Houses of the Holy

Abriu os olhos durante aquele instante em que os sonhos davam-lhe uma bofetada sonora no meio da madrugada. Foi tropeçando como uma bêbada até a geladeira. Buscou a garrafa de vidro com água bem gelada, e um pote de sorvete que mal sabia quanto tempo estava lá. Sentou-se ao pé da geladeira aberta, vestindo um camisetão do Led Zeppelin que era de seu irmão. Queria ser como as crianças da capa do  Houses of the Holy. Queria ficar pelada numa pedra, sem que ninguém se importasse. As pessoas se importam muito com as coisas, queria um dia sair descabelada e com a primeira roupa que suas mãos alcançassem no armário, mas sua “chefa” a olharia com reprovação, “imagem é tudo” – sempre dizia  isso em alguma conversa qualquer, num almoço executivo qualquer. Escutava essa pérola dos ditados populares todos os dias, e queria pegar um pedaço do pudim de chocolate intragável que tem nos almoços de negócios e brincar de tiro ao alvo. Queria sujar o blazer branco impecável de sua chefe vazia e cheia dos clichês que lia em seus livros de negócios, que ela dizia que não era auto-ajuda, mas sim, leituras de negócios. “Ohh desculpe, imagem é tudo não é?” – diria ela com um sorriso sarcástico no rosto como a cara de Jack Nicholson em “O Iluminado”. Queria ver como a “chefa” se sentiria desconstruída com a mancha no seu casaco, queria vê-la gritando no meio do restaurante enquanto ela era insolente. Queria ver aquela mulher perder a classe. Ela odeia gente que é perfeitinha o tempo todo. Sairia rindo, desempregada. Talvez pegasse mais um pouco de doce e comeria com requintes de crueldade. Mas ela tem contas pra pagar, e uma mãe doente que depende dela para comprar remédios para diminuir sua dor. Sente saudades da mãe, queria vê-la mais, conversar, mas na maioria das vezes ela está dopada demais para entender e compreender as dores da filha. Mas de alguma forma, sabe sua mãe que ela está ali, ao segurar sua mão e sentir o aperto quente. Quando ela vai embora, as mãos de sua mãe afagam o lençol. É uma maneira de dizer que vai ficar com saudades ou dizer adeus.

Havia uma bandeja de morangos frescos na geladeira, e eles combinariam com o sorvete. Precisavam ser lavados, mas eles talvez não sejam mais tóxicos que os dez cigarros de menta que ela fuma quando vai a shows de blues ou nos dias chuvosos. Adora fumar na janela, escutando “Rain Song” no último volume. Adora quando sua vizinha mal amada bate na sua porta dizendo que está tentando descansar e a música barulhenta não a deixa em paz. Maldita convicção dos dias de chuva. Eram dez horas da manhã de um sábado, Robert Plant cantava e sua vizinha coroca estava “enchendo o saco” dela. A vizinha na porta de sua casa, com um enorme guarda-chuva amarelo embaixo de uma chuva tranquila e fria de inverno. “Desliga isso, por favor!”, e ela soltava as baforadas mentoladas na cara daquela mulher que deve dormir cedo todos os dias e acordar religiosamente nos mesmos horários, comer o mesmo número de torradas e exatamente uma xícara pequena de café ou chá com exatas quatro gotas de adoçante. Ela deve ir à igreja toda quarta-feira e domingo, almoça sempre nos mesmos horários. Ficou olhando na cara daquela mulher que esbravejava na janela, cansou-se. Não gostava das pessoas mal amadas. Fechou a porta, aumentou o som e ignorou a mulher. Viu a infeliz gesticulando brava pela calçada. Ela por sua vez, continuou na janela, sentindo a frieza do seu próprio inverno. Acendeu outro cigarro e encheu a terceira xícara de café. Aquela mulher amarga nunca deve ter ido ao cinema, o jardim dela é tão artificial quanto o sorriso que ela distribui ao lado do padre na porta da igreja…

Let me take you to the movies

Can I take you to the show?

Let me be yours ever truly

Can I make your garden grow?

Os morangos sem lavar tinham um gosto triste. Sua mãe plantava morangos no quintal de casa. Ela costumava apanhar os morangos ao final da tarde, e fazer geleia para comer com torradas e chá. Seu pai nunca esteve presente. Ele era um fantasma desde que ela nasceu. Queria os morangos silvestres de sua mãe, e não aquela porra tóxica e sem gosto. Mas dava-lhe certo prazer ficar sentada na penumbra da cozinha, apenas parcamente iluminada com a luz da geladeira. E aquele frio nas costas e nas pernas, e a água gelada escorrendo da boca, molhando a camiseta. Queria ter um cão. Ele estaria olhando pra ela com cara de reprovação. Ela deveria estar na cama, aquecida pelos braços de um homem, mesmo que seja aquele que aparece de vez em quando e deixa no ar um misto de saudade. Um homem vazio, tão fácil de amar. Ela ama o vazio, nele há um silêncio sedutor que a atordoa. Viu isso em um livro de Rubem Alves. Devorou aquele livro numa tarde despretensiosa, embaixo de uma árvore. Gosta do bucolismo, sente-se bem em contato com a natureza e a calma e compreensão que ela oferece. A natureza vazia… Nunca o vazio foi uma coisa tão linda e necessária.

“A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdade e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas, quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade” (Rubem Alves, “Quando eu era menino”)

E ali, naquela madrugada fria, aos pés da geladeira, no silêncio quase sepulcral, se não fosse o primeiro ônibus das quatro e meia da manhã passar na rua, ela refletia sobre a sua vida simples, entre morangos, sorvete e água gelada. Tudo por causa de um sonho que lhe roubou o sono que tanto precisava. Precisava de um pouco de paz, mesmo que ela seja obtida do ato de comer compulsivamente, com Led Zeppelin tocando mentalmente. Poderia chover naquele momento, a chuva lhe traria algumas poucas horas. Gostava de ver o amanhecer em dias chuvosos, e sempre pensava na pouca atenção que as pessoas dão a ele. Existe a beleza em tons cinzentos, por mais triste que seja, a tristeza tem uma beleza sensível, mas as pessoas andam insensíveis, recolhidas dentro de um padrão ditado a quatro cantos. Odeia padrões, e tudo que é pré-determinado. Aquilo lhe traz uma vontade de não estar, um desconforto, uma fuga. Queria uma casinha no alto da montanha, sem pessoas, apenas uma geladeira e um cão. O cão cuidaria dela, sem exigir nada em troca. Não queria perder o sono, queria estar num templo, na frente do templo uma pedra enorme. Talvez ficasse pelada ali, esperando que a frieza do inverno lhe trouxesse uma razão, aquela que ela acha que está perdida nos confins de um tempo que não voltará mais. Já não é mais uma menininha. As gotas de chuva que molharam suas roupas no varal, as gotas de chuva que escorreram no rosto tem um gosto amargo. Talvez na primavera, o silêncio do inverno se dissipe, e quando chegar o verão, as tempestades de fim de tarde trarão aquele instinto de medo e delírio, e a vontade de sorrir mesmo quando não há motivo algum para tal. Talvez ela vá ao cinema, a um show de blues. Talvez as rosas de seu jardim floresçam novamente, talvez ela vá correr na chuva como uma tola, perdendo fôlego, talvez ela espere o seu Amor numa esquina errada. E ela é apenas uma garotinha inocente, nua e crua, como as crianças do Houses of The holy, nua e crua, correndo pela areia, vivendo o delírio e suspiro da inocência e saudade.

