Something

O gato dos olhos amarelados no muro, encarando-a enquanto sentada na soleira da porta. Está no momento de frescura momentânea de tragar cigarros de menta. Dispensou o álcool esta noite, será que ela deveria? Talvez um vinho merlot descendo na garganta seja mais anestésico. Anestésico de quê? Talvez ela perca um pouco da razão que restou, já que grande parte dela foi embora, partindo com a ventania e o aroma de eucalipto, enquanto mirava seus olhos no horizonte, naquelas luzes amarelas, pequenas, distantes… O esplendor e a fúria do caos urbano lá no horizonte, como um sorriso, sarcástico, cínico. Ela sussurra uma canção, em tom baixinho, só pra ela. Nem o gato pode ouvir, mas parece que aqueles olhos grandes e brilhantes do gato gatuno a traduzem, lendo-a, como um caleidoscópio. Conheceu um único olhar de caleidoscópio, um azul claro, que muda de cor, fica cinzento, de acordo com o tempo.

A imoralidade cantando uma doce canção, o vento lá fora e a sensação da chuva que caiu em seu corpo enquanto caminhava numa longa avenida num bairro pacato e distante da cidade. A cabeça, cheia de preocupações, de medos, sentimentos, verdades, meias-verdades, mentiras, quase-mentiras, as verdades camufladas, todas elas descendo, corpo encharcado e cada gota d’água que escorria nos lábios dela, era uma dádiva de sentir-se viva. Ela poderia sentir-se completamente bem, e tomar apenas para si, as íntimas sensações egoístas e despudoradas. Queria fumar um cigarro, mas ela estava no meio da chuva. Tinha onde abrigar-se, onde entrar e tomar um café quente. Tinha um livro na bolsa, um bloco de anotações. Talvez ela encarasse o biscoito no pires do café, e poderia rir sozinha, um riso bobo e tímido. Poderia encontrar outros olhos de dilúvio em olhares alheios, mas eles não contariam histórias. Gosta de histórias, de palavras, o silêncio a incomoda ao mesmo tempo em que a encanta. Ela gosta do caos, da desordem, da orgia das palavras criando falácias, traçando, transando e traduzindo o incômodo, desassossego, amargor, pequenas felicidades tímidas querendo uivar feito um lobo, mas aquele nó na garganta, que estrangula, impedindo a maldita e talvez nefasta vontade de colocar para fora todas as palavras que ficaram presas nas estações passadas. Ela poderia falar sobre as folhas secas que chutou durante o outono, as mesmas em que ela sentou em cima nas manhãs e finais de tarde. Ao olhar para a cópula da árvore de folhas multicoloridas, ela via toda a beleza e simplicidade dos raios de sol brincar com as cores, enquanto o vento balançava as folhas que por fim, caiam em seus pés. E teve toda a frieza, mistério e quietude do inverno, e agora a primavera, com todas as cores. Cores… Ela adora cores. Existem pessoas com cores lindas, mas que trancam suas cores dentro de uma caixa. Ela coloca todas as cores dela em um papel ou editor de texto. No dia-a-dia, em frente à outras pessoas, ela carrega as cores dela fechadas, dentro de uma caixa. Elas dançam lá dentro, pintam quadros, cantam, bordam… Tem medo de elas esvanecerem, são como aquarelas, diante das lágrimas do mundo, elas borram e a ação e exposição do tempo e outros eventos externos, fazem com que elas percam a força, a beleza e o poder. Ela não quer perdê-las em um mundo que não para de gritar.

E sentada na beira da cama, ela contempla o tempo cinzento lá fora. Só Deus sabe… Aquele velho bobo, louco e talvez inexistente, o quanto ela torceu para um dia ensolarado. Deixou seu egoísmo de lado, por ela, poderia cair um dilúvio, para poder ficar olhando a água descendo na rua, carregando pequenas flores e frutos da mangueira a alguns metros acima na rua de casa. Ela poderia ver as pessoas caminharem com suas cabeças baixas, escondidas embaixo de negros guarda-chuvas, poderia esperar que uma mulher passasse de mau humor e com uma sacola de supermercado na cabeça, ou um homem com um guarda-chuva prateado que me lembrasse de filmes de caos futurístico. Poderia ver crianças brincando na enxurrada, mas sabe… Faz tanto tempo que ela não vê isso. Ela contentou-se com as gotas d’água escorrendo na janela, e toda a beleza delas caindo, traçando rabiscos d’água no vidro da janela. Quando isso acontece à noite, com as luzes apagadas do quarto e apenas a luz externa, as gotas da janela pintam o chão e o e o corpo seminu deitado na cama, enquanto as hélices do ventilador de teto rodopiam. A chuva lá fora, garoa tímida ou dilúvio selvagem que também lhe contam histórias que ela pode ou não colocar no papel… Ela sente o cheiro de terra molhada, lembranças de texturas envolvendo-a em sonhos, e é tão real como o turbilhão de beijos oníricos e sinestésicos que a deixa em um misto de desejo incontido. É por isso que às vezes ela senta na soleira da porta, altas horas da madrugada, noite adentro na filosofia da beleza, desespero, algumas mesquinharias, bobagens e muitas lembranças. Às vezes toma um chá, seu método natural de afastar os demônios pessoais. Pensa muito no quão é egoísta… Tão egoísta que faz amor consigo mesma e filmes soft-porn são apenas poesias eróticas. Prefere pornografia literária sutil. Mulher com um “q” de elegância sutilmente vulgar, a vulgaridade das metáforas propositalmente colocadas sem querer. Poderia ser mais simples, pensa ela, enquanto fuma ridículos cigarros de menta. Queria ter a simplicidade de poder olhar nos olhos e fazer um discurso, mas a garganta, mesmo clamando para gritar verdades e inverdades, existe um nó quase cego, enquanto na cabeça ela desenha linhas e linhas.

