Entranhas

Na cafeteria de uma livraria estava eu sentada e perdida entre leituras e manuscritos. Entre páginas de Hemingway e Virgínia Woolf, e um lindo brinde que é o “Diário de Mrs Dalloway”, com páginas coloridas, trechos do livro e espaço para escrever. Amei aquilo, achei algo único, uma forma de ligar-me à personagem criada por Virgínia,escritora inglesa, mulher forte, intensa, com entranhas expostas, porém, que se enfraqueceu. Perdeu toda a esperança de viver. Lotou de pedras os bolsos do vestido e se afogou no rio. Isso me lembra um pouco a frase de Margareth Atwood:

 

É preciso ter uma quantidade considerável de coragem para ser escritora, uma coragem quase física, do tipo que se precisa para atravessar um rio sobre troncos flutuando. (…)

 

Virgínia era corajosa, mulher à frente de seu tempo, só que ela levou muito à sério a história de atravessar o rio. Não havia nenhum tronco flutuando, para que olhasse e pudesse mudar de ideia, ver que a vida, como um rio, tem águas profundas, e por isso temos que nos agarrar em troncos flutuantes para não nos afogarmos..

Minhas entranhas também estão do lado de fora, igual as de Virginia. Toda escritora possui órgãos expostos, coragem de sobra. Dão a cara para bater, ao mesmo tempo que entregam a mesma face para ser beijada. Não temos medo de bofetadas, de sublimar nossos amores, imortalizá-los em linhas talvez jamais lidas. Não nos preocupamos com a falta de atenção que muitas vezes nos é dada. Não esperamos com afinco e convicção que nos leiam e compreendam cada palavra escrita. Não esperamos que apenas nos amem, esperamos também o ódio, a inveja e o ciúme.

Muitas vezes eu queria pegar minhas entranhas, e colocá-las para dentro, sujar minhas mãos de sangue, sangue meu…Queria empurrar minhas tripas, estômago, fígado, rins, pulmões, empurrar tudo pra dentro e costurar meu ventre com a mesma linha que as Parcas da mitologia grega costuram nossas malhas do destino. Algo que não possa ser desfeito.

Queria eu que meu Amor imortalizado nessas linhas tão insones, devorasse minhas entranhas. Que me amasse, mas pra isso ele teria de ser um Hanibbal Lecter. Hannibal gostava de entranhas, fritava cérebros em frigideiras antiaderentes. Meu Amor é um homem que enxergou minhas entranhas, com os olhos desacostumados, mas como eu já escrevi aqui e em outros lugares, não se pode ter tudo nesta vida, vamos seguindo nossas vidas amando os ponteiros de um velho relógio. Eu faço Amor com o Tempo Futuro, mas vejo-me entrelaçando as pernas em passados remotos, porque as doces lembranças de uma noite de vento frio, faz-me querer que o tempo parasse ali.

Eu brindo minhas emoções em goles de extrema lucidez, o vinho que eu bebo transborda, passa pelas minhas entranhas, e cai direto ao chão, escorrendo como um rio, misturado ao meu sangue. Eu queria ter um cão, para ele lamber todo o meu vinho derramado em meio ao sangue. Depois ele sentaria ao meu lado, olharia em meus olhos tão perdidos no horizonte, e lamberia meu rosto, como uma tentativa de me dizer que a Vida, apesar de seus tropeços e saudades, existirá alguém neste mundo que lamberá minhas emoções que escorrem pelo corpo, que vazam pela minha alma tão mal compreendida, mesmo que seja um cão, e não uma pessoa. E a saudade dos olhos azuis desacostumados, que me enxergaram sem julgar minha emoções, talvez esteja me olhando ao longe, mas eu nunca sei, talvez nunca saberei. A vida é cheio de seus mistérios, e isso nunca acaba, nunca acaba!Eu daria todas as minhas entranhas fritas em manteiga, alho e cebola, por um beijo em teus ombros, um carinho e um afago. Mas a única coisa que eu tenho, são o ser ir e vir dentro de meus sonhos, um sorriso e um olhar, e você dormindo serenamente. Por isso que eu escrevo, embalada em uma taça de vinho Cabernet Suavignon.

O mundo inteiro é uma obra de arte. Hamler ou um quarteto de Beethoven é a verdade sobre esta vasta massa que chamamos "o mundo". Mas não existe nenhum Shakespeare, não existe nenhum Beethoven; certamente e enfaticamente não existe nenhum Deus; nós somos as palavras; nós somos a música, nós somos a própria coisa. Virgínia Woolf
O mundo inteiro é uma obra de arte. Hamlet ou um quarteto de Beethoven é a verdade sobre esta vasta massa que chamamos “o mundo”. Mas não existe nenhum Shakespeare, não existe nenhum Beethoven; certamente e enfaticamente não existe nenhum Deus; nós somos as palavras; nós somos a música, nós somos a própria coisa.
Virgínia Woolf
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Trilogia do Vento – Vaidade, Cólera e Desejo – Parte 2: Cólera

Homem livre, tu sempre amarás o mar!
O mar é teu espelho, contemplas tua alma,
no desenrolar infinito de suas ondas,
E teu espírito é um precipício menos amargo,
…Sois todos tenebrosos e discretos,
Homem, ninguém sonhou o fundo de seus abismos,
ó mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas,
De tal modo, cuidais de guardar vossos segredos.

Charles Baudelaire

Já estava no décimo cigarro. Dentro daquele apartamento, Clarissa escutava John Coltrane. Três dias sem tomar banho, vestindo uma camisa branca manchada e cheirando a conhaque, três vezes maior que seu corpo miúdo de um metro de sessenta e cinco. A camisa era de Raul, homem que conheceu em um pub decadente do outro lado da cidade. Ele gosta de blues, cigarros de canela, gin tônica e conhaque.

