“I shall be released” …

 

Perto de mim nesta solitária multidão
Está um homem que jura que não é ele a se culpar
O dia todo eu o ouço gritar tão alto
Clamando que não é ele a se culpar
Eu vejo minha luz vir brilhando
Do oeste até o leste
Mais dia, menos dia
Eu serei libertada

 

Eu vi o amanhecer de raios tímidos, banhei num sorriso desconcertante, padeci de amor nas caminhadas noturnas. Quando eu via o clarão de luzes amarelas, tinha toda uma epifania talvez sem sentido algum. Ando respirando quem sabe um ar que não me pertence, posso ter chegado sem permissão, mas na minha queda eu me levanto e danço passos de bailarina de sarjeta. Cultivo o caos na tranquilidade de minhas entranhas expostas. Tomo goles de vinho enquanto leio um livro, eu ando por aí mentalizando crônicas, poemas e sonhos. Penso em ter uma casa, no alto da serra, com vista para coníferas, alguns manacás da serra imponentes e meus cães correndo pelo quintal. Também gosto de ipês, mas enfim, seria mais fácil dizer que amo flores, desde aquelas que padecem secas nas minhas garrafas de vinho vazias na estante, até o vaso de flores imaginário que eu nunca ganhei. Contemplo os vasos de minha mãe, e aqueles que tem no quintal da pequena casinha que eu alugo. Amo os cães que eu vejo pela rua. Sempre tem um que me lambe as mãos, me faz festa, me olha nos olhos e chora quando eu vou embora. Tem aqueles que sabem quando estou triste…

Vivo minha vida de forma simples, sem muitos luxos. Os únicos luxos que eu carrego são o ato de pagar caro em vinhos e gastar muito em livrarias. Fora isso, vivo sem amarras, gosto de ser livre, se pudesse, eu pegaria um avião qualquer e fugiria temporariamente para outro país. Sou apaixonada, eternamente apaixonada, pela vida, e tudo que eu carrego nela. Eu amo um homem que eu não sei se me ama, e eu acredito que nunca saberei, mas eu não desisto, sigo minha vida, vivendo de Amor, e não me importo que seja mais um daqueles mal sucedidos. A vida é muito curta, eu sei, mas sou uma eterna errante, teimosa. Podem me chamar de trouxa, do caralho a quatro, eu não ligo, posso ficar 365 dias ou mais, perdida em alto mar. Volto para minha cama, deito em meu travesseiro em forma de bicho e tenho meus sonhos de esperança. Acordo, e lá estou eu, no meio do oceano novamente, enfrentando tempestades, conversando com as gaivotas e dormindo ao relento.

Por vezes, eu acordo no meio da madrugada. Gosto de sair lá fora, tomar uma friagem. Gosto de tomar chá sentada na soleira da minha porta. Vejo o vento que me bagunça os cabelos, chacoalhar a coruja talhada em madeira, que tem pendurada no quintal. Ontem, de madrugada, o vento derrubou um vaso. Ele espatifou-se inteiro e lindas pedras brancas se espalharam no meio da terra. No meio da escuridão, as pedras brilharam, e no meio da madrugada, eu sujei minhas mãos de terra, replantei o vaso, varri o chão, peguei as pedras jogadas no quintal. Me senti viva, com minhas mãos de dedos magros e longos, que minha mãe me diz que parecem dedos de pianista. Eu nunca toquei nenhum instrumento, mas gosto de pensar nas costas nuas de meu amado, como um grande piano. Eis a única coisa que eu toquei… A pele é uma obra de arte, deslizar nela é como um arco num cello, no violino, mãos deslizando em teclas de piano. Barulhos de amor é uma orquestra sinfônica, uma sonata de Beethoven

Estou viajando na maionese, faço muito disso, mas eu não me importo se faz sentido ou não. Vivemos em um mundo de opiniões e visões diferentes, e é isso que o torna tão belo. Essas nuances gritantes, uma sinestesia desvairada. Eu vejo cores em cheiros, notas musicais em palavras. Talvez eu seja louca, mas essa loucura é o que me move, queria eu, sair com camisa de força por aí, descabelada, com um cigarro de canto de lábios, e uma flor no canto da orelha. Sairia cantando Beatles em alto e bom som, declamaria a “Balada do Louco”, misturada com “Lucy in the sky with diamonds“. Cantaria uma canção para meu Amor, mas eu não sei cantar, eu tento, mas eu não sei. Cantei em coral por dois anos, em vários idiomas, mas eu juro, eu não sei cantar e acho minha voz um lixo. Mas creio que sei escrever, e é isso que eu faço, e pode ser que meu Amor não me leia mais, mas, sinceramente, foda-se. Eu tentei, posso ser destruída, mas nunca serei derrotada. Estou na deriva, balançando em alto mar. Levo meu Amor no peito, falo dele para as gaivotas, e para peixes voadores. Não posso prever minha sorte, nem a falta dela. Eu corto minhas mãos na linha de pesca, eu falo sozinha, tenho poucos amigos, mas ótimos e eternos amigos. Eu me deito, sozinha, minha cama não é feita de jornais, mas eu nunca desisti, ando de pés descalços num caminho de espinhos, cheio de rosas, sangue e emoção, mas pra suportar minha dor, penso em meu caminho como cheio de areia quase branca e fofa, e vejo lindos leões dourados andando sobre ela. Eles olham para o horizonte, imponentes. De vez em quando soltam um rugido, e da minha cabaninha eu olho pela janela e solto um sorriso tímido.

