Este blog vai morrer

Sim, na verdade ele já morreu. Mas eu estou em outro projeto, muito melhor que este. Gosta do que leu aqui? Acompanhe o A Tétrica Narrativa ou A Narrativa do Absurdo.

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Um conto sobre xícaras

Um conto sobre xícaras

Hoje eu vi um homem empurrando uma bicicleta amarela toda enferrujada. Seria algo banal, se não fosse pelo fato dele me lembrar o Freddy Mercury. Ele amarrou a bicicleta velha no poste e entrou na padaria. Pediu um café e um pão. Não colocou açúcar. Seus gestos e expressões no rosto, lembra a feição triste de meu velho pai que sorri apenas pelo canto dos olhos. Baixei os meus. Tomei um gole do meu café expresso duplo, extra-forte e sem açúcar. Saudades do café de meu pai e os sermões que muitas vezes me fizeram chorar.

Um homem grisalho e barrigudo observa a mulher do balcão espremer laranjas. Ele tem olhos de homem apaixonado, pois todos os dias ele senta e a observa. Não tem olhar de doido psicopata, ele baixa os olhos timidamente quando a mulher do balcão devolve o olhar. Eu fico quieta, pensando na espuma do meu café. Alterno o olhar para a janela que dá para calçada: estranha… Estranha magnificência dos dias. As pessoas passam pela larga calçada, algumas esbanjam risadas, outras caminham soturnas, olhando para o chão, como se elas pegassem toda a tristeza delas e as colocasse à venda, num leilão luxuoso. Sempre há alguém disposto à pagar pelas nossas tristezas…

Algumas pessoas, andam com as mãos sempre dentro dos bolsos. Talvez elas tenham colocado todas as crenças delas dentro deles, por isso estão sempre aquecendo as mãos na tentativa sórdida de aquecê-las em um pouco de fé. Às vezes, a procura pelos bolsos cheios de crenças acaba desabando. As crenças em sua maioria são suicidas ou homicidas: ou as matamos ou elas se matam arremesssando-se do décimo quinto andar do nosso prédio de convicções. Mas temos esperança. Tal como moedas que caem ao chão, juntamos tudo novamente, pois nossas crenças talvez sejam tão singelas quanto uma tempestade e no meio desta, temos 93 milhões de milhas para percorrer. E nunca acaba, nunca termina. Sempre colhemos os fragmentos aqui e ali das nossas crenças despedaçadas. É um vitral forte e poderoso na janela de nossa capela chamada existência.

Do outro lado da rua, estranhos e estranhas queimam-se no calor das manhãs, transbordando em suor, preguiça e cansaço. Entre fumaças e cigarros dos velhos da entrada da padaria, deduzi que ali ocorreu uma piada muito engraçada. Uma maldita piada ao qual colocamos num prato, temperamos e comemos no café, almoço e janta. É a nossa dose de piada diária, aquilo ao qual você ama e acredita. Nesse tempo todo nunca paramos de rir. Percebeu? Está rindo agora? Qual é a sua maldita piada?

“Ao final da tarde, há prenúncio de chuva”.

Enquanto eu termino o meu café, a mulher sempre bonita e impecável do tempo fala na tv que é para eu tomar cuidado. Não importa. Eu não me importo. Estou correndo atrás dos pássaros. Eles costumam se abrigar da chuva em buracos de árvores frondosas ou buracos nefastos nos telhados das casas. Mas eu tenho medo desses lugares comuns. Eu me abrigo na minha gaiola. Ás vezes eu saio, assim, na surdina, tento voar para bem longe, e pousar nos seus ombros. Mas apenas tento. Não sei se existe palha o suficiente para construir meu ninho.

Fim dos disparates. O café chegou ao fim. Sobrou apenas algumas borras decantadas naquele universo branco ainda morno para quase frio da peculiar xícara de cerâmica. Lá fora, todos os dias são como xícaras de café. Quantas xícaras tu quebraste hoje meu amigo?

 

Navio e armas de caça

– Não hoje. Hoje não é o dia de acordar de ressaca e ir trabalhar. Hoje é dia de fugir da cidade.

 Olhava lá embaixo e via a noite em volúpia. Não tinha medo de cair da janela, sabia que não era um gato com sete vidas, mas gostaria de sentir todo o torpor de uma queda. Seria torpor? Qual a sensação de cair? Seria como os sonhos? Ele é apenas um garotinho explosivo, bebendo para morrer, procurando os sonhos perambulando na cara de agonia dos outros amigos bêbados no sofá e em outros cantos da casa. Tropeçando em garrafas e vômito, encontrou a porta para dar o fora. Desceu as escadas cambaleando, com um indefectível cigarro mentolado na boca.

 -Coisa de mulher… Cigarros mentolados, cigarros de cereja…

Mas ele precisava de cigarro. Suzy fumava cigarros Black sabor cereja. E apenas fazia pose, segurando uma taça cheia de vinho barato. Mas era bonito, seus trejeitos de musa dos anos vinte, com sua piteira preta, talvez faltasse as luvas pretas…

 Chegou na rua, olhou no horizonte. As luzes amareladas penduradas no poste, mostravam um longo e reto caminho. Talvez, quem sabe, isso o levaria até Deus, aquele velho tolo.

 -Não posso parar agora, não posso… Existe algo na estrada me esperando.

 E andava, pisando em merda de cachorro, chutando lixo. Cantarolava canções incompletas e sem ritmo. Queria romper o silêncio. Os vizinhos xingavam, atiravam lixo na sua cabeça. Ele, de repente silenciou. Era preciso o silêncio, para encontrar as respostas que tanto precisava. O silêncio precisava ser ouvido… Escutou o barulho do líquido marrom balançando na garrafa… Acendeu outro cigarro, tomou mais um gole do velho Jack, que tanto lhe dava razão… Razão… Olhou pro céu. Pensou que as estrelas poderiam cair, de graça, um vacilo sabe? Talvez encher a rua de pequenos pedaços valiosos.

-Mas papai disse que estrelas são apenas brilho do passado. Papai bobo. Bobo… Morto… Papai Morto.

 Perdeu sua fé, elas estavam em slides do pastor da igreja. Queria encontrar o oceano, pegar um barco e desaparecer.

 -Barco não… Não quero um barco, quero um navio…

O oceano era agora, o que ele precisava para o seu dia. Queria ter um navio, igual ao que estava na vitrine da loja, ao qual parou. –

-Um navio… Papai tinha um desses, em cima da mesa, talhado na madeira.

O que ele escutava era apenas o som da sua própria voz, e o vento, fazendo papel de jornal voar pela rua, passar e enroscar pelas pernas.

Um navio… Quanto custava um navio? O da loja custava setenta reais. Mas ele não queria um navio dentro da garrafa, ou daqueles que enfeitam mesas… Queria um de verdade. Continuou andando na rua reta e longa…

-Não posso parar agora, não posso, talvez eu encontre Deus no final da estrada, eu não posso parar agora. Preciso de um oceano, profundo, tão profundo quanto meus dias.

Goles e goles do velho Jack Daniels junto a passos cambaleantes. Acabou os cigarros. Parou e sentou na sarjeta. Pensava… Pensava na temporada de caça. Quando menino, caçava capivaras com o pai.

 -Papai tinha uma espingarda…

 Ele apenas acompanhava, com sua arma de chumbinho. Era apenas um garotinho, com sonhos de pegar em armas, romper com o silêncio, barulho de tiros, bicho agonizando, queria ter o cheiro de ferrugem escarlate nas roupas.

-Você não aguentaria o tranco da espingarda… Você não aguentaria o tranco da espingarda. Você é apenas um garotinho franzino… – diziam as vozes paternas susurrando na cabeça…

 Vários tiros depois e as capivaras apareciam ensanguentadas. Ainda lembrava-se do cheiro de ferrugem do sangue coagulado na camisa do pai. Eram ícones de pesadelos escarlate. Nas noites do acampamento de caça, ele apenas queria fugir. E hoje, ele bebe até a morte. Hoje é o seu dia de rei, em busca de um navio. Ele era apenas um garotinho que queria uma arma de caça e algumas capivaras mortas pelos seus tiros e risos de sadismo.

-Quando eu terminar de percorrer o oceano, eu vou vender meu navio lotado de armas de caça. Vou dar o dinheiro para um abrigo de criancinhas. A temporada de caça acabou… Os meninos não colocam as mãos em armas de caça. Eles não sonham com navios, assim como eu… Como vou vender meu navio e minhas armas de caça?

 Andou mais alguns metros, encontrou um morador de rua tentando dormir. Ofereceu um gole de uísque. Sentou ao lado do velho, começaram a conversar como se fossem amigos de longa data. Acabou os cigarros, acabou a bebida. Restam-lhe boca seca, visão entorpecida e a praia a poucos metros.

– Hey amigo, neste longo caminho, tentei encontrar Deus e um navio. Deus não apareceu,mas a praia está ali, vou procurar meu navio e encher o convés dele de armas de caça. Se você tivesse dinheiro, você compraria meu navio e minhas armas?

O velho balançou a cabeça, talvez aquilo seja uma afirmação.

