Memórias da madrugada: Onde as flores morrem e a ilusão em alto mar.

Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.

Ernest Hemingway

Eu poderia estar dormindo agora sabe?Mas não, é na minha insônia que encontro a paz de espírito, pois faço o balanço das resoluções do meu dia. E o que eu tenho a dizer? No meio de um monte de infinidades que atormentam minha alma, eu confesso aqui em linhas insones que eu poderia ser diferente, do que sou agora, talvez tentar ser normal, mas não, aqui jaz uma alma que tem olhos desacostumados, e sabe por quê? Porque eu tento, nesse mundo tão vazio, cheio de ideais fúteis, que não levam a nada, eu tento, como uma errante, tal como Dom Quixote de saias, montada em meu cavalo, tenta ver um mundo mais cheio de cores, mesmo ele sendo tão monocromático. Eu embaixo de um poço racional, ou escondendo-me por trás de uma muralha de uma mulher forte, dizem por aí “mais macho que muito homem”. Eu ando por aí, com meu guarda-chuva aberto, mesmo em dias de sol, eu já escrevi que estamos constantemente nos protegendo, daquelas coisas que por muitas vezes só são vistas por nossos olhos, ninguém vê, mas está lá, e você sabe que existe, no seu mundo de máscaras, aquela que tanto carregamos no dia a dia, vivemos um dia de sorrisos, uma falsa convicção, um sorriso falso de “Oi querido, tudo bem, comigo está ótimo!”, aquela mesmíssima coisa falsa de sempre. Mas por dentro, nós, humanos tolos e atores de nosso próprio espetáculo de personagens de contos de fada, sabemos que somos todos personagens de Hemingway. Já leram algum conto dele?Experimentem, ali, naquelas palavras estão traçadas a natureza nua e crua do ser humano, sem frescura, personagens com sonhos, mas numa realidade igual a que vivemos, com fracassos, vitórias, amor, desamor, ilusão. Muitas pessoas não gostam desse tipo de leitura, sabe, aquela leitura que te dá chibatadas, aquela que te faz chorar, dá aquela perturbação aquele aperto, o gosto amargo nos lábios, porque sabemos que a verdade não nos é conveniente, sabemos que quando achamos que pescamos um peixe grande em alto mar, podem vir as ilusões, em forma de tubarões, e então você luta, pega os remos da esperança e tenta acabar com cada ilusão que tenta devorar nossa vontade, aquele sonho, fisgado por mãos tão calejadas. Você sonha, você luta, trabalha feito um desgraçado ou uma desgraçada, e quando vê que seus oitenta e quatro dias de espera no mar, estão perdidos, esperamos em vão que algo bom finalmente lhe olhe nos olhos? Não necessariamente, depende dos olhos de cada um. Enquanto isso, navegamos com nossos barcos em alto mar, conversamos com as gaivotas de nossos pensamentos, e são eles, nossos amigos, de todas as horas. No momento que escrevo essa memória, que talvez seja totalmente amaldiçoada ou despercebida, eu estou deitada na minha cama. Eu tentei dormir, isso é fato que venho tentando, sabe?Ter uma noite de sono normal, mas na minha cabeça, eu estou sempre escrevendo, em sonhos, eu escrevo também, e quando não escrevo, eu acordo pensando em escrever, parece tão simples não é? Deixei meus remédios de dormir de lado. Sou teimosa, quando não se pode lutar contra algo, o que fazemos?Entregamos-nos a ela. Existem coisas nessa vida, que tem um propósito. Tal como o Velho de Hemingway, eu mantenho em mim uma Força, e não estou falando da Força tão discutida no universo de George Lucas, eu falo de uma Força frente à realidade. Não acredito em Felicidade eterna, nem em paz na república, conflitos sempre existirão. A vida é feita de momentos, e no meio de tantos momentos, vemos frames de drama, comédia, suspense. Temos sete formas de arte não é?Eu digo que temos oito… A vida integra todas as outras sete, somos atores, pintores, músicos, nós somos toda a maravilha da arte, de forma condensada, conseguem ver isso? Já parou para pensar, para olhar com outros olhos, toda a intensidade e beleza do que está ao teu redor, ou apenas pensou em juntar dinheiro para ter um carro zero? Aí que está… Nós andamos pelas ruas e chutamos as flores que nascem no asfalto. Um dia me escreveram que elas são amaldiçoadas pela falta de atenção. É meus amigos, e você, já deu atenção para as coisas ao teu redor? Já amou alguém, ou Amor é uma palavra tão desconhecida quanto um termo jurídico escabroso qualquer? Muitas pessoas dizem por aí, ahhh eu amo? Você ama o quê?Já parou pra pensar? Ou tem medo de enlouquecer? Sim, evitamos pensar nos dilemas que nos atormentam, fazemos com eles o que fazemos com as flores que nascem no asfalto, ignoramos, ela está lá, vai morrer um dia.

 

Numa manhã, certo dia, eu tirei uma fotografia de uma dessas centenas de flores que nascem por aí. Hoje eu digo centenas, pois eu vi que ela não era única no bairro em que eu moro. Da janela do meu ônibus de todos os dias, eu vi várias, numa imensidão de cores. A flor que eu fotografei, não existe mais, assim como o girassol tão bonito que eu via num jardim todas as manhãs. Mas sei, eu não desisto, eu sei que novas flores nascerão novamente, sei que pássaros brincalhões e com fome, na sua festa, no banquete de seus dias, ao pousar naquele girassol, derrubaram algumas sementes no chão, e ele nascerá lá novamente, tão belo como seu sucessor. Vejo o girassol, como uma metáfora de esperança, de luta. Quando achamos que nossos ideais e sonhos morreram, ou que fomos vencidos pelo Tempo, eis que ressurge uma nova esperança, basta a nós aceitá-la ou não, e por mais que possa vir a ser uma ilusão, quando vistas no horizonte, por outros olhos, ela podem a ser belas, porque não? Ilusões destroem, mas fazem parte dos nossos dias de ir e vir. Quando nos cansamos, vamos deitar, em nossas camas, mesmo elas não sendo feitas de jornais velhos, quando chega a noite, caminhamos em praias de areia branca, cheias de leões, ou qualquer outra coisas que seja agradável, mesmo que fuja de nossa realidade. Mas não nos esqueçamos, de olhar as flores do asfalto. Vamos deixar nossa arrogância de lado, nossa maldição, a falta de atenção. Um dia me disseram que aquela flor não pediu para nascer, mas nasceu, ali, no asfalto, amaldiçoada pela nossa falta de atenção, e não existe nada pior nesse mundo, que o desprezo. Eu sigo minha luta, em alto mar, um pedaço de linha nas mãos, faça sol, chuva, eu sigo, navegando no oceano de minhas convicções, e no meu desconforto, eu sigo com os olhos bem abertos, sou uma mulher forte, que não perde jamais a esperança de dias melhores, me chamem de tola… Os tolos são justamente tolos, por acreditarem sempre que dias melhores virão, mesmo sabendo que os contos de fada existem apenas nos livros. A realidade é bem diferente, a vida nos dá bofetadas no rosto, o príncipe na verdade sempre será sapo, cavalos brancos sempre nascem rebeldes, a beleza não é eterna, dinheiro não traz felicidade, nada é eterno. E a única certeza que temos nessa vida, chama-se Morte, e o Tempo, que tentamos enganar sempre, achando que aqui ele sempre vai existir. Ele é breve, não vamos perdê-lo com coisas mesquinhas, a vida é curta meus amigos, e não se vive sem correr riscos, e a vida é assim, como o oceano, imprevisível… Temos dias calmos, de maré baixa, marolas tímidas, outros amaldiçoados pela falta de sorte e nós não conseguimos prever, nem a sorte, nem a falta dela. Boa noite!

Querida, eu já estive aqui antes Eu vi este quarto, eu andei neste chão Eu vivia sozinho antes de conhecer você E eu vi sua bandeira no arco de mármore E o amor não é uma marcha da vitória É um frio e sofrido Aleluia... Leonard Cohen
Querida, eu já estive aqui antes
Eu vi este quarto, eu andei neste chão
Eu vivia sozinho antes de conhecer você
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
E o amor não é uma marcha da vitória
É um frio e sofrido Aleluia…
Leonard Cohen

Por quem os sonhos dobram.

Começarei com duas citações, que só serão entendidas ao final do texto:

Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança. Ernest Hemingway

Um bom romance é qualquer romance que nos faça sentir. Ele deve enfiar sua lâmina por entre as dobras do couro com o qual a maioria de nós cobre.  A sensação que nos causa não deve ser puramente dramática, e pronta, pois, a desaparecer assim que ficamos sabendo como a história acaba. Deve ser uma sensação duradoura, sobre questões que são, de uma forma ou de outra, importantes para nós. Virginia Woolf.

