Um café para Irene

“Let me fly
Let me fly
Let me rise against that blood-red velvet sky” (“Undertow”, Pain of Salvation)

Irene… Ele chamou com a boca seca. Era cedo e os primeiros raios de sol já anunciavam a alegria trágica de mais um dia. Olhou para lado, os lençóis manchados, em desalinho, Irene não estava lá, nem sentada na poltrona velha com espuma saindo que fica no canto do quarto. Ele se lembra que ela costumava sentar-se lá após o banho, enrolada na toalha, e ficava horas lá lendo livros, e a toalha escorregava e ela ficava com os seios arrepiados a mostra e os cabelos molhados escondendo o pescoço. Irene… Chamou ele. A garganta doía. Ele pegou friagem durante a noite, enquanto fumava um maço de cigarros lá fora e tomava um velho Jack. Estava de ressaca e Irene estava novamente sentada na cadeira em volta da mesa jantar lá, com os olhos mirando o infinito, em seu mundinho particular, falando com os olhos. Desde que aquele acidente aconteceu, ela apenas fala com olhos. E ele sofre de refluxo estomacal cada vez que senta ao lado dela e tenta uma aproximação.

Eu não tenho culpa… Foi um acidente Irene! Você precisa entender isso. Murmurava ele enquanto a água fria escorria da torneira. Molhou as mãos, levou ao rosto, coçou a barba áspera perto das têmporas, a água fria paralisou a face e por instantes que olhou o espelho, mesmo ele não estando quebrado, ele enxergou vários eus, todos fragmentados. Uns tinham sorrisos sádicos, outros, davam risada e contavam piadas sujas de humor negro, como se fossem comediantes de stand-up. Mas era um riso forçado. Outro tinha ares cruéis, outro vomitava sangue, o outro simplesmente sorria e dizia: Um brinde!

Vestiu uma camisa, colocou os chinelos, abriu a persiana. Os urubus estavam nas cercas, nas árvores, alguns com as asas abertas, outros pulando de jeito engraçado pra um lado e para outro. O fedor do matadouro de porcos os atiçavam, o mau cheiro, de carne apodrecida, ele já se acostumou. Ele acreditava que Irene também se acostumou, pois ela não reclama mais. Desde o acidente, ela não reclama mais. Visitas não vão mais em casa. Irene se sente sozinha. Irene odeia aquele lugar.

Querido, temos que sair daqui… Deixe me ir? Deixe-me voar… Com os urubus lá fora. – dizia ela, com risos irônicos.

Ele engole em seco, descendo as escadas viu Irene, ela estava lá, sentada na mesa de jantar, indefectível, simples e humana. Tão humana…

Querida, eu parti suas asas, você não pode voar mais, nem correr… Você nunca esteve tão humana querida, quando eu olho pra você, eu vejo… O quão humanos nós podemos ser. Lembra querida? Das nossas conversas noite a dentro? Você sempre foi tão humana… Mas nunca como hoje. Nunca como nos últimos dias.

Em direção ao sol que ela tanto amava… Os olhos de Irene fitavam o sol que tentava entrar e iluminá-la. Mas se ele abrisse as cortinas, a paisagem horrenda dos urubus na cerca a assustaria. Irene odiava aquele lugar, aquele cheiro, as moscas… Moscas no vidro da janela, moscas em todo os lugares.

Querida, você está presa em um cadeira, deixe-me levá-la para ver o campo mais tarde. Você está pesada, mas eu vou te levar, eu vou te amar. Faz tempo querida, que nós não fazemos sexo. Porque? Eu lhe prendi tanto assim? Porque você caiu da escada, numa briga infantil e agora não fala comigo, não quer comer, não quer me amar…

As panquecas com carne e molho que ele fez pra ela no jantar da noite passada estavam lá. Ela nem mexeu nos talheres, não tinha a marca de seus lábios no vinho Carmem que ela tanto gostava. Ela não bebe, não come…

Ele acendeu um Luke Strike e colocou na boca dela que estava sempre com um sorriso sem graça.

