Stains on the memory…

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, como um irresponsável. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado amigo, no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos teus pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos seus braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, o gerente que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Queria explodir todos os meus relatórios, toda aquela baboseira de índices de gestão. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei  queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir. As estrelas lá fora, como candelabros…

The Spell (broken) – Karien Deroo

Prosa de um sábado chuvoso.

Contra o céu de amanhã, vamos todos padecer de cansaço. Estou deitando sozinha em um gramado macio, vendo as nuvens passearem pelo céu, dou a cada uma delas uma forma de algodão doce. Eu gostaria de poder pegar e sentir a doçura de cada uma das formas tão abstratas que vejo neste céu que entoa um poema desmistificado perante meus olhos. Queria um beijo sincero, enquanto as nuvens de algodão dão seus sorrisos de Salvador Dali, um surrealismo, nessas horas que eu te adoro, e que eu apenas acho que cairemos, e como crianças feridas perante as peças de tragédias, dramas e comédias, nós vamos correr para nossos esconderijos, e cuidarmos um do outro, apenas com nossos sorrisos abstratos, nossos lábios se tocando na graça das horas… Horas melancólicas,  úmidas… Na penumbra, seremos dois adultos, com coração de criança, me dê um sorriso teu apenas com os olhos.
E eu penso, em todo o Amor que nos cerca, como humanos errantes, caminhando em trilhas tortuosas, cheias de espinhos, mas com sua beleza, escondida, em cada momento, no abraço, no sono, em nosso cansaço. E eu pergunto-me se ficaremos bem, com a humanidade abstraindo sentimentos, procurando uma glória talvez inexistente, em dias e coisas vazias, caminhando sem rumo, com olhos cegos, apenas um carro de última geração na garagem, uma televisão de polegadas e definições cada vez maiores. Enviamos glórias, uma oração, mãos juntas, os anos trazendo lembranças no galope da saudade, um sentimento aflito, oras tão devagar. Já contei por horas perdidas o quanto a saudade fez-me escrever linhas e linhas de palavras insones e por vezes apenas um eco entre eu e meu interlocutor, uma mensagem que apenas, na sutileza dos acontecimentos, será capaz de entender.

Somos todos, talvez, pobres tolos sem rumo, quem somos nós, meu Doce Amor, caminhando devagar, tão pequenos, julgando aqueles que se deixam molhar na tempestade por puro orgulho. Por isso eu vos digo, vamos esperar no fogo de nosso sentimento, coerência, incoerência, enfim, por tudo aquilo que nos move, em passos aturdidos, pobres dançarinos, passos desajeitados, mas tão belos em nossas tentativas de compreender a música enlouquecedora que ecoa, muitas vezes, sem querer. Vamos beber, enquanto nossa partida demora, a chuva está caindo lá fora, serena, molhando os carros, pessoas, cães abandonados. Fecho os olhos, e penso que as nuvens negras do céu nunca atingirão o meu chão, e os relâmpagos que trazem depois de alguns segundos, o estardalhaço de um trovão, eu penso apenas em alguma verdade perdida há alguns segundos, minutos atrás. E nós, Amor doce, estaremos acordados quando nossas almas questionarem a carruagem do Tempo, com todas as suas perguntas sem respostas?

Seremos crianças acordadas, com medo do escuro, minha doce criança malcriada, quando você se cala,  eu penso nos momentos em que cairá no chão, aturdido, e dará um suspiro, de satisfação, por todo esforço que valeu a pena. E eu cuido de você, toda noite, todos os dias, no silêncio quase descontente, minha distância de poucas milhas, distância…

Olho para as estrelas procurando respostas em um brilho do passado, talvez um brilho ao qual nem exista mais, teus olhos tão distantes, mas que me deixam tão completa, queimam vestígios de toda rabugice que eu levo neste meu coração. Os sinos da igreja tocando uma velha canção, gosto dos sinos tocando, da tarde caindo, de meus beijos de despedida. Eu poderia te cobrir com beijos de conhaque ou outra coisa que lhe aquecesse, sua beleza insólita, me apertando nos braços, não me deixe partir, dê-me um milímetro de teu sorriso desconcertante, pois eu ando na contramão, sigo minha rota de olhos fechados, por isso, segure minha mão quando me ver atravessar a rua, pois eu atravesso minhas emoções do mesma forma que eu sinto as areias do tempo escorrendo entre meus dedos, e saiba minha doce criança, que eu ando ao final de uma longa avenida, e nos meus passos de mulher com olhos oblíquos, você é sempre suave e persistente em minha memória. Doce criança, eu te adoro…Doce criança, lembre-se disso.

Salvador-Dali-Person-at-the-Window
Salvador-Dali-Person-at-the-Window

Se e somente…SE.

*Nota mental escrita durante esta madrugada.

Subimos montanhas, nos prendendo nas pedras, ora olhando para baixo
Ao respirar o ar de todas as manhã, nos sentimos tão pequenos,
Ante o sorriso de uma criança alegre nos braços da mãe,
Não existem surpresas que nos amedrontem, nesse mundo,
É apenas nossas mãos dando bordoadas no escuro,
É apenas nossa dor tão mesquinha nos atormentando,
É apenas um Amor que nunca existiu indo embora.

Na dor nossa de cada dia, há um espetáculo fabuloso,
Milhares de borboletas rodopiando num campo de margaridas,
E aquela criança dentro de nós se liberta, e se põe a correr,
Distante dos problemas, vamos sorrir como crianças bonitas,
E talvez isso nós faça sentir pequenos demais, ante a beleza
De um milhão de cores explodindo no horizonte, brincando com nossos olhos.

E de repente ao olharmos para o céu, há uma ave de rapina
Rodopiando em círculos, calmamente pela manhã durante a semana
O frescor deixado pela orvalhada da madrugada, e os olhos azuis,
Da criança que parece um anjo de mãos dadas com o pai, de traços fortes
Então olhamos para nossas vidas, ela pode ser bela também?
E então, um dia me disseram que há muitas verdades e meias-verdades,
Nesse caminho cheio de pedras, nunca teremos certezas de nada,
Há apenas o nosso discernimento ante a razão do coração.

Se somente pudermos contemplar o horizonte sem compromisso,
Alguém nos diria que estamos apenas perdendo tempo,
O quão bonito é um homem perdido em pensamentos, em olhos calmos,
Se e somente se, nos apaixonássemos por nós mesmos,sem dor e mágoa
Talvez o mundo seria um pouco menos doloroso, mas a vida está aí,
Rodopiando em torno de nossos medos, ansiedades, lágrimas e felicidade,
E o Amor me faz sentir pequena, ante a escuridão e desejo que o permeia.

