Houses of the Holy

Abriu os olhos durante aquele instante em que os sonhos davam-lhe uma bofetada sonora no meio da madrugada. Foi tropeçando como uma bêbada até a geladeira. Buscou a garrafa de vidro com água bem gelada, e um pote de sorvete que mal sabia quanto tempo estava lá. Sentou-se ao pé da geladeira aberta, vestindo um camisetão do Led Zeppelin que era de seu irmão. Queria ser como as crianças da capa do  Houses of the Holy. Queria ficar pelada numa pedra, sem que ninguém se importasse. As pessoas se importam muito com as coisas, queria um dia sair descabelada e com a primeira roupa que suas mãos alcançassem no armário, mas sua “chefa” a olharia com reprovação, “imagem é tudo” – sempre dizia  isso em alguma conversa qualquer, num almoço executivo qualquer. Escutava essa pérola dos ditados populares todos os dias, e queria pegar um pedaço do pudim de chocolate intragável que tem nos almoços de negócios e brincar de tiro ao alvo. Queria sujar o blazer branco impecável de sua chefe vazia e cheia dos clichês que lia em seus livros de negócios, que ela dizia que não era auto-ajuda, mas sim, leituras de negócios. “Ohh desculpe, imagem é tudo não é?” – diria ela com um sorriso sarcástico no rosto como a cara de Jack Nicholson em “O Iluminado”. Queria ver como a “chefa” se sentiria desconstruída com a mancha no seu casaco, queria vê-la gritando no meio do restaurante enquanto ela era insolente. Queria ver aquela mulher perder a classe. Ela odeia gente que é perfeitinha o tempo todo. Sairia rindo, desempregada. Talvez pegasse mais um pouco de doce e comeria com requintes de crueldade. Mas ela tem contas pra pagar, e uma mãe doente que depende dela para comprar remédios para diminuir sua dor. Sente saudades da mãe, queria vê-la mais, conversar, mas na maioria das vezes ela está dopada demais para entender e compreender as dores da filha. Mas de alguma forma, sabe sua mãe que ela está ali, ao segurar sua mão e sentir o aperto quente. Quando ela vai embora, as mãos de sua mãe afagam o lençol. É uma maneira de dizer que vai ficar com saudades ou dizer adeus.

Havia uma bandeja de morangos frescos na geladeira, e eles combinariam com o sorvete. Precisavam ser lavados, mas eles talvez não sejam mais tóxicos que os dez cigarros de menta que ela fuma quando vai a shows de blues ou nos dias chuvosos. Adora fumar na janela, escutando “Rain Song” no último volume. Adora quando sua vizinha mal amada bate na sua porta dizendo que está tentando descansar e a música barulhenta não a deixa em paz. Maldita convicção dos dias de chuva. Eram dez horas da manhã de um sábado, Robert Plant cantava e sua vizinha coroca estava “enchendo o saco” dela. A vizinha na porta de sua casa, com um enorme guarda-chuva amarelo embaixo de uma chuva tranquila e fria de inverno. “Desliga isso, por favor!”, e ela soltava as baforadas mentoladas na cara daquela mulher que deve dormir cedo todos os dias e acordar religiosamente nos mesmos horários, comer o mesmo número de torradas e exatamente uma xícara pequena de café ou chá com exatas quatro gotas de adoçante. Ela deve ir à igreja toda quarta-feira e domingo, almoça sempre nos mesmos horários. Ficou olhando na cara daquela mulher que esbravejava na janela, cansou-se. Não gostava das pessoas mal amadas. Fechou a porta, aumentou o som e ignorou a mulher. Viu a infeliz gesticulando brava pela calçada. Ela por sua vez, continuou na janela, sentindo a frieza do seu próprio inverno. Acendeu outro cigarro e encheu a terceira xícara de café. Aquela mulher amarga nunca deve ter ido ao cinema, o jardim dela é tão artificial quanto o sorriso que ela distribui ao lado do padre na porta da igreja…

Let me take you to the movies

Can I take you to the show?

Let me be yours ever truly

Can I make your garden grow?

Os morangos sem lavar tinham um gosto triste. Sua mãe plantava morangos no quintal de casa. Ela costumava apanhar os morangos ao final da tarde, e fazer geleia para comer com torradas e chá. Seu pai nunca esteve presente. Ele era um fantasma desde que ela nasceu. Queria os morangos silvestres de sua mãe, e não aquela porra tóxica e sem gosto. Mas dava-lhe certo prazer ficar sentada na penumbra da cozinha, apenas parcamente iluminada com a luz da geladeira. E aquele frio nas costas e nas pernas, e a água gelada escorrendo da boca, molhando a camiseta. Queria ter um cão. Ele estaria olhando pra ela com cara de reprovação. Ela deveria estar na cama, aquecida pelos braços de um homem, mesmo que seja aquele que aparece de vez em quando e deixa no ar um misto de saudade. Um homem vazio, tão fácil de amar. Ela ama o vazio, nele há um silêncio sedutor que a atordoa. Viu isso em um livro de Rubem Alves. Devorou aquele livro numa tarde despretensiosa, embaixo de uma árvore. Gosta do bucolismo, sente-se bem em contato com a natureza e a calma e compreensão que ela oferece. A natureza vazia… Nunca o vazio foi uma coisa tão linda e necessária.

“A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdade e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas, quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade” (Rubem Alves, “Quando eu era menino”)

E ali, naquela madrugada fria, aos pés da geladeira, no silêncio quase sepulcral, se não fosse o primeiro ônibus das quatro e meia da manhã passar na rua, ela refletia sobre a sua vida simples, entre morangos, sorvete e água gelada. Tudo por causa de um sonho que lhe roubou o sono que tanto precisava. Precisava de um pouco de paz, mesmo que ela seja obtida do ato de comer compulsivamente, com Led Zeppelin tocando mentalmente. Poderia chover naquele momento, a chuva lhe traria algumas poucas horas. Gostava de ver o amanhecer em dias chuvosos, e sempre pensava na pouca atenção que as pessoas dão a ele. Existe a beleza em tons cinzentos, por mais triste que seja, a tristeza tem uma beleza sensível, mas as pessoas andam insensíveis, recolhidas dentro de um padrão ditado a quatro cantos. Odeia padrões, e tudo que é pré-determinado. Aquilo lhe traz uma vontade de não estar, um desconforto, uma fuga. Queria uma casinha no alto da montanha, sem pessoas, apenas uma geladeira e um cão. O cão cuidaria dela, sem exigir nada em troca. Não queria perder o sono, queria estar num templo, na frente do templo uma pedra enorme. Talvez ficasse pelada ali, esperando que a frieza do inverno lhe trouxesse uma razão, aquela que ela acha que está perdida nos confins de um tempo que não voltará mais. Já não é mais uma menininha. As gotas de chuva que molharam suas roupas no varal, as gotas de chuva que escorreram no rosto tem um gosto amargo. Talvez na primavera, o silêncio do inverno se dissipe, e quando chegar o verão, as tempestades de fim de tarde trarão aquele instinto de medo e delírio, e a vontade de sorrir mesmo quando não há motivo algum para tal. Talvez ela vá ao cinema, a um show de blues. Talvez as rosas de seu jardim floresçam novamente, talvez ela vá correr na chuva como uma tola, perdendo fôlego, talvez ela espere o seu Amor numa esquina errada. E ela é apenas uma garotinha inocente, nua e crua, como as crianças do Houses of The holy, nua e crua, correndo pela areia, vivendo o delírio e suspiro da inocência e saudade.

Lembra-se dos nossos sonhos de areia?
Brincávamos na praia construindo castelos
E vinham as ondas de convicções e destruíam tudo
E apenas olhávamos um ao outro, silenciosos
Sonhos de marolas ao entardecer, ventania
E nossos cabelos bagunçados sem querer
E eu beijava seus cílios, tirava grão de areia intruso
Mas você cresceu meu Amor, e a única coisa que me resta
É você vindo em sonhos de cardume, um reflexo metálico
Sua sombra de menino sem medo correndo na areia
E o barco de velhos pescadores no horizonte ao amanhecer
Saudade… Sonhos de sílica.

"Eu tive um sonho. Um sonho louco. Qualquer coisa que que eu quisesse saber..."
“Eu tive um sonho. Um sonho louco.
Qualquer coisa que que eu quisesse saber…”

Quando eu era menina…

Seu eu morrer muito novo, ouçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. (Alberto Caeiro)

Eu me lembro como se fosse hoje, a rua cheia de crianças. A velha rua sem saída que tinha a poucos passos de minha casa. Naquela época, ao menos, assim eu penso, analisando os dias de hoje, cerca de 18 anos depois, aqueles tempos era seguro brincar nas ruas, mesmo aquelas que tinham saída. Pode ser que no meu olhar de criança, eu não enxergava a maldade. Não existe nada mais belo que o olhar inocente de uma criança. Existe apenas a consciência do querer brincar pra sempre, de nossas mães ou aqueles que cuidam de nós, de nunca alcançarem o portão de casa e nos chamar porque estava entardecendo. Talvez este fosse o momento mais triste do dia. Quando eu era criança, eu não almejava o entardecer, quando ele chegava eu sabia de alguma forma muito simplista de que teria de me despedir de outras crianças e entrar para casa. Hoje, adulta, eu almejo os entardeceres, pois sei que minha jornada de trabalho está chegando ao fim e que eu posso chegar em casa, tomar um banho e relaxar. O mais engraçado é que quando éramos crianças, queríamos ser adultos. Esta é a coisa mais besta que uma criança possa querer. Eu falo aos meus irmãos menores que eles nunca devem ter pressa de querer ser adultos.

