Garotinha à toa

Garotinha à toa

Era o alvorecer no horizonte. Fez-me calar em todas as esferas de razão, olhos perdidos, na vastidão de pensamentos que caem no chão, recolhidos pelos pássaros em busca de comida. E o que dizer? Pássaros comem pensamentos? Não querido, isso aqui é apenas uma metáfora perdida em um texto escrito num feriado de nuances. Parou de chover lá fora, e o sol ameaçou surgir timidamente ao longo das quatro horas da tarde. Em dias de preguiça, até o sol anda rabugento, tímido, aparecendo forçosamente sem querer. E ele dourou a pele daqueles que caminhavam em volta da lagoa, enquanto os patos atravessam com jeitinho engraçado. As pessoas corriam e se dispunham a sorrir e diminuir o passo. Sabe o que é isso, aquilo que falamos de manhã, o prazer nas pequenas coisas. Quando vou ao parque, gosto de voltar depois do entardecer. Sinto-me bem, acolhida nos últimos raios de sol do dia.

Acordei hoje e fui caminhar. Caiu uma garoa fina, mas quando eu cheguei a minha casa, um banho quente e cheio de ternura tirou-me daquele cansaço da caminhada em passos apressados. Tomei meu café da manhã bem tarde. Dias chuvosos pedem uma preguiça e uma falta de disciplina justificável. Fiz meus pães com manteiga na chapa e meu velho e bom café com leite. Gosto de minha vida simples, sem cobranças, fazendo o que eu bem entender. Seria isso um privilégio? Ou esse meu privilégio me tornará uma pessoa amarga que não suportará conviver no mesmo teto com outra pessoa? Serei eu uma pessoa ranzinza? Egoísta… É o que dizem das pessoas que moram sozinhas. Dizem que elas se fecham em um mundo só delas, e ficam alheias à mercê da própria solidão, mas há pelo menos o que chamam de ócio criativo. Vi um dia desses, uma matéria que disse que as pessoas que vivem sozinhas são mais criativas. Realmente? Não sei dizer, mas lhe digo, não sei escrever no caos. Gosto do silêncio, mesmo que ele seja invadido por pequenos sons de gotas de chuva caindo lá fora. Gosto de devanear sobre as gotas cálidas de chuva que escorrem no vidro de minha janela. Gosto de tomar chá enquanto escrevo ou leio um livro. De vez enquanto invento alguma receita maluca de café. Um dia fiz um cappuccino com notas aromáticas de laranja. Frequentei muitos cafés, levei comigo algumas receitas para minha eternidade imersa em cafeína e brincadeiras insones.

E minha mãe pega no meu pé às vezes, dizendo que eu desapareço. E eu digo, entenda mamãe… É a natureza de minh’alma. Ela clama pelo ar fresco dos dias comigo mesma. Disseram-me que eu penso demais, o tempo todo, e que isso faz mal. Fui diagnosticada com hiperatividade. Sofro de insônia pelo simples motivo de não conseguir me desligar. Quando fecho os olhos, sonho com a pessoa que eu amo, doente numa cama de hospital de paredes psicodélicas e clamando por um gole de café. E eu, com meu coração tão mole, desobedeci as ordens médicas e levei a ele um bule cheio de café, e ele levou aos lábios, segurando a xícara bonita e azul com as duas mãos, cheias de marcas de agulhas impiedosas. Deu-me um sorriso e me apertou a mão num gesto de carinho, depois de dar um belo gole de café e não conseguir segurar a xícara por muito tempo. Entram as enfermeiras chutando a porta me chamando de assassina. Devem ter sentido o cheiro do café no corredor. Confusão criada… Lembro-me do rosto de meu amado num sorriso de satisfação com misto de ternura e um pedido de desculpa pela confusão criada. Eu me pergunto… O que significa sonhar com uma pessoa que está com Dengue e não pode tomar café? E eu me recordo do aroma do café no quarto do hospital, e o meu amável doente moribundo me perguntando o motivo daquilo tudo. Eu poderia procurar o sentido em meus livros de Jung e Freud, mas prefiro ficar com o meu significado. Conhecimento pode ser um belo estraga – prazeres… Quero viver o meu prazer.