Clarissa conversou com Raul a noite inteira, foram embora bêbados, ou semi-embriagados, como ela sempre dizia. Os dois, perambulando pelas ruas mal iluminadas, dividindo uma garrafa de conhaque e um cigarro atrás do outro. Caminharam três quilômetros falando sobre coisas úteis e inúteis, algumas com nexo e outras sem sentido algum, totalmente desconexas, algo sobre a paixão de queijo gorgonzola batido com iogurte de morango.
“Isso é coisa típica de larica”, disse Clarissa, enquanto capengava de um lado para o outro, com seu sorriso de bêbada e com “Quero sexo” escrito na testa, de maneira que só ela sabia que estava escrito, desde que topou com aquele homem, já embriagada. Ela estava à procura de alguém para satisfazer suas necessidades de sexo casual.

Chegaram no prédio do apartamento dela, ela mal conseguia achar o buraco da porta. Raul a abraçou, segurou suas mãos trêmulas, arrancou as chaves da posse etílica dela. Abriu a porta, Clarissa chamou ele para entrar, ele hesitou, no começo, mas quando começou à pensar na merda que aquilo poderia gerar, Clarissa já havia voado em seu pescoço e estava a agarrá-lo pelos cabelos. No meio da sala, um tapete felpudo, e foi ali mesmo, um sexo selvagem, etílico e sem pudor algum.

No dia seguinte, ela acordou com aquela dor de cabeça desgraçada, e a vontade louca de botar pra fora todas as tripas que ela carregava dentro dela. Gosto de cigarro de canela e conhaque enjoativo, e a lembrança de fundo de dois ou mais copos de gin tônica. Olhou para o lado, e havia ali um homem nu, ao qual ela não lembrava-se de como ele foi parar ali. Ela também não sabia o que ela estava fazendo vestindo uma camisa que não era sua e nem era o seu número. Estava ali, ao lado dela, segundo suas conclusões esquizofrênicas, um homem deitado feito porco bêbado, apesar de nunca ter visto um porco bêbado, só morto, com purê de maçã e vinho branco, servido em noites de natal com a família. Cutucou ele com as pontas dos sapatos, não queria colocar as mãos nele. Ela era um puta fresca, uma vadia que acordou de ressaca e amnésia. Foi isso que ela pensou dois dias após estar curada da bebedeira. Vadia vadia vadia vadia, putinha fresca de não me rele, não me toques, mas quando bêbada libera até as portas dos fundos. Não duvidava que havia feito isso, afinal, ela não se lembrava de nada, e ela era como uma prostituta de metrô, aceitava até vale-refeição. Topava qualquer negócio, e se arrependia depois, quando lembrava de algo.

Sentou-se no sofá, abraçou as pernas, balançava de um lado para o outro, olhava aquele homem nu ali deitado, de boca aberta, babando em tapete felpudo comprado em bazar de asilos. Os velhos morrem e suas coisas são vendidas a preço de banana. A baba continuava escorrendo, e aquele homem peidava constantemente, mas que belo homem ele era, talvez tenha tido um pouco de sorte, mas a única coisa que ela sentia naquele momento, além de dores no corpo, era raiva, ódio, fagulhas de cólera.

“Filho da puta, filho puta, homem nojento!”, começou a gritar aos berros, chutando o homem que ali dormia. Raul acordou assustado, e chamou ela de vadia louca. Ela o empurrou contra o sofá, ele tentava se defender cobrindo o rosto, saiu correndo, vestiu as calças, esqueceu a cueca que ele mal sabia onde estava. Se vestia desviando de retratos, vasos, almofadas, livros. “Louca, essa mulher é louca!”… “Mas deliciosa”, pensou ele, ao ver a virilha dela quando ela levantou os braços para atirar flores fajutas compradas em lojas chinesas.

Percebeu que Clarissa estava vestindo sua camisa, e os bicos dos seios dela estavam duros e aparentes. “Deve estar excitada, o negócio dela é violência, são cenas ridículas e dignas de piedade.”, pensou ele ao vê-la parada com os olhos perdidos, encostada na parede, suada, descabelada e com maquiagem borrada. Ele lembrava do cheiro dela, de quão belo era seu sorriso, sua risada escancarada e gostosa, seu batom barato de gosto de frutas. Mas aquela mulher ali, não se lembrava dele. Raul foi embora, descamisado, sem seu conhaque e cigarros aromáticos. Talvez a camisa um dia a faça lembrar de como ele fez amor com ela, e não sexo. Estava embriagado, mas encantou por aquela insana criatura desde que a viu pedindo um terceiro copo de conhaque com mel e limão, e o cigarro que comprou solto, elegantemente aceso na mão esquerda. Adorou o jeito fino e elegante dela tragar a fumaça, e como ela mordiscava os lábios pensativa, olhando o horizonte.

Já na rua, olhou pra cima, ela estava na janela, vestindo sua camisa, fumando seus cigarros e bebendo o resto de conhaque que sobrou na garrafa. Os cabelos dela balançavam languidamente com o vento. Foi a última vez que ele a viu, mas nunca esqueceu-se da fúria e intensidade daquela mulher, fúria tragada e sorvida em copos de cólera.

Em quem mais eu poderia pensar numa personagem louca?Claro, Maria Elena!!
Em quem mais eu poderia pensar numa personagem louca?Claro, Maria Elena!!

“Por quem os lençóis dobram” – Da série, “Eu não sei fazer poesia, mas eu tento!”