E a rua sem saída e demais ruas ao entorno era um palco de sorrisos e brincadeiras. Naquela época as crianças ainda fabricavam suas próprias pipas, e corriam para buscar as que caiam no céu. Dias atrás fui num churrasco com os amigos em um bairro da periferia. Lá pude ver as pipas no céu. Me trouxe uma lembrança doce dos meus tempos de criança. Estávamos na calçada com nossas “bebidas de adulto” e cigarros que já não eram de chocolate. Um menino desceu correndo atrás da pipa que foi derrotada. E quando ele subiu novamente e passou por nós, parabenizamos a criança: “Ehhhhhhhhhhhh!” e então o menino abriu um sorriso e levantou a pipa em sinal de vitória. Fazia tanto tempo que eu não via isso, e então pensei o quanto estou ficando velha ranzinza em um bairro de metrópole onde as crianças das famílias que existem por aqui brincam trancafiadas em casa com seus videogames, tablets, carrinhos de controle remoto. Não existem mais brincadeiras na rua. Não vejo mais carrinhos de rolimã, meninos soltando pião, rodinha de crianças jogando bafo ou bolinhas de gude. Como costumo dizer, as brincadeiras hoje se transmutam em divertimentos eletrônicos sem nenhum contato com o que existe real. Antes eu brincava na terra. Hoje uma criança dificilmente brinca na terra, talvez a única terra que elas “tocam” são as dos canteiros do Farmville.

Lembro-me que eu sentava na soleira da calçada e via os meninos descendo a mil nos carrinhos de rolimã. Às vezes um se ralava todo e a mãe saia correndo preocupada. Ficavam alguns dias de castigo e depois voltava, com um carrinho de rolimã novo. E não era só isso que tinha pelas ruas. Na rua de casa, tinham jogos de amarelinha desenhados no asfalto. Eu me lembro de que nós roubávamos giz colorido da escola para poder desenhá-las no chão. O céu era feito com giz azul, o inferno com giz vermelho, e os números, obviamente com giz amarelo. E pegávamos pedras da rua para jogar. Lembro-me o quanto era difícil acertar o número 10, mas as crianças que chegavam até o final da amarelinha, tinham o dia ganho. E as tardes semanais e finais de semana eram recheadas de pega-pega, pique-esconde, pula corda… Eu era muito ruim em pular corda. Ficava frustrada por ser desengonçada. Mas mandava bem nos patins. Um dia peguei uma ladeira e me arrebentei porque uma pedra apareceu no meio do caminho, e não deu tempo de desviar, foi a única vez que eu me arrebentei nos patins. Eu pulava, fazia manobras, coisa de criança doida mesmo. Carrego em meus joelhos e cotovelos as marcas da queda. No dia chorei, hoje dou risada. Lembro-me de que naquela época merthiolate tinha álcool. E ele era o terror das crianças travessas, o terror dos que andavam de bicicleta, patins e rolimã. Jogar futebol e chutar o chão ao invés da bola era lágrima certeira. Nada era mais terrível que o merthiolate, as crianças queriam voltar para suas casas com roupas imundas e pés sujos, mas não queriam voltar cedo e encarar aquele vidrinho daquele “negócio que ardia”.

Tinham as lendas que contavam para as crianças. Nunca me esqueço do homem do saco. O homem do saco era o terror para as crianças cujos pais as educavam para ficarem sempre por perto de casa ou dos pais durante os passeios. Um dia, fui à feira com minha mãe e me perdi dela para comprar pastel. Achei que fosse encontrá-la e me enganei. Então fiquei esperando na banca de pastel. Ela me encontrou e me deu o sermão do velho do saco. Quando chegamos ao portão de casa, um velho com um saco nas costas estava descendo a rua, e ele olhou pra mim e disse: “Que criança linda! Quer ir embora comigo?”. Então corri pra dentro de casa, e fiquei anos acreditando que o homem do saco existia, e tinha certo medo de ir pra escola sozinha e encontrar o velho, e ele me pegar à força e colocar dentro do saco. Eu acreditava mais no velho do saco do que em papai noel. Sempre soube que o papai noel era meu tio, mas o homem do saco não, ele existia e não era o papai noel, era um homem velho que sequestrava as crianças e depois as comia ou vendia.

Além do velho do saco, tinha o velho do muro… O velho do muro era um tio de um menininho que estudava na mesma escola que eu. Ele sempre ficava até altas horas no muro da casa dele, apenas com a cabeça aparecendo. Era um muro alto. Fiquei sabendo da real causa da aparência dele, anos depois, quando adulta. Eu tinha medo dele. Ele era um senhor de idade muito pálido, com covas profundas no rosto e sem nenhum cabelo, completamente careca. Quando a noite chegava e nas vezes que iá com meu irmão comprar tortuguitas na vendinha, ele estava lá, espiando a vida por cima do muro. E as luzes das luminárias de rua davam mais ênfase a palidez dele. E eu sempre dizia que não gostava do velho do muro. Um dia minha mãe me perguntava por que eu não gostava dele. Eu respondi a ela que era porque nunca tinha visto uma expressão tão triste em alguém. Eu não conhecia muito a tristeza até os meus 8 anos, quando tudo era teoricamente normal em minha vida. Aquele velho foi meu primeiro encontro com a expressão de tristeza no rosto de alguém. Dos meus oito anos em diante, descobri a tristeza em meu próprio olhar. Mas daí já é uma longa e talvez desnecessária história, ainda com dores não curadas, talvez alguns meses de terapia me ajudem. Mas só posso dizer que sei na pele o que é não saber conviver na mesma esfera de compreensão de uma criança.

Vocês dizem: “Cansa-nos ter de conviver com as crianças”. Tem razão. Vocês dizem ainda: “Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-los. (Janusz Korczak)

Eu tive um namoradinho na infância. Eu inclusive já falei dele. Chamava-se André Luis. Era um menino que me escrevia cartinhas de amor com as canetas coloridas da irmãzinha. Já escrevi aqui também que um dia eu e ele encontramos uma pomba no chão, e ignorantes das certezas da vida, achávamos que ela “dormia” na calçada. Depois, descobrimos que era apenas uma pomba morta com vermes devorando as entranhas. Mas ela estava ali, no meio da calçada, como se tivesse feito um ninho. E eu me lembro daquele momento até hoje, e do cheiro das balas de doce de leite de Andre Luis, e do momento que eu chorava inconformada por causa de um pássaro morto, e ele simplesmente me deu a mão e fomos de mãos dadas até o portão de casa. Ele me deu um beijinho no rosto. Era um beijo melado, com cheiro e sabor de doce de leite. Hoje, quando vejo aquelas balas quadradas de doce de leite, lembro-me de André Luis, e seu cabelo loiro tigelinha. Ele tinha os olhos quase claros, de um castanho esverdeado. Era uma linda criança. Eu acho que eu era uma criança bonita também, os meninos do jardim me davam flores, mas André Luis foi o único a quem eu andei de mãos dadas naquela época. E o mais engraçado é que eu via os adultos se beijando na boca e tinha nojo daquilo. E comentava com André que ele não faria aquilo. E ele dizia: “Blergh, não… É nojento”. E ficávamos somente nos beijinhos de despedida e nas cartas inocentes com letras tortas, reféns de cadernos de caligrafia. Não posso dizer, (ou posso?), que eu vivenciei um amor na sua esfera mais pura, mas não sei dizer, 17 anos depois, se aquilo foi amor. Foi uma história de infância, cheia de timidez e risinhos. Era como um amigo com algo a mais. Eu e André Luis dividíamos o lanche, contávamos nossos segredos um ao outro, e, sobretudo, andávamos de mãos dadas, e eu acreditava que por ele estar comigo, estaríamos protegidos do homem do saco. Quando descia a rua de mãos dadas com André, eu nem me lembrava do “Velho do Muro” e sua fisionomia triste. Descobri muitos anos depois que aquele velho na verdade não era um velho. Era um homem de quarenta e poucos anos que sofria de câncer. Quando ele morreu, eu em minha consciência de criança, eu achava apenas que ele tinha enjoado de ficar ali. Descobri que as coisas e pessoas morrem quando vi a pomba morta no chão. E chorei dias seguidos com medo de perder alguém próximo. Os adultos me confortavam dizendo que as pessoas que morrem vão para um lugar bonito, onde não existia tristeza e demais coisas ruins. No ano passado confortei meu irmão menor que chorou dias e dias a morte de um amigo de minha família que vendia pastel na rodoviária e que por costume íamos até o trailer dele toda sexta-feira. Meu irmãozinho aguardava ansiosamente a “Sexta-feira do pastel”. E teve um dia que a pastelaria nunca mais abriu. O Senhor dos Pastéis foi executado cruelmente. Amarrado, colocaram-no de joelhos e deram-lhe um tiro na nuca. Tudo por causa de uma furadeira, uma televisão e cerca de quinhentos reais. E a notícia correu quatro cantos. Meu irmão viu a foto tirada ao longe do corpo sem vida do seu amigo pasteleiro jogado no canavial. Foi vítima do sensacionalismo barato. Ele chorou nos meus ombros. A Morte pra ele foi mais traumática. O meu primeiro encontro com ela foi através de um pássaro no meio da calçada, mas ele passou para um degrau filosófico muito mais pesado que aquele que eu passei. Ele em tenra idade passou a questionar quanto vale a vida… E ficava triste pelos cantos, até que o Tempo lhe curou as dores…

