Epifania de uma personagem sem nome.

“Bem, tem sido um longo tempo
Desde que vi seu sorriso

Eu apostei meu medo
Até as luzes da manhã brilharem
Manhã de domingo
Somente névoa sob os limbos
Eu chamei novamente
O que você sabe?
E eu preenchi nossos dias
Com cartas e gin…”

 

Na noite de um sábado, enquanto deitada na cama confortavelmente vestindo calcinha e sutiã, nossa personagem sem nome estava esparramada na cama de sua humilde residência de mulher independente que mora sozinha. Muitos livros na estante, lápis coloridos comprados em um impulso de querer desenhar e pintar. Fã de vinhos e nostalgia, ela guarda uma garrafa de vinho chileno com duas rosas, enfeitando a estante. Estava lendo um livro e pensando em coisas da vida, no universo e tudo mais. Num momento, dá um pulo na cama, um insight, uma lembrança que a sempre consta em mente, mas ali, naquela noite de 27 de abril de 2013, ela se recordou, por vezes com um sorriso iluminado e com lágrimas de saudade, e ela sussurra, “Como sou brega”, ela que tanto pregou contra as pieguices do ser apaixonado, caiu numa “armadilha” que deste então povoa seus sonhos e caminhadas pelo bairro onde flores nascem em pleno asfalto.

Era sábado, estava um dia quente, mas não muito exagerado, como os dias fatídicos de verão. A “personagem sem nome” estava nervosa, após tentar quase sem sucesso arrumar o lugar que paga aluguel e chama de seu.

Olhava para o guarda-roupa, sem saber direito o que vestir. Fazia tempo que não tinha um encontro, ela estava desacostumada e achava que estava sonhando, chegou por vezes a se perguntar se aquilo realmente estava acontecendo. Pra quem veio de um relacionamento de três anos e meio com alguém que foi seu segundo namoro, e depois de um período brincando de eremita, enchendo em cara com colegas de trabalho e lendo o dia inteiro ou passeando em parques apenas para comer churros e pensar na vida, enquanto patos atravessam para cair na lagoa. Tinha na cabeça que seguiria a vida como uma mulher assexuada cheia de cachorros cagando alucinadamente no quintal. Dava risada sozinha, enquanto tentava espairar a cabeça folheando livros lidos e relidos.

Olhou para o cabide e viu um vestido de malha roxo, com detalhes em verde musgo na cintura e na amarração que contornava o pescoço. Mas ele era sem manga, e ela estava com as marcas na pele de uma doença filha da puta que acabava com sua vaidade. Era ali mais um motivo para sua insegurança, estampada com um suor frio e respiração ofegante. Queria estar bonita, tirou o vestido do cabide, e apesar de estar passado, ligou o ferro mesmo assim. Escolheu um casaquinho preto de crochê, e um sapato verde, no mesmo tom dos detalhes do vestido. Olhou no relógio, tinha marcado com ele às sete horas, em frente ao terminal de ônibus do bairro em que morava. Eram cinco e meia.  Acendeu um incenso e algumas velas no banheiro. Escolheu o que tinha de melhor, aprendam, mulher se prepara para vocês, mesmo que ela ache ou tenha a insegurança de que pode estragar tudo. Trinta minutos embaixo do chuveiro, talvez a água morna e o cheiro do óleo de pimenta rosa fizesse sua ansiedade diminuir. Depois de todo ritual, finalmente vestida, não do jeito que queria. Se estivesse sem aquelas manchas terríveis teria com um vestido na altura do joelho e com os braços de fora. Olhou no espelho, e perguntava-se se estava bonita. “Foda-se, pensou ela”… Passou três borrifos do seu mais caro e melhor perfume, pegou o livro que comprou no dia anterior num saldão da FNAC no meio de títulos de autoajuda pedantes e livros para mulherzinhas mal resolvidas e foi para o ponto de ônibus. Visivelmente nervosa, colocou o IPOD no modo shuffle, é um ritual que sempre dava certo. Chegou ao ponto de ônibus, não se atrasou apesar dela ser meio esbaforida e odiar horários, chegou meia hora mais cedo, vai que ele tivesse a tal da pontualidade britânica, olhasse no relógio e dissesse que ela estava 1 minuto e 45 segundos atrasada?

Na frente do terminal, tem um hortifruti cujo dono é um simpático senhorzinho japonês, e ao lado, também de frente para o terminal, há uma banca de pastel. Não pensou duas vezes… Suco de laranja da pastelaria a faria acalmar os nervos. Tomou dois copos, enquanto estava lendo. Resolveu olhar o celular e viu que tinha ligações perdidas. Eram dele, já pensou em um milhão de desgraças, mulher é um bicho difícil, entendam… Mas ficou otimista. Saiu da mesa da barraca de pastel e sentou-se em frente do hortifruti. Encontrou a paz necessária no livro que se encantou, mas deu misto de inquietude por ser um livro tão perturbador. O livro falava sobre o delírio das moscas, dilatação de porcos, sobre um homem despedaçado frente ao espelho do banheiro. Por alguns minutos, desligou-se completamente das coisas que a cercavam, até o momento em que sentiu um arrepio e passos leves e logo em seguida o seu nome bradado. Assustou-se um pouco, levantou os olhos do livro e então aquela calma perturbadora saiu de foco e voltou ao nervosismo, mas era um nervosismo causado pelo desconforto perante a beleza que os grandes olhos amendoados e sempre perdidos dela estavam encarando timidamente. De estatura mediana, um pouco mais alto que ela, olhos azuis, cabelos castanhos claros e barba por fazer, de uns dois dias e um sorriso que desde então apostou todos os seus medos.

Deu-lhe um tímido e quase atrapalhado beijo no rosto não barbeado ao qual ela agradeceu ele não ter tido a estupidez de ter tirado. Ela sempre pensa porque todo homem acha que toda mulher gosta de barba feita. E foi ali, o primeiro momento que ela se contorceu toda, numa felicidade nervosa. Estava com o livro nas mãos, aquilo foi bom, pois disfarçava as mãos trêmulas. O suco de laranja não tirou-lhe o nervosismo, o encanto de dois olhos azuis inquietantes trouxe-o de volta.

“O que está lendo?”

Depois de ter ficado tanto tempo escondida, aquela pergunta a fez pensar que ali ao seu lado, caminhando devagar não estava um homem que enxergava apenas oito bits de cores, talvez o universo cheio de cores e nuances dela seja pela primeira vez compreendidos, não em sua totalidade, ela não acredita nisso, uma das graças da vida, é a inquietude perante a não compreensão. E ela já percebeu pelo seu rosto de britânico, mas, com descendência italiana de que ali ao seu lado, estava um fractal cheio de equações complexas, e achou isso encantador. Ele não tinha denominador comum. Era único, e ela começou a sair da toca, já estava com o pé direito pra fora da sua caverna de proteção.

Estava ventando e o cabelo da “personagem sem nome” estava um ninho de mafagafos, e ele lá, tão bonito com seus olhos claros e cabelos cor de mel. Ela respirava fundo, baixinho, pois não queria que ele percebesse o quanto ela estava nervosa. Ela era uma atriz de quinta categoria, não sabia representar, ela era nua e crua, dentro da sua natureza nenhum pouco convencional. Até uma criança pura e sem malícia perceberia que ela estava tão nervosa quanto um cachorro que apronta e disfarça, mas lá dentro existia uma ponta de arrepio e certo tremor. Se ele perguntasse por que ela estava tremendo, ela lhe diria que era porque tinha hipoglicemia, mas não seria verdade. Ela não sabia mentir, tudo ali a denunciava.

