Confessionário

O prazer é um pecado, e às vezes o pecado é um prazer. 
(Lord Byron)

As luzes lá fora já se apagaram. Os quatro comprimidos sublinguais de Rivotril duas miligramas estão se desmanchando na boca. O conhaque Presidente está pela metade, sorrindo pra ela, o gato oportunista passeando entre as pernas, entrelaçando-se, olhando pra cima e emitindo o som estranho que vem dos gatos: ronronar… Ronronar. Ela sempre gostou desta palavra, soa estranhamente erótico. Doente… Pensou ela… O gato, de alcunha Byron, queria carinho? Não, ele quer comida, está sempre faminto, com olhares piedosos, tal como o gato do desenho do ogro verde e o burro falante. O prato de Byron, o Gato está vazio. Talvez tenha um pouco de leite não coalhado na geladeira e um resto de comida de gato enlatada. Byron a encara, na penumbra da madrugada aqueles olhos amarelos lhe dão arrepios e ele a segue sentindo-se satisfeito quando ela coloca a tigela de comida ao chão.

Gatos desgraçados, tão classudos, comendo sentados, parando para respirar, olhando ao redor. Aqueles olhos amarelos de reprovação, enquanto ela toma goles longos de conhaque e acende a porcaria dos cigarros mentolados que ela esconde na gaveta. Os comprimidos de Rivotril, numa pasta nojenta, misturando com o conhaque made in Paraguai na boca. Aquela sensação relaxante, quente, densa e consoladora, com um peso de um homem entre as pernas, seu velho homem.

Os olhos do gato dizem: tal como o peso daquele seu velho homem ao qual você nunca teve.

Dá uma alta risada de escárnio, e vai se derretendo no sofá, com o olhar perdido no teto mofado com pintura descascada. Talvez toda a concepção que ela tenha a respeito de sexo, seja como aquelas paredes, aquela pintura… Incompleta, inacabada, cheia de manchas. Talvez ela se junte ao trovador bêbado que passa todas as noites declamando versos desconexos embaixo de sua janela, mas hoje, justamente hoje que ela precisava se deleitar do escárnio dos desgraçados, eles não cantam suas emoções. Fica somente o eco das vozes na escuridão, repetindo como trechos de canções em disco riscado…

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

É o que diz no disco riscado do Pink Floyd. Enquanto “Echoes” toca e ela delira no sofá, os olhos do gato, reprovadores, encarando-a como os olhos do padre durante a confissão. Lembrou-se que só se confessou uma vez na vida, na primeira comunhão. Entrou em uma sala no pátio da Igreja Nossa Senhora Aparecida, da cidadezinha pacata onde todos puxam o “r”. O padre estava sentado numa grande cadeira de madeira maciça e couro. Conte-me seus pecados minha filha, do que você se arrepende? Mas eram pecados de criança, tal como roubar doces, gastar dinheiro do lanche com fliperama,  subir no telhado escondido, simular sexo com a Barbie e o Ken, e fazer desenhos sem educação sobre a professora chata. Vou-me confessar Byron… Só você me entende, eu sei e você agora está com aquele olhar de que quer me ouvir…

Byron, o gato, se aproximou, lambeu-lhe a mão, não gostou muito, tinha gosto de conhaque, nicotina e sangue. Ela cortou a mão na lata de comida pra gato e não percebeu. O chão da cozinha estava manchado, contando histórias no chão. Mas o gato ficou lá, sentado, olhando pra ela, seminua e bêbada no sofá.

Byron eu pequei… Eu peco todos os dias, todas as noites…

O gato arrepia os pelos, lambe as patinhas e volta em sua posição de olhos atentos.

Eu queria beijar-lhe a boca inteira, afundar minhas mãos nos negros cabelos,

 Daquele seu velho homem que você nunca teve, disse o gato, com os olhos…

 Eu poderia lamber-lhe a cara, eu poderia beijar todos os pelos do rosto. Aquela barba negra por fazer. Eu poderia Byron… Eu poderia pensar em um milhão de coisas sujas e vulgares, eu poderia dançar nua pela sala, eu poderia fazer uma rima pobre e podre, mas eu não sou poeta. Eu poderia percorrer-lhe o corpo inteiro, como um inseto ou morder-lhe como um animal sádico, brincando com a presa. Aquele velho homem… Velho… Antigo, empoeirado, um quadro inacabado perdido em um souvenir.