Quando eu era menina, e ficava triste pelos cantos, eu subia no telhado de casa. A vida era incrível lá em cima. Isso passou a ser corriqueiro na época em que eu me tornei uma criança triste, fragilizada emocionalmente. Era em cima do telhado que eu encontrava minha paz que tanto me fazia falta. Eu era feliz quando meu irmão Ricardo ia me visitar, e nós íamos ao cinema, escutávamos música, ou quando ele me levava para brincar em piscinas de bolinhas ou carrinhos bate-bate. Ele sabia que eu passei a ser uma criança sozinha em um mundo de adultos estressados, deprimidos e alguns deles, opressores. Quando ele não estava lá, eu ficava no telhado. Escondida, sim, escondida. Porque as pessoas passavam sempre olhando em frente ou olhando para o chão. Nenhuma delas olhava pra cima para ver o quanto o céu estava bonito, ou o bem-te-vi que sempre cantava em galhos nas árvores da minha rua. Outra alegria que eu tinha era levar minhas cachorras para passear. Ver a alegria delas cheirando pequenos canteiros e chegarem cansadas em casa era uma forma de eu ficar feliz. Um dia minha cadela Gabi, já velhinha, talvez ciente de sua morte, fugiu. Dizem que os cães sabem quando vão morrer, e alguns deles se afastam dos donos para evitar que eles sofram. Todos os meus bichinhos sabiam quando eu estava magoada. Eles deitavam ao meu lado e não saiam, e os mais novos faziam graça para tentar me fazer rir. E de certa forma, funcionava. Hoje, sinto falta de ter um cão. O amor dos animais é incondicional. Um amigo me disse que eles são mais humanos do que aqueles que recebem essa alcunha. Falam que o Homem é ser-HUMANO… Tenho minhas dúvidas. A criança sim, esta é um ser humano. Um ser em perfeição, tão incompreendido. Não penso em ter filhos, não agora. Penso que o mundo é cruel demais para seres tão perfeitos conviverem. E então eu pensei se ainda podemos oferecer para as crianças um mundo mais bonito. Mas o problema não está em nós, está ao redor. O que podemos fazer? Mantê-las em redoma de vidro? No momento sou egoísta o suficiente para apenas eu sofrer com as dores e intempéries do mundo, a ponto de querer ter de volta a inocência que eu tinha anos atrás. Eu era apenas uma menininha banguela, magrela que sorria brincando em balanços. Muitas vezes eu sonho com essa época, com as crianças que eu brincava, com André Luis… Um lapso momentâneo daquilo que perdemos ao passar dos tempos. Mas quando eu acordo, vejo que estou de volto para aquilo que corresponde à minha realidade. Hoje, não vejo mais crianças nas ruas. Não mais como antigamente… Não mais… Ser adulto é tão chato!

Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta... Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou...
Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta… Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou…

Durante a chuva

Existem pedaços minúsculos espalhando sonhos e possibilidades. Respiramos metade de nossas convicções, aquelas que achamos que podem vir a calhar. O resto jogamos fora, largado num pedaço não iluminado no porão de nossos possíveis e eventuais fracassos. E os homens e mulheres seguem suas vidas querendo tocar o céu de seus amores, tristezas e alegrias, mas este céu possui tantas cores, que não é possível unifica-lo numa cor só, e fazer um tecido, cobrir o corpo nas horas de frio, aquele frio que não passa. É uma metáfora maldita, ou talvez incompreensível, penso na capacidade de abstração das pessoas. São tão limitadas que a capacidade de abstrair acaba se tornando coisa de homens e mulheres loucos. Vou ignorar a abstração aqui, voltarei ao céu, aquele do entardecer, que ao meu ver é o mais bonito aos olhos. Agora neste momento começou a chover. Estava esperando um céu indeciso desde ontem, quando acordei depois de parcas horas de sono e vi o céu com nuvens cinzas de agonia. Recolhi-me ao meu canto, esperando a chuva cair e então me fechar em uma grande esfera impenetrável de pensamentos silenciosos, ora confusos, ora cheios de razão. Mas esse momento não veio, chegou agora, e então eu coloco “Rain Song” do Led Zeppelin para não fugir de meus dias clichês de chuva. E cada vez que olho lá fora e vejo as pequenas gotas de chuva escorrendo pelo vidro de minha janela, eu penso que cada gota daquele vai cair e lavar nossas almas. Robert Plant tinha razão, quando ele escreveu essa música, sobre chuva e estações. Falou sobre o Amor talvez na sua forma mais primitiva, em comunhão absoluta com as intempéries do tempo. E eu penso agora que daqui a pouco as pessoas passaram a reclamar da chuva, sendo que antes reclamavam da secura do ar que lhes entravam pelas narinas. O ser humano é tão ingrato…

Quando chegar a primavera, os toques que eu desejo tanto talvez sejam executados numa fração irrisória de milionésimos de segundo, naquele momento cheio de canções, de notas musicais breves, usadas em exaustidão. Um tom desafinado, petulante, beirando o silêncio que tanto me atordoa e ao mesmo tempo, tão necessário. Um dia José Saramago escreveu que o silêncio era o melhor aplauso. E então eu refleti, e cheguei a conclusão que o Silêncio é necessário, mas que as palavras devem ser usadas em seu momento certo. Silêncio por demais atordoa, nos leva à descrença e mágoa, uma vontade de não estar. Palavras são necessárias, mesmo que sejam apenas jogadas ao vento ou por puro sentimento de obrigação. Nos calamos perante a Beleza, nos permitimos apenas encará-la com os olhos, pois a Beleza que nos atordoa e nos faz por algum motivo perder a razão, é aquela tal como um verbo que não se conjuga. Quando nos calamos perante aquilo que nos perturba ou nos assusta, nos tornamos cínicos, mergulhados em pura ironia. Vamos olhar nossos demônios pessoais, encarando-os com os olhos, para que o Tempo passe devagar. Se a Beleza lhe és maldita, faça dela um poema com os olhos a sorrir. Escreva um poema em memória, mas não deixe de sorrir com os olhos. Seja por puro orgulho, ou na singela falta de não saber como lidar. Seria tão bom se todos soubessem usar as palavras, mas eu penso que ao mesmo tempo o Silêncio é um aplauso necessário. E então sigo minha vida perdida entre palavras jogadas ao vento, e elas navegam no oceano de minha reclusão. Passo meus dias como uma eremita sem cachimbo, perdida numa selva de pedra. Enquanto as pessoas amaldiçoam o mal tempo, eu penso nas intempéries dos “por quês” de tudo aquilo que me aflige ou me move.

 Agora já parou de chover. Foi apenas uma chuva rápida, talvez apenas para me dar um pouco da felicidade da espera terminada. Almejei a chuva desde ontem, e eu sei que as estrelas não aparecerão nesta noite de céu nublado. Talvez todas elas, escondidas atrás das nuvens, são apenas um brilho mórbido. E a Morte nunca me pareceu tão bonita aos olhos. As estrelas morrem ao perder combustível e ao olhar para este céu a enegrecer, eu ainda busco por quasares pulsantes, ao entardecer, na calada da noite, até o quase amanhecer, hora ao qual eu fecho meus olhos. E é neste momento, que minha alma tão inquieta, descansa, como um diamante bruto na natureza, nunca antes encontrado. Qual é o nosso preço? Dizem que somos poeira de estrelas, sendo assim, nós humanos malditos e inquietos, não temos preço para compra… Ao pó retornaremos. Sem mais, apenas as gotas de chuva a secar na janela.

Epifania: Clarabella.

Clarabella acordou numa manhã disposta a arrumar a casa. Na verdade, ela fazia isso quando se sentia magoada, o ato de se reorganizar era uma forma de colocar sua alma tão aturdida em uma paz teleguiada. Era como se ao limpar o chão, varreria do porão da memória toda a angústia que a atormenta. Começou pelo quarto, arrumando a cama, com os lençóis cheios de vincos, lembrança de uma noite que tentou sem sucesso ter algum pingo de amor do marido. Ele chegou tarde e cansado, ela preparou-lhe um jantar e o aguardava apenas de lingerie. Passou o fim de tarde toda preparando um assado, ele olhou, comeu um pouco apenas para não vê-la triste. Dizia-se cansado, o trabalho estava massacrando-o e ele se sentia estilhaçado. Tomou um banho, deitou na cama, dormiu. E ela então colocou seu velho pijama confortável para dormir, mas havia perdido o sono, e quando ela ficava magoada, sentia fome. Fez um prato de comida, e foi para o sofá, carregando todo o peso dos estilhaços, uma tristeza vítrea. Se ao menos, ela pudesse ter alguém para reconstruir-lhe sua alma já tão minimizada, talvez um artista conseguisse enxergar a beleza dela, e faria um vitral com o Amor que ela tão esperançosa acreditava. Ali, naquele sofá da sala, assistindo filme romântico de fim de noite, estava uma mulher adormeceu com o controle remoto em cima do peito, subindo e descendo conforme respirava, e nos sonhos , ela vivia em um mundo menos mesquinho e cheio de noites de Amor. Não culpava o marido, apenas não sentia aquele amor todo que sempre almejava. Tentava amar aquele que sempre lhe ofereceu a mão, que esteve ao lado dela nas dores da vida, mas faltava algo.