Entrou no carro, ela disse a ele que o cabelo dela estava um fuá, e ele então passou a mão nos cabelos negros dela. Ali, naquele momento, veio-lhe o segundo arrepio, e não foi o vento, não foi frio, um pouco de nervoso e um pouco de tesão que depois ela reprimiu e desviou para qualquer outra coisa para não pensar em coisas, digamos, mundanas. Ela era muito sexual, não no sentido de ver malícia em tudo, de ver um perfume cilíndrico numa loja e pensar em sexo, tal como Freud explica sobre símbolos fálicos, coisas simples, ela não precisava ver um outdoor com um homem lindo de cueca para sentir desejo, coisas simples e banais a movem, e a mão dele no cabelo naquele momento inicial a fez querer agarrá-lo, mas ela era uma mulher contida. Despistou os pensamentos pecaminosos falando da escova progressiva da irmã e da mãe, e que foi a única da família a gostar de sua herança de cabelos ondulados, indecisos, levemente cacheados. O pensamento dele puxando-lhe os cabelos e beijando-lhe o pescoço foi ocupado pela lembrança de o quão bonito eram os cachos da irmã dela. Obviamente ela preferia o pensamento voluptuoso a pensar nos cachos da irmã, mas ela fez isso para não ficar arrepiada e com as bochechas vermelhas. Ainda bem que os olhos dela são castanhos bem escuros, a pupila dilatada seria muito difícil de ser percebida, a não ser que ele fosse o Chuck Norris ou tivesse o poder de ler mentes. Se ele visse auras, naquele instante ela estava num vermelho rubro de puro desejo. Reza a lenda que homens pensam na sogra para não gozarem rápido demais, ela em gatos mortos, erros de português e na família…

Durante o tempo que se passou, no caminho até a livraria, foram se conhecendo, ela perdera parte da vergonha, e não estava mais insegura, aos poucos perdeu a tensão, mas não o tesão. Na livraria ele lhe sugeriu um livro, dizia ele que ela era parecida com o personagem principal, um velho pescador que nunca perdia a fé, mesmo perante do fracasso de ter o marlim devorado por tubarões. Ela também sugeriu um livro a ele. Viu naquele homem um menino sonhador que guardava a beira de um abismo. Se algum menino se aproximasse, ele agarraria. Ficaria ali, o tempo todo, cuidando para que criancinhas indefesas nunca caíssem no abismo. Ele tem a alma de Holden Caulfield, se pudesse, ele se fingiria de surdo mudo, pois seus olhos são desacostumados, segundo ele o mundo é cheio de “pessoas cinzas e valores rasos” e o silêncio, tem o ajudado a tolerar:

“… Mas não me importava que tipo de emprego ia ser, desde que eu não conhecesse ninguém e ninguém me conhecesse… Ai bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir ser surdo-mudo. Desse modo não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém… Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha pra mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana… Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.”

 

Ele comprou o livro e ela reservou o que ele sugeriu, pois não tinha na loja e chegaria dentro de cinco dias. Foram para a cafeteria da livraria. Ele pediu um café simples, e ela exagerada, um café duplo com chantilly. Os olhos dele eram desconcertantes, a ponto dela baixar os olhos em direção à mesa, pois diante de tal beleza ela poderia talvez perder o juízo. Naquele ponto ela estava definitivamente fora da toca. Ele a tirava do sério. Respirava fundo, sentiu a cafeína estimulando as “endorfinas naturais” e ela precisava perder o foco da beleza dos olhos dele para que ela não se contorcesse por dentro. Os olhos dele falavam, e a prova disso era o biscoito que acompanhava o café que ele não comeu. Ela foi cara de pau o suficiente para pedir. Ela teve um insight de Clementine Kruczynski, de “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, na cena em que Clementine e Joel Barish estão na praia e ela pega a coxinha de frango do prato dele. Joel pensa que ela chegou assim, sem pedir permissão. A “personagem sem nome” pelo menos pediu, poderia ser mais invasora no mundo encantador dele, cheio de perguntas, umas com respostas, outras perguntas sem respostas, que podem ser completas ou incompletas, e cheias de viagens na maionese. Talvez, tal como Holden Caulfield, ele pode pensar para onde vão os patos no inverno. E ela amava essa essência indagadora dele, essência que a assustava, pois estava ali, sentado ao seu lado, um homem que sempre achou que só existia no mundo dos livros. Estava ali um homem que assim como ela, tenta salvar as crianças de cair no abismo, um homem que falava com os olhos, que a fazia rir e tal como ela, assistia “A Praça é nossa” com o avô. Ela assistia com a avó. Ela poderia ouvir e compartilhar piada ruim de gosto duvidoso o dia inteiro, sentada com ele no gramado da praça da universidade. Eles poderiam rir, como duas crianças, sem medo de ser feliz. Quando ela conta piadas, todo mundo olhava pra ela com cara de merda, mas ele ria, e ela se encantava com as covas que se abriam no rosto de barba acastanhada por fazer.

Eles saíram da cafeteria e decidiram ir para um bar num bairro charmoso e boêmio. Ele pediu uma cerveja e porções de bolinhos. Ele perguntou se ele acendesse um cigarro a incomodaria. Cigarro era o de menos. Ela vinha de uma família e noventa por cento de seus amigos eram fumantes. Ele pediu um energético, dizia ele que precisava acompanhar o pique de mulher que sofria de insônia. Ela contou-lhe sobre a doença que tanto aniquilava sua autoestima, e que se sentia incomodada com as manchinhas marrons que estavam espalhadas pelo corpo. Ele disse que não havia que se preocupar, ele também sofria do mal da doença de pele, pois tinha a pele muito clara. Contou algumas coisas que aconteceram com ele, levando as mãos dela ao rosto dele, para sentir um pequeno cisto imperceptível. A partir do dia em que o conheceu, ela deixou de lado as camisas de manga comprida, e saiu de vestido na altura do joelho e braços de fora. Ele a fez sentir-se plena novamente, ela recuperou toda a beleza que achava que havia sido raptada por uma doença. Contou a ele que nunca havia ganhado flores, ele riu, disse que era inconcebível, uma mulher não ganhar flores. Continuaram a conversa e alguns minutos mais tarde uma florista estava caminhando por entre as mesas dispersas na calçada. Sempre havia a primeira vez pra tudo, é o que dizem por aí. Ele chamou a florista, e pediu para que nossa “personagem sem nome” escolhesse duas flores. Ela se emocionou, como toda mulher, e por mais que um ramalhete de rosas morresse, ela ainda conserva as duas rosas dentro da garrafa de vinho que compraram para tomar embaixo de uma noite enluarada, com estrelas por vezes encobertas por nuvens tímidas, em cima de uma enorme pedra, longe da cidade, que poderia ser vista com suas luzes amarelas, no horizonte. Antes de irem para aquele local deserto, tomado pelo cheiro de imensas árvores de eucaliptos, ele estava preocupado se ela passaria frio, pois era um lugar aberto e logo, o vento seria intenso. Ela disse que já estava protegida, depois de dois anos morando no sul do país. E partiram, e ali naquele local, a cena hilária da tentativa bem sucedida e até aquele momento desconhecida pra ela, de abrir a garrafa de vinho usando tênis. Hoje, as flores a encaram da estante, dentro da garrafa de vinho chileno cujo conteúdo foi consumido no meio de um vento que o fez tremer de frio. Ela, acostumada com os ventos minuanos do sul, sentia-se plena e contente, e ao vê-lo tremendo de frio, não poderia deixar desamparada uma pessoa que lhe deu flores.  Fez uma massagem terna nos braços dele, explicou um pouco sobre o que aprendeu sobre chakras e centros de energia. Ela, enquanto esquentava os braços dele, sentiu os tendões aparentes, as veias pulsantes, os pelos dos braços dele, eriçados. O frio também a invadiu, mas não era um frio de sensação térmica, era um calafrio causado por endorfinas… Entende?Endorfinas naturais…