Lembra-se dos nossos sonhos de areia?
Brincávamos na praia construindo castelos
E vinham as ondas de convicções e destruíam tudo
E apenas olhávamos um ao outro, silenciosos
Sonhos de marolas ao entardecer, ventania
E nossos cabelos bagunçados sem querer
E eu beijava seus cílios, tirava grão de areia intruso
Mas você cresceu meu Amor, e a única coisa que me resta
É você vindo em sonhos de cardume, um reflexo metálico
Sua sombra de menino sem medo correndo na areia
E o barco de velhos pescadores no horizonte ao amanhecer
Saudade… Sonhos de sílica.

"Eu tive um sonho. Um sonho louco. Qualquer coisa que que eu quisesse saber..."
“Eu tive um sonho. Um sonho louco.
Qualquer coisa que que eu quisesse saber…”

Quando eu era menina…

Seu eu morrer muito novo, ouçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. (Alberto Caeiro)

Eu me lembro como se fosse hoje, a rua cheia de crianças. A velha rua sem saída que tinha a poucos passos de minha casa. Naquela época, ao menos, assim eu penso, analisando os dias de hoje, cerca de 18 anos depois, aqueles tempos era seguro brincar nas ruas, mesmo aquelas que tinham saída. Pode ser que no meu olhar de criança, eu não enxergava a maldade. Não existe nada mais belo que o olhar inocente de uma criança. Existe apenas a consciência do querer brincar pra sempre, de nossas mães ou aqueles que cuidam de nós, de nunca alcançarem o portão de casa e nos chamar porque estava entardecendo. Talvez este fosse o momento mais triste do dia. Quando eu era criança, eu não almejava o entardecer, quando ele chegava eu sabia de alguma forma muito simplista de que teria de me despedir de outras crianças e entrar para casa. Hoje, adulta, eu almejo os entardeceres, pois sei que minha jornada de trabalho está chegando ao fim e que eu posso chegar em casa, tomar um banho e relaxar. O mais engraçado é que quando éramos crianças, queríamos ser adultos. Esta é a coisa mais besta que uma criança possa querer. Eu falo aos meus irmãos menores que eles nunca devem ter pressa de querer ser adultos.

E a rua sem saída e demais ruas ao entorno era um palco de sorrisos e brincadeiras. Naquela época as crianças ainda fabricavam suas próprias pipas, e corriam para buscar as que caiam no céu. Dias atrás fui num churrasco com os amigos em um bairro da periferia. Lá pude ver as pipas no céu. Me trouxe uma lembrança doce dos meus tempos de criança. Estávamos na calçada com nossas “bebidas de adulto” e cigarros que já não eram de chocolate. Um menino desceu correndo atrás da pipa que foi derrotada. E quando ele subiu novamente e passou por nós, parabenizamos a criança: “Ehhhhhhhhhhhh!” e então o menino abriu um sorriso e levantou a pipa em sinal de vitória. Fazia tanto tempo que eu não via isso, e então pensei o quanto estou ficando velha ranzinza em um bairro de metrópole onde as crianças das famílias que existem por aqui brincam trancafiadas em casa com seus videogames, tablets, carrinhos de controle remoto. Não existem mais brincadeiras na rua. Não vejo mais carrinhos de rolimã, meninos soltando pião, rodinha de crianças jogando bafo ou bolinhas de gude. Como costumo dizer, as brincadeiras hoje se transmutam em divertimentos eletrônicos sem nenhum contato com o que existe real. Antes eu brincava na terra. Hoje uma criança dificilmente brinca na terra, talvez a única terra que elas “tocam” são as dos canteiros do Farmville.

Lembro-me que eu sentava na soleira da calçada e via os meninos descendo a mil nos carrinhos de rolimã. Às vezes um se ralava todo e a mãe saia correndo preocupada. Ficavam alguns dias de castigo e depois voltava, com um carrinho de rolimã novo. E não era só isso que tinha pelas ruas. Na rua de casa, tinham jogos de amarelinha desenhados no asfalto. Eu me lembro de que nós roubávamos giz colorido da escola para poder desenhá-las no chão. O céu era feito com giz azul, o inferno com giz vermelho, e os números, obviamente com giz amarelo. E pegávamos pedras da rua para jogar. Lembro-me o quanto era difícil acertar o número 10, mas as crianças que chegavam até o final da amarelinha, tinham o dia ganho. E as tardes semanais e finais de semana eram recheadas de pega-pega, pique-esconde, pula corda… Eu era muito ruim em pular corda. Ficava frustrada por ser desengonçada. Mas mandava bem nos patins. Um dia peguei uma ladeira e me arrebentei porque uma pedra apareceu no meio do caminho, e não deu tempo de desviar, foi a única vez que eu me arrebentei nos patins. Eu pulava, fazia manobras, coisa de criança doida mesmo. Carrego em meus joelhos e cotovelos as marcas da queda. No dia chorei, hoje dou risada. Lembro-me de que naquela época merthiolate tinha álcool. E ele era o terror das crianças travessas, o terror dos que andavam de bicicleta, patins e rolimã. Jogar futebol e chutar o chão ao invés da bola era lágrima certeira. Nada era mais terrível que o merthiolate, as crianças queriam voltar para suas casas com roupas imundas e pés sujos, mas não queriam voltar cedo e encarar aquele vidrinho daquele “negócio que ardia”.

Tinham as lendas que contavam para as crianças. Nunca me esqueço do homem do saco. O homem do saco era o terror para as crianças cujos pais as educavam para ficarem sempre por perto de casa ou dos pais durante os passeios. Um dia, fui à feira com minha mãe e me perdi dela para comprar pastel. Achei que fosse encontrá-la e me enganei. Então fiquei esperando na banca de pastel. Ela me encontrou e me deu o sermão do velho do saco. Quando chegamos ao portão de casa, um velho com um saco nas costas estava descendo a rua, e ele olhou pra mim e disse: “Que criança linda! Quer ir embora comigo?”. Então corri pra dentro de casa, e fiquei anos acreditando que o homem do saco existia, e tinha certo medo de ir pra escola sozinha e encontrar o velho, e ele me pegar à força e colocar dentro do saco. Eu acreditava mais no velho do saco do que em papai noel. Sempre soube que o papai noel era meu tio, mas o homem do saco não, ele existia e não era o papai noel, era um homem velho que sequestrava as crianças e depois as comia ou vendia.