Depois de andar por um caminho cheio de folhas coloridas,
Já não é mais outono, é apenas um inverno ambíguo, cheio de sol e calor,
E os olhos azuis, grandes e tão perdidos, a fala mansa e o andar calmo,
Um homem incomum tão próximo, a alguns poucos centímetros,
E o sorriso na indelicadeza desconcertante de uma boca carnuda…desnuda,
Tão doce, bruta, elegante, curiosidade, os olhos, os olhos nus,
Fitando a boca voraz, era o desejo e a malícia no pensamento,
E a pele desnuda, a boca e a língua divina, e o cheiro natural,
A linha do pescoço que sobe até o rosto a emociona,
Ela estava então na cova do leão…

A vida, as pessoas, o caos, caminhando todos juntos de mãos dadas,
Os ventos de fim da noite os carregam, assim como as folhas,
Caindo calmamente, quase uma heresia,
Uma heresia calma e ao mesmo tempo bruta,

A folha toca o chão numa leveza simples, as mãos lhe tocam a pele,
Numa beleza ímpar, um gemido alto de prazer enlouquecedor,
São jovens demais para deixar a natureza emudecer noite afora,
Às vezes um homem deixa seus medos e ansiedade para trás,
Não há nada a temer, olhos nos olhos há sempre uma razão, ainda que febril,
E os olhos nus, encantados, e os corpos nus, se contorcendo,
Numa dança erótica, a indecência e o desejo tem cheiro de jasmim.

Há um sorriso tímido nos lábios, um enrubescer no rosto, um jogo de poder e sedução,
E ela sente os pelos do rosto dele junto ao pescoço, corpo estremecido e sem rumo,
E enquanto ele tira as suas roupas, ela se despe da vergonha,
E a noite segue tímida nos gemidos, enquanto as mãos firmes escorregam,
Como num torpor, num deslize, o suor sagrado se mistura mãos fortes e brutas,
No corpo tão frágil e delicado de mulher, as garras do leão lhe marcam a pele,
E as marcas na pele dela, um sorriso sádico no espelho pela manhã,
Ela fecha os olhos e se entrega, e então ela acredita, que ali naquele erotismo,
Naquela cama, com aquele homem, ela encontrou sua paz de espírito.

E o gosto sincero do medo, tão natural, ansioso, e latejante,
Num grito noturno sufocado pelo silêncio, uma mulher aflita,
Ao lembrar-se da cova do leão, o tremor, o desejo e o paladar visual,
Na madrugada afora o corpo clama por um pouco mais de amor,
Seja ele sensato ou insensato infiel ou fiel, perigoso e delicado,
A luta entre amor e razão é fado pesado e dói o peito,
O peso de uma incerteza silenciosa carregando um coração tão maltratado,
O rosto queima com a lembrança do beijo molhado, quente e profundo.

E a lembrança de um gosto amargo lhe traz uma saudade,
E o peso de um corpo sobre o seu nunca foi tão intenso e excitante,
Tão profundo, úmido, na meia luz, um gemido abafado e solitário,
É na cova do leão, a saudade, a lascívia, e o cheiro do jasmim,
Ela o amou, fez do seu desejo sua morada, bebeu do seu cálice até a última gota,
E ele fez do corpo dela seu altar, com uma fúria docemente obscena,
Um altar do desejo na cova do leão, quente, úmido e delicado.

Ficou uma bosta, mas foda-se essa merda!!hahahahahahahahahaha
Ficou uma bosta, mas foda-se essa merda!!hahahahahahahahahaha

Incubus

Isabella acordou tarde, queria aproveitar a folga que ganhou do trabalho. Tomou um banho morno para espantar a sonolência depois de uma noite regada a dois comprimidos de Rivotril de meio miligrama, e duas xícaras de chá de erva cidreira. Aprendeu com seu pai a arte de apreciar uma boa xícara de chá. Aprendeu com ele e um amigo que chá e silêncio são grandes aliados. Lembra ela, em tempos de adolescência,, quando passava as tardes de seus dias deitada na rede da varanda da casa dos pais, com seus livros emprestados da biblioteca do colégio, pois naquela época ela não se dava ao luxo de poder comprar os livros que quisesse. Seu amado pai sempre dizia que se ela estudasse, teria tudo aquilo que quisesse, pois o suor de sua labuta sempre valeria à pena, por mais que à princípio tivesse que abrir mão de muitas coisas. Ela, em devaneios de adolescente, imaginava-se tendo em sua casa uma enorme biblioteca, e não hesitaria em pagar caro em um livro, pois livros eram a sua fuga. A realidade sempre foi muito cruel para ser respirada com exclusividade. Ela precisava de uma válvula de escape.

Dez anos se passaram desde seus saudosos quinze anos, e hoje ela toma conta de sua própria vida, mas tinha muitos sonhos a serem realizados pela frente. Era muito jovem para querer ter tudo o que almejava. Ela tem algumas listas mentais de desejos a se realizarem até o dia que não pertencer mais a este mundo.

Naquela manhã de segunda, o dia nasceu indeciso. Era uma manhã cinzenta, intercalada por tímidos raios de sol. O ônibus chegou, ela disse bom dia ao motorista e sentou-se na poltrona da frente. Tirou um livro da bolsa, um livro sobre a temática da abordagem da feiúra em obras de arte. Ela permitia-se em apreciar o feio, o cruel, o anormal…A feiúra também tem sua dádiva, e em uma obra de arte, ela se enche de significados. Chegou em um capítulo que falava sobre demônios, nas mais possíveis esferas do que se pode ser considerado como arte. Havia ali um quadro. Havia uma mulher seminua sendo seduzida por um demônio. Ela encantou-se pela pintura ali refletida, aquele demônio cheio de luxúria apoiado no corpo branco de uma mulher perdida em devaneios oníricos, uma das mãos do demônio, apertava o seio. Olhou aquilo e lembrou-se, que Jung chamava isso de Incubus. São demônios causadores de sonhos eróticos em mulheres. O correspondente ao sonho eróticos dos homens, chama-se Sucubus.

incubus2

Isabella também tinha sonhos eróticos, e confessa que são aqueles que ela mais gosta, pois acorda mais disposta. Ela não tem aquele senso religioso de que está com o capeta no corpo. Sexo é uma necessidade, não é pecado, é prazeroso, bonito, puro. Naquela madrugada ela teve um sonho, permeado por um lindo demônio de olhos azuis, um anjo caído. Jazia ele como uma maldição entre as pernas, e na madrugada de outono ele lhe aquecia, encantava-lhe com o seu sorriso angelical e sua fúria sexual, o calor que precisava naquela noite e nas que viriam também.

