Eppur Si Muove

Outrora, eu tinha voado. Não sei se foi em um sonho, provavelmente sim. Lembro-me que quando eu era criança, eu acreditava que se eu comesse asa de frango, eu poderia voar, e sim, eu era criança e não fui atenta ao fato de que frangos não voam, mas a risada dos adultos diante de meu sonho Ícaro, voavam até o vizinho mais distante. Hoje a única asa que eu me permito ter, são as asas da imaginação, e uma viagem frenética de deja-vu por hora.

Dias atrás fui caminhar. Caminhei durante duas horas, escutando música ou apenas um eco de meus pensamentos. Era necessário sair para espantar alguns fantasmas que andam me atordoando, e esquecer aquilo que me tirou do eixo. A racionalidade me pegou, assim de surpresa. Então coloquei os livros de um presente esquecido propositalmente de ser entregue na minha estante. Vejo lá o meu amigo Fernando Pessoa, com uma fita de cetim separando o poema eu marquei como o meu preferido. Foi a primeira vez e assim espero que seja a última, que eu nunca entreguei um presente ao qual gostaria de entregar. Porra, é tão chato isso! Eu poderia entregar-lhe em casa, mas nunca entreguei um presente à alguém sem olhar nos olhos. Na Europa, não sem brinda sem olhar nos olhos. Eu não entrego presentes sem olhar nos olhos. Eu não ligo pra teu desconforto, eu sou mais simples do que imagina. Se isso não é possível, engulo meu orgulho, certas coisas eu carrego junto ao meu egoísmo. E a leitura, ou releitura dos livros que eu não lhe dei, terá um gosto, assim, triste. Não gosto de guardar mágoas, mágoa tem gosto de fel. A mágoa é amarga, é dura de engolir, não tem tempero, sem nada. Mastiga, mastiga e mastiga. As mandíbulas doem, e você não quer engolir, mas seria horrível cuspir aquele pedaço de Amor intragável, não diluído tentamos em vão, talvez, aceitar nossa condição, nossos erros, nosso amor e desamor. Engolimos, em seco, ou com um pouco de água. A garganta dói, é nosso orgulho passando. Entra no estômago, dá uma indigestão, mas aceitamos. Simplesmente, aceitamos. A razão, quando chega, destruindo nossas emoções cheias de lembranças, embriaguez, flores, cidade distante no horizonte, sonhos de homens que atordoados, caem na cama ou sarjeta, esperando por dias melhores. A verdade dói, mentiras são muito mais confortáveis, e a verdade volta com a necessidade de esquecermos algo que em nossos sonhos de Dom Quixote achamos que eram recíprocos. Dom Quixote amava Dulcinéia, e achava que os moinhos de vento eram dragões. Minha consciência é o Sancho Pança. Ela sempre, como um fidalgo montado num burrico, tentou me avisar, mas eu era como (ou ainda sou?) como Dom Quixote. Ora Sancho como tu és besta! Assim como Dom Quixote, tenho o mal da fome em excesso, o Amor às causas perdidas, as dores do mundo não me bastam em meus ombros, sinto todo o Amor do mundo, e mesmo sendo besta e atordoada, me contento com a tua falta de atenção. Sim, um Amor besta às causas perdidas, ou talvez desconhecidas. Há um frio no estômago a quem me dirijo as palavras, e o frio emudece, como uma pradaria no inverno. Escuta-se apenas o eco do vento e o uivar dos lobos, mas só me sobra, ou nos sobra, um silêncio sepulcral, algumas palavras talvez por pura obrigação ou aquele medo de ser cruel sem querer.

Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga “eu não acredito no amor”, a vida sempre nos surpreende. (Dom Quixote)

Dom Quixote era um besta. Morreu louco. Ele nunca desistiu. O velho de Hemingway também nunca desistiu, foi inclusive dormir em sua velha cama forrada com jornais, e sonhou, com as praias de areia branca. Na minha praia não existem leões, nem pegadas. Estou sempre em alto mar, mas eu não espero nada. Nada mais. Minha garganta dói até agora. Tenho os marcadores de cetim dos livros sorrindo pra mim. Talvez apenas eu ache marcadores de cetim algo bonito. Talvez apenas eu ache que o poema do Girassol do Alberto Caeiro traduza a alma de alguém.

O meu olhar é nitido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando pra direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo… (Alberto Caeiro)

Eu fui uma trouxa ao reler “O retrato de Dorian Gray” enquanto esperava no aeroporto apenas para marcar teu trecho favorito e entregar-lhe. Sempre achei bonita a comodidade de abrir uma página marcada por fita de cetim e ver ali, um trecho que marcou-lhe a vida. Escutar teu trecho em um tablet é algo moderno, mas você consegue sentir a aspereza e a beleza da sabedoria impressa em palavras? Amo o toque. Gosto de passar os dedos numa folha de papel. Gosto de livros antigos, eles tinham a nobreza do cetim.O Amor possui a beleza sensual e suave do cetim, mas é ao mesmo tempo, áspero como as páginas de um livro velho. E um velho Amor áspero, fica guardado lá na estante. Ficamos olhando a capa já tão surrada, as páginas desejosas das traças. Se eu pegá-lo de volta uma rinite viciante recomeça. Tento curar minha indisposição com um xarope chamado Razão. Mas Amor é como uma droga. Basta sorrir, e o vício volta. Pego os teus livros não entregues, coloco-os numa caixa, e volto a forrá-la com papel de seda azul, prender o laço que eu comprei pronto, pois não sei fazer laços. Odeio amarrar sapatos, mas faço, por pura força da necessidade.  E eu fico, com minhas emoções desvairadas e simples aos olhos dos poucos que me compreendem. Fico aqui, em meu silêncio, uma pagã triste com flores no regaço. A velha garrafa com rosas ainda pousa na minha cabeceira, ao lado de Cervantes e Ernest Hemingway. Teus livros que eu não entreguei sorriam, e na metáfora eles olham pra mim com aquele olhar que você nunca teve, aquele que você nunca se esforçou ou por desacostume e desconforto, nunca ousou em mostrar. Minha rinite está atacada. Meu xarope de Razão acabou. Eppur Si Muove…

O bom menino.

Você mostrou-me teus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro… Daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…

Éramos jovens, você se lembra? Corríamos pelas ruas do subúrbio buscando sonhos desacordados, com canções em tons desafinados, cores ajustadas, como a mistura de Renoir num quadro pintado em Paris. Posso estar escrevendo coisas das linhas pra fora. Entenda querido, já são além da uma da manhã, e eu ando tendo madrugadas insones. Há um silêncio lá fora que me convida para contemplar os gatos por cima do muro. Eles andam numa graça inocente por entre as grades, e quando me veem com os cabelos ao vento, no meio dessa madrugada de outono indeciso, eles me encaram com os olhos brilhantes. Há um gato, negro como a noite, eu só vejo os olhos amarelos, me encarando como se soubesse dos meus sonhos de ir e vir, das minhas noites tecendo a saudade em meu tricô imaginário de vinho Merlot. Hoje bebo no gargalo, desde que te conheci ignorei a etiqueta de tomar vinho como gente educada. Eu não sou mais educada, sou tresloucada.