Tomou mais um gole de conhaque; desejar sem poder é pecado? Até onde minhas entranhas expostas são um grito desconexo de utopia? O que é utopia? O que eu tenho medo? Qual o índice da minha maldade? Da nossa maldade, sem exceções? É matar alguém com 200 facadas, é torturar uma criança até a morte por inanição? É ver um cadáver na rua esperando o rabecão e tomar uma cerveja na calçada da esquina? Eu posso sufocar meu tesão com um travesseiro e pedir desculpas depois? Eu posso lhe arranhar as costas, posso traçar mapas de desejo no meio do suor, pelos, veias e tendões? Qual o prazer em sentir dor? De ver meu corpo rasgado e com marcas profundas de dedos, pequenas irritações causadas nas pele por causa do passeio de um rosto barbado? A preguiça masculina de 3, 4 dias de pelos na cara. E o meu corpo no espelho, dilacerado, desalmado e talvez amado? Qual foi o meu pecado? Pecado Byron… PE-CA-DO…

 Byron subiu no sofá, sentou no ventre nu e suado daquela que balbuciava eloquências e metáforas, e com olhos piedosos passou a língua áspera no ventre dela, como se quisesse caçar as mariposas no útero. E os pelos do gato como uma carícia, as patinhas pressionando como dedos. Ele se deitou, encarou-a com os olhos de incógnita e o piscar de felino. Trouxe-lhe a exata sensação de que o pecado era para ser vivido, mesmo na utopia. Dormiu, sonhou com o seu velho homem, que tem olhos e jeitos de felino. Dorme e sonha com dias poéticos, desgastados, descascados, com um pouco do mofo das tristezas, cores sinestésicas e os ventos de alegrias cheias de tragédia. Versos, neologismos, dor, beijos e gemidos.

 O gato olhou para a janela, poderia dar um passeio lá fora, no mundo paralelo dos gatos, perturbando o sono alheio com as transas felinas que atiçam o sono dos incautos, mas ficou com sua dona, e pensou nos albatrozes, “imóveis no ar”, do disco riscado do Pink Floyd. A noite foi como eco, cheio de vozes e desejos ensandecidos. A noite apenas começou, com seus encantos, prazeres, pecados e desejos, deitando em metáforas, aforismos, metonímias e falácias. O bêbado trovador passou embaixo da janela.  Todos os olhos felinos piscaram e sorriram, enquanto lambiam-se uns aos outros, as patas, a cara, o corpo, o sexo…

Escrito ouvindo isso aqui várias vezes:

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Encontro

Tentei encontrar abrigo na ponta dos dedos. A língua salivante no céu da boca enquanto a noite de verão tece seus desejos e infortúnios e a fome e loucura assombra-me entre as pernas. Tento, talvez em vão, encontrar o momento de sobriedade na realidade além daquele quarto quente cujo ventilador exausto espalha o vento quente e viciado. Na penumbra deste quarto pestilento de desejos não realizados e versos mal construídos e sem compromisso, vejo minhas fotografias de criança penduradas na parede, próximas ao espelho. Aquela menininha banguela, pirracenta e cheia de ironia me dá um sorriso envolto de sarcasmo. Entro então em uma prosa em primeira pessoa, uma lembrança de um tempo em que a vida consistia em ficar em cima do telhado de casa, era a vida vista de cima, sob o olhar curioso de uma criança cheia de perguntas e que na maior parte do tempo, passava sozinha, tentando entender  algumas metáforas que surgiam naquele pequeno mundinho que a cercava. Aquela criança que me encarava naquele papel antigo de fotografia, achava que beijos apaixonados era nojento. A saliva quente se misturando nas bocas alheias não era o que hoje é pra mim uma sinfonia gostosa escorrendo em baixo ventre. Diante de fantasias e pensamentos eróticos, uma banho frio nesta noite pestilenta traria-me novamente a razão e a sanidade. Voltei a lembrar da enorme ratazana que eu e os vizinhos encontramos no quintal… Um café me faria bem agora. Um café forte, quente e denso…

Cais de poesia

1 – Assombro

Barcos no horizonte, sombras na areia
O sorriso incontido de felicidade clandestina
Andando pela praia, sol que deita na pele
Baixei os olhos para o silêncio de meus dias
Enquanto uma marola de beleza invadia meu peito
E as palavras ditas e não ditas, escritas em tinta preta
Soltas em devaneios que dançam conforme a maré
E as cores intransigentes no horizonte vespertino
Buscaram sua paz naquele quadro de sol com dilúvio
Ao longe, a tempestade se aproxima com seus raios e trovões
E um eco de perfeição ao longe que escorre na pele
A chuva que molha meu corpo e ensandece meu juízo
Tinge minha paz no conforto daquele gosto de céu
E longe do caos, do barulho ensurdecedor de minhas dores
Caminho sem rumo, como um barco em alto mar
Guiando-me pela minha necessidade de solidão egoísta
Deveria voltar, e aceitar aquela chama que não se apaga
Suspirar pelas trilhas de pedras e erros no meio do caminho
Eu deveria ficar, tingindo meu céu de cores de Dalí…
Debaixo de um pano cinzento e silencioso de nuvens parvas
O meu amanhecer é quase estoico… E as tardes são transigentes
A noite chega para me contar sua beleza e seus encantos
Os dias trazem as carícias de desejo e assombros.