Pensou em vários disparates, que pra ela era uma incógnita agradável. Hoje seu amigo faz aniversário. Vive dizendo que está velho. Ela esperou que o dia fosse ensolarado, esperou que o vento estivesse ideal, que o calor do sol fosse um abraço e não um estorvo de 40 graus. Mas o dia amanheceu triste. Esperou que os olhos e a alma dele não ficassem cinzentos com o dia de hoje.  Pode ser que ele tenha, após ter acordado, ficado algum tempo deitado de barriga pra cima, olhando para o teto, enquanto faz uma retrospectiva dos anos que passaram. Sonolento, incompleto e mal humorado até tomar uma ducha, e enquanto a ducha cai nas costas, aquela sensação de paz, calma, relaxamento e a carícia de uma toalha, como um toque, leve, gostoso. Quando era de manhã, o dia estava meio tristonho, mas isso não deve ter-lhe tirado a vontade de ter um dia só pra ele. Talvez tenha saído lá fora, recolhido o jornal, brincado com a sua bolota preta e gordinha que pula nas pernas e fica cheirando-o quando ele chega de algum lugar em que ela não foi junto. Acendeu um cigarro? Ou ele não é daqueles que acendem um cigarro na primeira hora após acordar? Prefere a beleza e a simplicidade de um café e um pão com manteiga? Ela almejou que ele tenha tido o teu bocado de sorte diária, e que a tal da fração diária da tal sorte tenha sido comprada por um preço justo. Ela já ouviu dizer por aí, que a sorte não prevalece em tudo, dá-se de um lado e tira de outro. Provavelmente ele deve ter pensado na falta de sorte em umas coisas e a existência dela em outras, nada mais normal quando 356 dias de existência se completam novamente. Geralmente pensamos em crônicas de sonhos e pesadelos, boas e más lembranças, realizações, metas, sonhos perdidos, ilusões… Perdas e ganhos. Longe da selva de pedra, ele saiu para um lugar só pra ele, longe de formalidades e falsidades. Ela é péssima em receber e dar felicitações, mas muitas vezes temos de ser hipócritas o bastante e sermos mais “humanos” ou “convencionais”, ela não sabe ao certo qual palavra utilizar para isso.

Nada como um dia após o outro. Hoje o dia foi ranzinza, mas ela almejou que ele não tenha levado as cores frias do tempo para dentro dele, pois apesar dos olhos dele serem de dilúvio, ela gosta de vê-lo quando segue em direção ao sol, e o vento acariciando o rosto barbado ou imberbe e quem sabe um breve arrepio aparece. Lembrou do rosto de menino, do dia em que ele resolveu tirar a barba áspera cuja textura ela gostava tanto. Queria permitir-se dar a ele um texto singelo e levemente imoral, um presente feito de palavras jogadas sem rodeios. É a melhor coisa que ela poderia oferecer ao invés de dizer a ele apenas um “Feliz Aniversário”. E hoje, enquanto a chuva caia torrencialmente em seu corpo cansado, enquanto caminhava na longa avenida daquele bairro bonito e distante do caos urbano, ela não desejou a ele, felicidades para sempre. Ela não deseja utopias para as pessoas que ela gosta, mas deseja que elas tenham sabedoria suficiente para se levantar dos tombos que levarão por serem levianas ou idiotas. Na concepção dela, ignorância é desejar felicidade sempre, desejar uma utopia é o mesmo que desejar a cegueira à alguém. Ela se acha absurdamente hipócrita ao dizer “muitas felicidades” para os outros. Nada como um dia após o outro, nada como os ponteiros de um relógio ensandecido o suficiente para não nos preocuparmos com ele. Todos nós temos algo a dizer… Todos nós, sem exceção. Algo…

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhum batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.

Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

O presente.

O presente.

Está lá, em cima de uma mesa, uma caixa bonita em azul marinho e amarelo creme. Tem um lindo laço que eu comprei já pronto, pois sou péssima em fazer laços, dobraduras, embrulhos e essas coisas que ditam que toda mulher deve saber fazer. Talvez escrever seja a única coisa que eu saiba (ou acho que sei) fazer. No fundo da caixa, há papel em seda azul dilúvio… Sei lá, acreditei que combinava com teus olhos. Tudo bem cuidado, numa perfeição incontida em um carinho que talvez os deuses e toda a natureza aturdida e talvez desnecessária, sejam incapazes de compreender. Tem coisas nessa vida que são impossíveis de ter uma aceitação dentro de uma esfera viável ou pelo menos, de compreensão, outras, carregam um tempo considerável para completa aceitação. Eu vejo este presente em cima do banco e eu quase consigo entender que talvez nunca lhe seja entregue. Hoje eu entendo e levo comigo um profundo silêncio dentro de meu espelho d’alma. Nunca fui tão reclusa, ando de mau humor e com uma perspectiva de que a vida é uma grande merda e o segredo é ignorar todo o fedor. Lembro-me de um dia que me disseram que a vida é um balde de merda, e a cada chute que damos, a merda se espalha, e o fedor fica insuportável. Vivemos em um mundo mesquinho, de pessoas que não possuem a mínima noção do bom senso. Talvez eu e você estejamos inclusos neste mapa de horrores, mas com nossas casinhas dispostas em uma casa no campo distante, tentando, talvez em vão, fugir desses horrores. Você se diz desacostumado, eu estou assim, desacostumada, silenciosa e talvez, desalmada. Não carrego mais comigo aquela coisa sonhadora de que podemos mudar o mundo. Sinto as coisas ao meu redor cada vez piores. Tenho velhos fantasmas me atormentando, pincelando meus pensamentos com perguntas talvez sem respostas. E o que falar de Amor? Eu lhe digo que nunca acreditei na felicidade, mas acredito nos momentos bons, e nos momentos ruins que nos soca como se fossemos sacos de pancada. Eu digo que eu sinto Amor e acredito nele, mas muitas vezes dentro de uma esfera de improbabilidades e incompatibilidades, amores e desamores.  Eu lanço um olhar para a caixa do laço azul, eu vejo mensagens sem respostas e talvez uma falta de atenção apenas aparente. Silêncio, a saudade fala mais alto, mas quem sou eu para obrigar alguém a me dar atenção? E assim eu saio, vou caminhar para comprar pão. As faces de pessoas alegres no supermercado me dão talvez uma falsa sensação de que a felicidade possa, de fato, existir e minha tentativa de salvar aqueles que vão cair do abismo, não é um tempo perdido. E quando eu deito meu corpo na madrugada, eu confesso, que espero meu peixe perdida em alto mar. Protejo-me em minhas manhãs presas em leituras inspiradoras, estudando um pouco de xadrez, mesmo que eu não consiga decorar movimentos e que eu caia novamente na pegadinha do Xeque Pastor. Prefiro jogar conforme os minutos passam, sem estratégias prontas, e assim, você “rapela” minha aristocracia e metade de meus peões.

