a beleza delas caindo, traçando rabiscos d’água no vidro da janela. Quando isso acontece à noite, com as luzes apagadas do quarto e apenas a luz externa, as gotas da janela pintam o chão e o e o corpo seminu deitado na cama, enquanto as hélices do ventilador de teto rodopiam. A chuva lá fora, garoa tímida ou dilúvio selvagem que também lhe contam histórias que ela pode ou não colocar no papel… Ela sente o cheiro de terra molhada, lembranças de texturas envolvendo-a em sonhos, e é tão real como o turbilhão de beijos oníricos e sinestésicos que a deixa em um misto de desejo incontido. É por isso que às vezes ela senta na soleira da porta, altas horas da madrugada, noite adentro na filosofia da beleza, desespero, algumas mesquinharias, bobagens e muitas lembranças. Às vezes toma um chá, seu método natural de afastar os demônios pessoais. Pensa muito no quão é egoísta… Tão egoísta que faz amor consigo mesma e filmes soft-porn são apenas poesias eróticas. Prefere pornografia literária sutil. Mulher com um “q” de elegância sutilmente vulgar, a vulgaridade das metáforas propositalmente colocadas sem querer. Poderia ser mais simples, pensa ela, enquanto fuma ridículos cigarros de menta. Queria ter a simplicidade de poder olhar nos olhos e fazer um discurso, mas a garganta, mesmo clamando para gritar verdades e inverdades, existe um nó quase cego, enquanto na cabeça ela desenha linhas e linhas.

Pensou em vários disparates, que pra ela era uma incógnita agradável. Hoje seu amigo faz aniversário. Vive dizendo que está velho. Ela esperou que o dia fosse ensolarado, esperou que o vento estivesse ideal, que o calor do sol fosse um abraço e não um estorvo de 40 graus. Mas o dia amanheceu triste. Esperou que os olhos e a alma dele não ficassem cinzentos com o dia de hoje.  Pode ser que ele tenha, após ter acordado, ficado algum tempo deitado de barriga pra cima, olhando para o teto, enquanto faz uma retrospectiva dos anos que passaram. Sonolento, incompleto e mal humorado até tomar uma ducha, e enquanto a ducha cai nas costas, aquela sensação de paz, calma, relaxamento e a carícia de uma toalha, como um toque, leve, gostoso. Quando era de manhã, o dia estava meio tristonho, mas isso não deve ter-lhe tirado a vontade de ter um dia só pra ele. Talvez tenha saído lá fora, recolhido o jornal, brincado com a sua bolota preta e gordinha que pula nas pernas e fica cheirando-o quando ele chega de algum lugar em que ela não foi junto. Acendeu um cigarro? Ou ele não é daqueles que acendem um cigarro na primeira hora após acordar? Prefere a beleza e a simplicidade de um café e um pão com manteiga? Ela almejou que ele tenha tido o teu bocado de sorte diária, e que a tal da fração diária da tal sorte tenha sido comprada por um preço justo. Ela já ouviu dizer por aí, que a sorte não prevalece em tudo, dá-se de um lado e tira de outro. Provavelmente ele deve ter pensado na falta de sorte em umas coisas e a existência dela em outras, nada mais normal quando 356 dias de existência se completam novamente. Geralmente pensamos em crônicas de sonhos e pesadelos, boas e más lembranças, realizações, metas, sonhos perdidos, ilusões… Perdas e ganhos. Longe da selva de pedra, ele saiu para um lugar só pra ele, longe de formalidades e falsidades. Ela é péssima em receber e dar felicitações, mas muitas vezes temos de ser hipócritas o bastante e sermos mais “humanos” ou “convencionais”, ela não sabe ao certo qual palavra utilizar para isso.

Nada como um dia após o outro. Hoje o dia foi ranzinza, mas ela almejou que ele não tenha levado as cores frias do tempo para dentro dele, pois apesar dos olhos dele serem de dilúvio, ela gosta de vê-lo quando segue em direção ao sol, e o vento acariciando o rosto barbado ou imberbe e quem sabe um breve arrepio aparece. Lembrou do rosto de menino, do dia em que ele resolveu tirar a barba áspera cuja textura ela gostava tanto. Queria permitir-se dar a ele um texto singelo e levemente imoral, um presente feito de palavras jogadas sem rodeios. É a melhor coisa que ela poderia oferecer ao invés de dizer a ele apenas um “Feliz Aniversário”. E hoje, enquanto a chuva caia torrencialmente em seu corpo cansado, enquanto caminhava na longa avenida daquele bairro bonito e distante do caos urbano, ela não desejou a ele, felicidades para sempre. Ela não deseja utopias para as pessoas que ela gosta, mas deseja que elas tenham sabedoria suficiente para se levantar dos tombos que levarão por serem levianas ou idiotas. Na concepção dela, ignorância é desejar felicidade sempre, desejar uma utopia é o mesmo que desejar a cegueira à alguém. Ela se acha absurdamente hipócrita ao dizer “muitas felicidades” para os outros. Nada como um dia após o outro, nada como os ponteiros de um relógio ensandecido o suficiente para não nos preocuparmos com ele. Todos nós temos algo a dizer… Todos nós, sem exceção. Algo…

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhum batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.