E então, ali naquele momento, ele fazia um carinho leve, gostoso, e o perfume dele estava mais forte do que outrora. Ela lhe disse sobre á inquietude dela diante de cheiros. Enquanto ele estava explorando aquele lugar em que eles ficaram, ela estava andando naquela estrada, com os sapatos de salto 15, tropeçando nas pedras. Pegou uma folha de eucalipto e cheirou-a, enquanto o observava, oras pensando na beleza da vida, na beleza daquele lugar que até então ela desconhecia, aquele pedaço de paz, vento e árvores balançando. E ao mesmo tempo em que ela sentia o perfume daquela folha de eucalipto, ela lembrou-se de quando se aproximou para ver a programação dos bares no celular, e então ela sentiu o cheiro dele. Ela tinha problemas com cheiros. Na hora, ela pensou: “Fudeu”, e depois veio um “Se controle…”. Ele disse que leu “A casa dos budas ditosos”, ela se contorceu de novo, era seu livro erótico favorito. “Droga… se controle, se controle, foca…controle, relaxa, você é boba”, pensava ela, enquanto tentava sem sucesso dissipar-se da vontade de agarrá-lo. Ela ria, mas por dentro se contorcia, e as pernas tremiam, e ela fingia que estavam apenas conversando sobre o universo, a vida e tudo mais, e que nada daquilo a excitaria, e ela não transaria na primeira noite, coisa que nunca fez. Sempre teve uma opinião de que a mulher deve deixar o homem curioso, com o desejo que nos próximos dias que estão por vir, uma fresta por vez do vestido será desnuda, mas não tudo de uma vez. E naquela madrugada de domingo, dia 28 de janeiro, ela quebrou as barreiras das convicções dela, e ela nunca se arrependeu. Deixou-se levar pelo desejo, pela chama, pelo lugar, pelo ser cativante e inspirador que ele emanava com paz e tranquilidade. Ela já estava cativada, enquanto ele a acariciava, ela tentava manter a eloquência de raciocínio, até que ele percebeu que ela estava perdendo o rumo dos pensamentos, que às vezes ela parava e suspirava forte, foi aí que ela se entregou e aceitou a ideia de que ela não conseguiria resistir. Ela relutava, enquanto deitada ali, e no primeiro beijo que ele deu nos seios dela, especificamente no seio direito, o tesão que latejava no meio das coxas a denunciou, e então ela perdeu o rumo. O hálito de vinho merlot dos lábios dele e o frio do vinho que ele derramou nos seios dela, os beijos nas costas nuas, no caminho da espinha, fizeram-lhe sair completamente da toca, e o barulho do sexo ao ar livre era uma melodia que em nada perdia para uma orquestra sinfônica. Ela não sabe dizer se algum carro passou ali e algum stalker viu aquela cena toda. Ela estava excitada demais com a respiração ofegante e forte no pescoço dela, que nem ao menos o vento intenso daquele local, que fazia as árvores balançarem de um lado para o outro, mas ela sentia… E sentia intensamente. Era apenas ele e ela, ali naquele momento, em chamas, embaixo daquele luar enlouquecedor e a garrafa da bebida que tanto influenciou os poetas desse nosso mundinho ordinário, porém maravilhoso.

E a licença poética daquele lugar, escreveu na memória dela um conto erótico, e ela não poderia, sentada numa mesa, ao som apenas das hélices do ventilador, deixar passar as impressões daquele dia que ocorreu há exatamente três meses atrás. Ela queria que esse conto fosse um presente entre ela e ele. Um presente sincero, talvez assustador, uma epifania pintada em cores de Almodóvar, mal escrita, mas com a sinceridade de um Woody Allen…

"Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo."
“Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo.”

Pássaro.

“Essa é a última canção que você irá cantar…
Segurei-o de cabeça pra baixo, quebrei seu pescoço
Ensinei-lhe uma lição que ele jamais esqueceria”

Queria sair por aí, com uma mochila nas costas, andar sem rumo, sem sentir o peso da saudade. Talvez nunca mais voltar. É um grito que escorre por aí nas ruínas do alter ego. Como um cão sem dono, vagando pelas ruas, sem rumo, talvez esperando alguém para acolher. Queria também ser como uma andorinha, sair por aí, voando, mas com o risco de ser um pássaro devorado por gato faminto ou por pura brincadeira de extinto, apenas um novelo de lã que sente dor. Gatos brincam com a comida, mas sem necessariamente querer devorá-la. Já vi um gato matar uma andorinha por puro prazer, era um lindo gato siamês de olhos azuis. Ele brincava com a andorinha já morta pelas mordidas e arranhões. Carregava o pobre pássaro pra lá e pra cá como um troféu. Quando se cansou deixou a andorinha morta com tripas expostas no gramado do condomínio. Eu não pude fazer nada, apenas lamentar, e na minha curiosidade de criança observar o gato com sua brincadeira sádica. E o sadismo também existe com os homens. Nas guerras matavam por pura diversão. Homens, mulheres e crianças, enfileirados de frente pra uma vala a céu aberto. Mãos nas costas e gritos de misericórdia. Olhavam para baixo e apenas o tiro e pedaços de miolos espalhados. Os soldados apenas os chutavam dentro das valas. Se não fossem executados, morreriam de fome, não havia ali meio termo, não havia tempo, não existia nada ali, apenas o ceifeiro invisível esperando recolher as almas que muitas vezes devem ter fugido, vagando até hoje por memoriais tristes e hipócritas. Se eu fosse um pássaro, eu não queria ser um da época de guerras, eu não sobreviveria ao som estridente de tiros e bombardeios. Teria minha alma de pássaro fraturada, dizem por aí que animais são mais puros e “humanos”, mas eu me lembro do gato sádico, e havia um brilho cruel e inquietante naqueles olhos azuis de felino. Eu poderia ser o seu jantar, se eu fosse uma andorinha.

Crônicas Completas: Russel e as pradarias.

Capítulo I: Pradarias

Russel está cantando nas pradarias, quando o inverno russo se aproxima, ele faz seu trompete chorar, enquanto sua mãe chora pela matrioska quebrada. A mãe amada de Russel, espatifada no chão em convulsão.
Ele está indo para Budapeste, mas também gostaria de ir para Bellerophon, mas a Grécia está muito longe, são milhas e milhas de distância dos gelados ventos do leste europeu, ventos que o fazem se encharcar na melancolia transparente da vodka. Vãs memórias inundam seu peito, sua mãe entregando-lhe uma rosa, já com o estômago cheio de remédios escolhidos aleatoriamente, engolido com uma garrafa de vodka, cujo resto deslizou até embaixo da mesa, onde via os pés e pernas de sua amável mãe em um terremoto insano. Antes de dizer “Adeus”, sua amada mãe disse: “Apenas diga ao teu pai, que eu o amei muito”.
Sua irmã, Elissa, dormia, e quando Russel tocava seu trompete, Elissa chorava, berrava, e a mãe de Russel a acalmava com seu retorno doce de mãe. E Russel se cansava, pegava seu trompete e se colocava a tocar nas pradarias tristes. Visitava seu pai nas minas, homem forte, porém pré-envelhecido. A sujeira do carvão dava-lhe traços rudes, primitivos.
No frio daquele leste europeu, todas as matrioskas eram incompletas, Russel andava em círculos, nas pradarias contínuas do seu ego e força de viver, mesmo sabendo que nada cresceria ali, nas pradarias inférteis pelo frio. Nas pradarias que ele tanto amava, não existe nada, apenas sua mãe cansada num túmulo triste com apenas uma cruz de madeira, e lobos uivando na noite. Até mesmo, quando viva, a mãe de Russel estava sempre cansada, mesmo nas passeatas onde Russel tocava seu trompete e as baionetas furavam sorrisos descontentes. Matrioskas caiam no chão durante a fúria perante a morte da matriarca, que dizia que se a Felicidade tivesse uma cor, ela seria vermelha. E ela o abraçava, antes de dormir, e quando seu pai chegava, ela chupava os dedos de carvão dele. Pra ela, sua amada mãe, aquilo era um momento de carinho, não importava a sujeira interna e externa de seu pai, que transava com as operárias sujas e suadas nas galerias escuras.
Dentro das casas as matrioskas quebram a mãe de Russel o amava, numa tristeza incontida das baionetas que cantavam lá fora. Por isso, Russel sai correndo em direção às pradarias. Queria ele ir para Budapeste, pois dizem que lá, todas as emoções são ditosas e incontidas. Levaria seu trompete, e o estalar de seus dedos magros e sofridos, percorrem a pradaria do Leste Europeu. Russel amava aquele lugar, assim como o vento amava a face do seu pai, enegrecido pelo carvão, e os cabelos longos e loiros de sua mãe.