Fico clicando em botões de “Enviar currículo”, e perdida em bits e bytes de um editor de texto, rindo de meu amigo que não faz a barba há 150 dias, escrevendo alguns textos, ensaios e trechos de meu livro, ou apenas procurando anotações de observações aleatórias que escrevi enquanto esperava no terminal de ônibus.  Minhas tardes são muito bem aproveitadas assistindo documentários da BBC, History, National e Discovery. Assisti aquele que tu falaste, sobre as formigas. O que eu pensei, foi que eu adoraria ficar sentada por perto, com aquelas roupas de proteção… Horas vendo aquelas formigas, estabelecerem a pequena paz de espírito delas no caos de um chute de botas. Não poderia usar sapatinhos de plástico e eu não teria mais oito ou nove anos.

Às vezes eu bebo, mas apenas para me aquecer e tecer saudades. Não saio, estou sem dinheiro para viver uma boêmia pandemônica. Às vezes vou para a Praça da Paz ler embaixo de árvores, queria fazer isso hoje, mas está chovendo. Uma garoa fina, daquelas que você diz que lhe deixa desanimado. Mas eu gosto do tom cinzento que está lá fora. Combina com meu estado de espírito. Cinza… E não tem nada a ver com sadomasoquismo, e, aliás, o livro é uma grande merda, escarrada, escancarada nas estantes para leituras vazias, pura Literatura Oca. E eu sonhei esses dias que eu era uma Ghost Writer. Eu poderia ser, mas me recusaria a escrever coisas ruins. Mas achei divertido, eu falava com um cara e o mais engraçado foi o fato dele ter um saco de pão na cabeça. Coisas de sonho… E eu lá, fazendo anotações em um papel laranja, e a caneta falhava, e aquilo me irritava profundamente. Sabia? Caneta que falha me deixa enraivecida. É difícil tirar-me do sério, um dos motivos, porque tenho tendência de guardar o que me corrói dentro de um baú a sete chaves. Mas chegarão os dias que o baú estará lotado, e tudo, uma grande bomba, pessoas ao meu redor à mercê de um apocalipse. Mas as canetas falhas não chegam nem perto de eu guardar alguma mágoa muito grande. Apenas alguns “filha da puta”, “maldita”, “vai se foder”, emitidos com um sorriso cínico e sarcástico de canto de boca. Depois, simplesmente eu esqueço. Ou dou risada, horas mais tarde, quando faço um apanhado de minhas resoluções bem sucedidas ou uma lista de fracassos.

Olhei novamente nesse instante para o teu presente… Eu poderia aprender a fazer laços bonitos. E talvez até caixas bonitas artesanais. Um dia, eu pintei telas. Parei… Um dia, fui xeretar revistas de ponto cruz ( aqueles bordados bonitinhos em toalhas) e me estressei, não tenho esses talentos, serei eu apenas uma garotinha? Talvez eu seja como a música de Bob Dylan

“But she breaks just like a little girl.”

O bom menino.

Você mostrou-me teus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro… Daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…

Éramos jovens, você se lembra? Corríamos pelas ruas do subúrbio buscando sonhos desacordados, com canções em tons desafinados, cores ajustadas, como a mistura de Renoir num quadro pintado em Paris. Posso estar escrevendo coisas das linhas pra fora. Entenda querido, já são além da uma da manhã, e eu ando tendo madrugadas insones. Há um silêncio lá fora que me convida para contemplar os gatos por cima do muro. Eles andam numa graça inocente por entre as grades, e quando me veem com os cabelos ao vento, no meio dessa madrugada de outono indeciso, eles me encaram com os olhos brilhantes. Há um gato, negro como a noite, eu só vejo os olhos amarelos, me encarando como se soubesse dos meus sonhos de ir e vir, das minhas noites tecendo a saudade em meu tricô imaginário de vinho Merlot. Hoje bebo no gargalo, desde que te conheci ignorei a etiqueta de tomar vinho como gente educada. Eu não sou mais educada, sou tresloucada.

Se eu fumasse, acenderia um cigarro, talvez um mentolado, ou aqueles doces, de cereja. Ficaria soltando anéis de fumaça no ar, quem sabe eu fizesse um grande o bastante? Tem uma coruja aqui perto do terreno baldio, ela mora num buraco. Em meus sonhos, ela poderia passar voando nos meus anéis de fumaça mentolados. Ela passaria por dentro deles e daria um rasante no chão. Talvez, pegasse minhas emoções que jazem no chão, e levaria para bem longe, talvez para um inferno Dantesco, ou para o paraíso dos sonhos de Beatriz. Lá existe um pouco de Amor. Eu escuto Chico Buarque e sinto Amor, e eu queria que quando eu passasse você me estendesse a mão, ou o chapéu, mas tu não usas chapéu. Um dia queria que me mostrasse o sol, aquele que lhe faz sorrir, assim, mais de duas vezes ao dia. Percebe? Eu te mostraria toda a beleza de um dia chuvoso, talvez encontrássemos alguma coruja tomando banho, enquanto as pessoas passam aturdidas com seus guarda-chuvas, com raiva, passos largos. Eu contaria os segundos, contigo, e depois me apoiaria em teu ombro quando o trovão bradasse a fúria dos Deuses lá naquele horizonte de campo aberto.