– Adeus meu velho… E se as estrelas caírem de graça, guarde-as e compre um barco. Não… Compre um navio, cheio de armas o que lhe sobrar, compre um pouco de sorte. Qual o preço que você pode pagar por ela? Deve custar um bocado de poeira de estrelas tolas. Eu não posso parar agora, eu tenho uma coisa me esperando ao longo da estrada.

 Ele procurou um oceano profundo, encontrou uma maneira triste de dizer que naqueles tempos ele era um escravo dos próprios sentimentos. Talvez, seus sonhos estejam enterrados na areia. Talvez ele tenha encontrado Deus no meio do caminho. Mas, pra ele, tudo era apenas ilusão, tal como as armas de caça e os navios. A ilusão nunca teve um gosto tão salgado…

Se eu fosse jovem, fugiria desta cidade
Enterraria meus sonhos debaixo da terra (“Elephant Gun”, Beirut)

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Estoicismo de coisas monásticas e mundanas

I

Santiago estava tomando um café. Era uma noite quente, 35 graus às 20h00. Estava esperando o funcionário novo chegar. Um aprendiz. De pouco sabia da vida, mas da Morte sabia que ele não sabia era nada. A campainha tocou. Olhou pelo circuito, o rapaz miúdo, tacanho, sem nenhum estereótipo aparente. Estava mais pra um nerd, pensando bem, na segunda análise. Tomou um gole lento e saboroso do café, abriu a porta, esboçou um sorriso,

-Boa Noite Tadeu! Tudo bem? Está preparado?

-Boa Noite Senhor Santiago! Acredito que sim… Vai ser um desafio e tanto não é? Já temos algo? – disse o guri, com ares de surpresa, misturada com curiosidade e aquela pitada de medo do desconhecido, disfarçado com a fala rápida, afobada e insegura.

— Oras! Que entusiasmo! Aceitas um café, antes de ir pra sala de preparo? E pode me chamar de Santiago, tenho 35 anos apenas. Sou um jovem adulto, digamos assim!

Tadeu sentou-se na poltrona, olhou para o quadro na parede: “Ajudando na hora da partida”. Um quadro bonito, retratando um campo de lírios brancos.

— Bem melhor que crisântemos não é? – disse Santiago, estendendo o café.

— Crisântemos? Nem sabia o nome dessa flor. Pra mim, é tudo flor. Minha mãe gosta de plantas. Eu gosto de cactos. Não precisam de água, sobrevivem comigo.

—Crisântemos são bonitos, mas são flores tristes. Uma flor clichê. Fico feliz quando a coroa fúnebre não é de crisântemos. A Morte poderia ser menos clichê. Mas eu entendo: o clichê custa-nos mais barato.

—Vamos, vou te mostrar o laboratório. Coloque essas roupas de proteção, e não se esqueça das luvas e da máscara. O cheiro de formol é forte.

Desceram as escadas, na casa do fundo dava para uma garagem com 2 carros fúnebres e 2 furgões.

— Quando vamos no IML ou hospitais retirar um corpo, utilizamos as vans. Elas tem de ser higienizadas todos os dias, de preferência após a retirada do corpo. Se o cadáver estiver em decomposição, a desinfecção deve ser imediata, senão o fedor fica, e demora muito tempo pra tirar ou, nunca sai.

— Senhor, opa, Santiago, o cheiro é tão ruim assim?

— Acredite amigo. Quando sentir nunca mais vai esquecer. Ele gruda em você, é persistente. Parece atá que nossa alma fica com isso. Mas sai, com um bom banho tomado, um pouco de borra de café ou limão.

Entraram numa sala de tamanho mediano, com três macas de anatomia, uma bancada com aparelhos de infusão, uma mesa móvel com bisturi, dissecadores, aspirador nasal, tesouras, agulha e linha, um armário com produtos químicos e um rádio, que tocava baixinho uma frequência de músicas antigas. Tadeu ficou imóvel, olhando aquele ambiente branco, as canaletas de escoamento de material biológico, o líquido na bomba de infusão e sobretudo, o cadáver coberto na maca central.

— Venha, vamos preparar este corpo. – Disse Santiago, colocando um avental por cima da roupa de proteção. Tome, vista também. Vamos começar devagar.

Ainda meio paralisado, mas voltando a si, olhou para o corpo disposto na maca. Era um homem, aparentemente 45 anos.

— Este é o Fabiano. Vítima de bala perdida. Morava na região do Paiol. Infelizmente estava na rua quando começou o tiroteio entre facções rivais. A bala perfurou o pulmão, ele já tinha problema de enfisema pulmonar. A família deixou a roupa e os sapatos não quer que tire a barba, pois ele amava ela e tinha um cuidado especial com a mesma. Foi a única exigência, querem um velório simples, caixão compensado. Nada muito luxuoso.

—Vamos fazer um processo para higienização e conservação do corpo. Chama-se Tanatopraxia. Faremos infusão de soluções de formol através de uma incisão perto da clavícula, para pegarmos a carótida e a jugular e vamos introduzir uma cânula de infusão. Faremos também aspiração de cavidades abdominal e intracraniana. Intracraniana a partir das fossas nasais. Parece assustador né? Mas isso traz maior segurança para o velório e consequentemente um pouco de conforto para a família.

— Parece difícil, na verdade. O que eu vou fazer?

— Você ai massagear o corpo para auxiliar no dreno do sangue. Depois do processo, vai me ajudar na lavagem do corpo e tamponamento, para prevenir qualquer tipo de vazamento. Hoje, no processo mais complexo, vai observar. Aos poucos pegarás o jeito.

O corte necroscópico desenhava um Y no corpo. Um cheiro forte e incomum ao Tadeu, junto com o cheiro de solução de formol das bombas injetoras o faziam respirar devagar, mas o coração batia acelerado.

— Está pensando quem está aí?

— Oi? – disse Tadeu, num pulo.

— Sabe, eu sempre trabalhei sozinho. Sem exceções, desde o acolhimento da família, a venda, a preparação do corpo, o funeral: em todos esses anos, me deparo com essa pergunta.

— Não entendi, que pergunta?

— Conheço esse olhar meu caro. Você está se perguntando: “Quem realmente era ele? Será que viveu intensamente?” – disse, Santiago, com um olhar de quem sabia e viveu tudo aquilo, pois dia após dia, a Morte sempre bate na sua porta.

— Pois é… Desculpa, está certo. Só não queria demonstrar minha perplexidade. Quero ser forte, e fazer meu trabalho. Não quero que me aches um maricas. Mas isso… – disse ele massageando as mãos rígidas do cadáver – É o momento mais sórdido ao qual eu passei. Minha pergunta: Seria ele, essa pessoa boa ou má? Como lidar com isso? Dia a dia? Poderia ser meu pai, homem bom, de honra. Poderia ser um uma pessoa cruel, aqui nessa mesa!

— Independente de tudo, você sempre realizará o seu trabalho como se fosse uma obra de arte. Você vai lapidá-la. Se a pessoa era má, com o seu trabalho, você irá deixá-la muito boa.

— É complexo!

— É complexo meu caro, mas, ao mesmo tempo, além disso, filosófico, quase metafísico.

— Metafísico? Por conta dos questionamento do “além” da vida?

— Muito mais do que isso. Aqui nesta mesa, esse corpo frio é resultado de milhões e milhões de anos de evolução.

— Uma evolução explicada pela ciência, mas e a alma? Eu acredito que exista uma alma, mesmo ela a ciência não tendo explicações para o fato.

— E temos o que intriga os filósofos desde tempos antigos: a ótica do bem e do mal. O que será que este homem foi: bom ou mal?

II

— Sarah, já lestes “Admirável Mundo Novo”? – disse Hélio, enquanto tomava um gole de cerveja escura.

— Já sim, por que? – olhei pra ele enquanto colocava o molho de receita secreta, num anel de cebola de esfera perfeita.

— Lembra da cena, do enforcado, balançando, demasiadamente humano?

— Sim! Cena extremamente perturbadora. Fiquei dias pensando no corpo, balançando tal como um pêndulo e o quanto somos robóticos num mundo ao qual, deveríamos ser selvagens.

— Enquanto houver sensibilidade entre nós, estamos bem. Quando encararmos a vida como pêndulos, vamos terminar como sobreviventes na luta pela vida, cada qual a sua maneira, porque no fundo, a vida sempre foi isso mesmo: SOBREVIVER.

E então Hélio deu aquele sorriso triste de Pierrot: digno de uma cena tragicômica da commedia dell’arte, apertando os olhos daquele jeito que eu tanto amava.

Foi a última vez que eu vi Hélio.

Eu, Sarah Almeida, 28 anos, tal como um pêndulo, dei voltas, Fui uma bússola, mas por vezes vivi quase sem rumo. Meu corpo e mente foram ao sul, norte, nordeste. Esquerda, direita, centro. Ele se deteve no sudeste, numa São Paulo louca e apressada, e meus pés apontaram para o sol que nasce de frente pra minha janela, quando meu corpo parou de convulsionar de desespero.