Capítulo II: Matrioska e o delírio das pradarias.

A mãe de Russel queria passear nas pradarias geladas. Ela mal conseguia ficar de pé, mas em seu sonho de mulher prestes a morrer, ela se via com os cabelos loiros de saudade balançando no vento gelado. E ela, em seus sonhos ainda lúcidos, balbuciava ao filho que o pai estava chegando enegrecido pelo carvão, surgindo no horizonte, como um soldado voltando da guerra, carregando uma baioneta com a ponta cheia de sangue seco. Era a glória, manchada, tingida de sangue oxidado, coagulado, a beleza da violência fazendo sua mãe sentir desejo reprimido, a crueldade estampada em desejo, imaginava seu velho homem tingindo-se com o sangue do inimigo, via as veias e tendões dos braços, transcenderem em trilhas do desejo, enquanto carregava os corpos para serem jogados em valas fétidas. Depois, sonhava com os olhos dele, azuis quase cinzas de dilúvio… Via as chamas que queimavam os cadáveres dançando nos olhos quase cristalinos, e o fogo e esforço fazendo-o suar, mas ele era apenas um trabalhador das minas de carvão, e ela sabia que estava morrendo, nas pradarias do Leste Europeu. “Russel meu filho, apague a luz, e diga ao teu pai que eu o amo.” Russel apagou a luz, secou as lágrimas, pegou nas mãos de sua irmã, e foram brincar nas pradarias tristes.  A matrioska continua incompleta, a saudade fragmentada em mil pedaços.

Capítulo III: O sorriso de Elissa.

Elissa quer correr pelos prados, ela queria sorrir também, mas é uma criança com um sorriso fraturado pelas passeatas onde as famílias carregam seus entes mortos pela guerra, furados por baionetas que cantam uma canção triste de que a ideologia deve ser engolida às forças, com todo o sangue amargo. “Papai vai chegar Russel!”, gritava Elissa correndo em círculos, o olhar triste da mãe perdido no horizonte, enquanto ela penteava os cabelos na janela. Russel tocando seu trompete, intercalando com goles de vodka. Se ele soubesse escrever, seria um poeta bêbado. A mãe gritava da janela que precisaria de panos úmidos, ela sempre falava isso, pois queria limpar o rosto manchado de carvão quando o pai de Russel chegasse, mas ele nunca chegou. Sua mãe sempre dizia que seu pai tinha uma beleza imunda, e a única coisa limpa nele eram os olhos azuis de dilúvio, de uma beleza cristalina quase cinzenta, contraposta a sua beleza enegrecida. Os trabalhos nas minas de carvão deixavam seu pai imundo… Era a fuligem do carvão que o fazia bater na mãe. Quando ele retornava ao trabalho, a mãe sempre gritava que o amava na soleira da porta. Via seu velho homem indo embora, depois dele dar-lhe um beijo e dizer que também a amava. Sempre pedia perdão pelos braços roxos dela, a culpa era sempre da vodka.

“Russel, um dia terá a pele tão áspera quanto a de teu pai, será um herói nas terras sofridas e gélidas, o carvão não nos mata, apenas nos deixa imundos…”

Russel sabia da tosse negra do pai, Elissa quando viu seu pai manchar um velho lenço de escarro negro, por mais que fosse uma criança, sabia que algo muito errado existia ali, mas sua mãe queria o tempo todo se enganar que aquilo era normal. Por isso Russel estava sempre com Elissa, brincando de correr um atrás do outro na pradaria deserta, próximo ao velho casebre de madeira que viviam. Quando Elissa estava com ele, ela sempre o contemplava com um riso de criança, e quando ela chora de saudades do pai, ela corre para os braços roxos da mãe. Russel pega sua garrafa de vodka e caminha sem rumo com seu trompete pelas pradarias gélidas. Notas tristes ecoam, um falcão da pradaria apenas o observa ao longe.

Capítulo IV: Canção Cigana.

A mãe de Russel canta versos ciganos, enquanto Russel brinca com Elissa erguendo ela para o alto. A sobriedade abandonada depois de uma garrafa de vodka o faz querer voar e fazerem os outros voarem. Gostaria de voar por cima dos campos de trigo, e quando se aproximasse dos campos de guerra, carregaria a alma dos soldados mortos junto a Deus. Queria Russel ser um mensageiro, um mensageiro de almas, pegar as almas que rondam próximas as valas lotadas de corpos, já indistintos um dos outros. Existiam ali talvez, civis, soldados… Crianças. Um dia, andando pelas pradarias, encontrou uma família abrindo uma cova para enterrar a filha. A mãe com o lenço envolto na cabeça, com a face molhada pelas lágrimas causadas pelo terrível Ceifeiro. O pai abria a cova, enquanto o irmão mais velho segurava um corpinho frágil envolto por um velho pano branco. Russel viu que uma mecha de cabelo loiro escapava do lençol. Poderia ser sua irmãzinha ali, mas quem cavaria a cova? Ele… Seu pai não existia mais, e quando aparecia era apenas um vulto etílico que estuprava a mãe. Mas sabia ele, que ela gostava daquele “jogo”, preferia pensar que aquilo era um jogo, uma brincadeira de mal gosto de adultos. Gostaria que a guerra estivesse por perto, pois as canções dos tiros das baionetas ao longe, abafariam os gritos hipócritas da mãe.

Olhou para mãe, ela ainda cantava silenciosamente versos ciganos, e eles corriam como uma lebre. Russel sabia, que toda vez que a mãe entoava aquela canção, era porque a saudade queria gritar. E ela gritava, em forma de canção cigana.

Capítulo V: Saudade e Vodka

O pai voltando das minas, Russel jamais espera isso. Ele foi uma alma que partiu, um pobre homem soterrado pelas convicções sujas e negras, ou uma explosão do gás metano, explosão de arrependimento talvez, por ter abandonado os filhos com uma mulher miserável e já doente. Ele se foi, deu um sorriso de canto de boca e um beijo longo em Elissa e Russel. Olhou calmamente para a mãe de Russel, que trançava os cabelos em frente ao espelho, longos cabelos loiros, como os trigais avulsos das pradarias tristes do leste europeu, beijou-a como se fosse a última vez, e num afago nos cabelos, disse apenas que a amava.
O pai de Russel tinha lindos olhos azuis e um silêncio que matava, e por vezes, quando voltava bêbado das minas, mãos que estrangulavam. Mas todas as manhãs, quando Russel acordava e olhava em direção à cama dos pais, via os dois abraçados como se nada tivesse acontecido. E os lençóis ao chão, com manchas negras de carvão. Esta foi última vez que viu o pai junto à mãe, e crê que apesar de tudo, sentia saudades de seu velho, dos momentos em que eles caminhavam pelas estepes a caçar coelhos, tiros de baioneta embalados a goles de vodka. “Cuide delas”, foram últimas palavras de seu pai, e assim, ele sumiu, caminhando nas pradarias, com os olhos azuis baixos de tormenta.