Além do velho do saco, tinha o velho do muro… O velho do muro era um tio de um menininho que estudava na mesma escola que eu. Ele sempre ficava até altas horas no muro da casa dele, apenas com a cabeça aparecendo. Era um muro alto. Fiquei sabendo da real causa da aparência dele, anos depois, quando adulta. Eu tinha medo dele. Ele era um senhor de idade muito pálido, com covas profundas no rosto e sem nenhum cabelo, completamente careca. Quando a noite chegava e nas vezes que iá com meu irmão comprar tortuguitas na vendinha, ele estava lá, espiando a vida por cima do muro. E as luzes das luminárias de rua davam mais ênfase a palidez dele. E eu sempre dizia que não gostava do velho do muro. Um dia minha mãe me perguntava por que eu não gostava dele. Eu respondi a ela que era porque nunca tinha visto uma expressão tão triste em alguém. Eu não conhecia muito a tristeza até os meus 8 anos, quando tudo era teoricamente normal em minha vida. Aquele velho foi meu primeiro encontro com a expressão de tristeza no rosto de alguém. Dos meus oito anos em diante, descobri a tristeza em meu próprio olhar. Mas daí já é uma longa e talvez desnecessária história, ainda com dores não curadas, talvez alguns meses de terapia me ajudem. Mas só posso dizer que sei na pele o que é não saber conviver na mesma esfera de compreensão de uma criança.

Vocês dizem: “Cansa-nos ter de conviver com as crianças”. Tem razão. Vocês dizem ainda: “Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-los. (Janusz Korczak)

Eu tive um namoradinho na infância. Eu inclusive já falei dele. Chamava-se André Luis. Era um menino que me escrevia cartinhas de amor com as canetas coloridas da irmãzinha. Já escrevi aqui também que um dia eu e ele encontramos uma pomba no chão, e ignorantes das certezas da vida, achávamos que ela “dormia” na calçada. Depois, descobrimos que era apenas uma pomba morta com vermes devorando as entranhas. Mas ela estava ali, no meio da calçada, como se tivesse feito um ninho. E eu me lembro daquele momento até hoje, e do cheiro das balas de doce de leite de Andre Luis, e do momento que eu chorava inconformada por causa de um pássaro morto, e ele simplesmente me deu a mão e fomos de mãos dadas até o portão de casa. Ele me deu um beijinho no rosto. Era um beijo melado, com cheiro e sabor de doce de leite. Hoje, quando vejo aquelas balas quadradas de doce de leite, lembro-me de André Luis, e seu cabelo loiro tigelinha. Ele tinha os olhos quase claros, de um castanho esverdeado. Era uma linda criança. Eu acho que eu era uma criança bonita também, os meninos do jardim me davam flores, mas André Luis foi o único a quem eu andei de mãos dadas naquela época. E o mais engraçado é que eu via os adultos se beijando na boca e tinha nojo daquilo. E comentava com André que ele não faria aquilo. E ele dizia: “Blergh, não… É nojento”. E ficávamos somente nos beijinhos de despedida e nas cartas inocentes com letras tortas, reféns de cadernos de caligrafia. Não posso dizer, (ou posso?), que eu vivenciei um amor na sua esfera mais pura, mas não sei dizer, 17 anos depois, se aquilo foi amor. Foi uma história de infância, cheia de timidez e risinhos. Era como um amigo com algo a mais. Eu e André Luis dividíamos o lanche, contávamos nossos segredos um ao outro, e, sobretudo, andávamos de mãos dadas, e eu acreditava que por ele estar comigo, estaríamos protegidos do homem do saco. Quando descia a rua de mãos dadas com André, eu nem me lembrava do “Velho do Muro” e sua fisionomia triste. Descobri muitos anos depois que aquele velho na verdade não era um velho. Era um homem de quarenta e poucos anos que sofria de câncer. Quando ele morreu, eu em minha consciência de criança, eu achava apenas que ele tinha enjoado de ficar ali. Descobri que as coisas e pessoas morrem quando vi a pomba morta no chão. E chorei dias seguidos com medo de perder alguém próximo. Os adultos me confortavam dizendo que as pessoas que morrem vão para um lugar bonito, onde não existia tristeza e demais coisas ruins. No ano passado confortei meu irmão menor que chorou dias e dias a morte de um amigo de minha família que vendia pastel na rodoviária e que por costume íamos até o trailer dele toda sexta-feira. Meu irmãozinho aguardava ansiosamente a “Sexta-feira do pastel”. E teve um dia que a pastelaria nunca mais abriu. O Senhor dos Pastéis foi executado cruelmente. Amarrado, colocaram-no de joelhos e deram-lhe um tiro na nuca. Tudo por causa de uma furadeira, uma televisão e cerca de quinhentos reais. E a notícia correu quatro cantos. Meu irmão viu a foto tirada ao longe do corpo sem vida do seu amigo pasteleiro jogado no canavial. Foi vítima do sensacionalismo barato. Ele chorou nos meus ombros. A Morte pra ele foi mais traumática. O meu primeiro encontro com ela foi através de um pássaro no meio da calçada, mas ele passou para um degrau filosófico muito mais pesado que aquele que eu passei. Ele em tenra idade passou a questionar quanto vale a vida… E ficava triste pelos cantos, até que o Tempo lhe curou as dores…