Sou uma garotinha, sim, minha querida mãe. Sou uma garotinha em corpo de mulher de 25 anos, rabugenta e que se sente velha, muitas vezes. Estava pensando em correr atrás de minhas coisas. Ter uma casa com quintal, começar a comprar meus móveis, minha própria cama, minha estante abarrotada, um quintal com flores, gramado, lençóis brancos secando no varal, mais tarde rasgado e sujo pelo meu cão ou meus cães. Adoro animais, gosto de flores, queria deitar no gramado e ler histórias, colher laranja e descascá-la. Pegaria as cascas e usaria de adubo em minha própria horta. Esse estilo de vida que aprendi com meu querido pai. Hoje sou uma garotinha que acha um absurdo pagar 2,50 no quilo da banana. Quando eu morava com meus pais, a banana era colhida no fundo do quintal. Eu não quero muitas coisas. Sou uma mulher simples. Queria um amor pra vida toda, sou aquelas que vivem o ideal de que quantidade não é qualidade. Amei poucos homens, minha vida amorosa não é movimentada. Mas aqueles que eu amei, carrego no peito uma lembrança doce e cheia de ternura, mesmo nas brigas e tudo aquilo que nos fez separar. Meu Amor não morre, levo comigo, junto ao peito, e a única coisa que eu queria era poder sair de manhãzinha e levar meu velho cão pra ir passear. Passar numa padaria e trazer pães quentes e fresquinhos para meu amor, que acordaria, tomaria uma ducha pra despertar. Eu prepararia um café, e ainda levaria quando ele saísse do banho com a toalha amarrada na cintura. Iria rir dele quando saísse do banho tremendo os lábios. Se estivesse de mau humor, contaria alguma piada que eu li no jornal que o espera na mesa do café. Colheríamos amoras para fazermos geleia. Nem sei se ele gosta de geleia, mas eu faria mesmo assim. Nem sei nada de meu futuro, mas independente do que seja, é o que eu gostaria de fazer. Não almejo grandes sonhos. Queria apenas minha casinha com quintal de flores e pés de fruta, um escritório com meus livros e minha escrivaninha. Talvez a maior utopia disso tudo seja ter isso vivendo apenas da escrita. Sou apenas uma garotinha à toa, com meus devaneios noturnos de feriado de outono. Garotinha à toa nos meus sonhos tão singelos. Amarga é a escuridão sem estrelas. Em meu céu, tem lugar pra todas elas. Inclusive você, garotinho à toa…

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Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

O presente.

O presente.