Quando eu era criança, eu gostava de andar de bicicleta embaixo da chuva. Eu passava na poça de lama, e conforme ia pedalando, a roda de trás respingava lama nas costas da minha camiseta velha de guerra. Meu pai sempre falou que eu poderia tomar um raio na cabeça, mas a única coisa que eu tomei, foram gotas de chuva que me escorriam nos lábios. Eu era uma criança levada. E você ficou com minhas fotografias… Tem uma delas que eu estou feliz e banguela num balanço. Tem outras que estou acampando em Brotas, e eu praticava trilha na serra com minha mãe e aquele que um dia eu chamei de pai. É uma longa história, queria te contar um dia, sobre minhas aventuras, dos dias que eu subia no telhado escondida. A vida era incrível vista de cima, e pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não dão valor para quase nada, não tinham um olhar apurado, nunca ninguém me viu lá em cima, ninguém, só pardais e pombas que balançavam nos fios do poste… Ahhh, e o cachorro da vizinha, que eu tinha que passar de fininho, porque ele ficava nervosinho e se colocava a latir ininterruptamente. Tinha medo de ele chamar a atenção da minha vizinha balofa que não dormia porque o marido roncava. Ela poderia acabar com a minha brincadeira infantil de ser uma stalker das alturas. Um dia, atirei uma pedra no cachorro dela. Você vai me dizer:

“Malvada”…

Mas um dia, você me contou que jogou o gato da janela. Tu eras uma criança, tão malévola quanto eu, ou não… Apenas queria ver se o gato cairia de pé… Lembra? Quando você me contou isso, eu lhe disse pra você amarrar um pão com manteiga nas costas do gato, assim ele cairia de costas… Mas você cresceu meu bom menino… E nas ruas desse subúrbio, enquanto você dorme, com seus sonhos que talvez nem se lembre quando acordar, eu lembro da sua travessura de menino, como cenas de um frame despedaçado. Eu posso ver duas crianças correndo pelo subúrbio… Mas isso é apenas um devaneio, perdido entre meus anéis imaginários de fumaça. Na primeira tragada eu vou achar que vou morrer. Tentei tragar uma vez, quase morri, mas você tentou me ensinar. Eu acho que ainda não aprendi, ou tenha me esquecido. Fico apenas na vontade de menta, cereja ou pinho…

Eu poderia te reconstruir, como um vitral, daquelas igrejas europeias, mas não seriam imagens santificadas, já lhe disse um dia, eu fujo de tudo que é convencional, e faço isso sem querer, sou tresloucada… Quando criança chutava os formigueiros e passava o tempo observando o caos. Eu me perguntava se as formigas gritavam, como as pessoas na televisão quando aconteciam aqueles terremotos lá no Japão. Hoje só escuto meu próprio grito. O resto eu ignoro. Além de louca, sou egoísta. Mas eu te amo, mesmo tendo atirado o gato da janela. Você chega até mim nessa noite, com seus sonhos e travessuras de bom menino.

Memórias da madrugada: Xeque…

Mergulhada em pensamentos de trevas, perdida no meio de escuridão com os olhos vendados. Sentimento dúbio, no escuro sente os raios do sol queimarem os meus olhos, mas é uma luz que eu não encontro. Tateamos emoções em paredes de tijolos esfarelados, nossas mãos sujas de terra vermelha. Seu eu pudesse faria um desenho em teu rosto, ou rabiscaria um jogo da velha num chão de concreto ou na areia da praia. Deixaria você ganhar, eu era campeã de jogo da velha, e eu achava que sabia jogar xadrez. Quatro movimentos… Você olha e diz: Xeque! E então você me mata, e eu perdida em seus olhos de dilúvio fixos no tabuleiro e na tua malícia talvez sem querer. Sou uma garotinha, em jogadas desgovernadas, trêmulas e desajeitadas. Vejo meu rei aturdido… Já era! Meu reino foi teu em quatro movimentos. Na segunda partida, tento salvar minha rainha, e depois mato teu pastor safado com um pobre peão suicida, pois geralmente é o que me sobra… Peões suicidas. Jogada burra, péssima, eu diria. Mas o que eu posso fazer? Sem querer você me desfoca com seus olhos nas cores bicolores de luz e escuridão dos quadrados do tabuleiro. Chego ao meio do caminho com teus peões jogados na grama, rindo de minhas jogadas desajeitadas. Olho do teu lado e vejo minha cavalaria e alta sociedade agonizando pedindo para meu rei se entregar. Você sorri: Xeque-Mate!Eu me entrego… Meu reino é teu.

Epifania de uma personagem sem nome.

“Bem, tem sido um longo tempo
Desde que vi seu sorriso

Eu apostei meu medo
Até as luzes da manhã brilharem
Manhã de domingo
Somente névoa sob os limbos
Eu chamei novamente
O que você sabe?
E eu preenchi nossos dias
Com cartas e gin…”

 

Na noite de um sábado, enquanto deitada na cama confortavelmente vestindo calcinha e sutiã, nossa personagem sem nome estava esparramada na cama de sua humilde residência de mulher independente que mora sozinha. Muitos livros na estante, lápis coloridos comprados em um impulso de querer desenhar e pintar. Fã de vinhos e nostalgia, ela guarda uma garrafa de vinho chileno com duas rosas, enfeitando a estante. Estava lendo um livro e pensando em coisas da vida, no universo e tudo mais. Num momento, dá um pulo na cama, um insight, uma lembrança que a sempre consta em mente, mas ali, naquela noite de 27 de abril de 2013, ela se recordou, por vezes com um sorriso iluminado e com lágrimas de saudade, e ela sussurra, “Como sou brega”, ela que tanto pregou contra as pieguices do ser apaixonado, caiu numa “armadilha” que deste então povoa seus sonhos e caminhadas pelo bairro onde flores nascem em pleno asfalto.