Capítulo VI: O lobo das estepes.

Russel em seu pesadelo corre, e sua mãe afunda na lama, gritando para ele pegar os casacos, as botas e não esquecer-se de esquentar-se junto à fogueira, pois as pradarias e estepes são frias e perigosas. Ele corre, e em sua mente a voz da mãe ecoa como um grito nas montanhas solitárias, “Corra meu filhinho, o inverno chegou e ele dói, suas narinas se abrem, no âmago da sua respiração de fugitivo, e eu sei que você sente o lobo te espreitando na escuridão…”. E ele realmente sabe, tal como sua mãe.

Sabe o quanto o uivo do lobo curioso tem um cheiro agradável, que no fechar dos olhos ao dormir, o Lobo das Estepes o persegue, assim como as digitais dos sujos dedos de carvão de seu velho e desaparecido pai, estampadas no último copo de vodka que ele deixou em cima da mesa antes de partir pra sempre. A sombra do Lobo que o atormenta, responsável pelo ato dele encolher o corpo enquanto dorme, mas deixa em seu rosto um sorriso triste, desesperado, mas com tom de sadismo consumado.

Em seu pesadelo ele vai para os prados e estepes com sua baioneta para caçar coelhos, ele sempre encontra o tal do lobo, mas ele sabe que nunca conseguirá matá-lo. Quando o uivo aproxima-se ele fecha os olhos e tampa os ouvidos, porque a Beleza do Lobo certamente irá cegá-lo e o uivo enlouquecedor, o deixará surdo. A mãe dele, suja de lama, balbucia, “Reze meu filho… Reze”, mas enquanto o lobo rasteja sobre o corpo dele, arranhando-lhe as costas, ele não sente dor. Na cena onírica do lobo em cima dele o lambendo e encarando, um medo com desejo sutil, e sabe ele, que por mais que ele feche os olhos enquanto o desejo permeia em seu sexo, não poderá deixar-se cair em tentação, mas sempre se esquece de rezar. A mordida do lobo na linha tênue do pescoço já se tornou um vício, uma ferida que ele tenta cicatrizar jogando vodka, ferida que arde como paixão dançando nas chamas das fogueiras dos soldados russos em campanha. Será ele hipócrita, ao sentir dor e prazer? Não sabe ele dizer… Ao acordar, assustado, manda três copos de vodka goela abaixo, enquanto as matrioskas da pequena mesa o encaram, cada uma com um julgamento de tamanho diferente, mas não importa, sabe e esconde por baixo de sua matriz de arrependimento, que quando o lobo das estepes se aproxima, as estrelas surgem no seu céu particular, e ele corre… Do uivo que ensurdece e beleza que mata. Na sua baioneta nunca tem bala de prata… E jamais terá…

Capítulo VII: Na beira do rio Neva.

 Russel estava tocando uma canção na beira do Rio Neva. Estava ele e Elissa no enterro da mãe. Uma cruz de madeira no chão, algumas flores. Fizeram uma viagem na velha carroça do tio Vlad. Russel sabia que sua mãe pediria uma canção triste e também sabia que queria ser enterrada com sua matrioska. Ela não admitia, mas sua mãe era refém da tristeza, e de alguma forma ela aprendeu a lidar com aquilo, inclusive amá-la. Entoou uma canção cigana, a favorita de sua mãe, e enquanto cantava, veio a lembrança de sua mãe entoando canções ciganas apoiada na janela de sua velha e deteriorada morada na pradaria. Ela sempre começava a cantar com os olhos perdidos no horizonte, e terminava sempre com os olhos fechados e o rosto molhado em lágrimas. Depois que cantava, ela enchia a cara de vodka, e ficava a amaldiçoar os olhos claros e rosto enegrecido de carvão do marido. Russel segurava as mãos magras e trêmulas da mãe. Sua mãe dizia que a única coisa que tinha era um gosto amargo na boca. De fato tinha, era sangue, a doença já estava instalada e a Morte estava chegando a galope. Quando ela deu o último suspiro na cama, Russel sentiu um vento gelado, e não era das pradarias. Foi seu primeiro encontro frente à face fria e invisível daquela que ninguém consegue fugir.

Dias antes, como se ela soubesse do que a esperava, chamou Russel para a beira da cama. Ele estava com um prato de sopa rala de batatas, única coisa que tinha naquela pobre casa, e dava para a mãe comer, as mãos dela não conseguiam mais segurar uma colher. “Russel meu filho, estou encomendada aos anjos. Cuide bem da sua irmã, não me culpe, daqui a pouco seu pai chega, segure as mãos dele sujas de carvão, e vá passear com ele nos Montes Urais. As colinas de Valdai também são bonitas, nos casamos lá. Meu sonho era pegar um trem e partir para São Petersburgo, ver as passeatas de Rjev…”.

Russel deu um sorriso, na última pá de terra da beira do Neva que cobriu o corpo da mãe envolto em um velho lençol de manchas negras que ela se recusava a lavar. De alguma forma, havia ali um pedaço de seu pai, mesmo que seja apenas pó negro de hulha. Lembrou-se do semblante triste da matrioska que ficava ao lado da cama. Um dia, seu pai o levou para as margens do rio Volga. Passaram a noite lá, encobertos pelo frio, aquecidos pela vodka. A baioneta do pai descansava ao seu lado, e dois coelhos assavam na fogueira. Foi ali naquele local, que seu pai disse uma frase ao qual ele nunca esqueceu:

Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…

Após os últimos ritos do enterro, Russel segurou as mãos da pequena Elissa. Foram passear na beira do rio Neva. Provavelmente Elissa vai morar com o tio Vlad, e então Russel vai desaparecer com seu trompete, cujo som será levado sem rumo pelo vento gelado do leste europeu.

Capítulo VIII: до свидания (Adeus)

Elissa ficou na guarda de seu tio Vlad. Partiram para Praga, onde poderá ter uma vida melhor. Russel resolveu ficar, renunciou todo conforto, quis seguir suas raízes, tão fincadas nas pradarias frias. Carregaria sempre consigo a velha baioneta do pai, será um nômade, trocando seu trompete noite adentro. Sonhará com um lobo salivante mordendo o pescoço, acordará e tomará o primeiro gole de vodka, que descerá inquietante garganta adentro. Talvez aceite algum trabalho temporário nas minas de carvão que encontrar pelo caminho.  Conhecerá o amor de várias mulheres, algumas delas dar-lhe-ão um abrigo temporário. Depois ele irá embora, sem se despedir, deixando uma mancha de carvão nos pobres lençóis das matrioskas, que se abriram ao seu toque de homem em arquejos de desejo, que as encheu de calor nas madrugadas frias. Amará cada uma delas, mas as quebrará em milhares de pedaços. Um dia ele vai se apaixonar, mas ele crê que terá que renunciar a dor. A mãe sofreu demais, passando anos e anos esperando seu pai surgir no horizonte. Quando aparecia, deixava nela marcas de embriaguez, e um amor que nem anjos e demônios são capazes de compreender. Ela amava  o marido e sonhava com sua vinda triunfante, como um soldado que venceu a guerra. O tempo passou, sua mãe morreu e foi enterrada na beira do rio Neva envolta de lençóis usados e sujos de hulha.

Viu Elissa partindo numa velha carroça com uma mala, partiria depois em um monstro de ferro que a levaria para Praga. Nunca se esquecerá dela, olhando para trás, com os olhos cinzentos em lágrimas e parte do seu cabelo loiro saindo do lenço, que tremulava ao vento. Era mais um dia frio nas pradarias, mas desta vez era um dia bem mais triste, carregado de adeus, e uma saudade eterna, que gritaria para sempre sua dor por todo Leste Europeu.

