Eppur Si Muove

Outrora, eu tinha voado. Não sei se foi em um sonho, provavelmente sim. Lembro-me que quando eu era criança, eu acreditava que se eu comesse asa de frango, eu poderia voar, e sim, eu era criança e não fui atenta ao fato de que frangos não voam, mas a risada dos adultos diante de meu sonho Ícaro, voavam até o vizinho mais distante. Hoje a única asa que eu me permito ter, são as asas da imaginação, e uma viagem frenética de deja-vu por hora.

Dias atrás fui caminhar. Caminhei durante duas horas, escutando música ou apenas um eco de meus pensamentos. Era necessário sair para espantar alguns fantasmas que andam me atordoando, e esquecer aquilo que me tirou do eixo. A racionalidade me pegou, assim de surpresa. Então coloquei os livros de um presente esquecido propositalmente de ser entregue na minha estante. Vejo lá o meu amigo Fernando Pessoa, com uma fita de cetim separando o poema eu marquei como o meu preferido. Foi a primeira vez e assim espero que seja a última, que eu nunca entreguei um presente ao qual gostaria de entregar. Porra, é tão chato isso! Eu poderia entregar-lhe em casa, mas nunca entreguei um presente à alguém sem olhar nos olhos. Na Europa, não sem brinda sem olhar nos olhos. Eu não entrego presentes sem olhar nos olhos. Eu não ligo pra teu desconforto, eu sou mais simples do que imagina. Se isso não é possível, engulo meu orgulho, certas coisas eu carrego junto ao meu egoísmo. E a leitura, ou releitura dos livros que eu não lhe dei, terá um gosto, assim, triste. Não gosto de guardar mágoas, mágoa tem gosto de fel. A mágoa é amarga, é dura de engolir, não tem tempero, sem nada. Mastiga, mastiga e mastiga. As mandíbulas doem, e você não quer engolir, mas seria horrível cuspir aquele pedaço de Amor intragável, não diluído tentamos em vão, talvez, aceitar nossa condição, nossos erros, nosso amor e desamor. Engolimos, em seco, ou com um pouco de água. A garganta dói, é nosso orgulho passando. Entra no estômago, dá uma indigestão, mas aceitamos. Simplesmente, aceitamos. A razão, quando chega, destruindo nossas emoções cheias de lembranças, embriaguez, flores, cidade distante no horizonte, sonhos de homens que atordoados, caem na cama ou sarjeta, esperando por dias melhores. A verdade dói, mentiras são muito mais confortáveis, e a verdade volta com a necessidade de esquecermos algo que em nossos sonhos de Dom Quixote achamos que eram recíprocos. Dom Quixote amava Dulcinéia, e achava que os moinhos de vento eram dragões. Minha consciência é o Sancho Pança. Ela sempre, como um fidalgo montado num burrico, tentou me avisar, mas eu era como (ou ainda sou?) como Dom Quixote. Ora Sancho como tu és besta! Assim como Dom Quixote, tenho o mal da fome em excesso, o Amor às causas perdidas, as dores do mundo não me bastam em meus ombros, sinto todo o Amor do mundo, e mesmo sendo besta e atordoada, me contento com a tua falta de atenção. Sim, um Amor besta às causas perdidas, ou talvez desconhecidas. Há um frio no estômago a quem me dirijo as palavras, e o frio emudece, como uma pradaria no inverno. Escuta-se apenas o eco do vento e o uivar dos lobos, mas só me sobra, ou nos sobra, um silêncio sepulcral, algumas palavras talvez por pura obrigação ou aquele medo de ser cruel sem querer.

Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga “eu não acredito no amor”, a vida sempre nos surpreende. (Dom Quixote)

Dom Quixote era um besta. Morreu louco. Ele nunca desistiu. O velho de Hemingway também nunca desistiu, foi inclusive dormir em sua velha cama forrada com jornais, e sonhou, com as praias de areia branca. Na minha praia não existem leões, nem pegadas. Estou sempre em alto mar, mas eu não espero nada. Nada mais. Minha garganta dói até agora. Tenho os marcadores de cetim dos livros sorrindo pra mim. Talvez apenas eu ache marcadores de cetim algo bonito. Talvez apenas eu ache que o poema do Girassol do Alberto Caeiro traduza a alma de alguém.