Ela dormia, numa noite quente de outono. Deveria estar frio, pensou ela, enquanto se arranjava para dormir, madrugada adentro. Na sua mente de escritora amadora, as madrugadas foram feitas para escrever, elas têm o dom da criação, o poder de imortalizar qualquer forma de arte, desde as mais abstratas, produzidas por loucos envoltos nos absurdos de  suas camisas de força ou perdidos em bairros boêmios  olhos abertos na noite, consciência etílica, porém tão racional, incompreendida por muitos, ignorada ou até mesmo o orgulho. Sim o orgulho, ou olhos desacostumados…Olhos desacostumados, seria medo, passos de menino desajeitado, ocupado, cansado, nos dias de ir e vir, a falta de sorte ou o excesso dela, quem sabe? Estava ela ali, perdendo a insônia, aos poucos, querendo fechar os olhos. Nas suas férias, ela queria apenas escrever, colocar as entranhas pra fora, ganhar algo por isso. Concursos literários estão por vir, queria ela um pouco de sorte, um beijo na cara que ela dá a bater. Mulher corajosa, sem medo, sem vergonha, talvez quase sem limites. A intensidade da alma lhe dói, sentir machuca. O mundo é menos cruel com os insensíveis, aqueles que fazem das pessoas uma marionete numa peça de teatro amador, de quinta categoria. Não era uma atriz, e se fosse, seria uma em teatro shakespeariano, de Amor e tragédia, aos olhos emocionados daqueles que a leem, um olhar perdido daquele que ela ama ou seria um Amor dissimulado, um eco, servido ao molho pardo e alcaparras. Não podemos engolir o eco, engolimos o ego, à seco, mas ecos não, apenas gritamos, e eles respondem do outro lado, tortos e dissimulados, e outras vezes, gritamos e nem o eco responde. O eco também aprecia o silêncio, e ela, não sabe lidar com ele, o Silêncio, mas tenta, caindo feito bêbada, mas sóbria, na sarjeta dos seus sentimentos. Mas ela não desiste, segue mar adentro, com suas folhas escritas, ego emudecido, marolas de razão e sensatez, mas com a sede de viver sem perder os segundos. Enfim, dormiu, e quando fechou os olhos que já o olharam sem medo, mas com um pingo de timidez dissimulada, mãos trêmulas, lábios úmidos…Fechou os olhos e sonhou…

Estava ela na sua velha casa em que morou na infância. Estava apoiada no muro, observando o movimento noturno. Ela estava em um lugar de seu passado, e as crianças que ela via brincando na rua, eram as mesmas crianças que ela brincava na rua sem saída, com seus 8 anos. Ali naquele muro branco, com pintura descascando, algumas rachaduras na parede, calçada com pedras soltas, ela observava, calada.  Saiu de lá, queria caminhar na rua, a lua estava soberba e inspiradora. Saiu pela porta da frente, a que dava pelo jardim, flores mortas, outras vivas, cheiro de terra molhada, mesmo sem chuva. Sonhos nos proporcionam momentos sem sentido, e na cabeça dela, a terra não poderia ter aquele cheiro, a não ser que tenha chovido ou alguém tenha molhado ela.  A terra estava seca, como se há dias ninguém cuidasse de seu jardim. Teve ela uma infância triste, mas com momentos alegres, momentos em que brincava num balanço velho de praça, com o sorriso banguela, corpo franzino. Aquele que a tira da toca, conserva suas fotos de infância. Queria ela, numa tarde de final de semana, não onírica, numa realidade próxima, uma tarde tranquila num dia ensolarado, sentar ao lado dele e lhe contar cada detalhe daquelas fotos, datadas de dezessete anos atrás. Falaria ele sobre as formigas, seu senso de organização, vida em grupo? Eis aí seres em cooperação, nenhum ser em vida é uma ilha, por mais que queremos às vezes nos esconder em nossas cavernas, viver como eremitas, num buraco solitário improvável onde reina uma única formiga, distantes, de tudo aquilo que nós possa machucar ou enganar nossas convicções, dizer à nossa vida que aquilo que nos motiva, que nos dá disposição para seguir em frente, não passa de uma ilusão dos homens, ou sonhos de madrugada quente de outono.

Estava ela lá na rua, sentada na beira da calçada, embaixo de uma árvore cujas raízes quebravam a calçada. Pensou nele, era o que ela mais queria naquele momento, era saber se ele estava bem. Eis que vindo despreocupado, rua abaixo, vinha ele, mãos nos bolsos, boina azul, que combinava com seus olhos tímidos porém tão inquisidores. Chamou o nome dele, ele olhou em direção à ela, deu um sorriso. Deus sabia como amava aquele sorriso. Se abraçaram, abraço leve, rápido, porém cheio de intensidade, um instante que ela queria que não acabasse. Ele a beijou na face, sua barba por fazer causou-lhe um arrepio.

– Está tudo bem contigo?Parece cansado… – disse ela, olhando-o nos olhos, ela não sabia, pelo menos era o que pensava ela, falar apenas com o olhar. Ela queria ser mais silenciosa, agir quem sabe na surdina, falar menos e pensar mais. Seria possível?A razão de seus problemas frente à sociedade retrógrada, era que ela era uma mulher que pensava demais e falava em demasia. Escritores e escritoras jamais se calam. É com as palavras que eles gritam seus desejos, derramam os copos cheio de cólera, abraçam seus amores, beijam, transam, imortalizam aqueles aos quais se apaixonam, mesmo sendo imoral, na visão de Oscar Wilde, ou seria na visão de seu personagem Lord Henry? Personagens são ecos disfarçados daqueles que os criaram. Cada criação carrega um pouco da vaidade de seu criador, algumas mentiras, meias verdades, e um poço profundo cheio de sinceridade que por muitas vezes dói. Em tempos de idade média, o silencio tímido de uma mulher era tido como algo de obrigatoriedade. Em tempos modernos, em tempos de machões que acham que vivem numa época feudal, de vassalos e servos, a mulher ainda tem de ser mantida na sombra, no porão escuro de seus desejos. Mulher não tem o direito de desejar…Reprime…Eis aí o coeficiente da razão tingida de cores mesquinhas. Até quando, pensa ela?

Ele disse que estava cheio de coisas pra fazer, tinha acabado de chegar do trabalho e estava apenas caminhando para colocar os pensamentos em ordem. As crianças continuavam a brincar, mas parecia que o tempo parou ali. Queria agarrar os ponteiros do relógio e não largar mais. Chamou ele, pra uma festa, no final de semana sabia ela que ele não teria tempo, ou não teria vontade, ou sabe-se lá mais o que.  Aquele homem ali na sua frente, era uma incógnita, o brilho de uma estrela incompreendida, e que talvez já morreu, mas seu brilho, na mente dela, durava anos luz, e nunca morriam.    Ele foi embora, pensativo, dobrou a esquina. Ela ficou parada, na rua, vendo ele partir. Voltou pra sua casa, e ficou apoiada no muro, talvez ele voltasse. Talvez…

Pausa, ela não se lembra o que aconteceu naquele meio tempo, durante seu sonho. Talvez ela brincava com os cachorros que teve correndo e cagando pelo quintal. Talvez ela estava a olhar para o céu, tentando entender as estrelas ou ser abduzida por extraterrestres do Arquivo X. No trecho que se lembrou, ela estava sentada num banco de jardim, ao lado da escada que dava pra garagem, que ficava na parte subterrânea da casa. E lá veio ele, subindo as escadas, mãos fora dos bolsos, cabelos desalinhados, a boina sumiu… Coisa de sonho, ou talvez ele tinha perdido, ele lhe disse um dia que costumava perder ou esquecer as coisas. Igual ela, esses dias, ela perdeu as chaves de casa, chegou em frente de sua casa e esparramou as coisas da bolsa na calçada de concreto liso. Era tarde da noite, incomodou a senhora que alugava sua casa a preço de banana. Ela apareceu, de pijamas, e lhe deu uma cópia das chaves. A música de Adriana Calcanhoto na cabeça…

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será, que você está… Agora?

Estava ele lá, na sua frente, disse-lhe que iria para a festa ao qual foi convidado. Os olhos dela sorriram, sua boca o fitou, sim, essa mistura sinestésica, queria sentir o cheiro dele, na pele…Foi embora, lhe deu um sorriso tímido, daqueles de canto de boca. Deixou seu cheiro no ar, junto com a saudade de seu sorriso de fração de segundos.