Quando eu era menina, e ficava triste pelos cantos, eu subia no telhado de casa. A vida era incrível lá em cima. Isso passou a ser corriqueiro na época em que eu me tornei uma criança triste, fragilizada emocionalmente. Era em cima do telhado que eu encontrava minha paz que tanto me fazia falta. Eu era feliz quando meu irmão Ricardo ia me visitar, e nós íamos ao cinema, escutávamos música, ou quando ele me levava para brincar em piscinas de bolinhas ou carrinhos bate-bate. Ele sabia que eu passei a ser uma criança sozinha em um mundo de adultos estressados, deprimidos e alguns deles, opressores. Quando ele não estava lá, eu ficava no telhado. Escondida, sim, escondida. Porque as pessoas passavam sempre olhando em frente ou olhando para o chão. Nenhuma delas olhava pra cima para ver o quanto o céu estava bonito, ou o bem-te-vi que sempre cantava em galhos nas árvores da minha rua. Outra alegria que eu tinha era levar minhas cachorras para passear. Ver a alegria delas cheirando pequenos canteiros e chegarem cansadas em casa era uma forma de eu ficar feliz. Um dia minha cadela Gabi, já velhinha, talvez ciente de sua morte, fugiu. Dizem que os cães sabem quando vão morrer, e alguns deles se afastam dos donos para evitar que eles sofram. Todos os meus bichinhos sabiam quando eu estava magoada. Eles deitavam ao meu lado e não saiam, e os mais novos faziam graça para tentar me fazer rir. E de certa forma, funcionava. Hoje, sinto falta de ter um cão. O amor dos animais é incondicional. Um amigo me disse que eles são mais humanos do que aqueles que recebem essa alcunha. Falam que o Homem é ser-HUMANO… Tenho minhas dúvidas. A criança sim, esta é um ser humano. Um ser em perfeição, tão incompreendido. Não penso em ter filhos, não agora. Penso que o mundo é cruel demais para seres tão perfeitos conviverem. E então eu pensei se ainda podemos oferecer para as crianças um mundo mais bonito. Mas o problema não está em nós, está ao redor. O que podemos fazer? Mantê-las em redoma de vidro? No momento sou egoísta o suficiente para apenas eu sofrer com as dores e intempéries do mundo, a ponto de querer ter de volta a inocência que eu tinha anos atrás. Eu era apenas uma menininha banguela, magrela que sorria brincando em balanços. Muitas vezes eu sonho com essa época, com as crianças que eu brincava, com André Luis… Um lapso momentâneo daquilo que perdemos ao passar dos tempos. Mas quando eu acordo, vejo que estou de volto para aquilo que corresponde à minha realidade. Hoje, não vejo mais crianças nas ruas. Não mais como antigamente… Não mais… Ser adulto é tão chato!

Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta... Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou...
Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta… Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou…

João e Maria

Era de se admirar. João ficava no canto da cela com os olhos baixos como se a saudade fosse a única que restasse. Os remédios já o tranquilizavam. Ele brincava na solitária com seus brinquedos de criança. Pensam que o louco não tem memórias, e tenho um amigo que me diz que lembranças e saudade enlouquecem o homem. Ali, no canto, perto da cama dura de hospital, João achava que era um herói. Um dia, sua tia lhe deu um cavalinho de plástico. Não queriam deixar ele entrar no hospital com seu cavalinho. Não era um louco perigoso, mas cortaram as patas do cavalo. Ele era louco de fazer de um brinquedinho de plástico uma arma? Talvez, mas era feliz com seu cavalo, ele falava inglês e João dizia à enfermeira que era necessário um dom para ouvi-lo. Uma enfermeira indagou João, que o cavalo dele não poderia levar o Herói João e a mocinha Maria… Ele não tinha patas. João ficou um tempo de cabeça baixa, enquanto a enfermeira aplicava-lhe a injeção. Pensou em algo coerente ou incoerente para responder àquela enfermeira pequenina com olhos de menina e lábios carnudos de musa renascentista. Disse-lhe que teu cavalo podia não ter patas, mas ele voava no confins dos sonhos de toda uma humanidade. A enfermeira deu um sorriso e o questionou se ele era realmente louco. Pensou baixinho, consigo mesmo. Queria desvendar aquela homem ali, que em acessos de loucura disse à todos que não iria mais ao jardim tomar sol porque o demônio dançava pelado no jardim. O que eram os sonhos de uma humanidade para um louco?

– Você é a noiva do cowboy! – disse João, segurando uma boneca de pano que pertencia à irmã, que nunca mais o visitou.

– E quem é este cowboy, menino João? – disse a enfermeira, ao ver o boneco velho também sem pernas, considerado pontiagudo demais para conviver em pacífica consciência com João, o Louco.

– Agora o herói sou eu Rosaly… E você é a Maria, além das outras três ali, mas hoje minha rainha é você, e estou levando-lhe para um faroeste em Paris… Você fala a língua de Paris?

– Não, não falo. O que vai ter neste faroeste em Paris? Não quer mais ser cantor de rock? O que faz um cowboy em Paris?

– Tonta! Já lhe disse, eu sou um herói! Eu tenho o cavalo Rocinante, eu mato dragões que cospem champagne e caviar. Sabia, eu tenho batalhões, todos vestem chapéu e carregam o coldre com uma pistola de cada lado. Levo um punhado de dólares. Ainda sou cantor de rock, sou um astro, maior que o sol.

– Mas tu disseste que és cowboy…

– Eu canto apenas de manhã, e o sol que entra no quarto agora indica que já é tarde. Agora eu enfrento batalhões, tenho de matar Hitler com uma facada no pescoço, beber até a última gota de sangue. Depois transar contigo… Além das outras três.

E as outras três bonecas de pano jaziam no canto do quarto. João, o Louco, só queria Maria…

– Estás muito bonita hoje Rosaly… Maria Rosaly – disse João enquanto pegava um copo de água da enfermeira Rosaly.

– Como sabe que o meu primeiro nome é Maria? Tu és bem espertinho!

– Você tem os olhos de mulher louca… Sabe? Crazy eyes… Eles se movimentam, fora de órbita. E o M na frente de seu crachá. M. Rosaly… Sou louco mas não sou burro. Agora saia. Quero brincar que sou rei. Cansei do faroeste. Minha mão está cheia de pólvora. Tenho alergia à pólvora. Saia, por favor…

– Pensei que agora eu seria tua rainha e seríamos felizes, cavalgando as tardes nas colinas! – e Rosaly saiu, fechou a porta e viu João atirar o cavalo pra longe.

João pegou sua coroa de papel. Ele era Luis XIV. Era o sol, era um juiz, era o professor supremo, amado por tudo e por todos, desde as pessoas sadias, aos loucos das montanhas. Os solitários, os extravagantes, a lua e as estrelas. Todo mundo obrigado a ser feliz. Quem não era, ia para a guilhotina e com o sangue fazia chouriços para alimentar o povo. Só faltava a princesa. Aquela era a terra de ninguém, era apenas ele, e os sonhos de correr com sua amada, pelas ruas floridas do seu reino. Ela poderia andar nua se quisesse, mas a enfermeira Rosaly achava que ela era apenas um brinquedo, uma boneca de pano jogada no quarto. João era louco, ela não poderia dar-lhe a mão, não poderiam jogar pião no jardim. O demônio andava por lá, ele tinha medo. João poderia montar-lhe em cima, e fazer dela o seu brinquedo, o seu bicho favorito. Queria não sentir medo. Queria que ela não sentisse medo, queria que eles se dessem as mãos. Mas ele era louco. O medo sempre foi a maior loucura dos homens e a maldade, ainda existe. E João ficou, na sua solitária, olhando lá fora na janela cheia de grades e vidro blindado. Murmurava ” Não fuja, não fuja não…”, e por vezes procurava enfermeira Rosaly no jardim. Rosaly era sua Maria. Ele a mandou embora, pois em sua consciência de louco, sabia que tudo ali era um faz de conta. Para além das fronteiras do jardim do manicômio, sua Maria some, e nem dele vai se despedir. Ela se aninha nos braços do marido, faz a janta das crianças, carrega-as no colo e lhes conta uma história de ninar. E em seus sonhos de romance, ele como homem, desmistificado de toda sua loucura, as noites com Maria não teriam fim. Rosaly apareceu no jardim. Pela primeira vez ela viu que João a observava da janela. Sorriu e mandou um aceno. Será que aquilo era sincero?

