Epifania de uma personagem sem nome.

“Bem, tem sido um longo tempo
Desde que vi seu sorriso

Eu apostei meu medo
Até as luzes da manhã brilharem
Manhã de domingo
Somente névoa sob os limbos
Eu chamei novamente
O que você sabe?
E eu preenchi nossos dias
Com cartas e gin…”

 

Na noite de um sábado, enquanto deitada na cama confortavelmente vestindo calcinha e sutiã, nossa personagem sem nome estava esparramada na cama de sua humilde residência de mulher independente que mora sozinha. Muitos livros na estante, lápis coloridos comprados em um impulso de querer desenhar e pintar. Fã de vinhos e nostalgia, ela guarda uma garrafa de vinho chileno com duas rosas, enfeitando a estante. Estava lendo um livro e pensando em coisas da vida, no universo e tudo mais. Num momento, dá um pulo na cama, um insight, uma lembrança que a sempre consta em mente, mas ali, naquela noite de 27 de abril de 2013, ela se recordou, por vezes com um sorriso iluminado e com lágrimas de saudade, e ela sussurra, “Como sou brega”, ela que tanto pregou contra as pieguices do ser apaixonado, caiu numa “armadilha” que deste então povoa seus sonhos e caminhadas pelo bairro onde flores nascem em pleno asfalto.

Era sábado, estava um dia quente, mas não muito exagerado, como os dias fatídicos de verão. A “personagem sem nome” estava nervosa, após tentar quase sem sucesso arrumar o lugar que paga aluguel e chama de seu.

Olhava para o guarda-roupa, sem saber direito o que vestir. Fazia tempo que não tinha um encontro, ela estava desacostumada e achava que estava sonhando, chegou por vezes a se perguntar se aquilo realmente estava acontecendo. Pra quem veio de um relacionamento de três anos e meio com alguém que foi seu segundo namoro, e depois de um período brincando de eremita, enchendo em cara com colegas de trabalho e lendo o dia inteiro ou passeando em parques apenas para comer churros e pensar na vida, enquanto patos atravessam para cair na lagoa. Tinha na cabeça que seguiria a vida como uma mulher assexuada cheia de cachorros cagando alucinadamente no quintal. Dava risada sozinha, enquanto tentava espairar a cabeça folheando livros lidos e relidos.

Olhou para o cabide e viu um vestido de malha roxo, com detalhes em verde musgo na cintura e na amarração que contornava o pescoço. Mas ele era sem manga, e ela estava com as marcas na pele de uma doença filha da puta que acabava com sua vaidade. Era ali mais um motivo para sua insegurança, estampada com um suor frio e respiração ofegante. Queria estar bonita, tirou o vestido do cabide, e apesar de estar passado, ligou o ferro mesmo assim. Escolheu um casaquinho preto de crochê, e um sapato verde, no mesmo tom dos detalhes do vestido. Olhou no relógio, tinha marcado com ele às sete horas, em frente ao terminal de ônibus do bairro em que morava. Eram cinco e meia.  Acendeu um incenso e algumas velas no banheiro. Escolheu o que tinha de melhor, aprendam, mulher se prepara para vocês, mesmo que ela ache ou tenha a insegurança de que pode estragar tudo. Trinta minutos embaixo do chuveiro, talvez a água morna e o cheiro do óleo de pimenta rosa fizesse sua ansiedade diminuir. Depois de todo ritual, finalmente vestida, não do jeito que queria. Se estivesse sem aquelas manchas terríveis teria com um vestido na altura do joelho e com os braços de fora. Olhou no espelho, e perguntava-se se estava bonita. “Foda-se, pensou ela”… Passou três borrifos do seu mais caro e melhor perfume, pegou o livro que comprou no dia anterior num saldão da FNAC no meio de títulos de autoajuda pedantes e livros para mulherzinhas mal resolvidas e foi para o ponto de ônibus. Visivelmente nervosa, colocou o IPOD no modo shuffle, é um ritual que sempre dava certo. Chegou ao ponto de ônibus, não se atrasou apesar dela ser meio esbaforida e odiar horários, chegou meia hora mais cedo, vai que ele tivesse a tal da pontualidade britânica, olhasse no relógio e dissesse que ela estava 1 minuto e 45 segundos atrasada?

Na frente do terminal, tem um hortifruti cujo dono é um simpático senhorzinho japonês, e ao lado, também de frente para o terminal, há uma banca de pastel. Não pensou duas vezes… Suco de laranja da pastelaria a faria acalmar os nervos. Tomou dois copos, enquanto estava lendo. Resolveu olhar o celular e viu que tinha ligações perdidas. Eram dele, já pensou em um milhão de desgraças, mulher é um bicho difícil, entendam… Mas ficou otimista. Saiu da mesa da barraca de pastel e sentou-se em frente do hortifruti. Encontrou a paz necessária no livro que se encantou, mas deu misto de inquietude por ser um livro tão perturbador. O livro falava sobre o delírio das moscas, dilatação de porcos, sobre um homem despedaçado frente ao espelho do banheiro. Por alguns minutos, desligou-se completamente das coisas que a cercavam, até o momento em que sentiu um arrepio e passos leves e logo em seguida o seu nome bradado. Assustou-se um pouco, levantou os olhos do livro e então aquela calma perturbadora saiu de foco e voltou ao nervosismo, mas era um nervosismo causado pelo desconforto perante a beleza que os grandes olhos amendoados e sempre perdidos dela estavam encarando timidamente. De estatura mediana, um pouco mais alto que ela, olhos azuis, cabelos castanhos claros e barba por fazer, de uns dois dias e um sorriso que desde então apostou todos os seus medos.

Deu-lhe um tímido e quase atrapalhado beijo no rosto não barbeado ao qual ela agradeceu ele não ter tido a estupidez de ter tirado. Ela sempre pensa porque todo homem acha que toda mulher gosta de barba feita. E foi ali, o primeiro momento que ela se contorceu toda, numa felicidade nervosa. Estava com o livro nas mãos, aquilo foi bom, pois disfarçava as mãos trêmulas. O suco de laranja não tirou-lhe o nervosismo, o encanto de dois olhos azuis inquietantes trouxe-o de volta.

“O que está lendo?”

Depois de ter ficado tanto tempo escondida, aquela pergunta a fez pensar que ali ao seu lado, caminhando devagar não estava um homem que enxergava apenas oito bits de cores, talvez o universo cheio de cores e nuances dela seja pela primeira vez compreendidos, não em sua totalidade, ela não acredita nisso, uma das graças da vida, é a inquietude perante a não compreensão. E ela já percebeu pelo seu rosto de britânico, mas, com descendência italiana de que ali ao seu lado, estava um fractal cheio de equações complexas, e achou isso encantador. Ele não tinha denominador comum. Era único, e ela começou a sair da toca, já estava com o pé direito pra fora da sua caverna de proteção.

Estava ventando e o cabelo da “personagem sem nome” estava um ninho de mafagafos, e ele lá, tão bonito com seus olhos claros e cabelos cor de mel. Ela respirava fundo, baixinho, pois não queria que ele percebesse o quanto ela estava nervosa. Ela era uma atriz de quinta categoria, não sabia representar, ela era nua e crua, dentro da sua natureza nenhum pouco convencional. Até uma criança pura e sem malícia perceberia que ela estava tão nervosa quanto um cachorro que apronta e disfarça, mas lá dentro existia uma ponta de arrepio e certo tremor. Se ele perguntasse por que ela estava tremendo, ela lhe diria que era porque tinha hipoglicemia, mas não seria verdade. Ela não sabia mentir, tudo ali a denunciava.

