Taninos

A metrópole, as luzes no horizonte, a eterna busca de amplos sentidos já tão desajustados
Em busca de cores num quadro vazio, sem folhas, nem papel, pincéis, a Arte é sem rosto
Apenas vãs memórias algozes e insatisfeitas, manchadas em aquarela sem dono a quem clamar
Numa galeria de uma estreita rua abandonada pelos amantes decadentes e cães sem dono
Tempos longínquos por demais falham-me à memória, sonhos e acordes de desapego
As cores vibrantes tocam um piano, ensurdecem-me com notas carregadas de vaidades irônicas
Desafinadas, dançando as melodias, refrões descontentes, errando o passo de desejos insolentes
Noite de domingo silenciosa, cálices de éter brindam o ensurdecer de minha paz tão almejada
Traço linhas tortas na contramão do meu juízo, quebro o sétimo espelho de minha sorte
Sorrisos perdidos na contramão, via única de sorrisos enebriados pela mentira de outros pecados
Tenho a saudade atropelada por trilhos de escuridão, sentidos sinestésicos e cores sem nome
Perco o rumo com o traçado de perfumes descoloridos, perdidos na solitude do desengano
Tal como um mapa mal tracejado em papel velho, sujo e disperso na boca do lixo cheio de fel
Invocações de lembranças minimalistas,palavras soltas, lento desengano de poeta esquecido
Tal como uma velha mensagem na garrafa em alto-mar, esperando a velha saudade dar-lhe adeus
Saudade em pedaços, saudade rubro-doce, sussurrando, sua dona andarilha e faminta
Apenas sonhos vagando em universos paralelos e longínquos, desejo consumido em sonhos
O abrir de olhos alheios aos amanheceres estoicos, tão cheios de si e tão vazios de crenças
Apenas um quadro esquecido nas almas desnudando-se em um completo desdém infame
Desintegra-se em milhões de grãos de areia fina do deserto de seu mais temido pesadelo
A centelha divina do teu desejo já sem nome, perdido na noite repentina de luar inerte
Não há nenhuma brisa lá fora, nenhum som, nenhuma alma, nenhum odor, muito menos pudor
A nudez embriagada de corpos em chamas, apenas um baixo ventre a latejar…

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Des’alma

Des’almada transviada, alma suja desejada
Descarnada, esfomeada, o sexo exposto… Receoso,
Viv’alma desnorteada, frio, fome, alma desavisada!
Sãos caminhos, meu lento incômodo, fome intensa
Olhos lívidos em torpor, lento sonho em desengano.

Vinho doce nobre, lento desengano em pele branca ensandecida
Pele arrepiada, doce toque intransigente, face rubra e quente
A beijar-lhe uma trilha indecente de promessas feitas sem pressa
Noite adentro sem juízo e sem pudor, frio e insano amor envaidecido
Jogando os dados noite afora, num jogo de vaidades já tão esquecidas
Des’alma deságua, noite adentro, gemidos ensandecidos… Des’alma… Minh’alma!

29 cores, 29 milhas, 29 desejos.

Andei por aí sem olhar para atravessar a rua. Senti pressa ao atravessar fora da faixa. Onde os carros viravam eu não tinha visão nenhuma, mas eu tinha muita pressa para chegar ao outro lado, e eu sei que ninguém me daria a mão para atravessar a avenida. Não sou mais uma garotinha que dá as mãos para um adulto, mas sou uma criança que anda por aí chutando o que restou das folhas do outono passado. De vez em quando sinto medo do escuro, e se eu pudesse, como nos meus sonhos de criança, pegar um pincel e jogar 29 cores nessa minha escuridão, talvez eu veria o amanhecer com mais otimismo, pois na madrugada passada eu brinquei de pintar um quadro com as cores do meu medo. Peguei cada um deles e joguei numa vela tela em branco que encontrei no porão de minhas lembranças. Um rosto tão antigo, uma fisionomia de uma velha lembrança parecendo numa porta em meu momento de desassossego. Enquanto tomava meus goles de razão, a fisionomia de uma velha lembrança que deixei pra trás, com a convicção de ter superado, um velho amor do passado a entrar pela porta de meu mundinho até então quietinho nos meus dias sem graça tentando ser racional e não me entregar à tolices.