Está lá, em cima de uma mesa, uma caixa bonita em azul marinho e amarelo creme. Tem um lindo laço que eu comprei já pronto, pois sou péssima em fazer laços, dobraduras, embrulhos e essas coisas que ditam que toda mulher deve saber fazer. Talvez escrever seja a única coisa que eu saiba (ou acho que sei) fazer. No fundo da caixa, há papel em seda azul dilúvio… Sei lá, acreditei que combinava com teus olhos. Tudo bem cuidado, numa perfeição incontida em um carinho que talvez os deuses e toda a natureza aturdida e talvez desnecessária, sejam incapazes de compreender. Tem coisas nessa vida que são impossíveis de ter uma aceitação dentro de uma esfera viável ou pelo menos, de compreensão, outras, carregam um tempo considerável para completa aceitação. Eu vejo este presente em cima do banco e eu quase consigo entender que talvez nunca lhe seja entregue. Hoje eu entendo e levo comigo um profundo silêncio dentro de meu espelho d’alma. Nunca fui tão reclusa, ando de mau humor e com uma perspectiva de que a vida é uma grande merda e o segredo é ignorar todo o fedor. Lembro-me de um dia que me disseram que a vida é um balde de merda, e a cada chute que damos, a merda se espalha, e o fedor fica insuportável. Vivemos em um mundo mesquinho, de pessoas que não possuem a mínima noção do bom senso. Talvez eu e você estejamos inclusos neste mapa de horrores, mas com nossas casinhas dispostas em uma casa no campo distante, tentando, talvez em vão, fugir desses horrores. Você se diz desacostumado, eu estou assim, desacostumada, silenciosa e talvez, desalmada. Não carrego mais comigo aquela coisa sonhadora de que podemos mudar o mundo. Sinto as coisas ao meu redor cada vez piores. Tenho velhos fantasmas me atormentando, pincelando meus pensamentos com perguntas talvez sem respostas. E o que falar de Amor? Eu lhe digo que nunca acreditei na felicidade, mas acredito nos momentos bons, e nos momentos ruins que nos soca como se fossemos sacos de pancada. Eu digo que eu sinto Amor e acredito nele, mas muitas vezes dentro de uma esfera de improbabilidades e incompatibilidades, amores e desamores.  Eu lanço um olhar para a caixa do laço azul, eu vejo mensagens sem respostas e talvez uma falta de atenção apenas aparente. Silêncio, a saudade fala mais alto, mas quem sou eu para obrigar alguém a me dar atenção? E assim eu saio, vou caminhar para comprar pão. As faces de pessoas alegres no supermercado me dão talvez uma falsa sensação de que a felicidade possa, de fato, existir e minha tentativa de salvar aqueles que vão cair do abismo, não é um tempo perdido. E quando eu deito meu corpo na madrugada, eu confesso, que espero meu peixe perdida em alto mar. Protejo-me em minhas manhãs presas em leituras inspiradoras, estudando um pouco de xadrez, mesmo que eu não consiga decorar movimentos e que eu caia novamente na pegadinha do Xeque Pastor. Prefiro jogar conforme os minutos passam, sem estratégias prontas, e assim, você “rapela” minha aristocracia e metade de meus peões.

Fico clicando em botões de “Enviar currículo”, e perdida em bits e bytes de um editor de texto, rindo de meu amigo que não faz a barba há 150 dias, escrevendo alguns textos, ensaios e trechos de meu livro, ou apenas procurando anotações de observações aleatórias que escrevi enquanto esperava no terminal de ônibus.  Minhas tardes são muito bem aproveitadas assistindo documentários da BBC, History, National e Discovery. Assisti aquele que tu falaste, sobre as formigas. O que eu pensei, foi que eu adoraria ficar sentada por perto, com aquelas roupas de proteção… Horas vendo aquelas formigas, estabelecerem a pequena paz de espírito delas no caos de um chute de botas. Não poderia usar sapatinhos de plástico e eu não teria mais oito ou nove anos.

Às vezes eu bebo, mas apenas para me aquecer e tecer saudades. Não saio, estou sem dinheiro para viver uma boêmia pandemônica. Às vezes vou para a Praça da Paz ler embaixo de árvores, queria fazer isso hoje, mas está chovendo. Uma garoa fina, daquelas que você diz que lhe deixa desanimado. Mas eu gosto do tom cinzento que está lá fora. Combina com meu estado de espírito. Cinza… E não tem nada a ver com sadomasoquismo, e, aliás, o livro é uma grande merda, escarrada, escancarada nas estantes para leituras vazias, pura Literatura Oca. E eu sonhei esses dias que eu era uma Ghost Writer. Eu poderia ser, mas me recusaria a escrever coisas ruins. Mas achei divertido, eu falava com um cara e o mais engraçado foi o fato dele ter um saco de pão na cabeça. Coisas de sonho… E eu lá, fazendo anotações em um papel laranja, e a caneta falhava, e aquilo me irritava profundamente. Sabia? Caneta que falha me deixa enraivecida. É difícil tirar-me do sério, um dos motivos, porque tenho tendência de guardar o que me corrói dentro de um baú a sete chaves. Mas chegarão os dias que o baú estará lotado, e tudo, uma grande bomba, pessoas ao meu redor à mercê de um apocalipse. Mas as canetas falhas não chegam nem perto de eu guardar alguma mágoa muito grande. Apenas alguns “filha da puta”, “maldita”, “vai se foder”, emitidos com um sorriso cínico e sarcástico de canto de boca. Depois, simplesmente eu esqueço. Ou dou risada, horas mais tarde, quando faço um apanhado de minhas resoluções bem sucedidas ou uma lista de fracassos.