Entrou no carro, ela disse a ele que o cabelo dela estava um fuá, e ele então passou a mão nos cabelos negros dela. Ali, naquele momento, veio-lhe o segundo arrepio, e não foi o vento, não foi frio, um pouco de nervoso e um pouco de tesão que depois ela reprimiu e desviou para qualquer outra coisa para não pensar em coisas, digamos, mundanas. Ela era muito sexual, não no sentido de ver malícia em tudo, de ver um perfume cilíndrico numa loja e pensar em sexo, tal como Freud explica sobre símbolos fálicos, coisas simples, ela não precisava ver um outdoor com um homem lindo de cueca para sentir desejo, coisas simples e banais a movem, e a mão dele no cabelo naquele momento inicial a fez querer agarrá-lo, mas ela era uma mulher contida. Despistou os pensamentos pecaminosos falando da escova progressiva da irmã e da mãe, e que foi a única da família a gostar de sua herança de cabelos ondulados, indecisos, levemente cacheados. O pensamento dele puxando-lhe os cabelos e beijando-lhe o pescoço foi ocupado pela lembrança de o quão bonito eram os cachos da irmã dela. Obviamente ela preferia o pensamento voluptuoso a pensar nos cachos da irmã, mas ela fez isso para não ficar arrepiada e com as bochechas vermelhas. Ainda bem que os olhos dela são castanhos bem escuros, a pupila dilatada seria muito difícil de ser percebida, a não ser que ele fosse o Chuck Norris ou tivesse o poder de ler mentes. Se ele visse auras, naquele instante ela estava num vermelho rubro de puro desejo. Reza a lenda que homens pensam na sogra para não gozarem rápido demais, ela em gatos mortos, erros de português e na família…

Durante o tempo que se passou, no caminho até a livraria, foram se conhecendo, ela perdera parte da vergonha, e não estava mais insegura, aos poucos perdeu a tensão, mas não o tesão. Na livraria ele lhe sugeriu um livro, dizia ele que ela era parecida com o personagem principal, um velho pescador que nunca perdia a fé, mesmo perante do fracasso de ter o marlim devorado por tubarões. Ela também sugeriu um livro a ele. Viu naquele homem um menino sonhador que guardava a beira de um abismo. Se algum menino se aproximasse, ele agarraria. Ficaria ali, o tempo todo, cuidando para que criancinhas indefesas nunca caíssem no abismo. Ele tem a alma de Holden Caulfield, se pudesse, ele se fingiria de surdo mudo, pois seus olhos são desacostumados, segundo ele o mundo é cheio de “pessoas cinzas e valores rasos” e o silêncio, tem o ajudado a tolerar:

“… Mas não me importava que tipo de emprego ia ser, desde que eu não conhecesse ninguém e ninguém me conhecesse… Ai bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir ser surdo-mudo. Desse modo não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém… Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha pra mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana… Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.”

 

Ele comprou o livro e ela reservou o que ele sugeriu, pois não tinha na loja e chegaria dentro de cinco dias. Foram para a cafeteria da livraria. Ele pediu um café simples, e ela exagerada, um café duplo com chantilly. Os olhos dele eram desconcertantes, a ponto dela baixar os olhos em direção à mesa, pois diante de tal beleza ela poderia talvez perder o juízo. Naquele ponto ela estava definitivamente fora da toca. Ele a tirava do sério. Respirava fundo, sentiu a cafeína estimulando as “endorfinas naturais” e ela precisava perder o foco da beleza dos olhos dele para que ela não se contorcesse por dentro. Os olhos dele falavam, e a prova disso era o biscoito que acompanhava o café que ele não comeu. Ela foi cara de pau o suficiente para pedir. Ela teve um insight de Clementine Kruczynski, de “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, na cena em que Clementine e Joel Barish estão na praia e ela pega a coxinha de frango do prato dele. Joel pensa que ela chegou assim, sem pedir permissão. A “personagem sem nome” pelo menos pediu, poderia ser mais invasora no mundo encantador dele, cheio de perguntas, umas com respostas, outras perguntas sem respostas, que podem ser completas ou incompletas, e cheias de viagens na maionese. Talvez, tal como Holden Caulfield, ele pode pensar para onde vão os patos no inverno. E ela amava essa essência indagadora dele, essência que a assustava, pois estava ali, sentado ao seu lado, um homem que sempre achou que só existia no mundo dos livros. Estava ali um homem que assim como ela, tenta salvar as crianças de cair no abismo, um homem que falava com os olhos, que a fazia rir e tal como ela, assistia “A Praça é nossa” com o avô. Ela assistia com a avó. Ela poderia ouvir e compartilhar piada ruim de gosto duvidoso o dia inteiro, sentada com ele no gramado da praça da universidade. Eles poderiam rir, como duas crianças, sem medo de ser feliz. Quando ela conta piadas, todo mundo olhava pra ela com cara de merda, mas ele ria, e ela se encantava com as covas que se abriam no rosto de barba acastanhada por fazer.

Eles saíram da cafeteria e decidiram ir para um bar num bairro charmoso e boêmio. Ele pediu uma cerveja e porções de bolinhos. Ele perguntou se ele acendesse um cigarro a incomodaria. Cigarro era o de menos. Ela vinha de uma família e noventa por cento de seus amigos eram fumantes. Ele pediu um energético, dizia ele que precisava acompanhar o pique de mulher que sofria de insônia. Ela contou-lhe sobre a doença que tanto aniquilava sua autoestima, e que se sentia incomodada com as manchinhas marrons que estavam espalhadas pelo corpo. Ele disse que não havia que se preocupar, ele também sofria do mal da doença de pele, pois tinha a pele muito clara. Contou algumas coisas que aconteceram com ele, levando as mãos dela ao rosto dele, para sentir um pequeno cisto imperceptível. A partir do dia em que o conheceu, ela deixou de lado as camisas de manga comprida, e saiu de vestido na altura do joelho e braços de fora. Ele a fez sentir-se plena novamente, ela recuperou toda a beleza que achava que havia sido raptada por uma doença. Contou a ele que nunca havia ganhado flores, ele riu, disse que era inconcebível, uma mulher não ganhar flores. Continuaram a conversa e alguns minutos mais tarde uma florista estava caminhando por entre as mesas dispersas na calçada. Sempre havia a primeira vez pra tudo, é o que dizem por aí. Ele chamou a florista, e pediu para que nossa “personagem sem nome” escolhesse duas flores. Ela se emocionou, como toda mulher, e por mais que um ramalhete de rosas morresse, ela ainda conserva as duas rosas dentro da garrafa de vinho que compraram para tomar embaixo de uma noite enluarada, com estrelas por vezes encobertas por nuvens tímidas, em cima de uma enorme pedra, longe da cidade, que poderia ser vista com suas luzes amarelas, no horizonte. Antes de irem para aquele local deserto, tomado pelo cheiro de imensas árvores de eucaliptos, ele estava preocupado se ela passaria frio, pois era um lugar aberto e logo, o vento seria intenso. Ela disse que já estava protegida, depois de dois anos morando no sul do país. E partiram, e ali naquele local, a cena hilária da tentativa bem sucedida e até aquele momento desconhecida pra ela, de abrir a garrafa de vinho usando tênis. Hoje, as flores a encaram da estante, dentro da garrafa de vinho chileno cujo conteúdo foi consumido no meio de um vento que o fez tremer de frio. Ela, acostumada com os ventos minuanos do sul, sentia-se plena e contente, e ao vê-lo tremendo de frio, não poderia deixar desamparada uma pessoa que lhe deu flores.  Fez uma massagem terna nos braços dele, explicou um pouco sobre o que aprendeu sobre chakras e centros de energia. Ela, enquanto esquentava os braços dele, sentiu os tendões aparentes, as veias pulsantes, os pelos dos braços dele, eriçados. O frio também a invadiu, mas não era um frio de sensação térmica, era um calafrio causado por endorfinas… Entende?Endorfinas naturais…

E então, ali naquele momento, ele fazia um carinho leve, gostoso, e o perfume dele estava mais forte do que outrora. Ela lhe disse sobre á inquietude dela diante de cheiros. Enquanto ele estava explorando aquele lugar em que eles ficaram, ela estava andando naquela estrada, com os sapatos de salto 15, tropeçando nas pedras. Pegou uma folha de eucalipto e cheirou-a, enquanto o observava, oras pensando na beleza da vida, na beleza daquele lugar que até então ela desconhecia, aquele pedaço de paz, vento e árvores balançando. E ao mesmo tempo em que ela sentia o perfume daquela folha de eucalipto, ela lembrou-se de quando se aproximou para ver a programação dos bares no celular, e então ela sentiu o cheiro dele. Ela tinha problemas com cheiros. Na hora, ela pensou: “Fudeu”, e depois veio um “Se controle…”. Ele disse que leu “A casa dos budas ditosos”, ela se contorceu de novo, era seu livro erótico favorito. “Droga… se controle, se controle, foca…controle, relaxa, você é boba”, pensava ela, enquanto tentava sem sucesso dissipar-se da vontade de agarrá-lo. Ela ria, mas por dentro se contorcia, e as pernas tremiam, e ela fingia que estavam apenas conversando sobre o universo, a vida e tudo mais, e que nada daquilo a excitaria, e ela não transaria na primeira noite, coisa que nunca fez. Sempre teve uma opinião de que a mulher deve deixar o homem curioso, com o desejo que nos próximos dias que estão por vir, uma fresta por vez do vestido será desnuda, mas não tudo de uma vez. E naquela madrugada de domingo, dia 28 de janeiro, ela quebrou as barreiras das convicções dela, e ela nunca se arrependeu. Deixou-se levar pelo desejo, pela chama, pelo lugar, pelo ser cativante e inspirador que ele emanava com paz e tranquilidade. Ela já estava cativada, enquanto ele a acariciava, ela tentava manter a eloquência de raciocínio, até que ele percebeu que ela estava perdendo o rumo dos pensamentos, que às vezes ela parava e suspirava forte, foi aí que ela se entregou e aceitou a ideia de que ela não conseguiria resistir. Ela relutava, enquanto deitada ali, e no primeiro beijo que ele deu nos seios dela, especificamente no seio direito, o tesão que latejava no meio das coxas a denunciou, e então ela perdeu o rumo. O hálito de vinho merlot dos lábios dele e o frio do vinho que ele derramou nos seios dela, os beijos nas costas nuas, no caminho da espinha, fizeram-lhe sair completamente da toca, e o barulho do sexo ao ar livre era uma melodia que em nada perdia para uma orquestra sinfônica. Ela não sabe dizer se algum carro passou ali e algum stalker viu aquela cena toda. Ela estava excitada demais com a respiração ofegante e forte no pescoço dela, que nem ao menos o vento intenso daquele local, que fazia as árvores balançarem de um lado para o outro, mas ela sentia… E sentia intensamente. Era apenas ele e ela, ali naquele momento, em chamas, embaixo daquele luar enlouquecedor e a garrafa da bebida que tanto influenciou os poetas desse nosso mundinho ordinário, porém maravilhoso.

