Durante a chuva

Existem pedaços minúsculos espalhando sonhos e possibilidades. Respiramos metade de nossas convicções, aquelas que achamos que podem vir a calhar. O resto jogamos fora, largado num pedaço não iluminado no porão de nossos possíveis e eventuais fracassos. E os homens e mulheres seguem suas vidas querendo tocar o céu de seus amores, tristezas e alegrias, mas este céu possui tantas cores, que não é possível unifica-lo numa cor só, e fazer um tecido, cobrir o corpo nas horas de frio, aquele frio que não passa. É uma metáfora maldita, ou talvez incompreensível, penso na capacidade de abstração das pessoas. São tão limitadas que a capacidade de abstrair acaba se tornando coisa de homens e mulheres loucos. Vou ignorar a abstração aqui, voltarei ao céu, aquele do entardecer, que ao meu ver é o mais bonito aos olhos. Agora neste momento começou a chover. Estava esperando um céu indeciso desde ontem, quando acordei depois de parcas horas de sono e vi o céu com nuvens cinzas de agonia. Recolhi-me ao meu canto, esperando a chuva cair e então me fechar em uma grande esfera impenetrável de pensamentos silenciosos, ora confusos, ora cheios de razão. Mas esse momento não veio, chegou agora, e então eu coloco “Rain Song” do Led Zeppelin para não fugir de meus dias clichês de chuva. E cada vez que olho lá fora e vejo as pequenas gotas de chuva escorrendo pelo vidro de minha janela, eu penso que cada gota daquele vai cair e lavar nossas almas. Robert Plant tinha razão, quando ele escreveu essa música, sobre chuva e estações. Falou sobre o Amor talvez na sua forma mais primitiva, em comunhão absoluta com as intempéries do tempo. E eu penso agora que daqui a pouco as pessoas passaram a reclamar da chuva, sendo que antes reclamavam da secura do ar que lhes entravam pelas narinas. O ser humano é tão ingrato…

Quando chegar a primavera, os toques que eu desejo tanto talvez sejam executados numa fração irrisória de milionésimos de segundo, naquele momento cheio de canções, de notas musicais breves, usadas em exaustidão. Um tom desafinado, petulante, beirando o silêncio que tanto me atordoa e ao mesmo tempo, tão necessário. Um dia José Saramago escreveu que o silêncio era o melhor aplauso. E então eu refleti, e cheguei a conclusão que o Silêncio é necessário, mas que as palavras devem ser usadas em seu momento certo. Silêncio por demais atordoa, nos leva à descrença e mágoa, uma vontade de não estar. Palavras são necessárias, mesmo que sejam apenas jogadas ao vento ou por puro sentimento de obrigação. Nos calamos perante a Beleza, nos permitimos apenas encará-la com os olhos, pois a Beleza que nos atordoa e nos faz por algum motivo perder a razão, é aquela tal como um verbo que não se conjuga. Quando nos calamos perante aquilo que nos perturba ou nos assusta, nos tornamos cínicos, mergulhados em pura ironia. Vamos olhar nossos demônios pessoais, encarando-os com os olhos, para que o Tempo passe devagar. Se a Beleza lhe és maldita, faça dela um poema com os olhos a sorrir. Escreva um poema em memória, mas não deixe de sorrir com os olhos. Seja por puro orgulho, ou na singela falta de não saber como lidar. Seria tão bom se todos soubessem usar as palavras, mas eu penso que ao mesmo tempo o Silêncio é um aplauso necessário. E então sigo minha vida perdida entre palavras jogadas ao vento, e elas navegam no oceano de minha reclusão. Passo meus dias como uma eremita sem cachimbo, perdida numa selva de pedra. Enquanto as pessoas amaldiçoam o mal tempo, eu penso nas intempéries dos “por quês” de tudo aquilo que me aflige ou me move.

 Agora já parou de chover. Foi apenas uma chuva rápida, talvez apenas para me dar um pouco da felicidade da espera terminada. Almejei a chuva desde ontem, e eu sei que as estrelas não aparecerão nesta noite de céu nublado. Talvez todas elas, escondidas atrás das nuvens, são apenas um brilho mórbido. E a Morte nunca me pareceu tão bonita aos olhos. As estrelas morrem ao perder combustível e ao olhar para este céu a enegrecer, eu ainda busco por quasares pulsantes, ao entardecer, na calada da noite, até o quase amanhecer, hora ao qual eu fecho meus olhos. E é neste momento, que minha alma tão inquieta, descansa, como um diamante bruto na natureza, nunca antes encontrado. Qual é o nosso preço? Dizem que somos poeira de estrelas, sendo assim, nós humanos malditos e inquietos, não temos preço para compra… Ao pó retornaremos. Sem mais, apenas as gotas de chuva a secar na janela.

Eppur Si Muove

Outrora, eu tinha voado. Não sei se foi em um sonho, provavelmente sim. Lembro-me que quando eu era criança, eu acreditava que se eu comesse asa de frango, eu poderia voar, e sim, eu era criança e não fui atenta ao fato de que frangos não voam, mas a risada dos adultos diante de meu sonho Ícaro, voavam até o vizinho mais distante. Hoje a única asa que eu me permito ter, são as asas da imaginação, e uma viagem frenética de deja-vu por hora.