E eu tentei negar toda a mistura de minhas cores, jogando para o alto as milhas que eu caminhei todo esse tempo, procurando por cores desatentas ao meu olhar tão cansado, mas sempre por onde eu passei, eu pisei em tons escuros, onde as cores não se misturam. Eu me recordo das aulas de artes e a teoria da mistura das cores. E eu pintava quadros bonitos, eu desenhava bem, eu poderia desenhar todo o perfil do teu rosto imberbe, mas estavas tão bonito, mesmo assim, estava bonito, e eu lá, toda descolorida, tingida de uma timidez e uma vontade de sair correndo. A cada gole de vinho e tentava firmar minha felicidade repentina naquele misto de surpresa, diante de um dia tão incomum, diante de todas as surpresas que estão batendo na minha porta, me chamando para entrar, mas diante de um lapso de razão, estou sendo educada e apenas espreitando na soleira da porta. De vez em quando eu olho de canto de olhos, mas tento manter minha frieza, finjo não estar nem aí para o que aconteceu ou deixou de acontecer. Ando numa fase extremamente egoísta, evito toda e qualquer demonstração de amor, pulo a parte de cenas românticas de livros, partindo para livros de história, sociologia, filosofia. Sem as baboseiras de amor. Amor é para os fracos, e eu não quero viver de ilusões e de expectativas. A vida poderia ser um poesia, mas está mais para uma prosa sem pé nem cabeça. Eu queria, naquela fatídica quinta-feira não pensar em nenhuma espécie de poesia. Queria apenas sentar, encher a cara e ir pra casa dormir, semi-embriagada, pois afinal, naquele dia, eu teria de ir embora de ônibus, e estar sóbria o suficiente para saber onde era o ponto que eu tinha de descer. Não queria lembrança nenhuma, mas eu nunca esqueço uma fisionomia. Como eu poderia simplesmente ignorar, e ficar apenas observando, tal como um gato em cima do muro, poderia passar por despercebida, eu, minha taça de vinho e meu prato de frios, mas depois de tal surpresa, tal como uma imagem num telescópio em céu nublado, eu não pude conter meu misto de satisfação e surpresa. Talvez se eu tivesse ignorado, eu poderia ter tido sonhos mais leves. Se eu fosse uma pessoa religiosa, estaria me confessando ao padre por ter sonhos impúdicos.  Ainda se fosse somente sonhos impúdicos regados a 100% de agave (ahhh, a tequila…) e a maldita ressaca de sexta-feira, impermeada de uma noite mal dormida, eu ainda estaria bem, destinada a apenas alguns dias no inferno, tal como as pinturas de Gustave Doré para a “Divina Comédia”. Eu poderia estar bem até, acho as partes do paraíso um pé no saco. Talvez eu goste de fazer da minha própria vida um inferno/purgatório dantesco, e quando eu achei que encontrei minha paz, dentro do meu inferno pessoal, a Beleza chegou subitamente num dia de total despreparo, um dia enlouquecido, em que eu peguei a primeira roupa do armário, passei o primeiro perfume que vi pela frente, um dia sem pretensões, sem esperas, apenas mais um dia comum em que eu não estava nem aí pra merda alguma. Um dia em que eu me senti um retrato do diabo de feia, com minha estima lá embaixo, literalmente, me sentia um pobre diabo. Mas o pobre diabo foi embora pra casa com um sorriso no rosto,  e uma velha fisionomia na memória. Uma fisionomia incrivelmente mais bonita pessoalmente.  Imberbe, mas bonita.

Ao final da noite, o garçom que tinha pedido para entregar as duas doses de Tequila 1800 e o bilhete escrito com minha letra horrorosa e tremida veio conversar comigo.  Me disse:  “Eu achei que ele iria devolver as doses, mas poxa, “mó” bonita a atitude dele! Tirei meu chapéu”. Eu respondi dizendo que era algo que eu não esperava, e que me deixou feliz e quase embriagada, seja poeticamente e literalmente. A beleza me deixa embriagada, por isso fujo dela.  “Você gosta dele não é? Deu pra perceber enquanto conversava…”, disse o garçom enquanto tirava minha taça de água. Eu apenas dei uma risada, irônica, aquelas com o olhar pra baixo e um sorriso, e terminei de matar meu segundo café expresso para terminar a noite. Eu poderia ter entregue o bilhete, as doses, e simplesmente ter ido embora logo em seguida. Mas enfim, pedi uma terceira taça de vinho seco, peguei mais queijos e pensei em tolices, tolices fora do meu escopo de razão planejado para minha nova vida. Uma, duas, três, quatro taças. Para finalizar, a ultima taça foi de um vinho doce, tão doce e bem-vinda quanto aquela fisionomia que eu nunca esqueço. Fisionomia mais bonita pessoalmente, do que eu imaginava. Já não é mais aquele garotinho que eu me lembro aos treze anos…

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Eu poderia ter escrito sobre a minha surpresa dessa inesquecível quinta-feira, dia 29 de agosto na madrugada do dia 30, mas isso implicava em escrever com a mistura quase erótica de vinho e tequila. Sendo assim, à princípio, eu pensei, por motivos “éticos?”,”morais?” não iria escrever porra nenhuma sobre o que aconteceu, e fingiria que o tal encontro mais “Eu não acredito o que meus olhinhos de ressaca estão vendo entrar pela porra daquela porta!”(foi mais ou menos isso o que eu pensei, acrescentado de “Só podem estar zuando com a minha cara, era tudo o que eu precisava!”). Mas eu sou sim, um pobre diabo, e sendo pobre diabo, não perco minhas manias malditas. Mas enfim, escrevi isso sóbria, mas eu estou ocultando 60% das coisas que eu pensei. E não tocarei mais no assunto. Preciso de uns dias para digerir meus sentimentos e escondê-los novamente dentro da minha caixa de “Causas perdidas”. Preciso de mais uns seis meses para fingir novamente que eu não me importo mais.