E a licença poética daquele lugar, escreveu na memória dela um conto erótico, e ela não poderia, sentada numa mesa, ao som apenas das hélices do ventilador, deixar passar as impressões daquele dia que ocorreu há exatamente três meses atrás. Ela queria que esse conto fosse um presente entre ela e ele. Um presente sincero, talvez assustador, uma epifania pintada em cores de Almodóvar, mal escrita, mas com a sinceridade de um Woody Allen…

"Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo."
“Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo.”
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Epifania: Clarabella.

Clarabella acordou numa manhã disposta a arrumar a casa. Na verdade, ela fazia isso quando se sentia magoada, o ato de se reorganizar era uma forma de colocar sua alma tão aturdida em uma paz teleguiada. Era como se ao limpar o chão, varreria do porão da memória toda a angústia que a atormenta. Começou pelo quarto, arrumando a cama, com os lençóis cheios de vincos, lembrança de uma noite que tentou sem sucesso ter algum pingo de amor do marido. Ele chegou tarde e cansado, ela preparou-lhe um jantar e o aguardava apenas de lingerie. Passou o fim de tarde toda preparando um assado, ele olhou, comeu um pouco apenas para não vê-la triste. Dizia-se cansado, o trabalho estava massacrando-o e ele se sentia estilhaçado. Tomou um banho, deitou na cama, dormiu. E ela então colocou seu velho pijama confortável para dormir, mas havia perdido o sono, e quando ela ficava magoada, sentia fome. Fez um prato de comida, e foi para o sofá, carregando todo o peso dos estilhaços, uma tristeza vítrea. Se ao menos, ela pudesse ter alguém para reconstruir-lhe sua alma já tão minimizada, talvez um artista conseguisse enxergar a beleza dela, e faria um vitral com o Amor que ela tão esperançosa acreditava. Ali, naquele sofá da sala, assistindo filme romântico de fim de noite, estava uma mulher adormeceu com o controle remoto em cima do peito, subindo e descendo conforme respirava, e nos sonhos , ela vivia em um mundo menos mesquinho e cheio de noites de Amor. Não culpava o marido, apenas não sentia aquele amor todo que sempre almejava. Tentava amar aquele que sempre lhe ofereceu a mão, que esteve ao lado dela nas dores da vida, mas faltava algo.

Na limpeza do quarto, encontrou um velho baú ao qual guardava suas memórias. Fazia um tempo que ela não o abria, pois quando ela fazia isso, uma saudade da época em que não tinhas tantas obrigações, invasões de tal forma que ela passava a relembrar o passado com olhos perdidos, e uma espécie de torpor causado pela saudade, fazia desligar-se do mundinho real, inserido naquele contexto ao qual ela não almejou.

Dentro do baú ela encontrou a doçura e a inocência de seus tempos de criança. Havia uma boneca que ela carregava para todos os cantos. Ela dizia que era sua filha. E ali, naquele momento, Clarabella, já adulta, experiente e de olhos ainda desacostumados com as provas que a vida escancarava na sua janela,  sabia que o mundo é egoísta e destruidor de sonhos, mas ela não desistia, era uma Dom Quixote de saias, sempre lutando com seus moinhos de ventos transmutados em dragões. Naquele momento, com a boneca nos braços, começou a balançá-la enquanto murmurava uma canção de ninar:

“Dorme, dorme menininha…Eu estou aqui…

Vá sonhar, ainda é tempo, menininha

Vá, vá dormir…Sonha sonhos cor de rosa

Passeia no céu e no mar

Apanha o mundo no teu sonho, menininha

E não deixa ninguém roubar…

Olha, não reparta com ninguém os teus sonhos de menina

Dorme, dorme…Dorme e sonha menininha

Sonha, é tempo ainda…”

 

Naqueles braços, a boneca lhe trouxe as memórias do sonho de ter uma filha. O nome da boneca era Sophia, e ali, agarrada, sentada ao chão em frente de seu baú de memórias, olhou para o relógio e viu que as horas estavam paradas, ignorou o fato de ser apenas um relógio com pilhas mortas, e em um esconderijo de fundo falso no guarda-roupa, as roupas de recém-nascido que compra todo mês, um sonho antigo, eterno. Era ali seu segredo, ela queria uma criança, mas o marido não. Ela queria um pedaço dela nos braços, mesmo que não tenha ali, o DNA de seu amor verdadeiro, um homem que conheceu há anos, e nas idas e vindas de um amor já antigo, a vida lhe deu soco no estômago que lhe impossibilita de viver aquele Amor.

Olhando para a boneca Sophia, apaixonada pelo gesto de ternura, pelo sonho de ser mãe, ficou preocupada, achando que seria daquelas mulheres presas dentro de um hospício, falando sozinha, no canto de uma cela, com uma boneca no colo e injeções diárias de antidepressivos. Passaria o dia dormindo, sonhando com uma criança correndo entre os irrigadores do jardim. Então, rapidamente guardou a boneca, e as roupas de bebê no fundo falso perfumado com sachê de rosas. Sentou na beira da cama, e com o rosto entre mãos, derrubou lágrimas tristes e convictas de que nunca conseguiria ser mãe.

Foi numa tarde de domingo, que numa caminhada para aliviar a tensão, encontrou uma linda cadelinha numa feira de adoção. Levou-a pra casa, colocou uma fita vermelha no pescoço, e presilhinhas nas orelhas. A cadelinha agradeceu o carinho lambendo-lhe o rosto e adormecendo nos braços de Clarabella. E ali teve uma epifania, e o mundo não parecia mais tão egoísta.

“Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela…

Eu quero ser feliz agora

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
E que quem tem medo deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
E que nessa festa você tá de fora
Que volte pro rebanho.

Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora”

PS: Os trechos em aspas são músicas do Oswaldo Montenegro. 😀

As horas nuas.

“O amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor. O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, menos para as vidas sem amor.” Oscar Wilde.

Eu passei tanto tempo encantada com a suposição de que a eternidade exista apenas para aqueles que caem aturdidos diante o fracasso, lamentando os pecados. Eu pensei tanto no conceito de pecado, divagando em linhas tortas as minhas próprias convicções sobre os sete pecados capitais. Eu pensei na luxúria de um homem e uma mulher errante, na avareza de um mercador de flores, ao tentar reconstruir tulipas pintando-as com formol, como se elas fossem eternas e ele nunca perdesse o que cultivou. Pensei na preguiça que me acolhe aos domingos, mesmo com o sol me sorrindo lá fora, faz tempo que meu dia não nasce duas vezes, e então eu padeço numa preguiça levada em galopes de saudade, eu tenho minha saudade quando nas manhãs preguiçosas. Eu sinto a gula tecendo meus sonhos de cama manchados de desejo. A gula, metaforicamente um desejo de carne, aquela que desce languidamente da nuca até o torço, gula que se enlaça, olhando as veias e tendões aparentes de meu amor com braços ao volante. E o que falar da inveja? Eu não sei bem dizer o que é inveja. Talvez uma inveja daqueles casais que sentam juntos em mesas de cafeterias, inveja daqueles que podem ir à Paris apenas para escrever, inveja daqueles que podem contemplar a beleza de seus olhos de dilúvio ao longo do dia.  Eu sinto a Ira da tempestade que cai lá fora, e quando eu saio lá fora querendo me encharcar, eu queria a vaidade daqueles que se molham por puro orgulho. Queria que me visse de roupas molhadas, com frio, mas com um sorriso no rosto como uma criança que fugiu de casa apenas para brincar na chuva. E depois um banho quente e acolhedor, usar meus utensílios de vaidade, passar um traçado negro em meus olhos, deixar algum trecho de minha pele nua, apenas para lhe provocar, um orgulho bobo de te ver na rua ao longe e guardar em segredo, por pura vaidade passar ao teu lado e apenas esboçar um sorriso maroto, de passar próximo a sua casa e nem lhe fazer uma visita, olhar o horizonte de ruas cheias de folhas de outono caídas ao chão, e pintar uma saudade carregada de sete pecados. Avareza em querer tomar uma garrafa de vinho sozinha, gula ao querer devorar e ser devorada, preguiça ao querer dormir ao teu lado e de lá não sair mais, inveja do vento ao entardecer que lhe toca a face, ira daqueles dias que te estressam e lhe sufocam a alma, estrangulando teu tempo já tão escasso, luxúria ao te desejar nas minhas madrugadas úmidas de insônia, orgulho de poder escrever isso assim, nas horas nuas da madrugada…