Russel seguirá então os conselhos do pai, pois não há mais nada que ele possa fazer. Apenas seguir em direção ao rio, e tudo o que ele mais queria, era poder ver o tempo cumprir seu dever, o fogo em linha horizontal, sem rumo, queimando lembranças tristes. Num saco velho, colocou suas coisas, ele nunca teve muito, a pobreza nunca o permitiu nada mais que roupas deterioradas, uma caneca velha, o trompete  e a baioneta do pai… Um velho caderno preto com partituras. Bastava cortar algumas lenhas para comprar garrafas de vodka. Tinha os velhos cobertores e lençóis gastos da mãe. Apenas isso bastava. Colocou fogo no velho casebre de madeira. Todo o cheiro ocre de lembranças despedaçadas e transformadas em cinzas. Foi embora, sem olhar para trás. Uma nuvem negra subia para o céu, avisando a todos que ali não tinha mais nada a se fazer, nada a se guardar, todas as matrioskas eram cacos, e não havia tempo para vitrais. A velha porcelana russa perdeu todo o seu valor.

E a voz de seu pai, e a lembrança dos olhos azuis, envolto de rugas de expressão e um cansaço tão triste que chegava a ser belo, foram com ele, na sua busca por acalento onde as baionetas cantavam canções de sorrisos e amores estilhaçados:

“Dê-me sua mão, vamos cantar na beira do Volga, vou te contar um segredo meu filho:
Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…”

Ele percorreu milhas e milhas, até chegar à beira do rio Volga. E Russel desapareceu, sem deixar rastros, nem folhas de seu velho caderno preto, restou apenas esperança, e a lembrança daqueles que ouviram seu trompete de notas incólumes às tragédias. Ficou a lembrança de seu calor nos dias das mulheres que ele amou. E todas elas, tal como sua mãe, aguardam até hoje, ele surgir no horizonte. Russel desapareceu, mas sua marca permaneceu, e os ventos gelados do Leste Europeu nunca mais foram os mesmos.

“ …entregava-se àquele alheamento profundo, uma espécie de torpor, continuando o caminho sem dar a mínima importância às coisas circunstantes, sem querer reparar no que o cercava. De quando em vez, entretanto, resmungava palavras indistintas, em virtude do hábito de monologar, de que, ainda havia pouco, se confessava atacado. Percebia que, às vezes, as ideias se lhe embaralhavam no cérebro e adquiria consciência de sua extrema fraqueza”. (Fiodor Dostoiesvski)

Atlantic City.

Everything dies, baby, that’s a fact
But maybe everything that dies someday comes back…

Esta noite vejo-me sorrindo, com os olhos brilhantes, tal como um diamante louco negro e todo lapidado. Eu vou colocar a mais bela música, tomar um banho longo, e a água morna irá envolver-me como um abraço, um abraço que eu sinto tanta falta. Olho para o alto, fecho meus olhos, tranco minha respiração enquanto a água escorre pelo meu rosto, e na ponta dos pés, como uma bailarina, eu ergo as mãos, me espreguiçando longamente soltando um suspiro.

Saio do banho, vejo meu sorriso no espelho, rosto molhado e sereno. A vida é muito curta para termos preocupações, por isso eu ando nua pelo quarto, onde as velas são acesas e eu encontro minha felicidade em jogos de luz e sombra.

A infusão de maças e canela me chama. Eu tombo a chaleira e me divirto com as nuvens do calor brincando no ar. Mas as canelas em casca com maçãs inteiras… Não é esse aroma estimulante que eu mais queria agora…

Ouço os carros passarem em alta velocidade lá fora, mas o Tempo passa devagar, talvez ele saiba que é minha hora de amar, enquanto eu bebo um chá, eu penso em você bebendo goles de café, são meus turbilhões de pensamentos, pensando em um toque que não é meu, mãos que não são minhas.

Borrifo em locais estratégicos meu melhor perfume, aquele que eu guardei especialmente para quando for beijar meu pescoço, aquele que me traduz como mulher e lhe dará boas memórias olfativas. Estou cantando um murmúrio, aquela música que está tocando em minha mente, e que tanto faz-me lembrar de teus olhos, pena que o dia não está chuvoso lá fora.

Escolho o meu melhor vestido, soltando meus cabelos. Lembro-me de teu afago doce e suave em meus cabelos ondulados, naquele dia de ventania, e desde então, em dias de vento de outono, cada afago do vento eu acho que é o teu,  queria eu afagar teus cabelos novamente, bagunça-los e deixá-lo zangado, depois ver-te rir perante minha alma de criança levada.

Eu vejo Vênus lá no horizonte, vejo o brilho vermelho de marte, queria ensinar-lhe sobre as constelações, você não sabia o que eram plêiades, mas sabia o que era um conglomerado de estrelas. Eu o completei neste quesito.

A brisa noturna bate no meu rosto, e eu deito em minha cama, fixando o horizonte com olhos perdidos. Eu olho para todos os cantos, vejo minha coleção de canetas, meus livros na estante, minhas garrafas de vinho vazias, mas com as rosas que você me deu. Tenho em mãos agora um enfadonho caderno de prosas, e fora isso não há mais ninguém, a única que me acompanha agora é a saudade e a espera.

Toque a campainha, a porta sempre estará aberta. Entre e fique, veja como eu estou agora, todos os dias eu me pergunto se o Amor não passa de um joguinho besta entre lençóis, mas eu espero que você chegue com teus olhos azuis de dilúvio e bagunce meus cabelos, que rasgue meu vestido caro de boutique do Jardim Cambuí.

Enquanto isso não acontece, eu sigo cantarolando “Something” dos Beatles. Quando eu coloco minhas mãos juntas, quando eu abraço o travesseiro, ou quando eu olho o horizonte e vejo as luzes amarelas da cidade, ao longe, é apenas em você que eu penso, e este perfume que eu sinto agora, é o cheiro que eu quero que sinta em minha pele, a estrela lá fora, aquele brilho do passado, não quero admirar sozinha.
Agora eu posso pintar um quadro seu, com meus crayons, porque eu consigo enxergar todas as suas cores, e eu tenho a esperança, de escutar a sua voz me chamando, para irmos para Atlantic City.

Put your makeup on, fix your hair up pretty and meet me tonight in Atlantic City!

Memórias de Café com livros: A mulher no balcão.

No meu dia nublado de abril, eu escritora insone não remunerada, analista de sistemas estressada, porém em férias, estava a escrever na mesa de uma cafeteria de livraria. Naquela mesa, com  papéis espalhados, canetas, água com gás e uma xícara de expresso duplo, pensando na minha meta literária do dia, pensamentos misturados em meio a sonhos e também em Amor, aquele Amor que chamamos de Amor Próprio, junto daquele que envenena os apaixonados. Não sou de ferro, queria ser um ser assexuado e desprovido de sentimentos, eu poderia tal como um ciborgue, emular sentimentos. Sentimento fingido as pessoas dão mais valor, aquele sem sinceridade, sem a típica bofetada, cheia de palavras afáveis a todo momento, o sapo que virou príncipe e outras mitificações. Diante de uma pessoa que vê a realidade das coisas, sem precisar ser moldada, o encanto cai, as coisas ficam difíceis, pois sabe-se, sempre queremos alguém a quem possamos moldar ao nosso jeito, é mais fácil de aceitar, engolir e menos perturbador. No meio de uma sociedade como a nossa, aquele que não questiona, concorda com tudo, vai na moda, é muito é mais fácil de se conviver, pois sendo assim, normal, os problemas ficam mais fáceis de serem contornados. Gostamos de coisas afáveis. Verdade dói, mentiras são mais confortáveis.