AGORA,

Há uma fileira de formigas negras entrando e saindo pelas minhas narinas. Sinto o fervilhar de larvas brancas e macias dançando em meu ouvido esquerdo. Sinto o tragicômico pedaço de carne entalado na minha garganta. A garganta que já se entalou de anos e anos de pequenas decepções do cotidiano, mas que bradou feliz durante os momentos de felicidade. Dias atrás, derrubei gelo em meus pés quando me desesperei momentos antes da minha morte, enquanto gritava-me o desespero ao sentir-me sufocada. Tentei gritar, mas a voz não saia, o ar não entrava em meus pulmões. A casa impecável e limpa me recebia. O pedaço quente de carne tenra e saborosa obstruindo o ar que me mantinha viva.

O chão duro e frio era como a Morte me chamando:

VENHA.

III

Duas semanas atrás, antes da Indesejada vir me chamar em sua jornada solitária, a crueza do verão já não me era mais contemplativa.

Eu enxergava ao meu redor uma sordidez de sorrisos desconhecidos e alheios num misto de emoção e raiva atenuadas por uma pitada tênue, porém sagaz de emoção. Olhava meu destino no redemoinho de espuma que formava-se na dose de café forte com mancha de leite. Pedi um pão com manteiga levemente aquecido, com toda aquela gordura amarela e sorridente. Uma mordida, e minhas artérias entupindo… E eu imaginando minhas lamúrias ao longo de exames de colesterol, diabetes, triglicérides e eletrocardiogramas. O destino foi tão trágico que agora estou agonizando com o corpo decomposto largado ao chão. O piso antes branca está repleto de uma mancha marrom e preta.

Daqui a pouco os vizinhos reclamam do cheiro. Em breve. Logo vão reparar nas moscas zombeteiras no vidro da janela, e a quantidade de besouros que circulam pela casa. Apesar de morta e putrefata, sinto saudades do cheiro de café…

A saudade talvez seja a delicadeza mais triste que podemos ter. Sempre pensei nisso, quando viva.

A saudade de sentar numa cafeteria ou bar e observar a beleza e a crueza do caleidoscópio das relações humanas: lembranças, associações e detalhes, as pequenas ranhuras de um quadro que estava se formando ali, naquele momento. Os gestos, as expressões, as rugas, os olhos… Os olhos se apertando, os olhos sorrindo, os corpos se abraçando, os corpos se afastando e tudo isso me abraçando com tanta força a ponto de rasgar meus poros. É como se todas as falácias que sangram alimentassem minha vida, gritando nos meus ouvidos. Eu me refugiava nas minhas aquarelas tímidas e a cada pincelada eu construía traços que podiam servir de refúgio na minha pele. Os pássaros de Bukowski me acompanharam nas costas em forma de tatuagem aquarela. O pássaro azul trancafiado na costela do lado esquerdo. Os pássaros vermelhos das quatro e meia da manhã sempre voavam em liberdade do flanco das costas e se tornavam pequeninos em volta do pescoço.

O pássaro azul… Escapuliu com o descolamento da minha pele putrefata. Os pássaros de tom vermelho lançaram suas cores para o pecado. Estou morta. Mas ainda assim sou dura demais comigo mesma.

IV

Um dia antes de morrer, quatro horas despretensiosas da tarde, estava numa esquina observando os maxilares do motorista de ônibus se movendo com o pão cheio de vinagrete. A gordura da carne estava escorrendo pelos beiços. As mãos do churrasqueiro mexiam com a carne e dinheiro ao mesmo tempo. Os homens da construção ao lado do ponto de ônibus limpavam as bocas no antebraço. Os traços grosseiros cansados dos anos de labuta pesada, misturavam-se sutilmente com o instinto mais primitivo: a fome. Eu estava ali, parada e quieta nas minhas observações com um berro tresmalhado, uma virulenta congestão causada por um mero axioma da vida, com um alívio de culpa. Culpa por que? Oras, eu julgava a pausa merecida do motorista de ônibus, que pediu dois espetinhos e pediu para colocar num pão velho com vinagrete. Comeu com um sofrimento que doía, pois os olhos se fechavam quando a boca se abria inteira para devorar o pão e os poucos minutos da pausa merecida.

Estava ali um homem simples, com uma gratidão que não cabia dentro de si. Ele subiu no ônibus, cumprimentou cada passageiro cansado e suado da labuta de todos os dias. Cada corpo cansado e intoxicado do sol que insistia em provar sua existência. O sol que aquecia o corpo daquelas pessoas, era o mesmo cujos raios entravam pela janela e tentavam, em vão, aquecer meu corpo gelado e sem vida no piso na sala de jantar. A única coisa que me olhava, era um girassol sorridente no parapeito da janela.

Enquanto uns amaldiçoavam o verão, senhoras com traços brandos e alegres diziam que a tarde estava perfeita.

Perfeita… Quais nossos critérios para a perfeição? Lembro-me de que anos atrás, numa conversa despretensiosa com cerveja e batata frita, um amigo dizia em ares de contemplação:

“Porque ela era perfeita. Um ser intocável, loiro, olhos claros, shorts jeans e uma camiseta do Superman. Ela queria passar e eu estava no seu caminho. Ela me pediu com doçura: Com licença.”

Ela era perfeita. PER-FEI-TA. Os lábios dele se mexiam como se estivesse soletrando. E eu pensava se aquilo, aquela contemplação era de fato uma felicidade clandestina ao qual eu nunca tive. Uma felicidade clandestina unicamente dele, mas ele estava lá, dividindo comigo essas pequenas ilusões e devaneios, essa espécie de Amor Inventado, um Amor platônico que sustenta por anos. Talvez um dia, quando lhe baterem à porta e chamá-lo de volta, ele abandone aquele amor inventado de um metro e sessenta.

SESSENTA…

V

Sessenta besouros nascendo de minha boca e orifícios agora. Sessenta dias atrás pensei num poema do Augusto dos Anjos Eram 18h30 e horário de verão… Da janela do ônibus durante o trânsito caótico da cidade vi uma mulher aparentemente grávida fumando crack. Era um local conhecido por toda sordidez de acontecimentos mundanos da cidade. Com vestes sujas e mãos trêmulas, acendia um cachimbo improvisado. A cada tragada eu saia da minha introspecção e sentia meus pulmões queimarem. Eu sentia a dor dela, de alguma forma muito íntima, era como se eu também fosse um ser jogada à sorte do próprio destino, e agora, tal como ela, apodreço no chão da minha própria casa, com toda a impertinência de um abandono, exceto as bactérias e toda variedade de insetos necrófilos fazendo de meu corpo seu alimento e uma espécie de útero gigante. Da morte nasceu a vida: milhares de insetos carregando o meu DNA. E aquela mulher das 18h30? Qual era seu alimento? Qual seria sua morte? Ao lado dela um velho de costelas protuberantes quase que perfurando a pele, comia uma marmita com as mãos, pegando os grãos de arroz e feijão com as pontas dos dedos, mastigando de maneira afoita. A mulher que carregava um filho no ventre estava totalmente fora de si. Acendia, puxava, soltava. Delirava. E a criança gritava, dentro daquele ventre como se implorasse para sair dali. Um grito ensurdecedor, um corpo talvez já morto, tal como o meu, mas que não estava em paz. E o homem que engravidou aquela mulher? Foi amor ou apenas um escarro de violência, de esperma bruto, cruel e insensível? A dor que rasga as genitálias num ato de prazer não consentido. Quando na vida o prazer podia ter tudo para ser lindo, a sordidez da bestialidade humana dá um sorriso, e escarra…

“Escarra… Escarra nesta boca que lhe beija”, dizia Anjos.

Uma cópula forçada nas vielas da grande cidade. Ela estava lá, sozinha, tentando ter uma falsa paz teleguiada causada por pedrinhas amarelas venenosas e traiçoeiras. O velho da marmita escarrou no chão, limpou as mãos engorduradas na bermuda rasgada e entregou parte da marmita para a mulher grávida. Alucinada e quase paralisada, exceto pelas mãos trêmulas. Retribuiu um sorriso agradecido ao velho das costelas protuberantes. Foi o sorriso mais delicado e perturbador que eu já vi, nos cinco minutos de trânsito que foram uma eternidade dolorida.

VI

Na casa ao lado da minha uma mulher reclama do cheiro. Diz que há dias sente cheiro de “bicho morto”. Somos reduzidos a isso: bichos. Os jornais e correspondências se acumulam na minha porta há dias. Na primeira semana de minha morte, a vizinha da casa ao lado varreu minha calçada. Ninguém sentiu minha falta, o telefone tocou, mensagens chegaram, devem ser mensagens preocupadas, mas e as visitas? Cadê o “bater em minha porta”? Cadê a preocupação de fato? Como eu poderia dizer que estou ali, trancada e sozinha, esperando por um pouco de atenção e um velório com caixão aberto, para que possam olhar para meu rosto e dizerem o clichê: “ela era tão nova e bonita”, “para morrer, basta estar vivo”. Nenhuma mulher… Nenhum homem. Nenhum homem que eu amei.