Olhei novamente nesse instante para o teu presente… Eu poderia aprender a fazer laços bonitos. E talvez até caixas bonitas artesanais. Um dia, eu pintei telas. Parei… Um dia, fui xeretar revistas de ponto cruz ( aqueles bordados bonitinhos em toalhas) e me estressei, não tenho esses talentos, serei eu apenas uma garotinha? Talvez eu seja como a música de Bob Dylan

“But she breaks just like a little girl.”

O bom menino.

Você mostrou-me teus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro… Daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…

Éramos jovens, você se lembra? Corríamos pelas ruas do subúrbio buscando sonhos desacordados, com canções em tons desafinados, cores ajustadas, como a mistura de Renoir num quadro pintado em Paris. Posso estar escrevendo coisas das linhas pra fora. Entenda querido, já são além da uma da manhã, e eu ando tendo madrugadas insones. Há um silêncio lá fora que me convida para contemplar os gatos por cima do muro. Eles andam numa graça inocente por entre as grades, e quando me veem com os cabelos ao vento, no meio dessa madrugada de outono indeciso, eles me encaram com os olhos brilhantes. Há um gato, negro como a noite, eu só vejo os olhos amarelos, me encarando como se soubesse dos meus sonhos de ir e vir, das minhas noites tecendo a saudade em meu tricô imaginário de vinho Merlot. Hoje bebo no gargalo, desde que te conheci ignorei a etiqueta de tomar vinho como gente educada. Eu não sou mais educada, sou tresloucada.

Se eu fumasse, acenderia um cigarro, talvez um mentolado, ou aqueles doces, de cereja. Ficaria soltando anéis de fumaça no ar, quem sabe eu fizesse um grande o bastante? Tem uma coruja aqui perto do terreno baldio, ela mora num buraco. Em meus sonhos, ela poderia passar voando nos meus anéis de fumaça mentolados. Ela passaria por dentro deles e daria um rasante no chão. Talvez, pegasse minhas emoções que jazem no chão, e levaria para bem longe, talvez para um inferno Dantesco, ou para o paraíso dos sonhos de Beatriz. Lá existe um pouco de Amor. Eu escuto Chico Buarque e sinto Amor, e eu queria que quando eu passasse você me estendesse a mão, ou o chapéu, mas tu não usas chapéu. Um dia queria que me mostrasse o sol, aquele que lhe faz sorrir, assim, mais de duas vezes ao dia. Percebe? Eu te mostraria toda a beleza de um dia chuvoso, talvez encontrássemos alguma coruja tomando banho, enquanto as pessoas passam aturdidas com seus guarda-chuvas, com raiva, passos largos. Eu contaria os segundos, contigo, e depois me apoiaria em teu ombro quando o trovão bradasse a fúria dos Deuses lá naquele horizonte de campo aberto.