Como o tempo em sonhos não tem uma ordem cronológica lógica, o final de semana chegou rápido. Ela saiu do elemento cenas da infância em tempos presentes, e estava no local onde seria a festa. Era uma chácara grande, num bairro conhecido da sua cidade, com um casarão cheio de suítes, com grandes janelas que davam para o horizonte. No horizonte daquela janela, haviam vários templos religiosos, grandes sultuosos, seria que aquele sonho, o seu inconsciente talvez a estivesse chamando atenção para sua falta de crença, ou falta de atenção para o seu lado espiritual? Esta foi uma das incógnitas, que ficou questionando quando ela abriu os olhos marejados. Ela tomou banho, colocou seu melhor perfume, preparou-se, um ritual, cheio de felicidade. Escutou um barulho, estava de biquíni, desceu as escadas do casarão, parou na porta, ainda colocando desajeitadamente um vestido por cima da roupa de praia. Ele chegou, estava de camisa, branca, olhos de dilúvio, sorriso, olhou pra ela com expressão de desejo, rindo do jeito desengonçado com ao qual ela tentava colocar o vestido enquanto caminhava, ela suspirava  esbaforida, uma ansiedade e um desejo incontido. Abraçou-a fortemente, deu-lhe um beijo, que somente os que vivem a intensidade das brincadeiras do inconsciente, podem sentir. Parecia tudo muito real. Ele estava suado, no abraço, sentiu as costas dele molhadas, a camisa estava úmida, ela também. Ele perdeu-se no cheiro de seus cabelos molhados, na delicadeza do tecido do vestido que a cobria. Ela sentia o cheiro dele, um cheiro natural, bom, de homem feito, uma mistura de sua colônia borrifada de manhã, resquícios de perfume fabricado com o mais divino cheiro natural. Ela tinha aquilo com ela, ela é de uma natureza selvagem, e aquele homem a decifrava com os olhos, sem dizer uma única palavra, ela se perdia, ele interpretava seus mitos, sabia ele que ela era uma mulher que corria à frente dos lobos, perdida em pradarias, estepes, mas sempre sem perder o medo, mostrando os dentes, salivando de desejo, na cólera, na raiva, na emoção, no Amor, na dor, em todas as quatro estações. E ali naquele abraço, tão real, tão sensato, ele lhe disse ao pé do ouvido:

– Tome um banho…comigo…

Sabia ele, que ela já havia feito isso, e talvez sabia, que ela faria de novo…E de novo…Até toda a sua pele ficar enrugada. Uma mulher intensa cheia de sentimentos, não perde seu tempo, ela aproveita até o último momento, e quando o momento não foi aproveitado por n razões, seja por freios do ego ou orgulho, ela se lamenta, até a último segundo de tempo perdido. Ela abraça os ponteiros do relógio, e propõe ao Tempo um jogo erótico. Talvez, se o Tempo pudesse ser levado na base da chantagem emocional ou sexual,  estaria todo boêmio, cheio de doenças, todo mundo seria imoral, até aqueles que se recusam a cair na tentação. Todos nós nos entregamos à ela, quando não conseguimos lutar mais.

Subiram para o quarto, eles contemplavam o horizonte na janela, cheio de templos. Chamava a atenção, naquele horizonte, um templo budista amarelo, igual a cor de um girassol. Os monges regavam um jardim, e um deles segurava um vaso com um lindo girassol. O sol brilhava lá fora, e o girassol estava imponente, soberano como o seu semelhante que reina no céu.

Ela acordou, com  estrondo do trovão. A noite que começou quente, trouxe o frio sereno e agradável do Outono. Estava deitada, num colchão, na sala da casa do irmão. Acordou suada, e viu que agarrava o travesseiro, o abraçava, e ele estava molhado. A triste realidade a deu uma bofetada na cara, seu Amor não era um homem, era um travesseiro, e ela estava sozinha, ali naquele lugar, no escuro. Subiu no sofá, estava amanhecendo, olhou a manhã tímida querendo nascer, bocejando pra ela. Escutou o som dos pombos imundos que ficam no telhado do prédio, viu os líquens brotando nas paredes rachadas do prédio, viu o brilho das luzes acesas, sombras de pessoas que assim como ela, acordaram para a vida. Foi o sonho mais lindo que ela já teve, ela estava suada, era como se o abraço dele tivesse aquecido, como se tivessem transado até as forças se acabarem, e deitarem um ao lado do outro. Quando se deu conta de que tudo era uma pegadinha do inconsciente, pegou um caderno, uma caneta perdida em cima da mesa. Deitada no sofá, começou à escrever, e você, querido leitor, está lendo sua alma cheia de sonhos…

“Todos precisam de alguém para conversar – disse a mulher. – Antes tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”

Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway

Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.
Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.

Trilogia do Vento – Vaidade, Cólera e Desejo – Parte 1: A Vaidade

Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Eclesiastes 1:2

Georgia penteava os cabelos com uma escova de cerdas macias. Sentada na cama, ao acordar, a primeira coisa que ela fazia depois de colocar os dois pés no chão, era dirigir-se até a penteadeira e escovar os cabelos. Era um carinho, uma espécie de ritual, um carinho diário de todas as manhãs, enquanto seus olhos se mantinham pequenos e inchados de uma noite de sono. Vários fios de cabelo ficavam presos na escova, e ela tinha medo que o número de fios de cabelo perdidos ultrapassem os cem fios diários. Leu numa revista de beleza, que toda mulher perde em cerca, 100 fios de cabelo todos os dias, sendo eles repostos por novos fios. Ela não contava os fios perdidos, tinha medo de enlouquecer.

Sua tia Berenice tinha câncer, e os seus cabelos antes tão bonitos, não existiam mais. Eram pretos, ondulados, e volumosos, Os cabelos de Tia Berenice ganhavam vida conforme o vento os balançava. Tia Berenice era o sonho e desejo de muitos homens, e continua sendo, mesmo ela não tendo mais a esperança de que a Beleza e o vigor de sua juventude possam voltar como que um milagre bíblico ela sentia-se como um Sansão de saias. O câncer chegou e arrancou toda a sua força. Sua doença era como uma metáfora bíblica, ela era agnóstica, e não acreditava em milagres. Já passou-se o tempo em que seus cabelos eram afagados pelas mãos dos homens que tanto amou na vida.

Tia Berenice usava um lenço colorido na cabeça, e eles sempre combinavam com seus olhos azuis. Apesar do rosto envelhecido e cheio de rugas, marcas de experiência e sabedoria de vida, Tia Berenice nunca perdeu a beleza que fazia o trânsito parar na glória de sua juventude. Ela gostava de ler, e ela era teimosa feito uma mula, recusava em usar óculos, recusava qualquer forma que provasse à sua consciência que o tempo chegou pra ela. Ela comprava livros num velho sebo cujo dono era seu namorado, e eles transavam no chão ao lado de prateleiras cheias de livros, alguns cheirando a mofo e com traças famintas. Hebert, o dono do sebo, adorava os cabelos negros e ondulados de Berenice, e quando Georgia passava em frente à loja, uma vez por semana ele lhe entregava um livro para ela levar à tia. Hebert sabia todos os livros que Tia Berenice já havia lido. Ele era apaixonado por ela, mas Berenice sempre foi uma alma livre, consistente no espírito idealista e livre da década de setenta. Tia Berenice envelheceu, perdeu os cabelos, mas nunca deixou de devanear sentada em sua poltrona velha da sala. Seus olhos vagavam longe nas páginas de um livro. Seu corpo era coberto pelas suas antigas vestimentas hippies, e ela mesmo doente, continuava fumando um cigarro atrás do outro. Cigarros mentolados, que ela acreditava que fazia-lhe menos mal que cigarros “convencionais”. O seu médico proibiu os cigarros, mas sua alma era orgulhosa demais para abandonar aquilo que ela gostava. Já havia perdido os cabelos, e tal como Sansão, sua Força foi embora, só que ralo abaixo… Desde então, tornara-se uma pessoa amargurada. As águas de suas emoções não passam mais pelo seu coração, já adoecido com três pontes de safena. Seu coração estava entupido pelos fios de cabelo que caiam aos montes no ralo do box do chuveiro. Georgia nunca esquecia a cena em que sua Tia Berenice gritava e chorava desesperada, nua, com metade de um seio extirpado  e com os fios de cabelos que lhe restaram, todos ao chão, sendo varridos pela água morna do chuveiro. Desde aquele outono, Berenice quebrou-se em centenas de cacos. Georgia tentava o tempo todo recolher os cacos e tentar trazer de volta o vitral da beleza e força de viver de sua tia, mas por mais que juntasse os cacos, o vitral nunca se completaria. Tia Berenice era incompleta.