O meu olhar é nitido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando pra direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo… (Alberto Caeiro)

Eu fui uma trouxa ao reler “O retrato de Dorian Gray” enquanto esperava no aeroporto apenas para marcar teu trecho favorito e entregar-lhe. Sempre achei bonita a comodidade de abrir uma página marcada por fita de cetim e ver ali, um trecho que marcou-lhe a vida. Escutar teu trecho em um tablet é algo moderno, mas você consegue sentir a aspereza e a beleza da sabedoria impressa em palavras? Amo o toque. Gosto de passar os dedos numa folha de papel. Gosto de livros antigos, eles tinham a nobreza do cetim.O Amor possui a beleza sensual e suave do cetim, mas é ao mesmo tempo, áspero como as páginas de um livro velho. E um velho Amor áspero, fica guardado lá na estante. Ficamos olhando a capa já tão surrada, as páginas desejosas das traças. Se eu pegá-lo de volta uma rinite viciante recomeça. Tento curar minha indisposição com um xarope chamado Razão. Mas Amor é como uma droga. Basta sorrir, e o vício volta. Pego os teus livros não entregues, coloco-os numa caixa, e volto a forrá-la com papel de seda azul, prender o laço que eu comprei pronto, pois não sei fazer laços. Odeio amarrar sapatos, mas faço, por pura força da necessidade.  E eu fico, com minhas emoções desvairadas e simples aos olhos dos poucos que me compreendem. Fico aqui, em meu silêncio, uma pagã triste com flores no regaço. A velha garrafa com rosas ainda pousa na minha cabeceira, ao lado de Cervantes e Ernest Hemingway. Teus livros que eu não entreguei sorriam, e na metáfora eles olham pra mim com aquele olhar que você nunca teve, aquele que você nunca se esforçou ou por desacostume e desconforto, nunca ousou em mostrar. Minha rinite está atacada. Meu xarope de Razão acabou. Eppur Si Muove…

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Wear another shoe.

Ela passa a madrugada inteira refletindo sobre a vida enquanto os grilos e demais seres da noite fazem baderna. O vento frio balançando as árvores de eucalipto, e ela sempre quer fugir de vestir sapatos novos. Caminha por ladeiras com espinhos nas beiradas,procurando lenha, e faz isso cantando enquanto seu bom menino dorme no relento, próximo ao rio.

 

Não chore meu amor
Meu rosto está todo molhado
porque meu dia foi difícil

 

É no sereno da noite, que vê o rosto dele sendo iluminado pelas labaredas da fogueira. E ela canta, baixinho, enquanto acaricia o rosto sereno e inabalável, a barba acastanhada por fazer, um trecho de pecado. Não queria acordá-lo. Fica horas e horas apenas vendo-o dormir e enquanto o tempo não passa, fuma um cachimbo de fumo com aroma de pinho. Foi ele que a ensinou a tragar, depois de muitas e muitas tentativas frustradas e cheias de riso. Ele virou de lado. Seu rosto ela não enxerga mais, ele sempre dorme virado para o lado onde seus olhos não chegam. Derrama lágrimas, o fogo se apaga, é preciso buscar lenha. Mas a distância é grande demais, dolorosa, e seus pés estão cansados. Quer dar-lhe um beijo no rosto de seu bom menino, gostaria que ele sentisse saudades, mas os sapatos estão apertados, a saudade já impera seus gritos nos sonhos de poucas horas. É nas madrugadas que ela encontra sua paz, lapidada na penumbra, o silêncio, o pio da coruja cantando agouros.

Toda noite ela olha pela última vez aquele que dorme, cansado, cinzento nos dias de chuva, radiante nos domingos ensolarados. Vai embora descalça. Deixa seus velhos sapatos e fotografias velhas dos tempos de criança para trás, sem nem ao menos poder contar-lhe os detalhes daquelas fotografias de dezoito anos atrás. Mas no meio do caminho, ela sempre dá meia volta e retorna. Acende um cachimbo e vai procurar lenha. Ele continua dormindo. Qualquer dia ele acorda, enquanto ela canta, pra si mesma… Enquanto o vê dormindo, em seus sonhos de menina.

Durma, não chore
Meu doce amor
Seu rosto está todo molhado
Porque nossos dias estavam difíceis
Então faça o que deve fazer
para encher esse buraco
Calce outro sapato
para confortar a alma
Aqueles tempos em que eu estava arrasado
e você permaneceu forte
eu acho que encontrei um lugar
onde eu sinto que irei…

Incógnito

Incógnito,
Nas sombras é por onde caminha,
Há pedras no seu caminho,
Elas estão cobertas de musgo,
Eu lhe sigo, mas escorrego nelas.

Incógnito,
Você me prendeu assim, no seu silêncio,
Eu apareço e sua lanterna se apaga,
E então eu lhe sigo pelo cheiro,
Pelo cheiro de suas cores,
E no paladar de seus passos.