Crônicas do Pub: Dicas de sexo da Escritora Fracassada.

No meio de rostos embriagados, canecas vazias, música deprê de um cantor noir fracassado drogado e bêbado ou apenas drogado, ou apenas bêbado, ou ele era daquele jeito mesmo, vai saber… Em suma,  decadente, tal como ela, “A Escritora Fracassada” com olheiras profundas e bafo de blend. Passou o dia sem seu English Breakfast, e se você leitor não sabe o que é English Breakfast, ou acha que é aqueles chás gostosos importados, aí meu caro, você se engana.

twinings_english_breakfast_tea
Na minha cabeça, isso que era English Breakfast. Esses chás caros e gostosos da Twinings…
Delicious! Feijão enlatado esquentado ou requentado, ovinho frito, "sausage", black pudding (morcela,conhecido também por chouriço, linguiça recheada com sangue suíno temperado), chutney de tomate. Eles "chucham" o pão no feijão com molho e comem. Acompanha chá com leite. Raspberry no ônibus e no trabalho. Normal!
English Breakfast: Delicious! Feijão enlatado esquentado ou requentado, ovinho frito, “sausage”, black pudding (morcela,conhecido também por chouriço, linguiça recheada com sangue suíno temperado), chutney de tomate. Eles “chucham” o pão no feijão com molho e comem. Acompanha chá com leite. Raspberry no ônibus e no trabalho. Normal!

Enfim, nossa personagem, a “Escritora Fracassada”, ficou com seu café da manhã incompleto. O feijão enlatado já aberto, estava estragado na geladeira e talvez seja por isso que a frase “I can smell a raspbery!”, quando ela abria a geladeira era tão repetida pelas festas de final de semana, regadas a cervejas, whisky e cigarros. O pão que ia sempre à fatídica torradeira estava colonizado por simpáticos fungos verdes que diziam “Hello your bastard!”, se ao menos fossem fungos alucinógenos, poderia render um chá de pão. Fazem isso com os cogumelos colhidos na região de Glastonbury, onde seu tio tinha um pequeno sítio. Mas tinha chá inglês, porém o leite estava talhado e o limão acabou.  Naquele dia, no seu café da manhã, ficou apenas com salsichas enlatadas fritas em gordura, ovos fritos na gordura da salsicha enlatada e purê de batatas com molho de sobra de carne com cebolas. Sentiu falta do feijão, molho sauce e pão. Estava cansada, cinzenta e então começou a beber naquele dia bem cedo. O pub abriu pontualmente às oito horas e quarenta e cinco segundos da manhã em Soho, a pontualidade britânica tão irritante. Um dia, marcou um encontro com um brasileiro às sete e quinze da noite em frente da universidade Oxford. Ele atrasou-se dez minutos e ela achou isso uma afronta. Deixou-o lá perdido e sem entender porra nenhuma. Sentou no balcão jogou uma nota de vinte euros no balcão e pediu um canecão de stout e um pedaço de torta :

“Pie and pint please”

“Lager, ale or stout?”

“Stout”

pie and pint stout
Stout: cerveja preta de origem irlandesa ( apesar disso, muitas são fabricadas na própria Inglaterra, inclusive, alguns pubs tem fabricação própria de cerveja) 😀 Na foto, creio que seja uma ale. A stout é bem preta, pois tem maior teor de leveduras. Também tem maior teor alcoólico.
Essa é uma torta de carne com rins bovinos. Pode ser servida apenas com a parte de cima da torta, como podem ver na imagem. A cerveja Larger é mais clara e mais suave. Servida gelada, ao contrário da Stout, que pode ser pedida em duas temperaturas: natural, ou seja, quente, ou gelada.
Essa é uma torta de carne com rins bovinos, conhecida por lá como ” steak and kidney pie”. Pode ser servida apenas com a parte de cima da torta, como na imagem. A cerveja Lager é mais clara e mais suave. Servida gelada, ao contrário da Stout, que pode ser pedida em duas temperaturas: natural, ou seja, quente, ou gelada.

Leu os jornais diários cheios de notícias patéticas. Cansou-se, foi para casa no leste de Londres, Shoreditch, esboçou sua coluna da semana para uma revista semanal de mulherzinha que lhe rendia seus trocados de bar, além do seu trabalho de escritora de obituários no pior jornal londrino, que as velhinhas adoravam ler no chá da tarde. Sua casa em Shoreditch  era uma autêntica casa “Ctrl C  + Ctrl V”, herança de sua mãe. Shoreditch não era um bairro nobre, mas tinha a boemia e o caos que precisava. Não conseguia enxergar-se morando em bairros politicamente corretos como Hampstead Heath ou Notthing Hill. Talvez, quando envelhecesse, optaria em morar num cottage na área rural.

Casinhas Ctrl C + Ctrl V
Terraced House: Casinhas Ctrl C + Ctrl V
Cottage House: típicas casas de campo, encontradas nas áreas rurais ou pacatas da Inglaterra.
Cottage House: típicas casas de campo, encontradas nas áreas rurais ou pacatas da Inglaterra.

Ela era uma atriz cujo papel era “dar uma de colunista cool entendida de moda”, e achava aquilo um saco. Mas era sua fonte de renda até uma revista decente reconhecer seu talento, ou até a falta dele para ganhar um pouco mais. Existem pessoas que escrevem bem ganhando uma miséria e escritos ridículos que ganham rios de dinheiros escrevendo “coisas sérias”. Ela queria ser da “panelinha”, mas ela não tem saco pra ficar puxando saco, entende? Com o tempo ela vai levando os louros miúdos da fama. As mulherzinhas gostam do papo infame de qual guarda chuva combina com seus eternos casacos pretos de inverno e sapatos impermeáveis ou aquelas dicas de sexo ridículas que ela escreve bêbada altas horas da madrugada, sentada no sofá.

Tempos atrás, uma leitora escreveu para a coluna do leitor, que o marido adorou a ideia do sexo “Bangers and Mash”.

Bangers and Mash: Uma imagem vale mais do que mil palavras.
Bangers and Mash: Uma imagem vale mais do que mil palavras.

Dicas de como fazer um “Bangers a Mash” com seu pobre coitado lindo english lord:

  1. Não coloque o purê quente no sausage dele, coloque levemente morno, tendendo ao frio;
  2. Cuidado com os dentes;
  3. Não coloque molho gravy de cebolas no purê pois dá bafo e ele não vai querer beijar você depois;
  4. Ao final do sexo, peça pizza e cerveja Guinness.
A "Escritora Fracassada" escrevia dicas ridículas de sexo para um versão "Nova" inglesa... Sarcasm? Ironia...Ironia...
A “Escritora Fracassada” escrevia dicas ridículas de sexo para mulherzinhas alienadas para uma versão semanal “Nova” inglesa… Sarcasm? Ironia…Ironia…

A única coisa real que ela escreveu para ser levada a sério, era a regra dois, e a pizza com cerveja pós-sexo. Ela esperava ser demitida, mas pelo jeito isso rendeu até um aperto de mãos da chefe perua de voz estridente e sotaque de Manchester e um “Congratulations” . Quando ela escrevia coisas sérias, ela nunca recebia um parabéns. A vida é assim, damos mais valor ao ridículo. Mas enfim, rende boas piadas de pub regadas a pie and pint com os amigos. Mal esperavam a sessão de cartas da edição posterior e a caixa de e-mail lotada da “Escritora Fracassada” para darem altas risadas dos agradecimentos de dicas de sexo e moda. Ela queria, por vezes, morrer, mas se divertia e ainda por cima ganhava uns trocados para curtir a vida nos pubs de Soho e Shoreditch.