Um dia, numa manhã de outono, três anos após o acontecimento trágico que ocorreu à sua Tia Berenice, embaixo de águas mornas, Tia Berenice apareceu-lhe ao pé da cama, sem o lenço cobrindo a cabeça. Ela tinha um sorriso no rosto, algo que Georgia não via há tempos, mas o velho e aromático cigarro mentolado descansava no canto dos lábios.

Bom dia Georgia…,

Tia Berenice era uma mulher de poucas palavras. Quando ela, nas raras vezes conversava, acontecimento em festas de família em que ela bebia escondida, Tia Berenice sempre falava do saudosismo da década de setenta, onde seus cabelos eram longos, pretos, brilhantes e ondulados. E o quão bonitos e selvagens ficavam quando o vento batia neles. Ela foi até a penteadeira de Georgia, e uma voz doce com cheiro de cigarro mentolado invadiu o quarto:

Este móvel era onde eu e sua mãe escovávamos os cabelos todas as manhãs. Eu brigava com tua mãe, pois neste espelho, como pode ver, há espaço para apenas uma imagem. Eu sempre fui difícil e quase invencível, e não nego, egoísta. Logo, sua mãe não perdia o tempo dela discutindo comigo.

Ela riu, Georgia viu seus dentes amarelados pela nicotina do tabaco de todos os dias. Fazia tempo que não via sua Tia Berenice soltar uma gargalhada tão gostosa. Tia Berenice puxou a cadeira em frente à penteadeira, num gesto batendo as mãos no assento da cadeira, chamou Georgia para sentar,

Sente-se aqui querida, vou-lhe contar uma história

Georgia saiu da cama, com os cabelos longos e negros, desgrenhados, como se ela tivesse saído de uma tempestade de vento, sentou-se na cadeira e sua Tia Berenice pegou sua escova de cerdas macias e um spray de colônia perfumada para cabelos.

Quando eu era jovem como tu, meus cabelos eram longos e bonitos quanto os teus

Soltou uma fumaça mentolada no ar, e penteava suavemente os cabelos de Georgia, num carinho saudosista, alegre, porém com um “q” de tristeza que talvez somente ela poderia compreender.

Eu era muito parecida contigo. Os homens me desejavam como uma tempestade que deseja fazer amor com o vento. Já fiz muitas coisas nessa vida, muitas coisas erradas, inclusive. Nos dias de chuva, eu trançava meu cabelo, em dias de praia, eu os deixava soltos, enquanto eu caminhava pela areia próxima onde as ondas quebravam, Quando eu me abaixava para colher conchas, a água das marolas molhavam as pontas dos meus cabelos. Você já amou alguém Georgia? Já sentiu o afago das mãos de um homem, por entre os cabelos?Não há nada mais divino, minha querida, que as mãos de um homem no meio de nossos cabelos, enquanto nos beija na boca. Mãos que percorrem gostosamente perto daqueles fiozinhos tímidos e finos que terminam na nuca, dedos que afastam nosso cabelo para perto do lóbulo da orelha. Sinto falta de meus cabelos minha querida, e quando eu lhe vejo, na flor de sua juventude, eu permito-me dar um sorriso por dentro…Sinto muita falta…Muita falta…

Os cabelos de Georgia estavam impecavelmente escovados, e com cheiro de água de colônia.

Agora Georgia, minha querida, coloque isto, sua beleza ficará indiscutível e terá todos os olhares dirigidos à você

Tia Berenice entregou-lhe um pacote, com um vestido azul, da mesma cor de seus olhos. Georgia e Tia Berenice tinham os mesmos olhos azuis, era herança de família. Era um vestido de viscose indiana, e aquilo foi a coisa mais bonita que cobriu o corpo de Georgia até então. Georgia pegou os livros da faculdade, tirou o celular do carregador, e desceu as escadas. Tia Berenice esperava na varanda, fumando como sempre, seus cigarros mentolados Lucky Strike.

Está linda querida!

Tia Berenice chorava, abraçou Georgia e lhe deu um beijo demorado na testa.

Vá com Deus minha querida…

Georgia foi para a faculdade, e percebeu que atraiu olhos que nunca haviam lhe dado atenção. Parecia que naquele momento a sua vida tinha tomado um outro sentido, era como se o vento que batia em seu rosto, lhe trouxesse algo que nunca vivenciou.

Horas mais tarde, ao chegar em casa, seus pais estavam na sala, cabisbaixos. Na sala, um cinzeiro lotado, com cheiro de menta. A poltrona onde sua Tia Berenice passava seus instantes lendo ou dormindo, estava vazia. Tia Berenice morreu naquela manhã, próximo do almoço, naquele sofá, segurando uma fotografia de quando era jovem, com cabelos compridos. Na fotografia, Tia Berenice vestia o mesmo vestido de viscose azul indiana que acariciava o corpo de Georgia.

O enterro foi no dia seguinte, pela manhã. Georgia disse à mãe que demoraria alguns minutos, que pegaria depois um táxi até o velório. Foi ao quarto que era de sua Tia Berenice e pegou um maço de seus cigarros mentolados. Acendeu um, passou mal na ´primeira tentativa frustrada de tragar. Em frente à penteadeira,escovou os cabelos, borrifou colônia perfumada, pegou uma tesoura, e cortou os cabelos rentes à nuca. Seus cabelos estavam na altura da cintura, e agora eles não existiam mais. Chegou no enterro, com os cabelos curtos e desalinhados. Carregava consigo uma caixa, e nela continha as madeixas negras que sua Tia Berenice tanto amava. No caixão, vestida com o vestido de viscose indiana da mesma cor de seus olhos já sem vida, Tia Berenice parecia sorrir.

espelho+quebrado[1]

 

 

Minha falta de paciência

Pensei em coisas altamente pornográficas naquela mesa de bar. Permita-me, senhor elegante, ser devorada por ti em sonhos insones. Aqui neste lugar, onde o vinho escorre na minha garganta já tão sufocada pelo pretérito da saudade, penso em beber-lhe, assim, como goles de saudade, como goles de Amor que está tanto em falta neste mundo. Até mesmo eu, errante apaixonada, dom quixote de saias, deixo-me levar várias vezes que o Amor é apenas uma invenção tolas dos homens, descritas em versos de Petrarca. Uma loucura arquetípica dos homens, um devaneio não desmentido ainda pela ciência.

Aqui nessas linhas, não há espaço para pudor algum, não há nem um centímetro para descrever vergonha. Aqui é lugar de pouca vergonha, dou-lhe meu rosto para bater, sendo que uma face é pra bater, outra é beijar, como quiseres. Tiro minhas roupas em frente aos teus olhos tão desacostumados às coisas vazias deste mundo, talvez isso lhe traga algum momento de coerência, lembrando que Ícaro, da mitologia grega, também achou coerente colocar um par de asas e voar bem próximo ao sol. Em sua verdade imposta pelo sonho dele, ele caiu ferido e queimado no ar. Suas asas, estavam pesadas. A água do mar trouxe-lhe o peso da realidade.

Queria agora, devorar-lhe com os olhos, queria agora, neste instante, que rasgasse meu babydoll caro de seda e renda. Queria agora 12 horas de putaria num quarto de motel. Queria agora meu corpo insanamente encharcado com sua saliva. Isso te envergonha?Desculpe-me senhor, não sou mulher de meias palavras. Sou mulher para ser amada sem pudor num quarto de motel ou qualquer lugar ao qual pudermos transar. Quero sentir-lhe entre minhas pernas, como um errante perdido no meio da estrada, queria gemer em seus ouvidos, transbordar em você todas as minhas gotas de razão. Queria eu, ao fitar teus lindos olhos azuis, perder-me em um milhão de parábolas talvez inexplicadas. Queria ser eu, aquela que lhe tira o sono, mesmo sendo um homem cansado e cujo cansaço seja talvez em excesso, meu motivo de ser sua insônia repente em minutos de cansaço, abra-lhe um sorriso tímido nos lábios. A saudade de seus beijos me fazem perder a paciência…

Escritos de terminal de ônibus.