Temos um coração a se manter calmo, vamos sair de mãos dadas,
E eu lhe digo apenas que a vida é passageira demais para termos medo,
Lhe beijo os olhos grandes, porque alguém me disse um dia,
Que os olhos podem ser o espelho da alma, e teus olhos são bonitos
Se e somente se, nós déssemos as mãos, talvez poderei amar,
A vida seria mais passageira, como o sorriso de uma criança
Não importa, somos tão pequenos quando sozinhos?

Se e somente se…pudéssemos ser um pouco mais sensatos,
Um dia alguém me disse, que meu corpo dançaria conforme uma música,
Que Amor e Sexo podem caminhar em linhas diferentes, mas se dão as mãos,
De vez em quando nos quartos, na penumbra de um bairro do subúrbio,
E então um dia o Amor se acabou, alguém me disse que um dia isso acaba,
E eu com muita dor, aceitei e saí a caminhar por aí, com sentimentos vazios,
E foi então que meus olhos se abriram e nunca me surpreendi tanto,
Para as coisas que sempre estiveram ali, passando despercebidas,
E então eu me senti tão pequena…você me faz sentir tão pequena,
Diante deste coração tão surrado quanto o meu, vamos caminhar juntos,

E um dia me disseram, vamos dar as mãos e sair por aí,
Rompendo nossas barreiras tão mesquinhas que nos aprisiona,
E nada será dito, além de palavras sensatas e histórias a contar
Talvez seja mais engraçado e surpreendente do que imaginei,
Mas você segura minha mão como se me conhecesse há tempos,
E como um livro vira a página e me conta aquela história,
E então eu me sinto tão pequena, estive o tempo todo sem perceber,
Que meus olhos grandes estavam cegos por uma venda, então eu dei risada,
Porque um dia me disseram, que a vida é uma piada, contada por um comediante frustrado.

E um alívio, um grito de liberdade sã e consciente grita dentro deste coração,
E um dia alguém me disse, que quando abrimos os olhos depois de tempos cegos,
Nós nos sentimos tão pequenos…tão pequenos diante de nossa idiotice,
E um dia me disseram que há milhões e milhões de pessoas neste mundo,
E um deles estará a sorrir pra mim…um dia me disseram, em tom de sermão:
Se e somente se, a vida sorrir para nós, devemos então, sorrir pra ela também.

8817614

“Por quem os lençóis dobram” – Da série, “Eu não sei fazer poesia, mas eu tento!”

Depois de andar por um caminho cheio de folhas coloridas,
Já não é mais outono, é apenas um inverno ambíguo, cheio de sol e calor,
E os olhos azuis, grandes e tão perdidos, a fala mansa e o andar calmo,
Um homem incomum tão próximo, a alguns poucos centímetros,
E o sorriso na indelicadeza desconcertante de uma boca carnuda…desnuda,
Tão doce, bruta, elegante, curiosidade, os olhos, os olhos nus,
Fitando a boca voraz, era o desejo e a malícia no pensamento,
E a pele desnuda, a boca e a língua divina, e o cheiro natural,
A linha do pescoço que sobe até o rosto a emociona,
Ela estava então na cova do leão…

A vida, as pessoas, o caos, caminhando todos juntos de mãos dadas,
Os ventos de fim da noite os carregam, assim como as folhas,
Caindo calmamente, quase uma heresia,
Uma heresia calma e ao mesmo tempo bruta,

A folha toca o chão numa leveza simples, as mãos lhe tocam a pele,
Numa beleza ímpar, um gemido alto de prazer enlouquecedor,
São jovens demais para deixar a natureza emudecer noite afora,
Às vezes um homem deixa seus medos e ansiedade para trás,
Não há nada a temer, olhos nos olhos há sempre uma razão, ainda que febril,
E os olhos nus, encantados, e os corpos nus, se contorcendo,
Numa dança erótica, a indecência e o desejo tem cheiro de jasmim.

Há um sorriso tímido nos lábios, um enrubescer no rosto, um jogo de poder e sedução,
E ela sente os pelos do rosto dele junto ao pescoço, corpo estremecido e sem rumo,
E enquanto ele tira as suas roupas, ela se despe da vergonha,
E a noite segue tímida nos gemidos, enquanto as mãos firmes escorregam,
Como num torpor, num deslize, o suor sagrado se mistura mãos fortes e brutas,
No corpo tão frágil e delicado de mulher, as garras do leão lhe marcam a pele,
E as marcas na pele dela, um sorriso sádico no espelho pela manhã,
Ela fecha os olhos e se entrega, e então ela acredita, que ali naquele erotismo,
Naquela cama, com aquele homem, ela encontrou sua paz de espírito.

E o gosto sincero do medo, tão natural, ansioso, e latejante,
Num grito noturno sufocado pelo silêncio, uma mulher aflita,
Ao lembrar-se da cova do leão, o tremor, o desejo e o paladar visual,
Na madrugada afora o corpo clama por um pouco mais de amor,
Seja ele sensato ou insensato infiel ou fiel, perigoso e delicado,
A luta entre amor e razão é fado pesado e dói o peito,
O peso de uma incerteza silenciosa carregando um coração tão maltratado,
O rosto queima com a lembrança do beijo molhado, quente e profundo.

E a lembrança de um gosto amargo lhe traz uma saudade,
E o peso de um corpo sobre o seu nunca foi tão intenso e excitante,
Tão profundo, úmido, na meia luz, um gemido abafado e solitário,
É na cova do leão, a saudade, a lascívia, e o cheiro do jasmim,
Ela o amou, fez do seu desejo sua morada, bebeu do seu cálice até a última gota,
E ele fez do corpo dela seu altar, com uma fúria docemente obscena,
Um altar do desejo na cova do leão, quente, úmido e delicado.

Ficou uma bosta, mas foda-se essa merda!!hahahahahahahahahaha
Ficou uma bosta, mas foda-se essa merda!!hahahahahahahahahaha

Tal como vinho italiano.