Se eu fumasse, acenderia um cigarro, talvez um mentolado, ou aqueles doces, de cereja. Ficaria soltando anéis de fumaça no ar, quem sabe eu fizesse um grande o bastante? Tem uma coruja aqui perto do terreno baldio, ela mora num buraco. Em meus sonhos, ela poderia passar voando nos meus anéis de fumaça mentolados. Ela passaria por dentro deles e daria um rasante no chão. Talvez, pegasse minhas emoções que jazem no chão, e levaria para bem longe, talvez para um inferno Dantesco, ou para o paraíso dos sonhos de Beatriz. Lá existe um pouco de Amor. Eu escuto Chico Buarque e sinto Amor, e eu queria que quando eu passasse você me estendesse a mão, ou o chapéu, mas tu não usas chapéu. Um dia queria que me mostrasse o sol, aquele que lhe faz sorrir, assim, mais de duas vezes ao dia. Percebe? Eu te mostraria toda a beleza de um dia chuvoso, talvez encontrássemos alguma coruja tomando banho, enquanto as pessoas passam aturdidas com seus guarda-chuvas, com raiva, passos largos. Eu contaria os segundos, contigo, e depois me apoiaria em teu ombro quando o trovão bradasse a fúria dos Deuses lá naquele horizonte de campo aberto.

Quando eu era criança, eu gostava de andar de bicicleta embaixo da chuva. Eu passava na poça de lama, e conforme ia pedalando, a roda de trás respingava lama nas costas da minha camiseta velha de guerra. Meu pai sempre falou que eu poderia tomar um raio na cabeça, mas a única coisa que eu tomei, foram gotas de chuva que me escorriam nos lábios. Eu era uma criança levada. E você ficou com minhas fotografias… Tem uma delas que eu estou feliz e banguela num balanço. Tem outras que estou acampando em Brotas, e eu praticava trilha na serra com minha mãe e aquele que um dia eu chamei de pai. É uma longa história, queria te contar um dia, sobre minhas aventuras, dos dias que eu subia no telhado escondida. A vida era incrível vista de cima, e pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não dão valor para quase nada, não tinham um olhar apurado, nunca ninguém me viu lá em cima, ninguém, só pardais e pombas que balançavam nos fios do poste… Ahhh, e o cachorro da vizinha, que eu tinha que passar de fininho, porque ele ficava nervosinho e se colocava a latir ininterruptamente. Tinha medo de ele chamar a atenção da minha vizinha balofa que não dormia porque o marido roncava. Ela poderia acabar com a minha brincadeira infantil de ser uma stalker das alturas. Um dia, atirei uma pedra no cachorro dela. Você vai me dizer:

“Malvada”…

Mas um dia, você me contou que jogou o gato da janela. Tu eras uma criança, tão malévola quanto eu, ou não… Apenas queria ver se o gato cairia de pé… Lembra? Quando você me contou isso, eu lhe disse pra você amarrar um pão com manteiga nas costas do gato, assim ele cairia de costas… Mas você cresceu meu bom menino… E nas ruas desse subúrbio, enquanto você dorme, com seus sonhos que talvez nem se lembre quando acordar, eu lembro da sua travessura de menino, como cenas de um frame despedaçado. Eu posso ver duas crianças correndo pelo subúrbio… Mas isso é apenas um devaneio, perdido entre meus anéis imaginários de fumaça. Na primeira tragada eu vou achar que vou morrer. Tentei tragar uma vez, quase morri, mas você tentou me ensinar. Eu acho que ainda não aprendi, ou tenha me esquecido. Fico apenas na vontade de menta, cereja ou pinho…

Eu poderia te reconstruir, como um vitral, daquelas igrejas europeias, mas não seriam imagens santificadas, já lhe disse um dia, eu fujo de tudo que é convencional, e faço isso sem querer, sou tresloucada… Quando criança chutava os formigueiros e passava o tempo observando o caos. Eu me perguntava se as formigas gritavam, como as pessoas na televisão quando aconteciam aqueles terremotos lá no Japão. Hoje só escuto meu próprio grito. O resto eu ignoro. Além de louca, sou egoísta. Mas eu te amo, mesmo tendo atirado o gato da janela. Você chega até mim nessa noite, com seus sonhos e travessuras de bom menino.

“I shall be released” …

 

Perto de mim nesta solitária multidão
Está um homem que jura que não é ele a se culpar
O dia todo eu o ouço gritar tão alto
Clamando que não é ele a se culpar
Eu vejo minha luz vir brilhando
Do oeste até o leste
Mais dia, menos dia
Eu serei libertada

 

Eu vi o amanhecer de raios tímidos, banhei num sorriso desconcertante, padeci de amor nas caminhadas noturnas. Quando eu via o clarão de luzes amarelas, tinha toda uma epifania talvez sem sentido algum. Ando respirando quem sabe um ar que não me pertence, posso ter chegado sem permissão, mas na minha queda eu me levanto e danço passos de bailarina de sarjeta. Cultivo o caos na tranquilidade de minhas entranhas expostas. Tomo goles de vinho enquanto leio um livro, eu ando por aí mentalizando crônicas, poemas e sonhos. Penso em ter uma casa, no alto da serra, com vista para coníferas, alguns manacás da serra imponentes e meus cães correndo pelo quintal. Também gosto de ipês, mas enfim, seria mais fácil dizer que amo flores, desde aquelas que padecem secas nas minhas garrafas de vinho vazias na estante, até o vaso de flores imaginário que eu nunca ganhei. Contemplo os vasos de minha mãe, e aqueles que tem no quintal da pequena casinha que eu alugo. Amo os cães que eu vejo pela rua. Sempre tem um que me lambe as mãos, me faz festa, me olha nos olhos e chora quando eu vou embora. Tem aqueles que sabem quando estou triste…

Vivo minha vida de forma simples, sem muitos luxos. Os únicos luxos que eu carrego são o ato de pagar caro em vinhos e gastar muito em livrarias. Fora isso, vivo sem amarras, gosto de ser livre, se pudesse, eu pegaria um avião qualquer e fugiria temporariamente para outro país. Sou apaixonada, eternamente apaixonada, pela vida, e tudo que eu carrego nela. Eu amo um homem que eu não sei se me ama, e eu acredito que nunca saberei, mas eu não desisto, sigo minha vida, vivendo de Amor, e não me importo que seja mais um daqueles mal sucedidos. A vida é muito curta, eu sei, mas sou uma eterna errante, teimosa. Podem me chamar de trouxa, do caralho a quatro, eu não ligo, posso ficar 365 dias ou mais, perdida em alto mar. Volto para minha cama, deito em meu travesseiro em forma de bicho e tenho meus sonhos de esperança. Acordo, e lá estou eu, no meio do oceano novamente, enfrentando tempestades, conversando com as gaivotas e dormindo ao relento.