Irene, vou preparar um café, e torradas com mel, que você tanto gosta. Aceita? , ajoelhou aos pés dela, afagando as pernas, roxas de hematomas. Beijou cada um deles. Vai sarar querida, eu prometo… Acariciou as coxas e meteu as mãos entre as pernas, mais ao fundo. Olhou para o rosto pálido, com sardas, com os olhos inchados, com olheiras. Irene sofre de insônia. O cigarro estava queimando, ela não se preocupava com as cinzas caindo no colo e nem com os dedos dele no meio de suas pernas.

E depois, vou lhe dar um banho, já que você se recusa. Você está parecendo uma porca imunda. E poderia ao menos simular uma cara de prazer ao invés de ser uma  imunda e frígida.

Tirou as mãos do interior dela. Lambeu os dedos. Ela nunca teve um gosto tão forte.

Você gostava quando eu fazia isso Irene, lembra? Você delirava, e agora nem se esforça mais… Nem para fingir.

Ele foi ao armário, pegou a cafeteira italiana, o café extra-forte. Matou a barata que passeou em volta dos seus pés. Outra subiu pelas pernas. Ele chacoalhou as pernas, como numa dança insana. A barata caiu e ele pisou em cima, veio outra, mesma coisa.

Lembra querida? Você gostava de dançar. Você me chamou pra dançar várias vezes, mas eu sempre recusava. E quando eu finalmente aceitei, você me pegou e conduziu. Hoje sou eu que cuido de você querida. Eu lhe conduzo, e faço isso porque eu te amo. Eu faço o seu café na sua cafeteira italiana e passo mel nas suas torradas. Faço o seu chá que tanto você adora e colho as flores que você plantou, mas você não enxerga isso. Você acha que eu não te amo mais, você acha que eu lhe quero morta pra sempre na sua vida.

O café começou a subir com a pressão dentro da cafeteira…

Querida, o café… Quer mais um cigarro? Prometa pra mim que vai comer. Se fizer isso, prometo vou levá-la para ver o pôr do sol, vou-lhe tirar deste inferno, eu não vou mais matar os porcos, vou abrir outro negócio, e os abutres vão embora da nossa cerca. E essas moscas? Eu vou proteger a casa inteira. Eu vou proteger você. Promete? Promete querida? Os olhos dela sempre concordavam com tudo, concordavam agora com as roupas jogadas no chão, ela perdendo sangue, ele lhe arrancou os pedaços, mas ela concordava e o grito interno que partia sem voz, era um pedido de liberdade.

Ele levou as torradas com mel. Ela não comeu as panquecas. Continuava com aquele olhar. O olhar de Irene, mas tinha algo ali, sem brilho, parecia que dentro daquele corpo, não existia mais Irene. Aquele vestido branco com manchas verdes e marrom, com desenhos de vermes, pareciam um quadro surrealista.

Está calor querida, deixe-me tirar suas roupas? Não… Não o faça. Eu quero fazer. Abriu os botões do vestido com os dentes.  Rasgou o tecido com uma força bruta de um homem sedento, beijou cada mamilo, as linhas do pescoço, beijou a boca, a boca inteira. A devorou como um garotinho afoito que não sabia beijar, e a pele dela grudava no corpo dele, o cheiro dela tempestuava os poros, foi um sexo sujo, sedento e selvagem. Quase um canibalismo. Ele transou como um animal, ela era sua presa, indefesa, tão paralisada, fria, cansada, se desmanchando, pouco a pouco, e sua alma se esvaindo, o corpo aos poucos caindo ao chão, e o que sobrasse dele, seria queimado e jogado aos ventos. Mas ele a amava… Ela o amava. Seu corpo se esvaiu, explodiu. E nele a sujeira rastejava, o desgosto pousava. Ele gania, como um animal, um lobo predador. Um animal fragmentado na própria dor e desespero. Irene caindo da escada, degrau a degrau… Ele se lembra disso enquanto transa com ela, e enquanto ele urra de prazer, lágrimas de tormenta escorrem… Ele está num rio, nadando contra a correnteza, navegando em águas sombrias e profundas.