Descobri uma forma de desejo que escorre pela garganta. Não queridos leitores, não estou falando de sexo oral. Estou falando sobre o calor causado por goles de vinho italiano, especificamente Cavicchioli Lambrusco, safra de 1928. Vinho expande meus horizontes, faz-me sentir plena, com todas as emoções à flor da pele, é como se as cores e sabores ficassem mais nítidos, meu universo tão incompleto, é como se os vapores etílicos desta bebida me desse todas as coisas que eu sonho, seja de olhos abertos, ou fechados, nas minhas poucas horas de sono de todos os dias. Numa dessas sensações, a vontade louca de fazer amor impera como frames por segundo numa tela de cinema. Não importa a quantidade de álcool que escorre como um rio garganta dentro, basta o cheiro de vinho, vinho é extremamente sensual. Um dia, sonhei que tomamos uma garrafa de vinho e transamos escondidos embaixo da mesa. Quando eu era garotinha, às vezes pegava escondido um copo e tomava embaixo da mesa. Na época, me dava sono, então logo em seguida eu ia dormir. Minha mãe achava que simplesmente era uma soneca infantil. Creio que o meu sonho cruzou essa lembrança de minha infância e traçou um desejo de minha alma já adulta mas com traços de criança feliz. Ainda adoro algodão-doce, a ponto de lamber meus dedos como sorvo o vinho de teus lábios manchados, pecado rubro, pele manchada de desejo. Nós dois rolando ao chão como garrafas ao chão. Você me quebra, em pedaços de emoção, faz-me tua lembrança doce surgir em mesas solitárias de bar. Cada gole solitário dessa bebida enebriante é um pedaço de tua pele que me toca os lábios, cada cheiro emanado da taça que eu levo à boca, é um cheiro teu envolvendo-me, uma lembrança de teu pescoço nu, consigo sentir seus tendões e veias aparentes, teu sangue nobre, tal como o vinho.

Nas minhas memórias encharcadas de lençol de motel, só tem lugar para aquele ao qual eu imortalizo nessas linhas tão tortas, aquele que me levou ao sétimo céu, aquele que eu não tenho vergonha alguma de admitir que o quero entre as pernas. Sou uma mulher e não mais uma garotinha de 15 anos, cheia de incertezas. A vida é muito curta para nos privar de desejos. Queria agora, neste momento em que escrevo solitária numa mesa de bar, que ele estivesse ao meu lado agora, mas a falta de sorte anda me perseguindo com seus passos de glória descontente. Ando perdida em um oceano, esperando este homem de olhos incógnitos, olhos que eu daria minha emoção mais incontida numa bandeja servida com carne e molho pardo. Uma faca, um garfo, deguste-me sem moderação. Queria beijá-lo, seus lábios silenciosos, beijaria teus olhos azuis todos os dias, se eu pudesse, mas eu transformo esse desejo em metáfora, eu olho para o céu e vejo a imensidão infinita de teus olhos. Eu não consigo tocar e nem beijar o céu, mas apenas o fato de olhar para o alto e lembrar-me de ti, já me és suficiente para traçar uma lembrança saudosa de teus olhos que falam.

Queria deitar-me em seu peito, e escutar suas histórias, espalhar-me em sua cama, como uma garrafa de vinho, rolando no chão. Teu rosto, linhas de perfeição com todos os seus vincos e barba por fazer, um traço de sua pele branca me convidando a devorar-lhe como um fruto proibido, fruto doce, cheio de sumo, incontido em meus sonhos encharcados durante a madrugada, nas poucas horas que eu durmo. Venha e derrame toda a sua fúria, sabor, calor. Meu corpo é uma taça, e você é delicioso como um vinho italiano.

“O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso
Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinha
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo”

Dois filhos, um banheiro e abacate com especiarias.

Ela chegou na pressa do retorno à morada. Depois de um dia no trabalho, pegou os filhos no colégio. Ela queria descansar, mas as crianças gritavam no carro que queriam biscoitos. Talvez ela desencavasse alguma receita da sua avó, daqueles biscoitos amanteigados. Sua vida sem tempo não permitia ela, mãe solteira, ter a dignidade e o gosto de cozinhar todos os dias para os filhos. Ela era uma mulher moderna, independente, 33 anos e 2 filhos. Amou um homem em um flerte rápido. Ela se apaixonou, ele não, na verdade, ela não sabe, até hoje. O pai das crianças vêm pegá-las todo final de semana. Ela acredita no Amor dele pelos filhos. Pode não amá-la, apesar de todo o respeito e por nunca ter deixado ela na mão, mesmo ela recusando a pensão, ele fez questão de contribuir com os filhos, gerados num momento de descontrole. A vida, é feita de erros e acertos. Ela não acha que errou, ela amou aquele homem desde o primeiro instante que os olhos dela encontraram os dele. Quando soube que estava grávida, de gêmeos, bateu um desespero. Omitiu por três meses, mas chega um tempo que o corpo da mulher muda, e não há mais nada a esconder. Um dia o chamou, depois de várias tentativas fracassadas de dizer o quanto ela gostava dele, naquele momento da fatídica conversa via SMS “Precisamos conversar, sério…”, enviada depois de cerca de dezenas mensagens carinhosas sem resposta alguma, ela finalmente se tocou que era uma trouxa apaixonada. Tola, tola, tola…Pensava ela. Ela foi apenas um alarme de incêndio. Um homem tão bonito, poderia ter quantas mulheres quisesse, num estralar de dedos. Ela se lembra, o quanto as mulheres entortavam o pescoço quando ele passava, seu magnetismo era e ainda é, surreal. Dentro de uma farmácia, ele comprava colírio e era o colírio. As mulheres do balcão o devoravam com os olhos, e ela dava risada assistindo a cena de dentro do carro. Nunca contou isso a ele. Deixou que ele percebesse isso sozinho, ele era desligado, olhos perdidos e distantes em pensamentos que a tanto fascinavam. Ela achava que faria diferença, num mundo de mulheres com a cabeça alienada e afundada em sapatos, esmaltes, roupas, novelas e fofocas de salão, ela observava as coisas que ninguém reparava. Nunca foi uma mulher leviana, em sua vida, poucos homens se atreveram a entrar em seu mundinho, tão fechado, tão pra poucos. Um amigo de colegial, lhe disse uma vez, que ela pensava demais, e isso seria prejudicial pra ela. Às vezes, dizia esse amigo, nós temos que nos entregar falsamente para as convicções clichês desse mundo, pelo menos tentar não soar tão diferente. “Nos faz sofrer menos”, pensa ela. Muitas vezes ela pensa que deveria ser uma vadia, quantas vezes já ouviu que homem gosta mesmo daquelas que pisam em cima, cospem no prato que comem e dão pra meio mundo, sem valor algum. Tratar os homens como objetos, como bibelôs mal feitos de lojas de R$1,99. Usaria eles a seu bel prazer, e assim ouviria um ridículo “Eu te amo” ou outra coisa qualquer, ou um “bom dia vamos transar agora”, sem precisar ser quase misericordiosa. Pobre mulher tola, acredita sempre na boa índole dos homens, e que um dia, quem sabe, alguém a olhe com os olhos nus, e não como uma mulher que dá medo e uma certa ponta de fascínio medroso, cansou de ouvir frases de “se todas as mulheres do mundo fossem como você, teríamos um mundo melhor”, e depois de todo um envolvimento, ouvir que mulher inteligente dá trabalho, pois não é possível moldá-las, elas tem argumento pra tudo, são imbatíveis. Homens tolos, mal sabem eles que a mulher inteligente sabe se calar quando está errada, basta ter argumentos tão bons quanto o delas, o suficiente para os olhos brilharem e se calarem diante da convicção que está na frente de um Homem e não de um ser com um pênis, apenas um pênis. Ela sempre pensou que homens são como o abacate. Quando muito crus, são extremamente sem graça. Um amontoado de pelos, e uma coisa comprida que fica dura de repente no meio das pernas. Nada muito atraente. Mas quando misturado com bastante limão, açúcar, ou batido com leite, com outros ingredientes, se torna algo extraordinariamente divino. Abacates puros não fazem sentir tesão nenhum, apenas repulsa. Aqueles abacates que ficam se olhando no espelho enquanto levantam peso e não sabem pensar em outra coisa a não ser carro, futebol, peitudas anencéfalas siliconadas e o quanto seus tríceps e bíceps aumentaram. Aqueles abacates que nunca leram nada na vida, sem ser legendas de revista Penthouse. Aqueles que dizem que mulher inteligente dá trabalho. Os homens ao qual essa mulher amou, são seres divinos, com ingredientes que a fizeram salivar e desejar mais. Não eram um amontoado de pelos deslizando em cima de seu corpo, não era um objeto estranho invadindo seu ventre, era algo doce, único e que a fazia subir pelas paredes. Pena que a felicidade dura pouco, e homens abacate com especiarias sejam tão raros. No mundo de hoje, temos os abacates, mas falta em muito as especiarias.