Já amei muito nessa vida, já amei muito poucos homens. O pouco no muito. O muito, no pouco. Já amei muito os relevos que formam a tatuagem desenhada no peito e no antebraço. Duas cicatrizes artísticas que resumiam em cores e traços o homem deitado ali, que me ligava uma e meia da manhã querendo me ver. Falácia. Mentira. Não amei, mas fingi que amei. No primeiro acorde de uma canção desafinada eu fui embora sem olhar pra trás. Ele era cheio de acordes desafinados e cordas arrebentadas. Cinco minutos depois ele colocou uma foto de um outdoor em forma de guitarra paralelo à lua cheia que estava no céu. Era apenas a Lua e somente ela que ele amava. Essa coisa brega. Fui embora sem olhar pra trás. Ele nem sequer notou minha presença, mas o relevo das tatuagens dele, ainda permanecem na ponta dos dedos, não como uma lembrança, mas como um erro.

Já amei um homem que tinha olhos gentis e um abraço acolhedor. Uma mente brilhante e um olhar gentil. Mas foi platônico. Um velho amor de tempos de pré-puberdade, reencontrado anos mais tarde, mas que nunca foi real, via de fato.

Já amei um homem ao qual eu fui apenas um pequeno grão de areia existente em seu imenso planeta chamado “cama”. Entre uma canção e outra, fui apenas uma nota solta e esparsa.

Já quase amei um homem, mas gostei mais do guarda-chuva dele, ao qual nunca mais devolvi. Ele também nunca mais voltou. Estamos quites. Ao menos tenho como me proteger da chuva.

Já amei um homem que cantava murmurando no banheiro da pousada de nosso romance de 2 dias. Um romance de dois dias ao qual eu olhava aquele homem cheio de inseguranças, encolhido como um feto. Fiquei na penumbra encostada na parede tentando entender toda aquela dinâmica de amores, desamores, política, educação e toda a modernidade tão líquida quanto o copo de água que em vão, foi uma tentativa falha de salvar-me do pedaço de carne traiçoeira. A carne que peca, que se contraí, tal como um copo de cólera, nos dá aconchego porém nos adoece. Tal como um lobo das estepes, à procura de alimento. Penso nos pecados da carne metaforizados na figura de um lobo: o lobo rastejando e arranhando a presa. Sentimos a dor, os uivos, ficamos cegos, pois o Lobo em sua fome nos arrancou os olhos, nos umedeceu com sua língua, nos enrijeceu com seu toque. Paramos. Nos lamentamos. E dizemos: “Nunca mais”. O tempo passa, e o Lobo está lá, na espreita, sempre com fome, com seus olhos brilhantes na penumbra. As cartas de amor se extinguiram, palavras de ceticismo tomaram seu lugar, num mundo mesquinho cheio de desespero e incertezas.

Alimentei meu ceticismo e pecados da carne mal sucedidos…

Com álcool.

VII

Displicentemente, tal como uma criança implorando por doce, afogava minhas maledicências diárias em um copo de uísque sem gelo. Descia garganta adentro, queimando. Calhamaços e mais calhamaços de lamúrias, piadas de humor negro e ossos do ofício ecoavam no boteco do bairro. Havia ali uma disputa entre poucos amigos. Quem bebia mais? Vira um, vira outro… E a conversa rolava solta, entre risos alegres e etílicos. Quando bebia sozinha, os monólogos eram ao mesmo tempo, incríveis e enfadonhos. Sozinha, eu não gostava de falar muito. Sou excelente ouvinte, péssima em dar conselhos. Ouvia meus monólogos internos. Jamais respondia, porque não sabia o que dizer.

— Parei de beber. Mas voltei. – disse Fábio, depois de pedir um velho Jack.

— Porque? Pensei que você era mais forte que eu. Que bom, não aguentava mais te ver com seu copo de água com gás, gelo e limão.

— Pensa pelo lado bom! Você voltava pra casa com segurança. Eu era o sóbrio da história toda. Teve aquela vez, que eu abri a porta pra você. Sua coordenação motora estava pior que o normal—rindo, de canto de lábio.

— Bullshit! Você sempre conta essa. Sempre consegui abrir portas. Mas me conta, porque voltou pra essa vida de boemia?

— Ser professor é complicado. Fiz uma proposta aos alunos. Pedi para representar um ponto de vista sobre a violência urbana usando literatura.

— Ótima proposta, mas o que lhe atormentou tanto a ponto de em menos de 5 minutos já ter matado mais da metade da dose de uísque?

Fábio pegou a pasta, tirou uma folha de caderno. Lá tinha o nome do aluno, série e data. O texto, cercado de rabiscos e desenhos aleatórios, era cercado de erros crassos de português. Olhei a série,

— Segundo ano do ensino médio?

— Sim. Mas leia o texto.

O texto falava de um jovem na comunidade. O funk rolando adoidado, a polícia também.

“Varios carro de som tudo tocano mc zax e jerry” (sic)

Ai a b.a.e.p pia… dano tiro de boracha ai acerta na perna se corre mancano locão a b.a.e.p passano por cima dos outro os mlk caino de moto sangue pra todo lado”

Me encolhi na cadeira. A princípio, me deu horror os erros crassos de português. Era o horror aos ossos do ofício, horror da ignorância alheia, horror à falta de perspectiva de tentar sair do que era comum. Depois me deu outro desconforto: o que estava escrito ali era muito mais horrível do que o analfabetismo em si, e talvez as falhas de um sistema educacional. Bebi outro gole de uísque. Olhei nossos copos então quase vazios. Chamei o garçom. Ele encheu os copos.

“os mano da tiro leva tiro da facada leva facada e tudo numa boa. isso e a violencia.

ass: cachorro”

– Os mano da tiro leva tiro da facada leva facada… E TUDO NUMA BOA. – disse Fábio. – Tudo numa boa.

– Ok. – coloquei o papel na mesa. Suspirei, retornei pra minha zona de conforto, que já não era mais a mesma.

– Um brinde! – ergui o copo

– A que? – disse Fábio, erguendo o copo e parando poucos centímetros antes do meu.

– Ao estoicismo do seu aluno, tão resignado em aceitar seu destino e a nós que não sabemos levar tudo numa boa.

– Zenão era um cara meio louco não é? – disse ele ao tilintar nossos copos.

Também foi a última vez que eu vi Fábio.

IX

Tic-tac Tic-tac tic-tac

Há 15 dias eu escuto os segundos do meu relógio passarem. A vizinha viajou, meu quintal ficou sujo. Meu telefone tocou e eu não atendi. Eu trabalhava em casa, como tradutora e revisora. Estava sem trabalho, mas com dinheiro suficiente pra passar razoavelmente bem durante um mês, ou talvez dois. Uma vida tranquila, mas sem muito luxo. Estava pensando em chamar Fábio e Audrey para uma noite de conversas despretensiosas e a base de uísque barato, mas me engasguei antes de mandar a mensagem.

Meus pais morreram em um acidente de carro, quando eu tinha 23 anos. O caixão foi lacrado. O meu também vai ser. Meu rosto corpo está inchado, com uma coloração horrível. Dificilmente vão conseguir limpar esse lugar. Meu cheiro, minha morte, minhas larvas, minhas moscas… Estão por toda parte. Provavelmente meu braço descolará do meu corpo quando me jogarem dentro da padiola e por fim, uma voltinha no rabecão.

– Relaxa, pra tudo nessa vida dá-se um jeito! – Audrey sempre me dizia isso, quando eu estava na merda.

Mas agora estou numa merda sem volta.

Olha só. Pancadas na porta. Primeiro foram toques de campainha, primeiramente calmos, depois sem a paciência de antes. Quem seria? Quem estava ali?

Sarah??? Sarah?? Você está aí? Responda Sarah!

Era o Fábio. Ele vai se transformar em um alcoólatra inveterado depois dos próximos cinco minutos.

XI

—Caramba esse cheiro! Argh! – disse Fábio, respirando com o nariz nas dobras do braço.

—Ela tem animais em casa senhor? – disse uma voz.

— Não, mora sozinha. Ela era bem reservada, às vezes sumia, mas sempre dava notícias.

— Vamos ter que estourar a porta, saiam de perto. – disse o policial, pedindo pra Fábio e o vizinho que não sei o nome saírem de perto.

Porta estourada. O vizinho ao qual eu nunca conversei deu um grito. Fábio não gritou. Se encolheu num canto, com as mãos no rosto. O silêncio nunca foi tão perturbador.

A mosca que nasceu dentro do meu corpo, carregava meu DNA e deu seu último adeus, pousando nas roupas pretas de Fábio. Ele estava ali, no canto, encolhido como um feto que acaba de sair de dentro de um útero, tremendo e chorando como uma criança, observando meus fragmentos espalhados pelo piso gelado. Estava eu ali, despedaçada, na luz tranquila que atravessava o vitrô. Era minha densidade, minha libertação. Os meus cacos espalhados ali, formaram o meu mosaico, e ele tinha um milhão de histórias pra contar. Já não estava mais trancada neste mundo de coisas monásticas e mundanas. Eu me libertei de minha cela.

Um brinde Fábio.

Cheguei ao ponto final do meu estoicismo. Extirpei minhas paixões, abracei minha razão. Aceitei meu destino.

XII

— Chefe… – disse Tadeu com cara de quem chupou um limão azedo.