Acordou descoberta, nua, cobertores ao chão. Um ventinho frio entrava pela fresta da janela, mas havia um calor úmido entre as pernas, sabia que seu demônio cor de olhos celestes havia lhe feito uma visita. Era como se ele tivesse as cópias das chaves de sua casa, e tivesse entrado de mansinho, dentro de sua casa, no seu caos organizado. Ele a olharia serenamente dormindo esparramada em sua solitária cama de solteiro, e a invadiria, apoiando-se sobre o peito dela, mãos descendo ventre abaixo.

Com aquela lembrança de seu sonho sem vergonha da madrugada, ela tentou mudar de rumo de pensamento. Olhou pela janela e contemplou várias flores que nascem em pleno asfalto. Viu uma senhora regando as plantas com um pequeno regador de plástico, e que via aquela senhora todas as manhãs, exceto em dias chuvosos. Aquela senhora, em dias de chuva, devia apoiar-se janela e contemplar a chuva dando um descanso pra ela. Um presente da natureza, uma dádiva do céu, e enquanto isso, ela tomava goles de café descafeinado  Isabella adorava isso, imaginar situações, reações, mas sem ter aquela neura de ter que comprovar que todas as suas convicções eram verdadeiras.

Voltou para o livro, lá estava a imagem do Incubus invasor, e ele voltou a atormentá-la, olhando nos olhos. Doce tormenta, pensou ela. Contorceu-se, cruzou as pernas no ônibus, eis aí uma tática para estimular o prazer sem ser percebida. Se apertava toda, e sua face pegava fogo. Queria ela que o dia acabasse logo, e que a noite chegasse majestosa, que o Sono a chamasse, um convite para se deitar nua debaixo das cobertas. Quando ela fechasse os olhos e no primeiro suspiro de sono majestoso, seu adorável Incubus a invadiria, deixaria seu corpo úmido como a grama de uma manhã de orvalho, uma tempestade a inundaria, escorrendo do meio de suas pernas. Vergonha…vergonha era algo que Isabella definitivamente não sentia.

girassol..
Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.
(Sonho de uma Noite de Verão)
William Shakespeare

O olhar de Beatriz

Era verão e as crianças saiam nas ruas com suas bexigas cheias de água. Numa rua sem saída perto de casa, as crianças andavam em paz com seus patins, bicicletas e carrinhos de rolimã. Havia torneios de queimada, e Beatriz sempre era campeã invicta. Seu reflexo era tão bom quanto o de uma mosca varejeira descansando na parede da cozinha.

Beatriz tinha uma bicicleta amarela enferrujada. Deslizava com ela nas ruas com pequenos buracos. Ela adorava a vida infantil do subúrbio. Encontrava ali uma infância que imaginava que de uma certa forma, quando adulta, seria uma infância memorável. Quando fosse adulta, Beatriz queria ser pediatra. Sua mãe contou-lhe que o médico que cuida de crianças doentes chama-se pediatra. Beatriz queria salvar todas as crianças da rua, todas as crianças da cidade, todas as crianças do mundo que se arrebentavam com seus carrinhos de rolimã nas ladeiras. Braços, pernas, narizes quebrados. Um dia contou para a mãe que queria consertar ossos quebrados. Então sua mãe disse que o médico que consertava ossos quebrados era o ortopedista. Beatriz ficou pensativa por alguns minutos, enquanto comia seu mingau de aveia, e na audácia de seus oito anos de idades, disse à mãe que não queria ser apenas pediatra, queria ser ortopediatra. Sua mãe riu, e sentiu-se feliz com o raciocínio e lógica da filha, por mais que seja tão prematuro. “Por quê Beatriz? Porque mudou de ideia meu bem?”, enquanto lhe estendia o copo de ovomaltine gelado com gemada, receita antiga de família e que Beatriz adorava. A menina, de olhos grandes e indagadores disse que mudou de ideia porque as crianças ao redor dela estavam constantemente se quebrando. Com um bigode de leite no canto dos lábios, Beatriz disse: “Karina quebrou uma perna ontem andando de patins na rua de cima, Guto quebrou o nariz quando recebeu uma bolada do Luizinho bem no meio da cara. E a Clara, Clara está sempre quebrada, ela é estranha mamãe…”Por que Clarinha é estranha querida, ela parece ser tão legal!, Beatriz olhou nos olhos da mãe com uma expressão de surpresa, como se a mãe fosse ingênua o bastante perto dela. “Porque Clarinha está sempre triste, como se ela estivesse quebrada, por dentro, e eu queria poder consertá-la”. O silêncio tomou conta da cozinha, a mãe de Beatriz não lhe fez mais perguntas. Enquanto lavava o copo sujo deixado pela filha, percebeu que o olhar nu de uma criança é tudo aquilo que muitos adultos perderam com o passar dos anos.

"Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas." Jean-Paul Sartre
“Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas.”
Jean-Paul Sartre

Trilogia do Vento – Vaidade, Cólera e Desejo – Parte 1: A Vaidade

Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Eclesiastes 1:2

Georgia penteava os cabelos com uma escova de cerdas macias. Sentada na cama, ao acordar, a primeira coisa que ela fazia depois de colocar os dois pés no chão, era dirigir-se até a penteadeira e escovar os cabelos. Era um carinho, uma espécie de ritual, um carinho diário de todas as manhãs, enquanto seus olhos se mantinham pequenos e inchados de uma noite de sono. Vários fios de cabelo ficavam presos na escova, e ela tinha medo que o número de fios de cabelo perdidos ultrapassem os cem fios diários. Leu numa revista de beleza, que toda mulher perde em cerca, 100 fios de cabelo todos os dias, sendo eles repostos por novos fios. Ela não contava os fios perdidos, tinha medo de enlouquecer.