Quando eu era criança, eu gostava de andar de bicicleta embaixo da chuva. Eu passava na poça de lama, e conforme ia pedalando, a roda de trás respingava lama nas costas da minha camiseta velha de guerra. Meu pai sempre falou que eu poderia tomar um raio na cabeça, mas a única coisa que eu tomei, foram gotas de chuva que me escorriam nos lábios. Eu era uma criança levada. E você ficou com minhas fotografias… Tem uma delas que eu estou feliz e banguela num balanço. Tem outras que estou acampando em Brotas, e eu praticava trilha na serra com minha mãe e aquele que um dia eu chamei de pai. É uma longa história, queria te contar um dia, sobre minhas aventuras, dos dias que eu subia no telhado escondida. A vida era incrível vista de cima, e pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não dão valor para quase nada, não tinham um olhar apurado, nunca ninguém me viu lá em cima, ninguém, só pardais e pombas que balançavam nos fios do poste… Ahhh, e o cachorro da vizinha, que eu tinha que passar de fininho, porque ele ficava nervosinho e se colocava a latir ininterruptamente. Tinha medo de ele chamar a atenção da minha vizinha balofa que não dormia porque o marido roncava. Ela poderia acabar com a minha brincadeira infantil de ser uma stalker das alturas. Um dia, atirei uma pedra no cachorro dela. Você vai me dizer:

“Malvada”…

Mas um dia, você me contou que jogou o gato da janela. Tu eras uma criança, tão malévola quanto eu, ou não… Apenas queria ver se o gato cairia de pé… Lembra? Quando você me contou isso, eu lhe disse pra você amarrar um pão com manteiga nas costas do gato, assim ele cairia de costas… Mas você cresceu meu bom menino… E nas ruas desse subúrbio, enquanto você dorme, com seus sonhos que talvez nem se lembre quando acordar, eu lembro da sua travessura de menino, como cenas de um frame despedaçado. Eu posso ver duas crianças correndo pelo subúrbio… Mas isso é apenas um devaneio, perdido entre meus anéis imaginários de fumaça. Na primeira tragada eu vou achar que vou morrer. Tentei tragar uma vez, quase morri, mas você tentou me ensinar. Eu acho que ainda não aprendi, ou tenha me esquecido. Fico apenas na vontade de menta, cereja ou pinho…

Eu poderia te reconstruir, como um vitral, daquelas igrejas europeias, mas não seriam imagens santificadas, já lhe disse um dia, eu fujo de tudo que é convencional, e faço isso sem querer, sou tresloucada… Quando criança chutava os formigueiros e passava o tempo observando o caos. Eu me perguntava se as formigas gritavam, como as pessoas na televisão quando aconteciam aqueles terremotos lá no Japão. Hoje só escuto meu próprio grito. O resto eu ignoro. Além de louca, sou egoísta. Mas eu te amo, mesmo tendo atirado o gato da janela. Você chega até mim nessa noite, com seus sonhos e travessuras de bom menino.

Emoções rasgadas.

Depois de uma noite de insônia, poucas horas de sono, e aquela sensação de resfriado chato querendo derrubar, acordei quase rouca, com voz estranha, que sumia em poucas palavras. Quase desmarquei a entrevista, mas não desisti: salto alto, camisa, meia fina e saia executiva. Sapato fino, de tom bordô em couro aveludado, cujo salto enganchava nas malditas calçadas de pedras soltas. E eu penso… Por quê dificultamos tanto? Tudo poderia ser mais simples. Eu me irritei com minha meia-calça. Passei em uma loja no meio do caminho, comprei outra, entrei no banheiro do estabelecimento e troquei minha neura por outra neura… Fiquei com medo de rasgar a meia de fio 15 em lycra, fato que realmente aconteceu, mas foi no portão de casa, quando a coroa do abacaxi que eu comprei encostou-se a minha meia. Quando fui trocar as sacolas de braço, escutei o barulho desesperador de fios rasgando. Olhei, dei risada. Pedreiros na espreita… Um naco de minha coxa branquela debaixo do rasgo seria normal e mais divertido se fosse à hora de um bom sexo, aquela coisa de desespero. Melhor uma meia rasgada em cima da cama pelas mãos de um homem do que pela coroa de abacaxi pérola comprado na promoção que estava azedo. Nada que um açúcar resolva. Devorei três fatias com requintes de crueldade e sadismo, sentada em minha cama, marcando trechos de “Cartas de um Escritor Solitário”, de Sam Savage. Joguei fora a meia, fiquei em mangas de camisa e adormeci. Não passei na entrevista, recebi um e-mail frustrante, mas sou forte, paciência! Terei outros momentos para rasgar meias por aí e dar risada de meu próprio medo. Pelo menos tenho algo divertido com tons de tragicomédia para contar. Adormeci esparramada na cama e sonhei com teus braços com veias e tendões aparentes de tua pele branca e combinando com meus tons embaixo de minha meia rasgada…