Quando estava anoitecendo, Rosaly entrou na solitária. Queria se despedir de seu louco favorito.

– E agora João, quando anoitece, o que você é agora?

– Agora Mariazinha, eu sou o louco consciente, que se pergunta o que a vida afinal vai fazer de mim.

Silêncio…

Garotinha à toa

Garotinha à toa

Era o alvorecer no horizonte. Fez-me calar em todas as esferas de razão, olhos perdidos, na vastidão de pensamentos que caem no chão, recolhidos pelos pássaros em busca de comida. E o que dizer? Pássaros comem pensamentos? Não querido, isso aqui é apenas uma metáfora perdida em um texto escrito num feriado de nuances. Parou de chover lá fora, e o sol ameaçou surgir timidamente ao longo das quatro horas da tarde. Em dias de preguiça, até o sol anda rabugento, tímido, aparecendo forçosamente sem querer. E ele dourou a pele daqueles que caminhavam em volta da lagoa, enquanto os patos atravessam com jeitinho engraçado. As pessoas corriam e se dispunham a sorrir e diminuir o passo. Sabe o que é isso, aquilo que falamos de manhã, o prazer nas pequenas coisas. Quando vou ao parque, gosto de voltar depois do entardecer. Sinto-me bem, acolhida nos últimos raios de sol do dia.

Acordei hoje e fui caminhar. Caiu uma garoa fina, mas quando eu cheguei a minha casa, um banho quente e cheio de ternura tirou-me daquele cansaço da caminhada em passos apressados. Tomei meu café da manhã bem tarde. Dias chuvosos pedem uma preguiça e uma falta de disciplina justificável. Fiz meus pães com manteiga na chapa e meu velho e bom café com leite. Gosto de minha vida simples, sem cobranças, fazendo o que eu bem entender. Seria isso um privilégio? Ou esse meu privilégio me tornará uma pessoa amarga que não suportará conviver no mesmo teto com outra pessoa? Serei eu uma pessoa ranzinza? Egoísta… É o que dizem das pessoas que moram sozinhas. Dizem que elas se fecham em um mundo só delas, e ficam alheias à mercê da própria solidão, mas há pelo menos o que chamam de ócio criativo. Vi um dia desses, uma matéria que disse que as pessoas que vivem sozinhas são mais criativas. Realmente? Não sei dizer, mas lhe digo, não sei escrever no caos. Gosto do silêncio, mesmo que ele seja invadido por pequenos sons de gotas de chuva caindo lá fora. Gosto de devanear sobre as gotas cálidas de chuva que escorrem no vidro de minha janela. Gosto de tomar chá enquanto escrevo ou leio um livro. De vez enquanto invento alguma receita maluca de café. Um dia fiz um cappuccino com notas aromáticas de laranja. Frequentei muitos cafés, levei comigo algumas receitas para minha eternidade imersa em cafeína e brincadeiras insones.

E minha mãe pega no meu pé às vezes, dizendo que eu desapareço. E eu digo, entenda mamãe… É a natureza de minh’alma. Ela clama pelo ar fresco dos dias comigo mesma. Disseram-me que eu penso demais, o tempo todo, e que isso faz mal. Fui diagnosticada com hiperatividade. Sofro de insônia pelo simples motivo de não conseguir me desligar. Quando fecho os olhos, sonho com a pessoa que eu amo, doente numa cama de hospital de paredes psicodélicas e clamando por um gole de café. E eu, com meu coração tão mole, desobedeci as ordens médicas e levei a ele um bule cheio de café, e ele levou aos lábios, segurando a xícara bonita e azul com as duas mãos, cheias de marcas de agulhas impiedosas. Deu-me um sorriso e me apertou a mão num gesto de carinho, depois de dar um belo gole de café e não conseguir segurar a xícara por muito tempo. Entram as enfermeiras chutando a porta me chamando de assassina. Devem ter sentido o cheiro do café no corredor. Confusão criada… Lembro-me do rosto de meu amado num sorriso de satisfação com misto de ternura e um pedido de desculpa pela confusão criada. Eu me pergunto… O que significa sonhar com uma pessoa que está com Dengue e não pode tomar café? E eu me recordo do aroma do café no quarto do hospital, e o meu amável doente moribundo me perguntando o motivo daquilo tudo. Eu poderia procurar o sentido em meus livros de Jung e Freud, mas prefiro ficar com o meu significado. Conhecimento pode ser um belo estraga – prazeres… Quero viver o meu prazer.

Sou uma garotinha, sim, minha querida mãe. Sou uma garotinha em corpo de mulher de 25 anos, rabugenta e que se sente velha, muitas vezes. Estava pensando em correr atrás de minhas coisas. Ter uma casa com quintal, começar a comprar meus móveis, minha própria cama, minha estante abarrotada, um quintal com flores, gramado, lençóis brancos secando no varal, mais tarde rasgado e sujo pelo meu cão ou meus cães. Adoro animais, gosto de flores, queria deitar no gramado e ler histórias, colher laranja e descascá-la. Pegaria as cascas e usaria de adubo em minha própria horta. Esse estilo de vida que aprendi com meu querido pai. Hoje sou uma garotinha que acha um absurdo pagar 2,50 no quilo da banana. Quando eu morava com meus pais, a banana era colhida no fundo do quintal. Eu não quero muitas coisas. Sou uma mulher simples. Queria um amor pra vida toda, sou aquelas que vivem o ideal de que quantidade não é qualidade. Amei poucos homens, minha vida amorosa não é movimentada. Mas aqueles que eu amei, carrego no peito uma lembrança doce e cheia de ternura, mesmo nas brigas e tudo aquilo que nos fez separar. Meu Amor não morre, levo comigo, junto ao peito, e a única coisa que eu queria era poder sair de manhãzinha e levar meu velho cão pra ir passear. Passar numa padaria e trazer pães quentes e fresquinhos para meu amor, que acordaria, tomaria uma ducha pra despertar. Eu prepararia um café, e ainda levaria quando ele saísse do banho com a toalha amarrada na cintura. Iria rir dele quando saísse do banho tremendo os lábios. Se estivesse de mau humor, contaria alguma piada que eu li no jornal que o espera na mesa do café. Colheríamos amoras para fazermos geleia. Nem sei se ele gosta de geleia, mas eu faria mesmo assim. Nem sei nada de meu futuro, mas independente do que seja, é o que eu gostaria de fazer. Não almejo grandes sonhos. Queria apenas minha casinha com quintal de flores e pés de fruta, um escritório com meus livros e minha escrivaninha. Talvez a maior utopia disso tudo seja ter isso vivendo apenas da escrita. Sou apenas uma garotinha à toa, com meus devaneios noturnos de feriado de outono. Garotinha à toa nos meus sonhos tão singelos. Amarga é a escuridão sem estrelas. Em meu céu, tem lugar pra todas elas. Inclusive você, garotinho à toa…

Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

O bom menino.