Incógnito,
Você é apenas uma sombra,
Estou pintando ela na minha parede,
E percorrendo as montanhas, eu fui,
De olhos vendados, porque seu rosto,
Seu rosto não tem face, quem é você?
Ninguém sabe, seus olhos me dizem?
Incógnito, Incógnito…

Não importa, para onde quer que vá,
Você sabe que não posso me esconder,
Meus sentimentos foram revelados,
Capturou minha alma, queira ou não queira,
Eu já estou ao chão, de joelhos,
Quem é você?Ninguém sabe…

Incógnito…Incógnito…você é a sombra,
Sombra que se move perante meus olhos,
Eu apenas sinto seu cheiro, nada mais,
Porque eu não sei, eu não sei,
Quem é você?Ninguém sabe…

solidao (1)

Poema Frio.

Um homem passa com sua bicicleta enferrujada,
O taxista que parece o Freddie Mercury também toma café,
Há um homem grisalho barrigudo de jeito engraçado,
Há a mulher da lanchonete espremendo laranjas.
Os carros passam lá fora nesta manhã,
Estranha… Estranha magnificência dos dias.
Pegue tudo aquilo que acredita e dê risada disso,
Pegue toda a sua tristeza e coloque a leilão,
Sempre há alguém que compra a tristeza.

Meta suas crenças em seus bolsos de calças de grife,
Se eles estiverem furados de tanta dor, suas crenças cairão,
Junte os cacos do seu vitral quebrado, e passe a acreditar,
Que suas crenças tão singelas de tempestade não se perderão.
Os meus olhos estão queimando no fogo, e você me diz:
[São apenas 93 milhões de milhas para se percorrer]

Estou quebrando minhas torradas com os punhos,
Enquanto o chá esfria, eu conto as migalhas em cima da mesa.
E neste mundo, o que é novo, é incomum, o que é velho é brega,
Estranhos queimam no calor das manhãs, suspirando preguiça.
Abanando os bilhetes de ônibus contra o rosto, meninos de bicicleta,
Fumaças de cigarros e risos aleatórios, deve ser alguma piada engraçada.

Eu vejo um homem de camisa listrada passar, com o jornal,
E tudo o que eu vejo é bonito, mesmo a mulher triste empurrando carroça,
Pois meus olhos sabem enxergar a beleza do dia, mesmo estilhaçada.
Pegue tudo aquilo que acredita, coloque em prato,
Coloque uma pitada de pimenta em volta, algumas alcaparras,
Faça um círculo de sal grosso ao seu redor…Não é assim?
Não deixe ninguém entrar em seu mundo, você odeia invasores,
São suas coisas, aquilo que você ama e acredita.
E se te disserem que tudo é uma piada,
Diga que é verdade, a vida é uma maldita piada,
O tempo todo, e nesse meio tempo, choramos de rir.

Chove lá fora e eu estou chutando e pulando nas poças,
Está todo mundo vendo, mas eu não me importo,
Meus pés estão molhados agora, e eu corro,
Estou correndo atrás dos pássaros, eu quero voar também,
Mas os dias estão difíceis e pesados, sem visibilidade.
Estou em minha gaiola, e qualquer dia sairei na surdina,
Voarei então para bem longe, e vou pousar em seus ombros,
Mas só farei isso se nele estiver uma palha para meu ninho.

Noites de Natal, tudo me lembra uma noite de natal,
As pessoas cantam todos os dias, noites felizes.
Como se toda maldita noite fosse noite de natal.
Eu não estou carregando um saco de presentes,
Eu não tenho meias penduradas na minha porta,
Eu apenas passo a meia noite na espera,
Estou com frio na beira da janela.

Mulher-sentando-Janela

Entranhas com alho frito.

Algumas pessoas se autocanibalizam, por falta daqueles que não tem colhões suficientes pra encarar suas verdades estampadas e escarradas pra fora, temos tendência de gostar daquilo que só passa a mão na nossa cabeça, aqueles que cospem sinceridades, são os chatos da vez, tão demodê… Se este termo não existe, autocanibalização eu acabei de inventá-lo agora. Não estou nem aí para o que vão pensar. Enfim, vamos falar de autocanibalização e canibalismo:

Algumas pessoas comem suas próprias entranhas fritas com alho e sal em frigideiras antiaderentes, sim…ANTIADERENTE, temos amor próprio, não queremos nossas tripas grudadas, queimadas. Nós engolimos nossos próprio sentimento. Já engoliu o orgulho?Então, ele tem gosto de fígado acebolado. Paixão tem gosto, olha só que clichê maravilhoso: coração!Ahhhh os clichês, tem horas que não conseguimos escapar deles. Entranhas tem de serem engolidas sem muita frescura sabe? E então, já se perguntou o porquê? Eu lhe digo que é para puramente não se perder a essência. Quando temperamos muito, temos sentimentos mascarados, e as coisas não devem ser assim. Temperamos apenas para não dar um gosto tão horrível, mas se temperarmos demais, nós não conseguiremos sentir textura, sentir nada. Tudo tem de estar em equilíbrio, até porque senão ficaremos loucos, mais do que já somos, enjaulados na clausura de nossa autocomiseração. Sejamos misericordiosos com nós mesmos. Comeremos nossas tripas e lamberemos os beiços, por unicamente, Amor-próprio, coloque um pouco de sal e engula tudo a seco. Se quiser cuspir, cuspa, mas não faça cara de nojo, poupe-me, o mundo já está nojento demais em meio da natureza vazia dos outros. Tem entranhas que são podres, nem precisa chegar perto para sentir o mal cheiro. Mas sempre tem gente que encara, e acha gostoso!Hummm delícia!Depois vem chorar nos ombros. “Comi uma guria, mas ela me usou”… Ohhh pobre coitadinho!As vadias chupam-lhe o pau e depois quando você diz eu te amo, elas te abandonam, como uma cachorrinho na rua. Ou você, guria bonita, inteligente (não vamos falar de vadias burras, eu já escrevi um pouco delas na linha de cima, me poupe), respeita o cara, não faz dele um brinquedinho, uma marionete de seu teatro infame. Você morreria pelo imbecil, mas ele não está nem aí pra você. É sempre assim, o ser humano é foda, gosta daquele que pisa, ou aquele que não lhe dá nem um pouquinho de atenção. E nós, como diz Renato Russo, esperamos um pouco de atenção, e nossa arrogância tem gosto de fel…Aquela bile que fica na boca quando não se tem nada mais pra vomitar.

Sabe, eu queria escrever esse texto nas costas, sair por aí, correndo pelada. Eu poderia colher cada flor do asfalto amaldiçoada pela falta de atenção, porque você estava pensando em comprar um carro zero, e esfregar na cara daqueles que não dão valor pra nada, aquele que não fala bom dia, aquele que não tem consideração nenhuma por quem está sempre do teu lado. Ahhh, mas se nós cuidarmos das flores, vêm a porra de um carneiro e a engole. Então meu querido ser quase dotado de massa cerebral, valeu a pena pra você?Você cuidou bem da sua flor, ela lhe fez sorrir?Sim?Ótimo!É isso que importa, você deu o máximo de si, pra que ficarmos nos lamentando? É eu sei, adoramos lamentar…Adoramos encontrar agulhas em palheiro. Adoramos criar fatos que não existem. Se cuidou da sua flor, chegou um carneiro e comeu, da próxima vez, cuide melhor da sua rosa, do seu girassol, faça menos cagadas, talvez se você tivesse plantado sua flor com um pouco de amor próprio, talvez ela não morreria…

Ando por aí, segurando minhas tripas, que escorrem do meu ventre, aberto, meu peito aberto, rasgado… Olha só…quer comer meu coração com molho pardo e azeitonas? Tem vinho aqui em casa, vinho vai bem com carne, mas segure a taça do vinho pela base. Sou uma puta exigente meu querido. Para devorar minhas entranhas você não pode ser um estúpido mesquinho. Para eu lhe dizer, entre de novo, você tem que me olhar por dentro, eu não sou apenas uma mulher bonita em cima de um salto alto, toda arrumada, eu acordo cedo com a cara amassada, tenho muitas vezes preguiça de tirar a maquiagem pra dormir, e às vezes eu bebo demais e acordo no outro dia de ressaca, com uma dor de cabeça dos infernos. Posso te amaldiçoar, posso chutar-lhe da minha cama, mas depois eu vou lhe estender a mão, e vamos nos amar em meus lençóis velhos, tão cheios de perguntas, muitas sem respostas. Beberemos, vamos brindar…Vamos devorar um ao outro, que tal? Fazer uma salada de entranhas, se você já guardou suas tripas pra dentro, pois já estavas cansado de ser julgado por ser assim, vem aqui, eu vou fazer-lhe um rasgo e colocar uma linda fita de cetim, suas tripas lindamente amarradas, meu presente.  As minhas são amarradas com um pedaço de cetim vermelho escandaloso. Elas estão servidas aqui pra você. Coma-as ou apenas olhe, simples assim, porque as coisas nesta vida tem de ser complicadas? Vem aqui, seu corvo tímido, venha crocitar seus medos e soltar seus demônios em cima de meus ombros. Estou à disposição, corpo, alma…E entranhas, servidas no alho frito.