— É difícil lidar não é? – o cheiro, a situação. Morrer em casa, uma morte mesquinha, causada por hábitos do dia a dia.

— O rapaz disse que ela quer ser cremada. Colocaremos bastante pó de grafite, cal e então lacramos o caixão e mandamos pro crematório. – disse Santiago, enquanto batucava no volante do furgão, esperando o semáforo dar permissão de avanço.

— Que triste. Morrer sozinha. E só perceberem por causa do cheiro. Ela devia ser uma mulher detestável. Quem era Sarah Almeida? – disse Tadeu, passando um pouco de Vick Vaporub na narina, para disfarçar o cheiro pútrido do cadáver de Sarah.

— Olha caro aprendiz… Presenciei muitos suicídios, mortes mesquinhas, ao qual as pessoas eram muito solitárias, mas sempre tinha alguém no velório, ao mesmo tempo que já realizei um funeral de uma pessoa que não valia nada e mesmo assim, do meu bolso, coloquei uma roupa nela. Mas, hoje, eu não consigo mais realizar um pré-julgamento de alguém que morreu sozinho. Não sei mais lhe dizer se a pessoa era boa ou má. Talvez a questão mais pertinente é se era feliz ou triste. Existe alegria na maldade, existe tristeza nas pessoas boas. Aprendi isso com nossa profissão.

Tadeu concordou com a cabeça, ligou o sistema de ar, Passou mais Vick nas narinas, pegou um chiclete no console.

— É pesado não é? Como conseguimos suportar tudo isso? Minha irmã morre de medo de morrer sozinha. Ela tem pesadelos ao qual volta do trabalho e encontra a casa sem móveis, com o vidro das janelas pintadas de preto, com muito mofo na parede. Quando ela entra no quarto, ela se vê morta no chão. Isso entra em conflito com a opção dela não querer casar e ter filhos. Eu sempre peguei no pé dela, pra ela ter filhos, ter um marido, mas sabe aquela vez que fomos no asilo São Vicente? Dois cadáveres de uma só vez. Eles tinham filhos que nunca mais foram visitá-los. Morrem de depressão e abandono. Parei de brigar com ela. Ela seguirá a vida dela, e o que tiver de ser será. Acho que essa profissão me deixou frio como uma pedra de gelo.

— Asilos são depósitos. Uma ode ao individualismo contemporâneo, à falta de gratidão. Não nos tornamos frios Tadeu. Tornamo-nos racionais demais.

— Chefe… Me lembro que um dia você disse que nosso trabalho era por deveras filosófico. Ontem minha namorada me perguntou se eu acredito que exista algo depois da Morte.

— O que você respondeu?

— Teria importância se soubéssemos o final da história antes de terminá-la?

— Eu penso assim também. Tudo o que eu tenho são minha esposa, minha filha, quatro cães e minha bicicleta. A funerária é nosso sustento. Sou órfão de pais, passei uma boa jornada na solidão, beijando suicídios, afundado em drogas. Mas eu saí. Se eu morresse agora, morreria feliz, pois além de não estar sozinho, sei que deixei algo de bom. Eu não vivi em vão. Se estamos neste planeta, temos de fazer barulho, e não apenas respirarmos. Isso me lembra Ouro de Tolo:

Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes  esperando a morte chegar.

— Sabe o que estava escrito no quadro da parede da sala da moça? – disse Tadeu, enquanto olhava as mensagens no celular.

— Não vi. Na verdade tenho o costume de não reparar muito em objetos de decoração da casa dos defuntos. Mas o que estava escrito? – disse Santiago, rindo.

— Enquanto houver sensibilidade, entre nós, humanos, estaremos vivos.

Silêncio.

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Death Contemplating Life – David Ho

PS: O título foi retirado de um trecho do livro “Um copo de Cólera”, do escritor Raduan Nassar, um dos meus livros favoritos.

Agradeço ao amigo Marcos da Silva, profissional da área fúnebre, pela nossa conversa numa manhã de sábado, ao Wagner Galesco e suas experiências com a docência e aos amigos que me deram força para voltar a escrever num momento tão difícil.

(In)delicada

 Há meses a água me acalmava. Há meses ela me era suficiente todas as noites e amanheceres. Ela sempre foi um toque delicado, um pacto com minha pele, um beijo, um abraço, uma carícia. Nas noites quentes de verão, a água fria escorrendo nas costas era tudo o que eu poderia ter de melhor. Chegou o outono e a água morna me acalentou, como um abraço, e eu me sentia como se fosse abraçada pelas folhas de outono. Centenas de folhas coloridas, tal como minha infância, embaixo de árvores. Gosto de ver as folhas caírem e me alegra sentar no chão coberto de folhas, e jogá-las para o alto. O sol bate nelas, por entre os galhos de árvores, e as cores brincam.

A água sorri pra mim, cada vez que eu vejo as pequenas gotas d’água escorrendo pelo meu corpo, cada gota daquela que preenche meus poros, é um sorriso, é uma cócega, uma dádiva de estar viva e vendo algo tão pequeno como uma gotícula, algo tão comum… Era a paz que eu precisava, para este meu corpo tão cansado, minha alma já tão envergonhada do caos, do barulho, da falta de afeto, da falta de respeito, da falta de Amor… Ou de um Amor? A água trazia-me de volta a consciência que eu poderia ser amada de novo. Ela fazia amor comigo, e eu com ela. Ela me bastava. Não importava as estações do ano, o calor, o frescor, a pressão, o toque: poucos minutos para eu fugir do mundo lá fora e me sentir plena. Algo tão simples, mas que nos meus dias cinzentos, era como um abraço. Mas ela não me basta mais. Falta algo nesta dinâmica toda, neste palco úmido das pequenas coisas que nos trazem felicidade. Todas aquelas gotas beijavam cada poro de meu corpo, cada toque delas no meu ventre era suficiente para que as mariposas dançassem. Era como se eu sentisse Amor. Amor por  aquele momento.  Hoje sinto  falta de alguém,  que contemple esta forma de amor comigo. Amor com Amor.

Aos meus olhos, o Amor é uma espécie de objeto disposto numa prateleira trancada dentro de uma loja empoeirada de souvenires, tal como um quadro inacabado, abandonado, com cores desbotadas. Ou aquela outra metáfora, o Amor em campo de batalha, agonizando na sarjeta, tomando injeções de morfina apenas para suportar a dor e aceitar que não vai sobreviver muito tempo.  Qual o preço que eu poderia pagar para obtê-lo? Porque Amar é tão dolorido?

Se dói, então não é Amor…

Algo (in)delicado poderia chegar sem pedir permissão. O verbo delicado sem conjecturas, sem conjugações, que percorrerá minha pele com a mesma delicadeza selvagem da água que hoje não me basta mais. Entre uma tentativa frustrada de escrever algum poema com métrica perfeita, voltei para minha prosa singela. Eu queria escrever um poema com métricas e sonoridades perfeitas, tal como o barulho da chuva, apenas para metaforizar a minha sede por Amor. Um Amor que dê certo. Mas tenho apenas minhas metáforas expressas em linhas insones e totalmente (in) delicadas como numa tempestade carregada de desejos. Essa, é a minha dinâmica do afeto. Esta  é minha  forma (in)delicada de sentir algum Amor, mesmo que seu dono não tenha nome. Ele é um completo estranho.

 

 

Relevo

Uma vez eu queria ser a maior
Dois punhos de pedra sólida
Com um cérebro que poderia explicar
Qualquer sentimento (Cat Power, na canção “The Greatest”)

 

E a voz da pessoa que falava comigo pareciam flutuar no ar, assim como o neon das placas luminosas e dos parcos veículos que trafegavam na rua. Eu apenas concordava com a cabeça, enquanto andávamos cansados chutando pequenas pedras no meio do caminho, e nem ao menos, acredito eu, que pensamos no tal poema do Drummond. Apenas chutávamos pedras, eu concordava com o que ele falava, enquanto aquecia as mãos dentro dos bolsos, tateando o fundo, em busca de algo ao qual eu não sei. O que procuro? Ele achou. Achou moedas.

 “Dá para comprar um cigarro solto…”

E deu risada.

Dei risada também…

Mas estava frio demais para rir.

Não…

 Eu estava fria demais para rir…

 Continuamos chutando pedras, ele falando, eu concordando, o vento no nosso rosto, a noite dando beijos em nossos rostos, sem pedir permissão. Corremos, achamos que era nosso ônibus, cansado da nossa lerdeza dos passos chutadores de pedras. Nos enganamos. O ponto de ônibus lotado.

Ficamos na beira-fio da calçada, em pé ao lado de um poste. Meu amigo acendeu um cigarro. Continuou falando do seu dia, dos problemas do trabalho, do professor filho da puta que o reprovou, e em pé ao lado do banco, à mercê da espera, estava um rapaz, de tez alva, olhos e cabelos claros que escondia embaixo de uma boina que por vezes tirava para ajeitar à sua maneira os fios dourados bagunçados. Alto e magro, carregando uma mala de viagem que segurava com força.

Todas as veias e tendões ficaram aparentes na brancura da pele, formando pequenos rios azuis, que naquela penumbra formada pelas luzes amarelas dos postes da avenida, tornam-se relevos quase sutis. Havia algo indecente naquele rosto, naqueles braços, misturando-se numa beleza sórdida. Sórdida e triste. A beleza triste, olhar distante e com um pé na loucura.