Você mostrou-me teus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro… Daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…

Éramos jovens, você se lembra? Corríamos pelas ruas do subúrbio buscando sonhos desacordados, com canções em tons desafinados, cores ajustadas, como a mistura de Renoir num quadro pintado em Paris. Posso estar escrevendo coisas das linhas pra fora. Entenda querido, já são além da uma da manhã, e eu ando tendo madrugadas insones. Há um silêncio lá fora que me convida para contemplar os gatos por cima do muro. Eles andam numa graça inocente por entre as grades, e quando me veem com os cabelos ao vento, no meio dessa madrugada de outono indeciso, eles me encaram com os olhos brilhantes. Há um gato, negro como a noite, eu só vejo os olhos amarelos, me encarando como se soubesse dos meus sonhos de ir e vir, das minhas noites tecendo a saudade em meu tricô imaginário de vinho Merlot. Hoje bebo no gargalo, desde que te conheci ignorei a etiqueta de tomar vinho como gente educada. Eu não sou mais educada, sou tresloucada.

Se eu fumasse, acenderia um cigarro, talvez um mentolado, ou aqueles doces, de cereja. Ficaria soltando anéis de fumaça no ar, quem sabe eu fizesse um grande o bastante? Tem uma coruja aqui perto do terreno baldio, ela mora num buraco. Em meus sonhos, ela poderia passar voando nos meus anéis de fumaça mentolados. Ela passaria por dentro deles e daria um rasante no chão. Talvez, pegasse minhas emoções que jazem no chão, e levaria para bem longe, talvez para um inferno Dantesco, ou para o paraíso dos sonhos de Beatriz. Lá existe um pouco de Amor. Eu escuto Chico Buarque e sinto Amor, e eu queria que quando eu passasse você me estendesse a mão, ou o chapéu, mas tu não usas chapéu. Um dia queria que me mostrasse o sol, aquele que lhe faz sorrir, assim, mais de duas vezes ao dia. Percebe? Eu te mostraria toda a beleza de um dia chuvoso, talvez encontrássemos alguma coruja tomando banho, enquanto as pessoas passam aturdidas com seus guarda-chuvas, com raiva, passos largos. Eu contaria os segundos, contigo, e depois me apoiaria em teu ombro quando o trovão bradasse a fúria dos Deuses lá naquele horizonte de campo aberto.

Quando eu era criança, eu gostava de andar de bicicleta embaixo da chuva. Eu passava na poça de lama, e conforme ia pedalando, a roda de trás respingava lama nas costas da minha camiseta velha de guerra. Meu pai sempre falou que eu poderia tomar um raio na cabeça, mas a única coisa que eu tomei, foram gotas de chuva que me escorriam nos lábios. Eu era uma criança levada. E você ficou com minhas fotografias… Tem uma delas que eu estou feliz e banguela num balanço. Tem outras que estou acampando em Brotas, e eu praticava trilha na serra com minha mãe e aquele que um dia eu chamei de pai. É uma longa história, queria te contar um dia, sobre minhas aventuras, dos dias que eu subia no telhado escondida. A vida era incrível vista de cima, e pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não dão valor para quase nada, não tinham um olhar apurado, nunca ninguém me viu lá em cima, ninguém, só pardais e pombas que balançavam nos fios do poste… Ahhh, e o cachorro da vizinha, que eu tinha que passar de fininho, porque ele ficava nervosinho e se colocava a latir ininterruptamente. Tinha medo de ele chamar a atenção da minha vizinha balofa que não dormia porque o marido roncava. Ela poderia acabar com a minha brincadeira infantil de ser uma stalker das alturas. Um dia, atirei uma pedra no cachorro dela. Você vai me dizer:

“Malvada”…

Mas um dia, você me contou que jogou o gato da janela. Tu eras uma criança, tão malévola quanto eu, ou não… Apenas queria ver se o gato cairia de pé… Lembra? Quando você me contou isso, eu lhe disse pra você amarrar um pão com manteiga nas costas do gato, assim ele cairia de costas… Mas você cresceu meu bom menino… E nas ruas desse subúrbio, enquanto você dorme, com seus sonhos que talvez nem se lembre quando acordar, eu lembro da sua travessura de menino, como cenas de um frame despedaçado. Eu posso ver duas crianças correndo pelo subúrbio… Mas isso é apenas um devaneio, perdido entre meus anéis imaginários de fumaça. Na primeira tragada eu vou achar que vou morrer. Tentei tragar uma vez, quase morri, mas você tentou me ensinar. Eu acho que ainda não aprendi, ou tenha me esquecido. Fico apenas na vontade de menta, cereja ou pinho…

Eu poderia te reconstruir, como um vitral, daquelas igrejas europeias, mas não seriam imagens santificadas, já lhe disse um dia, eu fujo de tudo que é convencional, e faço isso sem querer, sou tresloucada… Quando criança chutava os formigueiros e passava o tempo observando o caos. Eu me perguntava se as formigas gritavam, como as pessoas na televisão quando aconteciam aqueles terremotos lá no Japão. Hoje só escuto meu próprio grito. O resto eu ignoro. Além de louca, sou egoísta. Mas eu te amo, mesmo tendo atirado o gato da janela. Você chega até mim nessa noite, com seus sonhos e travessuras de bom menino.

Emoções rasgadas.

