Stains on the memory…

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, como um irresponsável. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado amigo, no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos teus pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos seus braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, o gerente que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Queria explodir todos os meus relatórios, toda aquela baboseira de índices de gestão. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei  queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir. As estrelas lá fora, como candelabros…

The Spell (broken) – Karien Deroo
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Janela

Talvez eu seja jovem demais pra impedir que um bom amor dê errado

Chuva. Homens e mulheres apressados lá embaixo com seus guarda-chuvas negros, com os olhares sempre baixos, como se estivessem procurando suas lamentações,juízo e razões perdidas no meio das poças que se formam aos montes nas calçadas esburacadas. Passos apressados, sapatos velhos, novos, pequenos, grandes. Pessoas sem proteção correndo, alguns se protegendo com sacolas plásticas, mas sempre a velha pressa. Algumas, aguardavam a chuva terminar, embaixo de alpendres, cheios de rachaduras, pichações e cheiro de urina. Apenas a nudez do mundo, ao mesmo tempo calada com o silêncio arrebatador das pessoas cinzentas como o tempo e o ensurdecer dos motores de carros e ônibus. Diante da janela do apartamento, durante um gole e outro de café forte, amargo e sem açúcar, aquele mundo morno e requentado. Ao final da tarde, a chuva vai terminar. O sol aparecerá tímido, entre as nuvens cinzentas, e talvez, um sorriso surgirá naquelas pessoas taciturnas lá embaixo. Entre um gole e outro, eu penso naquele tempo em que meu velho amor ficava me encarando, enquanto eu contemplava a fúria e o frescor da noite na janela do quarto. Deitado, com um braço cruzado atrás da cabeça, soltando a fumaça de um maldito cigarro,  como veio ao mundo, um menino em corpo de homem, com seus medos, desejos, delírios, suas aventuras de ir e vir, contadas numa euforia entre um riso e outro. As luzes amareladas dos postes da metrópole invadiam o quarto, quase sem querer, sem pedir permissão. Eu, minha xícara de café, nua de meu pudor, coração aberto a expressões de prazer quando você beijava meus ombros quando passava por mim para alcançar o cinzeiro. E aquela mescla de nicotina com balas de menta, nos meus lábios de café, tomava café adoçado, você reclamava das minhas grandes gotas de adoçante, o tempo passou e comecei a sentir a vida de uma forma mais amarga. E você me dizia que eu parecia estar imersa em outro mundo paralelo, enquanto ficava diante da janela, cheia de convicções, medos, histórias e lembranças úmidas entre as pernas. E eu lhe observava de canto de olho, enquanto deitado, talvez um medo de você incendiar a casa, adormecendo com o cigarro aceso em cima da cama. Ao final, me transformei naquela piranha sem coração que você deixou, sem nem ao menos olhar para trás. Talvez eu pisasse no seu coração com a mesma força do homem correndo apressado lá fora, talvez, eu seja orgulhosa demais para pedir desculpas, talvez eu sinta uma pequena incógnita tirando meu sono, enquanto molho meus sapatos, enquanto sinto cada gota de chuva escorrer entre meus lábios, é aquela maldita cena de você indo embora naquele sábado chuvoso. O café amargo e sem açúcar é apenas minha nova forma de ver o amor. Um dia me disseram para colocar um chocolate Alpino no café, mas eu penso que isso é apenas um disfarce sutil. Ao final, a amargura toma o lugar da doçura e posso sentir a minha úlcera gritando, e aquele amargo estrangulando, apertando a garganta, mas é algo bom, estimulante, forte, porém amargo. Adotei um gato, e ele fica me olhando com os grandes olhos amarelos. Ainda deve ter uma lata de comida na dispensa. Ele se aninha e esfrega-se em minhas pernas, soltando um ruído estranho. Eu coloco uma tigela de comida e entre uma bocada e outra, ele senta e lambe as patinhas, e me olha com aqueles olhos, aqueles olhos que me dizem que a cama está pronta, os lençóis impecáveis, a louça na pia, que tenho de ligar para mamãe e que mais uma vez eu trouxe trabalho para casa. Eu devo abrir a janela e deixar a chuva entrar, eu devo assistir a cena toda, sentada no sofá, sem roupas, apenas com cinco gotas de colônia atrás do pescoço. Eu poderia esperar você entrar pela porta e beijar meus ombros de novo, tal como diz naquela canção, “my kingdom for a kiss upon her shoulder”. Talvez eu me contorça de desespero, talvez eu venda tudo e desapareça mundo afora, contemplando a nudez na metrópole de outro país. Enquanto penso nestes disparates, na nítida e mesquinha falta de sorte, meu café esfria, e em goles de sadismo, minha amargura fria desce pela garganta. O sol começa a aparecer. Talvez um arco-íris surja lá fora… Vou escutar o mesmo disco, várias e várias vezes. Tomarei as cervejas que você deixou na geladeira, fumarei todos os seus cigarros que estão na gaveta, sem nem ao menos saber tragar. Soltarei um sorriso sádico enquanto a nicotina acaba com meus pulmões, e na próxima chuva, sairei lá fora, sem guarda-chuva, tomarei um café duplo e amargo naquela cafeteria que íamos todos os dias, e voltarei para casa, na mesma fúria amarga. E talvez isso nunca acabe, o gato continuará me encarando, tomarei meu café na janela na próxima tempestade e pensarei nisso novamente. Talvez eu me lembre de colocar o tapete escrito “Seja bem vindo” na porta de casa, talvez eu me lembre de comprar um guarda-chuva. Quando você voltar, não se esqueça de limpar os pés e trancar a porta. Você deveria aparecer…