Saí hoje de meu trabalho com meus velhos fones de ouvido, viajando nos instantes das notas musicais. Gosto de atravessar a passarela da rodovia, depois de um dia cheio de trabalho. É uma forma de paz, de missão cumprida, não importando o tempo de mais ou tempo de menos que eu passei no meu trabalho. O simples fato de ter atravessado aquela passarela, significa que foi mais um dia de labuta. É uma forma de gratidão incontida, o vento batendo-me no rosto, os carros passando lá embaixo em velocidades variadas. Às vezes eu paro e fico olhando a movimentação, as luzes amareladas, a cidade no horizonte, e coloco-me a pensar no meu dia, nas minhas vitórias, meus fracassos, meu Amor, e também, nos dias que virão. Esses dias futuros, eu os encaro como uma probabilidade. Uma probabilidade que possa acontecer ou não, pois os dias futuros, na maioria das vezes é focalizado em nossas mentes pensativas, como um sonho a se realizar, e nós não temos controle nenhum no nosso destino, pois se fosse assim, acredito que ninguém teria dificuldades nessa vida, pois nós controlamos nosso destino. Ninguém quer ter o destino de morrer atropelado por um caminhão desgovernado. Essa coisa de destino, faz-me lembrar de minha avó, que está internada e em coma num quarto de UTI. Ela sempre nos dizia que passaria dos cem anos, porque ela vivia a base de feijão, farinha, banana, pinga e cigarros. E quando ela fosse morrer, ela não sentiria dor, pois ela morreria dormindo. Quem vai poder nos dizer, que ela sofreu?Depois de um AVC, pneumonia e infarte, logo levada inconsciente para o hospital, sem ter o poder de dizer o que sentiu…Teria ela, mulher de 75 anos, que nunca foi internada em uma hospital, realmente não sentido dor?

Confesso que tomo consciência, de que alguns dias nunca virão me saudar com o amanhecer na janela. São aqueles dias de utopia, aqueles sonhos que nós almejamos,. O que sabemos nós, meros mortais, meras incógnitas que não é compreendida nem por nós mesmos, o que nós temos controle do nosso destino?Mesmo que ele seja onírico, os sonhos que carregamos conosco nem sempre é realizado, ou quando são, não são iguais aos contos de fada. Sim, podemos nos surpreender? Pode ser algo que não imaginamos, ou algo melhor ainda do que achávamos que fosse, mas sempre, SEMPRE ficará a dúvida…Minha mãe sempre diz, que na dúvida, fique sempre com o benefício dela. Sejamos otimistas, mas um pouco de pessimismo é ter os pés fincados no chão. Temos que nos permitir delirar em sonhos, mas lembramos que para um sonho se realizar, temos que ter as raízes bem plantadas no solo, mas, árvores também morrem, mesmo aquelas que são regadas todos os dias. Talvez nossa luta, seja cega, surda e muda, nossos sonhos sejam apenas um escopo de projeto que chegou em deadline. Lutamos, lutamos, lutamos, mas a luta chegou ao fim. Vamos enterrar nossas espadas na pedra. Talvez vamos voltar mais tarde, retomar nossa luta, ou esperaremos que alguém retire a espada cravada na pedra da derrota, vamos esperar, tem pessoas que esperam, de braços cruzados, sem mover a bunda da cadeira. Vivem na comodidade de não fazerem porra nenhuma e se aproveitar do sonho dos outros. Enfim, é apenas mais um desabafo escrito à mão, num terminal de ônibus num bairro universitário suburbano.

Quando minha pele estiver enrugada, todos os meus fios de cabelo estiverem brancos, meus olhos, tão grandes e arregalados, estiverem miúdos e caídos, ainda lembrarei dos meus sonhos que eu tive em minha vida inteira, a não ser que eu esteja debilitada demais mentalmente. Eu penso que quando eu envelhecer, no fim dos meus dias aqui nesse universo, eu vou perder a senilidade, e não saberei mais o que escrever num editor de textos, minhas mãos talvez irão tremer, e eu mal conseguirei segurar minha caneta. Eu terei um mundo esquizofrênico ou um mundo sem memórias, não reconhecerei os olhos das pessoas que eu amei ou amarei em vida. Uma vez eu ouvi uma frase, que dizia que a Morte, quando se aproxima, nos priva primeiro daquilo que mais amamos. Eu amo escrever…Talvez eu perca isso um dia, algo me privará daquilo que eu amo tanto. Penso que um dia, não terei mais a eloquência suficiente para escrever o que eu penso. É uma sensação que levo comigo, pois eu gasto tanto minha mente com minha hiperatividade, que por instantes é acalmada com um comprimido de Rivotril de meio miligrama, e mesmo com ele, nas noites que eu não consigo desligar-me de minha tempestade de ideias e indagações, ele me dá sono, e no sono meus pensamentos são transmutados para os sonhos, nas minhas poucas horas de sonhos, eu, inconscientemente ainda não atingi a minha paz.

Eu sou intensa demais para deixar uma palavra ou várias delas, passarem batido, despercebidas. Eu sou mulher demais para confessar que eu amo mesmo não tendo certeza sobre o outro lado da moeda. Isso não me mata, pelo contrário, me fortalece. Aquele que se cala perante meu turbilhão de indagações, tagarelices, loucuras e momentos de “sensatez insensata”, é aquele que me cativa. Eu gosto daquilo que me é contrário, pois me completa no sentido de me ensinar aquilo que eu não tenho. Não costumo ser silenciosa, logo uma alma silenciosa faz-me aprender a ser mais contida e menos verborrágica, no sentido não de escrever menos, mas de conversar com os olhos, sem ter que cuspir um milhão de palavras. “Dê tempo ao tempo “, sempre diz a minha amável e sábia mãe. Eu tento, desengonçadamente, não contar as horas, minutos e segundos para o alvorecer de um sorriso. A Vida ensinou-me a Amar tudo aquilo que eu carrego nela. Se a solidão e o silêncio andam comigo, de mãos dadas, eu abraço a decisão de que não poderia ser melhor, mas tenho sã consciência que a Vida é uma caixinha de surpresas, e muitas vezes nossas convicções são traídas com um belo tapa na cara, e uma cara de surpresa. A vida é uma incógnita, um sistema escalonado sem solução…Ela é bipolar, nos abraça com suas maravilhas de instantes, mas nos dá chicotadas nas costas, e elas podem ser cruéis, muito cruéis, somente o Tempo e sua Sabedoria poderão curar nossas feridas.

Eu seria muito imbecil se eu acreditasse que poderíamos ser felizes o tempo inteiro, que o Amor sempre será mútuo, que teremos um Amor para a vida toda. Nós vivemos num mundinho que instalou a cultura de que tudo é descartável. Eu acho lindo, aqueles casais de idosos que estão juntos desde a mocidade, um acompanhando as derrapadas e vitórias durante tantos anos. Minha avó diz, que o segredo das pessoas que vivem juntas por muitos anos, é que elas não tratam as pessoas como coisas descartáveis. Se há uma briga no casal, a primeira coisa a se fazer não é pedir divórcio, é sentar e conversar, e não jogar fora como um brinquedinho de plástico. Em falar em divórcio, via a dois e tudo mais, eu sou uma mulher que não tem o sonho tão clichê e simbólico de casar numa igreja e fazer uma mega festa. Hoje, o casamento é uma instituição falida. Sou partidária que não há problema algum, juntar as escovas sem casamento. Se um dia, eu for casar, se isso for realmente necessário, será uma cerimônia bonita em um cartório, e depois um churrasco para os mais chegados. Não quero gastar com festas e tudo mais. Prefiro guardar a grana que gastaria para um casamento, para usar numa lua de mel. Prefiro gastar meu dinheiro em noites tórridas de sexo na Europa, do que encher a pança de pessoas que sairão reclamando da festa, e depois eu terei boletos e boletos pra pagar. Desculpem-me as mulheres sonhadoras de véu e grinalda, isso apenas é uma opinião minha, e confesso que muitas vezes eu gostaria de ser mais “normal”, ter aquela coisa de casar na igreja, agradar meus pais, avós católicos, mas não é meu ideal de vida. Eu faço aquilo que é melhor, se meu parceiro, aquele que me acompanhará não faz questão de casamento, ótimo. Eu sempre digo que conheço casais que não são casados, mas que possuem mais sinceridade e amor mútuo do que muito casal com aliança grossa no dedo. A hipocrisia impera neste mundo, aquele que lhe diz que você errou por não ter casado, tem um casamento infeliz.  Pode apostar que o divórcio está chegando em galopadas de guerra.