2 – Dilúvio

De repente o céu desaba, é um dia de Verão
Crianças brincando na rua, desatinam a correr
Algumas lambem o céu, outras pulam as poças
Mulheres na calçada correm para o lar
A chuva cai e leva consigo papéis e folhas
Cada gota que escorre dos meus lábios
É o gosto de um amor amargo de Verão

3 – Acaba?

E nunca acaba, nunca termina
Dia após dia a soma de aquarelas bucólicas
Desenhos canções e tragédias em furta-cor

4 – Encore, une fois

Tingindo de vermelho os caminhos desnudos,
Todos os caminhos solitários na bruma da noite
Meus quadros de cores esvaídas ao fundo
Instinto animalesco de depravações conscientes
Aquele softporn solitário, satisfações pesadas
Fazendo o desalinho em lençóis solitários
Domina-me por completo meu conjunto de sombras
Chamando para dançar na beira de um abismo
Lá embaixo, apenas metáforas e desejo úmido e incontido.

5 – Baque

Causa-lhe horror,
Rasga-lhe a alma
O martírio e o dedo na ferida
Resigna-se… Cruel
Ofereço o céu
As cores
As dores
O corpo
Mãos em desespero
Desorientadas
Quentes,
Como uma estrada no verão…
Perfeita esta ilusão
O baque,
De nossos corpos
Caindo…

6 – Just another night in Portland

Apostei todos os meus medos
Em copos de rum e deslumbres
Teci minhas metáforas em linhas de seda
Tão macias quanto aquela canção de fim de tarde
Na manhã de domingo a névoa me envolveu
E encheu meus cabelos de orvalho
Preenchi meus dias com vinho e cigarro
Preenchi meus dias com amores vazios
E na tarde de domingo deitei meus olhos
Para nunca mais voltar, apostei meus medos
Misturei desejo em um copo de gin
Joguei cartas e quebrei garrafas
Foi apenas uma noite como outra qualquer.

Emulador de emoções

“Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.” Albert Camus

Chamas. Naquele acampamento do auge de meus quinze anos, eu via as chamas dançando enquanto a batata com fondor (aquele pó amarelo que segundo a lenda, “amacia” carne), assava na fogueira, envolta de papel alumínio. E eu aprendi, que se você esquentar a água com uma pedra dentro, a temperatura se mantém como uma garrafa térmica. E me perguntam, “não seria mais fácil ter levado uma garrafa térmica?”. Sim, seria, mas eu penso que o ato falho do esquecimento da bendita garrafa, nos faz voltar a um estado primitivo. Tem gente que odeia acampar… “Onde vou conectar minhas máquinas?Ou ainda, existe camping com energia elétrica, já vi gente levando o grill, aquela coisa que só faz sujeira e deixa a comida borrachuda ou máquinas de fazer pão. Muitas vezes queria fugir para um lugar onde não existissem tantas máquinas de fazer coisas. Penso que daqui a pouco teremos máquinas que vão sorrir por nós. Algo como uma tela com um visor, e várias opções:

  1. Bom dia!
  2. Boa Tarde!
  3. Boa Noite!
  4. Tudo ótimo!
  5. Sim, muito! ( aquele sorriso de concordância, sabe?)!
  6. Tudo bem!E você?
  7. Tive um lindo final de semana
  8. Eu te amo!
  9. Sou feliz!
  10. Que dia lindo hoje!
  11. Tenho dinheiro na conta! (mentira, você está no cheque especial!)