Banger and Mash with three sausages na busca do site "Revista Nova Edição Inglesa" retorna: "Do you meaning: Gang Bang."
Banger and Mash with three sausages na busca do site “Revista Nova Edição Inglesa” retorna: “Do you meaning: Gang Bang.”

Pássaro.

“Essa é a última canção que você irá cantar…
Segurei-o de cabeça pra baixo, quebrei seu pescoço
Ensinei-lhe uma lição que ele jamais esqueceria”

Queria sair por aí, com uma mochila nas costas, andar sem rumo, sem sentir o peso da saudade. Talvez nunca mais voltar. É um grito que escorre por aí nas ruínas do alter ego. Como um cão sem dono, vagando pelas ruas, sem rumo, talvez esperando alguém para acolher. Queria também ser como uma andorinha, sair por aí, voando, mas com o risco de ser um pássaro devorado por gato faminto ou por pura brincadeira de extinto, apenas um novelo de lã que sente dor. Gatos brincam com a comida, mas sem necessariamente querer devorá-la. Já vi um gato matar uma andorinha por puro prazer, era um lindo gato siamês de olhos azuis. Ele brincava com a andorinha já morta pelas mordidas e arranhões. Carregava o pobre pássaro pra lá e pra cá como um troféu. Quando se cansou deixou a andorinha morta com tripas expostas no gramado do condomínio. Eu não pude fazer nada, apenas lamentar, e na minha curiosidade de criança observar o gato com sua brincadeira sádica. E o sadismo também existe com os homens. Nas guerras matavam por pura diversão. Homens, mulheres e crianças, enfileirados de frente pra uma vala a céu aberto. Mãos nas costas e gritos de misericórdia. Olhavam para baixo e apenas o tiro e pedaços de miolos espalhados. Os soldados apenas os chutavam dentro das valas. Se não fossem executados, morreriam de fome, não havia ali meio termo, não havia tempo, não existia nada ali, apenas o ceifeiro invisível esperando recolher as almas que muitas vezes devem ter fugido, vagando até hoje por memoriais tristes e hipócritas. Se eu fosse um pássaro, eu não queria ser um da época de guerras, eu não sobreviveria ao som estridente de tiros e bombardeios. Teria minha alma de pássaro fraturada, dizem por aí que animais são mais puros e “humanos”, mas eu me lembro do gato sádico, e havia um brilho cruel e inquietante naqueles olhos azuis de felino. Eu poderia ser o seu jantar, se eu fosse uma andorinha.

Hurricane Drunk.

“Eu vou sair, Eu vou beber até a morte”

Acordou pela manhã fria e preguiçosa com a tal dor de cabeça dos infernos. Apesar do frio, raios tímidos de sol mostravam-se lá fora, mas o vento que entrou pela persiana da janela a dizia que era para se agasalhar. Foi como a voz da mãe, que na sua adolescência ficava gritando da sola da porta que se ela não levasse um agasalho, iria pegar friagem. Nunca escutava a mãe, odiava coisas que a apertavam, preferia passar um bocado de frio, do que sair toda coberta por aí. Inverno era seu terror, sentia-se numa pressão ao qual não escaparia. Roupas grossas de inverno cobrindo-lhe o corpo, não gostava daquilo, mas não tinha como fugir, na época de adolescente a desculpa de conhaque com limão e mel não funcionava, e quando funcionava a mãe a repreendia, discussões e mais discussões e a garrafa de conhaque da bolsa espatifada no chão da cozinha, sua mãe sempre fazia isso e a fazia limpar os cacos no chão da cozinha. O não conformismo da mãe a fez se rebelar mais, e ali, olhando para a janela do apartamento que era de sua mãe, antes dela morrer atropelada na avenida por um bêbado suicida na contramão. Denise tinha 35 anos, maços de cigarros vazios na beirada da cama e garrafas vazias pelo apartamento, dividindo espaço com o ateliê ao qual levava a vida.

Quando completou a maioridade, era responsável por si, sua mãe não poderia atirar as garrafas aonde bem ela queria. Ela trabalhava desde os 15 numa loja de discos, fumava e bebia o dia inteiro, mas levava o dinheiro pra casa. Tinha o sonho de entrar para a universidade, queria fazer artes visuais. Tinha um namorado, ele fazia tatuagens nela de graça, e foi internado três vezes para reabilitação. Entrou para o mundo do crack e matou a avó com cadeiradas porque a avó não quis lhe dar dinheiro. Ela ainda ficou com ele, visitando-o na prisão, até ele se enforcar na cela. Enterrado numa cova simples, apenas Denise e a Mãe foram ao enterro. Um dia, Denise chegou fumando charuto cubano de canto de boca e com os dois braços cobertos de tatuagens. Sua mãe apenas olhou, com um olhar de reprovação. Ela tinha completado 21 anos na noite anterior, não comemorou com a mãe. O silêncio da mãe, sepulcral. Denise estava na cozinha, cheirando a álcool, cigarros, charutos e suor, preparando café, para curar a ressaca. As únicas palavras de sua mãe foram “Tem comida na geladeira, precisa comer… Estás magra demais… Comprei bolo, estava esperando você chegar, para cortarmos, como nos velhos tempos. Seu presente está no quarto.” Tendo dito isso, foi para o quarto, com sua xícara de chá de erva cidreira. E a mãe de Denise passava os dias assim, com a aposentadoria do marido, fazendo artesanato, trancada no quarto, entupia-se de Rivotril, Fluoxetina. Tentou ensinar a filha a bordar, mas Denise carregava dentro dela uma rebeldia, e dizia que mulheres modernas não têm de saber disso e que a arte feminina deveria fugir de rótulos, mulher não sabe apenas bordar, ela, Denise não sabia bordar, mas pintava retratos eróticos, participava de orgias e as retratava com grafite e a ajuda de esfuminho e borracha macia. Denise chegou ao quarto e estava em cima de sua cama uma maleta cheia de pincéis e tintas. Havia um bloco de papéis e dez telas de pintura. Apoiado na parede estava um cavalete de pintura em madeira nobre. Sentiu que mesmo sua mãe indo contra a maré de ideologias que ela carregava, de alguma forma a mãe acreditava nela, mesmo nos momentos em que chegava bêbada e dormia até o dia seguinte. Não se esquece do dia que sua mãe a jogou debaixo do chuveiro e viu todas as tatuagens antes escondidas por camisetas escuras. Não falou nada, apenas balançou a cabeça, indignada. A fez tomar várias xícaras de chá, e dormiu ao lado dela a noite inteira. Sua mãe achava o tempo todo que ela estava doente, e a fazia comer, Denise obedecia, mas sumia durante semanas e até meses, mas sempre ligava para a mãe dizendo que estava tudo bem. E as duas conviviam assim, debaixo do teto do pequeno apartamento. A mãe, viciada em chás, tricô, novelas e antidepressivos… Denise em álcool, cigarros e arte. Ficavam em silêncio, era mais suportável. O Amor entre elas, alcoolizado e depressivo. Estava fria aquela manhã de lembranças, Denise precisava comprar cigarros e comida para o gato e a iguana que estavam em algum lugar do apartamento. Foi para a rua com o suéter de tricô feito pela mãe. Era sua forma de pensar e estar com ela.

As travessuras de Mario Vargas Llosa.

Eu adoro literatura, sou uma devoradora de livros que dentro dos conceitos de uma religião budista posso ter sido um traça no passado. Numa de minhas aventuras pelo mundo fascinante da literatura está o contato com autores da América Latina, e um deles, ao qual me encantei, é o vencedor do Prêmio Nobel, o escritor peruano Mario Vargas Llosa.

Conheci essa joia literária em minhas aventuras pelo mundo dos blogs. Foi lendo uma coisa aqui e ali, que me senti numa força adorável de sair da minha toca de escritora e ir para uma livraria, o que convenhamos, não é lá muito difícil, tendo em vista nosso perfil. Isso é fenomenal, e sabe por quê? Por que mostra que uma leitura em poucas linhas pode nos influenciar a querer algo, isso é uma arte, falam tanto da tal “lábia”, e isso é fato, ela está aí para comprovar.