Na limpeza do quarto, encontrou um velho baú ao qual guardava suas memórias. Fazia um tempo que ela não o abria, pois quando ela fazia isso, uma saudade da época em que não tinhas tantas obrigações, invasões de tal forma que ela passava a relembrar o passado com olhos perdidos, e uma espécie de torpor causado pela saudade, fazia desligar-se do mundinho real, inserido naquele contexto ao qual ela não almejou.

Dentro do baú ela encontrou a doçura e a inocência de seus tempos de criança. Havia uma boneca que ela carregava para todos os cantos. Ela dizia que era sua filha. E ali, naquele momento, Clarabella, já adulta, experiente e de olhos ainda desacostumados com as provas que a vida escancarava na sua janela,  sabia que o mundo é egoísta e destruidor de sonhos, mas ela não desistia, era uma Dom Quixote de saias, sempre lutando com seus moinhos de ventos transmutados em dragões. Naquele momento, com a boneca nos braços, começou a balançá-la enquanto murmurava uma canção de ninar:

“Dorme, dorme menininha…Eu estou aqui…

Vá sonhar, ainda é tempo, menininha

Vá, vá dormir…Sonha sonhos cor de rosa

Passeia no céu e no mar

Apanha o mundo no teu sonho, menininha

E não deixa ninguém roubar…

Olha, não reparta com ninguém os teus sonhos de menina

Dorme, dorme…Dorme e sonha menininha

Sonha, é tempo ainda…”

 

Naqueles braços, a boneca lhe trouxe as memórias do sonho de ter uma filha. O nome da boneca era Sophia, e ali, agarrada, sentada ao chão em frente de seu baú de memórias, olhou para o relógio e viu que as horas estavam paradas, ignorou o fato de ser apenas um relógio com pilhas mortas, e em um esconderijo de fundo falso no guarda-roupa, as roupas de recém-nascido que compra todo mês, um sonho antigo, eterno. Era ali seu segredo, ela queria uma criança, mas o marido não. Ela queria um pedaço dela nos braços, mesmo que não tenha ali, o DNA de seu amor verdadeiro, um homem que conheceu há anos, e nas idas e vindas de um amor já antigo, a vida lhe deu soco no estômago que lhe impossibilita de viver aquele Amor.

Olhando para a boneca Sophia, apaixonada pelo gesto de ternura, pelo sonho de ser mãe, ficou preocupada, achando que seria daquelas mulheres presas dentro de um hospício, falando sozinha, no canto de uma cela, com uma boneca no colo e injeções diárias de antidepressivos. Passaria o dia dormindo, sonhando com uma criança correndo entre os irrigadores do jardim. Então, rapidamente guardou a boneca, e as roupas de bebê no fundo falso perfumado com sachê de rosas. Sentou na beira da cama, e com o rosto entre mãos, derrubou lágrimas tristes e convictas de que nunca conseguiria ser mãe.

Foi numa tarde de domingo, que numa caminhada para aliviar a tensão, encontrou uma linda cadelinha numa feira de adoção. Levou-a pra casa, colocou uma fita vermelha no pescoço, e presilhinhas nas orelhas. A cadelinha agradeceu o carinho lambendo-lhe o rosto e adormecendo nos braços de Clarabella. E ali teve uma epifania, e o mundo não parecia mais tão egoísta.

“Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela…

Eu quero ser feliz agora

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
E que quem tem medo deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
E que nessa festa você tá de fora
Que volte pro rebanho.

Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora”

PS: Os trechos em aspas são músicas do Oswaldo Montenegro. 😀

Prosa de um sábado chuvoso.

Contra o céu de amanhã, vamos todos padecer de cansaço. Estou deitando sozinha em um gramado macio, vendo as nuvens passearem pelo céu, dou a cada uma delas uma forma de algodão doce. Eu gostaria de poder pegar e sentir a doçura de cada uma das formas tão abstratas que vejo neste céu que entoa um poema desmistificado perante meus olhos. Queria um beijo sincero, enquanto as nuvens de algodão dão seus sorrisos de Salvador Dali, um surrealismo, nessas horas que eu te adoro, e que eu apenas acho que cairemos, e como crianças feridas perante as peças de tragédias, dramas e comédias, nós vamos correr para nossos esconderijos, e cuidarmos um do outro, apenas com nossos sorrisos abstratos, nossos lábios se tocando na graça das horas… Horas melancólicas,  úmidas… Na penumbra, seremos dois adultos, com coração de criança, me dê um sorriso teu apenas com os olhos.
E eu penso, em todo o Amor que nos cerca, como humanos errantes, caminhando em trilhas tortuosas, cheias de espinhos, mas com sua beleza, escondida, em cada momento, no abraço, no sono, em nosso cansaço. E eu pergunto-me se ficaremos bem, com a humanidade abstraindo sentimentos, procurando uma glória talvez inexistente, em dias e coisas vazias, caminhando sem rumo, com olhos cegos, apenas um carro de última geração na garagem, uma televisão de polegadas e definições cada vez maiores. Enviamos glórias, uma oração, mãos juntas, os anos trazendo lembranças no galope da saudade, um sentimento aflito, oras tão devagar. Já contei por horas perdidas o quanto a saudade fez-me escrever linhas e linhas de palavras insones e por vezes apenas um eco entre eu e meu interlocutor, uma mensagem que apenas, na sutileza dos acontecimentos, será capaz de entender.

Somos todos, talvez, pobres tolos sem rumo, quem somos nós, meu Doce Amor, caminhando devagar, tão pequenos, julgando aqueles que se deixam molhar na tempestade por puro orgulho. Por isso eu vos digo, vamos esperar no fogo de nosso sentimento, coerência, incoerência, enfim, por tudo aquilo que nos move, em passos aturdidos, pobres dançarinos, passos desajeitados, mas tão belos em nossas tentativas de compreender a música enlouquecedora que ecoa, muitas vezes, sem querer. Vamos beber, enquanto nossa partida demora, a chuva está caindo lá fora, serena, molhando os carros, pessoas, cães abandonados. Fecho os olhos, e penso que as nuvens negras do céu nunca atingirão o meu chão, e os relâmpagos que trazem depois de alguns segundos, o estardalhaço de um trovão, eu penso apenas em alguma verdade perdida há alguns segundos, minutos atrás. E nós, Amor doce, estaremos acordados quando nossas almas questionarem a carruagem do Tempo, com todas as suas perguntas sem respostas?

Seremos crianças acordadas, com medo do escuro, minha doce criança malcriada, quando você se cala,  eu penso nos momentos em que cairá no chão, aturdido, e dará um suspiro, de satisfação, por todo esforço que valeu a pena. E eu cuido de você, toda noite, todos os dias, no silêncio quase descontente, minha distância de poucas milhas, distância…

Olho para as estrelas procurando respostas em um brilho do passado, talvez um brilho ao qual nem exista mais, teus olhos tão distantes, mas que me deixam tão completa, queimam vestígios de toda rabugice que eu levo neste meu coração. Os sinos da igreja tocando uma velha canção, gosto dos sinos tocando, da tarde caindo, de meus beijos de despedida. Eu poderia te cobrir com beijos de conhaque ou outra coisa que lhe aquecesse, sua beleza insólita, me apertando nos braços, não me deixe partir, dê-me um milímetro de teu sorriso desconcertante, pois eu ando na contramão, sigo minha rota de olhos fechados, por isso, segure minha mão quando me ver atravessar a rua, pois eu atravesso minhas emoções do mesma forma que eu sinto as areias do tempo escorrendo entre meus dedos, e saiba minha doce criança, que eu ando ao final de uma longa avenida, e nos meus passos de mulher com olhos oblíquos, você é sempre suave e persistente em minha memória. Doce criança, eu te adoro…Doce criança, lembre-se disso.

Salvador-Dali-Person-at-the-Window
Salvador-Dali-Person-at-the-Window

O relógio sem pilhas.

Lucas estava lendo um livro, de maneira gostosa, preguiçosa, corpo todo esparramado no sofá da sala. A cachorra dormia perto dos pés dele, e tirando os roncos dela, ali, naquele local, não havia mais barulho algum, além do barulho da troca de páginas. Páginas virando, cachorro roncando, páginas virando, cachorro roncando…Era uma sinfonia agradável. Ele esfregava os pés na barriguinha preta da cachorra tão pequena, uma bola de pelos preta que roncava, passeou e correu o dia inteiro, e agora estava ali em seu momento de paz, suspirando baixinho com o seu dono fazendo um carinho gostoso com os pés. Lucas ficou dessa forma, perdido nas páginas de um livro, até dar-se conta que precisava dormir, pois amanhã terá que acordar cedo para ir trabalhar. O ônibus da empresa parava em um ônibus perto da sua casa, bastava andar alguns poucos metros.