Acordaremos de manhã, faremos nossas tarefas por vezes odiosas, tal como sair da cama, arrastar-se até o banheiro e começar a amaldiçoar o dia desde as seis horas da manhã, e isso se torna insuportável desde a segunda-feira. Normal, estamos sempre reclamando, jogando o celular na parede quando ele não para de despertar. Imagino nossas cabeças explodindo junto ao nosso ódio das passagens do tempo, junto com nossas convicções de que estamos ficando velhos. Sendo assim, viveremos com nossa máquina de sorrisos, talvez um aplicativo no celular que manda sinais para algum chip implantado nas nossas cabecinhas perturbadas, algumas bem ocas, só com o eco do vento entrando pelas têmporas e saindo por outro lado. Vamos emular sorrisos eletrônicos!Bons eram os tempos de criança. Criança não tinha a maldade de simulação…

Parece que pintamos uma fotografia daqueles tempos de criança sem compromisso, sem malícia e aquela perspectiva de que a vida seria uma eterna brincadeira, ou como os filmes da TV. Eu me lembro de que sempre quis viver uma aventura, brincar de pirata, e nunca mais envelhecer. Um sonho na Terra do Nunca. Crianças e seus sonhos… Um dia, eu queria ser caixa de supermercado. Na minha cabeça de criança, eu imaginava que todo aquele dinheiro que entrava no caixa, seria todo meu. Eu achava que as caixas de supermercado eram donas de tudo e moravam em suas confortáveis casas com uma piscina no quintal. Eu tive um amigo que dizia que seu sonho era ser coletor de lixo. Ele pegava os sacos de lixo escondido da mãe e espalhava no quintal, alguns com brinquedos dentro, e outros ele pegava da lixeira.  Tinha um triciclo azul, e andava pelo quintal, apanhando os sacos, colocando nas costas e levando até a lixeira. Quando o caminhão de lixo passava, saía no portão e olhava emocionado para aqueles homens que corriam atrás do caminhão. E sempre ele mandava “tchau” para os coletores que passavam no portão. No final do ano, ele pegava parte de suas economias, e entregava para os coletores, que passavam nas ruas, fazendo festa. Ele me contou que um dia, ao entregar o dinheiro para um deles, ele disse com um sorriso que quando crescesse, ele queria ser “catador de lixo”. O coletor sorriu, e quase chorou, porque aquele menino de cabelos bagunçados e boca suja de chocolate, dizia que se sentia orgulhoso, e não ligava para o cheiro ruim do caminhão de lixo. No meio de tantas pessoas passando e tampando o nariz, estava ali um ser que nunca deixou de cumprimentar ou dizer “Boa Tarde”.

“Não queira ser lixeiro bom garoto!Promete?”

E então o coletor saiu, correndo atrás do caminhão e olhando pra trás, deu um sorriso para o garotinho com ares de incógnita, parado no portão, com o cachorro louco correndo e latindo no pequeno jardim que havia na casa de infância. Para ele, não importava se a mãe dizia que aquilo era serviço de quem não estudou para ser alguém na vida. Aquele garotinho que mais tarde se tornou meu amigo e contamos nossos sonhos de criança numa mesa de almoço corporativo, não conseguia imaginar a sobrevivência em um mundo cheio de lixo… E nesse nosso mundinho de chorume, eu penso que acordaremos, e vamos escolher num visor a opção de sorriso. Sorrir dá trabalho, existem máquinas de fazer arroz, máquinas de fazer sanduíche, máquinas de fazer café… Enfim, máquinas. Hoje eu apertaria o botão: “Sorriso sarcástico com ponta de ironia”, mas a máquina de sorrisos apenas simula sorrisos de felicidade. No mundinho de lixo, acordamos emulando “sem querer querendo” sorrisos de felicidade, apenas para agradar, e evitar perguntas desnecessárias. Hoje, simulamos que somos correspondidos, por mais que nosso Amor nem nos olhe na cara ou que se preocupe com você da mesma ou na mínima maneira como você se importa,  ou quando dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” às pessoas e as desgraçadas não respondem, quando nos sentamos no banco de terminal de ônibus, cansados e introspectivos, com fone de ouvido ou um livro… Ou os dois… Chega sempre alguém querendo conversar, e você quer apenas fugir dali, mas sente-se obrigado a ouvir ou expressar um “É…”, “Hummm”, “Legal”, “É mesmo” na conversa. E quando chegamos finalmente em nosso lar, podemos pensar o quão nós somos mesquinhos. Já dizia Renato Russo, estamos mergulhados em nossa arrogância, esperando um pouco de atenção, sabe? Aquela que não damos aos outros. E eu vou lá, emular o meu sorriso de “Estado de Felicidade incondicional”, mas na verdade, estou com olhos de saudade, e um sorriso de lábios secos. Sabe? Arrogante, esperando um pouco de atenção e todo Amor do mundo para incendiar…