Antes só do que mal-acompanhada. Eu sempre acreditei neste ditado. Acostumei meus olhos e instintos que viver sozinha é uma forma de aprendizado e auto-conhecimento. Mas eu digo, que quando eu amo alguém, eu não a trato como uma coisa de plástico. Não é como na música “Fake Plastic Trees”, do Radiohead. Eu não amo um homem de plástico. Pessoas possuem sentimentos, não gosto de brincar com eles, e eu também não sou uma mulher de plástico. Sou feita de emoções, sensibilidade, Amor, ódio, raiva, tristeza. Toda mulher carrega com ela todos os sentimentos do mundo, o homem também. Somos feitos de um conjunto de sentimentos, e alguns nunca sentiremos na vida, se não houver um estopim, um tiro, um ponto de partida, um insight…

Enquanto eu caminhava pelo terminal de ônibus, eu estava pensando em meus projetos para o futuro. Eu gostaria de ter uma casinha simples e linda, com um quintal agradável, com flores, árvores e bichos correndo pelo quintal. Eu amo os animais, sua pureza de espírito e seu amor incondicional. Se for um apartamento, pode ter um dormitório só, mas que tenha uma sacada para que eu possa escrever sentada numa cadeira confortável, e quando me erguer e parar com a cabeça apoiada nas mãos, observando a vida miúda e interessante lá de baixo, que eu possa divagar sobre a vida e os acontecimentos daquilo que eu vejo. E terá somente o silêncio de meus pensamentos, que serão também daquele que estender-me a mão algum dia.

Quero eu, ao envelhecer, ter meu velho Amor ao lado, com um sorriso talvez banguela, de bengala, ou com uma dor nas costas típica daqueles que levaram as dores do mundo nos ombros, durante a juventude. Este meu velho, nos meus sonhos de velhice, estará ao meu lado, na alegria, na tristeza, na raiva, na pobreza, na riqueza, na vida e na morte. E ele olhará para os meus olhos, tão calejados perante as surpresas agradáveis ou não que a vida nos proporciona, ele olhará pra mim, teremos um cachorro cego, surdo, velho e gordo deitado aos nossos pés, as folhas cairão tímidas lá fora…Ele olhará em meus olhos, me dará um sorriso de velho, e me dirá: “Você se lembra quando…”

Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos aos, estes ainda reservam prazeres. Sêneca
Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos aos, estes ainda reservam prazeres. Sêneca

A loucura das quatro estações – Parte 1

1 – Muito prazer, meu nome é Verão e eu aqueço sua alma.

Elisa estava na praia, caminhando. Sua família estava embaixo de um guarda-sol observando ao redor. Algumas crianças cavavam buracos, outras construíam castelos, uns pequenos, outros grandes. E as crianças não tinham pressa, ou falta de paciência. Se chegasse alguma onda e destruísse o castelo, elas andavam outros passos à frente e construíam outros, muitas vezes melhor que os primeiros. E as mães as chamavam para reaplicar o protetor solar. Elisa gostava do sol, ela gostava de sentir os raios do soberano sol lhe tocando a pele. Quando chegava na praia, pela manhã, sentia um pouco de frio, mas este logo passava quando ela se colocava a caminhar pela areia, e logo alguns poucos minutos, o primeiro suor escorria-lhe pela testa, e ele tinha um gosto salgado. Elisa queria se enferrujar com a maresia. Estava de saco cheio de uma vida de regras. Ela via os barcos pesqueiros no horizonte, e pensava na liberdade. Ela queria um barco, só pra ela, e sairia por aí, sem rumo, sem destino, talvez escreveria uma mensagem numa garrafa e jogaria no mar. Cada mensagem seria a continuação de uma estória, uma estória com meias verdades de uma história, e uma estória de mentiras mal contadas ou mal interpretadas, mas aquilo ali, não deixaria de desembocar na areia aos pés de um desconhecido, talvez alguns cinquenta anos depois, quando seu corpo já estiver atirado ao mar, devorado por tubarões. Se ela morresse, em terra firme, gostaria de ter o corpo cremado, e que suas cinzas fossem jogadas ao mar. E ela queria que isso fosse feito em dia de chuva. E ela pensava nas pessoas de preto, encharcadas. Seu espírito estaria ali e as lágrimas daquelas pessoas se misturariam com a chuva, e a beleza da dor seria algo tristemente bonito. E o barco pesqueiro tremulava no horizonte. Ela pensou em Santiago e Manolin, personagens de um livro de Hemingway. Seria Elisa, o velho ou Manolin?Sua falta de sorte a perseguia, talvez estivesse mais para o velho Santiago, se ela tivesse um velho barco e um par de remos, colocaria roupas velhas e sairia pra pescar. Talvez pegasse um marlin que mais tarde seria devorado por tubarões, ou ficariam alguns anos sem pegar peixe algum. No seu mundo de delírio, ela faria amizade com uma gaivota, e como um gavião da Mongólia, ela treinaria a gaivota para lhe buscar peixes. E assim, não morreria de fome. E o Sexo, e o Amor, onde estaria?Seu Amor seria unicamente a vida, e o sexo não existiria. Uma mulher ao mar se esqueceria de aquecer o coração em meio de suor, saliva, beijos, deslizes… Ela não veria uma viv’alma, seria ela ali, ela, os deuses e as estrelas guiando-a mar adentro.

"Se vai tentar, Vá em frente. Não há outro sentimento como este Ficará sozinho com os Deuses E as noites serão quentes Levará a vida com um sorriso perfeito É a única coisa que vale a pena." Charles Bukowski
“Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.”
Charles Bukowski

Estava calor e Elisa caminha na orla, as marolas batiam ora tímidas, oras com fúria, em seus pés. Rapazes de corpos atléticos a olhavam, mas não era aquele mundo que a pertencia. A Beleza para Elisa era apenas um ponto a mais. O que a cativava eram pessoas que observavam o mundo tal como o seu, pessoas que ao encontrar uma água viva, parassem no meio do caminho e pensassem na beleza daquele cnidário, passeando pelo mar, e quando o sol bate no corpo, assume a forma de um prisma. Ela apreciava a Beleza, ora mortal das águas vivas, e lembrou-se do dia que sentiu os tentáculos de uma delas chicoteando na perna. Não foi agradável, mas era a forma daquele animal se proteger. Nada mais justo. A natureza tem lógica, complexa, mas tudo nesta vida tem sentido. O sol lhe aquecia a cabeça, estava pegando fogo, precisava de uma boa sombra agora.

“Acorda Elisa… Consegue escutar a minha voz?”Elisa acordou, imobilizada numa cama em um hospital psiquiátrico. “O que sonhava Elisa?”, perguntou a enfermeira jovem mas com primeiros fios brancos querendo surgir. Elisa sonhava com a praia, com o horizonte, e o verão dilatando os seus poros. “Elisa, está na hora de seu banho de sol querida, é verão e o dia lá fora está lindo.”, “Terá águas vivas? Golfinhos e navios pesqueiros?”, “Sim Elisa, no jardim encontrará seu mundo”. E então Elisa, fazia do jardim do hospital, o lugar onde tanto amou nessa vida, um lugar onde a vida da sua família foi ceifada por um naufrágio. Mas ela apenas se lembrava de ter sido socorrida por pescadores de marlins.

Memórias de uma mulher cansada voltando do trabalho lendo Hemingway.

Eu não quero mais mentir, usar espinhos que só causam dor, pois eu não enxergo mais o inferno que me atraiu…Dos cegos do castelo eu me despeço e vou…A pé…Até encontrar…Um caminho…Um lugar, para aquilo que eu sou…Eu cuidarei do seu jantar…Do céu e do mar…E de você e de mim…

Depois de doze horas de trabalho, chegou uma hora que meus olhos não distinguiam mais as linhas de tabelas, parâmetros e tudo mais. Status report concluído e uma sensação de fracasso que me tomou conta, pois eu acreditava que mataria o gargalo do projeto naquela noite. Foi extremamente desmotivante sair da empresa com uma sensação de peso nas costas. Posso parecer uma pessoa totalmente despreocupada, mas sou perfeccionista em meu trabalho, quero que as coisas saiam dentro dos conformes, e não foi o caso de hoje. Segui meu rumo, andando cansada no meio de todas aquelas pessoas que assim como eu, partiam para suas casas. Minha cara, meus olhos, são de cansaço agora. Escrevo aqui apenas para espantar alguns demônios pessoais, para tirar um pouco da tormenta que me acompanha. Cheguei na passarela que corta a rodovia, respirei fundo, aquela passarela, à noite, no meio das luzes amarelas, em tempos de hora extra são como luzes confortantes. Gosto da beleza das luzes amarelas dos postes e os carros passando, na paz, ora no caos, com seus faróis. Coloco uma música e passo a pensar no dia de amanhã, e que talvez eu consiga resolver grande parte dos meus problemas pendentes. E então eu escuto uma música que me traz lembranças, e um certa sensação de saudade me invade, e então um turbilhão de pensamentos e memórias e por vezes, cheiros, invadem esse coração e memória, e eu suspiro, enquanto ouço os carros passando embaixo da passarela. No ponto de ônibus, pessoas com suas cabeças baixas e mesma expressão de cansaço na face, e então não me senti mais tão sozinha naquele universo. E hoje à noite está uma noite fresca, com ventos que me bagunçam o cabelo e teimam em virar a página do livro que terminei de ler esta noite. O ônibus chega, minguado, com pessoas dormindo e uma inclusive, babando de boca aberta. E a música de Tim Buckley, chamada “Love from Room 109 – Strange Feelin” começou a tocar, e nela diz:

O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso

Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinho
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo

E então um sorriso invadiu meu rosto, mas por dentro, aqui neste frágil coração apenas uma lembrança que pode ficar apenas nos baús da minha memória, e por hora, eu até me culpo de ser tão intensa, muitas vezes devo guardar minha sinceridade apenas para mim, não devo abusar da sorte, muitas vezes eu sou assim, como o Velho Santiago do romance de Hemingway, “O velho e o mar”:

"Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado"
“Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.”