Verificou quantas páginas precisava ler para encerrar o capítulo, pois tinha uma mania de sempre ler um capítulo até o fim, para que no outro dia não pegue o assunto pela metade, aquela coisa de pegar o bonde andando, pra ele, uma espécie de sensação ruim, para digerir o que foi lido, ele precisa juntar peça por peça, começar um capítulo pela metade, é o mesmo que pegar um jogo de xadrez em andamento. Perde-se a estratégia, aí é necessário recomeçar. Logo, um tempo perdido. Leu até o final do capítulo, fechou o livro, não havia mais o barulho do “virar de páginas”, apenas a cachorra roncando. E sentiu falta, de um barulho: o tic-tac do relógio de parede da sala…

Olhou para o relógio, aquele som que o atormentava não estava mais ali. O som congelou-se nas sete horas da noite. Seu celular marcava duas horas da manhã. Queria ele que as coisas continuassem paradas nas sete horas da noite. Queria ele levar uma vida mais calma, muitas vezes queria enganar o Tempo, congelando-o, como aquele relógio sem pilhas. Ele sabia que tinha de pegar o banco da cozinha, abrir a gaveta, procurar pilhas, subir no banco, pegar o relógio, tirar as pilhas, separar as pilhas velhas para serem jogadas em lixos específicos, colocar as pilhas novas, arrumar os ponteiros, pendurar o relógio na parede novamente, guardar o banco. Ele sabia de tudo isso, mas ficou lá, no sofá, contemplando o Tempo com seu ponteiro congelado. A cachorra deu um suspiro, e assim como a vida, ela lambia seus pés…Vida úmida, movida com pilhas alcalinas.

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhum batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.

Willian Faulkner

Tempo-Livres-de-todo-Mal

Memórias da madrugada: Onde as flores morrem e a ilusão em alto mar.

Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.

Ernest Hemingway

Eu poderia estar dormindo agora sabe?Mas não, é na minha insônia que encontro a paz de espírito, pois faço o balanço das resoluções do meu dia. E o que eu tenho a dizer? No meio de um monte de infinidades que atormentam minha alma, eu confesso aqui em linhas insones que eu poderia ser diferente, do que sou agora, talvez tentar ser normal, mas não, aqui jaz uma alma que tem olhos desacostumados, e sabe por quê? Porque eu tento, nesse mundo tão vazio, cheio de ideais fúteis, que não levam a nada, eu tento, como uma errante, tal como Dom Quixote de saias, montada em meu cavalo, tenta ver um mundo mais cheio de cores, mesmo ele sendo tão monocromático. Eu embaixo de um poço racional, ou escondendo-me por trás de uma muralha de uma mulher forte, dizem por aí “mais macho que muito homem”. Eu ando por aí, com meu guarda-chuva aberto, mesmo em dias de sol, eu já escrevi que estamos constantemente nos protegendo, daquelas coisas que por muitas vezes só são vistas por nossos olhos, ninguém vê, mas está lá, e você sabe que existe, no seu mundo de máscaras, aquela que tanto carregamos no dia a dia, vivemos um dia de sorrisos, uma falsa convicção, um sorriso falso de “Oi querido, tudo bem, comigo está ótimo!”, aquela mesmíssima coisa falsa de sempre. Mas por dentro, nós, humanos tolos e atores de nosso próprio espetáculo de personagens de contos de fada, sabemos que somos todos personagens de Hemingway. Já leram algum conto dele?Experimentem, ali, naquelas palavras estão traçadas a natureza nua e crua do ser humano, sem frescura, personagens com sonhos, mas numa realidade igual a que vivemos, com fracassos, vitórias, amor, desamor, ilusão. Muitas pessoas não gostam desse tipo de leitura, sabe, aquela leitura que te dá chibatadas, aquela que te faz chorar, dá aquela perturbação aquele aperto, o gosto amargo nos lábios, porque sabemos que a verdade não nos é conveniente, sabemos que quando achamos que pescamos um peixe grande em alto mar, podem vir as ilusões, em forma de tubarões, e então você luta, pega os remos da esperança e tenta acabar com cada ilusão que tenta devorar nossa vontade, aquele sonho, fisgado por mãos tão calejadas. Você sonha, você luta, trabalha feito um desgraçado ou uma desgraçada, e quando vê que seus oitenta e quatro dias de espera no mar, estão perdidos, esperamos em vão que algo bom finalmente lhe olhe nos olhos? Não necessariamente, depende dos olhos de cada um. Enquanto isso, navegamos com nossos barcos em alto mar, conversamos com as gaivotas de nossos pensamentos, e são eles, nossos amigos, de todas as horas. No momento que escrevo essa memória, que talvez seja totalmente amaldiçoada ou despercebida, eu estou deitada na minha cama. Eu tentei dormir, isso é fato que venho tentando, sabe?Ter uma noite de sono normal, mas na minha cabeça, eu estou sempre escrevendo, em sonhos, eu escrevo também, e quando não escrevo, eu acordo pensando em escrever, parece tão simples não é? Deixei meus remédios de dormir de lado. Sou teimosa, quando não se pode lutar contra algo, o que fazemos?Entregamos-nos a ela. Existem coisas nessa vida, que tem um propósito. Tal como o Velho de Hemingway, eu mantenho em mim uma Força, e não estou falando da Força tão discutida no universo de George Lucas, eu falo de uma Força frente à realidade. Não acredito em Felicidade eterna, nem em paz na república, conflitos sempre existirão. A vida é feita de momentos, e no meio de tantos momentos, vemos frames de drama, comédia, suspense. Temos sete formas de arte não é?Eu digo que temos oito… A vida integra todas as outras sete, somos atores, pintores, músicos, nós somos toda a maravilha da arte, de forma condensada, conseguem ver isso? Já parou para pensar, para olhar com outros olhos, toda a intensidade e beleza do que está ao teu redor, ou apenas pensou em juntar dinheiro para ter um carro zero? Aí que está… Nós andamos pelas ruas e chutamos as flores que nascem no asfalto. Um dia me escreveram que elas são amaldiçoadas pela falta de atenção. É meus amigos, e você, já deu atenção para as coisas ao teu redor? Já amou alguém, ou Amor é uma palavra tão desconhecida quanto um termo jurídico escabroso qualquer? Muitas pessoas dizem por aí, ahhh eu amo? Você ama o quê?Já parou pra pensar? Ou tem medo de enlouquecer? Sim, evitamos pensar nos dilemas que nos atormentam, fazemos com eles o que fazemos com as flores que nascem no asfalto, ignoramos, ela está lá, vai morrer um dia.

 

Numa manhã, certo dia, eu tirei uma fotografia de uma dessas centenas de flores que nascem por aí. Hoje eu digo centenas, pois eu vi que ela não era única no bairro em que eu moro. Da janela do meu ônibus de todos os dias, eu vi várias, numa imensidão de cores. A flor que eu fotografei, não existe mais, assim como o girassol tão bonito que eu via num jardim todas as manhãs. Mas sei, eu não desisto, eu sei que novas flores nascerão novamente, sei que pássaros brincalhões e com fome, na sua festa, no banquete de seus dias, ao pousar naquele girassol, derrubaram algumas sementes no chão, e ele nascerá lá novamente, tão belo como seu sucessor. Vejo o girassol, como uma metáfora de esperança, de luta. Quando achamos que nossos ideais e sonhos morreram, ou que fomos vencidos pelo Tempo, eis que ressurge uma nova esperança, basta a nós aceitá-la ou não, e por mais que possa vir a ser uma ilusão, quando vistas no horizonte, por outros olhos, ela podem a ser belas, porque não? Ilusões destroem, mas fazem parte dos nossos dias de ir e vir. Quando nos cansamos, vamos deitar, em nossas camas, mesmo elas não sendo feitas de jornais velhos, quando chega a noite, caminhamos em praias de areia branca, cheias de leões, ou qualquer outra coisas que seja agradável, mesmo que fuja de nossa realidade. Mas não nos esqueçamos, de olhar as flores do asfalto. Vamos deixar nossa arrogância de lado, nossa maldição, a falta de atenção. Um dia me disseram que aquela flor não pediu para nascer, mas nasceu, ali, no asfalto, amaldiçoada pela nossa falta de atenção, e não existe nada pior nesse mundo, que o desprezo. Eu sigo minha luta, em alto mar, um pedaço de linha nas mãos, faça sol, chuva, eu sigo, navegando no oceano de minhas convicções, e no meu desconforto, eu sigo com os olhos bem abertos, sou uma mulher forte, que não perde jamais a esperança de dias melhores, me chamem de tola… Os tolos são justamente tolos, por acreditarem sempre que dias melhores virão, mesmo sabendo que os contos de fada existem apenas nos livros. A realidade é bem diferente, a vida nos dá bofetadas no rosto, o príncipe na verdade sempre será sapo, cavalos brancos sempre nascem rebeldes, a beleza não é eterna, dinheiro não traz felicidade, nada é eterno. E a única certeza que temos nessa vida, chama-se Morte, e o Tempo, que tentamos enganar sempre, achando que aqui ele sempre vai existir. Ele é breve, não vamos perdê-lo com coisas mesquinhas, a vida é curta meus amigos, e não se vive sem correr riscos, e a vida é assim, como o oceano, imprevisível… Temos dias calmos, de maré baixa, marolas tímidas, outros amaldiçoados pela falta de sorte e nós não conseguimos prever, nem a sorte, nem a falta dela. Boa noite!