Detalhes

 Estava quase anoitecendo, começava no céu aquelas cores indecisas, um misto de claro-escuro, céu em tom roxo-alaranjado e o jasmineiro da esposa todo em flor. Lembrou-se de que quando criança, gostava de sentar-se na varanda com o avô e escutar suas histórias. Todas elas começavam com “há muito tempo atrás”. Perguntava-se qual a diferença disso com o comum “era uma vez”. Pode ser que o “era uma vez” referia-se a algo que nunca aconteceu, apenas uma lenda. As histórias de vovô eram de verdade. Sultões impiedosos, monstros, meninos com poderes mágicos, pássaros e mulheres donas de uma beleza inquietante. Eram essas histórias que impermeavam o seu imaginário de garoto. Hoje quase não houve mais histórias, ou estórias… que seja! Vovô morreu e as crianças não ligam mais para “essas coisas”. A história que ele mais gostava era de como o vovô conheceu a vovó. Fazia parte das histórias das mulheres de beleza inquietante. Toda vez que ele contava esta história ele sempre colocava elementos de coincidências, talvez, para tornar tudo mais poético, ou seria uma verdade carregada de poesia?

– No dia em que eu beijei sua avó pela primeira vez, a flor de minha mãe abriu. Ela nunca tinha florescido.

-Quando eu disse para sua avó que eu amava, uma estrela cadente passou no céu, e eu fiz um pedido. E ele se realizou…

Foi há muito tempo atrás e ele conseguia reconstruir os detalhes como se fosse um filme em sua cabeça. Seu avô tinha mostrado velhas fotografias de sua avó Martha, ainda quando jovem. Conheceu ela com 23 anos e ela tinha 15 anos. Andava com os cabelos escuros presos em uma trança, e usava impecáveis vestidos e linho e seda que iam até o joelho.

-Eu vi sua avó pela primeira vez quando eu comecei a entregar o jornal para o bairro. Trabalhava numa banca de um velho amigo da família. Passava nas casas interessadas, arremessando os jornais, que ficavam dentro de um cesto na bicicleta. Sua avó ia para a escola todas as manhãs, a casa dela ficava no alto de uma ladeira. Todos os dias, sete horas em ponto, sua avó saia de casa. Eu eu, admirado olhava ela andando, indo para a escola. A trança dela balançando de um lado para o outro,cuja ponta terminava em uma fita de cetim branco ou vermelho. E aquelas panturrilhas, a canela fina, o barulho do salto ao tocar no chão. Eu amava ver aquele movimento, aquele som, ela andando e a melodia do assobio de uma música. Às vezes ela cantarolava. Nos primeiros dias ela nem ligava pra mim, passei semanas fazendo aquele ritual.

Engraçado, pensou ele… Apaixonou-se pelas canelas. Não foi uma bunda, não foram peitos. Seu avô gostava das canelas e meia panturrilha, que aparecia a partir de onde o vestido acabava.

-Um dia, o tio de sua avó morreu, era amigo de meu pai. Tive a oportunidade de dar uma carona pra ela, ela conversou um pouco comigo, mas bem pouco, estava transtornada e cheirando a jasmim. Hoje, toda vez que eu vou ao jardim de sua mãe, e vejo o jasmineiro em flor, eu lembro da minha velha. São os pequenos detalhes sabe?

– Detalhes? Não… Eu ainda não sei, o que são detalhes?

– Um dia, quando crescer, vai ouvir falar de um tal de Flaubert. Tem uma frase que atribuem a ele, “Alguns detalhes se desvaneceram, mas a saudade permaneceu”… Do que você sente saudades?

-Sinto saudades do bolo de cenoura da vovó, feitos em dias de chuva. Nós comíamos na varanda, vendo a chuva cair. E nós contávamos os segundos, depois que um raio caía. E depois Brrrrrrrr! Trovão. Às vezes eu me assustava e vovó me abraçava. Mas, o que isso tem a ver com detalhes? O que é desvaneceram?

– Você acabou de responder sutilmente o que é detalhe. Desvaneceram vem de desvanecer… Tá vendo o céu agora? Está entardecendo, o sol, está sumindo? Entendeu?

-Entendi… É como o chá de cidreira da vovó!

-Por que?

– Quando ela preparava, o cheiro ficava na casa, mas depois, conforme o chá esfriava, o cheiro desaparecia.

-Isso mesmo… Eu não me recordo de muitos detalhes do dia em que eu conheci a sua avó. Eu não me lembro mais de muitas coisas, mas este entre outros detalhes, construíram uma saudade… Mais tarde, você entenderá.

-Mais tarde quando vovô? Amanhã?

-Sim, amanhã, depois de muitos entardeceres, como este.

E era mais um entardecer, depois de muitos. Foi um detalhe como esse, que o fez sentir saudades.