Dias atrás fui caminhar. Caminhei durante duas horas, escutando música ou apenas um eco de meus pensamentos. Era necessário sair para espantar alguns fantasmas que andam me atordoando, e esquecer aquilo que me tirou do eixo. A racionalidade me pegou, assim de surpresa. Então coloquei os livros de um presente esquecido propositalmente de ser entregue na minha estante. Vejo lá o meu amigo Fernando Pessoa, com uma fita de cetim separando o poema eu marquei como o meu preferido. Foi a primeira vez e assim espero que seja a última, que eu nunca entreguei um presente ao qual gostaria de entregar. Porra, é tão chato isso! Eu poderia entregar-lhe em casa, mas nunca entreguei um presente à alguém sem olhar nos olhos. Na Europa, não sem brinda sem olhar nos olhos. Eu não entrego presentes sem olhar nos olhos. Eu não ligo pra teu desconforto, eu sou mais simples do que imagina. Se isso não é possível, engulo meu orgulho, certas coisas eu carrego junto ao meu egoísmo. E a leitura, ou releitura dos livros que eu não lhe dei, terá um gosto, assim, triste. Não gosto de guardar mágoas, mágoa tem gosto de fel. A mágoa é amarga, é dura de engolir, não tem tempero, sem nada. Mastiga, mastiga e mastiga. As mandíbulas doem, e você não quer engolir, mas seria horrível cuspir aquele pedaço de Amor intragável, não diluído tentamos em vão, talvez, aceitar nossa condição, nossos erros, nosso amor e desamor. Engolimos, em seco, ou com um pouco de água. A garganta dói, é nosso orgulho passando. Entra no estômago, dá uma indigestão, mas aceitamos. Simplesmente, aceitamos. A razão, quando chega, destruindo nossas emoções cheias de lembranças, embriaguez, flores, cidade distante no horizonte, sonhos de homens que atordoados, caem na cama ou sarjeta, esperando por dias melhores. A verdade dói, mentiras são muito mais confortáveis, e a verdade volta com a necessidade de esquecermos algo que em nossos sonhos de Dom Quixote achamos que eram recíprocos. Dom Quixote amava Dulcinéia, e achava que os moinhos de vento eram dragões. Minha consciência é o Sancho Pança. Ela sempre, como um fidalgo montado num burrico, tentou me avisar, mas eu era como (ou ainda sou?) como Dom Quixote. Ora Sancho como tu és besta! Assim como Dom Quixote, tenho o mal da fome em excesso, o Amor às causas perdidas, as dores do mundo não me bastam em meus ombros, sinto todo o Amor do mundo, e mesmo sendo besta e atordoada, me contento com a tua falta de atenção. Sim, um Amor besta às causas perdidas, ou talvez desconhecidas. Há um frio no estômago a quem me dirijo as palavras, e o frio emudece, como uma pradaria no inverno. Escuta-se apenas o eco do vento e o uivar dos lobos, mas só me sobra, ou nos sobra, um silêncio sepulcral, algumas palavras talvez por pura obrigação ou aquele medo de ser cruel sem querer.

Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga “eu não acredito no amor”, a vida sempre nos surpreende. (Dom Quixote)

Dom Quixote era um besta. Morreu louco. Ele nunca desistiu. O velho de Hemingway também nunca desistiu, foi inclusive dormir em sua velha cama forrada com jornais, e sonhou, com as praias de areia branca. Na minha praia não existem leões, nem pegadas. Estou sempre em alto mar, mas eu não espero nada. Nada mais. Minha garganta dói até agora. Tenho os marcadores de cetim dos livros sorrindo pra mim. Talvez apenas eu ache marcadores de cetim algo bonito. Talvez apenas eu ache que o poema do Girassol do Alberto Caeiro traduza a alma de alguém.

O meu olhar é nitido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando pra direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo… (Alberto Caeiro)

Eu fui uma trouxa ao reler “O retrato de Dorian Gray” enquanto esperava no aeroporto apenas para marcar teu trecho favorito e entregar-lhe. Sempre achei bonita a comodidade de abrir uma página marcada por fita de cetim e ver ali, um trecho que marcou-lhe a vida. Escutar teu trecho em um tablet é algo moderno, mas você consegue sentir a aspereza e a beleza da sabedoria impressa em palavras? Amo o toque. Gosto de passar os dedos numa folha de papel. Gosto de livros antigos, eles tinham a nobreza do cetim.O Amor possui a beleza sensual e suave do cetim, mas é ao mesmo tempo, áspero como as páginas de um livro velho. E um velho Amor áspero, fica guardado lá na estante. Ficamos olhando a capa já tão surrada, as páginas desejosas das traças. Se eu pegá-lo de volta uma rinite viciante recomeça. Tento curar minha indisposição com um xarope chamado Razão. Mas Amor é como uma droga. Basta sorrir, e o vício volta. Pego os teus livros não entregues, coloco-os numa caixa, e volto a forrá-la com papel de seda azul, prender o laço que eu comprei pronto, pois não sei fazer laços. Odeio amarrar sapatos, mas faço, por pura força da necessidade.  E eu fico, com minhas emoções desvairadas e simples aos olhos dos poucos que me compreendem. Fico aqui, em meu silêncio, uma pagã triste com flores no regaço. A velha garrafa com rosas ainda pousa na minha cabeceira, ao lado de Cervantes e Ernest Hemingway. Teus livros que eu não entreguei sorriam, e na metáfora eles olham pra mim com aquele olhar que você nunca teve, aquele que você nunca se esforçou ou por desacostume e desconforto, nunca ousou em mostrar. Minha rinite está atacada. Meu xarope de Razão acabou. Eppur Si Muove…