Era sábado, estava um dia quente, mas não muito exagerado, como os dias fatídicos de verão. A “personagem sem nome” estava nervosa, após tentar quase sem sucesso arrumar o lugar que paga aluguel e chama de seu.

Olhava para o guarda-roupa, sem saber direito o que vestir. Fazia tempo que não tinha um encontro, ela estava desacostumada e achava que estava sonhando, chegou por vezes a se perguntar se aquilo realmente estava acontecendo. Pra quem veio de um relacionamento de três anos e meio com alguém que foi seu segundo namoro, e depois de um período brincando de eremita, enchendo em cara com colegas de trabalho e lendo o dia inteiro ou passeando em parques apenas para comer churros e pensar na vida, enquanto patos atravessam para cair na lagoa. Tinha na cabeça que seguiria a vida como uma mulher assexuada cheia de cachorros cagando alucinadamente no quintal. Dava risada sozinha, enquanto tentava espairar a cabeça folheando livros lidos e relidos.

Olhou para o cabide e viu um vestido de malha roxo, com detalhes em verde musgo na cintura e na amarração que contornava o pescoço. Mas ele era sem manga, e ela estava com as marcas na pele de uma doença filha da puta que acabava com sua vaidade. Era ali mais um motivo para sua insegurança, estampada com um suor frio e respiração ofegante. Queria estar bonita, tirou o vestido do cabide, e apesar de estar passado, ligou o ferro mesmo assim. Escolheu um casaquinho preto de crochê, e um sapato verde, no mesmo tom dos detalhes do vestido. Olhou no relógio, tinha marcado com ele às sete horas, em frente ao terminal de ônibus do bairro em que morava. Eram cinco e meia.  Acendeu um incenso e algumas velas no banheiro. Escolheu o que tinha de melhor, aprendam, mulher se prepara para vocês, mesmo que ela ache ou tenha a insegurança de que pode estragar tudo. Trinta minutos embaixo do chuveiro, talvez a água morna e o cheiro do óleo de pimenta rosa fizesse sua ansiedade diminuir. Depois de todo ritual, finalmente vestida, não do jeito que queria. Se estivesse sem aquelas manchas terríveis teria com um vestido na altura do joelho e com os braços de fora. Olhou no espelho, e perguntava-se se estava bonita. “Foda-se, pensou ela”… Passou três borrifos do seu mais caro e melhor perfume, pegou o livro que comprou no dia anterior num saldão da FNAC no meio de títulos de autoajuda pedantes e livros para mulherzinhas mal resolvidas e foi para o ponto de ônibus. Visivelmente nervosa, colocou o IPOD no modo shuffle, é um ritual que sempre dava certo. Chegou ao ponto de ônibus, não se atrasou apesar dela ser meio esbaforida e odiar horários, chegou meia hora mais cedo, vai que ele tivesse a tal da pontualidade britânica, olhasse no relógio e dissesse que ela estava 1 minuto e 45 segundos atrasada?

Na frente do terminal, tem um hortifruti cujo dono é um simpático senhorzinho japonês, e ao lado, também de frente para o terminal, há uma banca de pastel. Não pensou duas vezes… Suco de laranja da pastelaria a faria acalmar os nervos. Tomou dois copos, enquanto estava lendo. Resolveu olhar o celular e viu que tinha ligações perdidas. Eram dele, já pensou em um milhão de desgraças, mulher é um bicho difícil, entendam… Mas ficou otimista. Saiu da mesa da barraca de pastel e sentou-se em frente do hortifruti. Encontrou a paz necessária no livro que se encantou, mas deu misto de inquietude por ser um livro tão perturbador. O livro falava sobre o delírio das moscas, dilatação de porcos, sobre um homem despedaçado frente ao espelho do banheiro. Por alguns minutos, desligou-se completamente das coisas que a cercavam, até o momento em que sentiu um arrepio e passos leves e logo em seguida o seu nome bradado. Assustou-se um pouco, levantou os olhos do livro e então aquela calma perturbadora saiu de foco e voltou ao nervosismo, mas era um nervosismo causado pelo desconforto perante a beleza que os grandes olhos amendoados e sempre perdidos dela estavam encarando timidamente. De estatura mediana, um pouco mais alto que ela, olhos azuis, cabelos castanhos claros e barba por fazer, de uns dois dias e um sorriso que desde então apostou todos os seus medos.

Deu-lhe um tímido e quase atrapalhado beijo no rosto não barbeado ao qual ela agradeceu ele não ter tido a estupidez de ter tirado. Ela sempre pensa porque todo homem acha que toda mulher gosta de barba feita. E foi ali, o primeiro momento que ela se contorceu toda, numa felicidade nervosa. Estava com o livro nas mãos, aquilo foi bom, pois disfarçava as mãos trêmulas. O suco de laranja não tirou-lhe o nervosismo, o encanto de dois olhos azuis inquietantes trouxe-o de volta.

“O que está lendo?”

Depois de ter ficado tanto tempo escondida, aquela pergunta a fez pensar que ali ao seu lado, caminhando devagar não estava um homem que enxergava apenas oito bits de cores, talvez o universo cheio de cores e nuances dela seja pela primeira vez compreendidos, não em sua totalidade, ela não acredita nisso, uma das graças da vida, é a inquietude perante a não compreensão. E ela já percebeu pelo seu rosto de britânico, mas, com descendência italiana de que ali ao seu lado, estava um fractal cheio de equações complexas, e achou isso encantador. Ele não tinha denominador comum. Era único, e ela começou a sair da toca, já estava com o pé direito pra fora da sua caverna de proteção.