Um dia, ela saiu de sua kitnet em bairro universitário, isso numa época antes de ter os dois filhos, uma menina e um menino. Deus não foi tão cruel com ela, deu-lhe ao menos um casal, gêmeos, mas ao qual poderia diferenciar. Ela saiu de sua casa decidida e se divertir e sair com o primeiro homem interessante aos olhos (apenas aos olhos) que a fizesse sorrir. “Vou ser vadia”, pensou ela. Dizem por aí, que a mulher que não é vadia por uma noite não é feliz, porque reza a lenda que toda mulher um dia vai comer na mão de um homem, assim como todo homem um dia se engana, comerá feito um cão nas mãos de uma mulher. Alguns inclusive, segundo histórias ao qual ela já ouviu, levam tapas no rosto da mão que comem feito cachorrinhos famintos de rua. Ela colocou uma roupa atraente, bonita, mas não vulgar. Queria ser uma vadia, mas uma vadia com classe. Transaria na primeira noite com aquele que lhe dissesse que ela é linda e que fosse atraente aos olhos dela. Apenas isso: SEXO, SEXO, SEXO, BELEZA, BELEZA, nada de papos intelectuais de livros e afins. Cansou de fazer as coisas por sentimento. “Gente boazinha e que dá valor ao sentimento alheio só se fode nessa vida”, pensava ela no entorno da primeira taça de vinho chileno que pediu no balcão. Naquela noite teria Pink Floyd cover, uma das suas bandas favoritas. Esperava encontrar alguém ali para transar ao som de “The great gig in the sky”, tocada em repeat contínuo, ou durante o álbum inteiro do “The Dark Side of the moon”. Talvez discutissem algo sobre a velha história de que o álbum é sincronizado com o filme “O Mágico de Oz”, e talvez surgisse uma desculpa esfarrapada de assistirem o filme, num apê bagunçado de cidade universitária. Ela tentaria ser igual ao homem de lata, sem coração, mas no fundo, o sonho dele era ter um coração batendo ali dentro. Ela queria ser uma mulher de lata…Sem coração. Coração só atrapalha, mesmo quando só se quer Sexo. Chegaram ali, naquela embriagada noite, vários homens, mas a bebida a fazia ficar mais sã. Não saiu, não “pegou” ninguém. Ficou lá até o fim do show, divagando sobre um milhão de pensamentos que a bombardeavam durante a flauta lírica em combinação com guitarras e sintetizadores psicodélicos. Voltou pra sua casa, semi-embriagada, sozinha, num táxi que pegou próximo ao Terminal. Chegou, atirou os sapatos para cada canto do quarto, deitou na cama. As hélices do ventilador giravam sem parar, ela estava com calor, o vinho lhe aquecia. Um calor entre as pernas, mas não teve nenhum homem que a satisfizesse. Para entrar em seu ventre, era necessário açúcar e bastante limão. Definitivamente, ser mulher lata não era pra ela. Sentiu nojo de ter tentado ser uma vadia. Na verdade ela não tentou, ela entrou naquele lugar, pediu uma garrafa de vinho, 3 cervejas Irish Red e ficou pensando na morte da bezerra, especificamente na vaca do “Atom Heart Mother”.

Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco "Atom Heart Mother"
Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco “Atom Heart Mother”

Ficou assim, pensando na sua tolice, e decidiu que nunca mais tentaria vestir a máscara da mulher “Like a Valeska Popozuda”. A vontade de dar seria controlada consigo mesma e num próximo homem que a fizesse sorrir por dentro e por fora. E que ela fosse, aquelas mulheres com uma casa e um cão, ela não tinha o dom de ser leviana. Ela poderia fazer sexo sem qualquer resposta de sentimento do outro lado, mas alguma forma de Amor ela têm de sentir por aquele que deita em seu peito e a devora. E foi assim com o pai de seus dois filhos. A reação dele ao “Estou grávida”, foi um misto de surpresa. Ela, 30 anos nas costas, sabia que ele não assumiria, se ele gostasse dela, teria dado algum sinal de vida. Conversaram, eles se vêem, trocam confidências, mas não por tempo suficiente para terem flertes. As crianças choravam e queriam o peito, ou queriam insistentemente subir em cima da mesa, ou brigarem pelo controle da casa. Ela recebia propostas, declarações, de tudo, sexo casual, amor eterno, mas o pai daquelas crianças enchia o mundo dela de cores. E cada vez que ela transava com um homem, era nele que ela pensava ao gozar. Hipocrisia, pensava ela, mas ela tinha que fazer o outro lado feliz, e ela se deixava enganar pela sensação induzida de prazer causada pela mente. HumildeMENTE, ela sentia orgasmos…