Ahammmmm...
Ahammmmm…

Grace

My fading voice sings of love,
But she cries to the clicking of time
Of time

Flores secas espalhadas em cima de uma mesa, um altar
Eu rezei uma Ave-Maria numa velha igreja, perto de casa,
E voltei caminhando amaldiçoando os Deuses sob luzes amarelas,
Todas as noites, ao voltar para casa, num velho jardim…numa velha igreja,
Eu peço que a minha Graça venha até mim, como uma criança com Fome.
Os ônibus continuam passando, lotados de pessoas comuns,
No silêncio de cada dia num delírio religioso, eu desejo minha Graça,
Subindo na cabeça, estou como em um dia de fúria então talvez…
Eu volte para aquela velha igreja e reze mais três ave-marias

Talvez, eu confesse todos os meus pecados, talvez o padre me diga,
“Filha, Amar não é pecado. Pecado é Amar em vão”,
E voltarei para casa no meio da noite, confusa e sem meias palavras,
Em vão eu vejo minha Graça atravessando a rua, em vão, eu amei aquela visão,
Então no retorno de casa eu rezo três Ave-Marias…Oh Senhor…não vê meus lábios?
Tremendo de frio…a Graça me atingiu ao longe e eu nem pude alcança-la…

E eu vejo os passáros a voarem no céu, e eu penso no tempo,
Ele voa tão distante como uma ave de rapina imponente,
Estou com os ombros desnudos esperando o Tempo voar…tão suave…
A Graça…eu a sinto sussurrando sua conversa em meus ouvidos,
Tão calmamente repousa em meus ombros, com seus olhos pequenos,
Tão suaves e escuros, minha Graça me olha nos olhos, em meu sonho,
Minha Graça me alcança, me toca como arco-íris repousando numa montanha,
E a Graça chama meu nome numa canção suave desconhecida, e eu me lembro,
Do rastro de perfume que ela deixou quando me disse Adeus, quase sorrindo.

Wait in the fire…Wait in the fire…Wait in the fire…

Com seus olhos pequenos e inquietos a Graça beijou meus ombros,
Deixou-me esperando debaixo de uma chuva gelada, com trovões cantando ao fundo
Mas o raio iluminou a noite e no clarão eu vi a Graça me observando nas sombras,
E quando eu fecho os olhos, nós comungamos o pecado como crianças na Eucaristia.

Ave Maria, Ave Maria,
Heute sind so viele ganz allein. Hoje há muitos sozinhos.
Es gibt auf der Welt so viele Tränen, há sobre a Terra tantas lágrimas,
und Nächte voller Einsamkeit. e noites cheias de solidão.
Und jeder wünscht sich einen Traum, E cada um deseja a si um sonho
voller Zärtlichkeit. cheio de ternura.
Und manchmal reichen ein paar Worte, E às vezes bastam algumas palavras
um nicht mehr so allein zu sein, para não mais se estar tão sozinho,
aus fremden Menschen werden Freunde, e de desconhecidos os homens tornam-se amigos
und grosse Sorgen werden klein. e grandes preocupações tornam-se pequenas.
Ave Maria. Ave Maria
Ave Maria. Ave Maria
Kalt ist die Reise durch die Nacht. Fria é a jornada pela noite.
Es gibt so viel Wege zu den Sternen, Há tantos caminhos para as estrelas,
und jeder sucht eine Hand, die ihn hält. e cada um procura por uma mão, que lhe acalente.
Vielleicht ist jemand so traurig wie du, Talvez haja alguém tão triste quanto você,
komm, und geh auf ihn zu. venha, vá ao encontro dele.
Verschliess heut nacht nicht deine Türen, Não feche esta noite as suas portas,
und öffne heut dein Herz ganz weit e abra bem o seu coração hoje
und lass den anderen Wärme spüren, e deixe os outros sentirem o calor
in dieser kalten Jahreszeit. nesta fria estação do ano.
Ave Maria. Ave Maria.

PS: Nas minhas pesquisas randômicas dos últimos dias, tenho me voltado para o misticismo, pois estou estudando arte religiosa(barroco), então eu encontrei uma canção de Ave-Maria em Alemão. E eu achei muito bonita, mas muito mesmo, inclusive muito melhor que a oração tradicional. Então esta canção passou a ser minha oração, mas eu faço isso em português, porque eu sou uma negação em alemão. E de quebra eu dilacero meu coração ouvindo Jeff Buckley. Grace é uma canção sobre a espera…uma canção sobre crenças, uma canção sobre o tempo e o Amor.