Ele abotou o botão das calças. O barulho de vários carros era denunciado pelo cascalho da estrada. Os urubus crocitaram, pularam de um canto pro outro. As moscas que estavam no vidro continuaram lá, mas um som veio na porta. Ele espiou lá fora. Estava cercado…

Chegou a hora querida… Está na hora de você ficar livre. Mas eu quero partir com teu gosto nos lábios. Beijou-a, mordendo os lábios. Irene sorriu, depois de 7 dias sem ter expressão alguma no rosto. Os vermes se alimentavam dela e do jantar. E um deles saiu de sua boca e caiu dentro do café.

Adeus querida, disse ele. Eu sou tão patético que mordi meus próprios lábios para meu sangue se misturar com o teu. É poético isso não é querida? Fiz um pacto de amor eterno contigo…

Com sangue nos lábios, foi até a gaveta. Tinha apenas uma bala no revólver. Morrer… Um tiro dentro da boca. Caiu no chão, os vasos brancos de Irene tingidos de escarlate.

O seu último desejo, foi fazer um café na cafeteira italiana que ela tanto gostava. Um café, um bom, forte, quente e denso café… Um café para Irene. E ele morreu com um sorriso de ressaca nos lábios e o gosto de Irene misturado com café e e o próprio sangue.

“Let me out
Let me fade into that pitch-black velvet night” (“Undertow”, Pain of Salvation)
O gosto dela na boca, ela delirava quando ele fazia isso. Delirava.
A pintura chama-se “Doubt”, do artista Karien Deroo

Stains on the memory…

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, como um irresponsável. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado amigo, no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos teus pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos seus braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, o gerente que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Queria explodir todos os meus relatórios, toda aquela baboseira de índices de gestão. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei  queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir. As estrelas lá fora, como candelabros…

The Spell (broken) – Karien Deroo

29 cores, 29 milhas, 29 desejos.

Andei por aí sem olhar para atravessar a rua. Senti pressa ao atravessar fora da faixa. Onde os carros viravam eu não tinha visão nenhuma, mas eu tinha muita pressa para chegar ao outro lado, e eu sei que ninguém me daria a mão para atravessar a avenida. Não sou mais uma garotinha que dá as mãos para um adulto, mas sou uma criança que anda por aí chutando o que restou das folhas do outono passado. De vez em quando sinto medo do escuro, e se eu pudesse, como nos meus sonhos de criança, pegar um pincel e jogar 29 cores nessa minha escuridão, talvez eu veria o amanhecer com mais otimismo, pois na madrugada passada eu brinquei de pintar um quadro com as cores do meu medo. Peguei cada um deles e joguei numa vela tela em branco que encontrei no porão de minhas lembranças. Um rosto tão antigo, uma fisionomia de uma velha lembrança parecendo numa porta em meu momento de desassossego. Enquanto tomava meus goles de razão, a fisionomia de uma velha lembrança que deixei pra trás, com a convicção de ter superado, um velho amor do passado a entrar pela porta de meu mundinho até então quietinho nos meus dias sem graça tentando ser racional e não me entregar à tolices.

E eu tentei negar toda a mistura de minhas cores, jogando para o alto as milhas que eu caminhei todo esse tempo, procurando por cores desatentas ao meu olhar tão cansado, mas sempre por onde eu passei, eu pisei em tons escuros, onde as cores não se misturam. Eu me recordo das aulas de artes e a teoria da mistura das cores. E eu pintava quadros bonitos, eu desenhava bem, eu poderia desenhar todo o perfil do teu rosto imberbe, mas estavas tão bonito, mesmo assim, estava bonito, e eu lá, toda descolorida, tingida de uma timidez e uma vontade de sair correndo. A cada gole de vinho e tentava firmar minha felicidade repentina naquele misto de surpresa, diante de um dia tão incomum, diante de todas as surpresas que estão batendo na minha porta, me chamando para entrar, mas diante de um lapso de razão, estou sendo educada e apenas espreitando na soleira da porta. De vez em quando eu olho de canto de olhos, mas tento manter minha frieza, finjo não estar nem aí para o que aconteceu ou deixou de acontecer. Ando numa fase extremamente egoísta, evito toda e qualquer demonstração de amor, pulo a parte de cenas românticas de livros, partindo para livros de história, sociologia, filosofia. Sem as baboseiras de amor. Amor é para os fracos, e eu não quero viver de ilusões e de expectativas. A vida poderia ser um poesia, mas está mais para uma prosa sem pé nem cabeça. Eu queria, naquela fatídica quinta-feira não pensar em nenhuma espécie de poesia. Queria apenas sentar, encher a cara e ir pra casa dormir, semi-embriagada, pois afinal, naquele dia, eu teria de ir embora de ônibus, e estar sóbria o suficiente para saber onde era o ponto que eu tinha de descer. Não queria lembrança nenhuma, mas eu nunca esqueço uma fisionomia. Como eu poderia simplesmente ignorar, e ficar apenas observando, tal como um gato em cima do muro, poderia passar por despercebida, eu, minha taça de vinho e meu prato de frios, mas depois de tal surpresa, tal como uma imagem num telescópio em céu nublado, eu não pude conter meu misto de satisfação e surpresa. Talvez se eu tivesse ignorado, eu poderia ter tido sonhos mais leves. Se eu fosse uma pessoa religiosa, estaria me confessando ao padre por ter sonhos impúdicos.  Ainda se fosse somente sonhos impúdicos regados a 100% de agave (ahhh, a tequila…) e a maldita ressaca de sexta-feira, impermeada de uma noite mal dormida, eu ainda estaria bem, destinada a apenas alguns dias no inferno, tal como as pinturas de Gustave Doré para a “Divina Comédia”. Eu poderia estar bem até, acho as partes do paraíso um pé no saco. Talvez eu goste de fazer da minha própria vida um inferno/purgatório dantesco, e quando eu achei que encontrei minha paz, dentro do meu inferno pessoal, a Beleza chegou subitamente num dia de total despreparo, um dia enlouquecido, em que eu peguei a primeira roupa do armário, passei o primeiro perfume que vi pela frente, um dia sem pretensões, sem esperas, apenas mais um dia comum em que eu não estava nem aí pra merda alguma. Um dia em que eu me senti um retrato do diabo de feia, com minha estima lá embaixo, literalmente, me sentia um pobre diabo. Mas o pobre diabo foi embora pra casa com um sorriso no rosto,  e uma velha fisionomia na memória. Uma fisionomia incrivelmente mais bonita pessoalmente.  Imberbe, mas bonita.

Ao final da noite, o garçom que tinha pedido para entregar as duas doses de Tequila 1800 e o bilhete escrito com minha letra horrorosa e tremida veio conversar comigo.  Me disse:  “Eu achei que ele iria devolver as doses, mas poxa, “mó” bonita a atitude dele! Tirei meu chapéu”. Eu respondi dizendo que era algo que eu não esperava, e que me deixou feliz e quase embriagada, seja poeticamente e literalmente. A beleza me deixa embriagada, por isso fujo dela.  “Você gosta dele não é? Deu pra perceber enquanto conversava…”, disse o garçom enquanto tirava minha taça de água. Eu apenas dei uma risada, irônica, aquelas com o olhar pra baixo e um sorriso, e terminei de matar meu segundo café expresso para terminar a noite. Eu poderia ter entregue o bilhete, as doses, e simplesmente ter ido embora logo em seguida. Mas enfim, pedi uma terceira taça de vinho seco, peguei mais queijos e pensei em tolices, tolices fora do meu escopo de razão planejado para minha nova vida. Uma, duas, três, quatro taças. Para finalizar, a ultima taça foi de um vinho doce, tão doce e bem-vinda quanto aquela fisionomia que eu nunca esqueço. Fisionomia mais bonita pessoalmente, do que eu imaginava. Já não é mais aquele garotinho que eu me lembro aos treze anos…

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Eu poderia ter escrito sobre a minha surpresa dessa inesquecível quinta-feira, dia 29 de agosto na madrugada do dia 30, mas isso implicava em escrever com a mistura quase erótica de vinho e tequila. Sendo assim, à princípio, eu pensei, por motivos “éticos?”,”morais?” não iria escrever porra nenhuma sobre o que aconteceu, e fingiria que o tal encontro mais “Eu não acredito o que meus olhinhos de ressaca estão vendo entrar pela porra daquela porta!”(foi mais ou menos isso o que eu pensei, acrescentado de “Só podem estar zuando com a minha cara, era tudo o que eu precisava!”). Mas eu sou sim, um pobre diabo, e sendo pobre diabo, não perco minhas manias malditas. Mas enfim, escrevi isso sóbria, mas eu estou ocultando 60% das coisas que eu pensei. E não tocarei mais no assunto. Preciso de uns dias para digerir meus sentimentos e escondê-los novamente dentro da minha caixa de “Causas perdidas”. Preciso de mais uns seis meses para fingir novamente que eu não me importo mais.

Trilogia do Vento – Vaidade, Cólera e Desejo – Parte 2: Cólera

Homem livre, tu sempre amarás o mar!
O mar é teu espelho, contemplas tua alma,
no desenrolar infinito de suas ondas,
E teu espírito é um precipício menos amargo,
…Sois todos tenebrosos e discretos,
Homem, ninguém sonhou o fundo de seus abismos,
ó mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas,
De tal modo, cuidais de guardar vossos segredos.

Charles Baudelaire

Já estava no décimo cigarro. Dentro daquele apartamento, Clarissa escutava John Coltrane. Três dias sem tomar banho, vestindo uma camisa branca manchada e cheirando a conhaque, três vezes maior que seu corpo miúdo de um metro de sessenta e cinco. A camisa era de Raul, homem que conheceu em um pub decadente do outro lado da cidade. Ele gosta de blues, cigarros de canela, gin tônica e conhaque.

Clarissa conversou com Raul a noite inteira, foram embora bêbados, ou semi-embriagados, como ela sempre dizia. Os dois, perambulando pelas ruas mal iluminadas, dividindo uma garrafa de conhaque e um cigarro atrás do outro. Caminharam três quilômetros falando sobre coisas úteis e inúteis, algumas com nexo e outras sem sentido algum, totalmente desconexas, algo sobre a paixão de queijo gorgonzola batido com iogurte de morango.
“Isso é coisa típica de larica”, disse Clarissa, enquanto capengava de um lado para o outro, com seu sorriso de bêbada e com “Quero sexo” escrito na testa, de maneira que só ela sabia que estava escrito, desde que topou com aquele homem, já embriagada. Ela estava à procura de alguém para satisfazer suas necessidades de sexo casual.

Chegaram no prédio do apartamento dela, ela mal conseguia achar o buraco da porta. Raul a abraçou, segurou suas mãos trêmulas, arrancou as chaves da posse etílica dela. Abriu a porta, Clarissa chamou ele para entrar, ele hesitou, no começo, mas quando começou à pensar na merda que aquilo poderia gerar, Clarissa já havia voado em seu pescoço e estava a agarrá-lo pelos cabelos. No meio da sala, um tapete felpudo, e foi ali mesmo, um sexo selvagem, etílico e sem pudor algum.

No dia seguinte, ela acordou com aquela dor de cabeça desgraçada, e a vontade louca de botar pra fora todas as tripas que ela carregava dentro dela. Gosto de cigarro de canela e conhaque enjoativo, e a lembrança de fundo de dois ou mais copos de gin tônica. Olhou para o lado, e havia ali um homem nu, ao qual ela não lembrava-se de como ele foi parar ali. Ela também não sabia o que ela estava fazendo vestindo uma camisa que não era sua e nem era o seu número. Estava ali, ao lado dela, segundo suas conclusões esquizofrênicas, um homem deitado feito porco bêbado, apesar de nunca ter visto um porco bêbado, só morto, com purê de maçã e vinho branco, servido em noites de natal com a família. Cutucou ele com as pontas dos sapatos, não queria colocar as mãos nele. Ela era um puta fresca, uma vadia que acordou de ressaca e amnésia. Foi isso que ela pensou dois dias após estar curada da bebedeira. Vadia vadia vadia vadia, putinha fresca de não me rele, não me toques, mas quando bêbada libera até as portas dos fundos. Não duvidava que havia feito isso, afinal, ela não se lembrava de nada, e ela era como uma prostituta de metrô, aceitava até vale-refeição. Topava qualquer negócio, e se arrependia depois, quando lembrava de algo.

Sentou-se no sofá, abraçou as pernas, balançava de um lado para o outro, olhava aquele homem nu ali deitado, de boca aberta, babando em tapete felpudo comprado em bazar de asilos. Os velhos morrem e suas coisas são vendidas a preço de banana. A baba continuava escorrendo, e aquele homem peidava constantemente, mas que belo homem ele era, talvez tenha tido um pouco de sorte, mas a única coisa que ela sentia naquele momento, além de dores no corpo, era raiva, ódio, fagulhas de cólera.

“Filho da puta, filho puta, homem nojento!”, começou a gritar aos berros, chutando o homem que ali dormia. Raul acordou assustado, e chamou ela de vadia louca. Ela o empurrou contra o sofá, ele tentava se defender cobrindo o rosto, saiu correndo, vestiu as calças, esqueceu a cueca que ele mal sabia onde estava. Se vestia desviando de retratos, vasos, almofadas, livros. “Louca, essa mulher é louca!”… “Mas deliciosa”, pensou ele, ao ver a virilha dela quando ela levantou os braços para atirar flores fajutas compradas em lojas chinesas.

Percebeu que Clarissa estava vestindo sua camisa, e os bicos dos seios dela estavam duros e aparentes. “Deve estar excitada, o negócio dela é violência, são cenas ridículas e dignas de piedade.”, pensou ele ao vê-la parada com os olhos perdidos, encostada na parede, suada, descabelada e com maquiagem borrada. Ele lembrava do cheiro dela, de quão belo era seu sorriso, sua risada escancarada e gostosa, seu batom barato de gosto de frutas. Mas aquela mulher ali, não se lembrava dele. Raul foi embora, descamisado, sem seu conhaque e cigarros aromáticos. Talvez a camisa um dia a faça lembrar de como ele fez amor com ela, e não sexo. Estava embriagado, mas encantou por aquela insana criatura desde que a viu pedindo um terceiro copo de conhaque com mel e limão, e o cigarro que comprou solto, elegantemente aceso na mão esquerda. Adorou o jeito fino e elegante dela tragar a fumaça, e como ela mordiscava os lábios pensativa, olhando o horizonte.

Já na rua, olhou pra cima, ela estava na janela, vestindo sua camisa, fumando seus cigarros e bebendo o resto de conhaque que sobrou na garrafa. Os cabelos dela balançavam languidamente com o vento. Foi a última vez que ele a viu, mas nunca esqueceu-se da fúria e intensidade daquela mulher, fúria tragada e sorvida em copos de cólera.

Em quem mais eu poderia pensar numa personagem louca?Claro, Maria Elena!!
Em quem mais eu poderia pensar numa personagem louca?Claro, Maria Elena!!