Num sábado ensolarado, seu Amor bateu à porta para buscar as crianças. Elas deram muito trabalho na noite de sexta, foram dormir tarde e incrivelmente estavam dormindo. Estavam dormindo todos em sua cama, e ela passou o dia insone, no sofá da sala lendo um livro. Adormeceu algumas horas com o livro no peito. Permitiu-se chorar com a estória ali, ela sempre chorava com Hemingway, pois foi ele que apresentou a metáfora da sorte lançada ao oceano, o céu de gaivotas, e a derrota em forma de tubarões. Naquele sofá, ela sonhou, como o velho Santiago em sua cama de jornais. Ela queria seu Manolim, ela cuidaria dele, e ele dela. Acordou num susto, seu celular tocava, seu velho Amor estava na porta, gritou “Já vou”, foi até o banheiro, escovou os dentes, deu uma ajeitada nos cabelos. Não podia fazer mais nada, pra ficar bonita demandaria um certo tempo e ele apenas buscaria as crianças. Ele não a amava mais, pode nunca ter amado, então, o que importava a Beleza?Abriu a porta, descalça, cabelo em desalinho, camisetão branco, calcinha de algodão por baixo, óculos de leitura, meio tortos na cara. Apenas um cheiro natural, sem perfume, mas o rosto todo iluminado, boca natural, sem traços escuros nos olhos, ela estava ali, de roupa, mas nua e crua. E lá estavam os velhos olhos azuis, e a saudade invasora. Deu-lhe um beijo no rosto, e disse que as crianças dormiam. Ele esperaria elas acordarem e foram pra cozinha, ela lhe fez uma xícara de café, fez a brincadeira de Dona Florinda e Professor Girafales, “Gostaria de entrar e tomar uma xícara de café?”, ele respondeu que não seria muito incomodo. Ela lhe ofereceria um copo de ovomaltine com leite bem gelado, mas as crianças tomavam aquilo como água. Puxaram tal qual o pai e a mãe, disse ela, e eles riram, baixinho na cozinha. Ela estendeu a xícara de café fumegante pra ele, e foram pra sala. Ele viu o livro “O velho e o Mar” num canto do sofá. Deu um sorriso de canto de boca, pegou o livro e viu onde estava o marcador de página, estava na parte sobre a sorte e a vontade do velho Santiago de querer poder comprá-la.

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.

Ele perguntou a ela se ela dormiu com o livro sobre o peito, enquanto ele esperava que ela respondesse o SMS que ele enviou sete e meia da manhã, ela disse que sim, e que já perdeu as contas de quantas vezes já leu aquele livro. Ele perguntou, quanto tempo ela estava jogada ao mar, sem pegar nenhum peixe. Ela disse: Três anos…três anos esperando a sorte, e essa era a única coisa que eu queria agora. Se pegaram, no sofá, as crianças poderiam acordar, ele queria deitar aquela mulher de cabelos bagunçados na cama do quarto, mas as crianças dormiam lá. Ela era uma mulher, com dois filhos e um banheiro…Transaram embaixo do chuveiro.

Tal como o vinho, parte II.

Eu simplesmente não consigo mais ignorar a zona incauta de prazer que me invade a alma a cada gole de vinho tinto seco. Seria muita insensibilidade de minha parte se eu ignorasse todo o poder quase insano, enlouquecedor, de teus lábios manchados, sua saliva, nossa saliva etílica, aquele cheiro teu tão próximo, eu devorei teu cheiro em um longo percurso, e ainda não levemente embriagada, eu já sabia muito antes que eu estava já fora da minha toca, apenas tentei em vão ignorar tão sagaz e ensurdecedor insight de razão emocionada. Eu não pretendia beijar-lhe e nem ser beijada, mas eis aí que a vida nos engana. Quando nós achamos que temos todo o controle da situação, eis que os ventos de tempestade chegam e balançam nossas roupas de orgulho penduradas no varal. E a camisa branca impecável, seca no varal, ficou úmida de prazer, marcada por vincos de um abraço de saudade. Meu vestido ficou um tempo separado num balaio de roupas, longe das outras, porque ali estava algo especial, uma gota de vinho derramado e seu cheiro esparramado. Joguei o vestido na máquina de lavar, mas só fiz isso quando gravei tuas marcas olfativas em minha memória, e ela está longe de ser jogada no sóton de minhas memórias cognitivas. Está num acesso dinâmico, rápido, bizarro e sem frescura, sem tempos ruins para negar memórias entorpecidas. Pode estar uma tempestade de pedra lá fora, a chuva será linda, pesada, e eu vou contemplar da minha janela. Lamberei uma pedra de gelo, um pedaço do céu em minha boca, eis que me lembrarei de ti novamente, não estou dizendo que és um homem frio, mas sim porque como o gelo, você derrete em minha boca e num acesso de lembranças boas, as borboletas dançam todas descontroladas no jardim de meu estômago.

E eu saí daquele bar numa sexta-feira ameaçadora de chuva. Com meu casaco amarelo eu suava, e o vento de prenúncio de chuva bagunçou meus cabelos, acalmou minha face avermelhada. Subi para o ônibus sobre o efeito do fogo. Algo em mim queimava, se eu pudesse lhe chamaria para um sexo improvisado, como uma dança, num salão, onde ritmos variados nos convidam a passos desajeitados. Neste palco eu meu arrisco, a vida toda é um palco, penso eu, pois temos de dançar conforme o ritmo dela, portanto, se nos sentirmos envergonhados e desajeitados durante os passos de tango argentino, vamos cair, e rir de nosso tombo. Daremos as mãos e dançaremos novamente, até a que a Morte chegue. Se o céu, o paraíso e outras metáforas semelhantes existirem, vamos continuar dançando no paraíso. Se o inferno existe, vamos dançar nus, sem pudor algum, queimando em chamas, um ritmo caliente de música caribenha. Usarei meu espanhol desajeitado, sem vergonha. Aliás, vergonha é algo que não me pertence. Deixei-a abandonada e guardada numa caixa, na mesma caixa onde guardava meus textos proibidos de 15 anos, antes de serem atirados ao fogo.

Tal como o vinho, bebo-te em goles de saudade, e ele desce, quente, aquecendo minh’alma e coração, numa sexta-feira de emoções violentas em forma de pensamentos. Queria eu ser agora como uma garrafa, um vinho, um licor de uvas, envelhecido de emoções. Deite-me em sua taça e me beba, sem pressa. DEGUSTE, sem moderação.

Tal como o vinho, parte I

Chegou de mansinho com olhos mansos e misteriosos, deixei-me levar,
E como uma garrafa de vinho, deitei minhas emoções noite a fora,
Deslizei na noite de um prazer que me tira a razão, um gemido na madrugada,
O hálito do vinho na minha boca é um pedaço teu que ficou em mim,
As linhas aqui escritas é toda minha eloquência talvez muda, surda, cega,
Minha eloquência convidando para beber um gole etílico de minhas emoções,
Aproxime-se, pegue sua taça, brinde comigo e vamos fazer Amor, ou Sexo,
Como quiser, quando quiser, basta chegar, abrir a porta e me convidar pra entrar…De novo.