Lover, You Should’ve Come Over

Eu me sinto tão jovem, como uma criança com saudades,
Caminhando sozinha todas as noites, quando o meu cansaço me permite
E então eu sempre encontro um velho rosto na multidão,
E por instantes eu me engano com um rosto desconhecido ao longe,
Está tão longe, tão distante de minhas mãos, tão distante…
Eu poderia acariciar esse teu rosto e então poderia olhar-te nos olhos,
Mas os dias estão passando, rápido como as badaladas de um sino pesado,
E a cada dia eu me sinto velha, caduca e faminta por um Amor que nunca vêm.
E então eu não nego, não nego ser escrava em meu trabalho, trabalhando até tarde,
Horas e horas a fio, eu tento em vão esquecer esse Amor…em vão…Amor teimoso.
Eu estou a olhar meu rosto no espelho agora e eu me pergunto o que está acontecendo.
É cedo demais ainda para que eu possa ter uma resposta, estou ocupando minha mente,
Em vão…trabalhando altas horas, mantendo minha mente ocupada…mas é tudo em vão…

Há algo aqui dentro deste tolo coração, há algo a queimar, solitário e frio,
Nessa ambiguidade, sim é dessa forma que me sinto, com o coração a queimar,
Mas ao mesmo tempo ele segue gelado, calado, batendo desesperado pela rua,
Nas noites de neblina, eu acalmo meu coração numa caminhada solitária,
É dessa forma, quando meu cansaço me permite, é dessa forma que eu entro em paz,
Essa minha mente angustiada, essa doce angústia se despedaça na orvalhada noturna,
Porque enquanto meu coração se despedaça durante o dia, a noite me faz acreditar,
A beleza noturna me faz sentir tola novamente, e então eu volto a acreditar,
Nesse amor que nunca chega, o inverno está chegando e então talvez…pode ser,
Que eu esqueça de me agasalhar, que eu perca as chaves, eu posso perder o juízo,
Às vezes, eu queria, entender tudo isso…alguma resposta, mas em vão…em vão
Todas as noites eu volto a te amar de novo…e de novo…e eu em vão…tento esquecer,
Ocupando minha mente com histórias de ficção, códigos odiosos e que não funcionam…

Nunca diga adeus, porque isso não vai funcionar, não é assim desta forma,
Doce Amor nunca diga Adeus, não é dessa forma que minhas convicções deixarão de existir,
Estou entregando minhas velhas luvas, estou jogando elas ao chão, pois eu cansei,
Cansei de lutar contra algo que é maior que minha capacidade orgulhosa de negar tudo.
Eu minto todo o tempo todo, mas esse tempo está sempre a me enganar,o tempo todo,
O tempo…o vento…As estações… Em vão… eu digo que não sinto mais absolutamente nada,
E os dias vão passando, e estou tirando meu diploma de atriz de quinta categoria,
Porque quando eu penso em não te querer mais, eu digo, eu não te amo…nunca mais…
Eu estou apenas interpretando um papel fajuto numa peça sem espectadores, sem público,
Minhas emoções guardadas em um velho baú…nessas ruas…de dia eu te esqueço, por alguns minutos…
EM VÃO…está tudo muito além do meu poder, eu não tenho respostas, tenho somente o tempo,
Esse tempo sempre foi meu velho amigo, é aquele ao qual eu olho nos olhos agora, é aquele…
Aquele que me pega no colo e me conta uma velha história…é ele que me faz rir, mas ele não é Perfeito,
Porque o tempo não apaga esse teu rosto da minha memória, nem palavras…o tempo apenas me olha nos olhos.

But tonight you’re on my mind so (you’ll never know)

Sweet lover, you should’ve come over.Oh, love well I’m waiting for you

Talvez um dia, eu lhe conte alguma coisa engraçada, as pessoas me acham divertida,
Talvez eu veja esses teus pequenos olhos sorrirem, talvez um dia, eu lhe cative, de alguma forma…
De alguma forma, nem tudo deve estar acabado, e eu posso retornar meu sorriso no meu rosto,
E quando me perguntarem se estou gostando de alguém, talvez eu não negue mais,
Talvez eu não tenha mais vergonha alguma de dizer que não sou correspondida,
Talvez eu deixe meu velho orgulho de lado e assuma que eu amo e não espero nada disso,
Eu apenas direi que somente o passar talvez…de quatro estações, no próximo verão,
No próximo verão chuvoso, eu andarei na chuva sem me preocupar em molhar os sapatos,
Mas nestas noites frias, eu continuo queimando por dentro, um Amor não correspondido,
E eu apenas me conformo, está tudo bem agora, eu apenas observo uma velha rosa,
Uma velha rosa seca num vaso em cima de minha mesa…velha e bonita…simples…
E essa rosa, é como meu Amor…tão destruído, seco, mas ainda é bonito, sozinho no meu quarto,
Eu poderia ter te jogado no lixo…eu deveria?Tolo coração não deixa te jogar no lixo…no limbo…