Comprei o volume um de contos do Hemingway, e um pocket do Charles Bukowski, “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. Apaixonei-me por estes dois escritores, intensos, nus, crus, estética brutal. Não gosto de escrita mimimi. Gosto da realidade, aprecio ler e sentir bofetadas no rosto e isso não é sadismo, é apreciar ler aqueles que não vivem em um mundo de fantasias.

Na minha frente, estava sentada uma mulher com uma camisa listrada branca e verde-água. Ela carregava duas bolsas grandes, uma preta e uma marrom. Mulher bonita, deveria ter uns trinta e poucos anos. Era loira, cabelo na altura do pescoço, olhos azuis. Pediu chocolate quente no balcão da cafeteria. Já tomei daquele chocolate quente, aliás, creio eu que já tenha tomado todos os drinks que eles servem lá. Como viciada na arte de elaboração de bebidas com cafeína, passar o dia regado a doses de cafés bem elaborados é um certo luxo ao qual me permito. Café, assim como o vinho, expande meus horizontes.

Foi neste mesmo lugar que eu tive meu primeiro contato com Hemingway, através do livro “O Velho e o Mar”. E desde então esse livro e muitos trechos dele moram em minha memória. Perdi as contas de quantas vezes eu já o li, dentro de uma tarde solitária, e em todas as vezes, eu acho mais formidável, impossível não se encantar cada vez vez mais, e ir colhendo, aqui e ali, impressões que nos deixou passar batido. Eu só tenho a agradecer a quem me apresentou tal obra de arte, tem de ter uma sensibilidade grande, para compreender a beleza do que está escrito aí, e isso não encontramos em qualquer um. Pessoas assim são raras, um diamante quase lapidado, digo quase pois não somos perfeitos, muito pelo contrário, muitas vezes temos mais defeitos do que qualidades propriamente ditas, mas nossas qualidades nos deixa ignorar os defeitos, ou simplesmente aceitá-los. Não sei lidar com o silêncio, já disse aqui, mas aos poucos, eu vou aprendendo. Preciso do silêncio para completar o pedaço que falta em mim. Sempre gostei das pessoas silenciosas, vejo um equilíbrio ao qual não tenho, essas pessoas falam com os olhos, precisam de poucas palavras para se expressarem. Muitas vezes eu não consigo fazer isso sem verbalizar no mínimo umas cem palavras. Saudades daqueles olhos silenciosos, mas tão expressivos, que fazem meus olhos, tão grandes, baixarem desajeitados, pois é, acreditem, eu sou tímida diante daquilo que me desconcerta. Em questões de Amor, eu muitas vezes me protejo por trás de meus muros do ego. É aquele medo de se machucar, mas eu sempre acabo pegando uma marreta, e mostrando o que há por trás do muro, mesmo que na sutileza, eu posso não ver mais aquele que me tirou da toca, eu posso fingir que não estou mais nem aí, mas isso é uma maldição aparente, eu me preocupo, não nego, mas tem horas que deixo meu amor próprio falar mais alto, mas aqui dentro, bate um coração já tão estilhaçado, mas que mantem a beleza e a sinceridade de um vitral.

Em tantos anos de leituras, noite a dentro, dia a fora, como que eu nunca li nada do Hemingway? Creio eu que tudo acontece na hora certa, talvez eu não tinha na época maturidade para entender o que estava escrito ali. Existem certos livros que aparecem nos momentos certos, não estou dizendo que Hemingway é leitura para a partir dos 25 anos, iguais aqueles cremes anti-rugas, mas certas leituras dependem de um nível de amadurecimento mental, de novas ideias, conceitos, perda de preconceitos. Talvez, se eu tivesse lido “O Velho e o Mar” com quinze anos, eu não teria a eloquência necessária para entender ao certo o que está escrito ali. Aliás, eu estou desviando o assunto dessa memória, vamos voltar ao tema, para a mulher no balcão.

Como eu havia escrito, linhas acima, ela estava tomando um chocolate quente, e se eu dizer que era uma mulher de olhos tristes? Uma mulher que em seus olhos carregava uma angústia que me sensibilizou a ponto de interromper meu texto sobre a fonte da juventude, e pegar um outro papel para escrever o que agora, vocês estão lendo. Comecei a escrever em uma folha sulfite cor de laranja. “Ana você é uma invasora”, não, eu não sou. Se me olhassem escrevendo, veriam uma mulher com olhos grandes e perdidos, mas que vê tudo ao redor, sem se deixar ser percebida, por isso não sou uma invasora, eu não encaro, eu apenas observo, na calma, na paz. O ato de encarar é chegar sem pedir permissão e criar uma zona de desconforto. Observar não, você vê, mas finge que não percebe, toma seu café, na boa, na paz, olha para outros lados, concentra-se, folheia, rabisca. É o simples ato de sentir-se vivo. Eu sou uma pessoa que desligada, viajo na maionese, penso na morte da bezerra quase que o tempo todo, mas isso não me impede de estar atenta ao meu redor. Nem sempre fui assim é uma questão de prática.  Comecei a escrever memórias há pouco tempo, e não fiz isso com mais frequência para não ser interpretada como um ser invasor e/ou imoral. Gosto de escrever sobre a vida, sobre momentos, assim, como estes, perdidos nas observações da vida transbordando incógnitas numa cafeteria, cuja mesa ocupada por uma mulher de tristes olhos azuis, que de repente tirou um bloco de anotações da bolsa, que mexia o chocolate quente com uma colher bonita, mas o olhar dela, distante, aflito. Posso enganar-me com as minhas observações, minhas convicções podem estar erradas, pois estamos fadados a ter ou sermos vítimas de falsos julgamentos, mas veja bem, eu não cheguei nela e perguntei por que ela tinha os olhos tão tristes, guardei minha opinião pra mim, e agora compartilho com vocês,  que apesar dos olhos tristes, a beleza daquela mulher ao tomar goles curtos daquela bebida quente, não poderia passar por despercebido. Eu não perco os instantes, e quando eu perco, eu jogo uma maldição em mim mesma.  Não perco a beleza de meus breves minutos, se a tristeza ou a beleza me atrai, eu me entrego a ela. A beleza dos olhos nus anda comigo, e por mais que essa minha característica possa jogar contra eu mesma, eu não sou uma pessoa imoral, pois meus instantes não são o meu eco, o tempo todo. Permito-me amar aquilo que me desconcerta, e escrever meus sentimentos perante a sinfonia de vida ao meu redor, se você fez ou faz parte da minha vida, e de alguma forma me encantou, serás imortalizado aqui, em linhas insones, e tais como os olhos azuis daquela mulher, em meio a goles de quem sabe um conforto, eu canto aqui minha composição perante o encanto que teus olhos me trouxeram, e eu sinto em meu peito a saudade me apertando. Escrevo porque sinto saudades…Saudades de teus olhos azuis, aqui, sentada neste mesmo local que eu roubei a bolacha que acompanhava teu café.

“três dias depois partimos, a menina má e eu, de trem, para a sua casinha nos arredores de sète, no alto de uma colina, de onde se via o formoso mar cantado por valery em “o cemitério marinho”. era uma casinha pequena, austera, bonita, bem-ajeitada, com um jardinzinho. durante duas semanas ela passou tão bem, parecia tão contente que, contrariando toda a lógica, pensei que podia se recuperar. uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.
– e por que pensou isso?
– porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. não foi, bom menino?”  Trecho de travessuras de uma menina má, de Vargas Llosa.
 