Lunático. Olhos de caleidoscópio.

A ponta da língua seguindo cada linha desenhada naqueles braços. O cheiro na pele. Dizem por aí: questão de pele.

Pele. Suspirei. Um devaneio.

Um devaneio impuro e um tanto insano.

 Os braços, pulsos obscenos, as mãos presas na alça da mala, ou as alças presas nas mãos? Meu olhar preso entre o chão, na crueza do terrível e mesquinho disfarce, o medo de nossos olhares se cruzarem. Mas meu voyeurismo queria ser mais escancarado.

Uma expressão de pressa, misturada com impaciência, ansiedade. Os lábios do meu amigo se movendo, desenhando palavras cujo som se perdia. Eu apenas concordava, balançando. Do outro lado da via, o ônibus de meu amigo se aproximou e parou no semáforo. Me deu um abraço.

Um abraço forte.

Atravessou a avenida correndo, como sempre fazia. Acenei com a mão. Voltei a cruzar os braços, estava com frio. O rapaz sorriu. De canto de boca. Seria ele talvez uma pessoa de meio-sorriso? Teria a vida cheia de amores? Amores não-resolvidos, amores caóticos. Era um homem belo, mas desde quando, a beleza é um padrão para quantificar amores? Os amores podem ser como os dramas de teatro. Os amores podem ser vazios e sem sentido. Os amores podem ser reprises incessantes da Commedia Dell’Arte: O Pierrot que amava a Colombina que por sua vez amava o Arlequin que talvez, não amasse ninguém…

Ninguém além dele: os amores podem ser amores de “Quadrilha”. Ahhhh Drummond…

Os amores podem começar pela visão de “uns braços”…

“Vai demorar muito?”, perguntou ele para a garota do seu lado.

Ela apenas balançou a cabeça, enquanto encolhia mais o corpo para se proteger do vento gelado.  E então, o rapaz fixou por quase um minuto cheio, o olhar perdido no horizonte. Pequenas rugas de expressão se formavam no canto dos olhos. As mãos apertavam com mais força as alças da mala que carregava. Arregaçou as mangas, ficando com os antebraços de fora, chegou mais próximo da luz, os relevos dos riachos de veias e tendões ficaram mais aparentes.

Aquilo tudo era de uma obscenidade imposta e escancarada. Assim, sem querer.

A saliva desceu seca em minha garganta, era o calor daquele ato minimalista das mangas de camisa arregaçadas e da força imposta pelo peso da mala.  Relevos… Relevos sutis de veias e tendões. E as linhas de expressão se formando no rosto.

Tensão.

A beleza imposta sem querer, é sempre mais obscena que corpos e pudores escancarados no ato de ter uma beleza voluntária. Era apenas um estranho na multidão, numa segunda-feira comum, um tanto fria para uma primavera. Um personagem do meu espetáculo ao qual eu sou uma voyeur.

O ônibus chegou, ele subiu.

As cortinas se fechavam, o espetáculo acabava ali, ao final da despretensiosa apresentação. Mas ficou em minha memória, aquela beleza parnasiana, exposta na galeria das emoções e pequenas paixões do cotidiano, com um “q” machadiano*.

*OBSERVAÇÃO: Machado de Assis tem um conto belíssimo chamado “Uns braços”.

 

 

Mãos, linhas de braço…

Cama de gato – Lay, Lady, Lay

De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo. E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo. E, se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso.  (Lavoura Arcaica, Raduan Nassar)

A carícia da língua na pele nua arrepiada em uníssono com os lençóis em desalinho finalizou com o despertador ao lado da cama. Era o fim das horas nuas, do sono regado à softporn e filosofias obscenas perdidas e jorradas no dilema Eros vs Psiquê, deixando seu corpo abandonado na cama, inundado pela meia-luz que queria penetrar o quarto por completo. Aquela manhã acordou estranha, um cheiro ruim invadiu as narinas. Abriu os olhos devagar, subiu as cobertas até a cabeça, se cobrindo para que a luz não a atordoe. Ouviu um miado, era seu Gato, ela se descobriu, olhou para o lado, e lá estava o Gato, sorridente, lambendo as patinhas. Lá estava o Gato, o seu Gato… E um pássaro morto.

No mês passado ele lhe trouxe uma barata. Brincava em cima da cama com aquele inseto asqueroso, e desde então as baratas tiveram um cheiro peculiar. Ele tinha o mesmo olhar de sempre, olhos sádicos. Sádicos felinos. Levou uma bronca, o pobre do Gato, como se gatos entendessem broncas, mas ela interpretou aqueles olhos amendoados do gato rajado como um pedido de desculpas. Trocou os lençóis, mas o cheiro da barata continuou ali, como se o fantasma da pobre coitada rondasse por ali e deixasse sua marca. Um velho amigo lhe disse um dia que as baratas tinham um cheiro peculiar. Desde então ela nunca esqueceu: sua mente criou um cheiro e deu um nome infame de “cheiro de barata”. Tudo tem cheiro, inclusive a Morte. Dizem que os cães sabem quando seu dono vai morrer, logo, a Morte também tem cheiro. Pode ser uma dedução imbecil, mas o ser humano é tomado de devaneios imbecis na maior parte do tempo.

E ali naquela manhã existia um cheiro. Cheiro de pássaro morto, junto com o cheiro de sarcasmo dos olhos zombeteiros de seu gato. Os modos aristocráticos ao qual ele se limpava a irritava, naquele momento. Como ousa? Como pode achar que aquilo seria um presente para trazer à dona. Ela ficou paralisada, olhando aquele pássaro, aquele pardal com pequenas tripas saindo pra fora e a marca de sangue seco nos lençóis brancos. Desde que seu homem foi embora, ele passou a lhe trazer presentes. E sempre deixa ao seu lado na cama. Um dia, ensandecida no embalo da noite regada a jogos de cartas e gin, a paixão pelos pecados do céu noturno e calado a chamava na varanda. Na boêmia solitária tropeçou e caiu. A pancada a fez adormecer. Derrubou a garrafa no chão que se espatifou em estilhaços, cortando a pele, o sangue se misturou junto ao leite que trazia num pires para o Gato. Misturou o gin, misturou o leite, as cartas do baralho se misturavam no meio das almofadas cheirando a mofo, amor, desamor, licores humanos e cheiro de livros velhos e empoeirados. Tudo naquela casa, naquele cenário, se misturava. Os cinco sentidos eram uma sinfonia sinestésica. Bob Dylan cantava “Lay Lady Lay” naquela noite, e o gato lambia seu rosto e corpo embebidos em leite, gin, sangue e ela inconsciente, deitada na mais vã das filosofias, em um chão mundano de um quarto com paredes descascadas fadadas ao esquecimento daqueles que já se amaram entre elas. E ela embalava seus sonhos etílicos e obscenos enquanto Dylan no repeat cantava, e seu velho homem deitado na cama, com as costas arranhadas. Mas agora era só lembrança, o pássaro morto em sua cama lhe dava uma compaixão pavorosa.

O pássaro morto continuava ali, ela também, paralisada num misto de asco, surpresa, devaneios, lembranças. E o Gato fazia graça, os pelos eriçando, ele se esticando, ronronando, entrando por baixo das cobertas, aninhando-se entre as pernas delas que se encontravam num tremor de assombros. Ela se lembrou de um poema do velho safado, que dizia ter um pássaro azul trancafiado no peito:

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele”

E o pássaro estava de uma maneira sutil, trancafiado em sua morte, disposto como uma mensagem sórdida e metafórica embalada à saliva, tripas, sangue e pelos e penas. Seu funeral era ali, em cima de sua cama com lençóis de brancura impecável, mas de uma maneira única, sentia seu coração sufocado por ele. Uma espécie de amor pela dor, e a dor estava ali, com as tripas para fora, uma ofensa. O Amor é uma ofensa. O medo também, com uma diferença que o medo não nos traz prazeres. Levantou-se, foi para o outro lado quarto. Encostou na parede úmida e gelada. A cena toda não parecia menos assustadora. O Gato rajado a encarava, balançava o rabo peludo, piscava os olhos amendoados numa calma insuportável. Pulou saltou da  cama, enroscou em suas pernas novamente, chamou-a pra cama de novo, tal como um amante insaciável. Voltou pra cama, para “seu” pássaro imóvel,  Pensou nos vermes que vão invadir o corpo do pobre pássaro e consumir suas entranhas. Sentiu o corpo todo formigar, como se ela fosse devorada. Os olhos sem brilho do pássaro contavam uma história triste. Os olhos de sarcasmo do Gato queriam lhe dizer algo, uma história zombeteira, uma metáfora mesquinha, uma filosofia obscena escancara na pureza hipócrita da brancura de seus lençóis. Levantou-se, colocou um velho vinil para tocar. Tirou-lhe o pó. Deixou-se arrepiar pela chiado, deitou-se na cama, ao lado do Gato e seu pássaro morto.  Bob Dylan cantava novamente, numa epifania perturbadora:

Lay, lady, lay, lay across my big brass bed
Lay, lady, lay, lay across my big brass bed…

Nada era mais obsceno que aquilo.