Depois de uma noite de insônia, poucas horas de sono, e aquela sensação de resfriado chato querendo derrubar, acordei quase rouca, com voz estranha, que sumia em poucas palavras. Quase desmarquei a entrevista, mas não desisti: salto alto, camisa, meia fina e saia executiva. Sapato fino, de tom bordô em couro aveludado, cujo salto enganchava nas malditas calçadas de pedras soltas. E eu penso… Por quê dificultamos tanto? Tudo poderia ser mais simples. Eu me irritei com minha meia-calça. Passei em uma loja no meio do caminho, comprei outra, entrei no banheiro do estabelecimento e troquei minha neura por outra neura… Fiquei com medo de rasgar a meia de fio 15 em lycra, fato que realmente aconteceu, mas foi no portão de casa, quando a coroa do abacaxi que eu comprei encostou-se a minha meia. Quando fui trocar as sacolas de braço, escutei o barulho desesperador de fios rasgando. Olhei, dei risada. Pedreiros na espreita… Um naco de minha coxa branquela debaixo do rasgo seria normal e mais divertido se fosse à hora de um bom sexo, aquela coisa de desespero. Melhor uma meia rasgada em cima da cama pelas mãos de um homem do que pela coroa de abacaxi pérola comprado na promoção que estava azedo. Nada que um açúcar resolva. Devorei três fatias com requintes de crueldade e sadismo, sentada em minha cama, marcando trechos de “Cartas de um Escritor Solitário”, de Sam Savage. Joguei fora a meia, fiquei em mangas de camisa e adormeci. Não passei na entrevista, recebi um e-mail frustrante, mas sou forte, paciência! Terei outros momentos para rasgar meias por aí e dar risada de meu próprio medo. Pelo menos tenho algo divertido com tons de tragicomédia para contar. Adormeci esparramada na cama e sonhei com teus braços com veias e tendões aparentes de tua pele branca e combinando com meus tons embaixo de minha meia rasgada…

Olimpo.

Estava sonhando. Padeceu em castelos de cristal, construídos por Deuses pagãos do Olimpo. Acendeu velas ao entardecer, ajoelhou-se perante seus medos, lapidados em pérolas de ostras do inferno de Hades. Apaixonou-se pelo cão de duas cabeças, tinha o olhar desconcertante de um brilho que nem todas as plêiades juntas são capazes de seduzir. Ela era como, no céu de Aqueronte, a mulher dos olhos de caleidoscópio.

Acordou encharcada de suor. Abriu as janelas e deixou-se levar pela friagem da madrugada. Seu velho e bom homem dormia ao seu lado como um anjo intocável. Deixou-o lá, com seus sonhos de menino. Pegou as chaves de casa, saiu para caminhar nas calçadas de pedras soltas do bairro do subúrbio. Em volta dos postes, as sombras voavam. Pontos negros de mariposas, rodopiando embriagadas em volta das luzes amareladas que tanto seduziram. Era o céu de Vênus, criado na natureza da imaginação dos que criaram a mitologia divina, de Deuses, raios e trovões. Similitudes, cantando, dançando. A pele dourava-se de Vênus, o coração batia cores, tingidos de paixão nunca atingida, incólume contra o tempo, que não tem hora para chegar. Não existem idas e nem vindas, apenas a imortalidade, bruxas voando em feitiços de bom menino. Atirou-se, de corpo e alma nas estrelas que iluminavam as pedras brancas no meio do caminho.

“I shall be released” …

 

Perto de mim nesta solitária multidão
Está um homem que jura que não é ele a se culpar
O dia todo eu o ouço gritar tão alto
Clamando que não é ele a se culpar
Eu vejo minha luz vir brilhando
Do oeste até o leste
Mais dia, menos dia
Eu serei libertada

 

Eu vi o amanhecer de raios tímidos, banhei num sorriso desconcertante, padeci de amor nas caminhadas noturnas. Quando eu via o clarão de luzes amarelas, tinha toda uma epifania talvez sem sentido algum. Ando respirando quem sabe um ar que não me pertence, posso ter chegado sem permissão, mas na minha queda eu me levanto e danço passos de bailarina de sarjeta. Cultivo o caos na tranquilidade de minhas entranhas expostas. Tomo goles de vinho enquanto leio um livro, eu ando por aí mentalizando crônicas, poemas e sonhos. Penso em ter uma casa, no alto da serra, com vista para coníferas, alguns manacás da serra imponentes e meus cães correndo pelo quintal. Também gosto de ipês, mas enfim, seria mais fácil dizer que amo flores, desde aquelas que padecem secas nas minhas garrafas de vinho vazias na estante, até o vaso de flores imaginário que eu nunca ganhei. Contemplo os vasos de minha mãe, e aqueles que tem no quintal da pequena casinha que eu alugo. Amo os cães que eu vejo pela rua. Sempre tem um que me lambe as mãos, me faz festa, me olha nos olhos e chora quando eu vou embora. Tem aqueles que sabem quando estou triste…

Vivo minha vida de forma simples, sem muitos luxos. Os únicos luxos que eu carrego são o ato de pagar caro em vinhos e gastar muito em livrarias. Fora isso, vivo sem amarras, gosto de ser livre, se pudesse, eu pegaria um avião qualquer e fugiria temporariamente para outro país. Sou apaixonada, eternamente apaixonada, pela vida, e tudo que eu carrego nela. Eu amo um homem que eu não sei se me ama, e eu acredito que nunca saberei, mas eu não desisto, sigo minha vida, vivendo de Amor, e não me importo que seja mais um daqueles mal sucedidos. A vida é muito curta, eu sei, mas sou uma eterna errante, teimosa. Podem me chamar de trouxa, do caralho a quatro, eu não ligo, posso ficar 365 dias ou mais, perdida em alto mar. Volto para minha cama, deito em meu travesseiro em forma de bicho e tenho meus sonhos de esperança. Acordo, e lá estou eu, no meio do oceano novamente, enfrentando tempestades, conversando com as gaivotas e dormindo ao relento.

Por vezes, eu acordo no meio da madrugada. Gosto de sair lá fora, tomar uma friagem. Gosto de tomar chá sentada na soleira da minha porta. Vejo o vento que me bagunça os cabelos, chacoalhar a coruja talhada em madeira, que tem pendurada no quintal. Ontem, de madrugada, o vento derrubou um vaso. Ele espatifou-se inteiro e lindas pedras brancas se espalharam no meio da terra. No meio da escuridão, as pedras brilharam, e no meio da madrugada, eu sujei minhas mãos de terra, replantei o vaso, varri o chão, peguei as pedras jogadas no quintal. Me senti viva, com minhas mãos de dedos magros e longos, que minha mãe me diz que parecem dedos de pianista. Eu nunca toquei nenhum instrumento, mas gosto de pensar nas costas nuas de meu amado, como um grande piano. Eis a única coisa que eu toquei… A pele é uma obra de arte, deslizar nela é como um arco num cello, no violino, mãos deslizando em teclas de piano. Barulhos de amor é uma orquestra sinfônica, uma sonata de Beethoven

Estou viajando na maionese, faço muito disso, mas eu não me importo se faz sentido ou não. Vivemos em um mundo de opiniões e visões diferentes, e é isso que o torna tão belo. Essas nuances gritantes, uma sinestesia desvairada. Eu vejo cores em cheiros, notas musicais em palavras. Talvez eu seja louca, mas essa loucura é o que me move, queria eu, sair com camisa de força por aí, descabelada, com um cigarro de canto de lábios, e uma flor no canto da orelha. Sairia cantando Beatles em alto e bom som, declamaria a “Balada do Louco”, misturada com “Lucy in the sky with diamonds“. Cantaria uma canção para meu Amor, mas eu não sei cantar, eu tento, mas eu não sei. Cantei em coral por dois anos, em vários idiomas, mas eu juro, eu não sei cantar e acho minha voz um lixo. Mas creio que sei escrever, e é isso que eu faço, e pode ser que meu Amor não me leia mais, mas, sinceramente, foda-se. Eu tentei, posso ser destruída, mas nunca serei derrotada. Estou na deriva, balançando em alto mar. Levo meu Amor no peito, falo dele para as gaivotas, e para peixes voadores. Não posso prever minha sorte, nem a falta dela. Eu corto minhas mãos na linha de pesca, eu falo sozinha, tenho poucos amigos, mas ótimos e eternos amigos. Eu me deito, sozinha, minha cama não é feita de jornais, mas eu nunca desisti, ando de pés descalços num caminho de espinhos, cheio de rosas, sangue e emoção, mas pra suportar minha dor, penso em meu caminho como cheio de areia quase branca e fofa, e vejo lindos leões dourados andando sobre ela. Eles olham para o horizonte, imponentes. De vez em quando soltam um rugido, e da minha cabaninha eu olho pela janela e solto um sorriso tímido.

Da minha janela, estou sempre escrevendo…

Epifania: Clarabella.

Clarabella acordou numa manhã disposta a arrumar a casa. Na verdade, ela fazia isso quando se sentia magoada, o ato de se reorganizar era uma forma de colocar sua alma tão aturdida em uma paz teleguiada. Era como se ao limpar o chão, varreria do porão da memória toda a angústia que a atormenta. Começou pelo quarto, arrumando a cama, com os lençóis cheios de vincos, lembrança de uma noite que tentou sem sucesso ter algum pingo de amor do marido. Ele chegou tarde e cansado, ela preparou-lhe um jantar e o aguardava apenas de lingerie. Passou o fim de tarde toda preparando um assado, ele olhou, comeu um pouco apenas para não vê-la triste. Dizia-se cansado, o trabalho estava massacrando-o e ele se sentia estilhaçado. Tomou um banho, deitou na cama, dormiu. E ela então colocou seu velho pijama confortável para dormir, mas havia perdido o sono, e quando ela ficava magoada, sentia fome. Fez um prato de comida, e foi para o sofá, carregando todo o peso dos estilhaços, uma tristeza vítrea. Se ao menos, ela pudesse ter alguém para reconstruir-lhe sua alma já tão minimizada, talvez um artista conseguisse enxergar a beleza dela, e faria um vitral com o Amor que ela tão esperançosa acreditava. Ali, naquele sofá da sala, assistindo filme romântico de fim de noite, estava uma mulher adormeceu com o controle remoto em cima do peito, subindo e descendo conforme respirava, e nos sonhos , ela vivia em um mundo menos mesquinho e cheio de noites de Amor. Não culpava o marido, apenas não sentia aquele amor todo que sempre almejava. Tentava amar aquele que sempre lhe ofereceu a mão, que esteve ao lado dela nas dores da vida, mas faltava algo.

Na limpeza do quarto, encontrou um velho baú ao qual guardava suas memórias. Fazia um tempo que ela não o abria, pois quando ela fazia isso, uma saudade da época em que não tinhas tantas obrigações, invasões de tal forma que ela passava a relembrar o passado com olhos perdidos, e uma espécie de torpor causado pela saudade, fazia desligar-se do mundinho real, inserido naquele contexto ao qual ela não almejou.

Dentro do baú ela encontrou a doçura e a inocência de seus tempos de criança. Havia uma boneca que ela carregava para todos os cantos. Ela dizia que era sua filha. E ali, naquele momento, Clarabella, já adulta, experiente e de olhos ainda desacostumados com as provas que a vida escancarava na sua janela,  sabia que o mundo é egoísta e destruidor de sonhos, mas ela não desistia, era uma Dom Quixote de saias, sempre lutando com seus moinhos de ventos transmutados em dragões. Naquele momento, com a boneca nos braços, começou a balançá-la enquanto murmurava uma canção de ninar:

“Dorme, dorme menininha…Eu estou aqui…

Vá sonhar, ainda é tempo, menininha

Vá, vá dormir…Sonha sonhos cor de rosa

Passeia no céu e no mar

Apanha o mundo no teu sonho, menininha

E não deixa ninguém roubar…

Olha, não reparta com ninguém os teus sonhos de menina

Dorme, dorme…Dorme e sonha menininha

Sonha, é tempo ainda…”

 

Naqueles braços, a boneca lhe trouxe as memórias do sonho de ter uma filha. O nome da boneca era Sophia, e ali, agarrada, sentada ao chão em frente de seu baú de memórias, olhou para o relógio e viu que as horas estavam paradas, ignorou o fato de ser apenas um relógio com pilhas mortas, e em um esconderijo de fundo falso no guarda-roupa, as roupas de recém-nascido que compra todo mês, um sonho antigo, eterno. Era ali seu segredo, ela queria uma criança, mas o marido não. Ela queria um pedaço dela nos braços, mesmo que não tenha ali, o DNA de seu amor verdadeiro, um homem que conheceu há anos, e nas idas e vindas de um amor já antigo, a vida lhe deu soco no estômago que lhe impossibilita de viver aquele Amor.

Olhando para a boneca Sophia, apaixonada pelo gesto de ternura, pelo sonho de ser mãe, ficou preocupada, achando que seria daquelas mulheres presas dentro de um hospício, falando sozinha, no canto de uma cela, com uma boneca no colo e injeções diárias de antidepressivos. Passaria o dia dormindo, sonhando com uma criança correndo entre os irrigadores do jardim. Então, rapidamente guardou a boneca, e as roupas de bebê no fundo falso perfumado com sachê de rosas. Sentou na beira da cama, e com o rosto entre mãos, derrubou lágrimas tristes e convictas de que nunca conseguiria ser mãe.

Foi numa tarde de domingo, que numa caminhada para aliviar a tensão, encontrou uma linda cadelinha numa feira de adoção. Levou-a pra casa, colocou uma fita vermelha no pescoço, e presilhinhas nas orelhas. A cadelinha agradeceu o carinho lambendo-lhe o rosto e adormecendo nos braços de Clarabella. E ali teve uma epifania, e o mundo não parecia mais tão egoísta.

“Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela…

Eu quero ser feliz agora

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr’uma outra hora
Que a segurança exige medo
E que quem tem medo deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
E que nessa festa você tá de fora
Que volte pro rebanho.

Não acredite, grite, sem demora…

Eu quero ser feliz Agora”

PS: Os trechos em aspas são músicas do Oswaldo Montenegro. 😀