Cloto, Láquesis e Átropos

“Segue o teu destino…
Rega as tuas plantas;
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias” (Fernando Pessoa)

Uma mulher se contorcia em cólicas, gritava e suava, sentada numa cadeira na sala de espera de um hospital lotado. O líquido da bolsa já havia escorrido entre as pernas, numa mistura de sangue, e as pessoas olhavam a cena toda com um misto de nojo, emoção e inconformidade. Seu marido estava na beira do desespero, implorando ajuda médica. “Todos os médicos estão numa emergência”, disse a atendente. Não adiantou, Luis, de mecânico, virou médico e com a ajuda de duas mulheres fez o parto de sua esposa. Nasceu assim Joana, numa noite chuvosa de 29 de julho. Num canto da sala de espera, uma mulher tricotava, sempre atenta aos detalhes. Era uma moça bonita, de jeans e camiseta, lábios vermelhos, cabelos presos numa trança. Parecia não esboçar nenhuma emoção. Aos pés, tinha uma sacola de bordados  diversos, de vários tamanhos e cores. Joana, a recém-nascida  foi entregue para a mãe, depois dos procedimentos neo-natal. A mãe foi internada, amamentou e desmaiou, inconsciente. Foi entubada, corria risco de parada respiratória, a pressão estava nas alturas.  Bernardo ficou na sala de espera, andando de um lado para o outro, entre lágrimas e orações. A moça continuava bordando, mas agora, ao lado, estava com uma mulher, que aparentava ter lá seus 35 anos. Ela estava vendo os bordados que estavam na sacola da mulher que bordava.

– Cadê o manto? Precisamos modificar o manto dele. Muitas coisas vão mudar a partir de hoje…

A mulher pegou um manto verde, e começou a desfazer e refazer. Bernardo apenas olhava aquela cena, com um ar total de dúvidas e muitas perguntas. O que faziam aquelas mulheres bordando dentro de um hospital? Poderia ser que esperavam alguém receber alta, mas achou uma total falta de respeito a frieza diante tais acontecimentos, não que elas fossem obrigadas a se “emocionar”, mas pelo simples fato de ter sido uma cena de dor e desespero. Enquanto todos no recinto demonstravam sua indignação, aquela garota e agora, a mulher junto dela, se mostrava concentrada em seu bordado, como se nada estivesse acontecendo. Mas continuou, andando de um lado para o outro, sempre perguntando da esposa para todo mundo que saia da porta que dava caminho para dentro da ala de internação.

Depois de uma hora esperando, uma enfermeira se aproxima de Bernardo, disse que era para ele ver a esposa. O médico também se aproxima e pede para ele ser forte, pois a esposa estava numa situação entre a vida e a morte. Ele ficou inerte, parado, sem expressão, até ajoelhar-se no chão e cair em desespero. As pessoas da sala de espera o acudiram, colocaram-no numa cadeira, ofereceram-no água e várias palavras, desajeitadas, para dar-lhe esperança. Ele olhou à frente e lá estavam as duas mulheres, encarando-o. Alguns minutos depois, entra uma senhora bem velha, curvada, aparentemente cega. As duas mulheres cedem o lugar do meio para ela. Ela se senta e pega um manto vermelho da sacola. Começou a desfazê-lo, e as linhas de lã começam a cair no chão. Bernardo começou a berrar:

– Qual o problema de vocês? O que vocês fazem aqui? Aqui não é lugar de tricotar, aqui é a porra de um hospital e minha mulher está prestes a morrer. O que vocês fazem? Tricotam para os doentes? Para os médicos, enfermeiras…

– Tricotamos para todos, sem distinções meu senhor. Pra você, sua esposa e sua filha. Não vendemos o que produzimos, apenas fazemos e desfazemos o destino.

Num acesso de raiva, Bernardo pega a sacola com os bordados e atira longe. Começa a chamá-las de malucas. A velha está quase no final no desfazer do manto. Tinham duas colunas para serem desfeitas.

– Acho melhor que vá ver sua esposa Senhor, antes que seja tarde… – disse a velha.

Ele se levantou e foi ver a esposa, depois que se aclamou um pouco. Entrou no quarto, viu sua esposa deitada, mergulhada numa poça de sangue. A enfermeira e o médico entrou, disseram que não havia mais nada a se fazer, pois era a terceira hemorragia e a transfusão de sangue não resolveu o problema. Bernardo segurava a mão dela e 5 minutos depois ela faleceu.

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As três deusas mitológicas do Destino, também conhecidas como Parcas:

Cloto: tece o fio da vida

Láquesis: Cuida da extensão e caminho. Tece o destino no decorrer da vida

Átropos: Desfaz, corta o fio. Representa a morte.