Estava ventando e o cabelo da “personagem sem nome” estava um ninho de mafagafos, e ele lá, tão bonito com seus olhos claros e cabelos cor de mel. Ela respirava fundo, baixinho, pois não queria que ele percebesse o quanto ela estava nervosa. Ela era uma atriz de quinta categoria, não sabia representar, ela era nua e crua, dentro da sua natureza nenhum pouco convencional. Até uma criança pura e sem malícia perceberia que ela estava tão nervosa quanto um cachorro que apronta e disfarça, mas lá dentro existia uma ponta de arrepio e certo tremor. Se ele perguntasse por que ela estava tremendo, ela lhe diria que era porque tinha hipoglicemia, mas não seria verdade. Ela não sabia mentir, tudo ali a denunciava.

Entrou no carro, ela disse a ele que o cabelo dela estava um fuá, e ele então passou a mão nos cabelos negros dela. Ali, naquele momento, veio-lhe o segundo arrepio, e não foi o vento, não foi frio, um pouco de nervoso e um pouco de tesão que depois ela reprimiu e desviou para qualquer outra coisa para não pensar em coisas, digamos, mundanas. Ela era muito sexual, não no sentido de ver malícia em tudo, de ver um perfume cilíndrico numa loja e pensar em sexo, tal como Freud explica sobre símbolos fálicos, coisas simples, ela não precisava ver um outdoor com um homem lindo de cueca para sentir desejo, coisas simples e banais a movem, e a mão dele no cabelo naquele momento inicial a fez querer agarrá-lo, mas ela era uma mulher contida. Despistou os pensamentos pecaminosos falando da escova progressiva da irmã e da mãe, e que foi a única da família a gostar de sua herança de cabelos ondulados, indecisos, levemente cacheados. O pensamento dele puxando-lhe os cabelos e beijando-lhe o pescoço foi ocupado pela lembrança de o quão bonito eram os cachos da irmã dela. Obviamente ela preferia o pensamento voluptuoso a pensar nos cachos da irmã, mas ela fez isso para não ficar arrepiada e com as bochechas vermelhas. Ainda bem que os olhos dela são castanhos bem escuros, a pupila dilatada seria muito difícil de ser percebida, a não ser que ele fosse o Chuck Norris ou tivesse o poder de ler mentes. Se ele visse auras, naquele instante ela estava num vermelho rubro de puro desejo. Reza a lenda que homens pensam na sogra para não gozarem rápido demais, ela em gatos mortos, erros de português e na família…

Durante o tempo que se passou, no caminho até a livraria, foram se conhecendo, ela perdera parte da vergonha, e não estava mais insegura, aos poucos perdeu a tensão, mas não o tesão. Na livraria ele lhe sugeriu um livro, dizia ele que ela era parecida com o personagem principal, um velho pescador que nunca perdia a fé, mesmo perante do fracasso de ter o marlim devorado por tubarões. Ela também sugeriu um livro a ele. Viu naquele homem um menino sonhador que guardava a beira de um abismo. Se algum menino se aproximasse, ele agarraria. Ficaria ali, o tempo todo, cuidando para que criancinhas indefesas nunca caíssem no abismo. Ele tem a alma de Holden Caulfield, se pudesse, ele se fingiria de surdo mudo, pois seus olhos são desacostumados, segundo ele o mundo é cheio de “pessoas cinzas e valores rasos” e o silêncio, tem o ajudado a tolerar:

“… Mas não me importava que tipo de emprego ia ser, desde que eu não conhecesse ninguém e ninguém me conhecesse… Ai bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir ser surdo-mudo. Desse modo não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém… Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha pra mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana… Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.”

 

Ele comprou o livro e ela reservou o que ele sugeriu, pois não tinha na loja e chegaria dentro de cinco dias. Foram para a cafeteria da livraria. Ele pediu um café simples, e ela exagerada, um café duplo com chantilly. Os olhos dele eram desconcertantes, a ponto dela baixar os olhos em direção à mesa, pois diante de tal beleza ela poderia talvez perder o juízo. Naquele ponto ela estava definitivamente fora da toca. Ele a tirava do sério. Respirava fundo, sentiu a cafeína estimulando as “endorfinas naturais” e ela precisava perder o foco da beleza dos olhos dele para que ela não se contorcesse por dentro. Os olhos dele falavam, e a prova disso era o biscoito que acompanhava o café que ele não comeu. Ela foi cara de pau o suficiente para pedir. Ela teve um insight de Clementine Kruczynski, de “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, na cena em que Clementine e Joel Barish estão na praia e ela pega a coxinha de frango do prato dele. Joel pensa que ela chegou assim, sem pedir permissão. A “personagem sem nome” pelo menos pediu, poderia ser mais invasora no mundo encantador dele, cheio de perguntas, umas com respostas, outras perguntas sem respostas, que podem ser completas ou incompletas, e cheias de viagens na maionese. Talvez, tal como Holden Caulfield, ele pode pensar para onde vão os patos no inverno. E ela amava essa essência indagadora dele, essência que a assustava, pois estava ali, sentado ao seu lado, um homem que sempre achou que só existia no mundo dos livros. Estava ali um homem que assim como ela, tenta salvar as crianças de cair no abismo, um homem que falava com os olhos, que a fazia rir e tal como ela, assistia “A Praça é nossa” com o avô. Ela assistia com a avó. Ela poderia ouvir e compartilhar piada ruim de gosto duvidoso o dia inteiro, sentada com ele no gramado da praça da universidade. Eles poderiam rir, como duas crianças, sem medo de ser feliz. Quando ela conta piadas, todo mundo olhava pra ela com cara de merda, mas ele ria, e ela se encantava com as covas que se abriam no rosto de barba acastanhada por fazer.