Sua tia Berenice tinha câncer, e os seus cabelos antes tão bonitos, não existiam mais. Eram pretos, ondulados, e volumosos, Os cabelos de Tia Berenice ganhavam vida conforme o vento os balançava. Tia Berenice era o sonho e desejo de muitos homens, e continua sendo, mesmo ela não tendo mais a esperança de que a Beleza e o vigor de sua juventude possam voltar como que um milagre bíblico ela sentia-se como um Sansão de saias. O câncer chegou e arrancou toda a sua força. Sua doença era como uma metáfora bíblica, ela era agnóstica, e não acreditava em milagres. Já passou-se o tempo em que seus cabelos eram afagados pelas mãos dos homens que tanto amou na vida.

Tia Berenice usava um lenço colorido na cabeça, e eles sempre combinavam com seus olhos azuis. Apesar do rosto envelhecido e cheio de rugas, marcas de experiência e sabedoria de vida, Tia Berenice nunca perdeu a beleza que fazia o trânsito parar na glória de sua juventude. Ela gostava de ler, e ela era teimosa feito uma mula, recusava em usar óculos, recusava qualquer forma que provasse à sua consciência que o tempo chegou pra ela. Ela comprava livros num velho sebo cujo dono era seu namorado, e eles transavam no chão ao lado de prateleiras cheias de livros, alguns cheirando a mofo e com traças famintas. Hebert, o dono do sebo, adorava os cabelos negros e ondulados de Berenice, e quando Georgia passava em frente à loja, uma vez por semana ele lhe entregava um livro para ela levar à tia. Hebert sabia todos os livros que Tia Berenice já havia lido. Ele era apaixonado por ela, mas Berenice sempre foi uma alma livre, consistente no espírito idealista e livre da década de setenta. Tia Berenice envelheceu, perdeu os cabelos, mas nunca deixou de devanear sentada em sua poltrona velha da sala. Seus olhos vagavam longe nas páginas de um livro. Seu corpo era coberto pelas suas antigas vestimentas hippies, e ela mesmo doente, continuava fumando um cigarro atrás do outro. Cigarros mentolados, que ela acreditava que fazia-lhe menos mal que cigarros “convencionais”. O seu médico proibiu os cigarros, mas sua alma era orgulhosa demais para abandonar aquilo que ela gostava. Já havia perdido os cabelos, e tal como Sansão, sua Força foi embora, só que ralo abaixo… Desde então, tornara-se uma pessoa amargurada. As águas de suas emoções não passam mais pelo seu coração, já adoecido com três pontes de safena. Seu coração estava entupido pelos fios de cabelo que caiam aos montes no ralo do box do chuveiro. Georgia nunca esquecia a cena em que sua Tia Berenice gritava e chorava desesperada, nua, com metade de um seio extirpado  e com os fios de cabelos que lhe restaram, todos ao chão, sendo varridos pela água morna do chuveiro. Desde aquele outono, Berenice quebrou-se em centenas de cacos. Georgia tentava o tempo todo recolher os cacos e tentar trazer de volta o vitral da beleza e força de viver de sua tia, mas por mais que juntasse os cacos, o vitral nunca se completaria. Tia Berenice era incompleta.

Um dia, numa manhã de outono, três anos após o acontecimento trágico que ocorreu à sua Tia Berenice, embaixo de águas mornas, Tia Berenice apareceu-lhe ao pé da cama, sem o lenço cobrindo a cabeça. Ela tinha um sorriso no rosto, algo que Georgia não via há tempos, mas o velho e aromático cigarro mentolado descansava no canto dos lábios.

Bom dia Georgia…,

Tia Berenice era uma mulher de poucas palavras. Quando ela, nas raras vezes conversava, acontecimento em festas de família em que ela bebia escondida, Tia Berenice sempre falava do saudosismo da década de setenta, onde seus cabelos eram longos, pretos, brilhantes e ondulados. E o quão bonitos e selvagens ficavam quando o vento batia neles. Ela foi até a penteadeira de Georgia, e uma voz doce com cheiro de cigarro mentolado invadiu o quarto:

Este móvel era onde eu e sua mãe escovávamos os cabelos todas as manhãs. Eu brigava com tua mãe, pois neste espelho, como pode ver, há espaço para apenas uma imagem. Eu sempre fui difícil e quase invencível, e não nego, egoísta. Logo, sua mãe não perdia o tempo dela discutindo comigo.

Ela riu, Georgia viu seus dentes amarelados pela nicotina do tabaco de todos os dias. Fazia tempo que não via sua Tia Berenice soltar uma gargalhada tão gostosa. Tia Berenice puxou a cadeira em frente à penteadeira, num gesto batendo as mãos no assento da cadeira, chamou Georgia para sentar,

Sente-se aqui querida, vou-lhe contar uma história

Georgia saiu da cama, com os cabelos longos e negros, desgrenhados, como se ela tivesse saído de uma tempestade de vento, sentou-se na cadeira e sua Tia Berenice pegou sua escova de cerdas macias e um spray de colônia perfumada para cabelos.

Quando eu era jovem como tu, meus cabelos eram longos e bonitos quanto os teus

Soltou uma fumaça mentolada no ar, e penteava suavemente os cabelos de Georgia, num carinho saudosista, alegre, porém com um “q” de tristeza que talvez somente ela poderia compreender.