Da minha janela, estou sempre escrevendo…

Memórias da madrugada: Essa porra de texto não tem título.

Estou andando pela cidade, procurando uma nova razão para estar nesse mundo, pensando nos meus últimos passos, o quanto fazer giro, nas aulas de flamenco é tão difícil, procurando emoções inexistentes, um grito aonde eu posso dizer que tudo o que eu sinto é verdadeiro. E não me perguntem o porquê disso. Quando se ama, não temos que procurar explicações, não tem que explicar aos outros porque nos sentimos dessa forma. E quando me perguntam o porquê eu amo, eu sempre digo para não tentar entender. Eu digo que mulher é uma espécie complicada. Nós somos complicados, homens e mulheres. E isso não é uma desculpa, porque se eu tivesse uma explicação, também teria um motivo para esquecer. Eu não tenho nenhum dos dois, então, eu não perco meu tempo criando desculpas, razões e o caramba a quatro. Quando resolvemos uma equação, ela tem seu resultado exato, a não ser que o lápis escorregue milagrosamente e trace um sinal negativo na frente ou transforme o número 1 em 7. Todo mundo me pergunta o que é necessário fazer para se esquecer de alguém. E então eu digo, “eu não sei”. E eu ainda digo que não quero esquecer, porque aquilo que nós perdermos pode não ter volta, e aquilo em que acreditamos, há sempre algo de belo. E então eu me pego pensando, se realmente vale a pena abrirmos mãos de nossas crenças e conceitos porque as pessoas disseram que aquilo não é real. Somente nossos sentimentos nos dizem o que é bom para nós. Se existe a tormenta no que sentimos, se existem lágrimas em nossos olhos, se quando nos vemos traçando rumo seguindo os pontilhados da incerteza, eu não costumo dizer… Eu não costumo pensar nisso. Minha mãe um dia me disse que temos várias pedras nas mãos. Nós atiramos aquelas que não nos interessam, ou que nunca nos fizeram nada de bom. Mas sempre há aquela que não sabemos ao certo porque a carregamos conosco. Ela é pesada, mas há algo ali que a torna irresistível. Eu gosto de pedras. Eu costumava colecioná-las. Quando eu era criança, passava horas procurando pedras com cores bonitas. E eu ficava em uma cachoeira, chafurdando o fundo, no meio das águas gélidas, procurando pedras. E quando eu encontrava a perfeição, eu guardava, e quando chegava a noite, eu deixava perto do peito, porque disseram que aquela pedra tão perfeita, foi retirada da natureza, ela era algo puro, estava energizada. E então eu deveria cuidar bem dela, por mais pesada que seja aquilo, era real. E eu amava… Eu amava aquela pedra.

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Incógnito

Incógnito,
Nas sombras é por onde caminha,
Há pedras no seu caminho,
Elas estão cobertas de musgo,
Eu lhe sigo, mas escorrego nelas.

Incógnito,
Você me prendeu assim, no seu silêncio,
Eu apareço e sua lanterna se apaga,
E então eu lhe sigo pelo cheiro,
Pelo cheiro de suas cores,
E no paladar de seus passos.

Incógnito,
Você é apenas uma sombra,
Estou pintando ela na minha parede,
E percorrendo as montanhas, eu fui,
De olhos vendados, porque seu rosto,
Seu rosto não tem face, quem é você?
Ninguém sabe, seus olhos me dizem?
Incógnito, Incógnito…

Não importa, para onde quer que vá,
Você sabe que não posso me esconder,
Meus sentimentos foram revelados,
Capturou minha alma, queira ou não queira,
Eu já estou ao chão, de joelhos,
Quem é você?Ninguém sabe…

Incógnito…Incógnito…você é a sombra,
Sombra que se move perante meus olhos,
Eu apenas sinto seu cheiro, nada mais,
Porque eu não sei, eu não sei,
Quem é você?Ninguém sabe…

solidao (1)