Memórias da madrugada: Xeque…

Mergulhada em pensamentos de trevas, perdida no meio de escuridão com os olhos vendados. Sentimento dúbio, no escuro sente os raios do sol queimarem os meus olhos, mas é uma luz que eu não encontro. Tateamos emoções em paredes de tijolos esfarelados, nossas mãos sujas de terra vermelha. Seu eu pudesse faria um desenho em teu rosto, ou rabiscaria um jogo da velha num chão de concreto ou na areia da praia. Deixaria você ganhar, eu era campeã de jogo da velha, e eu achava que sabia jogar xadrez. Quatro movimentos… Você olha e diz: Xeque! E então você me mata, e eu perdida em seus olhos de dilúvio fixos no tabuleiro e na tua malícia talvez sem querer. Sou uma garotinha, em jogadas desgovernadas, trêmulas e desajeitadas. Vejo meu rei aturdido… Já era! Meu reino foi teu em quatro movimentos. Na segunda partida, tento salvar minha rainha, e depois mato teu pastor safado com um pobre peão suicida, pois geralmente é o que me sobra… Peões suicidas. Jogada burra, péssima, eu diria. Mas o que eu posso fazer? Sem querer você me desfoca com seus olhos nas cores bicolores de luz e escuridão dos quadrados do tabuleiro. Chego ao meio do caminho com teus peões jogados na grama, rindo de minhas jogadas desajeitadas. Olho do teu lado e vejo minha cavalaria e alta sociedade agonizando pedindo para meu rei se entregar. Você sorri: Xeque-Mate!Eu me entrego… Meu reino é teu.

Bordeaux

Entre um gole e outro vou cavocando lembranças madrugada adentro. O barulho do ar-condicionado não me tira a concentração. Entre um gole e outro vou digerindo como um doce pecado as páginas de um livro. Encosto-me a parede de maneira não anatomicamente correta. Eu detesto coisas politicamente corretas. Eu gosto do caos. Aquele caos indecente dentro da minha organização. Daqui a pouco sei que vou dormir provavelmente com o livro em cima do peito, ou simplesmente vou beber o último gole que decanta indecentemente no final da garrafa. EU olho pela janela, vejo as casinhas de luzes amareladas no horizonte, e estou perto do mar, mas não escuto as marolas, escuto a molecada insone conversando na rua, e um calor que me aflige, de todas as formas. Pode ser o vinho, carregado de calor das emoções tingidas de lembranças. Ou seria o contrário?Estou tomando um vinho Bordeaux, se fosse um Merlot, já estaria em meu quarto, e não em um mesa de tampo de vidro. Entre um gole e outro, bebo minhas tórridas lembranças em goles de uma certa melancolia. Talvez seja o calor, aqui em Salvador é extremamente quente.

 

Hoje eu passei na beira da praia. Foi a primeira orla que eu vi em meus vinte e cinco anos que possuí cactos. Adoro cactos sabia? Mas não tanto quanto girassóis. Tive um momento de epifania, assim que encontramos o primeiro posto depois de uma viagem de avião Teco-Teco da Trip. Chegamos ao aeroporto e subimos no carro. Tínhamos pela frente cerca de duas horas e meia de viagem. Paramos em um posto de conveniência, era de madrugada, bateu uma fome. Logo na entrada da loja, tinha uma escadaria e um jardim de girassóis. Alguns estavam despedaçados, mas mesmo os girassóis incompletos me encantam de tal forma, que seria um poema de muitas estrofes se eu fosse escrever meu amor diante os girassóis. Quando eu era jovem, eu amava, aliás, eu ainda amo, aquela música do “Ira!”, “O Girassol”, mas não sou fã da música “Girassol” do Cidade Negra. Acho enjoativa e repetitiva.