 

Noite de sexta-feira, as emoções de uma noite embriagada me arrepiando os pelos da nuca. O calor daquela bebida fazendo-me suar, por dentro, por fora, por todos os poros da minha pele, transcende, transmuta o dia em que eu amaldiçoei minhas convicções, e a perda do medo de arriscar. Deveria ter continuado com minha alma tão pessimista e escondida de emoções, quietinha no meu canto, mas eu permito-me entrar na minha teimosia que eu interrompi há tantos meses. Estava eu lá, quieta, mas algo me dizia para dar a cara para bater. Fui e ofereço as duas faces. Cansei de esconder-me no véu dos sentimentos escondidos, meu rosto em carne viva viciou na arte de se espancar pela vida. Aqueles que vivem, com o rosto e alma sem cicatriz alguma, não tiveram Vida alguma, são seres mesquinhos e inanimados, bonecos fantoches controlados por Parcas mal humoradas de TPM, num momento sem criatividade.

Eu tinha uma fotografia na parede de meu quarto, no auge dos meus 16 anos, e nela dizia que não se vive sem correr riscos, e eu protegia-me naquela redoma, com meus cadernos de textos, poesias, escondidos no fundo do armário. Eu era uma fortaleza, uma rocha, eu repelia quem se aproximasse. Eu não tinha tempo nem paciência para coisas de amor, sexo e tudo mais. Nem no mundo tão insano e doentio de boa parte de meus livros que povoaram meus questionamentos juvenis, questões de Amor e declarações soavam-me como bonitos e irreais contos da carochinha. Eu dizia que jamais cairia naquelas armadilhas, que seria daquelas mulheres bem sucedidas com um cachorro deitado aos pés da cama, e que eu sairia todas as manhãs para passear com ele no parque, antes de trabalhar. Eu tomaria um bom vinho e escutaria um blues triste ao chegar cansada do trabalho, que eu faria o que bem entender. Mas aos poucos, fui conhecendo o círculo viciante e perigoso do coração. Digo coração, porque nessas horas, o nosso cérebro é o que menos funciona. Tento quase o tempo todo medir minha razão e minhas emoções numa balança. Queria que a Razão tivesse um peso infinitamente maior dos nossos sentimentos, emoções, talvez torpes. Mas então eu me perguntaria o tempo todo se eu me permiti ser feliz, nem que seja por poucas horas, poucos instantes. Mesmo que eu sinta uma saudade ao qual a magnitude do universo não seja capaz de medir, eu quero que a vida me espanque, e que eu dê um gemido gostoso de satisfação, mesmo com a face de tristeza, saudade que não consigo represar em poucas palavras ou um silêncio absoluto, eu deito em minha vida, e ela me devora, divinamente. Ela me DEVORA, assim, com letras maiúsculas.

 

Dez minicontos de 150 palavras.

1 – A Garota no espelho

É de madrugada, neste domingo chuvoso a dor no peito tomou conta. No sábado passado dormiu o dia inteiro, por oras perdeu os instantes digerindo um livro e contando suas angústias para aquele que lhe cura sem falar muito. Ela pensa: “interessante a vida”, e faz isso olhando seu corpo preso em um vestido preto de malha amarrotado. Seus cabelos em desalinho, por um dia inteiro rolando na cama, e se ao menos fosse sexo, mas a única coisa que ela tinha era fazer amor consigo mesma.

Diante daquele espelho em sua pequena casa, aquela forma de mulher ali exposta eram suas entranhas, todas elas dispostas numa tábua, com cebolas, tempero. Mais tarde, seria gratinada com manteiga ou azeite, e servida em linhas insones, linhas gourmet. Tomou um banho e deitou-se, nua, olhou lá fora, a brisa da tempestade saudava seu corpo como um amante. Sorriu.

2 – O Homem Girassol

Acordou de manhã, arrastou seu corpo cansado até o chuveiro. Embaçou suas emoções no espelho do banheiro. Sonhou com teu amor massageando-lhe as costas durante o banho. E ela disse que amava todos os vincos do rosto dele e quando ele acordava com os olhos azuis comprimidos e cheios de sono. E o sol que entrava pela janela iluminava o rosto dele, e aquilo era de uma beleza tal como um verbo irregular, ela não conseguia conjugar. Quando chovia, gotas tímidas, aquele tempo indeciso de chove não chove, seu amor era como um girassol em um jardim, ele se encolhia, tímido, e colocava-se a olhar os pés, mas quando o sol imponente se erguia no céu, ele se tornava um rei soberano, e naquele sorriso de homem silencioso, ela não conseguia exprimir em palavras o seu encanto. No canto esquerdo de uma rua, um girassol sorria no jardim.

3 – Maresia de Hemingway

Caminhou pelas areias fofas da praia durante várias horas. Deixou com que as marolas serenas lhe molhassem os pés. Quando seu corpo suava, ela dava um mergulho no mar, e ficou lá, meditando sobre seu eu salgado. Queria ela ter a doçura de todos os dias, mas as horas do tempo lhe trazem sabores e dissabores. Por vezes, sua natureza é amarga, outras horas ardente, nos braços daquele que a chama pra fora de sua redoma de ego e proteção.

As gaivotas se reuniam no céu, um barco pesqueiro balançava no horizonte. E ela se colocava a pensar se era a sorte ou falta dela que acompanhava aquele barco no horizonte. Depois de banhar-se e enrugar todos os vincos da pele, ela sentou-se placidamente na areia, observando a vida ao redor, crianças brincando na areia. O barco pesqueiro chegou à orla, e ele transbordava sorte e cansaço.

4 – Refúgio

Nos papéis perdidos na escrivaninha, em meio de livros, pequenos papéis com meias verdades, com mentiras de fundo vago, cantou uma canção de melodia desconexa. Estava ali lhe fitando nos olhos, um inseto na parede, esfregando as patinhas, ela deveria matá-lo, mas apenas ligou seu ventilador de teto. E quando as hélices começaram a girar numa simplicidade complexa, ela deitou-se na cama, tinha o louvor e o desejo de um Amor não incontido, verborrágico e jogado na sorte, algo ao qual ela não poderia comprar. Os ponteiros de seu relógio de parede pararam. Tinha ela, de comprar pilhas novas?Não, ela queria ali, poder voltar no tempo, e ficar apenas naquele instante que ela tentou em vão manter sua eloquência de raciocínio, antes de ser tomada por um beijo doce e inesperado no seio direito, e mãos tão maliciosas na graça de um anjo diabólico passeando em sua virilha. Desejo.

5 – Domingo à tarde.