E eu estava lá, no ponto de ônibus do terminal de Barão Geraldo, esperando o segundo ônibus que levaria esse corpo cansado para os braços de minha cama. Fiquei lá, no meio do vento, sentada no banco, solitária com meu vestido vermelho e face cansada. O vento teimava em querer virar as últimas páginas do meu livro do Hemingway. Mas eu estava ali, lutando contra o vento e colocando a minha missão de terminar de ler aquele livro tão encantador. É muito incrível o poder e a forma de como uma boa leitura pode nos golpear a face com luvas de pelica. Estava eu ali, amaldiçoando a minha falta de sorte por ser assim, intensa demais, essa minha falta de noção de mostrar minhas ideias, meus sentimentos, aquela coisa de dar as duas faces para bater. Se me batem, eu ofereço outra face. Simples assim, o tempo cicatriza qualquer ferida, é o que minha sábia mãe dizia, que por sua vez, minha avó já dizia a ela. E por mais que minha mãe sempre me diz que nesta nossa vida, se alimentar de ilusões é um erro, eu sou uma errante, e naquele ponto de ônibus eu tomei uma bofetada ao perceber que nenhum ser humano, nem mesmo o magnífico Hemingway pode reconhecer a sorte e até mesmo a falta dela se aproximando. Eu diria o mesmo, sobre ilusões e expectativas, nós fingimos viver embaixo de nossos guarda-chuvas de ceticismo, mas por dentro carregamos aquela esperança boba e pura que a nossa sorte está chegando sorrindo em noite de lua cheia com vento, com os olhos mais bonitos e desconcertantes que já vimos, mas envoltos numa neblina de mistério.
Naquele ônibus das dez horas da noite, tinham duas mulheres que falavam sobre novelas e BBB, e eu que sempre presto atenção nos detalhes ao meu redor, deixei as pérolas de lado. Quem sou eu para julgar aqueles que gostam de coisas ao qual eu não gosto?As coisas são simples, para conversas alheias e desinteressantes, existe o bom e velho fone de ouvido, ou um livro, neste caso, a história do velho Santiago e sua fé perturbadora nas conquistas e força de vontade. E eu, lendo este livro, vejo que nossa fé nas coisas que acreditamos deve ficar ali, forte e decidida. Só devemos soltar nossa linha quando a Morte chega, enquanto isso não acontece, devemos acreditar na nossa força de pescarmos nossos marlins, e por mais que eles sejam devorados pela falta de sorte, sempre sobra algo de nossos sonhos, alguma carcaça, e mais tarde, alguma pessoa pode enxergar a beleza que nossa falta de sorte trouxe, a cauda de nossa fé inabalável naquilo que acreditamos, pode estar chegando, boiando na beira-costa. Talvez alguém veja e diga:

Não sabia que os tubarões tinham caudas tão belas e tão bem formadas”

A nossa fé inabalável, regada por sorte ou a falta dela, aos olhos dos outros pode ser reconhecida como uma beleza, pois nossos atos falhos nos trazem reconhecimentos, pois com nossos erros vangloriamos mais tarde com nossas vitórias, na alegria ou tristeza, sempre levamos uma boa lição ao deitarmos nas nossas camas à noite. O Velho Santiago dormia em sua cama, sua almofada era sua única calça embrulhada, seu colchão consistia apenas de alguns jornais velhos amontoados, mas aquele velho ali, que tanto amava seu amigo Manolin,e enxergava a beleza nas pequenas coisas, quando fechava os olhos, sonhava com leões, praias de areia branca da África. Humbert Humbert, de Nabokov, sonhava com bisões extintos, anjos e pensava no refúgio da arte. Eu deito meu corpo cansado em minha cama agora, que não é feita de jornais, talvez de alguns livros espalhados que durmo junto quando o sono aparece repentino e sem aviso acordo no outro dia…Acontece, muitas vezes, de eu dormir com um livro aberto no peito, e as luzes acesas. Eu estou cansada agora, quero a minha tão preciosa cama. Enquanto Manolin observa seu velho dormindo, ele sonha com Leões…E eu, incorrigivel, com minha fé inabalável, talvez com sorte ou falta de sorte, ando sonhando com um girassol. E ele está lá, em seu jardim, solitário, talvez pensando anjos e bisões antigos, ou em leões…

Pecado Confessável

Amor, doce amor, eu estou escutando teus passos ao longe,
Posso lhe dar as chaves se você for gentil e bater em minha porta,
Posso ficar brava se esquecer de tirar os sapatos ao entrar,
Você pode adoçar teu chá se quiser, pode bisbilhotar minhas anotações,
E em um sonho, vêm chegando de fininho, docemente, sem querer,
Em cima de minha mesa, há meus livros, canetas, papéis, discos,
De repente, na tua fúria,você joga minhas paixões ao chão, adorável bagunça…
Sem pedir permissão, você amou-me naquela mesa, em meio ao caos,
Num desespero sensual,bruto…Joga-me contra a mesa…Brutalmente delicado,
Cadê sua gentileza doce amigo?Eu vejo seu sorriso sádico, de canto de boca,
Me provocando, as coisas que eu amo ao chão, espalhadas, como nosso orgulho,
Na fúria, você me possui, no mesmo lugar dos meus amores, me segura em seus braços,
Suas mãos em meu corpo, marcador de minha pele em trechos eróticos,
Com teus olhos, mãos, pele, dedos, saliva…são como a mais bela poesia,
Sua voz sacana me excitando ao pé do ouvido, és minha canção favorita,
Então eu lhe peço mais, e como um refrão, você repete, suas notas sensuais, vício…
Doce invasor, no teu êxtase, seus dedos, mãos, língua, beijos, percorre um caminho,
Onde as minhas borboletas percorrem batendo asas, eu perco fôlego, juízo, vergonha…
Pele, suor, desejo, saliva, gemidos, o céu e o inferno…Uma linha tênue…
Amor, meu anjo, demônio?Faça-me de ti o teu pecado original, estou de joelhos agora…
Devora-me, como um fruto proibido, o teu corpo és meu paraíso, seu Amor é meu desejo…
Doce pecado…Confessável…Em linhas insones.casal_sensual1

Vanilla Sky e o Coração de Hortelã

Acordei da cama hoje na base do susto e com o coração disparado. Costumo geralmente acordar antes do celular despertar, o que é bom, pois assim eu pego o celular e programo uma soneca ou alguns minutos a toa olhando para o teto, tentando recordar de algum sonho e encontrar algum sentido. Ou apenas: “como vai ser o meu dia hoje?”.

