Um café para Irene

“Let me fly
Let me fly
Let me rise against that blood-red velvet sky” (“Undertow”, Pain of Salvation)

Irene… Ele chamou com a boca seca. Era cedo e os primeiros raios de sol já anunciavam a alegria trágica de mais um dia. Olhou para lado, os lençóis manchados, em desalinho, Irene não estava lá, nem sentada na poltrona velha com espuma saindo que fica no canto do quarto. Ele se lembra que ela costumava sentar-se lá após o banho, enrolada na toalha, e ficava horas lá lendo livros, e a toalha escorregava e ela ficava com os seios arrepiados a mostra e os cabelos molhados escondendo o pescoço. Irene… Chamou ele. A garganta doía. Ele pegou friagem durante a noite, enquanto fumava um maço de cigarros lá fora e tomava um velho Jack. Estava de ressaca e Irene estava novamente sentada na cadeira em volta da mesa jantar lá, com os olhos mirando o infinito, em seu mundinho particular, falando com os olhos. Desde que aquele acidente aconteceu, ela apenas fala com olhos. E ele sofre de refluxo estomacal cada vez que senta ao lado dela e tenta uma aproximação.

Eu não tenho culpa… Foi um acidente Irene! Você precisa entender isso. Murmurava ele enquanto a água fria escorria da torneira. Molhou as mãos, levou ao rosto, coçou a barba áspera perto das têmporas, a água fria paralisou a face e por instantes que olhou o espelho, mesmo ele não estando quebrado, ele enxergou vários eus, todos fragmentados. Uns tinham sorrisos sádicos, outros, davam risada e contavam piadas sujas de humor negro, como se fossem comediantes de stand-up. Mas era um riso forçado. Outro tinha ares cruéis, outro vomitava sangue, o outro simplesmente sorria e dizia: Um brinde!

Vestiu uma camisa, colocou os chinelos, abriu a persiana. Os urubus estavam nas cercas, nas árvores, alguns com as asas abertas, outros pulando de jeito engraçado pra um lado e para outro. O fedor do matadouro de porcos os atiçavam, o mau cheiro, de carne apodrecida, ele já se acostumou. Ele acreditava que Irene também se acostumou, pois ela não reclama mais. Desde o acidente, ela não reclama mais. Visitas não vão mais em casa. Irene se sente sozinha. Irene odeia aquele lugar.

Querido, temos que sair daqui… Deixe me ir? Deixe-me voar… Com os urubus lá fora. – dizia ela, com risos irônicos.

Ele engole em seco, descendo as escadas viu Irene, ela estava lá, sentada na mesa de jantar, indefectível, simples e humana. Tão humana…

Querida, eu parti suas asas, você não pode voar mais, nem correr… Você nunca esteve tão humana querida, quando eu olho pra você, eu vejo… O quão humanos nós podemos ser. Lembra querida? Das nossas conversas noite a dentro? Você sempre foi tão humana… Mas nunca como hoje. Nunca como nos últimos dias.

Em direção ao sol que ela tanto amava… Os olhos de Irene fitavam o sol que tentava entrar e iluminá-la. Mas se ele abrisse as cortinas, a paisagem horrenda dos urubus na cerca a assustaria. Irene odiava aquele lugar, aquele cheiro, as moscas… Moscas no vidro da janela, moscas em todo os lugares.

Querida, você está presa em um cadeira, deixe-me levá-la para ver o campo mais tarde. Você está pesada, mas eu vou te levar, eu vou te amar. Faz tempo querida, que nós não fazemos sexo. Porque? Eu lhe prendi tanto assim? Porque você caiu da escada, numa briga infantil e agora não fala comigo, não quer comer, não quer me amar…

As panquecas com carne e molho que ele fez pra ela no jantar da noite passada estavam lá. Ela nem mexeu nos talheres, não tinha a marca de seus lábios no vinho Carmem que ela tanto gostava. Ela não bebe, não come…

Ele acendeu um Luke Strike e colocou na boca dela que estava sempre com um sorriso sem graça.

Irene, vou preparar um café, e torradas com mel, que você tanto gosta. Aceita? , ajoelhou aos pés dela, afagando as pernas, roxas de hematomas. Beijou cada um deles. Vai sarar querida, eu prometo… Acariciou as coxas e meteu as mãos entre as pernas, mais ao fundo. Olhou para o rosto pálido, com sardas, com os olhos inchados, com olheiras. Irene sofre de insônia. O cigarro estava queimando, ela não se preocupava com as cinzas caindo no colo e nem com os dedos dele no meio de suas pernas.

E depois, vou lhe dar um banho, já que você se recusa. Você está parecendo uma porca imunda. E poderia ao menos simular uma cara de prazer ao invés de ser uma  imunda e frígida.

Tirou as mãos do interior dela. Lambeu os dedos. Ela nunca teve um gosto tão forte.

Você gostava quando eu fazia isso Irene, lembra? Você delirava, e agora nem se esforça mais… Nem para fingir.

Ele foi ao armário, pegou a cafeteira italiana, o café extra-forte. Matou a barata que passeou em volta dos seus pés. Outra subiu pelas pernas. Ele chacoalhou as pernas, como numa dança insana. A barata caiu e ele pisou em cima, veio outra, mesma coisa.

Lembra querida? Você gostava de dançar. Você me chamou pra dançar várias vezes, mas eu sempre recusava. E quando eu finalmente aceitei, você me pegou e conduziu. Hoje sou eu que cuido de você querida. Eu lhe conduzo, e faço isso porque eu te amo. Eu faço o seu café na sua cafeteira italiana e passo mel nas suas torradas. Faço o seu chá que tanto você adora e colho as flores que você plantou, mas você não enxerga isso. Você acha que eu não te amo mais, você acha que eu lhe quero morta pra sempre na sua vida.

O café começou a subir com a pressão dentro da cafeteira…

Querida, o café… Quer mais um cigarro? Prometa pra mim que vai comer. Se fizer isso, prometo vou levá-la para ver o pôr do sol, vou-lhe tirar deste inferno, eu não vou mais matar os porcos, vou abrir outro negócio, e os abutres vão embora da nossa cerca. E essas moscas? Eu vou proteger a casa inteira. Eu vou proteger você. Promete? Promete querida? Os olhos dela sempre concordavam com tudo, concordavam agora com as roupas jogadas no chão, ela perdendo sangue, ele lhe arrancou os pedaços, mas ela concordava e o grito interno que partia sem voz, era um pedido de liberdade.

Ele levou as torradas com mel. Ela não comeu as panquecas. Continuava com aquele olhar. O olhar de Irene, mas tinha algo ali, sem brilho, parecia que dentro daquele corpo, não existia mais Irene. Aquele vestido branco com manchas verdes e marrom, com desenhos de vermes, pareciam um quadro surrealista.

Está calor querida, deixe-me tirar suas roupas? Não… Não o faça. Eu quero fazer. Abriu os botões do vestido com os dentes.  Rasgou o tecido com uma força bruta de um homem sedento, beijou cada mamilo, as linhas do pescoço, beijou a boca, a boca inteira. A devorou como um garotinho afoito que não sabia beijar, e a pele dela grudava no corpo dele, o cheiro dela tempestuava os poros, foi um sexo sujo, sedento e selvagem. Quase um canibalismo. Ele transou como um animal, ela era sua presa, indefesa, tão paralisada, fria, cansada, se desmanchando, pouco a pouco, e sua alma se esvaindo, o corpo aos poucos caindo ao chão, e o que sobrasse dele, seria queimado e jogado aos ventos. Mas ele a amava… Ela o amava. Seu corpo se esvaiu, explodiu. E nele a sujeira rastejava, o desgosto pousava. Ele gania, como um animal, um lobo predador. Um animal fragmentado na própria dor e desespero. Irene caindo da escada, degrau a degrau… Ele se lembra disso enquanto transa com ela, e enquanto ele urra de prazer, lágrimas de tormenta escorrem… Ele está num rio, nadando contra a correnteza, navegando em águas sombrias e profundas.

Ele abotou o botão das calças. O barulho de vários carros era denunciado pelo cascalho da estrada. Os urubus crocitaram, pularam de um canto pro outro. As moscas que estavam no vidro continuaram lá, mas um som veio na porta. Ele espiou lá fora. Estava cercado…

Chegou a hora querida… Está na hora de você ficar livre. Mas eu quero partir com teu gosto nos lábios. Beijou-a, mordendo os lábios. Irene sorriu, depois de 7 dias sem ter expressão alguma no rosto. Os vermes se alimentavam dela e do jantar. E um deles saiu de sua boca e caiu dentro do café.

Adeus querida, disse ele. Eu sou tão patético que mordi meus próprios lábios para meu sangue se misturar com o teu. É poético isso não é querida? Fiz um pacto de amor eterno contigo…

Com sangue nos lábios, foi até a gaveta. Tinha apenas uma bala no revólver. Morrer… Um tiro dentro da boca. Caiu no chão, os vasos brancos de Irene tingidos de escarlate.

O seu último desejo, foi fazer um café na cafeteira italiana que ela tanto gostava. Um café, um bom, forte, quente e denso café… Um café para Irene. E ele morreu com um sorriso de ressaca nos lábios e o gosto de Irene misturado com café e e o próprio sangue.

“Let me out
Let me fade into that pitch-black velvet night” (“Undertow”, Pain of Salvation)
O gosto dela na boca, ela delirava quando ele fazia isso. Delirava.
A pintura chama-se “Doubt”, do artista Karien Deroo

Confessionário

O prazer é um pecado, e às vezes o pecado é um prazer. 
(Lord Byron)

As luzes lá fora já se apagaram. Os quatro comprimidos sublinguais de Rivotril duas miligramas estão se desmanchando na boca. O conhaque Presidente está pela metade, sorrindo pra ela, o gato oportunista passeando entre as pernas, entrelaçando-se, olhando pra cima e emitindo o som estranho que vem dos gatos: ronronar… Ronronar. Ela sempre gostou desta palavra, soa estranhamente erótico. Doente… Pensou ela… O gato, de alcunha Byron, queria carinho? Não, ele quer comida, está sempre faminto, com olhares piedosos, tal como o gato do desenho do ogro verde e o burro falante. O prato de Byron, o Gato está vazio. Talvez tenha um pouco de leite não coalhado na geladeira e um resto de comida de gato enlatada. Byron a encara, na penumbra da madrugada aqueles olhos amarelos lhe dão arrepios e ele a segue sentindo-se satisfeito quando ela coloca a tigela de comida ao chão.

Gatos desgraçados, tão classudos, comendo sentados, parando para respirar, olhando ao redor. Aqueles olhos amarelos de reprovação, enquanto ela toma goles longos de conhaque e acende a porcaria dos cigarros mentolados que ela esconde na gaveta. Os comprimidos de Rivotril, numa pasta nojenta, misturando com o conhaque made in Paraguai na boca. Aquela sensação relaxante, quente, densa e consoladora, com um peso de um homem entre as pernas, seu velho homem.

Os olhos do gato dizem: tal como o peso daquele seu velho homem ao qual você nunca teve.

Dá uma alta risada de escárnio, e vai se derretendo no sofá, com o olhar perdido no teto mofado com pintura descascada. Talvez toda a concepção que ela tenha a respeito de sexo, seja como aquelas paredes, aquela pintura… Incompleta, inacabada, cheia de manchas. Talvez ela se junte ao trovador bêbado que passa todas as noites declamando versos desconexos embaixo de sua janela, mas hoje, justamente hoje que ela precisava se deleitar do escárnio dos desgraçados, eles não cantam suas emoções. Fica somente o eco das vozes na escuridão, repetindo como trechos de canções em disco riscado…

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

É o que diz no disco riscado do Pink Floyd. Enquanto “Echoes” toca e ela delira no sofá, os olhos do gato, reprovadores, encarando-a como os olhos do padre durante a confissão. Lembrou-se que só se confessou uma vez na vida, na primeira comunhão. Entrou em uma sala no pátio da Igreja Nossa Senhora Aparecida, da cidadezinha pacata onde todos puxam o “r”. O padre estava sentado numa grande cadeira de madeira maciça e couro. Conte-me seus pecados minha filha, do que você se arrepende? Mas eram pecados de criança, tal como roubar doces, gastar dinheiro do lanche com fliperama,  subir no telhado escondido, simular sexo com a Barbie e o Ken, e fazer desenhos sem educação sobre a professora chata. Vou-me confessar Byron… Só você me entende, eu sei e você agora está com aquele olhar de que quer me ouvir…

Byron, o gato, se aproximou, lambeu-lhe a mão, não gostou muito, tinha gosto de conhaque, nicotina e sangue. Ela cortou a mão na lata de comida pra gato e não percebeu. O chão da cozinha estava manchado, contando histórias no chão. Mas o gato ficou lá, sentado, olhando pra ela, seminua e bêbada no sofá.

Byron eu pequei… Eu peco todos os dias, todas as noites…

O gato arrepia os pelos, lambe as patinhas e volta em sua posição de olhos atentos.

Eu queria beijar-lhe a boca inteira, afundar minhas mãos nos negros cabelos,

 Daquele seu velho homem que você nunca teve, disse o gato, com os olhos…

 Eu poderia lamber-lhe a cara, eu poderia beijar todos os pelos do rosto. Aquela barba negra por fazer. Eu poderia Byron… Eu poderia pensar em um milhão de coisas sujas e vulgares, eu poderia dançar nua pela sala, eu poderia fazer uma rima pobre e podre, mas eu não sou poeta. Eu poderia percorrer-lhe o corpo inteiro, como um inseto ou morder-lhe como um animal sádico, brincando com a presa. Aquele velho homem… Velho… Antigo, empoeirado, um quadro inacabado perdido em um souvenir.

Tomou mais um gole de conhaque; desejar sem poder é pecado? Até onde minhas entranhas expostas são um grito desconexo de utopia? O que é utopia? O que eu tenho medo? Qual o índice da minha maldade? Da nossa maldade, sem exceções? É matar alguém com 200 facadas, é torturar uma criança até a morte por inanição? É ver um cadáver na rua esperando o rabecão e tomar uma cerveja na calçada da esquina? Eu posso sufocar meu tesão com um travesseiro e pedir desculpas depois? Eu posso lhe arranhar as costas, posso traçar mapas de desejo no meio do suor, pelos, veias e tendões? Qual o prazer em sentir dor? De ver meu corpo rasgado e com marcas profundas de dedos, pequenas irritações causadas nas pele por causa do passeio de um rosto barbado? A preguiça masculina de 3, 4 dias de pelos na cara. E o meu corpo no espelho, dilacerado, desalmado e talvez amado? Qual foi o meu pecado? Pecado Byron… PE-CA-DO…

 Byron subiu no sofá, sentou no ventre nu e suado daquela que balbuciava eloquências e metáforas, e com olhos piedosos passou a língua áspera no ventre dela, como se quisesse caçar as mariposas no útero. E os pelos do gato como uma carícia, as patinhas pressionando como dedos. Ele se deitou, encarou-a com os olhos de incógnita e o piscar de felino. Trouxe-lhe a exata sensação de que o pecado era para ser vivido, mesmo na utopia. Dormiu, sonhou com o seu velho homem, que tem olhos e jeitos de felino. Dorme e sonha com dias poéticos, desgastados, descascados, com um pouco do mofo das tristezas, cores sinestésicas e os ventos de alegrias cheias de tragédia. Versos, neologismos, dor, beijos e gemidos.

 O gato olhou para a janela, poderia dar um passeio lá fora, no mundo paralelo dos gatos, perturbando o sono alheio com as transas felinas que atiçam o sono dos incautos, mas ficou com sua dona, e pensou nos albatrozes, “imóveis no ar”, do disco riscado do Pink Floyd. A noite foi como eco, cheio de vozes e desejos ensandecidos. A noite apenas começou, com seus encantos, prazeres, pecados e desejos, deitando em metáforas, aforismos, metonímias e falácias. O bêbado trovador passou embaixo da janela.  Todos os olhos felinos piscaram e sorriram, enquanto lambiam-se uns aos outros, as patas, a cara, o corpo, o sexo…

Escrito ouvindo isso aqui várias vezes:

Stains on the memory…

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, como um irresponsável. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado amigo, no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos teus pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos seus braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, o gerente que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Queria explodir todos os meus relatórios, toda aquela baboseira de índices de gestão. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei  queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir. As estrelas lá fora, como candelabros…

The Spell (broken) – Karien Deroo

Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

Epifania de uma personagem sem nome.

“Bem, tem sido um longo tempo
Desde que vi seu sorriso

Eu apostei meu medo
Até as luzes da manhã brilharem
Manhã de domingo
Somente névoa sob os limbos
Eu chamei novamente
O que você sabe?
E eu preenchi nossos dias
Com cartas e gin…”

 

Na noite de um sábado, enquanto deitada na cama confortavelmente vestindo calcinha e sutiã, nossa personagem sem nome estava esparramada na cama de sua humilde residência de mulher independente que mora sozinha. Muitos livros na estante, lápis coloridos comprados em um impulso de querer desenhar e pintar. Fã de vinhos e nostalgia, ela guarda uma garrafa de vinho chileno com duas rosas, enfeitando a estante. Estava lendo um livro e pensando em coisas da vida, no universo e tudo mais. Num momento, dá um pulo na cama, um insight, uma lembrança que a sempre consta em mente, mas ali, naquela noite de 27 de abril de 2013, ela se recordou, por vezes com um sorriso iluminado e com lágrimas de saudade, e ela sussurra, “Como sou brega”, ela que tanto pregou contra as pieguices do ser apaixonado, caiu numa “armadilha” que deste então povoa seus sonhos e caminhadas pelo bairro onde flores nascem em pleno asfalto.

Era sábado, estava um dia quente, mas não muito exagerado, como os dias fatídicos de verão. A “personagem sem nome” estava nervosa, após tentar quase sem sucesso arrumar o lugar que paga aluguel e chama de seu.

Olhava para o guarda-roupa, sem saber direito o que vestir. Fazia tempo que não tinha um encontro, ela estava desacostumada e achava que estava sonhando, chegou por vezes a se perguntar se aquilo realmente estava acontecendo. Pra quem veio de um relacionamento de três anos e meio com alguém que foi seu segundo namoro, e depois de um período brincando de eremita, enchendo em cara com colegas de trabalho e lendo o dia inteiro ou passeando em parques apenas para comer churros e pensar na vida, enquanto patos atravessam para cair na lagoa. Tinha na cabeça que seguiria a vida como uma mulher assexuada cheia de cachorros cagando alucinadamente no quintal. Dava risada sozinha, enquanto tentava espairar a cabeça folheando livros lidos e relidos.

Olhou para o cabide e viu um vestido de malha roxo, com detalhes em verde musgo na cintura e na amarração que contornava o pescoço. Mas ele era sem manga, e ela estava com as marcas na pele de uma doença filha da puta que acabava com sua vaidade. Era ali mais um motivo para sua insegurança, estampada com um suor frio e respiração ofegante. Queria estar bonita, tirou o vestido do cabide, e apesar de estar passado, ligou o ferro mesmo assim. Escolheu um casaquinho preto de crochê, e um sapato verde, no mesmo tom dos detalhes do vestido. Olhou no relógio, tinha marcado com ele às sete horas, em frente ao terminal de ônibus do bairro em que morava. Eram cinco e meia.  Acendeu um incenso e algumas velas no banheiro. Escolheu o que tinha de melhor, aprendam, mulher se prepara para vocês, mesmo que ela ache ou tenha a insegurança de que pode estragar tudo. Trinta minutos embaixo do chuveiro, talvez a água morna e o cheiro do óleo de pimenta rosa fizesse sua ansiedade diminuir. Depois de todo ritual, finalmente vestida, não do jeito que queria. Se estivesse sem aquelas manchas terríveis teria com um vestido na altura do joelho e com os braços de fora. Olhou no espelho, e perguntava-se se estava bonita. “Foda-se, pensou ela”… Passou três borrifos do seu mais caro e melhor perfume, pegou o livro que comprou no dia anterior num saldão da FNAC no meio de títulos de autoajuda pedantes e livros para mulherzinhas mal resolvidas e foi para o ponto de ônibus. Visivelmente nervosa, colocou o IPOD no modo shuffle, é um ritual que sempre dava certo. Chegou ao ponto de ônibus, não se atrasou apesar dela ser meio esbaforida e odiar horários, chegou meia hora mais cedo, vai que ele tivesse a tal da pontualidade britânica, olhasse no relógio e dissesse que ela estava 1 minuto e 45 segundos atrasada?

Na frente do terminal, tem um hortifruti cujo dono é um simpático senhorzinho japonês, e ao lado, também de frente para o terminal, há uma banca de pastel. Não pensou duas vezes… Suco de laranja da pastelaria a faria acalmar os nervos. Tomou dois copos, enquanto estava lendo. Resolveu olhar o celular e viu que tinha ligações perdidas. Eram dele, já pensou em um milhão de desgraças, mulher é um bicho difícil, entendam… Mas ficou otimista. Saiu da mesa da barraca de pastel e sentou-se em frente do hortifruti. Encontrou a paz necessária no livro que se encantou, mas deu misto de inquietude por ser um livro tão perturbador. O livro falava sobre o delírio das moscas, dilatação de porcos, sobre um homem despedaçado frente ao espelho do banheiro. Por alguns minutos, desligou-se completamente das coisas que a cercavam, até o momento em que sentiu um arrepio e passos leves e logo em seguida o seu nome bradado. Assustou-se um pouco, levantou os olhos do livro e então aquela calma perturbadora saiu de foco e voltou ao nervosismo, mas era um nervosismo causado pelo desconforto perante a beleza que os grandes olhos amendoados e sempre perdidos dela estavam encarando timidamente. De estatura mediana, um pouco mais alto que ela, olhos azuis, cabelos castanhos claros e barba por fazer, de uns dois dias e um sorriso que desde então apostou todos os seus medos.

Deu-lhe um tímido e quase atrapalhado beijo no rosto não barbeado ao qual ela agradeceu ele não ter tido a estupidez de ter tirado. Ela sempre pensa porque todo homem acha que toda mulher gosta de barba feita. E foi ali, o primeiro momento que ela se contorceu toda, numa felicidade nervosa. Estava com o livro nas mãos, aquilo foi bom, pois disfarçava as mãos trêmulas. O suco de laranja não tirou-lhe o nervosismo, o encanto de dois olhos azuis inquietantes trouxe-o de volta.

“O que está lendo?”

Depois de ter ficado tanto tempo escondida, aquela pergunta a fez pensar que ali ao seu lado, caminhando devagar não estava um homem que enxergava apenas oito bits de cores, talvez o universo cheio de cores e nuances dela seja pela primeira vez compreendidos, não em sua totalidade, ela não acredita nisso, uma das graças da vida, é a inquietude perante a não compreensão. E ela já percebeu pelo seu rosto de britânico, mas, com descendência italiana de que ali ao seu lado, estava um fractal cheio de equações complexas, e achou isso encantador. Ele não tinha denominador comum. Era único, e ela começou a sair da toca, já estava com o pé direito pra fora da sua caverna de proteção.

Estava ventando e o cabelo da “personagem sem nome” estava um ninho de mafagafos, e ele lá, tão bonito com seus olhos claros e cabelos cor de mel. Ela respirava fundo, baixinho, pois não queria que ele percebesse o quanto ela estava nervosa. Ela era uma atriz de quinta categoria, não sabia representar, ela era nua e crua, dentro da sua natureza nenhum pouco convencional. Até uma criança pura e sem malícia perceberia que ela estava tão nervosa quanto um cachorro que apronta e disfarça, mas lá dentro existia uma ponta de arrepio e certo tremor. Se ele perguntasse por que ela estava tremendo, ela lhe diria que era porque tinha hipoglicemia, mas não seria verdade. Ela não sabia mentir, tudo ali a denunciava.

Entrou no carro, ela disse a ele que o cabelo dela estava um fuá, e ele então passou a mão nos cabelos negros dela. Ali, naquele momento, veio-lhe o segundo arrepio, e não foi o vento, não foi frio, um pouco de nervoso e um pouco de tesão que depois ela reprimiu e desviou para qualquer outra coisa para não pensar em coisas, digamos, mundanas. Ela era muito sexual, não no sentido de ver malícia em tudo, de ver um perfume cilíndrico numa loja e pensar em sexo, tal como Freud explica sobre símbolos fálicos, coisas simples, ela não precisava ver um outdoor com um homem lindo de cueca para sentir desejo, coisas simples e banais a movem, e a mão dele no cabelo naquele momento inicial a fez querer agarrá-lo, mas ela era uma mulher contida. Despistou os pensamentos pecaminosos falando da escova progressiva da irmã e da mãe, e que foi a única da família a gostar de sua herança de cabelos ondulados, indecisos, levemente cacheados. O pensamento dele puxando-lhe os cabelos e beijando-lhe o pescoço foi ocupado pela lembrança de o quão bonito eram os cachos da irmã dela. Obviamente ela preferia o pensamento voluptuoso a pensar nos cachos da irmã, mas ela fez isso para não ficar arrepiada e com as bochechas vermelhas. Ainda bem que os olhos dela são castanhos bem escuros, a pupila dilatada seria muito difícil de ser percebida, a não ser que ele fosse o Chuck Norris ou tivesse o poder de ler mentes. Se ele visse auras, naquele instante ela estava num vermelho rubro de puro desejo. Reza a lenda que homens pensam na sogra para não gozarem rápido demais, ela em gatos mortos, erros de português e na família…

Durante o tempo que se passou, no caminho até a livraria, foram se conhecendo, ela perdera parte da vergonha, e não estava mais insegura, aos poucos perdeu a tensão, mas não o tesão. Na livraria ele lhe sugeriu um livro, dizia ele que ela era parecida com o personagem principal, um velho pescador que nunca perdia a fé, mesmo perante do fracasso de ter o marlim devorado por tubarões. Ela também sugeriu um livro a ele. Viu naquele homem um menino sonhador que guardava a beira de um abismo. Se algum menino se aproximasse, ele agarraria. Ficaria ali, o tempo todo, cuidando para que criancinhas indefesas nunca caíssem no abismo. Ele tem a alma de Holden Caulfield, se pudesse, ele se fingiria de surdo mudo, pois seus olhos são desacostumados, segundo ele o mundo é cheio de “pessoas cinzas e valores rasos” e o silêncio, tem o ajudado a tolerar:

“… Mas não me importava que tipo de emprego ia ser, desde que eu não conhecesse ninguém e ninguém me conhecesse… Ai bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir ser surdo-mudo. Desse modo não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém… Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha pra mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana… Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.”

 

Ele comprou o livro e ela reservou o que ele sugeriu, pois não tinha na loja e chegaria dentro de cinco dias. Foram para a cafeteria da livraria. Ele pediu um café simples, e ela exagerada, um café duplo com chantilly. Os olhos dele eram desconcertantes, a ponto dela baixar os olhos em direção à mesa, pois diante de tal beleza ela poderia talvez perder o juízo. Naquele ponto ela estava definitivamente fora da toca. Ele a tirava do sério. Respirava fundo, sentiu a cafeína estimulando as “endorfinas naturais” e ela precisava perder o foco da beleza dos olhos dele para que ela não se contorcesse por dentro. Os olhos dele falavam, e a prova disso era o biscoito que acompanhava o café que ele não comeu. Ela foi cara de pau o suficiente para pedir. Ela teve um insight de Clementine Kruczynski, de “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, na cena em que Clementine e Joel Barish estão na praia e ela pega a coxinha de frango do prato dele. Joel pensa que ela chegou assim, sem pedir permissão. A “personagem sem nome” pelo menos pediu, poderia ser mais invasora no mundo encantador dele, cheio de perguntas, umas com respostas, outras perguntas sem respostas, que podem ser completas ou incompletas, e cheias de viagens na maionese. Talvez, tal como Holden Caulfield, ele pode pensar para onde vão os patos no inverno. E ela amava essa essência indagadora dele, essência que a assustava, pois estava ali, sentado ao seu lado, um homem que sempre achou que só existia no mundo dos livros. Estava ali um homem que assim como ela, tenta salvar as crianças de cair no abismo, um homem que falava com os olhos, que a fazia rir e tal como ela, assistia “A Praça é nossa” com o avô. Ela assistia com a avó. Ela poderia ouvir e compartilhar piada ruim de gosto duvidoso o dia inteiro, sentada com ele no gramado da praça da universidade. Eles poderiam rir, como duas crianças, sem medo de ser feliz. Quando ela conta piadas, todo mundo olhava pra ela com cara de merda, mas ele ria, e ela se encantava com as covas que se abriam no rosto de barba acastanhada por fazer.

Eles saíram da cafeteria e decidiram ir para um bar num bairro charmoso e boêmio. Ele pediu uma cerveja e porções de bolinhos. Ele perguntou se ele acendesse um cigarro a incomodaria. Cigarro era o de menos. Ela vinha de uma família e noventa por cento de seus amigos eram fumantes. Ele pediu um energético, dizia ele que precisava acompanhar o pique de mulher que sofria de insônia. Ela contou-lhe sobre a doença que tanto aniquilava sua autoestima, e que se sentia incomodada com as manchinhas marrons que estavam espalhadas pelo corpo. Ele disse que não havia que se preocupar, ele também sofria do mal da doença de pele, pois tinha a pele muito clara. Contou algumas coisas que aconteceram com ele, levando as mãos dela ao rosto dele, para sentir um pequeno cisto imperceptível. A partir do dia em que o conheceu, ela deixou de lado as camisas de manga comprida, e saiu de vestido na altura do joelho e braços de fora. Ele a fez sentir-se plena novamente, ela recuperou toda a beleza que achava que havia sido raptada por uma doença. Contou a ele que nunca havia ganhado flores, ele riu, disse que era inconcebível, uma mulher não ganhar flores. Continuaram a conversa e alguns minutos mais tarde uma florista estava caminhando por entre as mesas dispersas na calçada. Sempre havia a primeira vez pra tudo, é o que dizem por aí. Ele chamou a florista, e pediu para que nossa “personagem sem nome” escolhesse duas flores. Ela se emocionou, como toda mulher, e por mais que um ramalhete de rosas morresse, ela ainda conserva as duas rosas dentro da garrafa de vinho que compraram para tomar embaixo de uma noite enluarada, com estrelas por vezes encobertas por nuvens tímidas, em cima de uma enorme pedra, longe da cidade, que poderia ser vista com suas luzes amarelas, no horizonte. Antes de irem para aquele local deserto, tomado pelo cheiro de imensas árvores de eucaliptos, ele estava preocupado se ela passaria frio, pois era um lugar aberto e logo, o vento seria intenso. Ela disse que já estava protegida, depois de dois anos morando no sul do país. E partiram, e ali naquele local, a cena hilária da tentativa bem sucedida e até aquele momento desconhecida pra ela, de abrir a garrafa de vinho usando tênis. Hoje, as flores a encaram da estante, dentro da garrafa de vinho chileno cujo conteúdo foi consumido no meio de um vento que o fez tremer de frio. Ela, acostumada com os ventos minuanos do sul, sentia-se plena e contente, e ao vê-lo tremendo de frio, não poderia deixar desamparada uma pessoa que lhe deu flores.  Fez uma massagem terna nos braços dele, explicou um pouco sobre o que aprendeu sobre chakras e centros de energia. Ela, enquanto esquentava os braços dele, sentiu os tendões aparentes, as veias pulsantes, os pelos dos braços dele, eriçados. O frio também a invadiu, mas não era um frio de sensação térmica, era um calafrio causado por endorfinas… Entende?Endorfinas naturais…

E então, ali naquele momento, ele fazia um carinho leve, gostoso, e o perfume dele estava mais forte do que outrora. Ela lhe disse sobre á inquietude dela diante de cheiros. Enquanto ele estava explorando aquele lugar em que eles ficaram, ela estava andando naquela estrada, com os sapatos de salto 15, tropeçando nas pedras. Pegou uma folha de eucalipto e cheirou-a, enquanto o observava, oras pensando na beleza da vida, na beleza daquele lugar que até então ela desconhecia, aquele pedaço de paz, vento e árvores balançando. E ao mesmo tempo em que ela sentia o perfume daquela folha de eucalipto, ela lembrou-se de quando se aproximou para ver a programação dos bares no celular, e então ela sentiu o cheiro dele. Ela tinha problemas com cheiros. Na hora, ela pensou: “Fudeu”, e depois veio um “Se controle…”. Ele disse que leu “A casa dos budas ditosos”, ela se contorceu de novo, era seu livro erótico favorito. “Droga… se controle, se controle, foca…controle, relaxa, você é boba”, pensava ela, enquanto tentava sem sucesso dissipar-se da vontade de agarrá-lo. Ela ria, mas por dentro se contorcia, e as pernas tremiam, e ela fingia que estavam apenas conversando sobre o universo, a vida e tudo mais, e que nada daquilo a excitaria, e ela não transaria na primeira noite, coisa que nunca fez. Sempre teve uma opinião de que a mulher deve deixar o homem curioso, com o desejo que nos próximos dias que estão por vir, uma fresta por vez do vestido será desnuda, mas não tudo de uma vez. E naquela madrugada de domingo, dia 28 de janeiro, ela quebrou as barreiras das convicções dela, e ela nunca se arrependeu. Deixou-se levar pelo desejo, pela chama, pelo lugar, pelo ser cativante e inspirador que ele emanava com paz e tranquilidade. Ela já estava cativada, enquanto ele a acariciava, ela tentava manter a eloquência de raciocínio, até que ele percebeu que ela estava perdendo o rumo dos pensamentos, que às vezes ela parava e suspirava forte, foi aí que ela se entregou e aceitou a ideia de que ela não conseguiria resistir. Ela relutava, enquanto deitada ali, e no primeiro beijo que ele deu nos seios dela, especificamente no seio direito, o tesão que latejava no meio das coxas a denunciou, e então ela perdeu o rumo. O hálito de vinho merlot dos lábios dele e o frio do vinho que ele derramou nos seios dela, os beijos nas costas nuas, no caminho da espinha, fizeram-lhe sair completamente da toca, e o barulho do sexo ao ar livre era uma melodia que em nada perdia para uma orquestra sinfônica. Ela não sabe dizer se algum carro passou ali e algum stalker viu aquela cena toda. Ela estava excitada demais com a respiração ofegante e forte no pescoço dela, que nem ao menos o vento intenso daquele local, que fazia as árvores balançarem de um lado para o outro, mas ela sentia… E sentia intensamente. Era apenas ele e ela, ali naquele momento, em chamas, embaixo daquele luar enlouquecedor e a garrafa da bebida que tanto influenciou os poetas desse nosso mundinho ordinário, porém maravilhoso.

E a licença poética daquele lugar, escreveu na memória dela um conto erótico, e ela não poderia, sentada numa mesa, ao som apenas das hélices do ventilador, deixar passar as impressões daquele dia que ocorreu há exatamente três meses atrás. Ela queria que esse conto fosse um presente entre ela e ele. Um presente sincero, talvez assustador, uma epifania pintada em cores de Almodóvar, mal escrita, mas com a sinceridade de um Woody Allen…

"Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo."
“Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo.”

As horas nuas.

“O amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor. O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, menos para as vidas sem amor.” Oscar Wilde.

Eu passei tanto tempo encantada com a suposição de que a eternidade exista apenas para aqueles que caem aturdidos diante o fracasso, lamentando os pecados. Eu pensei tanto no conceito de pecado, divagando em linhas tortas as minhas próprias convicções sobre os sete pecados capitais. Eu pensei na luxúria de um homem e uma mulher errante, na avareza de um mercador de flores, ao tentar reconstruir tulipas pintando-as com formol, como se elas fossem eternas e ele nunca perdesse o que cultivou. Pensei na preguiça que me acolhe aos domingos, mesmo com o sol me sorrindo lá fora, faz tempo que meu dia não nasce duas vezes, e então eu padeço numa preguiça levada em galopes de saudade, eu tenho minha saudade quando nas manhãs preguiçosas. Eu sinto a gula tecendo meus sonhos de cama manchados de desejo. A gula, metaforicamente um desejo de carne, aquela que desce languidamente da nuca até o torço, gula que se enlaça, olhando as veias e tendões aparentes de meu amor com braços ao volante. E o que falar da inveja? Eu não sei bem dizer o que é inveja. Talvez uma inveja daqueles casais que sentam juntos em mesas de cafeterias, inveja daqueles que podem ir à Paris apenas para escrever, inveja daqueles que podem contemplar a beleza de seus olhos de dilúvio ao longo do dia.  Eu sinto a Ira da tempestade que cai lá fora, e quando eu saio lá fora querendo me encharcar, eu queria a vaidade daqueles que se molham por puro orgulho. Queria que me visse de roupas molhadas, com frio, mas com um sorriso no rosto como uma criança que fugiu de casa apenas para brincar na chuva. E depois um banho quente e acolhedor, usar meus utensílios de vaidade, passar um traçado negro em meus olhos, deixar algum trecho de minha pele nua, apenas para lhe provocar, um orgulho bobo de te ver na rua ao longe e guardar em segredo, por pura vaidade passar ao teu lado e apenas esboçar um sorriso maroto, de passar próximo a sua casa e nem lhe fazer uma visita, olhar o horizonte de ruas cheias de folhas de outono caídas ao chão, e pintar uma saudade carregada de sete pecados. Avareza em querer tomar uma garrafa de vinho sozinha, gula ao querer devorar e ser devorada, preguiça ao querer dormir ao teu lado e de lá não sair mais, inveja do vento ao entardecer que lhe toca a face, ira daqueles dias que te estressam e lhe sufocam a alma, estrangulando teu tempo já tão escasso, luxúria ao te desejar nas minhas madrugadas úmidas de insônia, orgulho de poder escrever isso assim, nas horas nuas da madrugada…

Crônicas Completas: Russel e as pradarias.

Capítulo I: Pradarias

Russel está cantando nas pradarias, quando o inverno russo se aproxima, ele faz seu trompete chorar, enquanto sua mãe chora pela matrioska quebrada. A mãe amada de Russel, espatifada no chão em convulsão.
Ele está indo para Budapeste, mas também gostaria de ir para Bellerophon, mas a Grécia está muito longe, são milhas e milhas de distância dos gelados ventos do leste europeu, ventos que o fazem se encharcar na melancolia transparente da vodka. Vãs memórias inundam seu peito, sua mãe entregando-lhe uma rosa, já com o estômago cheio de remédios escolhidos aleatoriamente, engolido com uma garrafa de vodka, cujo resto deslizou até embaixo da mesa, onde via os pés e pernas de sua amável mãe em um terremoto insano. Antes de dizer “Adeus”, sua amada mãe disse: “Apenas diga ao teu pai, que eu o amei muito”.
Sua irmã, Elissa, dormia, e quando Russel tocava seu trompete, Elissa chorava, berrava, e a mãe de Russel a acalmava com seu retorno doce de mãe. E Russel se cansava, pegava seu trompete e se colocava a tocar nas pradarias tristes. Visitava seu pai nas minas, homem forte, porém pré-envelhecido. A sujeira do carvão dava-lhe traços rudes, primitivos.
No frio daquele leste europeu, todas as matrioskas eram incompletas, Russel andava em círculos, nas pradarias contínuas do seu ego e força de viver, mesmo sabendo que nada cresceria ali, nas pradarias inférteis pelo frio. Nas pradarias que ele tanto amava, não existe nada, apenas sua mãe cansada num túmulo triste com apenas uma cruz de madeira, e lobos uivando na noite. Até mesmo, quando viva, a mãe de Russel estava sempre cansada, mesmo nas passeatas onde Russel tocava seu trompete e as baionetas furavam sorrisos descontentes. Matrioskas caiam no chão durante a fúria perante a morte da matriarca, que dizia que se a Felicidade tivesse uma cor, ela seria vermelha. E ela o abraçava, antes de dormir, e quando seu pai chegava, ela chupava os dedos de carvão dele. Pra ela, sua amada mãe, aquilo era um momento de carinho, não importava a sujeira interna e externa de seu pai, que transava com as operárias sujas e suadas nas galerias escuras.
Dentro das casas as matrioskas quebram a mãe de Russel o amava, numa tristeza incontida das baionetas que cantavam lá fora. Por isso, Russel sai correndo em direção às pradarias. Queria ele ir para Budapeste, pois dizem que lá, todas as emoções são ditosas e incontidas. Levaria seu trompete, e o estalar de seus dedos magros e sofridos, percorrem a pradaria do Leste Europeu. Russel amava aquele lugar, assim como o vento amava a face do seu pai, enegrecido pelo carvão, e os cabelos longos e loiros de sua mãe.

Capítulo II: Matrioska e o delírio das pradarias.

A mãe de Russel queria passear nas pradarias geladas. Ela mal conseguia ficar de pé, mas em seu sonho de mulher prestes a morrer, ela se via com os cabelos loiros de saudade balançando no vento gelado. E ela, em seus sonhos ainda lúcidos, balbuciava ao filho que o pai estava chegando enegrecido pelo carvão, surgindo no horizonte, como um soldado voltando da guerra, carregando uma baioneta com a ponta cheia de sangue seco. Era a glória, manchada, tingida de sangue oxidado, coagulado, a beleza da violência fazendo sua mãe sentir desejo reprimido, a crueldade estampada em desejo, imaginava seu velho homem tingindo-se com o sangue do inimigo, via as veias e tendões dos braços, transcenderem em trilhas do desejo, enquanto carregava os corpos para serem jogados em valas fétidas. Depois, sonhava com os olhos dele, azuis quase cinzas de dilúvio… Via as chamas que queimavam os cadáveres dançando nos olhos quase cristalinos, e o fogo e esforço fazendo-o suar, mas ele era apenas um trabalhador das minas de carvão, e ela sabia que estava morrendo, nas pradarias do Leste Europeu. “Russel meu filho, apague a luz, e diga ao teu pai que eu o amo.” Russel apagou a luz, secou as lágrimas, pegou nas mãos de sua irmã, e foram brincar nas pradarias tristes.  A matrioska continua incompleta, a saudade fragmentada em mil pedaços.

Capítulo III: O sorriso de Elissa.

Elissa quer correr pelos prados, ela queria sorrir também, mas é uma criança com um sorriso fraturado pelas passeatas onde as famílias carregam seus entes mortos pela guerra, furados por baionetas que cantam uma canção triste de que a ideologia deve ser engolida às forças, com todo o sangue amargo. “Papai vai chegar Russel!”, gritava Elissa correndo em círculos, o olhar triste da mãe perdido no horizonte, enquanto ela penteava os cabelos na janela. Russel tocando seu trompete, intercalando com goles de vodka. Se ele soubesse escrever, seria um poeta bêbado. A mãe gritava da janela que precisaria de panos úmidos, ela sempre falava isso, pois queria limpar o rosto manchado de carvão quando o pai de Russel chegasse, mas ele nunca chegou. Sua mãe sempre dizia que seu pai tinha uma beleza imunda, e a única coisa limpa nele eram os olhos azuis de dilúvio, de uma beleza cristalina quase cinzenta, contraposta a sua beleza enegrecida. Os trabalhos nas minas de carvão deixavam seu pai imundo… Era a fuligem do carvão que o fazia bater na mãe. Quando ele retornava ao trabalho, a mãe sempre gritava que o amava na soleira da porta. Via seu velho homem indo embora, depois dele dar-lhe um beijo e dizer que também a amava. Sempre pedia perdão pelos braços roxos dela, a culpa era sempre da vodka.

“Russel, um dia terá a pele tão áspera quanto a de teu pai, será um herói nas terras sofridas e gélidas, o carvão não nos mata, apenas nos deixa imundos…”

Russel sabia da tosse negra do pai, Elissa quando viu seu pai manchar um velho lenço de escarro negro, por mais que fosse uma criança, sabia que algo muito errado existia ali, mas sua mãe queria o tempo todo se enganar que aquilo era normal. Por isso Russel estava sempre com Elissa, brincando de correr um atrás do outro na pradaria deserta, próximo ao velho casebre de madeira que viviam. Quando Elissa estava com ele, ela sempre o contemplava com um riso de criança, e quando ela chora de saudades do pai, ela corre para os braços roxos da mãe. Russel pega sua garrafa de vodka e caminha sem rumo com seu trompete pelas pradarias gélidas. Notas tristes ecoam, um falcão da pradaria apenas o observa ao longe.

Capítulo IV: Canção Cigana.

A mãe de Russel canta versos ciganos, enquanto Russel brinca com Elissa erguendo ela para o alto. A sobriedade abandonada depois de uma garrafa de vodka o faz querer voar e fazerem os outros voarem. Gostaria de voar por cima dos campos de trigo, e quando se aproximasse dos campos de guerra, carregaria a alma dos soldados mortos junto a Deus. Queria Russel ser um mensageiro, um mensageiro de almas, pegar as almas que rondam próximas as valas lotadas de corpos, já indistintos um dos outros. Existiam ali talvez, civis, soldados… Crianças. Um dia, andando pelas pradarias, encontrou uma família abrindo uma cova para enterrar a filha. A mãe com o lenço envolto na cabeça, com a face molhada pelas lágrimas causadas pelo terrível Ceifeiro. O pai abria a cova, enquanto o irmão mais velho segurava um corpinho frágil envolto por um velho pano branco. Russel viu que uma mecha de cabelo loiro escapava do lençol. Poderia ser sua irmãzinha ali, mas quem cavaria a cova? Ele… Seu pai não existia mais, e quando aparecia era apenas um vulto etílico que estuprava a mãe. Mas sabia ele, que ela gostava daquele “jogo”, preferia pensar que aquilo era um jogo, uma brincadeira de mal gosto de adultos. Gostaria que a guerra estivesse por perto, pois as canções dos tiros das baionetas ao longe, abafariam os gritos hipócritas da mãe.

Olhou para mãe, ela ainda cantava silenciosamente versos ciganos, e eles corriam como uma lebre. Russel sabia, que toda vez que a mãe entoava aquela canção, era porque a saudade queria gritar. E ela gritava, em forma de canção cigana.

Capítulo V: Saudade e Vodka

O pai voltando das minas, Russel jamais espera isso. Ele foi uma alma que partiu, um pobre homem soterrado pelas convicções sujas e negras, ou uma explosão do gás metano, explosão de arrependimento talvez, por ter abandonado os filhos com uma mulher miserável e já doente. Ele se foi, deu um sorriso de canto de boca e um beijo longo em Elissa e Russel. Olhou calmamente para a mãe de Russel, que trançava os cabelos em frente ao espelho, longos cabelos loiros, como os trigais avulsos das pradarias tristes do leste europeu, beijou-a como se fosse a última vez, e num afago nos cabelos, disse apenas que a amava.
O pai de Russel tinha lindos olhos azuis e um silêncio que matava, e por vezes, quando voltava bêbado das minas, mãos que estrangulavam. Mas todas as manhãs, quando Russel acordava e olhava em direção à cama dos pais, via os dois abraçados como se nada tivesse acontecido. E os lençóis ao chão, com manchas negras de carvão. Esta foi última vez que viu o pai junto à mãe, e crê que apesar de tudo, sentia saudades de seu velho, dos momentos em que eles caminhavam pelas estepes a caçar coelhos, tiros de baioneta embalados a goles de vodka. “Cuide delas”, foram últimas palavras de seu pai, e assim, ele sumiu, caminhando nas pradarias, com os olhos azuis baixos de tormenta.

Capítulo VI: O lobo das estepes.

Russel em seu pesadelo corre, e sua mãe afunda na lama, gritando para ele pegar os casacos, as botas e não esquecer-se de esquentar-se junto à fogueira, pois as pradarias e estepes são frias e perigosas. Ele corre, e em sua mente a voz da mãe ecoa como um grito nas montanhas solitárias, “Corra meu filhinho, o inverno chegou e ele dói, suas narinas se abrem, no âmago da sua respiração de fugitivo, e eu sei que você sente o lobo te espreitando na escuridão…”. E ele realmente sabe, tal como sua mãe.

Sabe o quanto o uivo do lobo curioso tem um cheiro agradável, que no fechar dos olhos ao dormir, o Lobo das Estepes o persegue, assim como as digitais dos sujos dedos de carvão de seu velho e desaparecido pai, estampadas no último copo de vodka que ele deixou em cima da mesa antes de partir pra sempre. A sombra do Lobo que o atormenta, responsável pelo ato dele encolher o corpo enquanto dorme, mas deixa em seu rosto um sorriso triste, desesperado, mas com tom de sadismo consumado.

Em seu pesadelo ele vai para os prados e estepes com sua baioneta para caçar coelhos, ele sempre encontra o tal do lobo, mas ele sabe que nunca conseguirá matá-lo. Quando o uivo aproxima-se ele fecha os olhos e tampa os ouvidos, porque a Beleza do Lobo certamente irá cegá-lo e o uivo enlouquecedor, o deixará surdo. A mãe dele, suja de lama, balbucia, “Reze meu filho… Reze”, mas enquanto o lobo rasteja sobre o corpo dele, arranhando-lhe as costas, ele não sente dor. Na cena onírica do lobo em cima dele o lambendo e encarando, um medo com desejo sutil, e sabe ele, que por mais que ele feche os olhos enquanto o desejo permeia em seu sexo, não poderá deixar-se cair em tentação, mas sempre se esquece de rezar. A mordida do lobo na linha tênue do pescoço já se tornou um vício, uma ferida que ele tenta cicatrizar jogando vodka, ferida que arde como paixão dançando nas chamas das fogueiras dos soldados russos em campanha. Será ele hipócrita, ao sentir dor e prazer? Não sabe ele dizer… Ao acordar, assustado, manda três copos de vodka goela abaixo, enquanto as matrioskas da pequena mesa o encaram, cada uma com um julgamento de tamanho diferente, mas não importa, sabe e esconde por baixo de sua matriz de arrependimento, que quando o lobo das estepes se aproxima, as estrelas surgem no seu céu particular, e ele corre… Do uivo que ensurdece e beleza que mata. Na sua baioneta nunca tem bala de prata… E jamais terá…

Capítulo VII: Na beira do rio Neva.

 Russel estava tocando uma canção na beira do Rio Neva. Estava ele e Elissa no enterro da mãe. Uma cruz de madeira no chão, algumas flores. Fizeram uma viagem na velha carroça do tio Vlad. Russel sabia que sua mãe pediria uma canção triste e também sabia que queria ser enterrada com sua matrioska. Ela não admitia, mas sua mãe era refém da tristeza, e de alguma forma ela aprendeu a lidar com aquilo, inclusive amá-la. Entoou uma canção cigana, a favorita de sua mãe, e enquanto cantava, veio a lembrança de sua mãe entoando canções ciganas apoiada na janela de sua velha e deteriorada morada na pradaria. Ela sempre começava a cantar com os olhos perdidos no horizonte, e terminava sempre com os olhos fechados e o rosto molhado em lágrimas. Depois que cantava, ela enchia a cara de vodka, e ficava a amaldiçoar os olhos claros e rosto enegrecido de carvão do marido. Russel segurava as mãos magras e trêmulas da mãe. Sua mãe dizia que a única coisa que tinha era um gosto amargo na boca. De fato tinha, era sangue, a doença já estava instalada e a Morte estava chegando a galope. Quando ela deu o último suspiro na cama, Russel sentiu um vento gelado, e não era das pradarias. Foi seu primeiro encontro frente à face fria e invisível daquela que ninguém consegue fugir.

Dias antes, como se ela soubesse do que a esperava, chamou Russel para a beira da cama. Ele estava com um prato de sopa rala de batatas, única coisa que tinha naquela pobre casa, e dava para a mãe comer, as mãos dela não conseguiam mais segurar uma colher. “Russel meu filho, estou encomendada aos anjos. Cuide bem da sua irmã, não me culpe, daqui a pouco seu pai chega, segure as mãos dele sujas de carvão, e vá passear com ele nos Montes Urais. As colinas de Valdai também são bonitas, nos casamos lá. Meu sonho era pegar um trem e partir para São Petersburgo, ver as passeatas de Rjev…”.

Russel deu um sorriso, na última pá de terra da beira do Neva que cobriu o corpo da mãe envolto em um velho lençol de manchas negras que ela se recusava a lavar. De alguma forma, havia ali um pedaço de seu pai, mesmo que seja apenas pó negro de hulha. Lembrou-se do semblante triste da matrioska que ficava ao lado da cama. Um dia, seu pai o levou para as margens do rio Volga. Passaram a noite lá, encobertos pelo frio, aquecidos pela vodka. A baioneta do pai descansava ao seu lado, e dois coelhos assavam na fogueira. Foi ali naquele local, que seu pai disse uma frase ao qual ele nunca esqueceu:

Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…

Após os últimos ritos do enterro, Russel segurou as mãos da pequena Elissa. Foram passear na beira do rio Neva. Provavelmente Elissa vai morar com o tio Vlad, e então Russel vai desaparecer com seu trompete, cujo som será levado sem rumo pelo vento gelado do leste europeu.

Capítulo VIII: до свидания (Adeus)

Elissa ficou na guarda de seu tio Vlad. Partiram para Praga, onde poderá ter uma vida melhor. Russel resolveu ficar, renunciou todo conforto, quis seguir suas raízes, tão fincadas nas pradarias frias. Carregaria sempre consigo a velha baioneta do pai, será um nômade, trocando seu trompete noite adentro. Sonhará com um lobo salivante mordendo o pescoço, acordará e tomará o primeiro gole de vodka, que descerá inquietante garganta adentro. Talvez aceite algum trabalho temporário nas minas de carvão que encontrar pelo caminho.  Conhecerá o amor de várias mulheres, algumas delas dar-lhe-ão um abrigo temporário. Depois ele irá embora, sem se despedir, deixando uma mancha de carvão nos pobres lençóis das matrioskas, que se abriram ao seu toque de homem em arquejos de desejo, que as encheu de calor nas madrugadas frias. Amará cada uma delas, mas as quebrará em milhares de pedaços. Um dia ele vai se apaixonar, mas ele crê que terá que renunciar a dor. A mãe sofreu demais, passando anos e anos esperando seu pai surgir no horizonte. Quando aparecia, deixava nela marcas de embriaguez, e um amor que nem anjos e demônios são capazes de compreender. Ela amava  o marido e sonhava com sua vinda triunfante, como um soldado que venceu a guerra. O tempo passou, sua mãe morreu e foi enterrada na beira do rio Neva envolta de lençóis usados e sujos de hulha.

Viu Elissa partindo numa velha carroça com uma mala, partiria depois em um monstro de ferro que a levaria para Praga. Nunca se esquecerá dela, olhando para trás, com os olhos cinzentos em lágrimas e parte do seu cabelo loiro saindo do lenço, que tremulava ao vento. Era mais um dia frio nas pradarias, mas desta vez era um dia bem mais triste, carregado de adeus, e uma saudade eterna, que gritaria para sempre sua dor por todo Leste Europeu.

Russel seguirá então os conselhos do pai, pois não há mais nada que ele possa fazer. Apenas seguir em direção ao rio, e tudo o que ele mais queria, era poder ver o tempo cumprir seu dever, o fogo em linha horizontal, sem rumo, queimando lembranças tristes. Num saco velho, colocou suas coisas, ele nunca teve muito, a pobreza nunca o permitiu nada mais que roupas deterioradas, uma caneca velha, o trompete  e a baioneta do pai… Um velho caderno preto com partituras. Bastava cortar algumas lenhas para comprar garrafas de vodka. Tinha os velhos cobertores e lençóis gastos da mãe. Apenas isso bastava. Colocou fogo no velho casebre de madeira. Todo o cheiro ocre de lembranças despedaçadas e transformadas em cinzas. Foi embora, sem olhar para trás. Uma nuvem negra subia para o céu, avisando a todos que ali não tinha mais nada a se fazer, nada a se guardar, todas as matrioskas eram cacos, e não havia tempo para vitrais. A velha porcelana russa perdeu todo o seu valor.

E a voz de seu pai, e a lembrança dos olhos azuis, envolto de rugas de expressão e um cansaço tão triste que chegava a ser belo, foram com ele, na sua busca por acalento onde as baionetas cantavam canções de sorrisos e amores estilhaçados:

“Dê-me sua mão, vamos cantar na beira do Volga, vou te contar um segredo meu filho:
Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…”

Ele percorreu milhas e milhas, até chegar à beira do rio Volga. E Russel desapareceu, sem deixar rastros, nem folhas de seu velho caderno preto, restou apenas esperança, e a lembrança daqueles que ouviram seu trompete de notas incólumes às tragédias. Ficou a lembrança de seu calor nos dias das mulheres que ele amou. E todas elas, tal como sua mãe, aguardam até hoje, ele surgir no horizonte. Russel desapareceu, mas sua marca permaneceu, e os ventos gelados do Leste Europeu nunca mais foram os mesmos.

“ …entregava-se àquele alheamento profundo, uma espécie de torpor, continuando o caminho sem dar a mínima importância às coisas circunstantes, sem querer reparar no que o cercava. De quando em vez, entretanto, resmungava palavras indistintas, em virtude do hábito de monologar, de que, ainda havia pouco, se confessava atacado. Percebia que, às vezes, as ideias se lhe embaralhavam no cérebro e adquiria consciência de sua extrema fraqueza”. (Fiodor Dostoiesvski)

Majestade.

MAJESTADE

Deite-se deleito
Sussurros suspeitos.
Gritos na madrugada
Teu corpo por cima
Uma tonelada de terra
Cadáver sou eu?
Cubra-me com teu ímpeto
Rasteja como um verme
Pele deslizante, pelos a fazer
Teu suor, minha umidade
Deita aqui em meu peito
Aureolas despudoradas
Face rosácea, amor rubro
Vinho seco derramado
Costas nuas etílicas
Teus lábios manchados
Doce trilha desalmada
Meu sexo descoberto
Madrugada fria
Imortal doce amante
Relembro-te em linhas
Imoralidade sem-vergonha
Poema escarrado
Sem remédio para dor
Canto a saudade em verso
Passo desritmado
Pisa em meus pés
Derreto teu desejo
Engulo tuas emoções
Olhos desacostumados
Candelabros não morrem
Nos sonhos dos homens
Uma única vela acesa
Chama de desejo
E nunca acaba…
Nunca acaba
Saudade Manchada
Duas rosas na garrafa
Hemingway na estante
Teu cheiro pelos cantos
Olhos de dilúvio
Chove lá fora
Girassol cabisbaixo
Felicidade úmida
Amor na chuva
Silêncio…
Somente raios e trovões
Quatro paredes de um quarto
Ajoelho eis sua súdita
Minha Majestade.

ANA IDRIS.

Se e somente…SE.

*Nota mental escrita durante esta madrugada.

Subimos montanhas, nos prendendo nas pedras, ora olhando para baixo
Ao respirar o ar de todas as manhã, nos sentimos tão pequenos,
Ante o sorriso de uma criança alegre nos braços da mãe,
Não existem surpresas que nos amedrontem, nesse mundo,
É apenas nossas mãos dando bordoadas no escuro,
É apenas nossa dor tão mesquinha nos atormentando,
É apenas um Amor que nunca existiu indo embora.

Na dor nossa de cada dia, há um espetáculo fabuloso,
Milhares de borboletas rodopiando num campo de margaridas,
E aquela criança dentro de nós se liberta, e se põe a correr,
Distante dos problemas, vamos sorrir como crianças bonitas,
E talvez isso nós faça sentir pequenos demais, ante a beleza
De um milhão de cores explodindo no horizonte, brincando com nossos olhos.

E de repente ao olharmos para o céu, há uma ave de rapina
Rodopiando em círculos, calmamente pela manhã durante a semana
O frescor deixado pela orvalhada da madrugada, e os olhos azuis,
Da criança que parece um anjo de mãos dadas com o pai, de traços fortes
Então olhamos para nossas vidas, ela pode ser bela também?
E então, um dia me disseram que há muitas verdades e meias-verdades,
Nesse caminho cheio de pedras, nunca teremos certezas de nada,
Há apenas o nosso discernimento ante a razão do coração.

Se somente pudermos contemplar o horizonte sem compromisso,
Alguém nos diria que estamos apenas perdendo tempo,
O quão bonito é um homem perdido em pensamentos, em olhos calmos,
Se e somente se, nos apaixonássemos por nós mesmos,sem dor e mágoa
Talvez o mundo seria um pouco menos doloroso, mas a vida está aí,
Rodopiando em torno de nossos medos, ansiedades, lágrimas e felicidade,
E o Amor me faz sentir pequena, ante a escuridão e desejo que o permeia.

Temos um coração a se manter calmo, vamos sair de mãos dadas,
E eu lhe digo apenas que a vida é passageira demais para termos medo,
Lhe beijo os olhos grandes, porque alguém me disse um dia,
Que os olhos podem ser o espelho da alma, e teus olhos são bonitos
Se e somente se, nós déssemos as mãos, talvez poderei amar,
A vida seria mais passageira, como o sorriso de uma criança
Não importa, somos tão pequenos quando sozinhos?

Se e somente se…pudéssemos ser um pouco mais sensatos,
Um dia alguém me disse, que meu corpo dançaria conforme uma música,
Que Amor e Sexo podem caminhar em linhas diferentes, mas se dão as mãos,
De vez em quando nos quartos, na penumbra de um bairro do subúrbio,
E então um dia o Amor se acabou, alguém me disse que um dia isso acaba,
E eu com muita dor, aceitei e saí a caminhar por aí, com sentimentos vazios,
E foi então que meus olhos se abriram e nunca me surpreendi tanto,
Para as coisas que sempre estiveram ali, passando despercebidas,
E então eu me senti tão pequena…você me faz sentir tão pequena,
Diante deste coração tão surrado quanto o meu, vamos caminhar juntos,

E um dia me disseram, vamos dar as mãos e sair por aí,
Rompendo nossas barreiras tão mesquinhas que nos aprisiona,
E nada será dito, além de palavras sensatas e histórias a contar
Talvez seja mais engraçado e surpreendente do que imaginei,
Mas você segura minha mão como se me conhecesse há tempos,
E como um livro vira a página e me conta aquela história,
E então eu me sinto tão pequena, estive o tempo todo sem perceber,
Que meus olhos grandes estavam cegos por uma venda, então eu dei risada,
Porque um dia me disseram, que a vida é uma piada, contada por um comediante frustrado.

E um alívio, um grito de liberdade sã e consciente grita dentro deste coração,
E um dia alguém me disse, que quando abrimos os olhos depois de tempos cegos,
Nós nos sentimos tão pequenos…tão pequenos diante de nossa idiotice,
E um dia me disseram que há milhões e milhões de pessoas neste mundo,
E um deles estará a sorrir pra mim…um dia me disseram, em tom de sermão:
Se e somente se, a vida sorrir para nós, devemos então, sorrir pra ela também.

8817614

Atlantic City.

Everything dies, baby, that’s a fact
But maybe everything that dies someday comes back…

Esta noite vejo-me sorrindo, com os olhos brilhantes, tal como um diamante louco negro e todo lapidado. Eu vou colocar a mais bela música, tomar um banho longo, e a água morna irá envolver-me como um abraço, um abraço que eu sinto tanta falta. Olho para o alto, fecho meus olhos, tranco minha respiração enquanto a água escorre pelo meu rosto, e na ponta dos pés, como uma bailarina, eu ergo as mãos, me espreguiçando longamente soltando um suspiro.

Saio do banho, vejo meu sorriso no espelho, rosto molhado e sereno. A vida é muito curta para termos preocupações, por isso eu ando nua pelo quarto, onde as velas são acesas e eu encontro minha felicidade em jogos de luz e sombra.

A infusão de maças e canela me chama. Eu tombo a chaleira e me divirto com as nuvens do calor brincando no ar. Mas as canelas em casca com maçãs inteiras… Não é esse aroma estimulante que eu mais queria agora…

Ouço os carros passarem em alta velocidade lá fora, mas o Tempo passa devagar, talvez ele saiba que é minha hora de amar, enquanto eu bebo um chá, eu penso em você bebendo goles de café, são meus turbilhões de pensamentos, pensando em um toque que não é meu, mãos que não são minhas.

Borrifo em locais estratégicos meu melhor perfume, aquele que eu guardei especialmente para quando for beijar meu pescoço, aquele que me traduz como mulher e lhe dará boas memórias olfativas. Estou cantando um murmúrio, aquela música que está tocando em minha mente, e que tanto faz-me lembrar de teus olhos, pena que o dia não está chuvoso lá fora.

Escolho o meu melhor vestido, soltando meus cabelos. Lembro-me de teu afago doce e suave em meus cabelos ondulados, naquele dia de ventania, e desde então, em dias de vento de outono, cada afago do vento eu acho que é o teu,  queria eu afagar teus cabelos novamente, bagunça-los e deixá-lo zangado, depois ver-te rir perante minha alma de criança levada.

Eu vejo Vênus lá no horizonte, vejo o brilho vermelho de marte, queria ensinar-lhe sobre as constelações, você não sabia o que eram plêiades, mas sabia o que era um conglomerado de estrelas. Eu o completei neste quesito.

A brisa noturna bate no meu rosto, e eu deito em minha cama, fixando o horizonte com olhos perdidos. Eu olho para todos os cantos, vejo minha coleção de canetas, meus livros na estante, minhas garrafas de vinho vazias, mas com as rosas que você me deu. Tenho em mãos agora um enfadonho caderno de prosas, e fora isso não há mais ninguém, a única que me acompanha agora é a saudade e a espera.

Toque a campainha, a porta sempre estará aberta. Entre e fique, veja como eu estou agora, todos os dias eu me pergunto se o Amor não passa de um joguinho besta entre lençóis, mas eu espero que você chegue com teus olhos azuis de dilúvio e bagunce meus cabelos, que rasgue meu vestido caro de boutique do Jardim Cambuí.

Enquanto isso não acontece, eu sigo cantarolando “Something” dos Beatles. Quando eu coloco minhas mãos juntas, quando eu abraço o travesseiro, ou quando eu olho o horizonte e vejo as luzes amarelas da cidade, ao longe, é apenas em você que eu penso, e este perfume que eu sinto agora, é o cheiro que eu quero que sinta em minha pele, a estrela lá fora, aquele brilho do passado, não quero admirar sozinha.
Agora eu posso pintar um quadro seu, com meus crayons, porque eu consigo enxergar todas as suas cores, e eu tenho a esperança, de escutar a sua voz me chamando, para irmos para Atlantic City.

Put your makeup on, fix your hair up pretty and meet me tonight in Atlantic City!