Querida, eu já estive aqui antes Eu vi este quarto, eu andei neste chão Eu vivia sozinho antes de conhecer você E eu vi sua bandeira no arco de mármore E o amor não é uma marcha da vitória É um frio e sofrido Aleluia... Leonard Cohen
Querida, eu já estive aqui antes
Eu vi este quarto, eu andei neste chão
Eu vivia sozinho antes de conhecer você
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
E o amor não é uma marcha da vitória
É um frio e sofrido Aleluia…
Leonard Cohen

Dona Rita e a Fonte da Juventude de Lucas Cranach.

Primeiramente, é necessário observar a seguinte obra abaixo, depois, partir para a leitura. É necessário a compreensão da linguagem desse quadro, para que a ideia do texto possa fluir sem complicações. Se estiver muito pequeno, devido ao layout do blog, no google imagens tem em tamanho maior. Esta prosa fala sobre a saudade, sobre o Tempo, emoções, lembranças. Espero que apreciem, sem moderação. Obrigada e boa leitura. Se gostou, comente, críticas são bem vindas!

A fonte da juventude, do pintor renascentista Lucas Cranach.
Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos aos, estes ainda reservam prazeres.
Sêneca

Rita sozinha na frente do espelho, aos setenta e cinco anos, sozinha, em seu apartamento localizado no quinto andar de um prédio do subúrbio, onde as flores nascem no asfalto, esperando um pouco de atenção dos olhos incautos, preocupados, com gotas de mau-humor. Transeuntes amanhecidos em dias ensolarados , mas por dentro, coração e alma tão nublados como dias de dilúvio, e às vezes o dilúvio nunca acaba, estamos sempre nos protegendo de nossas tempestades invisíveis, mas que nos molha tanto, é como se fosse uma histeria, real, andamos pelas ruas encharcados pelas águas das dores do mundo. Andamos escondidos embaixo de nossos guarda-chuvas, algumas pessoas possuem guarda-chuvas transparentes, a alma pode ser vista por todos, até aqueles que assistem o espetáculo da vida do alto da sacada do apartamento, tal como fazia Dona Rita, da sacada do quinto andar, recordando-se de histórias tão antigas quanto as cicatrizes rachadas de prédios velhos, aqueles que foram ocupados por aqueles que não tem onde ir. Polícia do outro lado, os donos na rua, de braços cruzados, crianças chorando nos braços da mãe, enquanto os pais apanhavam dos policiais que os tiram à força. Brigas, desespero, alegrias, Amor…Foram muitas coisas que os olhos experientes e cansados de Dona Rita  já vira.  A guerra do Vietnã, a queda do muro de Berlim, a dissolução da União Soviética. Queria ela poder voltar no tempo? “Não”, pensava ela, mas sabe-se que ali naquele rosto existia o peso da dúvida,  mesmo ela sabendo que já viveu tudo o que tinha que viver, muito suor e lágrimas já escorreram ali naquela face, a única coisa que ela precisava era de um pouco de paz. O mundo estava caótico demais, e ela estava cansada.

Era viúva, morava sozinha, já amou muitos homens nessa vida, tomou muitos cafés nas ruas parisienses, chorou ao lado da torre de Londres, apaixonou-se pela vodka e o frio angustiante e inspirador de Moscou. Usou drogas, transou no meio da multidão do Woodstock, gritou paz e amor, viveu, todos os excessos que a vida poderia permitir que ela vivesse, numa fúria quase que beirando o descontrole. Acordava cedo todos os dias, cuidava do pequeno jardim da sacada do apartamento, regava as flores com um regador amarelo de plástico, que muitas vezes deixava ao lado do vaso com Girassol, mas ela gostava mesmo era de pegar um velho balde e fazer uma concha com as mãos, gostava de sentir a água escorrendo pelos dedos. Este ato era pra ela uma forma de felicidade instantânea, mesmo que momentânea. Ela não acreditava na felicidade, aquele tipo de felicidade que acreditamos que seja eterna. Felicidade é um conceito que a vida é feita de momentos, e os momentos são feitos pelo Tempo, tempo de drama, um livro de contos esparsos, várias histórias cheias de verdades, mas que também carregam a dor da mentira e da ilusão, e o que falar das histórias de Amor e Sexo? Muitas vezes não caminharam juntas, pela inabilidade do ser humano separar Sexo de Amor. Rita tentava, mas ela fez Amor com cada homem que passou pelos seus braços, mesmo que pra eles, tenha sido apenas Sexo.

Um velho cão dormia aos seus pés , o gato oportunista aparecia às vezes para comer e deitar em sua colo. Ela tinha três filhos, e todos eles queriam colocá-la em um asilo. Achavam que a companhia de outros “idosos” a faria bem. Acreditavam que ela não estava mais lúcida. “Pobre ser humano, tolo e mesquinho”, pensa ela, mal eles sabem que ela mantinha o vigor, a coerência, tudo o que uma mulher lúcida têm. Ela estava velha? Sim…Mas ela ainda pensava, respirava, sem precisar de balões de oxigênio, mas, as falsas convicções de que todos os velhos a partir dos setenta anos ou menos, não são capazes de distinguir uma pedra de um pedaço de merda. Parou na frente do espelho, pensou no fedor de uma pedaço de merda, e uma pedra, “Será que somos tão estúpidos assim?”, pensou ela, enquanto penteava os cabelos brancos, que caiam na altura dos ombros. Lembrou de seu marido, de todos os anos que ela viveu ao lado dele. Ela acordava primeiro que ele, se arrumava e penteava os cabelos na frente do espelho. Ele levantava da cama e colocava as mãos em cima dos ombros dela: “Bom dia minha senhora”, dizia ele, toda vez que a via pelas manhãs, penteando os cabelos. Ela sentiu uma saudade, a saudade tocava-lhe os ombros…

Depois de cuidar do pequeno jardim, ela sentava-se na cadeira da sacada, com sua xícara de café fumegante nas mãos. Pensava  na vida, com tudo o que já havia vivido, suas alegrias, tristezas, todos os sonhos que ela carregou durante as madrugadas. Todas as suas emoções, estavam estampadas em cada ruga de expressão de seu rosto envelhecido. Ficou lá, sentada, e de repente veio uma vontade de rever álbuns de fotografia, queria uma quinta-feira cheia de lembranças. Pegou um pesado álbum da estante, e ele conservava os cheiros de lembranças e saudades, estampados em páginas amarelas, algumas fotografias em preto e branco. Ela amava o cheiro de livros novos, livros velhos, gostava de cheiros do seu passado, e o perfume das flores que alegravam seu micro jardim de sacada.  Abriu o álbum, começou a folhear as páginas, e chegou numa parte onde lhe trouxe a memória de sua visita à Berlim, aos trinta anos. Havia uma fotografia dela em frente ao museu Gemäldegalerie. Ela lembrou-se de que naquele local foi onde ela se encantou por uma obra de arte específica, um quadro que ficou marcado em sua memória:

Era um quadro de Lucas Cranach, de 1546, chamado “A fonte da Juventude”. Aquelas fotografias naquele álbum no colo de Dona Rita poderiam estar desintegrando-se, perdendo-se na certeza do Tempo, mas o valor e mensagem de uma grande obra é algo que não morre nunca, e quando morre, sempre terá alguém que conserve o registro no baú de memórias. As coisas não se perdem, recriam-se em outro espaço-tempo. O encanto pela obra era tanto, que ela comprou um livro que a tinha, em duas páginas inteiras. Puxou o livro da estante e lá estava o marcador de fita de cetim guiando sua lembrança, estava lá a fonte da juventude.

As velhas sendo trazidas enfermas, em carroças de madeira, pedaços de pano branco na cabeça, elas não queriam mostrar os cabelos brancos, ou a ausência deles. Senhoras de roupas que cobrem o corpo inteiro, sem a formosura e a volúpia dos corpetes onde saltavam seios exuberantes. Os seios caídos de flacidez, o retrato da vergonha, pintado sobre a forma de uma velha sentada na beira da fonte, agachada, seminua, com a vergonha estampada no rosto. Ela parecia olhar para Dona Rita, e dizer que a vergonha a impede de mostrar suas “vergonhas”, que aquele corpo ali já foi “bonito” um dia, a velha agachada olhava para Rita, senhora da era moderna, com os seios flácidos, pele já tão enrugada. Imaginou-se ali, naquele local, em 1546, o senhor de vestes vermelhas, segurando um livro, avaliando se ela podia ou não entrar na fonte da juventude, estaria ela, velha o suficiente para querer ser rejuvenescida? Velha o suficiente para tirar sua roupa, em frente a uma multidão, entrar na fonte, banhar a alma em águas de cirurgia plástica, carregadas de Botox. Rita até então obedecia à lei natural das coisas, pois ao Tempo não podemos enganar, nem a Morte.