E hoje, segunda-feira, dia 2 de abril de 2012, eu acordei irritada…levemente irritada. Ao final do texto, imenso por sinal, vai ficar sabendo porque eu me irritei. Mas foi uma irritação com fundos de doçura. Me irritei porque o despertador tocou na hora certa, mas eu queria não ter ouvido…eu queria ter sofrido mais na alegria do meu inconsciente, minha angústia seria maior?Não sei…Eu não queria sair daquele sonho, porque nele havia um coração de hortelã, com um componente eletrônico estranho no meio do coração. É engraçado…porque no meu sonho, o hortelã era uma árvore com galhos retorcidos e flexíveis. Uma cheirosa árvore no campus da universidade. A única coisa com sentido ali, era aquela árvore, que apesar da forma “away”, tinha a cor escura…um verde escuro de hortelã. Um verde escuro irlandês!E aquela árvore, foi moldada, estranhamente moldada. Em meu sonho, o sonho desta madrugada de segunda, eu andava pela universidade, com meus livros de arte e semiótica nos braços, sem motivo nem razão aparente para estar lá. Podia ser que eu estava estudando. Eu gostaria de voltar a estudar…talvez eu faça História ou Filosofia…é um sonho também. Bom, vamos voltar ao enredo…

(Continua)

No meu sonho, eu caminhava alegre, mas lá dentro, algo me angustiava, me consumia por dentro. Mas eu sou gentil, não importando o meu estado de consciência. Pode explodir o mundo, mas eu vou ser gentil. As pessoas dizem agora, “Ana você é muito Alto Astral”. E então, perambulando pela universidade, meus olhos estavam perdidas, eu andava como estou sempre, meio desligada, em off. E então no meio do nada, eu resolvo checar meu email. Faz muito tempo que eu não olho meu email, e estou falando disso em tempo real, meu email está abandonado as traças, como diz a minha mãe. De vez em quando eu dou uma olhadinha nele, mas nunca há nada de bom, apenas alguns spams e mensagens de fóruns da área em que atuo. Apenas eu abro meu email, para executar “ações em massa”. Lixeira, e depois, “Limpar Lixeira”. Sendo assim, eu não me preocupo muito.

Continua…

No meu sonho a conexão era surreal, lógico, não podia deixar de ser!Eu achei uma delícia isso!Cômico…curioso!E então, n o meu sonho eu abri minha caixa de entrada e tinha uma mensagem lá, sem remetente. No assunto estava: “Coração de Hortelã”. No instante em que eu abri a mensagem, senti um cheiro de hortelã. Foi algo muito instântaneo…foi muito bom…um cheiro de hortelã fresco. E o email contrariava toda a lógica do mundo real, pois ele chegou a mim somente com o título da mensagem, somente com o assunto, e o meu nome no destinatário. Apenas isso. E então eu saio da sala, e volto a perambular pela universidade sem rumo algum, apenas seguindo o cheiro de hortelã que estava em todo lugar. E então, eu comecei a ficar angustiada, porque eu fiquei emocionada com uma porra de email. E nele tinha apenas “Coração de Hortelã”. E até no sonho eu penso: “Ana, você é uma tola, porque fica alegre com tudo”, e eu acho que sofro de um mal chamado “Bobose Aguda”…mas, eu tenho um pouco de transição, de Bobose Aguda eu parto para um momento de angústia aguda e silêncio total, mas isso dura pouco. Mas nessa transição binária Alegre(1), Triste(0), o cheiro de hortelã fica cada vez mais forte…e no meio da multidão, o cheiro vai aumentando…e ele é divino, extasiante. Cheiros em sonhos, são muito mais intensos que o real, é uma sensação arrebatadora. Geralmente quando eu sinto cheiros em sonhos, aquilo me marca, e eu já tive muitos “dejá-vu”, envolvendo cheiros. Enfim, voltando, isso aqui parece uma conversa, mas eu gosto de conversar…eu falo demais não é?Já percebeu?Acha que eu devo parar com isso?

Continua…

E eu fui seguindo aquele cheiro, que fugia da multidão, e então eu entro num imenso lugar vazio, um gramado bem bonito. E então lá no horizonte, não tão distante, a apenas alguns metros, eu encontro uma árvore. A cor dela era divina…verde escuro irlandês, e é agora, neste momento, que eu vou sair da prosa e entrar num poema:

E naquele campo de incertezas comuns,

Perambulando na universidade, pensando…

Lá naquele lugar em que meus pés não chegam,

Porque são milhas e milhas de distância,

O cheiro intenso de hortelã estava bem forte,

E lá no horizonte, não tão distante, está algo,

Verde-escuro irlandês, com galhos retorcidos,

Cheios de folhazinhas refrescantes…verde irlandês

Quando eu chego lá, na árvore onírica de hortelã,

Eu olho para ela e tomo um susto, eu entro em êxtase,  –*eu gosto muito dessa palavra…êxtase…percebeu?*–

Porque aquilo que eu vejo ali, é uma obra de arte,

Parecia um elemento na paisagem de um quadro de Hieronymous Bosh…

Os galhos da árvore de hortelã, se entrelaçavam,

Formando um coração, um coração verde e cheiroso,

Coração de Hortelã, Coração de Hortelã…

E eu fiquei ali, minutos e minutos…

Sentada naquele lugar, sozinha, olhando

O coração de hortelã…aquilo seria meu…

E naquele coração de hortelã, no centro,

Tinha uma coisa, uma peça de máquina,

Não me pergunte como minha cabeça,

O meu inconsciente fez aquilo daquela forma,

Bem…na verdade, me pergunte…você sabe…

Eu gosto quando você me faz perguntas,

Por mais que eu não saiba o que responder, como é o caso agora,

Eu gosto quando você me pergunta…qualquer coisa…eu gosto.

Voltando ao poema…

Havia uma estranha peça no meio do coração,

E então eu me aproximei, para observar o que era,

E então eu sussurei sozinha: “Deve ser um motor…”

E então fiquei lá, acariciando aquela peça,

Cheia de circuitos, fios, parafusos…

Eu não entendia para o que servia aquilo,

Mas eu achava muito bonito…e quando eu tocava,

As folhinhas de hortelã e aquela peça estranha,

A minha angústia dava lugar a momentos de Paz,

E eu sentia Amor, um bonito e estranho Amor.

E de repente, o meu olfato, o cheiro se mistura,

No meio do cheiro de hortelã, o cheiro verde,

Aparece um cheiro de baunilha…cheiro amarelo…

Eu adoro cheiro de baunilha, desde criança,

Quando eu era criança, minha avó fazia bolo,

E me dava as vasilhas para raspar, e eu pegava o vidrinho,

O vidrinho de essência Oaker…eu adorava, eu ainda adoro,

E eu me lembro, que eu ficava cheirando…aquela essência…Baunilha!

E o cheiro de baunilha, ficou bem forte,

E eu estava lá, admirando ainda mais o coração,

Coração de Hortelã, com fundo de Baunilha.

E então eu sinto uma mão me tocando os ombros,

Eu estava de vestido, meus ombros estavam nus,

E então, eu escuto uma voz…uma voz de Vanilla…

[Vanilla Sky…Vanilla Sky]

“É bonito não é?A forma disso, as cores…”

E então eu olhei para sua cara de Incógnito…

[Incógnito…Quem é você?Ninguém sabe]

E olhar para aquele rosto…O seu rosto…

Foi tão ou mais bonito, que contemplar,

O coração de hortelã…coração de hortelã

E então eu lhe perguntei:

“Você já experimentou mascar folhas de hortelã?”

“Então você sorri rindo: “Não…e você?”

“Eu já…é muito bom, quer experimentar?”

E então eu ergo os braços e pego uma folha,

E quando eu lhe entrego, você me olha,

Bem fundo em meus olhos, perturbador…

Isso me estremece, no surreal e no real,

Enquanto estou largada, em minha cama,

Eu estremeço no mundo real e no meu inconsciente Feliz…

Me faz Feliz…me faz voar…não quero mais acordar…

E então, lado a lado, nós contemplamos,

Aquele coração de hortelã, verde e cheiroso,

E o Vanilla Sky estava sentado ao meu lado,

E o cheiro de baunilha que vinha dele,

É deliciosamente perturbador…

“Você sabe o que é aquilo?”, Ele me pergunta,

“Aquilo o quê?Aquela peça cheia de circuitos?” –

“Sim…Você sabia que aquilo é importante?”

“Não…porque aquela peça é importante?Me explique…”

“Porque é ela que move todas as coisas, nada funciona sem ela…”

“Até mesmo um reator?Um reator nuclear?”

“Sim… querida…até reatores!(…)”

E foi no “Sim…querida…até reatores!”, que a porcaria do celular anunciou a hora de acordar. E em um susto eu pulei da cama. E na luz matutina entrando pelo vão da persiana, meu corpo inteiro arrepiou e o meu pensamento foi “Meu Deus…o que foi tudo isso!”. E o arrepio tomava conta, e não era o frio matutino do outono. Era a folha colorida de outono, agora  com cheiro de baunilha me perturbando lá do alto.

E eu fiquei um tempo, sentada na cama, amaldiçoando o celular que despertou, na hora “certamente” errada. E assim, eu fiquei paralisada, sentada, abraçando os joelhos, extasiada, e um pouco angustiada…e aquilo ficou na minha mente…”Sim…querida…até reatores!”…E eu sentirei cheiro de baunilha, enquanto chupo balas de hortelã, ou mastigar alguma folha do hortelã do fundo do quintal da casa do meu pai…eu lembrarei disso…E a partir de agora, vou te chamar de Vanilla Sky…