Eu era muito parecida contigo. Os homens me desejavam como uma tempestade que deseja fazer amor com o vento. Já fiz muitas coisas nessa vida, muitas coisas erradas, inclusive. Nos dias de chuva, eu trançava meu cabelo, em dias de praia, eu os deixava soltos, enquanto eu caminhava pela areia próxima onde as ondas quebravam, Quando eu me abaixava para colher conchas, a água das marolas molhavam as pontas dos meus cabelos. Você já amou alguém Georgia? Já sentiu o afago das mãos de um homem, por entre os cabelos?Não há nada mais divino, minha querida, que as mãos de um homem no meio de nossos cabelos, enquanto nos beija na boca. Mãos que percorrem gostosamente perto daqueles fiozinhos tímidos e finos que terminam na nuca, dedos que afastam nosso cabelo para perto do lóbulo da orelha. Sinto falta de meus cabelos minha querida, e quando eu lhe vejo, na flor de sua juventude, eu permito-me dar um sorriso por dentro…Sinto muita falta…Muita falta…

Os cabelos de Georgia estavam impecavelmente escovados, e com cheiro de água de colônia.

Agora Georgia, minha querida, coloque isto, sua beleza ficará indiscutível e terá todos os olhares dirigidos à você

Tia Berenice entregou-lhe um pacote, com um vestido azul, da mesma cor de seus olhos. Georgia e Tia Berenice tinham os mesmos olhos azuis, era herança de família. Era um vestido de viscose indiana, e aquilo foi a coisa mais bonita que cobriu o corpo de Georgia até então. Georgia pegou os livros da faculdade, tirou o celular do carregador, e desceu as escadas. Tia Berenice esperava na varanda, fumando como sempre, seus cigarros mentolados Lucky Strike.

Está linda querida!

Tia Berenice chorava, abraçou Georgia e lhe deu um beijo demorado na testa.

Vá com Deus minha querida…

Georgia foi para a faculdade, e percebeu que atraiu olhos que nunca haviam lhe dado atenção. Parecia que naquele momento a sua vida tinha tomado um outro sentido, era como se o vento que batia em seu rosto, lhe trouxesse algo que nunca vivenciou.

Horas mais tarde, ao chegar em casa, seus pais estavam na sala, cabisbaixos. Na sala, um cinzeiro lotado, com cheiro de menta. A poltrona onde sua Tia Berenice passava seus instantes lendo ou dormindo, estava vazia. Tia Berenice morreu naquela manhã, próximo do almoço, naquele sofá, segurando uma fotografia de quando era jovem, com cabelos compridos. Na fotografia, Tia Berenice vestia o mesmo vestido de viscose azul indiana que acariciava o corpo de Georgia.

O enterro foi no dia seguinte, pela manhã. Georgia disse à mãe que demoraria alguns minutos, que pegaria depois um táxi até o velório. Foi ao quarto que era de sua Tia Berenice e pegou um maço de seus cigarros mentolados. Acendeu um, passou mal na ´primeira tentativa frustrada de tragar. Em frente à penteadeira,escovou os cabelos, borrifou colônia perfumada, pegou uma tesoura, e cortou os cabelos rentes à nuca. Seus cabelos estavam na altura da cintura, e agora eles não existiam mais. Chegou no enterro, com os cabelos curtos e desalinhados. Carregava consigo uma caixa, e nela continha as madeixas negras que sua Tia Berenice tanto amava. No caixão, vestida com o vestido de viscose indiana da mesma cor de seus olhos já sem vida, Tia Berenice parecia sorrir.

espelho+quebrado[1]

 

 

Sereníssima.

Onde o Tempo perdeu-se em instantes não glorificados, já sobressai um canto triste de seus lábios emudecidos pelo frio e o silêncio das palavras. Num acesso de contemplação esperou o Tempo sábio sussurrar canções de razão distantes de emoções. Queria uma vida mais racional, e não apenas um calor irracional no meio das pernas cada vez que visse seus olhos em fotografias, pixels digitais que a envenenam a alma com sentimentos de Amor que talvez nem seja correspondido. Queria talhar uma imagem numa madeira de lei, cansar-me, deixar-me suar por suas emoções esculpidas em pedaços incólumes da natureza. Pedirei perdão por ser tão ingênua nos braços daquele que me fez calar. Pediria perdão, ajoelharia aos pés de meu rei soberano, tal como uma flor se curva perante ao sol. Na fúria do Amor não há espaço para falta de poesia, meus sentimentos cantam estrofes de Petrarca, instantes talvez mal traduzidos na língua dos incautos, aqueles que não foram atingidos pela flecha certeira e destruidora do mito do cupido.

E dizem por aí que o mundo é dos Tolos, aquele que incessantemente divertir o rei, com suas piadas de escárnio, mal sabem os espectadores que o Tolo é sempre o último que ri, e o seu riso é permeado por uma lágrima triste de fracasso. Poderia ser ele um mercador de flores nas ruas de Veneza, ou vender tulipas nos canais da Holanda. Poderia cantar uma canção em um velho alaúde, herança de uma família com caminhos já tracejados pela arte, mas a Arte do Tolo é fazer rir, contanto desgraças, a velha política do pão e circo. O Tolo diverte, chora, mas um dia ele se aposenta, mas ele continua esperando,ele espera, os tolos amam, e aos olhos alheios ele é apenas aquele que faz o soberano rir.

Contra o céu de amanhã, vamos todos padecer de cansaço, eu deito-me sozinha em um gramado macio, vendo as nuvens, e como uma criança em corpo de mulher, posso dar a cada uma delas uma forma de algodão doce, e eu consigo sentir em meus lábios a doçura destas nuvens de figuras abstratas, um beijo sincero de olhos bem abertos abaixo desse céu, um céu de manhã, você está sorrindo com teus olhos. Esse teu sorriso abstrato, aberto na graça das horas, eu amo os ponteiros do relógio do teu pulso, e a forma como os traços de seu rosto ficam melhores com o tempo.