A moment’s Grace

A desumanidade presente na busca de uma vida perfeita. Marta trancada em seu mundinho de poucas pessoas, na calada da noite, uns poucos convites para tomar uma cerveja. De repente todos somem, as paredes do quarto a engolem, ela se olha no espelho e se vê desconstruída, mil fagulhas queimando-lhe o ventre, de dentro pra fora. A gota d’água pingando sem parar na torneira do banheiro, os gritos do vizinha noite afora durante o sexo, o sorriso do namoro dos gatos no muro em frente. Sai para fumar um cigarro na soleira da porta enquanto o pio agourento da coruja canta uma maldade sem razão. Antes, a hipótese da maldade a assustava, a hipocrisia alheia lhe apertava a garganta ao ler as páginas do jornal nos primeiros minutos do trabalho enquanto o cheiro de café invadia as narinas. Café… Seus olhos realmente estavam abertos de fato depois de três goles de café. As sombras, o toque, o vento, o barulho das teclas dos computadores alheios se tornavam palpáveis depois do amargo gole, era depois disso, que a vida tinha sentido, era depois disso, que seus assombros ganhavam contornos de aquarelas tristes. Era isso que queria pintar na tua pele, mas não há espaço para todos aqueles contornos, por mais que metaforicamente eles fazem cicatrizes em tua pele, a dor é invisível.  A coruja continua piando, o primeiro cigarro acabou, mas ainda tem cinco dentro do maço, acende outro,  gato sorri com os olhos, ela sorri intimamente, por dentro. Uma gargalhada dissonante, quase úmida e de um sarcasmo digno de uma tragédia tragicômica com máscaras e ventríloquos assustadores. Ahhh se ela pudesse contar histórias, seriam todas da boca pra fora, mas seriam cantadas em verso e o riso seria seguido com lágrimas, a tragédia do rir para não chorar, ou chorar, para depois cair no deleite do riso.

Um café para Irene

“Let me fly
Let me fly
Let me rise against that blood-red velvet sky” (“Undertow”, Pain of Salvation)

Irene… Ele chamou com a boca seca. Era cedo e os primeiros raios de sol já anunciavam a alegria trágica de mais um dia. Olhou para lado, os lençóis manchados, em desalinho, Irene não estava lá, nem sentada na poltrona velha com espuma saindo que fica no canto do quarto. Ele se lembra que ela costumava sentar-se lá após o banho, enrolada na toalha, e ficava horas lá lendo livros, e a toalha escorregava e ela ficava com os seios arrepiados a mostra e os cabelos molhados escondendo o pescoço. Irene… Chamou ele. A garganta doía. Ele pegou friagem durante a noite, enquanto fumava um maço de cigarros lá fora e tomava um velho Jack. Estava de ressaca e Irene estava novamente sentada na cadeira em volta da mesa jantar lá, com os olhos mirando o infinito, em seu mundinho particular, falando com os olhos. Desde que aquele acidente aconteceu, ela apenas fala com olhos. E ele sofre de refluxo estomacal cada vez que senta ao lado dela e tenta uma aproximação.

Eu não tenho culpa… Foi um acidente Irene! Você precisa entender isso. Murmurava ele enquanto a água fria escorria da torneira. Molhou as mãos, levou ao rosto, coçou a barba áspera perto das têmporas, a água fria paralisou a face e por instantes que olhou o espelho, mesmo ele não estando quebrado, ele enxergou vários eus, todos fragmentados. Uns tinham sorrisos sádicos, outros, davam risada e contavam piadas sujas de humor negro, como se fossem comediantes de stand-up. Mas era um riso forçado. Outro tinha ares cruéis, outro vomitava sangue, o outro simplesmente sorria e dizia: Um brinde!

Vestiu uma camisa, colocou os chinelos, abriu a persiana. Os urubus estavam nas cercas, nas árvores, alguns com as asas abertas, outros pulando de jeito engraçado pra um lado e para outro. O fedor do matadouro de porcos os atiçavam, o mau cheiro, de carne apodrecida, ele já se acostumou. Ele acreditava que Irene também se acostumou, pois ela não reclama mais. Desde o acidente, ela não reclama mais. Visitas não vão mais em casa. Irene se sente sozinha. Irene odeia aquele lugar.

Querido, temos que sair daqui… Deixe me ir? Deixe-me voar… Com os urubus lá fora. – dizia ela, com risos irônicos.

Ele engole em seco, descendo as escadas viu Irene, ela estava lá, sentada na mesa de jantar, indefectível, simples e humana. Tão humana…

Querida, eu parti suas asas, você não pode voar mais, nem correr… Você nunca esteve tão humana querida, quando eu olho pra você, eu vejo… O quão humanos nós podemos ser. Lembra querida? Das nossas conversas noite a dentro? Você sempre foi tão humana… Mas nunca como hoje. Nunca como nos últimos dias.

Em direção ao sol que ela tanto amava… Os olhos de Irene fitavam o sol que tentava entrar e iluminá-la. Mas se ele abrisse as cortinas, a paisagem horrenda dos urubus na cerca a assustaria. Irene odiava aquele lugar, aquele cheiro, as moscas… Moscas no vidro da janela, moscas em todo os lugares.

Querida, você está presa em um cadeira, deixe-me levá-la para ver o campo mais tarde. Você está pesada, mas eu vou te levar, eu vou te amar. Faz tempo querida, que nós não fazemos sexo. Porque? Eu lhe prendi tanto assim? Porque você caiu da escada, numa briga infantil e agora não fala comigo, não quer comer, não quer me amar…

As panquecas com carne e molho que ele fez pra ela no jantar da noite passada estavam lá. Ela nem mexeu nos talheres, não tinha a marca de seus lábios no vinho Carmem que ela tanto gostava. Ela não bebe, não come…

Ele acendeu um Luke Strike e colocou na boca dela que estava sempre com um sorriso sem graça.

Irene, vou preparar um café, e torradas com mel, que você tanto gosta. Aceita? , ajoelhou aos pés dela, afagando as pernas, roxas de hematomas. Beijou cada um deles. Vai sarar querida, eu prometo… Acariciou as coxas e meteu as mãos entre as pernas, mais ao fundo. Olhou para o rosto pálido, com sardas, com os olhos inchados, com olheiras. Irene sofre de insônia. O cigarro estava queimando, ela não se preocupava com as cinzas caindo no colo e nem com os dedos dele no meio de suas pernas.

E depois, vou lhe dar um banho, já que você se recusa. Você está parecendo uma porca imunda. E poderia ao menos simular uma cara de prazer ao invés de ser uma  imunda e frígida.

Tirou as mãos do interior dela. Lambeu os dedos. Ela nunca teve um gosto tão forte.

Você gostava quando eu fazia isso Irene, lembra? Você delirava, e agora nem se esforça mais… Nem para fingir.

Ele foi ao armário, pegou a cafeteira italiana, o café extra-forte. Matou a barata que passeou em volta dos seus pés. Outra subiu pelas pernas. Ele chacoalhou as pernas, como numa dança insana. A barata caiu e ele pisou em cima, veio outra, mesma coisa.

Lembra querida? Você gostava de dançar. Você me chamou pra dançar várias vezes, mas eu sempre recusava. E quando eu finalmente aceitei, você me pegou e conduziu. Hoje sou eu que cuido de você querida. Eu lhe conduzo, e faço isso porque eu te amo. Eu faço o seu café na sua cafeteira italiana e passo mel nas suas torradas. Faço o seu chá que tanto você adora e colho as flores que você plantou, mas você não enxerga isso. Você acha que eu não te amo mais, você acha que eu lhe quero morta pra sempre na sua vida.

O café começou a subir com a pressão dentro da cafeteira…

Querida, o café… Quer mais um cigarro? Prometa pra mim que vai comer. Se fizer isso, prometo vou levá-la para ver o pôr do sol, vou-lhe tirar deste inferno, eu não vou mais matar os porcos, vou abrir outro negócio, e os abutres vão embora da nossa cerca. E essas moscas? Eu vou proteger a casa inteira. Eu vou proteger você. Promete? Promete querida? Os olhos dela sempre concordavam com tudo, concordavam agora com as roupas jogadas no chão, ela perdendo sangue, ele lhe arrancou os pedaços, mas ela concordava e o grito interno que partia sem voz, era um pedido de liberdade.

Ele levou as torradas com mel. Ela não comeu as panquecas. Continuava com aquele olhar. O olhar de Irene, mas tinha algo ali, sem brilho, parecia que dentro daquele corpo, não existia mais Irene. Aquele vestido branco com manchas verdes e marrom, com desenhos de vermes, pareciam um quadro surrealista.