Calmo, silencioso, apaixonado, porque iria descartá-lo…o que eu tenho a perder?
Meu coração permanece batendo devagar durante horas, às vezes eles enlouquece,
Em cima de uma mesa ao lado de papel e canetas eu estou a cortá-lo em pedaços,
Talvez eu o sirva no jantar, acompanhado com um pouco de molho pardo…
Eu tenho apenas…eu tenho apenas que me proteger do inverno que está chegando,
Porque eu cansei…de me proteger debaixo de um escudo de orgulho, doce amor…
Eu cansei…cansei de trabalhar até tarde para manter minha mente ocupada,
Cansei de lutar contra aquilo que até então eu achava que conseguia extinguir…
Nunca achei que seria tão difícil, e agora estou despindo meu orgulho,
Nas manhãs eu lhe nego 3 vezes, assim como Pedro negou Jesus…a tarde eu finjo,
Eu finjo ser uma mulher fria e sem sentimentos com instinto workaholic até as 22h00,
Mas as noites sempre me enganam, partindo sem rumo em ruas perigosas, eu me coloco a caminhar,
Pensando na vida e questões do dia-a-dia, eu gosto de caminhar, para acalmar minhas aflições,
Todo mundo tem uma mania não é?Eu gosto de caminhar por aí, com música nos ouvidos,
Talvez seja muito tarde, eu sei que é perigoso, mas eu sou teimosa, porque é de noite,
Que me coloco a pensar em questões sensatas, eu posso pensar em qualquer coisa,minha mente voa…longe…
Eu te coloco em rascunho, eu apenas me conformo…doce amor, eu apenas me conformo…com seu esboço,
Seu esboço em preto e branco…

Maybe I’m just too young to keep good love from going wrong
Oh… Lover, you should’ve come over…
Because it’s not too late…

Roadside & Cigarettes

“I was looking for some action
But all I found were cigarettes and alcohol”

She smoked a cigarette, slipped on her leather jacket
And left town singin’ “Life’s so bittersweet.”

Mamãe dizia que a vida é como uma estrada perigosa e bonita,
Quando olho pela janela dessa vida em movimento,
Eu vejo as faixas sendo engolidas para debaixo do carro,
Paisagens estonteantes, um velho bar abandonado cheio de velhos,
Tomando suas aguardentes de péssima qualidade e jogando cartas.
E então?Então eu poderia acender um cigarro, mas eu não fumo,
Mas essa estrada me dá a terrível vontade de acender um cigarro,
E quando eu tragar esse veneno inteiro, essa onda terrível de prazer,
Eu jogarei o resto deste cigarro num acostamento cheio de pedras,
Talvez eu olhe pelo retrovisor e lhe dê um sorriso com olhos molhados,
E então me pedem para parar de tragar esse veneno, mas este vício…
É como se eu tivesse um maldito cigarro nas mãos, eu queimo meus dedos,
Com este vício eu me embriago numa fumaça de incertezas, distância…
Sentimentos não correspondidos, um rosto bonito, apenas uma lembrança.
E então eu penso, o quão doce pode ser a vida, igual àqueles cigarros de cereja.
Ao mesmo tempo em que a vida pode ser cruelmente enjoada, ela é assim, tão agridoce.
Então…Talvez eu pare no acostamento, acenderei um cigarro após o outro,
E quando as cinzas dos cigarros caírem no chão, embriagada nessa fumaça venenosa,
Eu lhe darei um sorriso, jogado no acostamento, um vício jogado no acostamento,
Como um maldito cigarro agridoce…jogo minhas emoções num acostamento cheio de pedras.

E o Corvo disse: “Nunca mais.”