 

“Um Girassol sem sol, um navio sem direção…” (algo assim. É tarde da noite e estou com doses de tanino na cabeça).

 

Mas a música mais linda que se aproxima da beleza de um Girassol, é “Sunshine”, do John Denver. Eu amo essa música, se eu soubesse cantar, eu cantaria essa música numa serenata, mas enfim, escrever é uma das certezas que eu tenho que de alguma forma eu sei fazer, mesmo que algumas vezes eu tropeço em pedras no meio do caminho. Como escritora insone, quando o dia ameaça amanhecer, fico cansada demais para revisões minuciosas. Este escrito aleatório, além de ser escrito madrugada adentro, tem o fato “Tanino” com notas de saudades, aroma de lembrança com poesia e um pouco de breguice incontida e imensurável. Às vezes a saudade é tanta, que eu poderia construir vários prédios azuis, com tijolos velhos, apenas para matar o tempo. Muitas vezes tenho vontade de cometer um crime contra o tempo. Poderia sacanear os ponteiros, convidá-los para dançar na beira de um abismo. Iria rodopiá-los, até os ponteiros ficarem tontos e se atirarem sem querer no abismo. Assim ficaria somente o agora. Não teríamos que ficar pensando nos dias de amanhã, remoendo a desconstrução os sonhos, embriagando-se na falta de perspectiva de tudo o que nos cerca, aquelas coisas aos quais deitamos a cabeça no travesseiro e perdemos noites de pesadelos cheios de medo do fracasso. Queremos algo como o poema “Lídia”… Seria bom se pudéssemos ficar na beira do rio, como pagãos tristes, com flores no colo, mas a vida seria monótoma… Ou não, posso estar delirando à toa. Gosto de fazer isso, divagar… Divagar, principalmente com taninos na cabeça…

Imagem
Girassóis baianos de uma escadaria de um posto de meia estrada… Epifania.

 

Wear another shoe.

Ela passa a madrugada inteira refletindo sobre a vida enquanto os grilos e demais seres da noite fazem baderna. O vento frio balançando as árvores de eucalipto, e ela sempre quer fugir de vestir sapatos novos. Caminha por ladeiras com espinhos nas beiradas,procurando lenha, e faz isso cantando enquanto seu bom menino dorme no relento, próximo ao rio.

 

Não chore meu amor
Meu rosto está todo molhado
porque meu dia foi difícil

 

É no sereno da noite, que vê o rosto dele sendo iluminado pelas labaredas da fogueira. E ela canta, baixinho, enquanto acaricia o rosto sereno e inabalável, a barba acastanhada por fazer, um trecho de pecado. Não queria acordá-lo. Fica horas e horas apenas vendo-o dormir e enquanto o tempo não passa, fuma um cachimbo de fumo com aroma de pinho. Foi ele que a ensinou a tragar, depois de muitas e muitas tentativas frustradas e cheias de riso. Ele virou de lado. Seu rosto ela não enxerga mais, ele sempre dorme virado para o lado onde seus olhos não chegam. Derrama lágrimas, o fogo se apaga, é preciso buscar lenha. Mas a distância é grande demais, dolorosa, e seus pés estão cansados. Quer dar-lhe um beijo no rosto de seu bom menino, gostaria que ele sentisse saudades, mas os sapatos estão apertados, a saudade já impera seus gritos nos sonhos de poucas horas. É nas madrugadas que ela encontra sua paz, lapidada na penumbra, o silêncio, o pio da coruja cantando agouros.