Por vezes, eu acordo no meio da madrugada. Gosto de sair lá fora, tomar uma friagem. Gosto de tomar chá sentada na soleira da minha porta. Vejo o vento que me bagunça os cabelos, chacoalhar a coruja talhada em madeira, que tem pendurada no quintal. Ontem, de madrugada, o vento derrubou um vaso. Ele espatifou-se inteiro e lindas pedras brancas se espalharam no meio da terra. No meio da escuridão, as pedras brilharam, e no meio da madrugada, eu sujei minhas mãos de terra, replantei o vaso, varri o chão, peguei as pedras jogadas no quintal. Me senti viva, com minhas mãos de dedos magros e longos, que minha mãe me diz que parecem dedos de pianista. Eu nunca toquei nenhum instrumento, mas gosto de pensar nas costas nuas de meu amado, como um grande piano. Eis a única coisa que eu toquei… A pele é uma obra de arte, deslizar nela é como um arco num cello, no violino, mãos deslizando em teclas de piano. Barulhos de amor é uma orquestra sinfônica, uma sonata de Beethoven

Estou viajando na maionese, faço muito disso, mas eu não me importo se faz sentido ou não. Vivemos em um mundo de opiniões e visões diferentes, e é isso que o torna tão belo. Essas nuances gritantes, uma sinestesia desvairada. Eu vejo cores em cheiros, notas musicais em palavras. Talvez eu seja louca, mas essa loucura é o que me move, queria eu, sair com camisa de força por aí, descabelada, com um cigarro de canto de lábios, e uma flor no canto da orelha. Sairia cantando Beatles em alto e bom som, declamaria a “Balada do Louco”, misturada com “Lucy in the sky with diamonds“. Cantaria uma canção para meu Amor, mas eu não sei cantar, eu tento, mas eu não sei. Cantei em coral por dois anos, em vários idiomas, mas eu juro, eu não sei cantar e acho minha voz um lixo. Mas creio que sei escrever, e é isso que eu faço, e pode ser que meu Amor não me leia mais, mas, sinceramente, foda-se. Eu tentei, posso ser destruída, mas nunca serei derrotada. Estou na deriva, balançando em alto mar. Levo meu Amor no peito, falo dele para as gaivotas, e para peixes voadores. Não posso prever minha sorte, nem a falta dela. Eu corto minhas mãos na linha de pesca, eu falo sozinha, tenho poucos amigos, mas ótimos e eternos amigos. Eu me deito, sozinha, minha cama não é feita de jornais, mas eu nunca desisti, ando de pés descalços num caminho de espinhos, cheio de rosas, sangue e emoção, mas pra suportar minha dor, penso em meu caminho como cheio de areia quase branca e fofa, e vejo lindos leões dourados andando sobre ela. Eles olham para o horizonte, imponentes. De vez em quando soltam um rugido, e da minha cabaninha eu olho pela janela e solto um sorriso tímido.

Da minha janela, estou sempre escrevendo…

Jardim de Infância.

Era de manhã, saiu pra fora no jardim, com os pés descalços, amassando a terra, tatu-bolas de jardim. A doçura da brisa das manhãs bagunçando os cabelos, e a certeza de um amor distante que a observava. Cantou com lábios quase fechados, uma canção que a emocionava, e uma lágrima escorreu, molhou a terra, onde sementes de flores amarelas que ela plantava todos os dias dormiam esperando a hora certa para germinarem. Todos os dias ela pega um regador e molha a beleza com olhos de devoção. Coração quebrado, cabelos cortados, uma Força despretensiosa, sincera, no peito um coração de vitral, colorido intenso. Queria ela dizer que o ama todos os dias, mas sua timidez desajeitada a faz emudecer, por isso ela canta baixinho, e crê ela, que o seu sussurro chegue aos ouvidos dele, o seu Amor, como anjos zombeteiros numa capela abandonada no deserto. E corre, pelo jardim, com seu vestido branco manchado de amarelo, lábios de café, para combater a insônia que tanto a enlouqueceu. E numa multidão de palavras ditas e não ditas, a falta de coragem não a impele de acreditar em dias que ainda nascerão sendo eles chuvosos ou iluminados por infernais raios de sol. E ela continuou agachada no jardim, sujando as mãos de terra, vendo pássaros brincar nas poças que se formavam ao chão. Sujou os pés de barro, e isso era bom, era puro, era ela voltando às origens, desprotegida de sapatos que a protegem de viver. Sujar-se é viver, sentir, no mais íntimo das verdades, quem vive sempre no que é limpo, não conheceu toda a intensidade de viver. Quando ela tiver filhos, permitirá que eles construam castelos, brinquem descalços no jardim, deitem na grama, pulem nas poças. As crianças andam limpas demais, aquela falsa convicção que é saudável viver longe da sujeira, aquelas crianças com roupas e sapatos impecáveis, olhos tristes ao verem as crianças sujas com as mãos de terra, crianças de apartamento, criadas a brinquedos eletrônicos e bonecos de roupas lavadas toda a semana. Sorrisos eletrônicos, falsos, por dentro uma certeza, uma vazio. Sim, crianças sentem tanto o vazio quanto nós os adultos, e naquele jardim, enquanto plantava uma flor, ela agradeceu por ter sido uma criança imunda, e não ter tido apenas um sorriso eletrônico estampado no rosto.

Memórias de Café com livros: A mulher no balcão.

No meu dia nublado de abril, eu escritora insone não remunerada, analista de sistemas estressada, porém em férias, estava a escrever na mesa de uma cafeteria de livraria. Naquela mesa, com  papéis espalhados, canetas, água com gás e uma xícara de expresso duplo, pensando na minha meta literária do dia, pensamentos misturados em meio a sonhos e também em Amor, aquele Amor que chamamos de Amor Próprio, junto daquele que envenena os apaixonados. Não sou de ferro, queria ser um ser assexuado e desprovido de sentimentos, eu poderia tal como um ciborgue, emular sentimentos. Sentimento fingido as pessoas dão mais valor, aquele sem sinceridade, sem a típica bofetada, cheia de palavras afáveis a todo momento, o sapo que virou príncipe e outras mitificações. Diante de uma pessoa que vê a realidade das coisas, sem precisar ser moldada, o encanto cai, as coisas ficam difíceis, pois sabe-se, sempre queremos alguém a quem possamos moldar ao nosso jeito, é mais fácil de aceitar, engolir e menos perturbador. No meio de uma sociedade como a nossa, aquele que não questiona, concorda com tudo, vai na moda, é muito é mais fácil de se conviver, pois sendo assim, normal, os problemas ficam mais fáceis de serem contornados. Gostamos de coisas afáveis. Verdade dói, mentiras são mais confortáveis.

Comprei o volume um de contos do Hemingway, e um pocket do Charles Bukowski, “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. Apaixonei-me por estes dois escritores, intensos, nus, crus, estética brutal. Não gosto de escrita mimimi. Gosto da realidade, aprecio ler e sentir bofetadas no rosto e isso não é sadismo, é apreciar ler aqueles que não vivem em um mundo de fantasias.

Na minha frente, estava sentada uma mulher com uma camisa listrada branca e verde-água. Ela carregava duas bolsas grandes, uma preta e uma marrom. Mulher bonita, deveria ter uns trinta e poucos anos. Era loira, cabelo na altura do pescoço, olhos azuis. Pediu chocolate quente no balcão da cafeteria. Já tomei daquele chocolate quente, aliás, creio eu que já tenha tomado todos os drinks que eles servem lá. Como viciada na arte de elaboração de bebidas com cafeína, passar o dia regado a doses de cafés bem elaborados é um certo luxo ao qual me permito. Café, assim como o vinho, expande meus horizontes.