Enquanto algumas pessoas rezam indo à missa ou contam piadas na mesa de família, a tarde pedia um banho. Ela negava que naquele momento, as gotas que  caiam no corpo, trouxeram-lhe a doce lembrança de um pequeno rio de vinho correndo nas costas, e uma língua languida. E os dois, talvez, levados pela sensação de uma leve embriaguez, cravou em seu peito e armário de memórias, um momento inesquecível e único. E naquele momento, enquanto as gotas mornas tiravam-lhe a eloquência de raciocínio, ela queria que ele estivesse ali, com seus beijos em sua pele nua. Cada momento, que ela sentia algo escorrer-lhe nas costas, ela sentia o cheiro dele aproximando-se.  Seu toque, ora doce, ora selvagem, uma sinestesia violenta, uma vontade de amar-lhe imoralmente na frente de uma multidão. E o som de piano tomou espaço n’alma. Ela enxugou seu desejo com uma toalha felpuda.

6 – Inverno

Perdeu a beleza dos instantes. Adormeceu no metrô, não viu o título do livro nas mãos do homem que estava sentado ao teu lado. Apenas gravou seu cheiro de água de banho. Em seu sonho de preguiça  numa manhã de uma metrô lotado, ela estava abraçando o tempo e seus ponteiros, e não largava, o enchia de beijos e deixava-lhe  invadir seu ventre numa fúria inconstante. Estava chovendo, e havia neblina lá fora. Nos túneis tristes do metrô há apenas a escuridão, e o monstro de ferro a toda velocidade carregando pessoas encharcadas de sonhos, esperando um pouco de atenção, uma alma de cores entrando em seus mundinhos de tons tempestuosos. Ela continuou ali sonhando, amando a frieza do inverno, e a eloquência de se proteger por debaixo de dezenas de roupas. O inverno silencioso calava sua alma, e diante de  tal beleza, ela se contorcia por dentro.

7 – Delírio

Do alto da sacada de seu apartamento, Lola colocou-se a pensar no tempo e em delírios. Havia uma varejeira grande e verde rodeando o vidro da janela, desejando as migalhas de comida da mesa. Sorte que a porta está fechada. Aquela mosca nojenta poderia entrar e pousar na sua comida, ou nas suas emoções perdidas durante a noite de sono. Segurava uma xícara de café, sua vida insone clamava por cafeína todas as manhãs. A insônia era uma (in)sanidade que a perseguia de noite, debaixo de cobertas, embaixo das hélices barulhentas de seu ventilador de teto, mas dentro dela, um silêncio devastador, que pode ser escutado na banda de pensamentos tão altos quanto o barulho de uma fanfarra em dia da independência. Era um silêncio, quieto, e muitas vezes inoportuno. Seu grito é uma canção muda, escutado por poucas pessoas. Talvez aquela mosca na janela a compreendesse. Porque não?

8 – Mosca

O vento balançava seus cabelos, do alto daquela sacada a vida era miúda, mas não deixava de ser bonita. Era como suas olheiras. Era um fruto trágico, mas ela gostava. A insônia não a tornava mais feia, a Beleza é relativa. Noites mal dormidas tinham seu “q” de beleza. Ela poderia tirar o sábado para dormir, deitar um pouco de suas emoções na luz do dia, e acordar de madrugada para fazer uma xícara de chá e sentar-se na sacada do apartamento, observar estrelas e imaginar uma cena de um quadro surrealista, e talvez cantarolar alguma canção oportuna para aquele dia, cantar baixinho, como o zunzum da mosca inquieta e gulosa que rodeava o vidro. A mosca estava faminta. Se Lola tivesse olhos de microscópio, enxergaria a salivação daquela mosca, suas 4 pupilas dilatadas, lembrou das aulas de Biologia.  Uma mosca pode ter de dois a quatro olhos.

9 – Isabela

Isabela sonhava que estava voando por cima de um campo cheio de lírios, leve como uma borboleta, e o desabrochar de um milhão de flores tímidas encharcadas de lirismo enalteciam sua alma. Ela já estivera ali antes, em tempos remotos, andando em uma velha bicicleta amarela, já enferrujada pela umidade do tempo. E ela corria naquele campo. Nem os urubus na arvorezinha de galhos retorcidos e secos, tiravam a beleza daquele lugar. Naquele sonho, naquele lugar que ela poderia chamar de seu, amanhecia um dia de cores multicoloridas, e seu desejo incontido de ser a nuance principal daquele jardim de delícias e prazeres angelicais, se diluíam quando ela escutou o despertador a chamar para a realidade. Ela que estava tão confortável embaixo de suas cobertas protetoras, acordou com o som do carro de gás que passava na rua e com o latido incontrolável do seu cão. Sentou e chorou.

10 – Irregular

A Beleza é um verbo irregular ao qual não se conjuga. Renata escreveu no guardanapo de papel que seu pai colocou em cima da mesa do café. Embrulhou o papel e meteu ele num cantinho da bolsa. Iria para a faculdade naquela manhã, e estava entediada. Dias de tédio a fazem escrever momentos e lapsos de razão ou a falta dela, em meio de linhas tortas e sonolentas. Ela estava ali, presente de corpo físico, mas ali, nas aulas inúteis, ela pensava apenas em anjos e bisões extintos.  Pensando em seu esconderijo no refúgio da arte, que poderia ter tanto sentido para ela e Humbert Humbert de Vladimir Nabokov e sua Lolita imortalizada. Pensou na imortalidade de seu Amor, ele era como o cântico das baleias, teria de navegar longe para poder ouvi-lo, desamarrar seu barco de beira mar, e navegar em direção da beleza irregular dos olhos dele.

 

Miniconto extra. Presente para os meus leitores.

11 – Trânsito

Lançava-se nos passos na pressa incalculável. De repente, o tempo parou, seus passos diminuíram. Ficaram tímidos, como os olhos dos súditos ao soberano. Na floricultura, da esquina um lindo rapaz com um vaso de lírios. Ele saiu e foi em sua direção com um sorriso. E naquele instante, ela mirou a Beleza sem baixar os olhos. Encarou o verbo irregular, Beleza era teu nome. Estava ali o refúgio da arte que ela tão timidamente não acreditava que pudesse existir. Ela suspirou e perdeu a respiração. Seus olhos de ressaca fecharam-se, e seu corpo padecia no asfalto com pessoas ao redor feito urubus. O rapaz dos lírios foi quem atirou o lençol em seu corpo esmagado pela linha 331. A Beleza a encarou, tirando-lhe toda a razão. O tempo pra ela não tinha mais conjugações e a Beleza com lírios nas mãos exclamou: “Ela não olhou a rua ao atravessar.”

Memórias de uma mulher cansada voltando do trabalho lendo Hemingway.