Dona Rita dirigiu-se em direção ao espelho. Tirou todas as roupas, soltou os cabelos. Estava ali, em frente ao espelho, nua, crua e…Velha. Os cabelos brancos escorrendo nas costas, os seios flácidos que seu velho Homem tanto amou…Seu velho Homem…

“Estou velho querida…- dizia ele, olhando nos olhos dela, desde os trinta e um anos de idade…balbuciava…”Estou velho, não tenho mais a flor da juventude…”, este Homem, durante todos os anos que passaram juntos, nunca queixou-se da beleza jovial que aos poucos se perdia do corpo dela. Os seios ficaram flácidos, ele continuou amando-os; as rugas apareciam contando histórias no rosto dela, ele continuou beijando-lhe a face; a pela já não era tão mais macia, com a suavidade de uma pétala de flor, ele continuava deslizando os dedos na pele dela. Aquilo o fez único no mundo, ela nunca mais quis homem algum. Depois de tantas aventuras em braços cujas almas não se completavam. Os tempos de procurar um Amor que não fosse mesquinho e vazio foi embora com o sopro do vento que sacudiu os cabelos na noite em que conheceu o elemento saudade, o dono do peso dela nos ombros. Naquela época, seus cabelos não eram louros, mas sim negros, mas ela sentia-se como as ninfas loiras e rejuvenescidas de Lucas Cranach, viu ali o retrato de sua vida, pintado em dois lados, do lado direito, as festas, jantares, bailes, flertes…Músicas de rock’n roll, bossa nova, tropicália, sexo em Woodstock. Do lado esquerdo, ela, sozinha, nua na frente do espelho.

– “Estou velha querido…Estou velha…Agora, EU que me sinto velha. Que saudades…De você, da nossa juventude, da nossa velhice, dos teus olhos…

E nos ombros sentiu a vasta saudade dos seus tempos de ninfa. A saudade galopando na rajada do tempo, o peso dos ponteiros do relógio. Deveríamos nascer velho e morrer jovens, tal como na estória do Fitzgerald. O curioso caso de Rita estava ali, no reflexo do espelho, os ponteiros do relógio não voltavam, sua eloquência em fuso horário, entrando agora em anti-horário. O gato a olhava da janela, e lambia as patinhas. Seu cão, também velho, porém cego de um olho e quase surdo, dormia ao pé da cama, abria os olhos, devagar, ficava observando e depois voltava a dormir.

Rita foi em direção ao banheiro do quarto, tomou um longo banho, a pele já era enrugada o suficiente para se preocupar com o tempo que passaria embaixo do chuveiro. Secou-se, entrou embaixo dos lençóis, nua…Não precisava de pílulas para dormir. Sonhou…Sonhou com a fonte de Cranach. Do lado direito, seu marido rejuvenescido a esperava. Ela estava do outro lado da fonte, tirando as roupas para entrar. Deu um mergulho, lavou o corpo, depois outro mergulho. Chegou do outro lado e entrou com ele numa tenda de veludo vermelho. E desde então, Dona Rita nunca mais acordou. Foi rejuvenescida com massa fúnebre…

O Tempo e o Vento

“E aí meu velho amigo, como vai?, disse o Vento ao Tempo, como aqueles que não querem nada. “O que você quer?”, o Tempo falou, rabugento e desconfiado, já que o Vento não era nem um pouco confiável, pois levantava a saia e vestidos de mulheres quase indefesas, bagunça os cabelos daqueles que vão numa entrevista de emprego, destrói guarda-chuvas na companhia da amiga Tempestade. “Qual é velho Tempo?Teus ponteiros acordaram de TPM?, “Tu sabes que eu não tenho sexo. Não sou mulher e nem homem, não me venha com brincadeiras imbecis, não tens o que fazer não?Sabes que comigo ninguém brinca, pois sou a única verdade que existe neste universo, eu e a Morte, somos a única coisa na certeza dos pobres e tolos humanos”. O Tempo estava raivoso, bufando seus minutos e segundos. “Calma aê sabichão, mestre do universo!Os “tolos” humanos tentam te enganar o tempo inteiro, atrasando ou adiantando os seus ponteiros, mulheres aplicam um tal de botox pra esconder as rugas causadas por ti, outros “pobres” humanos, simplesmente te ignoram. Você assim como eu, é tão ou mais odiado, na mesma proporção daqueles que te amam. As pessoas vivem querendo brincar contigo, voltando ou adiantando seus minutos. Qual teu argumento agora, meu Rei?”, disse o Vento, com o raro aspecto sério, tão sério que por alguns minutos os moinhos de vento do planeta Terra pararam de girar. O Tempo encarou o Vento bufão, um verdadeiro bobo da corte, divertido mas muito chato. “Os tolos humanos que tentam me enganar, enganam somente a si mesmos, por isso são tolos, se acham tão espertos, que ao final se iludem, achando que conseguiram escapar das minhas areias, que escorrem tão lentamente numa antiga ampulheta. Humanos, sempre se desvencilhando das horas, mal sabem eles, que elas infindavelmente escorrerão por entre os dedos.” Na televisão de Dona Janete, a previsão do Tempo anunciava tempestade com rajadas de Vento…

Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.
Érico Veríssimo

 

Por quem os sonhos dobram.

Começarei com duas citações, que só serão entendidas ao final do texto:

Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança. Ernest Hemingway

Um bom romance é qualquer romance que nos faça sentir. Ele deve enfiar sua lâmina por entre as dobras do couro com o qual a maioria de nós cobre.  A sensação que nos causa não deve ser puramente dramática, e pronta, pois, a desaparecer assim que ficamos sabendo como a história acaba. Deve ser uma sensação duradoura, sobre questões que são, de uma forma ou de outra, importantes para nós. Virginia Woolf.

Ela dormia, numa noite quente de outono. Deveria estar frio, pensou ela, enquanto se arranjava para dormir, madrugada adentro. Na sua mente de escritora amadora, as madrugadas foram feitas para escrever, elas têm o dom da criação, o poder de imortalizar qualquer forma de arte, desde as mais abstratas, produzidas por loucos envoltos nos absurdos de  suas camisas de força ou perdidos em bairros boêmios  olhos abertos na noite, consciência etílica, porém tão racional, incompreendida por muitos, ignorada ou até mesmo o orgulho. Sim o orgulho, ou olhos desacostumados…Olhos desacostumados, seria medo, passos de menino desajeitado, ocupado, cansado, nos dias de ir e vir, a falta de sorte ou o excesso dela, quem sabe? Estava ela ali, perdendo a insônia, aos poucos, querendo fechar os olhos. Nas suas férias, ela queria apenas escrever, colocar as entranhas pra fora, ganhar algo por isso. Concursos literários estão por vir, queria ela um pouco de sorte, um beijo na cara que ela dá a bater. Mulher corajosa, sem medo, sem vergonha, talvez quase sem limites. A intensidade da alma lhe dói, sentir machuca. O mundo é menos cruel com os insensíveis, aqueles que fazem das pessoas uma marionete numa peça de teatro amador, de quinta categoria. Não era uma atriz, e se fosse, seria uma em teatro shakespeariano, de Amor e tragédia, aos olhos emocionados daqueles que a leem, um olhar perdido daquele que ela ama ou seria um Amor dissimulado, um eco, servido ao molho pardo e alcaparras. Não podemos engolir o eco, engolimos o ego, à seco, mas ecos não, apenas gritamos, e eles respondem do outro lado, tortos e dissimulados, e outras vezes, gritamos e nem o eco responde. O eco também aprecia o silêncio, e ela, não sabe lidar com ele, o Silêncio, mas tenta, caindo feito bêbada, mas sóbria, na sarjeta dos seus sentimentos. Mas ela não desiste, segue mar adentro, com suas folhas escritas, ego emudecido, marolas de razão e sensatez, mas com a sede de viver sem perder os segundos. Enfim, dormiu, e quando fechou os olhos que já o olharam sem medo, mas com um pingo de timidez dissimulada, mãos trêmulas, lábios úmidos…Fechou os olhos e sonhou…

Estava ela na sua velha casa em que morou na infância. Estava apoiada no muro, observando o movimento noturno. Ela estava em um lugar de seu passado, e as crianças que ela via brincando na rua, eram as mesmas crianças que ela brincava na rua sem saída, com seus 8 anos. Ali naquele muro branco, com pintura descascando, algumas rachaduras na parede, calçada com pedras soltas, ela observava, calada.  Saiu de lá, queria caminhar na rua, a lua estava soberba e inspiradora. Saiu pela porta da frente, a que dava pelo jardim, flores mortas, outras vivas, cheiro de terra molhada, mesmo sem chuva. Sonhos nos proporcionam momentos sem sentido, e na cabeça dela, a terra não poderia ter aquele cheiro, a não ser que tenha chovido ou alguém tenha molhado ela.  A terra estava seca, como se há dias ninguém cuidasse de seu jardim. Teve ela uma infância triste, mas com momentos alegres, momentos em que brincava num balanço velho de praça, com o sorriso banguela, corpo franzino. Aquele que a tira da toca, conserva suas fotos de infância. Queria ela, numa tarde de final de semana, não onírica, numa realidade próxima, uma tarde tranquila num dia ensolarado, sentar ao lado dele e lhe contar cada detalhe daquelas fotos, datadas de dezessete anos atrás. Falaria ele sobre as formigas, seu senso de organização, vida em grupo? Eis aí seres em cooperação, nenhum ser em vida é uma ilha, por mais que queremos às vezes nos esconder em nossas cavernas, viver como eremitas, num buraco solitário improvável onde reina uma única formiga, distantes, de tudo aquilo que nós possa machucar ou enganar nossas convicções, dizer à nossa vida que aquilo que nos motiva, que nos dá disposição para seguir em frente, não passa de uma ilusão dos homens, ou sonhos de madrugada quente de outono.