Foi neste mesmo lugar que eu tive meu primeiro contato com Hemingway, através do livro “O Velho e o Mar”. E desde então esse livro e muitos trechos dele moram em minha memória. Perdi as contas de quantas vezes eu já o li, dentro de uma tarde solitária, e em todas as vezes, eu acho mais formidável, impossível não se encantar cada vez vez mais, e ir colhendo, aqui e ali, impressões que nos deixou passar batido. Eu só tenho a agradecer a quem me apresentou tal obra de arte, tem de ter uma sensibilidade grande, para compreender a beleza do que está escrito aí, e isso não encontramos em qualquer um. Pessoas assim são raras, um diamante quase lapidado, digo quase pois não somos perfeitos, muito pelo contrário, muitas vezes temos mais defeitos do que qualidades propriamente ditas, mas nossas qualidades nos deixa ignorar os defeitos, ou simplesmente aceitá-los. Não sei lidar com o silêncio, já disse aqui, mas aos poucos, eu vou aprendendo. Preciso do silêncio para completar o pedaço que falta em mim. Sempre gostei das pessoas silenciosas, vejo um equilíbrio ao qual não tenho, essas pessoas falam com os olhos, precisam de poucas palavras para se expressarem. Muitas vezes eu não consigo fazer isso sem verbalizar no mínimo umas cem palavras. Saudades daqueles olhos silenciosos, mas tão expressivos, que fazem meus olhos, tão grandes, baixarem desajeitados, pois é, acreditem, eu sou tímida diante daquilo que me desconcerta. Em questões de Amor, eu muitas vezes me protejo por trás de meus muros do ego. É aquele medo de se machucar, mas eu sempre acabo pegando uma marreta, e mostrando o que há por trás do muro, mesmo que na sutileza, eu posso não ver mais aquele que me tirou da toca, eu posso fingir que não estou mais nem aí, mas isso é uma maldição aparente, eu me preocupo, não nego, mas tem horas que deixo meu amor próprio falar mais alto, mas aqui dentro, bate um coração já tão estilhaçado, mas que mantem a beleza e a sinceridade de um vitral.

Em tantos anos de leituras, noite a dentro, dia a fora, como que eu nunca li nada do Hemingway? Creio eu que tudo acontece na hora certa, talvez eu não tinha na época maturidade para entender o que estava escrito ali. Existem certos livros que aparecem nos momentos certos, não estou dizendo que Hemingway é leitura para a partir dos 25 anos, iguais aqueles cremes anti-rugas, mas certas leituras dependem de um nível de amadurecimento mental, de novas ideias, conceitos, perda de preconceitos. Talvez, se eu tivesse lido “O Velho e o Mar” com quinze anos, eu não teria a eloquência necessária para entender ao certo o que está escrito ali. Aliás, eu estou desviando o assunto dessa memória, vamos voltar ao tema, para a mulher no balcão.

Como eu havia escrito, linhas acima, ela estava tomando um chocolate quente, e se eu dizer que era uma mulher de olhos tristes? Uma mulher que em seus olhos carregava uma angústia que me sensibilizou a ponto de interromper meu texto sobre a fonte da juventude, e pegar um outro papel para escrever o que agora, vocês estão lendo. Comecei a escrever em uma folha sulfite cor de laranja. “Ana você é uma invasora”, não, eu não sou. Se me olhassem escrevendo, veriam uma mulher com olhos grandes e perdidos, mas que vê tudo ao redor, sem se deixar ser percebida, por isso não sou uma invasora, eu não encaro, eu apenas observo, na calma, na paz. O ato de encarar é chegar sem pedir permissão e criar uma zona de desconforto. Observar não, você vê, mas finge que não percebe, toma seu café, na boa, na paz, olha para outros lados, concentra-se, folheia, rabisca. É o simples ato de sentir-se vivo. Eu sou uma pessoa que desligada, viajo na maionese, penso na morte da bezerra quase que o tempo todo, mas isso não me impede de estar atenta ao meu redor. Nem sempre fui assim é uma questão de prática.  Comecei a escrever memórias há pouco tempo, e não fiz isso com mais frequência para não ser interpretada como um ser invasor e/ou imoral. Gosto de escrever sobre a vida, sobre momentos, assim, como estes, perdidos nas observações da vida transbordando incógnitas numa cafeteria, cuja mesa ocupada por uma mulher de tristes olhos azuis, que de repente tirou um bloco de anotações da bolsa, que mexia o chocolate quente com uma colher bonita, mas o olhar dela, distante, aflito. Posso enganar-me com as minhas observações, minhas convicções podem estar erradas, pois estamos fadados a ter ou sermos vítimas de falsos julgamentos, mas veja bem, eu não cheguei nela e perguntei por que ela tinha os olhos tão tristes, guardei minha opinião pra mim, e agora compartilho com vocês,  que apesar dos olhos tristes, a beleza daquela mulher ao tomar goles curtos daquela bebida quente, não poderia passar por despercebido. Eu não perco os instantes, e quando eu perco, eu jogo uma maldição em mim mesma.  Não perco a beleza de meus breves minutos, se a tristeza ou a beleza me atrai, eu me entrego a ela. A beleza dos olhos nus anda comigo, e por mais que essa minha característica possa jogar contra eu mesma, eu não sou uma pessoa imoral, pois meus instantes não são o meu eco, o tempo todo. Permito-me amar aquilo que me desconcerta, e escrever meus sentimentos perante a sinfonia de vida ao meu redor, se você fez ou faz parte da minha vida, e de alguma forma me encantou, serás imortalizado aqui, em linhas insones, e tais como os olhos azuis daquela mulher, em meio a goles de quem sabe um conforto, eu canto aqui minha composição perante o encanto que teus olhos me trouxeram, e eu sinto em meu peito a saudade me apertando. Escrevo porque sinto saudades…Saudades de teus olhos azuis, aqui, sentada neste mesmo local que eu roubei a bolacha que acompanhava teu café.

“três dias depois partimos, a menina má e eu, de trem, para a sua casinha nos arredores de sète, no alto de uma colina, de onde se via o formoso mar cantado por valery em “o cemitério marinho”. era uma casinha pequena, austera, bonita, bem-ajeitada, com um jardinzinho. durante duas semanas ela passou tão bem, parecia tão contente que, contrariando toda a lógica, pensei que podia se recuperar. uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.
– e por que pensou isso?
– porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. não foi, bom menino?”  Trecho de travessuras de uma menina má, de Vargas Llosa.
 
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Entranhas com alho frito.

Algumas pessoas se autocanibalizam, por falta daqueles que não tem colhões suficientes pra encarar suas verdades estampadas e escarradas pra fora, temos tendência de gostar daquilo que só passa a mão na nossa cabeça, aqueles que cospem sinceridades, são os chatos da vez, tão demodê… Se este termo não existe, autocanibalização eu acabei de inventá-lo agora. Não estou nem aí para o que vão pensar. Enfim, vamos falar de autocanibalização e canibalismo:

Algumas pessoas comem suas próprias entranhas fritas com alho e sal em frigideiras antiaderentes, sim…ANTIADERENTE, temos amor próprio, não queremos nossas tripas grudadas, queimadas. Nós engolimos nossos próprio sentimento. Já engoliu o orgulho?Então, ele tem gosto de fígado acebolado. Paixão tem gosto, olha só que clichê maravilhoso: coração!Ahhhh os clichês, tem horas que não conseguimos escapar deles. Entranhas tem de serem engolidas sem muita frescura sabe? E então, já se perguntou o porquê? Eu lhe digo que é para puramente não se perder a essência. Quando temperamos muito, temos sentimentos mascarados, e as coisas não devem ser assim. Temperamos apenas para não dar um gosto tão horrível, mas se temperarmos demais, nós não conseguiremos sentir textura, sentir nada. Tudo tem de estar em equilíbrio, até porque senão ficaremos loucos, mais do que já somos, enjaulados na clausura de nossa autocomiseração. Sejamos misericordiosos com nós mesmos. Comeremos nossas tripas e lamberemos os beiços, por unicamente, Amor-próprio, coloque um pouco de sal e engula tudo a seco. Se quiser cuspir, cuspa, mas não faça cara de nojo, poupe-me, o mundo já está nojento demais em meio da natureza vazia dos outros. Tem entranhas que são podres, nem precisa chegar perto para sentir o mal cheiro. Mas sempre tem gente que encara, e acha gostoso!Hummm delícia!Depois vem chorar nos ombros. “Comi uma guria, mas ela me usou”… Ohhh pobre coitadinho!As vadias chupam-lhe o pau e depois quando você diz eu te amo, elas te abandonam, como uma cachorrinho na rua. Ou você, guria bonita, inteligente (não vamos falar de vadias burras, eu já escrevi um pouco delas na linha de cima, me poupe), respeita o cara, não faz dele um brinquedinho, uma marionete de seu teatro infame. Você morreria pelo imbecil, mas ele não está nem aí pra você. É sempre assim, o ser humano é foda, gosta daquele que pisa, ou aquele que não lhe dá nem um pouquinho de atenção. E nós, como diz Renato Russo, esperamos um pouco de atenção, e nossa arrogância tem gosto de fel…Aquela bile que fica na boca quando não se tem nada mais pra vomitar.

Sabe, eu queria escrever esse texto nas costas, sair por aí, correndo pelada. Eu poderia colher cada flor do asfalto amaldiçoada pela falta de atenção, porque você estava pensando em comprar um carro zero, e esfregar na cara daqueles que não dão valor pra nada, aquele que não fala bom dia, aquele que não tem consideração nenhuma por quem está sempre do teu lado. Ahhh, mas se nós cuidarmos das flores, vêm a porra de um carneiro e a engole. Então meu querido ser quase dotado de massa cerebral, valeu a pena pra você?Você cuidou bem da sua flor, ela lhe fez sorrir?Sim?Ótimo!É isso que importa, você deu o máximo de si, pra que ficarmos nos lamentando? É eu sei, adoramos lamentar…Adoramos encontrar agulhas em palheiro. Adoramos criar fatos que não existem. Se cuidou da sua flor, chegou um carneiro e comeu, da próxima vez, cuide melhor da sua rosa, do seu girassol, faça menos cagadas, talvez se você tivesse plantado sua flor com um pouco de amor próprio, talvez ela não morreria…

Ando por aí, segurando minhas tripas, que escorrem do meu ventre, aberto, meu peito aberto, rasgado… Olha só…quer comer meu coração com molho pardo e azeitonas? Tem vinho aqui em casa, vinho vai bem com carne, mas segure a taça do vinho pela base. Sou uma puta exigente meu querido. Para devorar minhas entranhas você não pode ser um estúpido mesquinho. Para eu lhe dizer, entre de novo, você tem que me olhar por dentro, eu não sou apenas uma mulher bonita em cima de um salto alto, toda arrumada, eu acordo cedo com a cara amassada, tenho muitas vezes preguiça de tirar a maquiagem pra dormir, e às vezes eu bebo demais e acordo no outro dia de ressaca, com uma dor de cabeça dos infernos. Posso te amaldiçoar, posso chutar-lhe da minha cama, mas depois eu vou lhe estender a mão, e vamos nos amar em meus lençóis velhos, tão cheios de perguntas, muitas sem respostas. Beberemos, vamos brindar…Vamos devorar um ao outro, que tal? Fazer uma salada de entranhas, se você já guardou suas tripas pra dentro, pois já estavas cansado de ser julgado por ser assim, vem aqui, eu vou fazer-lhe um rasgo e colocar uma linda fita de cetim, suas tripas lindamente amarradas, meu presente.  As minhas são amarradas com um pedaço de cetim vermelho escandaloso. Elas estão servidas aqui pra você. Coma-as ou apenas olhe, simples assim, porque as coisas nesta vida tem de ser complicadas? Vem aqui, seu corvo tímido, venha crocitar seus medos e soltar seus demônios em cima de meus ombros. Estou à disposição, corpo, alma…E entranhas, servidas no alho frito.

Ahammmmm...
Ahammmmm…

Apartamento em chamas

Lúcia gosta de tomar banho com  banheiro cheio de velas. Ela usa isso como uma forma de ritual, sem compromisso, sem pressa alguma. Chega cansada do trabalho e coloca um John Coltrane ou B.B King para relaxar, pensar na vida, ter um sorriso de canto de boca, emoções surgidas nas trilhas de um solo de jazz ou blues tarado.

Deixa as roupas pelo caminho, fazendo uma trilha em direção ao banheiro, vai andando nua pelo apartamento de subúrbio, enquanto devora o resto de doce de banana feita pela avó no final de semana. Liga o computador, acompanha os último status das redes sociais e notícias de portais web, dá risada da última coluna do Zé Simão e seu colírio alucinógeno. Um ritual de bruxaria, um ritual totalmente pagão, seus demônio dançando em volta das chamas tremulantes da vela. Anjos soprando nos ouvidos, demônios em forma de pensamentos, todos num coro, na penumbra de jogo claro e escuro, luz e escuridão. Seu banheiro era um pintura barroca.

Faz amor consigo mesma, os homens que a tiram de sua toca, faz-lhe querer respirar por um mundo menos mesquinho com suas cores cinzas esparsas, no meio de seu mundinho tão colorido, solitário, a viva alma de um homem que veja suas nuances é tão raro quanto uma espuma de banho que seja duradoura. Lava a alma, lava o corpo, pensa em sexo e também em Amor.  Assopra a espuma nas mãos, como uma criança em corpo de mulher adulta. Não tem medo da solidão, pois ela é aquela que lhe completa  e faz sua consciência ão andar tanto nas sombras e nem tanto em caminhos iluminados, há o equilíbrio entre sombras e luz. Alimenta sua sede de viver pecando e fazendo as coisas certas, em passos de dança desalinhados, um tango teimoso.

Enxuga-se com uma felpuda , perfuma-se com algumas gotas de perfume atrás da orelha, 5 gotas tal como Marilyn Monroe em seus tempos áureos, amante de John Kennedy, baleado na surdina por um tiro na cabeça . Deita-se nua, na cama, com o corpo coberto apenas por um película perfumada de hidratante.  Agarra o travesseiro, aperta-o entre as pernas. Ela ama a solidão, mas gostaria de ali, naquele momento, naquele apartamento, queria o elemento Fogo, não queria a brisa suave do ar-condicionado.

Os carros passam lá embaixo, janelinhas de prédios ao redor, cheias de vida e histórias, sombras passando na janela, há um rio de emoções e segredos, diante de seus olhos naquela janela. Na penumbra de seu apartamento ela reflete sobre suas ambições e desejos. Numa aflição silenciosa, ela aperta um pouco mais o travesseiro entre as pernas. Queria um homem ali, no meio das pernas. Queria esquecer as velas acesas, perto de papéis, madeira nobre. Queria que as velas que fazem a trilha do banheiro ao quarto, trouxessem aquela chama que ela tanto necessita.

É verão naquela selva de pedra, naquela metrópole carregada de desejos,  ansiedades, ambições, todos os sete pecados capitais. Queria um apartamento em chamas, um homem entre as pernas e não um travesseiro. Um pouco de Amor…

Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.Albert Camus
Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.
Albert Camus

Tal como vinho italiano.

Descobri uma forma de desejo que escorre pela garganta. Não queridos leitores, não estou falando de sexo oral. Estou falando sobre o calor causado por goles de vinho italiano, especificamente Cavicchioli Lambrusco, safra de 1928. Vinho expande meus horizontes, faz-me sentir plena, com todas as emoções à flor da pele, é como se as cores e sabores ficassem mais nítidos, meu universo tão incompleto, é como se os vapores etílicos desta bebida me desse todas as coisas que eu sonho, seja de olhos abertos, ou fechados, nas minhas poucas horas de sono de todos os dias. Numa dessas sensações, a vontade louca de fazer amor impera como frames por segundo numa tela de cinema. Não importa a quantidade de álcool que escorre como um rio garganta dentro, basta o cheiro de vinho, vinho é extremamente sensual. Um dia, sonhei que tomamos uma garrafa de vinho e transamos escondidos embaixo da mesa. Quando eu era garotinha, às vezes pegava escondido um copo e tomava embaixo da mesa. Na época, me dava sono, então logo em seguida eu ia dormir. Minha mãe achava que simplesmente era uma soneca infantil. Creio que o meu sonho cruzou essa lembrança de minha infância e traçou um desejo de minha alma já adulta mas com traços de criança feliz. Ainda adoro algodão-doce, a ponto de lamber meus dedos como sorvo o vinho de teus lábios manchados, pecado rubro, pele manchada de desejo. Nós dois rolando ao chão como garrafas ao chão. Você me quebra, em pedaços de emoção, faz-me tua lembrança doce surgir em mesas solitárias de bar. Cada gole solitário dessa bebida enebriante é um pedaço de tua pele que me toca os lábios, cada cheiro emanado da taça que eu levo à boca, é um cheiro teu envolvendo-me, uma lembrança de teu pescoço nu, consigo sentir seus tendões e veias aparentes, teu sangue nobre, tal como o vinho.

Nas minhas memórias encharcadas de lençol de motel, só tem lugar para aquele ao qual eu imortalizo nessas linhas tão tortas, aquele que me levou ao sétimo céu, aquele que eu não tenho vergonha alguma de admitir que o quero entre as pernas. Sou uma mulher e não mais uma garotinha de 15 anos, cheia de incertezas. A vida é muito curta para nos privar de desejos. Queria agora, neste momento em que escrevo solitária numa mesa de bar, que ele estivesse ao meu lado agora, mas a falta de sorte anda me perseguindo com seus passos de glória descontente. Ando perdida em um oceano, esperando este homem de olhos incógnitos, olhos que eu daria minha emoção mais incontida numa bandeja servida com carne e molho pardo. Uma faca, um garfo, deguste-me sem moderação. Queria beijá-lo, seus lábios silenciosos, beijaria teus olhos azuis todos os dias, se eu pudesse, mas eu transformo esse desejo em metáfora, eu olho para o céu e vejo a imensidão infinita de teus olhos. Eu não consigo tocar e nem beijar o céu, mas apenas o fato de olhar para o alto e lembrar-me de ti, já me és suficiente para traçar uma lembrança saudosa de teus olhos que falam.

Queria deitar-me em seu peito, e escutar suas histórias, espalhar-me em sua cama, como uma garrafa de vinho, rolando no chão. Teu rosto, linhas de perfeição com todos os seus vincos e barba por fazer, um traço de sua pele branca me convidando a devorar-lhe como um fruto proibido, fruto doce, cheio de sumo, incontido em meus sonhos encharcados durante a madrugada, nas poucas horas que eu durmo. Venha e derrame toda a sua fúria, sabor, calor. Meu corpo é uma taça, e você é delicioso como um vinho italiano.

“O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso
Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinha
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo”

Dois filhos, um banheiro e abacate com especiarias.

Ela chegou na pressa do retorno à morada. Depois de um dia no trabalho, pegou os filhos no colégio. Ela queria descansar, mas as crianças gritavam no carro que queriam biscoitos. Talvez ela desencavasse alguma receita da sua avó, daqueles biscoitos amanteigados. Sua vida sem tempo não permitia ela, mãe solteira, ter a dignidade e o gosto de cozinhar todos os dias para os filhos. Ela era uma mulher moderna, independente, 33 anos e 2 filhos. Amou um homem em um flerte rápido. Ela se apaixonou, ele não, na verdade, ela não sabe, até hoje. O pai das crianças vêm pegá-las todo final de semana. Ela acredita no Amor dele pelos filhos. Pode não amá-la, apesar de todo o respeito e por nunca ter deixado ela na mão, mesmo ela recusando a pensão, ele fez questão de contribuir com os filhos, gerados num momento de descontrole. A vida, é feita de erros e acertos. Ela não acha que errou, ela amou aquele homem desde o primeiro instante que os olhos dela encontraram os dele. Quando soube que estava grávida, de gêmeos, bateu um desespero. Omitiu por três meses, mas chega um tempo que o corpo da mulher muda, e não há mais nada a esconder. Um dia o chamou, depois de várias tentativas fracassadas de dizer o quanto ela gostava dele, naquele momento da fatídica conversa via SMS “Precisamos conversar, sério…”, enviada depois de cerca de dezenas mensagens carinhosas sem resposta alguma, ela finalmente se tocou que era uma trouxa apaixonada. Tola, tola, tola…Pensava ela. Ela foi apenas um alarme de incêndio. Um homem tão bonito, poderia ter quantas mulheres quisesse, num estralar de dedos. Ela se lembra, o quanto as mulheres entortavam o pescoço quando ele passava, seu magnetismo era e ainda é, surreal. Dentro de uma farmácia, ele comprava colírio e era o colírio. As mulheres do balcão o devoravam com os olhos, e ela dava risada assistindo a cena de dentro do carro. Nunca contou isso a ele. Deixou que ele percebesse isso sozinho, ele era desligado, olhos perdidos e distantes em pensamentos que a tanto fascinavam. Ela achava que faria diferença, num mundo de mulheres com a cabeça alienada e afundada em sapatos, esmaltes, roupas, novelas e fofocas de salão, ela observava as coisas que ninguém reparava. Nunca foi uma mulher leviana, em sua vida, poucos homens se atreveram a entrar em seu mundinho, tão fechado, tão pra poucos. Um amigo de colegial, lhe disse uma vez, que ela pensava demais, e isso seria prejudicial pra ela. Às vezes, dizia esse amigo, nós temos que nos entregar falsamente para as convicções clichês desse mundo, pelo menos tentar não soar tão diferente. “Nos faz sofrer menos”, pensa ela. Muitas vezes ela pensa que deveria ser uma vadia, quantas vezes já ouviu que homem gosta mesmo daquelas que pisam em cima, cospem no prato que comem e dão pra meio mundo, sem valor algum. Tratar os homens como objetos, como bibelôs mal feitos de lojas de R$1,99. Usaria eles a seu bel prazer, e assim ouviria um ridículo “Eu te amo” ou outra coisa qualquer, ou um “bom dia vamos transar agora”, sem precisar ser quase misericordiosa. Pobre mulher tola, acredita sempre na boa índole dos homens, e que um dia, quem sabe, alguém a olhe com os olhos nus, e não como uma mulher que dá medo e uma certa ponta de fascínio medroso, cansou de ouvir frases de “se todas as mulheres do mundo fossem como você, teríamos um mundo melhor”, e depois de todo um envolvimento, ouvir que mulher inteligente dá trabalho, pois não é possível moldá-las, elas tem argumento pra tudo, são imbatíveis. Homens tolos, mal sabem eles que a mulher inteligente sabe se calar quando está errada, basta ter argumentos tão bons quanto o delas, o suficiente para os olhos brilharem e se calarem diante da convicção que está na frente de um Homem e não de um ser com um pênis, apenas um pênis. Ela sempre pensou que homens são como o abacate. Quando muito crus, são extremamente sem graça. Um amontoado de pelos, e uma coisa comprida que fica dura de repente no meio das pernas. Nada muito atraente. Mas quando misturado com bastante limão, açúcar, ou batido com leite, com outros ingredientes, se torna algo extraordinariamente divino. Abacates puros não fazem sentir tesão nenhum, apenas repulsa. Aqueles abacates que ficam se olhando no espelho enquanto levantam peso e não sabem pensar em outra coisa a não ser carro, futebol, peitudas anencéfalas siliconadas e o quanto seus tríceps e bíceps aumentaram. Aqueles abacates que nunca leram nada na vida, sem ser legendas de revista Penthouse. Aqueles que dizem que mulher inteligente dá trabalho. Os homens ao qual essa mulher amou, são seres divinos, com ingredientes que a fizeram salivar e desejar mais. Não eram um amontoado de pelos deslizando em cima de seu corpo, não era um objeto estranho invadindo seu ventre, era algo doce, único e que a fazia subir pelas paredes. Pena que a felicidade dura pouco, e homens abacate com especiarias sejam tão raros. No mundo de hoje, temos os abacates, mas falta em muito as especiarias.

Um dia, ela saiu de sua kitnet em bairro universitário, isso numa época antes de ter os dois filhos, uma menina e um menino. Deus não foi tão cruel com ela, deu-lhe ao menos um casal, gêmeos, mas ao qual poderia diferenciar. Ela saiu de sua casa decidida e se divertir e sair com o primeiro homem interessante aos olhos (apenas aos olhos) que a fizesse sorrir. “Vou ser vadia”, pensou ela. Dizem por aí, que a mulher que não é vadia por uma noite não é feliz, porque reza a lenda que toda mulher um dia vai comer na mão de um homem, assim como todo homem um dia se engana, comerá feito um cão nas mãos de uma mulher. Alguns inclusive, segundo histórias ao qual ela já ouviu, levam tapas no rosto da mão que comem feito cachorrinhos famintos de rua. Ela colocou uma roupa atraente, bonita, mas não vulgar. Queria ser uma vadia, mas uma vadia com classe. Transaria na primeira noite com aquele que lhe dissesse que ela é linda e que fosse atraente aos olhos dela. Apenas isso: SEXO, SEXO, SEXO, BELEZA, BELEZA, nada de papos intelectuais de livros e afins. Cansou de fazer as coisas por sentimento. “Gente boazinha e que dá valor ao sentimento alheio só se fode nessa vida”, pensava ela no entorno da primeira taça de vinho chileno que pediu no balcão. Naquela noite teria Pink Floyd cover, uma das suas bandas favoritas. Esperava encontrar alguém ali para transar ao som de “The great gig in the sky”, tocada em repeat contínuo, ou durante o álbum inteiro do “The Dark Side of the moon”. Talvez discutissem algo sobre a velha história de que o álbum é sincronizado com o filme “O Mágico de Oz”, e talvez surgisse uma desculpa esfarrapada de assistirem o filme, num apê bagunçado de cidade universitária. Ela tentaria ser igual ao homem de lata, sem coração, mas no fundo, o sonho dele era ter um coração batendo ali dentro. Ela queria ser uma mulher de lata…Sem coração. Coração só atrapalha, mesmo quando só se quer Sexo. Chegaram ali, naquela embriagada noite, vários homens, mas a bebida a fazia ficar mais sã. Não saiu, não “pegou” ninguém. Ficou lá até o fim do show, divagando sobre um milhão de pensamentos que a bombardeavam durante a flauta lírica em combinação com guitarras e sintetizadores psicodélicos. Voltou pra sua casa, semi-embriagada, sozinha, num táxi que pegou próximo ao Terminal. Chegou, atirou os sapatos para cada canto do quarto, deitou na cama. As hélices do ventilador giravam sem parar, ela estava com calor, o vinho lhe aquecia. Um calor entre as pernas, mas não teve nenhum homem que a satisfizesse. Para entrar em seu ventre, era necessário açúcar e bastante limão. Definitivamente, ser mulher lata não era pra ela. Sentiu nojo de ter tentado ser uma vadia. Na verdade ela não tentou, ela entrou naquele lugar, pediu uma garrafa de vinho, 3 cervejas Irish Red e ficou pensando na morte da bezerra, especificamente na vaca do “Atom Heart Mother”.

Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco "Atom Heart Mother"
Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco “Atom Heart Mother”

Ficou assim, pensando na sua tolice, e decidiu que nunca mais tentaria vestir a máscara da mulher “Like a Valeska Popozuda”. A vontade de dar seria controlada consigo mesma e num próximo homem que a fizesse sorrir por dentro e por fora. E que ela fosse, aquelas mulheres com uma casa e um cão, ela não tinha o dom de ser leviana. Ela poderia fazer sexo sem qualquer resposta de sentimento do outro lado, mas alguma forma de Amor ela têm de sentir por aquele que deita em seu peito e a devora. E foi assim com o pai de seus dois filhos. A reação dele ao “Estou grávida”, foi um misto de surpresa. Ela, 30 anos nas costas, sabia que ele não assumiria, se ele gostasse dela, teria dado algum sinal de vida. Conversaram, eles se vêem, trocam confidências, mas não por tempo suficiente para terem flertes. As crianças choravam e queriam o peito, ou queriam insistentemente subir em cima da mesa, ou brigarem pelo controle da casa. Ela recebia propostas, declarações, de tudo, sexo casual, amor eterno, mas o pai daquelas crianças enchia o mundo dela de cores. E cada vez que ela transava com um homem, era nele que ela pensava ao gozar. Hipocrisia, pensava ela, mas ela tinha que fazer o outro lado feliz, e ela se deixava enganar pela sensação induzida de prazer causada pela mente. HumildeMENTE, ela sentia orgasmos…

Num sábado ensolarado, seu Amor bateu à porta para buscar as crianças. Elas deram muito trabalho na noite de sexta, foram dormir tarde e incrivelmente estavam dormindo. Estavam dormindo todos em sua cama, e ela passou o dia insone, no sofá da sala lendo um livro. Adormeceu algumas horas com o livro no peito. Permitiu-se chorar com a estória ali, ela sempre chorava com Hemingway, pois foi ele que apresentou a metáfora da sorte lançada ao oceano, o céu de gaivotas, e a derrota em forma de tubarões. Naquele sofá, ela sonhou, como o velho Santiago em sua cama de jornais. Ela queria seu Manolim, ela cuidaria dele, e ele dela. Acordou num susto, seu celular tocava, seu velho Amor estava na porta, gritou “Já vou”, foi até o banheiro, escovou os dentes, deu uma ajeitada nos cabelos. Não podia fazer mais nada, pra ficar bonita demandaria um certo tempo e ele apenas buscaria as crianças. Ele não a amava mais, pode nunca ter amado, então, o que importava a Beleza?Abriu a porta, descalça, cabelo em desalinho, camisetão branco, calcinha de algodão por baixo, óculos de leitura, meio tortos na cara. Apenas um cheiro natural, sem perfume, mas o rosto todo iluminado, boca natural, sem traços escuros nos olhos, ela estava ali, de roupa, mas nua e crua. E lá estavam os velhos olhos azuis, e a saudade invasora. Deu-lhe um beijo no rosto, e disse que as crianças dormiam. Ele esperaria elas acordarem e foram pra cozinha, ela lhe fez uma xícara de café, fez a brincadeira de Dona Florinda e Professor Girafales, “Gostaria de entrar e tomar uma xícara de café?”, ele respondeu que não seria muito incomodo. Ela lhe ofereceria um copo de ovomaltine com leite bem gelado, mas as crianças tomavam aquilo como água. Puxaram tal qual o pai e a mãe, disse ela, e eles riram, baixinho na cozinha. Ela estendeu a xícara de café fumegante pra ele, e foram pra sala. Ele viu o livro “O velho e o Mar” num canto do sofá. Deu um sorriso de canto de boca, pegou o livro e viu onde estava o marcador de página, estava na parte sobre a sorte e a vontade do velho Santiago de querer poder comprá-la.

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.

Ele perguntou a ela se ela dormiu com o livro sobre o peito, enquanto ele esperava que ela respondesse o SMS que ele enviou sete e meia da manhã, ela disse que sim, e que já perdeu as contas de quantas vezes já leu aquele livro. Ele perguntou, quanto tempo ela estava jogada ao mar, sem pegar nenhum peixe. Ela disse: Três anos…três anos esperando a sorte, e essa era a única coisa que eu queria agora. Se pegaram, no sofá, as crianças poderiam acordar, ele queria deitar aquela mulher de cabelos bagunçados na cama do quarto, mas as crianças dormiam lá. Ela era uma mulher, com dois filhos e um banheiro…Transaram embaixo do chuveiro.

Instantes

No domingo choveu, eu fiquei embaixo da chuva ao caminhar de volta pra casa. Depois de um final de semana com olhos baixos e alma em silêncio, a chuva que caia lá fora limpava minha alma, e eu me senti plena, tal como uma flor após os tímidos raios de sol. Ali no meio da tempestade minh’alma gritava, num silêncio interrompido pelos barulhos dos trovões. E eu pensei no meu amanhã, como seria o trabalho, planos para o futuro, minha calma, minha alma, meu Amor. Pensei na Beleza e no poder do silêncio, e o quanto as almas silenciosas nos ensinam a sermos mais sensatos, o silêncio me cura, e me traz uma saudade galopante nos ponteiros de um relógio de um Tempo não tão distante, mas a ansiedade me torna humana, e eu por horas aflita me coloco a lutar contra minha pressa de encher minha instância metafórica com beijos e um abraço caloroso. E um milhão de violinos inquietos tocam uma canção bela, ensurdecedora, e nos meus instantes de silêncio, eu deito meus pensamentos numa maresia de sons. Eles cantam, e eu escrevo as notas musicais num pedaço de papel ou num editor de texto. E deixo o ardor e a fúria da madrugada tomar conta da minha intensidade ao qual não consigo represar em horas saudáveis de sono. Minha paz, minha calma, meu espírito…Só silencia quando uma ode de verbos conjugados e não conjugados ressoam pelas linhas perdidas de meu espaço onde minha alma grita, onde intensamente eu grito meu canto, minha razão de viver.

E nesta segunda-feira, choveu novamente. Eu me vi tarde da noite voltando do trabalho, e a chuva me pegou no meio do caminho. Os carros passavam, divinamente embaixo da passarela. As gotas de chuva transmutavam na beleza das luzes amarelas dos postes urbanos. E eu ali, encharcada de emoções, lembranças e sonhos. E eu pensei o quanto gostaria de ser beijada embaixo de uma chuva tórrida, o quanto queria que os trovões de minha eloquência perdessem toda a razão de assustar os incautos. Eu queria os instantes do meu amado silêncio, eu gostaria de ter minha metáfora de tons amarelos, aquela flor que estava em um bonito jardim. Hoje eu passo no jardim de minha metáfora e vejo que a flor não existe mais ali. Talvez, uma nova semente surgirá, depois do período de tempestade, a flor imponente aparecerá de novo, renovada depois dos tempos incólumes de fúria. Eu apenas escuto o silêncio em sua alma, e isso me basta. Sigo minha vida ouvindo os sons que me permeiam, as chamas que me queimam o peito. Na passarela de minha razão e intensidade, eu murmuro um soneto sem métrica, eu vou andando contra o vento, e talvez meu guarda-chuva se quebre ou minha alma teimosa sempre será tentada a sair na chuva sem proteção alguma e sofrer as mágoas e dores de um resfriado que somente o Tempo e sua consequente Razão são capazes de curar.

Eu posso estar caminhando para o cruel, insensato e inocente caminho daqueles que amam. Eu posso estar andando embaixo da neve, sem agasalho, mas a cada instante eu tento compreender as imperfeições dos flocos de neve, e mesmo assim, tais flocos que permeiam o chão e nos fazem escorregar, ou tremer de frio, nos fazem querer contemplar a chama de nossa lareira de emoções, por mais breve que as chamas durem. A memória do fogo marcou uma chaga, uma tatuagem colorida na pele, e por vezes eu sinto-me com o poder e beleza de uma criança com um sorriso no rosto.

Eu enfrento águas calmas, eu mergulho numa maré turbulenta, eu não carrego mais guarda-chuvas, antes eu andava com guarda-chuvas até embaixo de marquises. Hoje eu saio nas ruas e deixo-me levar pela fúria do Tempo, que não me permite mais viver sem correr riscos. Se eu dizer “Eu te amo”, qualquer dia desses, é porque já perdi todo o meu medo mesquinho de ser atingida pelo raio da negação e julgamentos alheios. Minha entrega é tão somente minha e da minha metáfora literária, e a Vida me dirá em qualquer tempo verbal, se minha eloquência foi correta ou não. Amar é um verbo, tão irregular  e sem conjugações tal qual a Beleza. Podemos ser traídos por nossas talvez falsas convicções, pela falta de juízo causada pelo desconforto e caos. Em questões de Amor, eu sou como Ícaro. Talvez eu seja sonhadora demais, e ao me aproximar do sol, queimarei minhas asas e cairei em direção ao mar, onde minhas pesadas asas não me deixaram voar mais, em busca de meu juízo e redoma de proteção que deixei na beira da praia, lá, onde as ondas quebram em silêncio e sem desconforto, mas, ali, naquele lugar, eu vivia como uma eremita com fobias e medo do desconhecido. Eu tinha medo de andar descalça sob as pedras, então colocava minhas sandálias de moralidade e bom senso pré-julgado, a síndrome de mocinha de contos de fada.

Sigo minha vida num barco, e talvez eu fique 84 dias sem sorte, perdida no mar, mas sem perder a minha Força. Talvez eu me enfraqueça, talvez eu deite em minha cama de jornais, e então sonharei, com aquilo que há de mais belo em meu nobre coração. Talvez eu seja agraciada pela coerência tão dolorosa de um erro, mas eu me erguerei, e jogarei meu barco ao mar novamente. Nunca é tarde para se pescar um Marlim  Ele aparece sem querer, tão fascinante, intenso e desconcertante, mas ele pode ser devorado por tubarões, mas eu tentei, embaixo de chuva ou sol escaldante, obter minha sorte, que trago aqui por meio de metáforas e permissões literárias e talvez a olhos de outros, uma imoralidade, em muitos, uma coragem que atordoa. E eu sigo com o Tempo me olhando nos olhos, me encarando com seus ponteiros, me trazendo a saudade que eu não consigo por horas deixar de me emocionar, uma saudade que seus olhos me trouxeram, uma saudade em forma de silêncio, uma beleza e inquietude que fala com os olhos, e cujas palavras apenas esperam o Tempo certo para serem ditas, e que talvez muitos anos se passem, e este homem que fala com olhos não consiga dizer tudo o que tem de ser dito, eis a beleza misteriosa de sua alma, a Graça faz-me calar, nas manhãs, nas madrugadas insones, silenciosamente eu lhe carrego em meus mais íntimos e belos instantes.

Com seus olhos pequenos e inquietos a Graça beijou meus ombros,
Deixou-me esperando debaixo de uma chuva gelada, com trovões cantando ao fundo
Mas o raio iluminou a noite e no clarão eu vi a Graça me observando nas sombras,
E quando eu fecho os olhos, nós comungamos o pecado como crianças na Eucaristia.