Cheguei à livraria, dei o título ao vendedor e pronto! Lá estava eu, alegre e saltitante, com meu primeiro contato com a “coisinha à toa”, apelido carinhoso da Menina Má para o protagonista Ricardo Somocurcio, peruano, que trabalha como tradutor da Unesco. Dizem que o livro tem fundos autobiográficos do autor, mas vamos pensar qual autor que não tem palavras impressas do seu eu, aquele tom íntimo, que apesar de estar lá escrito aos olhos dos leitores, só ele realmente sabe dizer qual o limite da realidade daquilo? Costumo dizer que escrever exige apenas uma musa inspiradora, tem gente que têm várias, mas digo que a musa de todo escritor ou escritora, é a Vida. Costumamos usar nossos Amores como “musos” ou “musas”, mas nossos amores fazem parte da vida, logo penso que não somos imorais, tal como Lord Henry de Oscar Wilde dizia em “O retrato de Dorian Gray”:

 “Toda inspiração é Imoral (…)”.

Tão logo, o questionamento se “Travessuras de uma Menina Má” é ou não autobiográfico, não nos traz a questão. Quem sabe um dia, isso venha à tona? Bom, vamos voltar ao enredo do livro… Ricardo Somocurcio conheceu a Menina Má no bairro de Miraflores, na capital do Peru. E começa então a desenvolver a trama, que passa em vários locais do mundo: Peru, Paris, Inglaterra, Japão e por fim, Madri.  Ahhh e por que a personagem chama-se Menina Má?

Ela ganhou esse nome, pois desde que ela instalou-se no mundinho do personagem Ricardo, ela o virou das avessas. A estória do livro, sobretudo,vai além das faces do Amor.  São viagens pelos lugares onde os protagonistas vivem intensamente suas idas e vindas, todas as idealizações políticas-culturais dos anos 60,70 e 80. Temos o Peru na época da ditadura e guerrilhas, Paris e os anos 60, com seus revolucionários planejando as lutas armadas enquanto comem “croissant” nos cafés parisienses, pessoas lendo Hemingway nas mesmas cafeterias e visitando o museu do Louvre e o palácio de Versailles. Depois do universo romântico e idealista da Paris de Hemingway, o leitor passa a viajar no amor livre e lisérgico dos anos setenta. Os personagens que aparecem nessa época são extremamente cativantes, e certamente uma lágrima rolará até dos olhos do mais ogro leitor. Depois de toda a revolução amorosa vivida em Londres, Ricardito, o “bom menino” vai para o Japão, cultura oriental efervescente com o cenário da máfia japonesa, sob uma esfera de medo e muito ciúme. Depois da viagem ao oriente, vamos para a terra granada, dos touros ensanguentados, na intensa capital da Espanha, Madri. Nessa época, temos todo o contexto histórico dos anos 80: os conflitos políticos da Espanha totalitarista de Franco, e os primeiros filmes de Almodóvar.

Lily, a “Menina má”, que já vão conhecer logo nas primeiras páginas, é uma mulher de várias faces. Suas nuances se misturam nos personagens que ela cria, em cada país, todos eles com nomes diferentes. Neste romance, vivemos as múltiplas facetas de Lily, sentimos raiva, comoção e Amor pela personagem. Ricardo Somocurcio viveu anos apaixonado por Lily, mesmo com suas constantes idas e vindas e muito jogo sujo por parte de Lily, malvada, sedutora e misteriosa. É um livro que me fez pensar nos grandes encontros e desencontros da vida, e que o Amor pode ultrapassar barreiras, mesmo ele sendo tão “não-convencional”, fugindo de todo padrão. Sobretudo, vimos ali em tons dignos de Woody Allen e Pedro Almodóvar, que creio eu diretores perfeitos para um filme inspirado nesta obra de Llosa. Um livro intenso, que nos faz sentir e vivenciar em trezentas e duas páginas, todo o furor e intensidade de três décadas, e sim, nos faz ver a verdadeira face do Amor, pintadas em linhas sobre as personalidades múltiplas de Lily e toda a paciência, compreensão e esperança do “coisinha à toa” Ricardo, que como tradutor e intérprete, nutre pela Menina Má e travessa,  um Amor tão intenso digno de um romance. Eis aí o presente de Vargas Llosa para nós, leitores. Mario foi Vencedor do Prêmio Nobel, Prêmio Cervantes (grande prêmio da literatura em língua espanhola) e laureado como Príncipe das Astúrias, ao lado de outros gênios da arte e cultura, tal como Oscar Niemeyer, Woody Allen, Pedro Almodóvar, Paco de Lucía e Bob Dylan.

Mario Vargas Llosa pode ser muito do seu personagem Ricardito, mas temos certeza que ele não é um “coisinha à toa”, mas certamente, um bom menino, que muito enalteceu as letras latino-americanas.

“Uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.

– E por que pensou isso?

– Porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. Agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. Pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. Não foi, bom menino?”

 

 

Crônicas Completas: Russel e as pradarias.

Capítulo I: Pradarias

Russel está cantando nas pradarias, quando o inverno russo se aproxima, ele faz seu trompete chorar, enquanto sua mãe chora pela matrioska quebrada. A mãe amada de Russel, espatifada no chão em convulsão.
Ele está indo para Budapeste, mas também gostaria de ir para Bellerophon, mas a Grécia está muito longe, são milhas e milhas de distância dos gelados ventos do leste europeu, ventos que o fazem se encharcar na melancolia transparente da vodka. Vãs memórias inundam seu peito, sua mãe entregando-lhe uma rosa, já com o estômago cheio de remédios escolhidos aleatoriamente, engolido com uma garrafa de vodka, cujo resto deslizou até embaixo da mesa, onde via os pés e pernas de sua amável mãe em um terremoto insano. Antes de dizer “Adeus”, sua amada mãe disse: “Apenas diga ao teu pai, que eu o amei muito”.
Sua irmã, Elissa, dormia, e quando Russel tocava seu trompete, Elissa chorava, berrava, e a mãe de Russel a acalmava com seu retorno doce de mãe. E Russel se cansava, pegava seu trompete e se colocava a tocar nas pradarias tristes. Visitava seu pai nas minas, homem forte, porém pré-envelhecido. A sujeira do carvão dava-lhe traços rudes, primitivos.
No frio daquele leste europeu, todas as matrioskas eram incompletas, Russel andava em círculos, nas pradarias contínuas do seu ego e força de viver, mesmo sabendo que nada cresceria ali, nas pradarias inférteis pelo frio. Nas pradarias que ele tanto amava, não existe nada, apenas sua mãe cansada num túmulo triste com apenas uma cruz de madeira, e lobos uivando na noite. Até mesmo, quando viva, a mãe de Russel estava sempre cansada, mesmo nas passeatas onde Russel tocava seu trompete e as baionetas furavam sorrisos descontentes. Matrioskas caiam no chão durante a fúria perante a morte da matriarca, que dizia que se a Felicidade tivesse uma cor, ela seria vermelha. E ela o abraçava, antes de dormir, e quando seu pai chegava, ela chupava os dedos de carvão dele. Pra ela, sua amada mãe, aquilo era um momento de carinho, não importava a sujeira interna e externa de seu pai, que transava com as operárias sujas e suadas nas galerias escuras.
Dentro das casas as matrioskas quebram a mãe de Russel o amava, numa tristeza incontida das baionetas que cantavam lá fora. Por isso, Russel sai correndo em direção às pradarias. Queria ele ir para Budapeste, pois dizem que lá, todas as emoções são ditosas e incontidas. Levaria seu trompete, e o estalar de seus dedos magros e sofridos, percorrem a pradaria do Leste Europeu. Russel amava aquele lugar, assim como o vento amava a face do seu pai, enegrecido pelo carvão, e os cabelos longos e loiros de sua mãe.

Capítulo II: Matrioska e o delírio das pradarias.

A mãe de Russel queria passear nas pradarias geladas. Ela mal conseguia ficar de pé, mas em seu sonho de mulher prestes a morrer, ela se via com os cabelos loiros de saudade balançando no vento gelado. E ela, em seus sonhos ainda lúcidos, balbuciava ao filho que o pai estava chegando enegrecido pelo carvão, surgindo no horizonte, como um soldado voltando da guerra, carregando uma baioneta com a ponta cheia de sangue seco. Era a glória, manchada, tingida de sangue oxidado, coagulado, a beleza da violência fazendo sua mãe sentir desejo reprimido, a crueldade estampada em desejo, imaginava seu velho homem tingindo-se com o sangue do inimigo, via as veias e tendões dos braços, transcenderem em trilhas do desejo, enquanto carregava os corpos para serem jogados em valas fétidas. Depois, sonhava com os olhos dele, azuis quase cinzas de dilúvio… Via as chamas que queimavam os cadáveres dançando nos olhos quase cristalinos, e o fogo e esforço fazendo-o suar, mas ele era apenas um trabalhador das minas de carvão, e ela sabia que estava morrendo, nas pradarias do Leste Europeu. “Russel meu filho, apague a luz, e diga ao teu pai que eu o amo.” Russel apagou a luz, secou as lágrimas, pegou nas mãos de sua irmã, e foram brincar nas pradarias tristes.  A matrioska continua incompleta, a saudade fragmentada em mil pedaços.