Toda noite ela olha pela última vez aquele que dorme, cansado, cinzento nos dias de chuva, radiante nos domingos ensolarados. Vai embora descalça. Deixa seus velhos sapatos e fotografias velhas dos tempos de criança para trás, sem nem ao menos poder contar-lhe os detalhes daquelas fotografias de dezoito anos atrás. Mas no meio do caminho, ela sempre dá meia volta e retorna. Acende um cachimbo e vai procurar lenha. Ele continua dormindo. Qualquer dia ele acorda, enquanto ela canta, pra si mesma… Enquanto o vê dormindo, em seus sonhos de menina.

Durma, não chore
Meu doce amor
Seu rosto está todo molhado
Porque nossos dias estavam difíceis
Então faça o que deve fazer
para encher esse buraco
Calce outro sapato
para confortar a alma
Aqueles tempos em que eu estava arrasado
e você permaneceu forte
eu acho que encontrei um lugar
onde eu sinto que irei…

Memórias da madrugada: Antes de Amanhecer (Before Sunrise).

Eu lembro da minha infância de um modo…Sabe, uma época mágica. Eu me lembro quando minha mãe me falou pela primeira vez sobre a morte. Minha bisavó havia acabado de morrer, e minha família toda estava na Flórida. Eu tinha uns três anos e meio. Eu estava no pátio dos fundos jogando e minha irmã estava me ensinando como usar a mangueira, de uma forma que você pudesse fazer um spray em direção ao sol, e então formar um arco-íris. Então eu estava fazendo isso, e através da nuvem de gotas eu podia ver minha avó. E ela estava ali, sorrindo pra mim.
E eu fiquei ali, segurando a mangueira por um bom tempo e olhando para ela. Finalmente eu tirei o dedo do esguicho…Então larguei a mangueira, e ela desapareceu.
Então entrei em casa e contei aos meus pais. Eles me deram uma bela palmada, dizendo que quando as pessoas morrem, nunca mais a vemos, e que eu imaginei aquilo tudo. Eu sabia que tinha visto, e estava muito feliz com isso. Mas sabe, nunca mais vi nada como aquilo desde então. Mas, não sei. Esse é o tipo de acontecimento que me faz ver como as coisas são ambíguas. Até mesmo a morte.” Jesse (Ethan Hawke)

Sobre o filme "Antes de Amanhecer", retirado do site "Adoro Cinema":  Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.
Sobre o filme “Antes de Amanhecer”, retirado do site “Adoro Cinema”:
Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.

Olimpo.

Estava sonhando. Padeceu em castelos de cristal, construídos por Deuses pagãos do Olimpo. Acendeu velas ao entardecer, ajoelhou-se perante seus medos, lapidados em pérolas de ostras do inferno de Hades. Apaixonou-se pelo cão de duas cabeças, tinha o olhar desconcertante de um brilho que nem todas as plêiades juntas são capazes de seduzir. Ela era como, no céu de Aqueronte, a mulher dos olhos de caleidoscópio.

Acordou encharcada de suor. Abriu as janelas e deixou-se levar pela friagem da madrugada. Seu velho e bom homem dormia ao seu lado como um anjo intocável. Deixou-o lá, com seus sonhos de menino. Pegou as chaves de casa, saiu para caminhar nas calçadas de pedras soltas do bairro do subúrbio. Em volta dos postes, as sombras voavam. Pontos negros de mariposas, rodopiando embriagadas em volta das luzes amareladas que tanto seduziram. Era o céu de Vênus, criado na natureza da imaginação dos que criaram a mitologia divina, de Deuses, raios e trovões. Similitudes, cantando, dançando. A pele dourava-se de Vênus, o coração batia cores, tingidos de paixão nunca atingida, incólume contra o tempo, que não tem hora para chegar. Não existem idas e nem vindas, apenas a imortalidade, bruxas voando em feitiços de bom menino. Atirou-se, de corpo e alma nas estrelas que iluminavam as pedras brancas no meio do caminho.