Eu lhe adoro, vejo-me como uma garotinha fugindo para meu esconderijo de emoções, dou-lhe as mãos, venha e fuja comigo, no meio de melancolia úmida, numa meia luz, vamos brincar de sermos adultos, no meio daquilo que chamamos de Amor, ano após ano, aquilo que chamamos de Beleza existirá em um abraço, no nosso sono, no cansaço. Não vou ficar abstraindo sentimentos, sou tão somente feita de emoções que me movem, que me enviam glórias. Num futuro distante olharei minhas mãos enrugadas, meus olhos caídos…Talvez dias vazios, caminhando sem rumo. Um velho cão dormindo aos pés de minha cadeira.

Lembranças que passam na velocidade de um sentimento aflito que nos engole a alma. O que podemos sentir, em nosso julgamento, ora senil, ora débil, somos pobres tolos sem rumo?Quem somos nós, meu doce Amor, tão pequenos, para julgarmos aqueles que se deixam encharcar de orgulho? Vamos beber, esperar no calor de um fogo, enquanto a chuva cai lá fora, serena, molhando carros, pessoas, cães abandonados…Feche os olhos meu lindo e distante Amor. No silêncio da sua alma, as nuvens negras deste céu nunca atingirão o teu chão. O relâmpago nos trará o caos do estrondo de um trovão, fecharemos os olhos e contaremos os segundos, até o barulho do trovão me assustar, e você me abraçar de corpo inteiro.

Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.

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Alice.

Cale-se, disse Alice pra si mesma, diante do rosto maquiado de ressaca no espelho. Com as pernas cansadas, corpo dolorido, ainda tinha de tirar os traços de purpurina do corpo, o cheiro de homens bêbados e aquele cheiro de cigarro de quinta categoria. Cansada de rebolar no colo de estranhos, esperando quem sabe um pau endurecido e 200 reais num programa de uma hora, programa que rezava para não ter beijos na boca. Mas precisava do dinheiro insistente colocado por entre os seios ou na dobra da calcinha. Estava cansada de mostrar-se de peito aberto, de dizer à mãe que trabalhava num hospital no outro lado da cidade. Sua mãe, já caducando na flor da idade, só queria saber da sua criação quase doentia de gatos. Dias atrás, descobriu que o mal cheiro da casa vinha de um gato morto que sua mãe velava numa caixa de sapatos embaixo da cama. Mas não brigava com ela, ela encontrava a felicidade na flor da idade, sob forma de gatos abandonados na rua. Ela era feliz, daquele jeito, comendo apenas suas bolachas de maisena com leite quente, e eventualmente uma canja. Às vezes, ela dá uma gargalhada, assim, do nada, e conta sempre a mesma velha piada, aquela que seu falecido marido contou no primeiro encontro. Depois da risada, um silêncio, uma lágrima tímida nos olhos, e um afago de desespero no gato que estiver em seu colo. Ele talvez, o gato, nem tenha nome, ou se tem, ela não se lembra mais.

Alice afogava suas mágoas no conhaque com limão, e entre um cliente e outro cheirava uma carreira de cocaína. Tudo para se tornar mais suportável, talvez sua dança erótica lhe traga sentido, e não apenas dor ao esfregar suas partes num poste de pole dance. Arreganhar as pernas para estranhos, que a tratam como um animal no cio. No meio de gemidos magistralmente fingidos, ela tentava acreditar que ao menos fazia alguém feliz, mesmo que seja um homem com esposa e filhos. A hipocrisia também faz sorrir. Talvez o homem que lhe fez sexo oral, beije a boca da esposa e ela nem perceba que estava antes no meio das pernas de outra. Ela já transou com mulheres, uma tem sabor e cheiro diferente da outra, impossível saber se o bafo e sabor de um beijo seja de um beijo entre as pernas de uma prostituta de um bordel de bairro decadente.

Um dia, se apaixonou por um cliente. Ele a tratava como uma rainha. Dançar nua no colo dele em meio de olhos de desejo de centenas de homens, era algo que não a incomodava. Ela imaginava que em breves instantes, questão de minutos para que ele não se segure mais, ele lhe estenderia a mão e a levaria para o melhor quarto privativo, aquele onde os lençóis eram trocados. Para se ter o luxo de transar em lençóis limpos, pagava-se 100 reais a mais. Muitas vezes demoravam a transar, ele só queria conversar. Mas não resistia, ligava dali e se encontravam em um hotel qualquer, apenas pra transar. Sabia ela que aquilo era apenas uma conveniência para ele, uma forma dela realizar os desejos que ele tinha com a mulher, segundo ele, frígida, e levada pelas morais e bons costumes da igreja. Ele queria que um dia ela o visse transar com a esposa, iria entender o quanto ele sofre, pois ama uma mulher que não permite ser tocada. Nas raras noites que transam, ele e sua esposa ficam em um entediante papai e mamãe. Ele contou-lhe, que um dia tentou pegá-la de quatro, e ela o amaldiçoou, dizendo que não era uma cadela no cio. Pensou em muitas vezes largar dela. Um dia foram a uma festa de casamento. Ela encheu a cara e ficou enebriada e tarada, e ele conseguiu que ela fizesse os seus desejos, mas depois, no dia seguinte, ela não se lembrava de nada. Nunca conseguia deixar em sua memória o orgasmo que ela não tinha em sexo sóbrio. “Ela só sente prazer quando está embriagada…É como se ela derrubasse sua máscara de dona de casa, dama na sociedade”, dizia ele muitas vezes com olhos marejados. Nunca contou à esposa que se encontrava com uma prostituta, amava-a tanto que não queria perdê-la e ele não se achava hipócrita por isso.

Independente de alguns cheirarem a peixe, cigarros, charutos e cachaça, cada cliente que se aventurava por entre as pernas dela, tinha uma história para contar. Ela não pensa em ser uma prostituta clichê, aquelas que escrevem livros sobre a rotina. Sexo vende, a história pode ser uma porcaria, tal como “Cinquenta Tons de cinza”. Ela não queria mais viver de sexo. Tirando seu cliente que ela ama, aquele que sofre na falta de mãos e boca da esposa frígida, não consegue sentir orgasmos reais, é como se o sexo fosse banal, pura questão de rotina. Queria apaixonar-se por um homem, um cliente frustrado que se apaixonasse por ela e que a tirasse daquela vida. Mas a vida não é um conto de fadas, ela era uma gata borralheira, e a única coisa que era limpava era sua cara suja de sêmen após um programa.

