Sobre o Efêmero

O que podemos falar sobre o efêmero?Fugaz, passageiro,momentâneo?É aquela paixonite de adolescente no auge de seus quinze anos achando que encontrou um príncipe encantado e 15 dias depois nos “desapaixonamos porque o príncipe virou sapo“. É aquela visão rápida mas que marca a gente pra sempre?É aquele sono que logo vai embora quando uma pessoa interessante aparece para conversar contigo?

Há dias e dias que eu ando pensando nas coisas fugazes da vida. É engraçado quantas vezes nos meus 24 anos, passei por situações que as pessoas se pegam falando para nós aquela típica frase: “Fica calma, isso passa, logo logo você se esquece!”. Quando eu era criança, um dia estava voltando da escola e encontrei uma pomba no chão. Não era aqueles pombos horríveis, sabe?Era uma pomba rolinha e aparentemente estava deitada no chão. Eu, na minha alegria e inocência  de criança achei que a pomba havia se machucado e eu queria salvar ela. Peguei um gravetinho e comecei a cutucar o pássaro no chão. Ela não se mexia, e eu achei estranho. Virei o bicho de barriga pra cima e vi que tinham vermes devorando sua barriga. Foi a minha primeira experiência que eu tomei consciência que as coisas vivas morrem. Elas morrem e podem ser devoradas, daquela forma, e uma menina piolhenta(eu estava fazendo tratamento contra piolhos na época…) ficaria chafurdando o corpinho putrefato e ficaria alguns minutos entendendo que porra era aquela. Eu ficava me perguntando o que aconteceu com aquele bichinho. Cheguei em casa e perguntei para minha mãe porque tinha “bigatos” na barriga daquela pombinha tão bonitinha. Bem, ela disse: “-Ela morreu!Isso acontece com todo mundo!”. Minha mãe adotiva não tinha tanto tato para explicar as coisas. Na época, comecei a assistir os primeiros filmes de terror. Um deles foi um da “saga” Sexta-Feira 13. Quando abrem o caixão do meu querido Jason Voorhees, aparecem novamente os malditos vermes rastejando na cara dele junto com baratas e besouros cenográficos de gosto bem duvidoso.  Sendo assim, me lembro que entrei em pânico na mesma proporção de quando assisti “A Colheita Maldita” achando que toda espécie de milharal da face do nosso planetinha acolhia uma espécie de demônio que poderia arrancar sua espinha dorsal pela cabeça. Imagina uma criança fazendo associações: “Um dia eu vou morrer, e vou ser devorada. Eu não quero morrer, eu não quero vermes me comendo”. Sei que fiquei uns 2 dias pensando só nisso. Mas, como os adultos dizem, “isso passa”. Isso passou e eu esqueci mesmo. Nem liguei mais para as coisas mortas, pois os adultos me disseram que as pessoas podem ser cremadas, então esse fato me tirou todo aquele pavor. Isso foi um exemplo de algo efêmero. Foi uma visão de uma pomba morta que me deixou em pânico durante 2 dois e depois eu nem me lembrava mais, até que um dia uma coisa que todo mundo tem, chamada memórias cognitivas de curto prazo, no caso, o tal do efêmero, momentâneo, passageiro, transitório.  Foi um episódio de curto prazo, mas é algo que eu voltei a me recordar quando tinha 15 anos,pois eu vi uma criança na praça central de Santa Bárbara d’Oeste cutucando a pomba morta com um graveto de algodão-doce. É engraçado que foi a partir desta idade que eu comecei a ter flashes de memórias perdidas. Sabe?Aquelas memórias banais, que a gente não dava importância no começo, ou que nos deu um trauma leve, porém passageiro, ou simplesmente nem nos lembrávamos mais. Coisas que eu via e não conseguia entender o que era exatamente, e de repente aquilo volta, em decorrência de algo no nosso cotidiano nos trazer de volta qualquer tipo de acontecimento correlato.

Andei pensando esses dias, sobre essas coisas rápidas, como o simples fato de uma pessoa olhar pra você num metrô lotado e sorrir numa plena segunda-feira. Hoje uma senhora bem idosa olhou pra mim e me deu um sorriso, e eu retribui. No meio de várias pessoas mal-humoradas porque era segunda-feira e mal esperavam a sexta-feira chegar, uma pessoa que lhe retribui ou distribui um sorriso, é algo marcante não é?Ela foi embora, desceu na estação da Saúde e eu vi ela bem devagarzinho com sua bengala em direção da escada rolante. Aquele sorriso durou frações de segundo, mas é algo que vou conservar comigo, assim como a visão de meu pai, meus irmãos menores e minha mãe na beira do mar. Eu estava sentada no guarda-sol observando eles de longe. E minha irmãzinha de 10 meses se descobrindo nas marolinhas do mar e sorrindo mostrando seus 2 dentinhos inferiores. Quanto tempo durou isso?10 minutos?Sim, foi muito rápido, mas daqui alguns anos, naquele mesmo local, aquilo que foi efêmero se transformará em saudade e numa lembrança permanente. Quem disse que tudo isso é passageiro?

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