Memórias da madrugada: Xeque…

Mergulhada em pensamentos de trevas, perdida no meio de escuridão com os olhos vendados. Sentimento dúbio, no escuro sente os raios do sol queimarem os meus olhos, mas é uma luz que eu não encontro. Tateamos emoções em paredes de tijolos esfarelados, nossas mãos sujas de terra vermelha. Seu eu pudesse faria um desenho em teu rosto, ou rabiscaria um jogo da velha num chão de concreto ou na areia da praia. Deixaria você ganhar, eu era campeã de jogo da velha, e eu achava que sabia jogar xadrez. Quatro movimentos… Você olha e diz: Xeque! E então você me mata, e eu perdida em seus olhos de dilúvio fixos no tabuleiro e na tua malícia talvez sem querer. Sou uma garotinha, em jogadas desgovernadas, trêmulas e desajeitadas. Vejo meu rei aturdido… Já era! Meu reino foi teu em quatro movimentos. Na segunda partida, tento salvar minha rainha, e depois mato teu pastor safado com um pobre peão suicida, pois geralmente é o que me sobra… Peões suicidas. Jogada burra, péssima, eu diria. Mas o que eu posso fazer? Sem querer você me desfoca com seus olhos nas cores bicolores de luz e escuridão dos quadrados do tabuleiro. Chego ao meio do caminho com teus peões jogados na grama, rindo de minhas jogadas desajeitadas. Olho do teu lado e vejo minha cavalaria e alta sociedade agonizando pedindo para meu rei se entregar. Você sorri: Xeque-Mate!Eu me entrego… Meu reino é teu.

Bordeaux

Entre um gole e outro vou cavocando lembranças madrugada adentro. O barulho do ar-condicionado não me tira a concentração. Entre um gole e outro vou digerindo como um doce pecado as páginas de um livro. Encosto-me a parede de maneira não anatomicamente correta. Eu detesto coisas politicamente corretas. Eu gosto do caos. Aquele caos indecente dentro da minha organização. Daqui a pouco sei que vou dormir provavelmente com o livro em cima do peito, ou simplesmente vou beber o último gole que decanta indecentemente no final da garrafa. EU olho pela janela, vejo as casinhas de luzes amareladas no horizonte, e estou perto do mar, mas não escuto as marolas, escuto a molecada insone conversando na rua, e um calor que me aflige, de todas as formas. Pode ser o vinho, carregado de calor das emoções tingidas de lembranças. Ou seria o contrário?Estou tomando um vinho Bordeaux, se fosse um Merlot, já estaria em meu quarto, e não em um mesa de tampo de vidro. Entre um gole e outro, bebo minhas tórridas lembranças em goles de uma certa melancolia. Talvez seja o calor, aqui em Salvador é extremamente quente.

 

Hoje eu passei na beira da praia. Foi a primeira orla que eu vi em meus vinte e cinco anos que possuí cactos. Adoro cactos sabia? Mas não tanto quanto girassóis. Tive um momento de epifania, assim que encontramos o primeiro posto depois de uma viagem de avião Teco-Teco da Trip. Chegamos ao aeroporto e subimos no carro. Tínhamos pela frente cerca de duas horas e meia de viagem. Paramos em um posto de conveniência, era de madrugada, bateu uma fome. Logo na entrada da loja, tinha uma escadaria e um jardim de girassóis. Alguns estavam despedaçados, mas mesmo os girassóis incompletos me encantam de tal forma, que seria um poema de muitas estrofes se eu fosse escrever meu amor diante os girassóis. Quando eu era jovem, eu amava, aliás, eu ainda amo, aquela música do “Ira!”, “O Girassol”, mas não sou fã da música “Girassol” do Cidade Negra. Acho enjoativa e repetitiva.

 

“Um Girassol sem sol, um navio sem direção…” (algo assim. É tarde da noite e estou com doses de tanino na cabeça).

 

Mas a música mais linda que se aproxima da beleza de um Girassol, é “Sunshine”, do John Denver. Eu amo essa música, se eu soubesse cantar, eu cantaria essa música numa serenata, mas enfim, escrever é uma das certezas que eu tenho que de alguma forma eu sei fazer, mesmo que algumas vezes eu tropeço em pedras no meio do caminho. Como escritora insone, quando o dia ameaça amanhecer, fico cansada demais para revisões minuciosas. Este escrito aleatório, além de ser escrito madrugada adentro, tem o fato “Tanino” com notas de saudades, aroma de lembrança com poesia e um pouco de breguice incontida e imensurável. Às vezes a saudade é tanta, que eu poderia construir vários prédios azuis, com tijolos velhos, apenas para matar o tempo. Muitas vezes tenho vontade de cometer um crime contra o tempo. Poderia sacanear os ponteiros, convidá-los para dançar na beira de um abismo. Iria rodopiá-los, até os ponteiros ficarem tontos e se atirarem sem querer no abismo. Assim ficaria somente o agora. Não teríamos que ficar pensando nos dias de amanhã, remoendo a desconstrução os sonhos, embriagando-se na falta de perspectiva de tudo o que nos cerca, aquelas coisas aos quais deitamos a cabeça no travesseiro e perdemos noites de pesadelos cheios de medo do fracasso. Queremos algo como o poema “Lídia”… Seria bom se pudéssemos ficar na beira do rio, como pagãos tristes, com flores no colo, mas a vida seria monótoma… Ou não, posso estar delirando à toa. Gosto de fazer isso, divagar… Divagar, principalmente com taninos na cabeça…

Imagem
Girassóis baianos de uma escadaria de um posto de meia estrada… Epifania.

 

Garotinha.

Ninguém sente mais nada. Doses de morfina tomaram conta da madrugada. Ninguém sabe de mais nada, está tarde agora querido, gatos namoram nos muros, a coruja de mau agouro e olhos grandes amarelados pia lá fora e eu sou apenas uma mulherzinha, uma garotinha pintando aquarelas na madrugada. Não sinto sono, mas sinto fome, tenho preguiça de ligar no delivery. Mentira, na verdade não tenho crédito no celular. Ele está jogado no chão. Eu dormi e ele caiu no chão, abrindo e a bateria saiu fora. Não tenho ligações importantes pra fazer e nem receber. Detesto falar ao celular, prefiro pessoalmente. Perdemos todo o contato, queria me comunicar por sinais de fumaça, mas eu não ando com isqueiros, nem fósforo. Não sei cortar lenha, sou magrela, frágil… E levemente folgada. Prefiro sair por aí catando gravetos, do que cortar lenha. Sou meio confusa, complexa, mas sou apenas uma garotinha, em cima de um salto alto, camisa de mulher, meia calça fina, saia executiva. Apenas uma mulher, incendiária… Gosto de incendiar meu Amor, em fogueiras de fagulhas coloridas, só sei escrever sobre a vida, e tudo o que ela compreende, desde a decadência até breguices de amor. Sou brega, romântica incorrigível e muitas vezes, ogra… Nesse caso sou garotinha mal criada, escarrada. Levo o demônio montado em minhas costas. Mas quando eu vejo um anjo, entro no dilema de não ser tão ordinária. Palavras afáveis funcionam, mas não sempre. Sou uma chata, me cobro demais, mas muitas vezes deixo coisas para trás, sendo relaxada dentro de minha própria mania de perfeccionismo, que é tão imperfeito. Eu escrevo, sou um poço de linhas tortas e insones, verdades e falsas mentiras num balde de verbos… Passo lendo e relendo, mas sempre deixo escapar aforismos, pleonasmos, entre outras coisas. Meu caos não permite a perfeição e eu quero, sinceramente, fugir dela. Gosto de palavras lançadas, sem medo, sem preparo, apenas um fluxo sincero, sádico…

Nesta noite, eu gostaria que chovesse, eu queria ficar parada, no portão, vendo a enxurrada descer na ladeira de casa. É óbvio, se é ladeira, não poderia subir. Tu viste? Eu sou um fracasso! Queria rasgar roupas novas, fazer camas para cachorros de rua. Hoje eu vi um lindo tomba latas dormindo embaixo de um caminhão. Eu pensei se ele passava frio, quando eu era pequena, minha cadelinha morria de frio. Dei um cobertor pra ela. Queria colocar fitinhas na orelhinha dela, mas ela era uma cachorra idosa. Quando soube que iria morrer, saiu pra rua. Encontrei-a morta, na sarjeta, teve uma morte natural. Parecia que ela sabia que seu fim estava chegando, e que ficaríamos todos tristes. Foi meu segundo encontro com a morte, depois de ver um pássaro morto com os vermes a comer as entranhas. Achei que a pomba dormia… Mas não…

Eu tenho uma amiga, que toma anfetaminas. Ela diz que nunca seria abençoada, pois ela considera-se que é um grande pedaço de merda. Queria ser coberta de pérolas, ter flores nos cachos do cabelo, ela queria fugir, num vagão de trem, sem ninguém descobrir, viver a vida sem rumo, no anonimato. Ela amaldiçoa toda falta de sorte que carrega nos ombros. Enquanto isso, eu queria ficar parada, no meio de um temporal… Magoada… Pobre garotinha. Eu tenho fome. Já disse… Escrevo porque sinto saudades. Deixa pra lá…

Hurricane Drunk.

“Eu vou sair, Eu vou beber até a morte”

Acordou pela manhã fria e preguiçosa com a tal dor de cabeça dos infernos. Apesar do frio, raios tímidos de sol mostravam-se lá fora, mas o vento que entrou pela persiana da janela a dizia que era para se agasalhar. Foi como a voz da mãe, que na sua adolescência ficava gritando da sola da porta que se ela não levasse um agasalho, iria pegar friagem. Nunca escutava a mãe, odiava coisas que a apertavam, preferia passar um bocado de frio, do que sair toda coberta por aí. Inverno era seu terror, sentia-se numa pressão ao qual não escaparia. Roupas grossas de inverno cobrindo-lhe o corpo, não gostava daquilo, mas não tinha como fugir, na época de adolescente a desculpa de conhaque com limão e mel não funcionava, e quando funcionava a mãe a repreendia, discussões e mais discussões e a garrafa de conhaque da bolsa espatifada no chão da cozinha, sua mãe sempre fazia isso e a fazia limpar os cacos no chão da cozinha. O não conformismo da mãe a fez se rebelar mais, e ali, olhando para a janela do apartamento que era de sua mãe, antes dela morrer atropelada na avenida por um bêbado suicida na contramão. Denise tinha 35 anos, maços de cigarros vazios na beirada da cama e garrafas vazias pelo apartamento, dividindo espaço com o ateliê ao qual levava a vida.

Quando completou a maioridade, era responsável por si, sua mãe não poderia atirar as garrafas aonde bem ela queria. Ela trabalhava desde os 15 numa loja de discos, fumava e bebia o dia inteiro, mas levava o dinheiro pra casa. Tinha o sonho de entrar para a universidade, queria fazer artes visuais. Tinha um namorado, ele fazia tatuagens nela de graça, e foi internado três vezes para reabilitação. Entrou para o mundo do crack e matou a avó com cadeiradas porque a avó não quis lhe dar dinheiro. Ela ainda ficou com ele, visitando-o na prisão, até ele se enforcar na cela. Enterrado numa cova simples, apenas Denise e a Mãe foram ao enterro. Um dia, Denise chegou fumando charuto cubano de canto de boca e com os dois braços cobertos de tatuagens. Sua mãe apenas olhou, com um olhar de reprovação. Ela tinha completado 21 anos na noite anterior, não comemorou com a mãe. O silêncio da mãe, sepulcral. Denise estava na cozinha, cheirando a álcool, cigarros, charutos e suor, preparando café, para curar a ressaca. As únicas palavras de sua mãe foram “Tem comida na geladeira, precisa comer… Estás magra demais… Comprei bolo, estava esperando você chegar, para cortarmos, como nos velhos tempos. Seu presente está no quarto.” Tendo dito isso, foi para o quarto, com sua xícara de chá de erva cidreira. E a mãe de Denise passava os dias assim, com a aposentadoria do marido, fazendo artesanato, trancada no quarto, entupia-se de Rivotril, Fluoxetina. Tentou ensinar a filha a bordar, mas Denise carregava dentro dela uma rebeldia, e dizia que mulheres modernas não têm de saber disso e que a arte feminina deveria fugir de rótulos, mulher não sabe apenas bordar, ela, Denise não sabia bordar, mas pintava retratos eróticos, participava de orgias e as retratava com grafite e a ajuda de esfuminho e borracha macia. Denise chegou ao quarto e estava em cima de sua cama uma maleta cheia de pincéis e tintas. Havia um bloco de papéis e dez telas de pintura. Apoiado na parede estava um cavalete de pintura em madeira nobre. Sentiu que mesmo sua mãe indo contra a maré de ideologias que ela carregava, de alguma forma a mãe acreditava nela, mesmo nos momentos em que chegava bêbada e dormia até o dia seguinte. Não se esquece do dia que sua mãe a jogou debaixo do chuveiro e viu todas as tatuagens antes escondidas por camisetas escuras. Não falou nada, apenas balançou a cabeça, indignada. A fez tomar várias xícaras de chá, e dormiu ao lado dela a noite inteira. Sua mãe achava o tempo todo que ela estava doente, e a fazia comer, Denise obedecia, mas sumia durante semanas e até meses, mas sempre ligava para a mãe dizendo que estava tudo bem. E as duas conviviam assim, debaixo do teto do pequeno apartamento. A mãe, viciada em chás, tricô, novelas e antidepressivos… Denise em álcool, cigarros e arte. Ficavam em silêncio, era mais suportável. O Amor entre elas, alcoolizado e depressivo. Estava fria aquela manhã de lembranças, Denise precisava comprar cigarros e comida para o gato e a iguana que estavam em algum lugar do apartamento. Foi para a rua com o suéter de tricô feito pela mãe. Era sua forma de pensar e estar com ela.

Cores.

Todas as minhas cores
Transando em teu cheiro
Cantando tons de saudade
Inquebrantável…
Aquarela em teus beijos
Dê-me o frio de tuas cores
Tuas cores cinzentas
Em dias de chuva
Cabisbaixo silêncio
Cores monocromáticas
Úmidas pela chuva
Dê-me o calor de tuas cores
Quando o dia nascer duas vezes
Raios amarelos no céu, arquejo…
Cores dançantes ao entardecer
Lúdicas folhas de outono ao teu redor
Todas as minhas cores
Em uma caixa, singulares
Em teu abraço pretérito
Sorrindo em teu riso
Inquebrantável aos teus olhos
De dilúvio cor de céu
Olhos que falam, inquietos
Todas as suas cores,
Em sua caixa, trancada
Reclusa… Calada
Todas as suas cores
Um retrato na memória
Todas as suas cores
Um arco-íris em meu ventre
Borboletas inquietas
Ao cair da noite acalentada
Ao amanhecer estoico
Entardecer transigente
Minhas cores úmidas
Aquarelas em meus lençóis
Todas as minhas cores
Dentro de uma caixa
Vivendo o calor dos dias
Chuva tórrida de desejo
Cores de Arlequim
Amor de Colombina
Espetáculo da vida
E todas as minhas cores
Dentro de uma caixa…

Sunshine.

Na madrugada, deixo a poesia de John Denver. Sim, eu gosto de música de “véio”. Essa música me traz boas lembranças…Girassóis adoram o sol…Ficam cabisbaixos com a chuva, se encolhem, olhando tristes para chão, mas quando o sol aparece, o dia dele nasce duas vezes…

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Se eu tivesse um dia que pudesse dar a você
Eu lhe daria agora mesmo um dia igual hoje
Se eu tivesse uma canção que pudesse cantar pra você
Eu cantaria uma canção que ajude você seguir melhor seu caminho

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Luz do sol durante o tempo todo me deixa contente
Luz do sol, sempre…

Girassóis...
Girassóis…

Se e somente…SE.

*Nota mental escrita durante esta madrugada.

Subimos montanhas, nos prendendo nas pedras, ora olhando para baixo
Ao respirar o ar de todas as manhã, nos sentimos tão pequenos,
Ante o sorriso de uma criança alegre nos braços da mãe,
Não existem surpresas que nos amedrontem, nesse mundo,
É apenas nossas mãos dando bordoadas no escuro,
É apenas nossa dor tão mesquinha nos atormentando,
É apenas um Amor que nunca existiu indo embora.

Na dor nossa de cada dia, há um espetáculo fabuloso,
Milhares de borboletas rodopiando num campo de margaridas,
E aquela criança dentro de nós se liberta, e se põe a correr,
Distante dos problemas, vamos sorrir como crianças bonitas,
E talvez isso nós faça sentir pequenos demais, ante a beleza
De um milhão de cores explodindo no horizonte, brincando com nossos olhos.

E de repente ao olharmos para o céu, há uma ave de rapina
Rodopiando em círculos, calmamente pela manhã durante a semana
O frescor deixado pela orvalhada da madrugada, e os olhos azuis,
Da criança que parece um anjo de mãos dadas com o pai, de traços fortes
Então olhamos para nossas vidas, ela pode ser bela também?
E então, um dia me disseram que há muitas verdades e meias-verdades,
Nesse caminho cheio de pedras, nunca teremos certezas de nada,
Há apenas o nosso discernimento ante a razão do coração.

Se somente pudermos contemplar o horizonte sem compromisso,
Alguém nos diria que estamos apenas perdendo tempo,
O quão bonito é um homem perdido em pensamentos, em olhos calmos,
Se e somente se, nos apaixonássemos por nós mesmos,sem dor e mágoa
Talvez o mundo seria um pouco menos doloroso, mas a vida está aí,
Rodopiando em torno de nossos medos, ansiedades, lágrimas e felicidade,
E o Amor me faz sentir pequena, ante a escuridão e desejo que o permeia.

Temos um coração a se manter calmo, vamos sair de mãos dadas,
E eu lhe digo apenas que a vida é passageira demais para termos medo,
Lhe beijo os olhos grandes, porque alguém me disse um dia,
Que os olhos podem ser o espelho da alma, e teus olhos são bonitos
Se e somente se, nós déssemos as mãos, talvez poderei amar,
A vida seria mais passageira, como o sorriso de uma criança
Não importa, somos tão pequenos quando sozinhos?

Se e somente se…pudéssemos ser um pouco mais sensatos,
Um dia alguém me disse, que meu corpo dançaria conforme uma música,
Que Amor e Sexo podem caminhar em linhas diferentes, mas se dão as mãos,
De vez em quando nos quartos, na penumbra de um bairro do subúrbio,
E então um dia o Amor se acabou, alguém me disse que um dia isso acaba,
E eu com muita dor, aceitei e saí a caminhar por aí, com sentimentos vazios,
E foi então que meus olhos se abriram e nunca me surpreendi tanto,
Para as coisas que sempre estiveram ali, passando despercebidas,
E então eu me senti tão pequena…você me faz sentir tão pequena,
Diante deste coração tão surrado quanto o meu, vamos caminhar juntos,

E um dia me disseram, vamos dar as mãos e sair por aí,
Rompendo nossas barreiras tão mesquinhas que nos aprisiona,
E nada será dito, além de palavras sensatas e histórias a contar
Talvez seja mais engraçado e surpreendente do que imaginei,
Mas você segura minha mão como se me conhecesse há tempos,
E como um livro vira a página e me conta aquela história,
E então eu me sinto tão pequena, estive o tempo todo sem perceber,
Que meus olhos grandes estavam cegos por uma venda, então eu dei risada,
Porque um dia me disseram, que a vida é uma piada, contada por um comediante frustrado.

E um alívio, um grito de liberdade sã e consciente grita dentro deste coração,
E um dia alguém me disse, que quando abrimos os olhos depois de tempos cegos,
Nós nos sentimos tão pequenos…tão pequenos diante de nossa idiotice,
E um dia me disseram que há milhões e milhões de pessoas neste mundo,
E um deles estará a sorrir pra mim…um dia me disseram, em tom de sermão:
Se e somente se, a vida sorrir para nós, devemos então, sorrir pra ela também.

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Memórias de Café com livros: A mulher no balcão.

No meu dia nublado de abril, eu escritora insone não remunerada, analista de sistemas estressada, porém em férias, estava a escrever na mesa de uma cafeteria de livraria. Naquela mesa, com  papéis espalhados, canetas, água com gás e uma xícara de expresso duplo, pensando na minha meta literária do dia, pensamentos misturados em meio a sonhos e também em Amor, aquele Amor que chamamos de Amor Próprio, junto daquele que envenena os apaixonados. Não sou de ferro, queria ser um ser assexuado e desprovido de sentimentos, eu poderia tal como um ciborgue, emular sentimentos. Sentimento fingido as pessoas dão mais valor, aquele sem sinceridade, sem a típica bofetada, cheia de palavras afáveis a todo momento, o sapo que virou príncipe e outras mitificações. Diante de uma pessoa que vê a realidade das coisas, sem precisar ser moldada, o encanto cai, as coisas ficam difíceis, pois sabe-se, sempre queremos alguém a quem possamos moldar ao nosso jeito, é mais fácil de aceitar, engolir e menos perturbador. No meio de uma sociedade como a nossa, aquele que não questiona, concorda com tudo, vai na moda, é muito é mais fácil de se conviver, pois sendo assim, normal, os problemas ficam mais fáceis de serem contornados. Gostamos de coisas afáveis. Verdade dói, mentiras são mais confortáveis.

Comprei o volume um de contos do Hemingway, e um pocket do Charles Bukowski, “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. Apaixonei-me por estes dois escritores, intensos, nus, crus, estética brutal. Não gosto de escrita mimimi. Gosto da realidade, aprecio ler e sentir bofetadas no rosto e isso não é sadismo, é apreciar ler aqueles que não vivem em um mundo de fantasias.

Na minha frente, estava sentada uma mulher com uma camisa listrada branca e verde-água. Ela carregava duas bolsas grandes, uma preta e uma marrom. Mulher bonita, deveria ter uns trinta e poucos anos. Era loira, cabelo na altura do pescoço, olhos azuis. Pediu chocolate quente no balcão da cafeteria. Já tomei daquele chocolate quente, aliás, creio eu que já tenha tomado todos os drinks que eles servem lá. Como viciada na arte de elaboração de bebidas com cafeína, passar o dia regado a doses de cafés bem elaborados é um certo luxo ao qual me permito. Café, assim como o vinho, expande meus horizontes.

Foi neste mesmo lugar que eu tive meu primeiro contato com Hemingway, através do livro “O Velho e o Mar”. E desde então esse livro e muitos trechos dele moram em minha memória. Perdi as contas de quantas vezes eu já o li, dentro de uma tarde solitária, e em todas as vezes, eu acho mais formidável, impossível não se encantar cada vez vez mais, e ir colhendo, aqui e ali, impressões que nos deixou passar batido. Eu só tenho a agradecer a quem me apresentou tal obra de arte, tem de ter uma sensibilidade grande, para compreender a beleza do que está escrito aí, e isso não encontramos em qualquer um. Pessoas assim são raras, um diamante quase lapidado, digo quase pois não somos perfeitos, muito pelo contrário, muitas vezes temos mais defeitos do que qualidades propriamente ditas, mas nossas qualidades nos deixa ignorar os defeitos, ou simplesmente aceitá-los. Não sei lidar com o silêncio, já disse aqui, mas aos poucos, eu vou aprendendo. Preciso do silêncio para completar o pedaço que falta em mim. Sempre gostei das pessoas silenciosas, vejo um equilíbrio ao qual não tenho, essas pessoas falam com os olhos, precisam de poucas palavras para se expressarem. Muitas vezes eu não consigo fazer isso sem verbalizar no mínimo umas cem palavras. Saudades daqueles olhos silenciosos, mas tão expressivos, que fazem meus olhos, tão grandes, baixarem desajeitados, pois é, acreditem, eu sou tímida diante daquilo que me desconcerta. Em questões de Amor, eu muitas vezes me protejo por trás de meus muros do ego. É aquele medo de se machucar, mas eu sempre acabo pegando uma marreta, e mostrando o que há por trás do muro, mesmo que na sutileza, eu posso não ver mais aquele que me tirou da toca, eu posso fingir que não estou mais nem aí, mas isso é uma maldição aparente, eu me preocupo, não nego, mas tem horas que deixo meu amor próprio falar mais alto, mas aqui dentro, bate um coração já tão estilhaçado, mas que mantem a beleza e a sinceridade de um vitral.

Em tantos anos de leituras, noite a dentro, dia a fora, como que eu nunca li nada do Hemingway? Creio eu que tudo acontece na hora certa, talvez eu não tinha na época maturidade para entender o que estava escrito ali. Existem certos livros que aparecem nos momentos certos, não estou dizendo que Hemingway é leitura para a partir dos 25 anos, iguais aqueles cremes anti-rugas, mas certas leituras dependem de um nível de amadurecimento mental, de novas ideias, conceitos, perda de preconceitos. Talvez, se eu tivesse lido “O Velho e o Mar” com quinze anos, eu não teria a eloquência necessária para entender ao certo o que está escrito ali. Aliás, eu estou desviando o assunto dessa memória, vamos voltar ao tema, para a mulher no balcão.

Como eu havia escrito, linhas acima, ela estava tomando um chocolate quente, e se eu dizer que era uma mulher de olhos tristes? Uma mulher que em seus olhos carregava uma angústia que me sensibilizou a ponto de interromper meu texto sobre a fonte da juventude, e pegar um outro papel para escrever o que agora, vocês estão lendo. Comecei a escrever em uma folha sulfite cor de laranja. “Ana você é uma invasora”, não, eu não sou. Se me olhassem escrevendo, veriam uma mulher com olhos grandes e perdidos, mas que vê tudo ao redor, sem se deixar ser percebida, por isso não sou uma invasora, eu não encaro, eu apenas observo, na calma, na paz. O ato de encarar é chegar sem pedir permissão e criar uma zona de desconforto. Observar não, você vê, mas finge que não percebe, toma seu café, na boa, na paz, olha para outros lados, concentra-se, folheia, rabisca. É o simples ato de sentir-se vivo. Eu sou uma pessoa que desligada, viajo na maionese, penso na morte da bezerra quase que o tempo todo, mas isso não me impede de estar atenta ao meu redor. Nem sempre fui assim é uma questão de prática.  Comecei a escrever memórias há pouco tempo, e não fiz isso com mais frequência para não ser interpretada como um ser invasor e/ou imoral. Gosto de escrever sobre a vida, sobre momentos, assim, como estes, perdidos nas observações da vida transbordando incógnitas numa cafeteria, cuja mesa ocupada por uma mulher de tristes olhos azuis, que de repente tirou um bloco de anotações da bolsa, que mexia o chocolate quente com uma colher bonita, mas o olhar dela, distante, aflito. Posso enganar-me com as minhas observações, minhas convicções podem estar erradas, pois estamos fadados a ter ou sermos vítimas de falsos julgamentos, mas veja bem, eu não cheguei nela e perguntei por que ela tinha os olhos tão tristes, guardei minha opinião pra mim, e agora compartilho com vocês,  que apesar dos olhos tristes, a beleza daquela mulher ao tomar goles curtos daquela bebida quente, não poderia passar por despercebido. Eu não perco os instantes, e quando eu perco, eu jogo uma maldição em mim mesma.  Não perco a beleza de meus breves minutos, se a tristeza ou a beleza me atrai, eu me entrego a ela. A beleza dos olhos nus anda comigo, e por mais que essa minha característica possa jogar contra eu mesma, eu não sou uma pessoa imoral, pois meus instantes não são o meu eco, o tempo todo. Permito-me amar aquilo que me desconcerta, e escrever meus sentimentos perante a sinfonia de vida ao meu redor, se você fez ou faz parte da minha vida, e de alguma forma me encantou, serás imortalizado aqui, em linhas insones, e tais como os olhos azuis daquela mulher, em meio a goles de quem sabe um conforto, eu canto aqui minha composição perante o encanto que teus olhos me trouxeram, e eu sinto em meu peito a saudade me apertando. Escrevo porque sinto saudades…Saudades de teus olhos azuis, aqui, sentada neste mesmo local que eu roubei a bolacha que acompanhava teu café.

“três dias depois partimos, a menina má e eu, de trem, para a sua casinha nos arredores de sète, no alto de uma colina, de onde se via o formoso mar cantado por valery em “o cemitério marinho”. era uma casinha pequena, austera, bonita, bem-ajeitada, com um jardinzinho. durante duas semanas ela passou tão bem, parecia tão contente que, contrariando toda a lógica, pensei que podia se recuperar. uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.
– e por que pensou isso?
– porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. não foi, bom menino?”  Trecho de travessuras de uma menina má, de Vargas Llosa.
 
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