Natalie Portman em "Closer, perto demais". Qunado penso em algum conto sobre prostitutas, penso nela como personagem. Adoro esse filme. É um tapa na cara com luvas de pelica.
Natalie Portman em “Closer, perto demais”. Qunado penso em algum conto sobre prostitutas, penso nela como personagem. Adoro esse filme. É um tapa na cara com luvas de pelica.

Minha falta de paciência

Pensei em coisas altamente pornográficas naquela mesa de bar. Permita-me, senhor elegante, ser devorada por ti em sonhos insones. Aqui neste lugar, onde o vinho escorre na minha garganta já tão sufocada pelo pretérito da saudade, penso em beber-lhe, assim, como goles de saudade, como goles de Amor que está tanto em falta neste mundo. Até mesmo eu, errante apaixonada, dom quixote de saias, deixo-me levar várias vezes que o Amor é apenas uma invenção tolas dos homens, descritas em versos de Petrarca. Uma loucura arquetípica dos homens, um devaneio não desmentido ainda pela ciência.

Aqui nessas linhas, não há espaço para pudor algum, não há nem um centímetro para descrever vergonha. Aqui é lugar de pouca vergonha, dou-lhe meu rosto para bater, sendo que uma face é pra bater, outra é beijar, como quiseres. Tiro minhas roupas em frente aos teus olhos tão desacostumados às coisas vazias deste mundo, talvez isso lhe traga algum momento de coerência, lembrando que Ícaro, da mitologia grega, também achou coerente colocar um par de asas e voar bem próximo ao sol. Em sua verdade imposta pelo sonho dele, ele caiu ferido e queimado no ar. Suas asas, estavam pesadas. A água do mar trouxe-lhe o peso da realidade.

Queria agora, devorar-lhe com os olhos, queria agora, neste instante, que rasgasse meu babydoll caro de seda e renda. Queria agora 12 horas de putaria num quarto de motel. Queria agora meu corpo insanamente encharcado com sua saliva. Isso te envergonha?Desculpe-me senhor, não sou mulher de meias palavras. Sou mulher para ser amada sem pudor num quarto de motel ou qualquer lugar ao qual pudermos transar. Quero sentir-lhe entre minhas pernas, como um errante perdido no meio da estrada, queria gemer em seus ouvidos, transbordar em você todas as minhas gotas de razão. Queria eu, ao fitar teus lindos olhos azuis, perder-me em um milhão de parábolas talvez inexplicadas. Queria ser eu, aquela que lhe tira o sono, mesmo sendo um homem cansado e cujo cansaço seja talvez em excesso, meu motivo de ser sua insônia repente em minutos de cansaço, abra-lhe um sorriso tímido nos lábios. A saudade de seus beijos me fazem perder a paciência…

Memórias de bar.

Dormi ontem quase o dia todo. Estou de férias e tirei o sábado para relaxar, entre uma cochilada e outra, sonhos que eu tanto gostaria que fosse realidade, sonhos de Almodóvar. Acordei três horas da tarde com uma fome e sede dos infernos. Resolvi vivenciar minhas emoções incontidas em taças de vinho, nada como perder o meu tão pouco juízo em pensamentos derivados de uva fermentada. Seria eu uma alcoólatra?
Acordei, coloquei um vestido florido, meio curto mas não vulgar, aqueles que ficam soltos no corpo. Passei meu melhor perfume, vesti um salto quinze. Permito-me sentir-me como um mulherão. Quem me visse imaginaria um encontro à dois, eu bem que tentei, mas navego sozinha em um oceano de marés indecisas.Estava pronta para o pecado, mas meu pecado não me deu as mãos. Doía-me o meu tão gentil coração, chorei?Não…Eu convivo bem com a minha solidão, e acredito que as coisas não são como devem ser, assim, à nosso bel prazer, principalmente frente a um Amor tão desligado, uma incógnita talvez sem solução. Adoro mistérios, eles me encorajam, desafiam-me a ir contra aquilo que todos acham. Tenho todo o tempo e paciência do mundo, mas não sei dizer ao certo qual a regra de validade de minhas convicções. Um dia tudo se acaba, pode demorar anos, ou uma eternidade, e nessa eternidade nós podemos apenas fingir, isso mesmo, FINGIR, que nada mais sentimos, mesmo aquela lembrança doce nos afligindo como fantasmas, e eles podem ser cruéis, porque deixam uma saudade ao qual não podemos matar.

Adoro o rosto de incógnita e os cochichos dos transeuntes e convivas sentados às mesas ao lado. Adoro a cara de questionamento sobre o que faz uma mulher bonita e sozinha numa noite de sábado, sentada numa mesa tomando um vinho solitário e uma carne com mostarda e alcaparras. Se algum dos espectadores do meu curioso caso tivessem lido “O guia do Mochileiro das Galáxias”, saberia que eu estava ali a pensar “na vida, no universo e tudo o mais”, em meio à páginas de Hemingway, compradas antes em uma livraria. Não fico sozinha à toa, gosto sempre de levar algo para ocupar-me a mente. Por vezes, permito-me observar ao redor, mas sinto aquela ponta de medo de parecer invasora ao universo alheio. Enquanto as pessoas brindavam entre si, eu confraternizava com minha alma calorosa em meio de linhas tortas, no meu sempre companheiro caderno de anotações. Vivo em um mundo em que as pessoas, a maioria delas, não sabem conviver bem com a solidão e tirar proveito dela.

A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito.

Thomas Mann