Estava ela lá na rua, sentada na beira da calçada, embaixo de uma árvore cujas raízes quebravam a calçada. Pensou nele, era o que ela mais queria naquele momento, era saber se ele estava bem. Eis que vindo despreocupado, rua abaixo, vinha ele, mãos nos bolsos, boina azul, que combinava com seus olhos tímidos porém tão inquisidores. Chamou o nome dele, ele olhou em direção à ela, deu um sorriso. Deus sabia como amava aquele sorriso. Se abraçaram, abraço leve, rápido, porém cheio de intensidade, um instante que ela queria que não acabasse. Ele a beijou na face, sua barba por fazer causou-lhe um arrepio.

– Está tudo bem contigo?Parece cansado… – disse ela, olhando-o nos olhos, ela não sabia, pelo menos era o que pensava ela, falar apenas com o olhar. Ela queria ser mais silenciosa, agir quem sabe na surdina, falar menos e pensar mais. Seria possível?A razão de seus problemas frente à sociedade retrógrada, era que ela era uma mulher que pensava demais e falava em demasia. Escritores e escritoras jamais se calam. É com as palavras que eles gritam seus desejos, derramam os copos cheio de cólera, abraçam seus amores, beijam, transam, imortalizam aqueles aos quais se apaixonam, mesmo sendo imoral, na visão de Oscar Wilde, ou seria na visão de seu personagem Lord Henry? Personagens são ecos disfarçados daqueles que os criaram. Cada criação carrega um pouco da vaidade de seu criador, algumas mentiras, meias verdades, e um poço profundo cheio de sinceridade que por muitas vezes dói. Em tempos de idade média, o silencio tímido de uma mulher era tido como algo de obrigatoriedade. Em tempos modernos, em tempos de machões que acham que vivem numa época feudal, de vassalos e servos, a mulher ainda tem de ser mantida na sombra, no porão escuro de seus desejos. Mulher não tem o direito de desejar…Reprime…Eis aí o coeficiente da razão tingida de cores mesquinhas. Até quando, pensa ela?

Ele disse que estava cheio de coisas pra fazer, tinha acabado de chegar do trabalho e estava apenas caminhando para colocar os pensamentos em ordem. As crianças continuavam a brincar, mas parecia que o tempo parou ali. Queria agarrar os ponteiros do relógio e não largar mais. Chamou ele, pra uma festa, no final de semana sabia ela que ele não teria tempo, ou não teria vontade, ou sabe-se lá mais o que.  Aquele homem ali na sua frente, era uma incógnita, o brilho de uma estrela incompreendida, e que talvez já morreu, mas seu brilho, na mente dela, durava anos luz, e nunca morriam.    Ele foi embora, pensativo, dobrou a esquina. Ela ficou parada, na rua, vendo ele partir. Voltou pra sua casa, e ficou apoiada no muro, talvez ele voltasse. Talvez…

Pausa, ela não se lembra o que aconteceu naquele meio tempo, durante seu sonho. Talvez ela brincava com os cachorros que teve correndo e cagando pelo quintal. Talvez ela estava a olhar para o céu, tentando entender as estrelas ou ser abduzida por extraterrestres do Arquivo X. No trecho que se lembrou, ela estava sentada num banco de jardim, ao lado da escada que dava pra garagem, que ficava na parte subterrânea da casa. E lá veio ele, subindo as escadas, mãos fora dos bolsos, cabelos desalinhados, a boina sumiu… Coisa de sonho, ou talvez ele tinha perdido, ele lhe disse um dia que costumava perder ou esquecer as coisas. Igual ela, esses dias, ela perdeu as chaves de casa, chegou em frente de sua casa e esparramou as coisas da bolsa na calçada de concreto liso. Era tarde da noite, incomodou a senhora que alugava sua casa a preço de banana. Ela apareceu, de pijamas, e lhe deu uma cópia das chaves. A música de Adriana Calcanhoto na cabeça…

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será, que você está… Agora?

Estava ele lá, na sua frente, disse-lhe que iria para a festa ao qual foi convidado. Os olhos dela sorriram, sua boca o fitou, sim, essa mistura sinestésica, queria sentir o cheiro dele, na pele…Foi embora, lhe deu um sorriso tímido, daqueles de canto de boca. Deixou seu cheiro no ar, junto com a saudade de seu sorriso de fração de segundos.

Como o tempo em sonhos não tem uma ordem cronológica lógica, o final de semana chegou rápido. Ela saiu do elemento cenas da infância em tempos presentes, e estava no local onde seria a festa. Era uma chácara grande, num bairro conhecido da sua cidade, com um casarão cheio de suítes, com grandes janelas que davam para o horizonte. No horizonte daquela janela, haviam vários templos religiosos, grandes sultuosos, seria que aquele sonho, o seu inconsciente talvez a estivesse chamando atenção para sua falta de crença, ou falta de atenção para o seu lado espiritual? Esta foi uma das incógnitas, que ficou questionando quando ela abriu os olhos marejados. Ela tomou banho, colocou seu melhor perfume, preparou-se, um ritual, cheio de felicidade. Escutou um barulho, estava de biquíni, desceu as escadas do casarão, parou na porta, ainda colocando desajeitadamente um vestido por cima da roupa de praia. Ele chegou, estava de camisa, branca, olhos de dilúvio, sorriso, olhou pra ela com expressão de desejo, rindo do jeito desengonçado com ao qual ela tentava colocar o vestido enquanto caminhava, ela suspirava  esbaforida, uma ansiedade e um desejo incontido. Abraçou-a fortemente, deu-lhe um beijo, que somente os que vivem a intensidade das brincadeiras do inconsciente, podem sentir. Parecia tudo muito real. Ele estava suado, no abraço, sentiu as costas dele molhadas, a camisa estava úmida, ela também. Ele perdeu-se no cheiro de seus cabelos molhados, na delicadeza do tecido do vestido que a cobria. Ela sentia o cheiro dele, um cheiro natural, bom, de homem feito, uma mistura de sua colônia borrifada de manhã, resquícios de perfume fabricado com o mais divino cheiro natural. Ela tinha aquilo com ela, ela é de uma natureza selvagem, e aquele homem a decifrava com os olhos, sem dizer uma única palavra, ela se perdia, ele interpretava seus mitos, sabia ele que ela era uma mulher que corria à frente dos lobos, perdida em pradarias, estepes, mas sempre sem perder o medo, mostrando os dentes, salivando de desejo, na cólera, na raiva, na emoção, no Amor, na dor, em todas as quatro estações. E ali naquele abraço, tão real, tão sensato, ele lhe disse ao pé do ouvido:

– Tome um banho…comigo…

Sabia ele, que ela já havia feito isso, e talvez sabia, que ela faria de novo…E de novo…Até toda a sua pele ficar enrugada. Uma mulher intensa cheia de sentimentos, não perde seu tempo, ela aproveita até o último momento, e quando o momento não foi aproveitado por n razões, seja por freios do ego ou orgulho, ela se lamenta, até a último segundo de tempo perdido. Ela abraça os ponteiros do relógio, e propõe ao Tempo um jogo erótico. Talvez, se o Tempo pudesse ser levado na base da chantagem emocional ou sexual,  estaria todo boêmio, cheio de doenças, todo mundo seria imoral, até aqueles que se recusam a cair na tentação. Todos nós nos entregamos à ela, quando não conseguimos lutar mais.

Subiram para o quarto, eles contemplavam o horizonte na janela, cheio de templos. Chamava a atenção, naquele horizonte, um templo budista amarelo, igual a cor de um girassol. Os monges regavam um jardim, e um deles segurava um vaso com um lindo girassol. O sol brilhava lá fora, e o girassol estava imponente, soberano como o seu semelhante que reina no céu.

Ela acordou, com  estrondo do trovão. A noite que começou quente, trouxe o frio sereno e agradável do Outono. Estava deitada, num colchão, na sala da casa do irmão. Acordou suada, e viu que agarrava o travesseiro, o abraçava, e ele estava molhado. A triste realidade a deu uma bofetada na cara, seu Amor não era um homem, era um travesseiro, e ela estava sozinha, ali naquele lugar, no escuro. Subiu no sofá, estava amanhecendo, olhou a manhã tímida querendo nascer, bocejando pra ela. Escutou o som dos pombos imundos que ficam no telhado do prédio, viu os líquens brotando nas paredes rachadas do prédio, viu o brilho das luzes acesas, sombras de pessoas que assim como ela, acordaram para a vida. Foi o sonho mais lindo que ela já teve, ela estava suada, era como se o abraço dele tivesse aquecido, como se tivessem transado até as forças se acabarem, e deitarem um ao lado do outro. Quando se deu conta de que tudo era uma pegadinha do inconsciente, pegou um caderno, uma caneta perdida em cima da mesa. Deitada no sofá, começou à escrever, e você, querido leitor, está lendo sua alma cheia de sonhos…

“Todos precisam de alguém para conversar – disse a mulher. – Antes tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”

Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway

Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.
Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.