Capítulo III: O sorriso de Elissa.

Elissa quer correr pelos prados, ela queria sorrir também, mas é uma criança com um sorriso fraturado pelas passeatas onde as famílias carregam seus entes mortos pela guerra, furados por baionetas que cantam uma canção triste de que a ideologia deve ser engolida às forças, com todo o sangue amargo. “Papai vai chegar Russel!”, gritava Elissa correndo em círculos, o olhar triste da mãe perdido no horizonte, enquanto ela penteava os cabelos na janela. Russel tocando seu trompete, intercalando com goles de vodka. Se ele soubesse escrever, seria um poeta bêbado. A mãe gritava da janela que precisaria de panos úmidos, ela sempre falava isso, pois queria limpar o rosto manchado de carvão quando o pai de Russel chegasse, mas ele nunca chegou. Sua mãe sempre dizia que seu pai tinha uma beleza imunda, e a única coisa limpa nele eram os olhos azuis de dilúvio, de uma beleza cristalina quase cinzenta, contraposta a sua beleza enegrecida. Os trabalhos nas minas de carvão deixavam seu pai imundo… Era a fuligem do carvão que o fazia bater na mãe. Quando ele retornava ao trabalho, a mãe sempre gritava que o amava na soleira da porta. Via seu velho homem indo embora, depois dele dar-lhe um beijo e dizer que também a amava. Sempre pedia perdão pelos braços roxos dela, a culpa era sempre da vodka.

“Russel, um dia terá a pele tão áspera quanto a de teu pai, será um herói nas terras sofridas e gélidas, o carvão não nos mata, apenas nos deixa imundos…”

Russel sabia da tosse negra do pai, Elissa quando viu seu pai manchar um velho lenço de escarro negro, por mais que fosse uma criança, sabia que algo muito errado existia ali, mas sua mãe queria o tempo todo se enganar que aquilo era normal. Por isso Russel estava sempre com Elissa, brincando de correr um atrás do outro na pradaria deserta, próximo ao velho casebre de madeira que viviam. Quando Elissa estava com ele, ela sempre o contemplava com um riso de criança, e quando ela chora de saudades do pai, ela corre para os braços roxos da mãe. Russel pega sua garrafa de vodka e caminha sem rumo com seu trompete pelas pradarias gélidas. Notas tristes ecoam, um falcão da pradaria apenas o observa ao longe.

Capítulo IV: Canção Cigana.

A mãe de Russel canta versos ciganos, enquanto Russel brinca com Elissa erguendo ela para o alto. A sobriedade abandonada depois de uma garrafa de vodka o faz querer voar e fazerem os outros voarem. Gostaria de voar por cima dos campos de trigo, e quando se aproximasse dos campos de guerra, carregaria a alma dos soldados mortos junto a Deus. Queria Russel ser um mensageiro, um mensageiro de almas, pegar as almas que rondam próximas as valas lotadas de corpos, já indistintos um dos outros. Existiam ali talvez, civis, soldados… Crianças. Um dia, andando pelas pradarias, encontrou uma família abrindo uma cova para enterrar a filha. A mãe com o lenço envolto na cabeça, com a face molhada pelas lágrimas causadas pelo terrível Ceifeiro. O pai abria a cova, enquanto o irmão mais velho segurava um corpinho frágil envolto por um velho pano branco. Russel viu que uma mecha de cabelo loiro escapava do lençol. Poderia ser sua irmãzinha ali, mas quem cavaria a cova? Ele… Seu pai não existia mais, e quando aparecia era apenas um vulto etílico que estuprava a mãe. Mas sabia ele, que ela gostava daquele “jogo”, preferia pensar que aquilo era um jogo, uma brincadeira de mal gosto de adultos. Gostaria que a guerra estivesse por perto, pois as canções dos tiros das baionetas ao longe, abafariam os gritos hipócritas da mãe.

Olhou para mãe, ela ainda cantava silenciosamente versos ciganos, e eles corriam como uma lebre. Russel sabia, que toda vez que a mãe entoava aquela canção, era porque a saudade queria gritar. E ela gritava, em forma de canção cigana.

Capítulo V: Saudade e Vodka

O pai voltando das minas, Russel jamais espera isso. Ele foi uma alma que partiu, um pobre homem soterrado pelas convicções sujas e negras, ou uma explosão do gás metano, explosão de arrependimento talvez, por ter abandonado os filhos com uma mulher miserável e já doente. Ele se foi, deu um sorriso de canto de boca e um beijo longo em Elissa e Russel. Olhou calmamente para a mãe de Russel, que trançava os cabelos em frente ao espelho, longos cabelos loiros, como os trigais avulsos das pradarias tristes do leste europeu, beijou-a como se fosse a última vez, e num afago nos cabelos, disse apenas que a amava.
O pai de Russel tinha lindos olhos azuis e um silêncio que matava, e por vezes, quando voltava bêbado das minas, mãos que estrangulavam. Mas todas as manhãs, quando Russel acordava e olhava em direção à cama dos pais, via os dois abraçados como se nada tivesse acontecido. E os lençóis ao chão, com manchas negras de carvão. Esta foi última vez que viu o pai junto à mãe, e crê que apesar de tudo, sentia saudades de seu velho, dos momentos em que eles caminhavam pelas estepes a caçar coelhos, tiros de baioneta embalados a goles de vodka. “Cuide delas”, foram últimas palavras de seu pai, e assim, ele sumiu, caminhando nas pradarias, com os olhos azuis baixos de tormenta.

Capítulo VI: O lobo das estepes.

Russel em seu pesadelo corre, e sua mãe afunda na lama, gritando para ele pegar os casacos, as botas e não esquecer-se de esquentar-se junto à fogueira, pois as pradarias e estepes são frias e perigosas. Ele corre, e em sua mente a voz da mãe ecoa como um grito nas montanhas solitárias, “Corra meu filhinho, o inverno chegou e ele dói, suas narinas se abrem, no âmago da sua respiração de fugitivo, e eu sei que você sente o lobo te espreitando na escuridão…”. E ele realmente sabe, tal como sua mãe.

Sabe o quanto o uivo do lobo curioso tem um cheiro agradável, que no fechar dos olhos ao dormir, o Lobo das Estepes o persegue, assim como as digitais dos sujos dedos de carvão de seu velho e desaparecido pai, estampadas no último copo de vodka que ele deixou em cima da mesa antes de partir pra sempre. A sombra do Lobo que o atormenta, responsável pelo ato dele encolher o corpo enquanto dorme, mas deixa em seu rosto um sorriso triste, desesperado, mas com tom de sadismo consumado.

Em seu pesadelo ele vai para os prados e estepes com sua baioneta para caçar coelhos, ele sempre encontra o tal do lobo, mas ele sabe que nunca conseguirá matá-lo. Quando o uivo aproxima-se ele fecha os olhos e tampa os ouvidos, porque a Beleza do Lobo certamente irá cegá-lo e o uivo enlouquecedor, o deixará surdo. A mãe dele, suja de lama, balbucia, “Reze meu filho… Reze”, mas enquanto o lobo rasteja sobre o corpo dele, arranhando-lhe as costas, ele não sente dor. Na cena onírica do lobo em cima dele o lambendo e encarando, um medo com desejo sutil, e sabe ele, que por mais que ele feche os olhos enquanto o desejo permeia em seu sexo, não poderá deixar-se cair em tentação, mas sempre se esquece de rezar. A mordida do lobo na linha tênue do pescoço já se tornou um vício, uma ferida que ele tenta cicatrizar jogando vodka, ferida que arde como paixão dançando nas chamas das fogueiras dos soldados russos em campanha. Será ele hipócrita, ao sentir dor e prazer? Não sabe ele dizer… Ao acordar, assustado, manda três copos de vodka goela abaixo, enquanto as matrioskas da pequena mesa o encaram, cada uma com um julgamento de tamanho diferente, mas não importa, sabe e esconde por baixo de sua matriz de arrependimento, que quando o lobo das estepes se aproxima, as estrelas surgem no seu céu particular, e ele corre… Do uivo que ensurdece e beleza que mata. Na sua baioneta nunca tem bala de prata… E jamais terá…

Capítulo VII: Na beira do rio Neva.