You’re lighting my dreams
Light up my skin, so far away
You’re holding it in
I’m looking around, watching it spin
God my world outside is changing something within

Em um quadro abstrato eu construo o retrato de um Homem com borrões,
Tinta preta, vermelha e azul, porque estas, nesse meu mundinho,
São minhas cores favoritas, e com borrões de cicatrizes, este homem,
Este homem estou a ferir, com arranhões em forma de borrões vermelhos,
Eu desconstruo esse rosto tão bonito, porque somente eu,
Somente eu com essa minha loucura quero enxergar o que tem ali,
E com traços fortes estou deformando, o que é este Homem agora?Quem é você?
Deixe-me entender o que acontece nessa sua abstração, nessa frieza doce,
Nessas tuas poucas horas de sono diárias, você, Homem, está cansado,
Essas tuas olheiras tão profundas combinam com teus olhos escuros,
E tal como um personagem de Edgar Allan Poe, eu o desenho nas sombras,
Talvez então eu coloque um belo corvo nos ombros,com garras afiadas,
[E o corvo disse: “Nunca mais”…”NUNCA MAIS!”]
E talvez eu desenhe as chamas de uma fogueira ligeiramente pagã,
Nesses teus olhos pequenos e incógnitos, mas tão demoníacos, o que você têm?
E em tuas mãos terá um livro lento e triste, porque nessas tuas poucas,
Nessas tuas poucas horas vagas, você, este Homem se põe a ler, e neste meu quadro,
Há um livro lento e triste, em tuas mãos trêmulas de cansaço, um livro com cheiro velho,
Nesse teu mundinho tão fechado, talvez alguém dance conforme teus passos.
Eu coloco nessas tuas mãos, um livro com páginas em branco…

[Um corvo em teus ombros, labaredas nos teus olhos e nas mãos um livro,]
[Páginas em branco, e talvez um velho relógio ao fundo…]
[Estamos envelhecendo, sim, nós mudamos, todos nós…]
[É engraçado…como envelhecemos…]

E o Corvo disse: “Nunca mais.”

It’s our world, but time moves
Time moves on in our world

Waiting

A insensatez e a incerteza dos Tolos.
“O coração firmado numa reflexão inteligente é como o enfeite em parede polida?”

Um sorriso precioso acordando o silêncio entre os homens,
Estamos esperando novas emoções numa manhã de outono,
Com nossos agasalhos carregados de perfume importado,
Nos pontos de ônibus,estações, bares, centro de compras.
O que estamos esperando então?E o que precisamos agora?
Agora nesse tempo estamos orfãos, presos nas nossas incertezas,
Em sonhos distantes numa oficina de arte fazendo um vitral,
Juntando os pedaços de um amor frágil e desencontrado,
Estamos esperando para adormecer porque queremos apenas fugir,
Dessa distância, frieza, inferno, solidão e páginas em branco,
Estamos apenas esperando uma maldita razão para nossas ações.
Ações mesquinhas, conversas desencontradas e frias, cada vez mais frias,
Estamos apenas esperando um pouco mais de calor nesse outono.

E então dizemos que está tudo bem!Está tudo bem meu amigo!
E então batemos palmas para nossas ações idiotas e crenças infantis.
Garotinhas de 15 anos tão insensatas discutem sobre a vida numa roda,
E nós tão adultos olhamos com desprezo e culpamos a direção,
Os adultos julgam saber a direção que pés descalços percorrem, nesse chão,
Cheio de buracos e pedrinhas pontiagudas, enquanto sangramos, num passo manco,
Apenas esperamos, como garotinhas e garotinhos imbecis de 15 anos,
Esperando algumas doses de pílulas para dormir, para nunca mais acordar,
Porque nesse lugar que estamos agora, tudo é triste e queremos apenas sedativos.

E então?Numa galeria de roupas e coisas supérfluas alimentamos o ego,
Eu quero apenas ficar bonita vestindo uma jaqueta vermelha,
E quando o vento bater nos meus cabelos eu quero apenas rir,
Porque estou apenas esperando, e nada mais importa, apenas esperando,
E talvez eu ande com meu guarda-chuva embaixo de marquises,
E então um imbecil qualquer vai rir na minha cara, e então querido?
Eu não me importo de ser a maldita piada o tempo inteiro,
Porque num mundo de tolos, quem dá as cartas é o rei,quem diverte são os Tolos,
O Tolo diverte, chora, mas um dia ele se aposenta, mas ele continua esperando,
Porque um dia ele se torna Tolo novamente, porque ele espera, os tolos que amam
Que as pessoas lembrem dele como aquele que as fizeram rir,é tão divertido não é?
E os carros passam, em poças de risos, e eu me protejo com meu guarda-chuva,
Estou apenas esperando num silêncio, como uma criança orfã com a mão esticada pedindo esmola,
Me protegendo da chuva, embaixo de marquises com o guarda-chuva aberto…

I’ll still be waiting…
Just waiting for a friend
I say it’s alright,
It’s alright my friend…
Just waiting