Eu não quero mais mentir, usar espinhos que só causam dor, pois eu não enxergo mais o inferno que me atraiu…Dos cegos do castelo eu me despeço e vou…A pé…Até encontrar…Um caminho…Um lugar, para aquilo que eu sou…Eu cuidarei do seu jantar…Do céu e do mar…E de você e de mim…

Depois de doze horas de trabalho, chegou uma hora que meus olhos não distinguiam mais as linhas de tabelas, parâmetros e tudo mais. Status report concluído e uma sensação de fracasso que me tomou conta, pois eu acreditava que mataria o gargalo do projeto naquela noite. Foi extremamente desmotivante sair da empresa com uma sensação de peso nas costas. Posso parecer uma pessoa totalmente despreocupada, mas sou perfeccionista em meu trabalho, quero que as coisas saiam dentro dos conformes, e não foi o caso de hoje. Segui meu rumo, andando cansada no meio de todas aquelas pessoas que assim como eu, partiam para suas casas. Minha cara, meus olhos, são de cansaço agora. Escrevo aqui apenas para espantar alguns demônios pessoais, para tirar um pouco da tormenta que me acompanha. Cheguei na passarela que corta a rodovia, respirei fundo, aquela passarela, à noite, no meio das luzes amarelas, em tempos de hora extra são como luzes confortantes. Gosto da beleza das luzes amarelas dos postes e os carros passando, na paz, ora no caos, com seus faróis. Coloco uma música e passo a pensar no dia de amanhã, e que talvez eu consiga resolver grande parte dos meus problemas pendentes. E então eu escuto uma música que me traz lembranças, e um certa sensação de saudade me invade, e então um turbilhão de pensamentos e memórias e por vezes, cheiros, invadem esse coração e memória, e eu suspiro, enquanto ouço os carros passando embaixo da passarela. No ponto de ônibus, pessoas com suas cabeças baixas e mesma expressão de cansaço na face, e então não me senti mais tão sozinha naquele universo. E hoje à noite está uma noite fresca, com ventos que me bagunçam o cabelo e teimam em virar a página do livro que terminei de ler esta noite. O ônibus chega, minguado, com pessoas dormindo e uma inclusive, babando de boca aberta. E a música de Tim Buckley, chamada “Love from Room 109 – Strange Feelin” começou a tocar, e nela diz:

O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso

Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinho
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo

E então um sorriso invadiu meu rosto, mas por dentro, aqui neste frágil coração apenas uma lembrança que pode ficar apenas nos baús da minha memória, e por hora, eu até me culpo de ser tão intensa, muitas vezes devo guardar minha sinceridade apenas para mim, não devo abusar da sorte, muitas vezes eu sou assim, como o Velho Santiago do romance de Hemingway, “O velho e o mar”:

"Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado"
“Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.”

E eu estava lá, no ponto de ônibus do terminal de Barão Geraldo, esperando o segundo ônibus que levaria esse corpo cansado para os braços de minha cama. Fiquei lá, no meio do vento, sentada no banco, solitária com meu vestido vermelho e face cansada. O vento teimava em querer virar as últimas páginas do meu livro do Hemingway. Mas eu estava ali, lutando contra o vento e colocando a minha missão de terminar de ler aquele livro tão encantador. É muito incrível o poder e a forma de como uma boa leitura pode nos golpear a face com luvas de pelica. Estava eu ali, amaldiçoando a minha falta de sorte por ser assim, intensa demais, essa minha falta de noção de mostrar minhas ideias, meus sentimentos, aquela coisa de dar as duas faces para bater. Se me batem, eu ofereço outra face. Simples assim, o tempo cicatriza qualquer ferida, é o que minha sábia mãe dizia, que por sua vez, minha avó já dizia a ela. E por mais que minha mãe sempre me diz que nesta nossa vida, se alimentar de ilusões é um erro, eu sou uma errante, e naquele ponto de ônibus eu tomei uma bofetada ao perceber que nenhum ser humano, nem mesmo o magnífico Hemingway pode reconhecer a sorte e até mesmo a falta dela se aproximando. Eu diria o mesmo, sobre ilusões e expectativas, nós fingimos viver embaixo de nossos guarda-chuvas de ceticismo, mas por dentro carregamos aquela esperança boba e pura que a nossa sorte está chegando sorrindo em noite de lua cheia com vento, com os olhos mais bonitos e desconcertantes que já vimos, mas envoltos numa neblina de mistério.
Naquele ônibus das dez horas da noite, tinham duas mulheres que falavam sobre novelas e BBB, e eu que sempre presto atenção nos detalhes ao meu redor, deixei as pérolas de lado. Quem sou eu para julgar aqueles que gostam de coisas ao qual eu não gosto?As coisas são simples, para conversas alheias e desinteressantes, existe o bom e velho fone de ouvido, ou um livro, neste caso, a história do velho Santiago e sua fé perturbadora nas conquistas e força de vontade. E eu, lendo este livro, vejo que nossa fé nas coisas que acreditamos deve ficar ali, forte e decidida. Só devemos soltar nossa linha quando a Morte chega, enquanto isso não acontece, devemos acreditar na nossa força de pescarmos nossos marlins, e por mais que eles sejam devorados pela falta de sorte, sempre sobra algo de nossos sonhos, alguma carcaça, e mais tarde, alguma pessoa pode enxergar a beleza que nossa falta de sorte trouxe, a cauda de nossa fé inabalável naquilo que acreditamos, pode estar chegando, boiando na beira-costa. Talvez alguém veja e diga:

Não sabia que os tubarões tinham caudas tão belas e tão bem formadas”

A nossa fé inabalável, regada por sorte ou a falta dela, aos olhos dos outros pode ser reconhecida como uma beleza, pois nossos atos falhos nos trazem reconhecimentos, pois com nossos erros vangloriamos mais tarde com nossas vitórias, na alegria ou tristeza, sempre levamos uma boa lição ao deitarmos nas nossas camas à noite. O Velho Santiago dormia em sua cama, sua almofada era sua única calça embrulhada, seu colchão consistia apenas de alguns jornais velhos amontoados, mas aquele velho ali, que tanto amava seu amigo Manolin,e enxergava a beleza nas pequenas coisas, quando fechava os olhos, sonhava com leões, praias de areia branca da África. Humbert Humbert, de Nabokov, sonhava com bisões extintos, anjos e pensava no refúgio da arte. Eu deito meu corpo cansado em minha cama agora, que não é feita de jornais, talvez de alguns livros espalhados que durmo junto quando o sono aparece repentino e sem aviso acordo no outro dia…Acontece, muitas vezes, de eu dormir com um livro aberto no peito, e as luzes acesas. Eu estou cansada agora, quero a minha tão preciosa cama. Enquanto Manolin observa seu velho dormindo, ele sonha com Leões…E eu, incorrigivel, com minha fé inabalável, talvez com sorte ou falta de sorte, ando sonhando com um girassol. E ele está lá, em seu jardim, solitário, talvez pensando anjos e bisões antigos, ou em leões…