 Russel estava tocando uma canção na beira do Rio Neva. Estava ele e Elissa no enterro da mãe. Uma cruz de madeira no chão, algumas flores. Fizeram uma viagem na velha carroça do tio Vlad. Russel sabia que sua mãe pediria uma canção triste e também sabia que queria ser enterrada com sua matrioska. Ela não admitia, mas sua mãe era refém da tristeza, e de alguma forma ela aprendeu a lidar com aquilo, inclusive amá-la. Entoou uma canção cigana, a favorita de sua mãe, e enquanto cantava, veio a lembrança de sua mãe entoando canções ciganas apoiada na janela de sua velha e deteriorada morada na pradaria. Ela sempre começava a cantar com os olhos perdidos no horizonte, e terminava sempre com os olhos fechados e o rosto molhado em lágrimas. Depois que cantava, ela enchia a cara de vodka, e ficava a amaldiçoar os olhos claros e rosto enegrecido de carvão do marido. Russel segurava as mãos magras e trêmulas da mãe. Sua mãe dizia que a única coisa que tinha era um gosto amargo na boca. De fato tinha, era sangue, a doença já estava instalada e a Morte estava chegando a galope. Quando ela deu o último suspiro na cama, Russel sentiu um vento gelado, e não era das pradarias. Foi seu primeiro encontro frente à face fria e invisível daquela que ninguém consegue fugir.

Dias antes, como se ela soubesse do que a esperava, chamou Russel para a beira da cama. Ele estava com um prato de sopa rala de batatas, única coisa que tinha naquela pobre casa, e dava para a mãe comer, as mãos dela não conseguiam mais segurar uma colher. “Russel meu filho, estou encomendada aos anjos. Cuide bem da sua irmã, não me culpe, daqui a pouco seu pai chega, segure as mãos dele sujas de carvão, e vá passear com ele nos Montes Urais. As colinas de Valdai também são bonitas, nos casamos lá. Meu sonho era pegar um trem e partir para São Petersburgo, ver as passeatas de Rjev…”.

Russel deu um sorriso, na última pá de terra da beira do Neva que cobriu o corpo da mãe envolto em um velho lençol de manchas negras que ela se recusava a lavar. De alguma forma, havia ali um pedaço de seu pai, mesmo que seja apenas pó negro de hulha. Lembrou-se do semblante triste da matrioska que ficava ao lado da cama. Um dia, seu pai o levou para as margens do rio Volga. Passaram a noite lá, encobertos pelo frio, aquecidos pela vodka. A baioneta do pai descansava ao seu lado, e dois coelhos assavam na fogueira. Foi ali naquele local, que seu pai disse uma frase ao qual ele nunca esqueceu:

Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…

Após os últimos ritos do enterro, Russel segurou as mãos da pequena Elissa. Foram passear na beira do rio Neva. Provavelmente Elissa vai morar com o tio Vlad, e então Russel vai desaparecer com seu trompete, cujo som será levado sem rumo pelo vento gelado do leste europeu.

Capítulo VIII: до свидания (Adeus)

Elissa ficou na guarda de seu tio Vlad. Partiram para Praga, onde poderá ter uma vida melhor. Russel resolveu ficar, renunciou todo conforto, quis seguir suas raízes, tão fincadas nas pradarias frias. Carregaria sempre consigo a velha baioneta do pai, será um nômade, trocando seu trompete noite adentro. Sonhará com um lobo salivante mordendo o pescoço, acordará e tomará o primeiro gole de vodka, que descerá inquietante garganta adentro. Talvez aceite algum trabalho temporário nas minas de carvão que encontrar pelo caminho.  Conhecerá o amor de várias mulheres, algumas delas dar-lhe-ão um abrigo temporário. Depois ele irá embora, sem se despedir, deixando uma mancha de carvão nos pobres lençóis das matrioskas, que se abriram ao seu toque de homem em arquejos de desejo, que as encheu de calor nas madrugadas frias. Amará cada uma delas, mas as quebrará em milhares de pedaços. Um dia ele vai se apaixonar, mas ele crê que terá que renunciar a dor. A mãe sofreu demais, passando anos e anos esperando seu pai surgir no horizonte. Quando aparecia, deixava nela marcas de embriaguez, e um amor que nem anjos e demônios são capazes de compreender. Ela amava  o marido e sonhava com sua vinda triunfante, como um soldado que venceu a guerra. O tempo passou, sua mãe morreu e foi enterrada na beira do rio Neva envolta de lençóis usados e sujos de hulha.

Viu Elissa partindo numa velha carroça com uma mala, partiria depois em um monstro de ferro que a levaria para Praga. Nunca se esquecerá dela, olhando para trás, com os olhos cinzentos em lágrimas e parte do seu cabelo loiro saindo do lenço, que tremulava ao vento. Era mais um dia frio nas pradarias, mas desta vez era um dia bem mais triste, carregado de adeus, e uma saudade eterna, que gritaria para sempre sua dor por todo Leste Europeu.

Russel seguirá então os conselhos do pai, pois não há mais nada que ele possa fazer. Apenas seguir em direção ao rio, e tudo o que ele mais queria, era poder ver o tempo cumprir seu dever, o fogo em linha horizontal, sem rumo, queimando lembranças tristes. Num saco velho, colocou suas coisas, ele nunca teve muito, a pobreza nunca o permitiu nada mais que roupas deterioradas, uma caneca velha, o trompete  e a baioneta do pai… Um velho caderno preto com partituras. Bastava cortar algumas lenhas para comprar garrafas de vodka. Tinha os velhos cobertores e lençóis gastos da mãe. Apenas isso bastava. Colocou fogo no velho casebre de madeira. Todo o cheiro ocre de lembranças despedaçadas e transformadas em cinzas. Foi embora, sem olhar para trás. Uma nuvem negra subia para o céu, avisando a todos que ali não tinha mais nada a se fazer, nada a se guardar, todas as matrioskas eram cacos, e não havia tempo para vitrais. A velha porcelana russa perdeu todo o seu valor.

E a voz de seu pai, e a lembrança dos olhos azuis, envolto de rugas de expressão e um cansaço tão triste que chegava a ser belo, foram com ele, na sua busca por acalento onde as baionetas cantavam canções de sorrisos e amores estilhaçados:

“Dê-me sua mão, vamos cantar na beira do Volga, vou te contar um segredo meu filho:
Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…”

Ele percorreu milhas e milhas, até chegar à beira do rio Volga. E Russel desapareceu, sem deixar rastros, nem folhas de seu velho caderno preto, restou apenas esperança, e a lembrança daqueles que ouviram seu trompete de notas incólumes às tragédias. Ficou a lembrança de seu calor nos dias das mulheres que ele amou. E todas elas, tal como sua mãe, aguardam até hoje, ele surgir no horizonte. Russel desapareceu, mas sua marca permaneceu, e os ventos gelados do Leste Europeu nunca mais foram os mesmos.

“ …entregava-se àquele alheamento profundo, uma espécie de torpor, continuando o caminho sem dar a mínima importância às coisas circunstantes, sem querer reparar no que o cercava. De quando em vez, entretanto, resmungava palavras indistintas, em virtude do hábito de monologar, de que, ainda havia pouco, se confessava atacado. Percebia que, às vezes, as ideias se lhe embaralhavam no cérebro e adquiria consciência de sua extrema fraqueza”. (Fiodor Dostoiesvski)

Cores.

Todas as minhas cores
Transando em teu cheiro
Cantando tons de saudade
Inquebrantável…
Aquarela em teus beijos
Dê-me o frio de tuas cores
Tuas cores cinzentas
Em dias de chuva
Cabisbaixo silêncio
Cores monocromáticas
Úmidas pela chuva
Dê-me o calor de tuas cores
Quando o dia nascer duas vezes
Raios amarelos no céu, arquejo…
Cores dançantes ao entardecer
Lúdicas folhas de outono ao teu redor
Todas as minhas cores
Em uma caixa, singulares
Em teu abraço pretérito
Sorrindo em teu riso
Inquebrantável aos teus olhos
De dilúvio cor de céu
Olhos que falam, inquietos
Todas as suas cores,
Em sua caixa, trancada
Reclusa… Calada
Todas as suas cores
Um retrato na memória
Todas as suas cores
Um arco-íris em meu ventre
Borboletas inquietas
Ao cair da noite acalentada
Ao amanhecer estoico
Entardecer transigente
Minhas cores úmidas
Aquarelas em meus lençóis
Todas as minhas cores
Dentro de uma caixa
Vivendo o calor dos dias
Chuva tórrida de desejo
Cores de Arlequim
Amor de Colombina
Espetáculo da vida
E todas as minhas cores
Dentro de uma caixa…