Está lá, em cima de uma mesa, uma caixa bonita em azul marinho e amarelo creme. Tem um lindo laço que eu comprei já pronto, pois sou péssima em fazer laços, dobraduras, embrulhos e essas coisas que ditam que toda mulher deve saber fazer. Talvez escrever seja a única coisa que eu saiba (ou acho que sei) fazer. No fundo da caixa, há papel em seda azul dilúvio… Sei lá, acreditei que combinava com teus olhos. Tudo bem cuidado, numa perfeição incontida em um carinho que talvez os deuses e toda a natureza aturdida e talvez desnecessária, sejam incapazes de compreender. Tem coisas nessa vida que são impossíveis de ter uma aceitação dentro de uma esfera viável ou pelo menos, de compreensão, outras, carregam um tempo considerável para completa aceitação. Eu vejo este presente em cima do banco e eu quase consigo entender que talvez nunca lhe seja entregue. Hoje eu entendo e levo comigo um profundo silêncio dentro de meu espelho d’alma. Nunca fui tão reclusa, ando de mau humor e com uma perspectiva de que a vida é uma grande merda e o segredo é ignorar todo o fedor. Lembro-me de um dia que me disseram que a vida é um balde de merda, e a cada chute que damos, a merda se espalha, e o fedor fica insuportável. Vivemos em um mundo mesquinho, de pessoas que não possuem a mínima noção do bom senso. Talvez eu e você estejamos inclusos neste mapa de horrores, mas com nossas casinhas dispostas em uma casa no campo distante, tentando, talvez em vão, fugir desses horrores. Você se diz desacostumado, eu estou assim, desacostumada, silenciosa e talvez, desalmada. Não carrego mais comigo aquela coisa sonhadora de que podemos mudar o mundo. Sinto as coisas ao meu redor cada vez piores. Tenho velhos fantasmas me atormentando, pincelando meus pensamentos com perguntas talvez sem respostas. E o que falar de Amor? Eu lhe digo que nunca acreditei na felicidade, mas acredito nos momentos bons, e nos momentos ruins que nos soca como se fossemos sacos de pancada. Eu digo que eu sinto Amor e acredito nele, mas muitas vezes dentro de uma esfera de improbabilidades e incompatibilidades, amores e desamores.  Eu lanço um olhar para a caixa do laço azul, eu vejo mensagens sem respostas e talvez uma falta de atenção apenas aparente. Silêncio, a saudade fala mais alto, mas quem sou eu para obrigar alguém a me dar atenção? E assim eu saio, vou caminhar para comprar pão. As faces de pessoas alegres no supermercado me dão talvez uma falsa sensação de que a felicidade possa, de fato, existir e minha tentativa de salvar aqueles que vão cair do abismo, não é um tempo perdido. E quando eu deito meu corpo na madrugada, eu confesso, que espero meu peixe perdida em alto mar. Protejo-me em minhas manhãs presas em leituras inspiradoras, estudando um pouco de xadrez, mesmo que eu não consiga decorar movimentos e que eu caia novamente na pegadinha do Xeque Pastor. Prefiro jogar conforme os minutos passam, sem estratégias prontas, e assim, você “rapela” minha aristocracia e metade de meus peões.

Fico clicando em botões de “Enviar currículo”, e perdida em bits e bytes de um editor de texto, rindo de meu amigo que não faz a barba há 150 dias, escrevendo alguns textos, ensaios e trechos de meu livro, ou apenas procurando anotações de observações aleatórias que escrevi enquanto esperava no terminal de ônibus.  Minhas tardes são muito bem aproveitadas assistindo documentários da BBC, History, National e Discovery. Assisti aquele que tu falaste, sobre as formigas. O que eu pensei, foi que eu adoraria ficar sentada por perto, com aquelas roupas de proteção… Horas vendo aquelas formigas, estabelecerem a pequena paz de espírito delas no caos de um chute de botas. Não poderia usar sapatinhos de plástico e eu não teria mais oito ou nove anos.

Às vezes eu bebo, mas apenas para me aquecer e tecer saudades. Não saio, estou sem dinheiro para viver uma boêmia pandemônica. Às vezes vou para a Praça da Paz ler embaixo de árvores, queria fazer isso hoje, mas está chovendo. Uma garoa fina, daquelas que você diz que lhe deixa desanimado. Mas eu gosto do tom cinzento que está lá fora. Combina com meu estado de espírito. Cinza… E não tem nada a ver com sadomasoquismo, e, aliás, o livro é uma grande merda, escarrada, escancarada nas estantes para leituras vazias, pura Literatura Oca. E eu sonhei esses dias que eu era uma Ghost Writer. Eu poderia ser, mas me recusaria a escrever coisas ruins. Mas achei divertido, eu falava com um cara e o mais engraçado foi o fato dele ter um saco de pão na cabeça. Coisas de sonho… E eu lá, fazendo anotações em um papel laranja, e a caneta falhava, e aquilo me irritava profundamente. Sabia? Caneta que falha me deixa enraivecida. É difícil tirar-me do sério, um dos motivos, porque tenho tendência de guardar o que me corrói dentro de um baú a sete chaves. Mas chegarão os dias que o baú estará lotado, e tudo, uma grande bomba, pessoas ao meu redor à mercê de um apocalipse. Mas as canetas falhas não chegam nem perto de eu guardar alguma mágoa muito grande. Apenas alguns “filha da puta”, “maldita”, “vai se foder”, emitidos com um sorriso cínico e sarcástico de canto de boca. Depois, simplesmente eu esqueço. Ou dou risada, horas mais tarde, quando faço um apanhado de minhas resoluções bem sucedidas ou uma lista de fracassos.

Olhei novamente nesse instante para o teu presente… Eu poderia aprender a fazer laços bonitos. E talvez até caixas bonitas artesanais. Um dia, eu pintei telas. Parei… Um dia, fui xeretar revistas de ponto cruz ( aqueles bordados bonitinhos em toalhas) e me estressei, não tenho esses talentos, serei eu apenas uma garotinha? Talvez eu seja como a música de Bob Dylan

“But she breaks just like a little girl.”

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4 comentários sobre “O presente.

  1. Pensei em comentar com mais palavras, mas a citação do amigo Luis Lima disse tudo que eu diria. “En la vida no hay camino, el camino si hace caminando.” … Continue caminhando. Abraços.

  2. … Pois, Lisaveta: o sentimento, o cálido e cordial sentimento é sempre banal e sem utilidade; artísticos são somente nossas irritações e os frios êxtases de nosso corrompido e artificioso sistema nervoso. (…) Pois o sentimento são e forte, – isto está confirmado – não tem gosto. Morre o artista quando se torna homem e começa a sentir. …
    (Thomas Mann em Tônio Kroeger)

      1. A arte é uma premeditação fria e calculista, quase psicopática. Mas o amor à arte, , esse sim, é absolutamente necessário. O fracasso, por sua vez, acompanha quase todos os escritores. É necessário, além da persistência, mesmo que se tenha talento, alguém importante que acenda o estopim da nossa fama, como fizeram, outrora, Hemingway e Picasso. Sobre perguntas sem respostas, é justamente sobre isso que voce deve escrever: “Perguntas sem respostas”. Não se esqueça da frase do Hernandez: “En la vida no hay camino, el camino si hace caminando.” Não desista e se cuide. Torcemos por voce.

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