Está calor querida, deixe-me tirar suas roupas? Não… Não o faça. Eu quero fazer. Abriu os botões do vestido com os dentes.  Rasgou o tecido com uma força bruta de um homem sedento, beijou cada mamilo, as linhas do pescoço, beijou a boca, a boca inteira. A devorou como um garotinho afoito que não sabia beijar, e a pele dela grudava no corpo dele, o cheiro dela tempestuava os poros, foi um sexo sujo, sedento e selvagem. Quase um canibalismo. Ele transou como um animal, ela era sua presa, indefesa, tão paralisada, fria, cansada, se desmanchando, pouco a pouco, e sua alma se esvaindo, o corpo aos poucos caindo ao chão, e o que sobrasse dele, seria queimado e jogado aos ventos. Mas ele a amava… Ela o amava. Seu corpo se esvaiu, explodiu. E nele a sujeira rastejava, o desgosto pousava. Ele gania, como um animal, um lobo predador. Um animal fragmentado na própria dor e desespero. Irene caindo da escada, degrau a degrau… Ele se lembra disso enquanto transa com ela, e enquanto ele urra de prazer, lágrimas de tormenta escorrem… Ele está num rio, nadando contra a correnteza, navegando em águas sombrias e profundas.

Ele abotou o botão das calças. O barulho de vários carros era denunciado pelo cascalho da estrada. Os urubus crocitaram, pularam de um canto pro outro. As moscas que estavam no vidro continuaram lá, mas um som veio na porta. Ele espiou lá fora. Estava cercado…

Chegou a hora querida… Está na hora de você ficar livre. Mas eu quero partir com teu gosto nos lábios. Beijou-a, mordendo os lábios. Irene sorriu, depois de 7 dias sem ter expressão alguma no rosto. Os vermes se alimentavam dela e do jantar. E um deles saiu de sua boca e caiu dentro do café.

Adeus querida, disse ele. Eu sou tão patético que mordi meus próprios lábios para meu sangue se misturar com o teu. É poético isso não é querida? Fiz um pacto de amor eterno contigo…

Com sangue nos lábios, foi até a gaveta. Tinha apenas uma bala no revólver. Morrer… Um tiro dentro da boca. Caiu no chão, os vasos brancos de Irene tingidos de escarlate.

O seu último desejo, foi fazer um café na cafeteira italiana que ela tanto gostava. Um café, um bom, forte, quente e denso café… Um café para Irene. E ele morreu com um sorriso de ressaca nos lábios e o gosto de Irene misturado com café e e o próprio sangue.

“Let me out
Let me fade into that pitch-black velvet night” (“Undertow”, Pain of Salvation)
O gosto dela na boca, ela delirava quando ele fazia isso. Delirava.
A pintura chama-se “Doubt”, do artista Karien Deroo

Confessionário

O prazer é um pecado, e às vezes o pecado é um prazer. 
(Lord Byron)

As luzes lá fora já se apagaram. Os quatro comprimidos sublinguais de Rivotril duas miligramas estão se desmanchando na boca. O conhaque Presidente está pela metade, sorrindo pra ela, o gato oportunista passeando entre as pernas, entrelaçando-se, olhando pra cima e emitindo o som estranho que vem dos gatos: ronronar… Ronronar. Ela sempre gostou desta palavra, soa estranhamente erótico. Doente… Pensou ela… O gato, de alcunha Byron, queria carinho? Não, ele quer comida, está sempre faminto, com olhares piedosos, tal como o gato do desenho do ogro verde e o burro falante. O prato de Byron, o Gato está vazio. Talvez tenha um pouco de leite não coalhado na geladeira e um resto de comida de gato enlatada. Byron a encara, na penumbra da madrugada aqueles olhos amarelos lhe dão arrepios e ele a segue sentindo-se satisfeito quando ela coloca a tigela de comida ao chão.

Gatos desgraçados, tão classudos, comendo sentados, parando para respirar, olhando ao redor. Aqueles olhos amarelos de reprovação, enquanto ela toma goles longos de conhaque e acende a porcaria dos cigarros mentolados que ela esconde na gaveta. Os comprimidos de Rivotril, numa pasta nojenta, misturando com o conhaque made in Paraguai na boca. Aquela sensação relaxante, quente, densa e consoladora, com um peso de um homem entre as pernas, seu velho homem.

Os olhos do gato dizem: tal como o peso daquele seu velho homem ao qual você nunca teve.

Dá uma alta risada de escárnio, e vai se derretendo no sofá, com o olhar perdido no teto mofado com pintura descascada. Talvez toda a concepção que ela tenha a respeito de sexo, seja como aquelas paredes, aquela pintura… Incompleta, inacabada, cheia de manchas. Talvez ela se junte ao trovador bêbado que passa todas as noites declamando versos desconexos embaixo de sua janela, mas hoje, justamente hoje que ela precisava se deleitar do escárnio dos desgraçados, eles não cantam suas emoções. Fica somente o eco das vozes na escuridão, repetindo como trechos de canções em disco riscado…

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

É o que diz no disco riscado do Pink Floyd. Enquanto “Echoes” toca e ela delira no sofá, os olhos do gato, reprovadores, encarando-a como os olhos do padre durante a confissão. Lembrou-se que só se confessou uma vez na vida, na primeira comunhão. Entrou em uma sala no pátio da Igreja Nossa Senhora Aparecida, da cidadezinha pacata onde todos puxam o “r”. O padre estava sentado numa grande cadeira de madeira maciça e couro. Conte-me seus pecados minha filha, do que você se arrepende? Mas eram pecados de criança, tal como roubar doces, gastar dinheiro do lanche com fliperama,  subir no telhado escondido, simular sexo com a Barbie e o Ken, e fazer desenhos sem educação sobre a professora chata. Vou-me confessar Byron… Só você me entende, eu sei e você agora está com aquele olhar de que quer me ouvir…

Byron, o gato, se aproximou, lambeu-lhe a mão, não gostou muito, tinha gosto de conhaque, nicotina e sangue. Ela cortou a mão na lata de comida pra gato e não percebeu. O chão da cozinha estava manchado, contando histórias no chão. Mas o gato ficou lá, sentado, olhando pra ela, seminua e bêbada no sofá.

Byron eu pequei… Eu peco todos os dias, todas as noites…

O gato arrepia os pelos, lambe as patinhas e volta em sua posição de olhos atentos.

Eu queria beijar-lhe a boca inteira, afundar minhas mãos nos negros cabelos,

 Daquele seu velho homem que você nunca teve, disse o gato, com os olhos…

 Eu poderia lamber-lhe a cara, eu poderia beijar todos os pelos do rosto. Aquela barba negra por fazer. Eu poderia Byron… Eu poderia pensar em um milhão de coisas sujas e vulgares, eu poderia dançar nua pela sala, eu poderia fazer uma rima pobre e podre, mas eu não sou poeta. Eu poderia percorrer-lhe o corpo inteiro, como um inseto ou morder-lhe como um animal sádico, brincando com a presa. Aquele velho homem… Velho… Antigo, empoeirado, um quadro inacabado perdido em um souvenir.

Tomou mais um gole de conhaque; desejar sem poder é pecado? Até onde minhas entranhas expostas são um grito desconexo de utopia? O que é utopia? O que eu tenho medo? Qual o índice da minha maldade? Da nossa maldade, sem exceções? É matar alguém com 200 facadas, é torturar uma criança até a morte por inanição? É ver um cadáver na rua esperando o rabecão e tomar uma cerveja na calçada da esquina? Eu posso sufocar meu tesão com um travesseiro e pedir desculpas depois? Eu posso lhe arranhar as costas, posso traçar mapas de desejo no meio do suor, pelos, veias e tendões? Qual o prazer em sentir dor? De ver meu corpo rasgado e com marcas profundas de dedos, pequenas irritações causadas nas pele por causa do passeio de um rosto barbado? A preguiça masculina de 3, 4 dias de pelos na cara. E o meu corpo no espelho, dilacerado, desalmado e talvez amado? Qual foi o meu pecado? Pecado Byron… PE-CA-DO…

 Byron subiu no sofá, sentou no ventre nu e suado daquela que balbuciava eloquências e metáforas, e com olhos piedosos passou a língua áspera no ventre dela, como se quisesse caçar as mariposas no útero. E os pelos do gato como uma carícia, as patinhas pressionando como dedos. Ele se deitou, encarou-a com os olhos de incógnita e o piscar de felino. Trouxe-lhe a exata sensação de que o pecado era para ser vivido, mesmo na utopia. Dormiu, sonhou com o seu velho homem, que tem olhos e jeitos de felino. Dorme e sonha com dias poéticos, desgastados, descascados, com um pouco do mofo das tristezas, cores sinestésicas e os ventos de alegrias cheias de tragédia. Versos, neologismos, dor, beijos e gemidos.

 O gato olhou para a janela, poderia dar um passeio lá fora, no mundo paralelo dos gatos, perturbando o sono alheio com as transas felinas que atiçam o sono dos incautos, mas ficou com sua dona, e pensou nos albatrozes, “imóveis no ar”, do disco riscado do Pink Floyd. A noite foi como eco, cheio de vozes e desejos ensandecidos. A noite apenas começou, com seus encantos, prazeres, pecados e desejos, deitando em metáforas, aforismos, metonímias e falácias. O bêbado trovador passou embaixo da janela.  Todos os olhos felinos piscaram e sorriram, enquanto lambiam-se uns aos outros, as patas, a cara, o corpo, o sexo…

Escrito ouvindo isso aqui várias vezes: