Houses of the Holy

Abriu os olhos durante aquele instante em que os sonhos davam-lhe uma bofetada sonora no meio da madrugada. Foi tropeçando como uma bêbada até a geladeira. Buscou a garrafa de vidro com água bem gelada, e um pote de sorvete que mal sabia quanto tempo estava lá. Sentou-se ao pé da geladeira aberta, vestindo um camisetão do Led Zeppelin que era de seu irmão. Queria ser como as crianças da capa do  Houses of the Holy. Queria ficar pelada numa pedra, sem que ninguém se importasse. As pessoas se importam muito com as coisas, queria um dia sair descabelada e com a primeira roupa que suas mãos alcançassem no armário, mas sua “chefa” a olharia com reprovação, “imagem é tudo” – sempre dizia  isso em alguma conversa qualquer, num almoço executivo qualquer. Escutava essa pérola dos ditados populares todos os dias, e queria pegar um pedaço do pudim de chocolate intragável que tem nos almoços de negócios e brincar de tiro ao alvo. Queria sujar o blazer branco impecável de sua chefe vazia e cheia dos clichês que lia em seus livros de negócios, que ela dizia que não era auto-ajuda, mas sim, leituras de negócios. “Ohh desculpe, imagem é tudo não é?” – diria ela com um sorriso sarcástico no rosto como a cara de Jack Nicholson em “O Iluminado”. Queria ver como a “chefa” se sentiria desconstruída com a mancha no seu casaco, queria vê-la gritando no meio do restaurante enquanto ela era insolente. Queria ver aquela mulher perder a classe. Ela odeia gente que é perfeitinha o tempo todo. Sairia rindo, desempregada. Talvez pegasse mais um pouco de doce e comeria com requintes de crueldade. Mas ela tem contas pra pagar, e uma mãe doente que depende dela para comprar remédios para diminuir sua dor. Sente saudades da mãe, queria vê-la mais, conversar, mas na maioria das vezes ela está dopada demais para entender e compreender as dores da filha. Mas de alguma forma, sabe sua mãe que ela está ali, ao segurar sua mão e sentir o aperto quente. Quando ela vai embora, as mãos de sua mãe afagam o lençol. É uma maneira de dizer que vai ficar com saudades ou dizer adeus.

Havia uma bandeja de morangos frescos na geladeira, e eles combinariam com o sorvete. Precisavam ser lavados, mas eles talvez não sejam mais tóxicos que os dez cigarros de menta que ela fuma quando vai a shows de blues ou nos dias chuvosos. Adora fumar na janela, escutando “Rain Song” no último volume. Adora quando sua vizinha mal amada bate na sua porta dizendo que está tentando descansar e a música barulhenta não a deixa em paz. Maldita convicção dos dias de chuva. Eram dez horas da manhã de um sábado, Robert Plant cantava e sua vizinha coroca estava “enchendo o saco” dela. A vizinha na porta de sua casa, com um enorme guarda-chuva amarelo embaixo de uma chuva tranquila e fria de inverno. “Desliga isso, por favor!”, e ela soltava as baforadas mentoladas na cara daquela mulher que deve dormir cedo todos os dias e acordar religiosamente nos mesmos horários, comer o mesmo número de torradas e exatamente uma xícara pequena de café ou chá com exatas quatro gotas de adoçante. Ela deve ir à igreja toda quarta-feira e domingo, almoça sempre nos mesmos horários. Ficou olhando na cara daquela mulher que esbravejava na janela, cansou-se. Não gostava das pessoas mal amadas. Fechou a porta, aumentou o som e ignorou a mulher. Viu a infeliz gesticulando brava pela calçada. Ela por sua vez, continuou na janela, sentindo a frieza do seu próprio inverno. Acendeu outro cigarro e encheu a terceira xícara de café. Aquela mulher amarga nunca deve ter ido ao cinema, o jardim dela é tão artificial quanto o sorriso que ela distribui ao lado do padre na porta da igreja…

Let me take you to the movies

Can I take you to the show?

Let me be yours ever truly

Can I make your garden grow?

Os morangos sem lavar tinham um gosto triste. Sua mãe plantava morangos no quintal de casa. Ela costumava apanhar os morangos ao final da tarde, e fazer geleia para comer com torradas e chá. Seu pai nunca esteve presente. Ele era um fantasma desde que ela nasceu. Queria os morangos silvestres de sua mãe, e não aquela porra tóxica e sem gosto. Mas dava-lhe certo prazer ficar sentada na penumbra da cozinha, apenas parcamente iluminada com a luz da geladeira. E aquele frio nas costas e nas pernas, e a água gelada escorrendo da boca, molhando a camiseta. Queria ter um cão. Ele estaria olhando pra ela com cara de reprovação. Ela deveria estar na cama, aquecida pelos braços de um homem, mesmo que seja aquele que aparece de vez em quando e deixa no ar um misto de saudade. Um homem vazio, tão fácil de amar. Ela ama o vazio, nele há um silêncio sedutor que a atordoa. Viu isso em um livro de Rubem Alves. Devorou aquele livro numa tarde despretensiosa, embaixo de uma árvore. Gosta do bucolismo, sente-se bem em contato com a natureza e a calma e compreensão que ela oferece. A natureza vazia… Nunca o vazio foi uma coisa tão linda e necessária.

“A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdade e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas, quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade” (Rubem Alves, “Quando eu era menino”)

E ali, naquela madrugada fria, aos pés da geladeira, no silêncio quase sepulcral, se não fosse o primeiro ônibus das quatro e meia da manhã passar na rua, ela refletia sobre a sua vida simples, entre morangos, sorvete e água gelada. Tudo por causa de um sonho que lhe roubou o sono que tanto precisava. Precisava de um pouco de paz, mesmo que ela seja obtida do ato de comer compulsivamente, com Led Zeppelin tocando mentalmente. Poderia chover naquele momento, a chuva lhe traria algumas poucas horas. Gostava de ver o amanhecer em dias chuvosos, e sempre pensava na pouca atenção que as pessoas dão a ele. Existe a beleza em tons cinzentos, por mais triste que seja, a tristeza tem uma beleza sensível, mas as pessoas andam insensíveis, recolhidas dentro de um padrão ditado a quatro cantos. Odeia padrões, e tudo que é pré-determinado. Aquilo lhe traz uma vontade de não estar, um desconforto, uma fuga. Queria uma casinha no alto da montanha, sem pessoas, apenas uma geladeira e um cão. O cão cuidaria dela, sem exigir nada em troca. Não queria perder o sono, queria estar num templo, na frente do templo uma pedra enorme. Talvez ficasse pelada ali, esperando que a frieza do inverno lhe trouxesse uma razão, aquela que ela acha que está perdida nos confins de um tempo que não voltará mais. Já não é mais uma menininha. As gotas de chuva que molharam suas roupas no varal, as gotas de chuva que escorreram no rosto tem um gosto amargo. Talvez na primavera, o silêncio do inverno se dissipe, e quando chegar o verão, as tempestades de fim de tarde trarão aquele instinto de medo e delírio, e a vontade de sorrir mesmo quando não há motivo algum para tal. Talvez ela vá ao cinema, a um show de blues. Talvez as rosas de seu jardim floresçam novamente, talvez ela vá correr na chuva como uma tola, perdendo fôlego, talvez ela espere o seu Amor numa esquina errada. E ela é apenas uma garotinha inocente, nua e crua, como as crianças do Houses of The holy, nua e crua, correndo pela areia, vivendo o delírio e suspiro da inocência e saudade.

Lembra-se dos nossos sonhos de areia?
Brincávamos na praia construindo castelos
E vinham as ondas de convicções e destruíam tudo
E apenas olhávamos um ao outro, silenciosos
Sonhos de marolas ao entardecer, ventania
E nossos cabelos bagunçados sem querer
E eu beijava seus cílios, tirava grão de areia intruso
Mas você cresceu meu Amor, e a única coisa que me resta
É você vindo em sonhos de cardume, um reflexo metálico
Sua sombra de menino sem medo correndo na areia
E o barco de velhos pescadores no horizonte ao amanhecer
Saudade… Sonhos de sílica.

"Eu tive um sonho. Um sonho louco. Qualquer coisa que que eu quisesse saber..."
“Eu tive um sonho. Um sonho louco.
Qualquer coisa que que eu quisesse saber…”

Entrelinhas

Apenas escreva… Vi isso no canto do editor de texto no modo “escrita sem distrações”. Com todo o sol do entardecer que entra na minha humilde casa, fica um pouco difícil escrever sem me preocupar com as coisas alheias que o sol já tímido deste fim de tarde toca. Eu olhei pela fresta da porta e vi que a ventania que estava de manhã já está querendo silenciar. Quando eu acordei, já tarde, devido à madrugada naturalmente e intimamente sem sono, eu pude perceber o quanto eu gosto do barulho da persiana se mexendo com o vento que entra pela janela. É muito melhor que o barulho do meu ventilador de teto, e me traz coisas mais significantes do que um mero barulho motorizado pendurado no teto. E eu pensei na poeira que deve estar na parte de cima das hélices. Besteira… Deixei pra lá. Pensei em dezenas de coisas bonitas. Pensei em sair lá fora para caminhar, sem pensar que a ventania deixaria meus cabelos mais indefinidos que eles já o são. Pensei em pegar um livro e ler enquanto tomo meu café com leite de todos os dias. Lembrei então que eu tinha roupas no varal a serem recolhidas. Levantei da cama e tomei um banho rápido. Quando saí lá fora e me deparei com este inverno indefinido, eu pensei nos meus tempos de inverno rígido no sul do país. Foram lembranças do tempo em que andar empacotada com quilos de roupa era um mal necessário. Mas era bom acordar e ver as casinhas de madeira, e subir no ônibus amarelo que me levava até outro terminal onde eu subia em outro ônibus para finalmente chegar na empresa em que eu trabalhava.

Quando eu saí lá fora, deixei a água do meu café com leite esquentando no fogão. Fui para a lavanderia que fica na parte de trás da casa e comecei a recolher minhas roupas. E o cheiro das roupas lavadas é o mesmo das que minha mãe me entregava para guardar na gaveta, quando vivia com meus pais. Compro o mesmo amaciante que ela usa nos lençóis. Assim quando eu vou dormir de certa forma faz-me lembrar de quando eu não tinha de me preocupar se eu tinha roupa no varal. Traz-me a lembrança de casa, da cama que meu pai comprou quando eu cheguei e dos meus lençóis cheirosos e coloridos. Não tenho fronhas, pois não durmo com travesseiro. Meu travesseiro é um bicho estranho que ganhei de meu ex-namorado. Acostumei a dormir sem travesseiro, e um dia eu pensei que mulheres sozinhas abraçam o travesseiro na hora da saudade. Eu não tenho travesseiro, mas abraço minhas lembranças empoeiradas nos confins de minha memória. Existem noites que eu estou tão cansada que eu nem sei mais o que são as lembranças, e meu cansaço ignora tudo o que eu tenho guardado. Às vezes torço pelo meu cansaço vir a galope, e que minha mente hiperativa trabalhe apenas para me trazer escritas sem distrações, ou leituras que não me acarretem em nada, ou filmes que não me façam pensar. Mas o tédio me acomete. Tentei meditação a fim de acalmar a mente. Tive um dia a concepção de que meditar é não pensar em nada, e eu tentei em vão não pensar em absolutamente nada. Errei! Estou sempre caindo em erros, alguns deles repetidos, mas eu sempre penso que todo erro cometido por Amor é um erro aceitável. Paixão não é erro. Talvez o erro seja apenas uma mera consequência que a vida nos traz. Em meus tropeços eu me reergo em passos de Aquiles. Dizem que o ponto fraco dele é o calcanhar. O Amor de certa forma é uma pedrada em meus calcanhares. Então eu assumo a forma de Ícaro e tento alcançar o sol. Mas minhas asas são de cera, e quando eu me aproximo, eu caio no oceano.  Mas eu não sou salva, eu acordo inconsciente na beira da praia, caminho algumas horas sem destino e quando eu chego em meu aconchego, aquela paz que é me tão necessária me atinge a trancos e solavancos. Da praia cheia de areia branca e águas-vivas que me queimam a sola dos pés, devido minha caminhada às cegas, vou para uma montanha solitária e silenciosa. Há tempos sou uma eremita tragando meu cachimbo de razão. Há tempos faço de meu silêncio o meu melhor aplauso. Estou tentando levar a minha vida de maneira mais justa e racional, a questão é que eu amo meus vícios. Eles me tragam, cheiram, injetam. E eles ficam enebriados com minhas idas e vindas, os meus sonhos de ir e vir nas minhas concepções de um mundo que poderia ser mais justo e perfeito, nas minhas crenças de que o mundo pode sim ser perdoado, se houver amor. Vidas sem amor devem ser jogadas aos confins das chamas do inferno. Não sei se o inferno existe, mas se existir eu creio que é pra lá que caminham as almas sem amor… O que diria Dante Alighieri? Tentei ler o capítulo sobre o paraíso, mas a Divina Comédia reside no inferno e purgatório. Talvez eu seja sádica e goste de imagens traduzidas em sofrimento e tristeza. Já me disse alguém um dia, que a tristeza é um mal necessário. Dizem por aí que meus olhos são tristes. Já me disseram que eles são expressivos. Eu já não sei mais o que meu olhar representa, mas sei que os olhos são o espelho da alma, talvez a minha seja um misto de tristeza, expressão e ressaca.

Agora, neste parágrafo, o sol já foi embora, e agora o céu está dando lugar para nuvens cinzentas. Disseram-me ontem que neste final de semana a chuva será intensa. Costumo ler na Praça da Paz, um lugar lindo que fica numa universidade perto de casa. Às vezes me dá a loucura e vou pra lá caminhando, em passos lentos, escutando música. Quando chego lá tiro um descanso na grama. Fico pensando nas folhas que o outono deixou pra trás, e sempre vejo as formigas levando os pedaços delas para algum lugar. Existem muitos sabiás por lá. E eles ficam sempre por perto, voando de galho em galho embaixo da árvore que eu costumo ficar. E as pessoas passam correndo, para manter o corpo em forma, outras passeiam com seus cães. Alguns cães passam por perto fazendo graça e eu os chamo. Geralmente volto para casa com pelos de cães na roupa. Chego em minha casa, tomo um banho sento e escrevo. Gosto de colocar minhas reflexões nem que seja em apenas um pedaço de papel qualquer. Tenho reflexões nunca publicadas, notas mentais que eu esqueço-me e recordo-me duas semanas depois. Ontem fiz uma pequena faxina em casa, encontrei anotações tardias, e pensei em produzir algo. Elas me olham agora em cima da minha mesa. Mas eu finjo que elas não existem. São como retratos de pessoas que já se foram. Eles estão na sua frente, sabe você de alguma forma que estas pessoas não vão voltar, você olha, admira, mas no fim, ignora. Sei que essas anotações me olham diretamente nos olhos, mas ignoro a metáfora. O que é passado deve ficar no passado, existem anotações ali que não me fazem mais sentido algum. Existem pessoas que não me fazem mais sentido algum. É como ter vinil sem ter onde tocar, uma ressaca que lhe dá indigestão, mas queira ou não você gosta delas. Entende? Você gosta! Elas não fazem mais parte da sua existência atual, elas não lhe retornam mensagens e não perguntam se você está bem. Elas simplesmente existem, na concepção delas, no mundo delas, no exato instante que você olha para as estrelas elas também olham, mas não compartilham isso com você, ou pelo menos não aparenta compartilhar. Penso que compartilhar vidas seja tão imoral quanto ter inspiração. Eu já não sei dizer mais o que é inspiração. Agora escrevo independente dos dias, das estações, do meu humor, do meu estado de felicidade, se estou amando ou não. Parei de pensar nisso, cansei de ter musos de inspiradores. Eu não sou o eco de ninguém. O eco é tão traiçoeiro que acaba por lhe devolver aquilo que você não almeja. Eu poderia me inspirar em velhas fotografias, em um presente não entregue ou em entardeceres intransigentes. Poderia continuar a escrever sobre o amanhecer tão estoico, mas a saudade foi inteiramente corroída pela razão. Eu não sou mais a menininha amedrontada da bicicleta de rodinhas, velha, amarela e enferrujada. Um dia meu pai me pegou pelos braços e me disse que eu tinha muito de ver na vida. Eu tinha oito anos, nunca me esqueço. Eu brincava numa rua sem saída cheia de buracos… E eu já pensava desde tenra idade o que eu teria de ver tanto na vida. A vida pra mim era tão simples. Consistia em ir e vir de patins na calçada lisa e íngreme da vizinha fofoqueira do outro lado da rua. Era emocionante pegar velocidade e se arrebentar. Hoje não sei mais como fazer isso. Tenho um par de patins profissional com rodas 90 mm e morro de medo de pegar descidas. Eu ainda sou uma garotinha amedrontada escrevendo entrelinhas.

O vento na janela

Vede a criança, rodeada de porcos a grunhir,
Desarmada, encolhendo os dedos dos pés.
Chora, não sabe fazer mais nada senão chorar.
Será alguma vez capaz de ficar de pé e de caminhar?
Coragem! E depressa, penso eu,
Podereis ver a criança dançar;
Logo que conseguir manter-se de pé,
Haveis de a ver caminhar de cabeça para baixo.

Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”

Ela estava concentrada olhando a ventania lá fora sacudindo as árvores e também sua saudade, já tão abandonada às moscas que ansiosamente debatem no vidro da porta querendo entrar. A casa cheirava à peixe. Sua mãe fritou os peixes que seu pai havia trazido pela manhã, após uma semana lançado aos infortúnios e surpresas do alto mar. Já era uma mulher crescida, mas a brisa marítima que entrava na casa em frente à praia quase intocada daquela cidadezinha à beira mar, trazia a certeza dos seus dias de sol e a lembrança dos dias que corria descalça pela areia branca da praia enquanto chovia, e a voz de sua mãe, ainda nos tempos sem os cabelos brancos, “Volta pra casa menina, você vai tomar um raio!”. Os ecos da saudade do tempo de menina eram trazidos com o prenúncio dos ventos da tempestade.

Ficou preocupada, de noite anunciava tempestade e o seu pai estava no pesqueiro em alto mar. Lembrou do dia que o barco de seu velho naufragou e ele ficou à deriva por quatro dias. A família já velava a morte mesmo tendo nenhum cadáver anunciado devorado pelos peixes, mas já esperavam o pior. Encontraram-no quatro praias depois, cheio de queimaduras e desidratado. Ficou uma semana internado, e assim que saiu já queria ganhar o oceano novamente. Ela sempre viu o pai como uma fortaleza, e a primeira vez que o viu chorar foi quando ele voltou pra casa do hospital e vou suas redes e linhas de pesca. O que mais o deixou triste foi a possibilidade de não poder mais trazer o sustento da família, e de não vê-la crescer. Ela ensinou seu pai a ler e escrever, e um dia ele até arriscou um poema, escrito por linhas tortas, e entregue no dia do professor, escrito em um saco de pão:

Amanhece minha menininha
As redes de pesca bagunçadas
Seus cabelos também
Cheiro de café, cinco horas da manhã
Dorme minha doce e travessa menininha

O seu velho pai ainda a vê correndo pela areia e a sorte ou a falta dela o acompanha todos os dias em alto mar.

Durante a chuva

Existem pedaços minúsculos espalhando sonhos e possibilidades. Respiramos metade de nossas convicções, aquelas que achamos que podem vir a calhar. O resto jogamos fora, largado num pedaço não iluminado no porão de nossos possíveis e eventuais fracassos. E os homens e mulheres seguem suas vidas querendo tocar o céu de seus amores, tristezas e alegrias, mas este céu possui tantas cores, que não é possível unifica-lo numa cor só, e fazer um tecido, cobrir o corpo nas horas de frio, aquele frio que não passa. É uma metáfora maldita, ou talvez incompreensível, penso na capacidade de abstração das pessoas. São tão limitadas que a capacidade de abstrair acaba se tornando coisa de homens e mulheres loucos. Vou ignorar a abstração aqui, voltarei ao céu, aquele do entardecer, que ao meu ver é o mais bonito aos olhos. Agora neste momento começou a chover. Estava esperando um céu indeciso desde ontem, quando acordei depois de parcas horas de sono e vi o céu com nuvens cinzas de agonia. Recolhi-me ao meu canto, esperando a chuva cair e então me fechar em uma grande esfera impenetrável de pensamentos silenciosos, ora confusos, ora cheios de razão. Mas esse momento não veio, chegou agora, e então eu coloco “Rain Song” do Led Zeppelin para não fugir de meus dias clichês de chuva. E cada vez que olho lá fora e vejo as pequenas gotas de chuva escorrendo pelo vidro de minha janela, eu penso que cada gota daquele vai cair e lavar nossas almas. Robert Plant tinha razão, quando ele escreveu essa música, sobre chuva e estações. Falou sobre o Amor talvez na sua forma mais primitiva, em comunhão absoluta com as intempéries do tempo. E eu penso agora que daqui a pouco as pessoas passaram a reclamar da chuva, sendo que antes reclamavam da secura do ar que lhes entravam pelas narinas. O ser humano é tão ingrato…

Quando chegar a primavera, os toques que eu desejo tanto talvez sejam executados numa fração irrisória de milionésimos de segundo, naquele momento cheio de canções, de notas musicais breves, usadas em exaustidão. Um tom desafinado, petulante, beirando o silêncio que tanto me atordoa e ao mesmo tempo, tão necessário. Um dia José Saramago escreveu que o silêncio era o melhor aplauso. E então eu refleti, e cheguei a conclusão que o Silêncio é necessário, mas que as palavras devem ser usadas em seu momento certo. Silêncio por demais atordoa, nos leva à descrença e mágoa, uma vontade de não estar. Palavras são necessárias, mesmo que sejam apenas jogadas ao vento ou por puro sentimento de obrigação. Nos calamos perante a Beleza, nos permitimos apenas encará-la com os olhos, pois a Beleza que nos atordoa e nos faz por algum motivo perder a razão, é aquela tal como um verbo que não se conjuga. Quando nos calamos perante aquilo que nos perturba ou nos assusta, nos tornamos cínicos, mergulhados em pura ironia. Vamos olhar nossos demônios pessoais, encarando-os com os olhos, para que o Tempo passe devagar. Se a Beleza lhe és maldita, faça dela um poema com os olhos a sorrir. Escreva um poema em memória, mas não deixe de sorrir com os olhos. Seja por puro orgulho, ou na singela falta de não saber como lidar. Seria tão bom se todos soubessem usar as palavras, mas eu penso que ao mesmo tempo o Silêncio é um aplauso necessário. E então sigo minha vida perdida entre palavras jogadas ao vento, e elas navegam no oceano de minha reclusão. Passo meus dias como uma eremita sem cachimbo, perdida numa selva de pedra. Enquanto as pessoas amaldiçoam o mal tempo, eu penso nas intempéries dos “por quês” de tudo aquilo que me aflige ou me move.

 Agora já parou de chover. Foi apenas uma chuva rápida, talvez apenas para me dar um pouco da felicidade da espera terminada. Almejei a chuva desde ontem, e eu sei que as estrelas não aparecerão nesta noite de céu nublado. Talvez todas elas, escondidas atrás das nuvens, são apenas um brilho mórbido. E a Morte nunca me pareceu tão bonita aos olhos. As estrelas morrem ao perder combustível e ao olhar para este céu a enegrecer, eu ainda busco por quasares pulsantes, ao entardecer, na calada da noite, até o quase amanhecer, hora ao qual eu fecho meus olhos. E é neste momento, que minha alma tão inquieta, descansa, como um diamante bruto na natureza, nunca antes encontrado. Qual é o nosso preço? Dizem que somos poeira de estrelas, sendo assim, nós humanos malditos e inquietos, não temos preço para compra… Ao pó retornaremos. Sem mais, apenas as gotas de chuva a secar na janela.

Ansiedade e os moinhos de vento.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Fernando Pessoa)

Ser ansioso é ser idealista, é ter pressa, das coisas acontecerem, pressa da chuva passar rápido e colocar-se a correr nu pelas calçadas da cidade de pedra. Digo correr nu, porque pessoas ansiosas vivem constantemente nuas, são pessoas intensas, mesmo aquelas imersas na timidez, que não se permitem sair da toca, por medo de serem julgadas, mas que todas as noites, muitas vezes insones, coloca-se a pensar no tripé “E se”, “Será”, “Quando”. E então imaginamos um turbilhão de possibilidades para o nosso mundinho, um milhão de situações em que imaginamos nossos castelinhos de areia construídos de maneiras diferentes, e sempre nos cobrando por castelos perfeitos que nunca sejam destruídos quando a marola chegar. Às vezes é uma marola tão mansa, tão calma, que apenas molha nossos pés, mas nós a vemos como um maremoto prestes a engolir uma linda cidadezinha litorânea.Eu costumo citar o Dom Quixote, um fidalgo que confunde inofensivos moinhos de ventos com dragões enormes, e vale lembrar que hoje, as Dulcinéias é que matam seus próprios dragões, talvez pela pura ansiedade nossa, das mulheres, de tomarmos um passo à frente e ficar roendo as unhas ou comendo barras infinitas de chocolate Talento.

"Sonhar o sonho impossível, Sofrer a angústia implacável, Pisar onde os bravos não ousam, Reparar o mal irreparável, Amar um amor casto à distância, Enfrentar o inimigo invencível, Tentar quando as forças se esvaem, Alcançar a estrela inatingível: Essa é a minha busca." Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha
“Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.” Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha

E assim vamos levando nossos dias, nós pessoas ansiosas, que sempre queremos o aqui o agora, que nos aborrecemos com o fracasso, com conclusões precipitadas, queremos nossos ideais realizados da noite para o dia. Nós planejamos para ontem, e quando nosso escopo de vida se atrasa, nos martirizamos por não ter chegado e fincado nossas espadas de aço no coração de nossos dragões, que são nossos medos, angústias, sonhos, amores, e até a tão cruel e desnecessária vingança. Temos pressa e ouvir e ser ouvidos. Temos pressa de Amar e sermos correspondidos. Esperamos um telefonema que nunca chega, uma conversa que nunca nos chama, esperamos sempre por algo que nos faça sair da toca, algo para dividirmos nossa tão esfomeada ansiedade. Entramos embaixo do chuveiro cinco horas da amanhã, e já pensamos nas cinco horas da manhã do dia seguinte, olhamos nossa cara amassada no espelho e já imaginamos as olheiras do dia seguinte. Construímos nossas estruturas em cima de uma base, e estamos sempre torcendo para nossa base nunca desmoronar. E quando ela desmorona, no dia seguinte já queremos nossas estruturas abaladas novamente no lugar. Por quê?Pra que tanta pressa?Nós pessoas Ansiosas, estamos sempre correndo contra as areias do tempo, nossa calma esvazia-se em poucos segundos, mas muitas vezes escondemos nossa falta de calma em um rosto sereno e dissimulado, deixamos nossas emoções desafloradas dentro de um vaso guardado num armário à sete chaves, dentro de nossa bolha de proteção. É o medo de sermos julgados, de ver nossos anseios jogados no lixo, como uma estratégia mal feita em um jogo de xadrez. E talvez, esses nossos atos sejam apenas por Amor,por Amor às nossas causas que quase sempre as pessoas ao nosso redor acham que são perdidas. Jaz aqui, uma ansiosa forte e decidida, por Amor às minhas tão queridas causas…PERDIDAS?

Tudo bem… Até pode ser

Que os dragões sejam moinhos de vento

Muito prazer… Ao seu dispor

Se for por amor às causas perdidas

Por amor às causas perdidas

 

* Este texto foi escrito em pedido a uma amiga, publicado no Facebook via nota, e no site MLD Quadrinhos, ao qual também escrevo.

Memórias da madrugada: Essa porra de texto não tem título.

Estou andando pela cidade, procurando uma nova razão para estar nesse mundo, pensando nos meus últimos passos, o quanto fazer giro, nas aulas de flamenco é tão difícil, procurando emoções inexistentes, um grito aonde eu posso dizer que tudo o que eu sinto é verdadeiro. E não me perguntem o porquê disso. Quando se ama, não temos que procurar explicações, não tem que explicar aos outros porque nos sentimos dessa forma. E quando me perguntam o porquê eu amo, eu sempre digo para não tentar entender. Eu digo que mulher é uma espécie complicada. Nós somos complicados, homens e mulheres. E isso não é uma desculpa, porque se eu tivesse uma explicação, também teria um motivo para esquecer. Eu não tenho nenhum dos dois, então, eu não perco meu tempo criando desculpas, razões e o caramba a quatro. Quando resolvemos uma equação, ela tem seu resultado exato, a não ser que o lápis escorregue milagrosamente e trace um sinal negativo na frente ou transforme o número 1 em 7. Todo mundo me pergunta o que é necessário fazer para se esquecer de alguém. E então eu digo, “eu não sei”. E eu ainda digo que não quero esquecer, porque aquilo que nós perdermos pode não ter volta, e aquilo em que acreditamos, há sempre algo de belo. E então eu me pego pensando, se realmente vale a pena abrirmos mãos de nossas crenças e conceitos porque as pessoas disseram que aquilo não é real. Somente nossos sentimentos nos dizem o que é bom para nós. Se existe a tormenta no que sentimos, se existem lágrimas em nossos olhos, se quando nos vemos traçando rumo seguindo os pontilhados da incerteza, eu não costumo dizer… Eu não costumo pensar nisso. Minha mãe um dia me disse que temos várias pedras nas mãos. Nós atiramos aquelas que não nos interessam, ou que nunca nos fizeram nada de bom. Mas sempre há aquela que não sabemos ao certo porque a carregamos conosco. Ela é pesada, mas há algo ali que a torna irresistível. Eu gosto de pedras. Eu costumava colecioná-las. Quando eu era criança, passava horas procurando pedras com cores bonitas. E eu ficava em uma cachoeira, chafurdando o fundo, no meio das águas gélidas, procurando pedras. E quando eu encontrava a perfeição, eu guardava, e quando chegava a noite, eu deixava perto do peito, porque disseram que aquela pedra tão perfeita, foi retirada da natureza, ela era algo puro, estava energizada. E então eu deveria cuidar bem dela, por mais pesada que seja aquilo, era real. E eu amava… Eu amava aquela pedra.

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Instantes

No domingo choveu, eu fiquei embaixo da chuva ao caminhar de volta pra casa. Depois de um final de semana com olhos baixos e alma em silêncio, a chuva que caia lá fora limpava minha alma, e eu me senti plena, tal como uma flor após os tímidos raios de sol. Ali no meio da tempestade minh’alma gritava, num silêncio interrompido pelos barulhos dos trovões. E eu pensei no meu amanhã, como seria o trabalho, planos para o futuro, minha calma, minha alma, meu Amor. Pensei na Beleza e no poder do silêncio, e o quanto as almas silenciosas nos ensinam a sermos mais sensatos, o silêncio me cura, e me traz uma saudade galopante nos ponteiros de um relógio de um Tempo não tão distante, mas a ansiedade me torna humana, e eu por horas aflita me coloco a lutar contra minha pressa de encher minha instância metafórica com beijos e um abraço caloroso. E um milhão de violinos inquietos tocam uma canção bela, ensurdecedora, e nos meus instantes de silêncio, eu deito meus pensamentos numa maresia de sons. Eles cantam, e eu escrevo as notas musicais num pedaço de papel ou num editor de texto. E deixo o ardor e a fúria da madrugada tomar conta da minha intensidade ao qual não consigo represar em horas saudáveis de sono. Minha paz, minha calma, meu espírito…Só silencia quando uma ode de verbos conjugados e não conjugados ressoam pelas linhas perdidas de meu espaço onde minha alma grita, onde intensamente eu grito meu canto, minha razão de viver.

E nesta segunda-feira, choveu novamente. Eu me vi tarde da noite voltando do trabalho, e a chuva me pegou no meio do caminho. Os carros passavam, divinamente embaixo da passarela. As gotas de chuva transmutavam na beleza das luzes amarelas dos postes urbanos. E eu ali, encharcada de emoções, lembranças e sonhos. E eu pensei o quanto gostaria de ser beijada embaixo de uma chuva tórrida, o quanto queria que os trovões de minha eloquência perdessem toda a razão de assustar os incautos. Eu queria os instantes do meu amado silêncio, eu gostaria de ter minha metáfora de tons amarelos, aquela flor que estava em um bonito jardim. Hoje eu passo no jardim de minha metáfora e vejo que a flor não existe mais ali. Talvez, uma nova semente surgirá, depois do período de tempestade, a flor imponente aparecerá de novo, renovada depois dos tempos incólumes de fúria. Eu apenas escuto o silêncio em sua alma, e isso me basta. Sigo minha vida ouvindo os sons que me permeiam, as chamas que me queimam o peito. Na passarela de minha razão e intensidade, eu murmuro um soneto sem métrica, eu vou andando contra o vento, e talvez meu guarda-chuva se quebre ou minha alma teimosa sempre será tentada a sair na chuva sem proteção alguma e sofrer as mágoas e dores de um resfriado que somente o Tempo e sua consequente Razão são capazes de curar.

Eu posso estar caminhando para o cruel, insensato e inocente caminho daqueles que amam. Eu posso estar andando embaixo da neve, sem agasalho, mas a cada instante eu tento compreender as imperfeições dos flocos de neve, e mesmo assim, tais flocos que permeiam o chão e nos fazem escorregar, ou tremer de frio, nos fazem querer contemplar a chama de nossa lareira de emoções, por mais breve que as chamas durem. A memória do fogo marcou uma chaga, uma tatuagem colorida na pele, e por vezes eu sinto-me com o poder e beleza de uma criança com um sorriso no rosto.

Eu enfrento águas calmas, eu mergulho numa maré turbulenta, eu não carrego mais guarda-chuvas, antes eu andava com guarda-chuvas até embaixo de marquises. Hoje eu saio nas ruas e deixo-me levar pela fúria do Tempo, que não me permite mais viver sem correr riscos. Se eu dizer “Eu te amo”, qualquer dia desses, é porque já perdi todo o meu medo mesquinho de ser atingida pelo raio da negação e julgamentos alheios. Minha entrega é tão somente minha e da minha metáfora literária, e a Vida me dirá em qualquer tempo verbal, se minha eloquência foi correta ou não. Amar é um verbo, tão irregular  e sem conjugações tal qual a Beleza. Podemos ser traídos por nossas talvez falsas convicções, pela falta de juízo causada pelo desconforto e caos. Em questões de Amor, eu sou como Ícaro. Talvez eu seja sonhadora demais, e ao me aproximar do sol, queimarei minhas asas e cairei em direção ao mar, onde minhas pesadas asas não me deixaram voar mais, em busca de meu juízo e redoma de proteção que deixei na beira da praia, lá, onde as ondas quebram em silêncio e sem desconforto, mas, ali, naquele lugar, eu vivia como uma eremita com fobias e medo do desconhecido. Eu tinha medo de andar descalça sob as pedras, então colocava minhas sandálias de moralidade e bom senso pré-julgado, a síndrome de mocinha de contos de fada.

Sigo minha vida num barco, e talvez eu fique 84 dias sem sorte, perdida no mar, mas sem perder a minha Força. Talvez eu me enfraqueça, talvez eu deite em minha cama de jornais, e então sonharei, com aquilo que há de mais belo em meu nobre coração. Talvez eu seja agraciada pela coerência tão dolorosa de um erro, mas eu me erguerei, e jogarei meu barco ao mar novamente. Nunca é tarde para se pescar um Marlim  Ele aparece sem querer, tão fascinante, intenso e desconcertante, mas ele pode ser devorado por tubarões, mas eu tentei, embaixo de chuva ou sol escaldante, obter minha sorte, que trago aqui por meio de metáforas e permissões literárias e talvez a olhos de outros, uma imoralidade, em muitos, uma coragem que atordoa. E eu sigo com o Tempo me olhando nos olhos, me encarando com seus ponteiros, me trazendo a saudade que eu não consigo por horas deixar de me emocionar, uma saudade que seus olhos me trouxeram, uma saudade em forma de silêncio, uma beleza e inquietude que fala com os olhos, e cujas palavras apenas esperam o Tempo certo para serem ditas, e que talvez muitos anos se passem, e este homem que fala com olhos não consiga dizer tudo o que tem de ser dito, eis a beleza misteriosa de sua alma, a Graça faz-me calar, nas manhãs, nas madrugadas insones, silenciosamente eu lhe carrego em meus mais íntimos e belos instantes.

Com seus olhos pequenos e inquietos a Graça beijou meus ombros,
Deixou-me esperando debaixo de uma chuva gelada, com trovões cantando ao fundo
Mas o raio iluminou a noite e no clarão eu vi a Graça me observando nas sombras,
E quando eu fecho os olhos, nós comungamos o pecado como crianças na Eucaristia.

Cenas e pensamentos avulsos

1 – O mundo é um moinho?

Na madrugada a rolar pela cama. Entre uma coceira de ansiedade e outra, a cabeça martelando 1 milhão de pensamentos após uma sessão de terapia. Tentou ouvir uma música, para relaxar, acendeu seu incenso favorito, ficou deitada na cama olhando para o teto. Acendeu a luz, eis que então uma barata atrevida entrou quando abriu a porta pra tomar um ar. Matou a barata, com uma frieza atípica, ao invés de um escândalo típico de mulheres. Sentou-se na escadinha na porta de casa, a rua vazia, com suas teimosas luzes amarelas. O ventinho da madrugada chegou, como uma carícia no seu rosto, e então abraçou os joelhos e se colocou a chorar, um choro quieto, silencioso e isento de lágrimas, como um poço que secou, vazio mas com aquele cheiro úmido da umidade das paredes. Nenhuma viva alma nas ruas às quatro da manhã, contemplou mais um pouco o silêncio e beleza da madrugada solitária. Entrou pra dentro, tirou as roupas, ligou o chuveiro e tomou um longo banho. Ela gosta de água, ajuda a colocar as idéias no lugar, inclusive a pensar que se continuar com as crises de insônia misturadas à doença autoimune que atormenta sua noite. E então ela pensa no trabalho, será que conseguirá realizar todas as suas tarefas tendo virado a noite?Os minutos vão passando, como gotas de chuvas, minuto a minuto…E a manhã chega, ela toma mais um banho, umas gotas de perfume atrás da orelha, e sai de volta a vida. Há milhares de moinhos lá fora, e ela acredita que todos eles são dragões.

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

2- Madrugada

Mostrando sua face, pouco a pouco, o mundo girando atordoado. Ela largada em sua velha poltrona, com suas crenças, mágoas, amores e desamores. Na madrugada quente, silenciosa, sem brisa, apenas o pio da coruja contando o tempo, os minutos e segundos se passando, as lues apagadas no vizinho, e uma lua cheia e solitária lá fora. É tênue a linha do sofrimento, na pele, o desespero. Os pios da coruja continuam ecoando na madrugada, como os passos desesperados da consciência, sincronizados com as danças atordoadas de um mente perturbada. Daqui a pouco amanhece, o sol irá sair e o mundo estará lá fora, esperando mais uma sucessão de erros ou acertos.

3 – Apenas um copo de sakê

Chegou cansada do trabalho, jogou os sapatos para o canto, perto da cama, ligou o ventilador, pois sentia o corpo todo derretendo, como um sorvete. Estava feliz, apesar do calor quase que insuportável e a falta de dinheiro devido ao final de mês. Acessou a página de notícias e viu que este fatídico dia era o mais quente do ano, marcando trinta e sete graus nos termômetros e que um ciclone extratropical de nome enfadonho “Sandy”, estava causando problemas nos States.
Um banho gelado lhe cairia bem. Deixou as roupas caírem no meio do caminho, mudou a chave do chuveiro, colocou um Coltrane para relaxar, e começou a cantar, pois cantar lhe fazia bem, apesar de sua voz não ser tão agradável, mas pra ela, isto era apenas um detalhe do qual não havia o porquê se preocupar, pois dizem por aí que o importante é ser feliz, e ela é feliz assim, deste jeito, cantando desafinadamente enquanto as gotas calmas e geladas caem calmamente no corpo, enquanto fecha os olhos e pensa no passado, presente e futuro. O que será daqui pra frente, quais os planos, será que um dia irá casar, ter filhos, fazer um doutorado?Irá estar presente no fim do mundo?Com esses pensamentos martelando na cabeça, ao final ela apenas ri, pois ela vai apenas vivendo, dia após dia, com as tristezas e alegrias, uma nova estória a contar, um sorriso, uma fúria. Assim é a vida, pensa ela, passando como uma folha arrastada pelos ventos de inverno, ou apenas como um copo de sake, bebido lento e aquecendo-lhe a alma.

4 – Philander

And I’m always gonna love you
And I’m always gonna stay
Here with my Philander
Up here on this platter
And I’m laid out for Philander

Havia um casal em um restaurante. Não era um restaurante popular, era um desses requintados, bem arrumados, com bom gosto, mas não exorbitantemente caro. Era algo que era possível de ir mais que uma vez no mês. Havia uma moça, sentado no canto, estava bonita, com lábios pintados, olhos marcados e uma roupa sensual, não beirando a vulgaridade. Estava nervosa, contorcendo as mãos e olhando constantemente o relógio no celular. Ela havia pedido uma água, um copo com bastante gelo e 2 rodelas de limão. Quando entornava o copo para beber, era possível observar suas mãos tremularem, e o esmalte vermelho nas unhas. Ficou desta forma, transbordando sua ansiedade, as mãos tremulas, os pés batendo freneticamente no chão. E em um momento um sorriso abriu-lhe na face. Pela porta do restaurante entrou um rapaz, de altura mediana, não era belo, daquela beleza de se encher o olhos, mas era belo, uma beleza simples, comum, um homem com barba a fazer e bem vestido. Ela se levantou para cumprimentá-lo. Ele beijou a face segurando o rosto dela com uma das mãos, algo que aparentemente ela não esperava. Havia ali, naquela mesa, uma tensão, quase sexual, olhos nos olhos, os pés dele apontando pra ela, ambos com o corpo inclinado na direção um do outro. Ela sempre molhando os lábios, e ele sempre conversando tocando nela, de leve. E a cada toque dele parecia que ela iria morrer, de desejo, paixão, pois seu rosto incendiava com o rubor. Talvez ele soubesse disso, pois talvez ele tenha visto os pelinhos do braço dela arrepiar. Era o flerte…Philander…

Vou estrelar você no meu filme
Eu sou a criação agora
Então vamos lá, o ator que pouco
Não me decepcione, flerte

Fluxograma

E o tema de hoje será: Fluxograma…MEU FUTURO NÃO MUITO DISTANTE

E hoje não vou vou ficar somente nos meus poemas horríveis, dignos do meme Bocage dizendo “Esses poema ficaro uma bosta”. Vou voltar para a prosa durante um tempo, porque faz tempo que tenho algumas coisas a serem publicadas neste formato. Navegando a toa(como sempre) no Facebook, eu encontrei a historinha acima da Mafalda. Nem preciso dizer que eu achei genial, e quase bati palmas para toda a ironia contida na história, obviamente fui obrigada a compartilhar. E isso me fez pensar muito, sobre aquilo que pensamos para o nosso futuro. Fiquei pensando neste tema o dia inteiro, limpando minha humilde kitnet escutando as músicas super-otimistas e fofinhas do Pain of Salvation (sarcasm detected my dear?)… É engraçado como a maioria das coisas que nós planejamos saem completamente diferentes. Um exemplo, eu já quis ser médica e trabalhar em IML e investigações criminais…coisa puramente C.S.I. Claro, analisando a historinha da Mafalda, nos deparamos com aquelas coisinhas dignas de um conto de fada modificado (para bons entendedores, sabe-se que os contos de fada não são nada daquilo na real), e infelizmente(ou seria…felizmente?) ainda existem pessoas que acreditam que vão ser felizes e bonitas para sempre, ao lado do homem/mulher perfeita, com muito dinheiro e filhinhos lindos, asseados e que nunca pegarão resfriado, porque a mamãe perfeita não quer limpar nariz melequento de criança birrenta. No meu atual fluxograma a única coisa que eu quero mesmo é quando eu tiver uma casa que não seja uma kitnet minúscula, eu queria um atelier e uma biblioteca separada. A casa pode ter apenas um quarto, cozinha, banheiro, sala, mas terá que ter um espaço para as minhas tranqueiras e livros…muitos livros. E um cachorro, e um gato para que eu possa rir das desavenças entre eles e também pelo fato de eu amar animais, sempre gostei de bichos, e eu posso dizer que com certeza eles fazem parte do meu fluxograma. E para não falarem que eu sou um ser cruel e sem coração, um homem que me ature e me ame do jeito que eu sou, não precisa me dar jóias, não precisa ter carro, pode ser pobre igual eu, mas que me aceite do jeito que eu sou, com todos os meus defeitos e minha chatice, e que aceite meu Amor também, porque afinal eu quero Amar e não ter um gigolô ao meu lado para me dar doses de amor, carinho, sexo e compreensão, afinal, a idéia de homem-objeto só é legal quando o homem para chamar de seu diz: “Meu bem, hoje quem manda é você”, mas quando o assunto é gigolô por uma noite, não fica legal, porque afinal, para usar e abusar de um homem, você tem que conhecê-lo, enfim, é o que eu penso, na real, quem me conhece, sabe que eu não costumo me aventurar em sexo casual, e muito menos sexo pago, talvez algum dia eu mude de idéia…ahhahahahahahahaha. Bem, a situação nesse caso(relacionamento) é difícil, pois nesse mundinho mundano, é difícil encontrar alguém que não queira apenas te comer como um pedaço de picanha com gordurinha, e quando você encontra aquela pessoa que está configurada de acordo com todas as suas condições normais de temperatura e pressão, para gerar cálculos amorosos-sexuais-apaixonantes de extrema precisão, aquela que você acha que vale a pena, que tem um pouco de cérebro e que entende as coisas que você faz ou diz, a pessoa é mais complicada que cálculo diferencial com trigonometria ou métodos de cálculo para equações sem solução(meu pesadelo na faculdade), digamos que a pessoa é um número imaginário na sua vida, ela está lá, mas ao mesmo tempo não está, então você se conforma, chora as mágoas e torce para que o infeliz nunca seja feliz com alguém sem ser você (muahahhahahahahahaa!!!!VINGANÇAAAAA)…Bem não é assim, isso foi uma piada-pretexto para que eu possa usar a “onomatopeia da vingança”(muahhhaahahaha), mas eu acho engraçada e inútil essa coisa ridícula de vingar o Amor que não deu certo, essa coisa de por o nome do infeliz na boca do sapo porque você não teve feromônios suficientes para atraí-lo. Mas voltando, quando isso acontece, quando você gosta da desgraçada da pessoa complicada, e ela te ignora, se você for besta igual eu, pode até acreditar que um dia, talvez, quem sabe, num futuro não muito distante essa pessoa te enxergue, enquanto isso, toca a vida para frente, até trombar(eu não procuro, eu tropeço nesses tipos de pessoas) com uma pessoa igual ou mais complicada ainda ou um perfeito idiota porque você não espera mais nada dessa vida(eu ainda não cheguei neste ponto, espero nunca chegar nisso). Mas na verdade eu queria apenas pensar: FODA-SE ESSA MERDA…FODA-SE VOCÊ, mas não é bem assim que funciona, e como eu falei, eu sou um ser besta, então eu mereço isso mesmo. Nessas situações, apenas o Tempo pode curar, fazer o quê?Isso é parte do meu fluxograma-amoroso: gostar de pessoas complicadas, o que é bom, porque quando você tem tendência a gostar de pessoas complicadas, você aceita melhor os defeitos, até porque o fato da pessoa ser complicada é porque o gênio dela…digamos, não é dos mais fáceis de se lidar. Isso é explicado em psicologia. Mulheres buscam homens que se assemelhem a sua figura paterna, e homem, na figura materna. Meu pai é de gênio difícil…sendo assim, FREUD EXPLICA!!!Enquanto tem várias pessoas de fácil acesso a seu dispor, que você não precisa fazer esforço nenhum para tentar entender, eu sou uma pessoa que nem Freud explica, por isso eu quero quem não me quer. E quero aquele “boy magia”(adoro esse termo), leonino, genioso, adorável, inteligente, difícil, meu inferno astral(eu não acredito em horóscopo),complicado, aquele meus amigos mais próximos dizem que deve ser uma bichona, MF(SIGLA PARA “Morde Fronha”): “mas Ana, você é linda, inteligente, qualquer um já teria sucumbido, ele deve ser MF e está com medo de sair do armário”, e então todo mundo ri da minha cara e eu entro na brincadeira: “Ana, você ainda gosta daquele viado?”, “Sim, eu amo aquela bichona, uiiiiiiiiii”, “Ana, seu amor é platônico!”, “É, pois é…concordo contigo…mas foda-se essa merda, o Amor é meu, e eu curto Platão, ele era da hora!”. Essa é uma qualidade minha: tenho muito senso de humor, e aprecio Humor-Negro, sarcasmo, ironia…eu também não tenho um gênio muito fácil, mas fora isso sou uma mulher simples e afável na grande maioria das vezes.
Bom o fluxograma parte 1 é: uma casa com espaço para biblioteca particular e um cantinho para sujar de tinta e fazer coisas malucas. Esses dias, eu comentei que gostaria de viver de arte. Acho sensacional, de verdade, eu já fiz minhas coisinhas, sempre gostei de desenhar, me sujar de tinta, mesmo que eu não tenha lá tanto talento. Nessa semana, eu comprei papel especial e lápis para desenho artístico. Estou sem desenhar há 1 ano meio, desde que eu fiquei gorda e ferrada dos rins, com insuficiência renal(uma doencinha de nome muito bonito: Nefrite Intersticial Aguda), internada 2 semanas e meia no Hospital das Clínicas de Porto Alegre. Lá tinha um programa social que era uma sala para os pacientes terem momentos de lazer. Me lembro até hoje, eu cheia dos soros pendurados, gorda, desenhando, enquanto uns tricotavam, outro rapaz com uma bolsa de colostomia jogava videogame…Desenhar, não era uma coisa que eu fazia bem, mas digamos que dava para o gasto e as pessoas diziam que eu desenhava bem(porque elas não devem ter conhecido uma pessoa que de fato desenhava bem). Eu penso, algum dia, estudar Artes Visuais, mas é aquela coisa, que eu comentei, se eu tivesse escolhido Artes, ao invés de Análise de Sistemas, eu poderia estar passando fome. É uma situação tragicômica, mas eu escuto isso das pessoas que fazem cursos legais. Tenho um amigo que é filósofo, muito inteligente, mas ele diz que só não passa fome porque os pais ajudam ele. Definitivamente, cursos legais não dão dinheiro. Eu gosto de História, Filosofia, Letras, Artes…mas…é complicado né, e como fica o “leitinho das criança”? Sendo assim, outra parte do meu fluxograma, era fazer um curso legal, que eu realmente gostasse. Muitas vezes, quando eu vou numa livraria e fico namorando aqueles livros lindos, cheirosos e absurdamente caros de História da Arte, as pessoas me perguntam se eu estudo Arte. Então eu digo, “Eu sou Analista de Sistemas na verdade…”, então a pessoa faz cara de espanto e deduz que eu quero comprar algo pra dar de presente para alguém, elas não se convencem que aquilo é pra mim, porque afinal eu sou Analista de Sistemas e a coisa mais artística que eu deveria me aproximar, dado a estereótipos, seria a sessão de quadrinhos…
Outra coisa no meu fluxograma, são viagens. Eu ainda pretendo fazer minha viagem para Europa, mesmo que seja sozinha, afinal, estou me virando bem na solidão. As pessoas, cada vez mais eu vejo que elas não sabem lidar com a solidão. Todo mês eu vou dar uma voltinha sozinha. Ando fazendo muito disso ultimamente. Antigamente eu era uma pessoa que só saia para os lugares se alguém fosse junto, pois eu não queria que as pessoas achassem que eu era uma garota sozinha e triste. Sendo assim, este ano, depois da minha reviravolta, um dos motivos por ter escolhido morar sozinha, ao invés de dividir um espaço com alguém, foi a oportunidade de me conhecer. Existe aquela frase: “Conhece a Ti mesmo?”, e desde então eu descobri que boa parte dessa minha pessoinha era desconhecida e que muitas coisas eu deixava ocultas por vergonha, ou medo de que me interpretassem mal. Eu tenho agora aquele meu momento de paz, eu, meus livros, chá a todo momento, eu posso pendurar as coisas pela parede, posso andar pelada ou seminua, posso espalhar meus livros pela cama, posso cantar no chuveiro sem acharem que eu sou louca, posso escrever meus poemas e pendurá-los na parede para ficar lendo ao longo do dia e decidir se publico ou não(eu sempre publico, por mais péssimo que tenham ficado, afinal, FODA-SE ESSA MERDA), se eu quiser passar o dia na Lagoa do Taquaral, no gramado, observando o cotidiano das pessoas e fazendo anotações ridículas para um dia sair algum texto bom dessa merda toda, ou simplesmente ler um livro embaixo de uma árvore, enfim, eu peguei esses 6 meses de solidão para me conhecer e nunca me senti tão a flor da pele, sendo que foram 3 meses morando com meus pais e 3 meses na minha kitnet, onde estou agora, embaixo das cobertas tomando um chá de camomila. Até minha mãe disse que eu mudei, como pessoa, ela diz que eu fiquei mais sensata e madura. Considero que eu deixei aquela garotinha medrosa para trás, hoje sou mulher o suficiente para admitir meus erros, não negar mais sentimentos(mesmo que seja platônico), hoje eu posso pegar uma mochila e sair por aí sem rumo, com todo o meu “não senso” de direção, mas ainda vou bem em Geografia. E é aí que o Velho Continente entra. Qualquer dia farei um mochilão pela Europa, ver “O Jardim das Delícias” no museu do Prado, em Madri, conhecer Praga, Amsterdam, Berlim, Lisboa, Andorra, toda a região da Andaluzia, Paris, Londres, Dublin…lógico que acredito que não dê para fazer isso numa viagem só, mas é algo que tenho em mente. Claro que nas minha atuais condições financeiras, não vai ser algo a se fazer nas próximas férias(nas próximas férias, pretendo ir para o Chile e Argentina). Outra coisa que eu quero fazer é ir para algum retiro espiritual onde se pratique a arte do silêncio. Tem um em Nazaré Paulista. Nesses retiros, você não pode falar absolutamente nada, você conversa apenas com os olhos e gestos. Tendo em vista que eu sou mulher, e como mulher, eu falo mais que a média, tendo em vista que tenha hiperatividade, tomo essa viagem espiritual algo como incrivelmente desafiador. Essa viagem é algo que pretendo fazer até o final deste ano. E esta viagem vai ganhar um post todo especial.

Resumindo, se eu fizesse um fluxograma para minha vida, eu entendo isso como uma espécie de modelagem, um planejamento. Eu creio que o que eu quero não é nada demais, nada absurdo. Eu cansei de fazer grandes planos, na verdade, nunca tive grandes planos, que eu quisesse tanto levar pra frente. Na maioria das vezes, eu desistia alguns dias ou meses depois. Mas hoje, com uma mente mais sensata, eu consigo planejar um fluxograma possível, que vou jogar dentro de um poema que provavelmente vai ficar uma bosta, mas como eu sempre digo: “FODA-SE ESSA MERDA”

Eu gostaria de ter uma casa, uma casa simples,
Não necessariamente num lugar bucólico, surreal,
Pode ser no caos de uma metrópole, eu não me importo,
Quero um canto só meu, para minha paz de espírito,
E nas tardes chuvosas eu posso me sentar num velho sofá,
Depois de puxar um livro velho e cheiroso da estante,
Eu posso viajar longe em páginas e páginas de emoções.
Eu olho o cachorro a dormir e os olhos brilhantes do gato,
A brincar com um velho papel de um rabisco em giz carvão.

E parado na janela eu lhe vejo observar a chuva lá fora,
Eu poderia lhe perguntar o que você pensa, mas eu apenas te observo,
E então eu poderia me lembrar o quanto eu amo e odeio seu silêncio,
Mas um dia eu fiz uma viagem, num lugar no alto da serra,
Enquanto eu esperava entender as minhas dores e meu amor não correspondido,
Foi neste lugar que eu aprendi a conversar com os olhos,
Então você olha pra mim, e me dá um sorriso, como se quisesse me dizer,
“Desculpe eu sou um chato”, e eu dou risada como se eu nunca soubesse disso,
E então eu te olho de novo, e verás que meus olhos lhe dirão: “Seu Tolo”

E eu lhe perguntarei, se eu já lhe contei alguma vez,
Que eu estava a andar de bicicleta nas ruas de Amsterdam,
Minha bicicleta tinha uma cestinha de tulipas que eu comprei de mercador de flores,
E então eu me empolguei e quis conhecer ruas e mais ruas, e me perdi em Amsterdam,
Então eu fiquei com medo, pois estava escurecendo e eu não sabia onde estava,
E então você me dirá: “Eu te disse para tomar cuidado, mas você é teimosa”,
E então vamos rir, como duas crianças e nos amar como adultos,
Uma vida simples, num lugar simples…um amor simples.

Ficou uma bosta, mas foda-se essa merda!!hahahahahahahahahaha