Eles saíram da cafeteria e decidiram ir para um bar num bairro charmoso e boêmio. Ele pediu uma cerveja e porções de bolinhos. Ele perguntou se ele acendesse um cigarro a incomodaria. Cigarro era o de menos. Ela vinha de uma família e noventa por cento de seus amigos eram fumantes. Ele pediu um energético, dizia ele que precisava acompanhar o pique de mulher que sofria de insônia. Ela contou-lhe sobre a doença que tanto aniquilava sua autoestima, e que se sentia incomodada com as manchinhas marrons que estavam espalhadas pelo corpo. Ele disse que não havia que se preocupar, ele também sofria do mal da doença de pele, pois tinha a pele muito clara. Contou algumas coisas que aconteceram com ele, levando as mãos dela ao rosto dele, para sentir um pequeno cisto imperceptível. A partir do dia em que o conheceu, ela deixou de lado as camisas de manga comprida, e saiu de vestido na altura do joelho e braços de fora. Ele a fez sentir-se plena novamente, ela recuperou toda a beleza que achava que havia sido raptada por uma doença. Contou a ele que nunca havia ganhado flores, ele riu, disse que era inconcebível, uma mulher não ganhar flores. Continuaram a conversa e alguns minutos mais tarde uma florista estava caminhando por entre as mesas dispersas na calçada. Sempre havia a primeira vez pra tudo, é o que dizem por aí. Ele chamou a florista, e pediu para que nossa “personagem sem nome” escolhesse duas flores. Ela se emocionou, como toda mulher, e por mais que um ramalhete de rosas morresse, ela ainda conserva as duas rosas dentro da garrafa de vinho que compraram para tomar embaixo de uma noite enluarada, com estrelas por vezes encobertas por nuvens tímidas, em cima de uma enorme pedra, longe da cidade, que poderia ser vista com suas luzes amarelas, no horizonte. Antes de irem para aquele local deserto, tomado pelo cheiro de imensas árvores de eucaliptos, ele estava preocupado se ela passaria frio, pois era um lugar aberto e logo, o vento seria intenso. Ela disse que já estava protegida, depois de dois anos morando no sul do país. E partiram, e ali naquele local, a cena hilária da tentativa bem sucedida e até aquele momento desconhecida pra ela, de abrir a garrafa de vinho usando tênis. Hoje, as flores a encaram da estante, dentro da garrafa de vinho chileno cujo conteúdo foi consumido no meio de um vento que o fez tremer de frio. Ela, acostumada com os ventos minuanos do sul, sentia-se plena e contente, e ao vê-lo tremendo de frio, não poderia deixar desamparada uma pessoa que lhe deu flores.  Fez uma massagem terna nos braços dele, explicou um pouco sobre o que aprendeu sobre chakras e centros de energia. Ela, enquanto esquentava os braços dele, sentiu os tendões aparentes, as veias pulsantes, os pelos dos braços dele, eriçados. O frio também a invadiu, mas não era um frio de sensação térmica, era um calafrio causado por endorfinas… Entende?Endorfinas naturais…

E então, ali naquele momento, ele fazia um carinho leve, gostoso, e o perfume dele estava mais forte do que outrora. Ela lhe disse sobre á inquietude dela diante de cheiros. Enquanto ele estava explorando aquele lugar em que eles ficaram, ela estava andando naquela estrada, com os sapatos de salto 15, tropeçando nas pedras. Pegou uma folha de eucalipto e cheirou-a, enquanto o observava, oras pensando na beleza da vida, na beleza daquele lugar que até então ela desconhecia, aquele pedaço de paz, vento e árvores balançando. E ao mesmo tempo em que ela sentia o perfume daquela folha de eucalipto, ela lembrou-se de quando se aproximou para ver a programação dos bares no celular, e então ela sentiu o cheiro dele. Ela tinha problemas com cheiros. Na hora, ela pensou: “Fudeu”, e depois veio um “Se controle…”. Ele disse que leu “A casa dos budas ditosos”, ela se contorceu de novo, era seu livro erótico favorito. “Droga… se controle, se controle, foca…controle, relaxa, você é boba”, pensava ela, enquanto tentava sem sucesso dissipar-se da vontade de agarrá-lo. Ela ria, mas por dentro se contorcia, e as pernas tremiam, e ela fingia que estavam apenas conversando sobre o universo, a vida e tudo mais, e que nada daquilo a excitaria, e ela não transaria na primeira noite, coisa que nunca fez. Sempre teve uma opinião de que a mulher deve deixar o homem curioso, com o desejo que nos próximos dias que estão por vir, uma fresta por vez do vestido será desnuda, mas não tudo de uma vez. E naquela madrugada de domingo, dia 28 de janeiro, ela quebrou as barreiras das convicções dela, e ela nunca se arrependeu. Deixou-se levar pelo desejo, pela chama, pelo lugar, pelo ser cativante e inspirador que ele emanava com paz e tranquilidade. Ela já estava cativada, enquanto ele a acariciava, ela tentava manter a eloquência de raciocínio, até que ele percebeu que ela estava perdendo o rumo dos pensamentos, que às vezes ela parava e suspirava forte, foi aí que ela se entregou e aceitou a ideia de que ela não conseguiria resistir. Ela relutava, enquanto deitada ali, e no primeiro beijo que ele deu nos seios dela, especificamente no seio direito, o tesão que latejava no meio das coxas a denunciou, e então ela perdeu o rumo. O hálito de vinho merlot dos lábios dele e o frio do vinho que ele derramou nos seios dela, os beijos nas costas nuas, no caminho da espinha, fizeram-lhe sair completamente da toca, e o barulho do sexo ao ar livre era uma melodia que em nada perdia para uma orquestra sinfônica. Ela não sabe dizer se algum carro passou ali e algum stalker viu aquela cena toda. Ela estava excitada demais com a respiração ofegante e forte no pescoço dela, que nem ao menos o vento intenso daquele local, que fazia as árvores balançarem de um lado para o outro, mas ela sentia… E sentia intensamente. Era apenas ele e ela, ali naquele momento, em chamas, embaixo daquele luar enlouquecedor e a garrafa da bebida que tanto influenciou os poetas desse nosso mundinho ordinário, porém maravilhoso.

E a licença poética daquele lugar, escreveu na memória dela um conto erótico, e ela não poderia, sentada numa mesa, ao som apenas das hélices do ventilador, deixar passar as impressões daquele dia que ocorreu há exatamente três meses atrás. Ela queria que esse conto fosse um presente entre ela e ele. Um presente sincero, talvez assustador, uma epifania pintada em cores de Almodóvar, mal escrita, mas com a sinceridade de um Woody Allen…

"Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo."
“Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo.”

Cores.

Todas as minhas cores
Transando em teu cheiro
Cantando tons de saudade
Inquebrantável…
Aquarela em teus beijos
Dê-me o frio de tuas cores
Tuas cores cinzentas
Em dias de chuva
Cabisbaixo silêncio
Cores monocromáticas
Úmidas pela chuva
Dê-me o calor de tuas cores
Quando o dia nascer duas vezes
Raios amarelos no céu, arquejo…
Cores dançantes ao entardecer
Lúdicas folhas de outono ao teu redor
Todas as minhas cores
Em uma caixa, singulares
Em teu abraço pretérito
Sorrindo em teu riso
Inquebrantável aos teus olhos
De dilúvio cor de céu
Olhos que falam, inquietos
Todas as suas cores,
Em sua caixa, trancada
Reclusa… Calada
Todas as suas cores
Um retrato na memória
Todas as suas cores
Um arco-íris em meu ventre
Borboletas inquietas
Ao cair da noite acalentada
Ao amanhecer estoico
Entardecer transigente
Minhas cores úmidas
Aquarelas em meus lençóis
Todas as minhas cores
Dentro de uma caixa
Vivendo o calor dos dias
Chuva tórrida de desejo
Cores de Arlequim
Amor de Colombina
Espetáculo da vida
E todas as minhas cores
Dentro de uma caixa…

Sunshine.

Na madrugada, deixo a poesia de John Denver. Sim, eu gosto de música de “véio”. Essa música me traz boas lembranças…Girassóis adoram o sol…Ficam cabisbaixos com a chuva, se encolhem, olhando tristes para chão, mas quando o sol aparece, o dia dele nasce duas vezes…

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Se eu tivesse um dia que pudesse dar a você
Eu lhe daria agora mesmo um dia igual hoje
Se eu tivesse uma canção que pudesse cantar pra você
Eu cantaria uma canção que ajude você seguir melhor seu caminho

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Luz do sol durante o tempo todo me deixa contente
Luz do sol, sempre…

Girassóis...
Girassóis…

Majestade.

MAJESTADE

Deite-se deleito
Sussurros suspeitos.
Gritos na madrugada
Teu corpo por cima
Uma tonelada de terra
Cadáver sou eu?
Cubra-me com teu ímpeto
Rasteja como um verme
Pele deslizante, pelos a fazer
Teu suor, minha umidade
Deita aqui em meu peito
Aureolas despudoradas
Face rosácea, amor rubro
Vinho seco derramado
Costas nuas etílicas
Teus lábios manchados
Doce trilha desalmada
Meu sexo descoberto
Madrugada fria
Imortal doce amante
Relembro-te em linhas
Imoralidade sem-vergonha
Poema escarrado
Sem remédio para dor
Canto a saudade em verso
Passo desritmado
Pisa em meus pés
Derreto teu desejo
Engulo tuas emoções
Olhos desacostumados
Candelabros não morrem
Nos sonhos dos homens
Uma única vela acesa
Chama de desejo
E nunca acaba…
Nunca acaba
Saudade Manchada
Duas rosas na garrafa
Hemingway na estante
Teu cheiro pelos cantos
Olhos de dilúvio
Chove lá fora
Girassol cabisbaixo
Felicidade úmida
Amor na chuva
Silêncio…
Somente raios e trovões
Quatro paredes de um quarto
Ajoelho eis sua súdita
Minha Majestade.

ANA IDRIS.

A bolacha.

Tomavam café no bistrô do pequeno distrito de uma cidade grande. Ela pediu um café duplo com chantilly e pegou três sachês de açúcar. Ela era assim, exagerada, tal como a música do Cazuza. Ele, mais contido, em questões de cafeína, ficou no expresso pequeno e numa garrafa de água com gás…Ela…na garrafa de água sem gás. Ele terminou o café primeiro, ela, aturdida, impressionada, escutando o que ele tinha a dizer, tomava seu café duplo em goles calmos de prazer. No meio da discussão sobre a “Ilha do Medo”, viu que ele “esqueceu” a bolacha servida como aperitivo. Estava a bolacha lá, descansando calmamente no pires do café. “Posso pegar sua bolacha?”, disse ela, educada. Ela poderia chegar invadindo, sem pedir permissão, na surdina, como um vento de tempestade imprevista ao final da tarde, aquele vento desgraçado que chega bagunçando os papéis em cima da mesa, mas não…No palco da vida muitas cortinas se fecham, por vezes na nossa cara, uma bofetada, um espetáculo mal sucedido, sem espectadores, sem palmas, sem assobios, enfim, sem nada!

Ela era uma janela sem persiana, não importava as condições do Tempo, ali dentro daquele pedaço de gente encantada com a boca suja de chantilly e mastigando uma bolacha educadamente roubada, passa vento, garoa fina, sol escaldante das duas horas da tarde, entram folhas não convidadas, folhazinhas invasoras do outono assim, cheio de emoções…”Posso pegar sua bolacha?”, “Pode, claro!”, disse ele, quase que apenas com os olhos. Ela comeu a bolacha, e depois lambeu o chantilly que estava no canto da boca. Ela era uma criança, em corpo de mulher.

"Todo dia ela dizQue é pr'eu me cuidarEssas coisas que dizToda mulherDiz que está me esperandoPr'o jantarE me beija com a bocaDe café..."
“Todo dia ela diz
Que é pr’eu me cuidar
Essas coisas que diz
Toda mulher
Diz que está me esperando
Pr’o jantar
E me beija com a boca
De café…”