Cores de Frida Kahlo

Horas e horas contemplando aquele retrato. Poderia pintá-lo a óleo numa tela, mas talvez a saudade e mágoa não deixassem. Segurou aquele retrato com as mãos, sentada no meio de várias caixas, e o seu cigarro já esquecido no cinzeiro, dava o tom de uma tristeza já tão envelhecida naquele apartamento apertado do subúrbio. Estava empacotando as emoções, lembranças, medo, êxtase, sairia daquele lugar, levariam aquelas lembranças para um lugar sem rumo, um lugar onde não houvesse telas, tintas e pincéis e nem seus conhecidos demônios.

Levantou-se daquele chão empoeirado. No meio do caminho chutou uma garrafa de vinho. Assustou o gato que dormia ao lado de uma caixa com seus textos e poemas. Tomou um susto, o gato veio enroscar nas suas pernas. Ela mal comia, pois os remédios para ansiedade lhe tiravam a fome. O famoso X-Bacon de final de semana, já não lhe dava mais excitação nenhuma. Comer sozinha, nunca lhe pareceu tão triste. Em cima da mesa, um cenário apocalíptico. Restos de comida, cinzeiro lotado, café frio numa xícara escrito “Eu te amo”. Pegou a xícara, que ganhou dele, de dia dos namorados e a atirou na pia. A xícara estourou, em pedaços e o café envelhecido manchou-lhe a parede. Eu te amo, eu te amo, eu te amo… As palavras repetiam-lhe como uma música em disco riscado. E o rosto dele, tão sereno e sorridente,mas não tal como o dia o que o conheceu nas ruas floridas e frescas de Amsterdã, o rosto dele era uma mistura de raiva e encantamento. Ela o conheceu no seu momento mais animalesco, mas aos poucos arrancou o primeiro sorriso. Ela andava de bicicleta, com sua cestinha de tulipas. Era aquele seu sonho, quando o destino era a Holanda. Ela andaria de bicicleta e compraria um ramo de tulipas de um mercador de flores. E no meio daquele sonho realizado, esbarrou num rapaz que teve a câmera fotográfica roubada. Ele corria desesperado atrás do ladrão, e ela na sua alegria desenfreada, hipnotizada pela brisa dos canais holandeses, acertou em cheio o rapaz. Um braço e um pé quebrado, depois dele a xingar no seu momento de fúria e dor, ela o visitando constantemente,indo aos shows nos pubs,  tarde tomando chá com bolachas, e aos poucos a amizade muito bonita sendo construída. Alguns meses depois, depois de happy hour e um passeio pela rua vermelha de Amsterdam, só pela brincadeira. Nesta rua, as prostitutas dançavam na vitrine e chamava os rapazes, um convite para o prazer. E então ela brincou, numa brincadeira de sem querer querendo, que se ela estivesse numa vitrine, ela o chamaria. “Chamaria-me pra quê especificamente?”, “Para me ensinar a dançar, olha como eu danço mal…”, ela agarrou num poste, começou a rodopiar, e o seu lenço vermelho movia-se com o vento e os seus movimentos, tão docemente desengonçados, misturava com sua boca carmim , o lenço e a boca, e os olhos grandes e brincalhões. Ela rodopiou demais, e ele estava rindo, segurou ela, para que não caísse na sua alegria regada à cerveja de pub. “Sua bobona…”. Meia hora depois eles rolavam, se apertavam, molhavam-se nos lençóis em um apartamento minúsculo no subúrbio de Amsterdam.

Ela vendia livros e pintava quadros e ele era músico. Todo pub que ele tocava, ele oferecia uma música a ela. Eles já escreveram músicas juntos, cantaram  juntos, ela desafinou, várias e várias vezes, e ele dava risada, apenas para deixar ela brava, ele adorava ver seu lado selvagem e depois acalma-la nos seus braços no sofá embaixo da janela. EU TE AMO, EU TE AMO, EU TE AMO…E então ela se acalmava e um sorriso malandro estampava instantaneamente no rosto dela. E então ela o sufocava entre os peitos e transavam naquele sofá, ignorando toda falta de conforto. O Amor e Sexo era uma forma de sedativo para tudo aquilo que possa ser desagradável. Eu te amo, eu te amo… Ela tremia, e apenas chorava vendo o borrão de café na parede. O gato olhava pra ela, com a cara de desaprovação. “Você nunca gostou muito dele não é?”, disse ela olhando para o gato que agora lambia a pata. Ela abriu a geladeira, pegou o frasco de leite. O leite estava estragado, assim como metade do pouco que havia na geladeira. “Ainda deve ter comida enlatada para gatos na dispensa”. Foi na dispensa, pegou a lata, abriu-a e cortou os dedos, xingou, sentou e chorou. Despejou a lata no chão, e o gato que a encarava sentou-se e comeu a comida.  Depois disso, foi até ela e lambeu o sangue dos dedos, e aquilo era tão real, mas parecia que estava em um pesadelo. Ela queria apenas que estivesse lá, neste pesadelo, mas na vida real, ele ainda transava com ela no sofá, ele ainda tirava seu vestido preto de seda num desejo beirando o desespero. Mas não, ela estava lá, no meio do caos, com suas lembranças empacotadas, o gato lambendo o sangue dos dedos e o cheiro do seu homem impregnado no sofá. E se ela estivesse numa vitrine, seria sempre ele que ela chamaria para dançar…

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Cores de Almodóvar

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar…

"Ouça-me bem amor Preste atenção, o mundo é um moinho Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos Vai reduzir as ilusões à pó."
“Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.”

Acordou, eram sete horas da manhã quando o despertador tocou. Ela colocou um ringtone de um galo cantando, pois isso a lembrava os bons tempos em que morava com os pais numa chácara de uma cidade do interior. Estava gostoso, ali, na sua cama, debaixo das cobertas. Deixou o modo “cochilo” por 10 minutos, apenas para colocar os pensamentos em ordem. Ela não gostava de se levantar em movimentos bruscos, acordar logo após o despertador. Era necessário um tempo, para retomar a realidade que a esperava todas as manhãs, um tempo para se recordar como foram seus sonhos, um tempo para se recompor de um pesadelo, simplesmente um tempo efêmero, que equivale a finalmente abrir o olhos, se espreguiçar e deixar as roupas ao chão em direção ao chuveiro. Uma paradinha básica para ver o rosto amassado no espelho do banheiro e os olhos de ressaca. Ficou contemplando a imagem matutina no espelho, até que o vapor do banho morno borrou sua face. Entrou pra debaixo do chuveiro, e em 15 minutos, no seu ritual diário de purificação, limpou o corpo e a alma dos fantasmas da noite passada, e em meia hora depois, trancou as portas de casa e atravessou a rua para o ponto de ônibus.
O dia lá fora estava de cores mistas. Um lado do céu estava triste, em tons de cinza. Do outro lado, um azul tímido queria surgir entre o alaranjado do amanhecer que estava desvanecendo. A brisa batia suave, e o cheiro era de orvalho de grama da ruazinha de baixo. Naquele bairro suburbano, as árvores davam um tom mais amistoso na cidade de pedra e nos dias de outono, as folhas amareladas davam o tom nas calçadas de concreto. No ponto de ônibus, pessoas com seus maus-humores habituais. Ela diz “Bom dia!”, mas talvez, o talvez o tom acinzentado do céu transmita às pessoas um tom mais frio, certa vontade de recolher-se pra dentro. Na esquina, na beirada da calçada com a rua, uma rama de flor nascia no asfalto, e não estava “atrapalhando o trânsito”, nasceu amaldiçoada pela falta de atenção. As pessoas poderiam pisar nela, e nem ao menos perceberiam que aquela flor ali encontrou seu espaço de vida ali, naquele lugar tão incomum. Suas pétalas eram brancas, e naquele dia de uma provável tarde chuvosa, o seu instinto de sobrevivência seria agradecido pela água da chuva que desce calmamente pela rua.

Nasceu assim, entre a calçada e a rua, sobrevivendo ao caos do bairro do subúrbio.
Nasceu assim, entre a calçada e a rua, sobrevivendo ao caos do bairro do subúrbio.

Ela ouve então o barulho do ônibus virando na esquina. As pessoas ao seu redor, continuam de mau humor. Se ela pudesse ver a aura daquelas pessoas, elas seriam de um tom cinza escuro, como se uma tempestade estivesse ao redor delas. Engraçado até, ela pensar desta forma, tendo em vista que gosta de tempestades. A tempestade a tranquiliza, e ela acredita que a chuva tem um poder de sedução muito forte, é algo triste, para a maioria das pessoas, mas pra ela, tempo de chuva é algo absurdamente sexy, tal como uma mulher de vestido e salto alto vermelho, Penélope Cruz e um homem comendo pêssegos, amarelos, macios e carnudos. E já lhe disseram um dia: “Você é assustadora”. Ela apenas concordava, com um sorriso sádico de canto de boca, um sorriso carmim.
Subiu no ônibus, e não era mais aquele motorista que não devolvia-lhe o seu “Bom Dia”. Este motorista era alegre, ele respondia bom dia e perguntou se estava tudo bem. Coisas assim fazem toda diferença, e as pessoas que estavam com ela, talvez por isso, pelo bom humor e cordialidade do novo motorista daquele horário. O tempo, aos poucos está mudando lá fora, os primeiros tímidos raios alaranjados do sol estão brilhando, naquela janela do ônibus. Enquanto as pessoas se protegem debaixo de seus Ray-Ban, ela apertava os olhos, gostava daquilo. Gostava de sentar sozinha no banco de ônibus, porque todos lhe pedem para fechar a cortina por causa do sol, como se já não bastasse os óculos escuros, e ela então deixa uma fresta pela janela, só pra ela. Ela aprecia viajar com músicas nos ouvidos, não gosta de conversar muito nas viagens, gosta de observar lá fora, “viajar na maionese”, como dizia sua mãe, ficar com os olhos perdidos, pensar num poema, rabiscar as palavras que lhe chegavam, convidando para brincar. A beleza da vida em movimento, a velha que todos os dias cuidava do jardim, estudantes andando de bicicleta, as barracas de cachorro quente, crianças sonolentas esperando a van que as levaria para a escola, os cachorros e seus respectivos donos, senhoras e senhores se exercitando no gramado e existia o caos, e ela de uma certa forma precisava disso, e ela acreditava, que todos nós devíamos enxergar a importância dos caos nessa nova vida. Sem ele, talvez as coisas perderiam um pouco de sentido, e tudo poderia ser entediantemente fácil. Ela ficaria irritada com o tom azul demais das coisas. Tempos negros, são necessários…
Chegou na empresa, cumprimentou os colegas. Chegou na máquina de café, pediu um expresso com pouco açúcar. Um amigo a recebeu com dois pães de queijo quentinhos, se atualizaram sobre o final de semana. O dela foi pacato, tranquilo, umas boas leituras, alguns rascunhos no papel, chá com bolachas e seriados ao final da noite. A vida dela necessita de um pouco de calma, uma paz, no meio de todo o caos, um tempo sozinha para respirar, é o que precisa. Um tempo para pensar na vida, e nas suas consequências e inconsequências. No final das fofocas de expediente e expectativas daquele dia de trabalho, o dia tomou rumo, com suas tarefas, compromissos e stress. Foi embora, no final do dia passou pela passarela que corta a rodovia. Era horário de verão, e ela amava aquilo, porque nos tempos de criança, significava que podia brincar até tarde na rua, e quando eram oito horas da noite, seu pai gritava seu nome no portão, para ela entrar e tomar um banho. Ela se lembra, das suas férias, suja de lama, do campinho de futebol do vizinho. Nunca foi fã da cor marrom, mas essa cor lhe traz boas lembranças. Embaixo da passarela, os carros, ônibus e caminhões passavam, com suas luzes amareladas, e os mais modernos, com luzes de farol azuis. O mesmo cheiro, de poluição e fim de tarde. Ao longe, a cidade universitária a convidava para passar em casa, tomar um banho e caminhar sem pressa, contrariando o aviso que lhe foi dado para não caminhar ali à noite, mas sua alma era pura teimosia e lá no fundo, ela gostava de ser assim.

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Just like woman.

Estava chovendo desde o começo
E eu estava lá morrendo de sede
Então eu vim aqui…
E a sua antiga maldição machuca
Mas o pior…É essa dor aqui dentro

Sentada numa mesa de bar, ela não sabia bem o que estava fazendo ali. A chuva caia lá fora, mansa, e o seu copo de vinho barato estava pela metade, seu corpo também…pela metade…seu coração…inteiro, porém de ressaca eterna. “É o quinto copo”, ela pensou, a música decadente tocava um acorde triste. Ela podia ser a bailarina triste do fim da noite, aquelas que perderam o Amor no dia do espetáculo. Ela amou tanto, e nem ao menos teve algum reconhecimento, ela finge apenas, que tudo poderá dar certo um dia. Mas ela sabe, na sua cabeça de garotinha, corpo de mulher, que a mágoa, a frieza deixada por seu tão eterno amor, é uma realidade de fato. Ela toma um gole do vinho barato, desce azedo pela garganta, e ela sorri, daqueles sorrisos sarcásticos de canto de boca. Ela pensou que ao chegar em casa, jogaria os sapatos nos cantos, tiraria as roupas e tomaria um banho morno, e talvez cantasse alguma música, não se importando com os vizinhos. Ela canta mal, mas até agora ninguém reclamou, nem dela, nem do vizinho que canta músicas nipônicas, “Eu canto melhor…muito melhor”. Se naquele bar deprimente de cidade universitária tivesse um karaokê, talvez ela cantasse alguma música brega-deprimente, com o copo na mão, balançando de um lado para o outro. Talvez ela poderia até chorar, timidamente alguma lágrima escorreria no rosto. Eram as dores de um Amor não correspondido, e isso doía profundamente, e ela anestesia a sua dor com álcool, pois a ressaca do dia seguinte lhe dá uma dor de cabeça forte, e isso faz com que ela não tenha tempo pra pensar muito. Ele não se importa, ela tenta não se importar.
Ela sempre tem fome, unicamente do seu Amor. Poderia amá-lo uma única noite e nunca mais vê-lo, poderia fingir que seria apenas sexo, que não haveria nenhum Amor,nem sentimento, nenhuma conexão, apenas uma simples e selvagem troca de fluidos, apenas unicamente sexo…sexo…e mais sexo. Mas ela sabe, no final estaria apenas mentindo pra si mesma, pra ela não seria apenas…sexo…Ela até tentou, abrir os olhos e dar uma chance, para outros possíveis amores. Ela tinha um amigo, sexy,interessante, inteligente. Um belo dia, houve um convite, uma amizade colorida. Ela estava naquelas de ligar o botão “Foda-se essa merda”, e resolveu ser inconsequente, ser mulherzinha, afinal, como diz sua mãe, “ninguém vive de Amor”. Saíram três vezes. Mas era apenas sexo, ela queria Amor, e não encontrou, tentou se apaixonar, mas foi em vão. Não era aqueles braços que ela queria estar, não era aquela conversa no parque que queria ter. Aqueles olhos castanhos não eram os olhos castanhos que ela queria desvendar. Nada ali era real, era apenas uma cena de uma ficção, ela ensaiou, mas acabou saindo uma atriz de quinta categoria.No terceiro encontro foi embora pra casa, e decidiu que seria o último encontro. Aquilo não fazia sentido pra ela. Ela prefere ser careta, sozinha, mas não quer amar em vão. Sexo casual não é sua praia, mas com ele, aquele que vira sua vida de cabeça pra baixo, ela aceitaria fingir que seria sexo casual, frio e sem sentimentos, apenas a questão das necessidades humanas, apenas atração física.
Ela virou o resto do copo de vinho, ainda ficou um tempo no balcão, observando as pessoas. Ela quer apenas, ordem, clareza e sinceridade. O próximo homem que tiver nos braços, será apenas aquele que conseguirá fazê-la esquecer? Ela não nega, esse Amor, ela não sabe, se um dia, talvez, nessa escuridão que os envolve, haverá alguma luz, ou se ele será daqueles amores que duram a vida toda, como um naufrágio, escondido, mas que sempre estará lá. Seu coração é um cais de porto, naquelas águas mansas e por vezes revoltas, ela queria apenas que ele navegasse, e que ancorasse seu barco ao final da noite. O Amor deveria ser igual poesia, mas muitas vezes faltam as palavras, ficam apenas, talvez, as perguntas, e elas podem nunca serem respondidas, talvez porquê nunca foram questionadas. Ela chega ao final da noite, semi-embriagada. Pagou a conta do balcão e chamou um táxi. Naquela madrugada, após o banho, deitaria seu corpo na cama, e em seus sonhos de bêbada, talvez a realidade seja mais bonita, e lá ela não precisa fingir que não haverá Amor.

Pecado Confessável

Amor, doce amor, eu estou escutando teus passos ao longe,
Posso lhe dar as chaves se você for gentil e bater em minha porta,
Posso ficar brava se esquecer de tirar os sapatos ao entrar,
Você pode adoçar teu chá se quiser, pode bisbilhotar minhas anotações,
E em um sonho, vêm chegando de fininho, docemente, sem querer,
Em cima de minha mesa, há meus livros, canetas, papéis, discos,
De repente, na tua fúria,você joga minhas paixões ao chão, adorável bagunça…
Sem pedir permissão, você amou-me naquela mesa, em meio ao caos,
Num desespero sensual,bruto…Joga-me contra a mesa…Brutalmente delicado,
Cadê sua gentileza doce amigo?Eu vejo seu sorriso sádico, de canto de boca,
Me provocando, as coisas que eu amo ao chão, espalhadas, como nosso orgulho,
Na fúria, você me possui, no mesmo lugar dos meus amores, me segura em seus braços,
Suas mãos em meu corpo, marcador de minha pele em trechos eróticos,
Com teus olhos, mãos, pele, dedos, saliva…são como a mais bela poesia,
Sua voz sacana me excitando ao pé do ouvido, és minha canção favorita,
Então eu lhe peço mais, e como um refrão, você repete, suas notas sensuais, vício…
Doce invasor, no teu êxtase, seus dedos, mãos, língua, beijos, percorre um caminho,
Onde as minhas borboletas percorrem batendo asas, eu perco fôlego, juízo, vergonha…
Pele, suor, desejo, saliva, gemidos, o céu e o inferno…Uma linha tênue…
Amor, meu anjo, demônio?Faça-me de ti o teu pecado original, estou de joelhos agora…
Devora-me, como um fruto proibido, o teu corpo és meu paraíso, seu Amor é meu desejo…
Doce pecado…Confessável…Em linhas insones.casal_sensual1

Hermit

Eu posso pegar um feriado na Espanha
Deixar minhas asas para trás
Beber minhas preocupações pelo esgoto
E voar para um novo lugar

Eu peguei minhas malas e parti para longe,
Levei minhas paixões, guardei-as dentro de uma caixa,
Numa redoma de vidro, eu tirei minhas férias… para o silêncio,
Sem mais perguntas agora, agora sou eu…apenas eu.
O que fazer?O que fazer com a Saudade?
O que fazer com um Amor que nunca se extinguiu?
Uma chama, nunca apagada, eu menti, eu não te amo mais,
Mas eu te amo, em silêncio, calada, sem mais palavras,
Eu sou apenas uma atriz de quinta categoria,
Uma cantora fracassada num bar de blues na beira da estrada,
Eu poderia então, fazer juras ao demônio, numa encruzilhada,
E eu poderia pedir todo o Amor do mundo, talvez alguma felicidade…
Mas minha maldição é apenas meu nobre silêncio, me corroendo,
É apenas a Saudade, das coisas simples, de um Amor sincero.
E eu diria que poderia acreditar em Anjos, Deuses, Demônios,
Mas sou apenas uma garotinha acordada de madrugada,
E no dia seguinte estará tudo bem, ou apenas fingirei,
Que não existe mais nada batendo neste nobre coração,
E minhas frágeis emoções são apenas coisas de uma mente tola.
Eu estou apenas brincando, daquilo que eu aprendi contigo,
Brincadeira de eremita, no meu recanto, na mais alta montanha,
Existem apenas reflexões,sonhos reais, sabores agridoces,
Foi você, nobre Amor, que me ensinou a ficar em paz,
E por mais que eu te ame, quem sou eu, querido, para perturbar teu sossego?
Ando escrevendo por linhas tortas, sem ritmo, sem métrica,
Ando escrevendo nas linhas tortas e dissimuladas, sem muita paciência,
Sem muita calma, apenas Saudade…e ela canta, um blues triste.
Um blues triste e bonito…meus lábios sussurram aos pés do teu ouvido,
Silêncio…

Cherbourg

Et mes jours étaient plus beaux …

Olhos castanhos que falavam comigo, e um sorriso de canto de boca. Eram assim, as tardes de domingo, chamando você para nossas caminhadas noturnas. Eu te chamei para caminhar nas ruas de Cherbourg, timidamente pedi que continuasse escrevendo teus belos poemas. E então sadicamente você me escreveu, era algo a ver com náufragos, e então eu pergunto, porque me abandonaste, assim, no cais? E eu sinto saudades, dos nossos passeios pelas ruas tristes de Cherbourg. Eu poderia pedir para que ficasse, que amarrasse seu barco no meu cais, poderia ser apenas um velho amigo, mesmo eu querendo ver toda a beleza de teus olhos nus novamente, e aquele sorriso petulante de canto de boca, quase proposital. E então por um tempo, eu perdi esse teu sorriso, teus olhos de tempestade, suas histórias engraçadas, esses teus olhos que falavam comigo.

Speak to me only with your eyes,

 

dizia uma canção, que me faz lembrar de nossas conversas até o alto da madrugada. Ninguém havia até então reconhecido a beleza de um dia chuvoso, e nem o poder de uma canção sobre o Amor e dias chuvosos. E quando me disse que adorava o vento de uma tempestade, sobre estrelas e complexidades do universo, foi como se eu voltasse a ser uma criança apaixonada novamente. E então, por dias e dias eu sonhei contigo, e estávamos em Cherbourg. Faz tempo, que eu perdi teu sorriso, e há um nevoeiro de dúvidas e perguntas sem respostas entre nós. E eu te amaldiçoei, nas ruas de Cherbourg, aflita, eu vi sua imagem refletida em um lago, e então por um instante eu relutei, e disse ” eu vi tua imagem desmanchar, e então meu Amor estava em pedaços, feito um espelho quebrado, e eu recolhi todos os cacos, e fiz dele um fractal, complexo, incompreendido pelas almas desse mundo, são apenas cálculos complexos a formar uma imagem doce e tão distante. E neste fractal tão frágil, eu carreguei comigo silenciosamente pelas ruas chuvosas de Cherbourg…

Bem faz muito tempo
Desde que te vi sorrir
Joguei fora o meu espanto
Até de manhã as luzes brilham

Manhã de domingo
Só nevoeiro nos membros
Eu chamei novamente
O que você sabe?
E eu preenchi nossos dias
com cartas e gin
Você está acesa novamente, minha querida.

Fragmentos do subúrbio

Então, você pode entender
Por que quero uma filha enquanto ainda sou jovem?
Quero segurar a mão dela
E lhe mostrar alguma beleza,
Antes que todo o estrago seja feito.
Mas se isso for pedir muito,
Se isso for pedir muito,
Então envie-me um filho.



Ele mostrou seus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro…ah como eu me lembro, daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…