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Incubus

Isabella acordou tarde, queria aproveitar a folga que ganhou do trabalho. Tomou um banho morno para espantar a sonolência depois de uma noite regada a dois comprimidos de Rivotril de meio miligrama, e duas xícaras de chá de erva cidreira. Aprendeu com seu pai a arte de apreciar uma boa xícara de chá. Aprendeu com ele e um amigo que chá e silêncio são grandes aliados. Lembra ela, em tempos de adolescência,, quando passava as tardes de seus dias deitada na rede da varanda da casa dos pais, com seus livros emprestados da biblioteca do colégio, pois naquela época ela não se dava ao luxo de poder comprar os livros que quisesse. Seu amado pai sempre dizia que se ela estudasse, teria tudo aquilo que quisesse, pois o suor de sua labuta sempre valeria à pena, por mais que à princípio tivesse que abrir mão de muitas coisas. Ela, em devaneios de adolescente, imaginava-se tendo em sua casa uma enorme biblioteca, e não hesitaria em pagar caro em um livro, pois livros eram a sua fuga. A realidade sempre foi muito cruel para ser respirada com exclusividade. Ela precisava de uma válvula de escape.

Dez anos se passaram desde seus saudosos quinze anos, e hoje ela toma conta de sua própria vida, mas tinha muitos sonhos a serem realizados pela frente. Era muito jovem para querer ter tudo o que almejava. Ela tem algumas listas mentais de desejos a se realizarem até o dia que não pertencer mais a este mundo.

Naquela manhã de segunda, o dia nasceu indeciso. Era uma manhã cinzenta, intercalada por tímidos raios de sol. O ônibus chegou, ela disse bom dia ao motorista e sentou-se na poltrona da frente. Tirou um livro da bolsa, um livro sobre a temática da abordagem da feiúra em obras de arte. Ela permitia-se em apreciar o feio, o cruel, o anormal…A feiúra também tem sua dádiva, e em uma obra de arte, ela se enche de significados. Chegou em um capítulo que falava sobre demônios, nas mais possíveis esferas do que se pode ser considerado como arte. Havia ali um quadro. Havia uma mulher seminua sendo seduzida por um demônio. Ela encantou-se pela pintura ali refletida, aquele demônio cheio de luxúria apoiado no corpo branco de uma mulher perdida em devaneios oníricos, uma das mãos do demônio, apertava o seio. Olhou aquilo e lembrou-se, que Jung chamava isso de Incubus. São demônios causadores de sonhos eróticos em mulheres. O correspondente ao sonho eróticos dos homens, chama-se Sucubus.

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Isabella também tinha sonhos eróticos, e confessa que são aqueles que ela mais gosta, pois acorda mais disposta. Ela não tem aquele senso religioso de que está com o capeta no corpo. Sexo é uma necessidade, não é pecado, é prazeroso, bonito, puro. Naquela madrugada ela teve um sonho, permeado por um lindo demônio de olhos azuis, um anjo caído. Jazia ele como uma maldição entre as pernas, e na madrugada de outono ele lhe aquecia, encantava-lhe com o seu sorriso angelical e sua fúria sexual, o calor que precisava naquela noite e nas que viriam também.

Acordou descoberta, nua, cobertores ao chão. Um ventinho frio entrava pela fresta da janela, mas havia um calor úmido entre as pernas, sabia que seu demônio cor de olhos celestes havia lhe feito uma visita. Era como se ele tivesse as cópias das chaves de sua casa, e tivesse entrado de mansinho, dentro de sua casa, no seu caos organizado. Ele a olharia serenamente dormindo esparramada em sua solitária cama de solteiro, e a invadiria, apoiando-se sobre o peito dela, mãos descendo ventre abaixo.

Com aquela lembrança de seu sonho sem vergonha da madrugada, ela tentou mudar de rumo de pensamento. Olhou pela janela e contemplou várias flores que nascem em pleno asfalto. Viu uma senhora regando as plantas com um pequeno regador de plástico, e que via aquela senhora todas as manhãs, exceto em dias chuvosos. Aquela senhora, em dias de chuva, devia apoiar-se janela e contemplar a chuva dando um descanso pra ela. Um presente da natureza, uma dádiva do céu, e enquanto isso, ela tomava goles de café descafeinado  Isabella adorava isso, imaginar situações, reações, mas sem ter aquela neura de ter que comprovar que todas as suas convicções eram verdadeiras.

Voltou para o livro, lá estava a imagem do Incubus invasor, e ele voltou a atormentá-la, olhando nos olhos. Doce tormenta, pensou ela. Contorceu-se, cruzou as pernas no ônibus, eis aí uma tática para estimular o prazer sem ser percebida. Se apertava toda, e sua face pegava fogo. Queria ela que o dia acabasse logo, e que a noite chegasse majestosa, que o Sono a chamasse, um convite para se deitar nua debaixo das cobertas. Quando ela fechasse os olhos e no primeiro suspiro de sono majestoso, seu adorável Incubus a invadiria, deixaria seu corpo úmido como a grama de uma manhã de orvalho, uma tempestade a inundaria, escorrendo do meio de suas pernas. Vergonha…vergonha era algo que Isabella definitivamente não sentia.

girassol..
Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.
(Sonho de uma Noite de Verão)
William Shakespeare

Minha falta de paciência

Pensei em coisas altamente pornográficas naquela mesa de bar. Permita-me, senhor elegante, ser devorada por ti em sonhos insones. Aqui neste lugar, onde o vinho escorre na minha garganta já tão sufocada pelo pretérito da saudade, penso em beber-lhe, assim, como goles de saudade, como goles de Amor que está tanto em falta neste mundo. Até mesmo eu, errante apaixonada, dom quixote de saias, deixo-me levar várias vezes que o Amor é apenas uma invenção tolas dos homens, descritas em versos de Petrarca. Uma loucura arquetípica dos homens, um devaneio não desmentido ainda pela ciência.

Aqui nessas linhas, não há espaço para pudor algum, não há nem um centímetro para descrever vergonha. Aqui é lugar de pouca vergonha, dou-lhe meu rosto para bater, sendo que uma face é pra bater, outra é beijar, como quiseres. Tiro minhas roupas em frente aos teus olhos tão desacostumados às coisas vazias deste mundo, talvez isso lhe traga algum momento de coerência, lembrando que Ícaro, da mitologia grega, também achou coerente colocar um par de asas e voar bem próximo ao sol. Em sua verdade imposta pelo sonho dele, ele caiu ferido e queimado no ar. Suas asas, estavam pesadas. A água do mar trouxe-lhe o peso da realidade.

Queria agora, devorar-lhe com os olhos, queria agora, neste instante, que rasgasse meu babydoll caro de seda e renda. Queria agora 12 horas de putaria num quarto de motel. Queria agora meu corpo insanamente encharcado com sua saliva. Isso te envergonha?Desculpe-me senhor, não sou mulher de meias palavras. Sou mulher para ser amada sem pudor num quarto de motel ou qualquer lugar ao qual pudermos transar. Quero sentir-lhe entre minhas pernas, como um errante perdido no meio da estrada, queria gemer em seus ouvidos, transbordar em você todas as minhas gotas de razão. Queria eu, ao fitar teus lindos olhos azuis, perder-me em um milhão de parábolas talvez inexplicadas. Queria ser eu, aquela que lhe tira o sono, mesmo sendo um homem cansado e cujo cansaço seja talvez em excesso, meu motivo de ser sua insônia repente em minutos de cansaço, abra-lhe um sorriso tímido nos lábios. A saudade de seus beijos me fazem perder a paciência…

Tal como vinho italiano.

Descobri uma forma de desejo que escorre pela garganta. Não queridos leitores, não estou falando de sexo oral. Estou falando sobre o calor causado por goles de vinho italiano, especificamente Cavicchioli Lambrusco, safra de 1928. Vinho expande meus horizontes, faz-me sentir plena, com todas as emoções à flor da pele, é como se as cores e sabores ficassem mais nítidos, meu universo tão incompleto, é como se os vapores etílicos desta bebida me desse todas as coisas que eu sonho, seja de olhos abertos, ou fechados, nas minhas poucas horas de sono de todos os dias. Numa dessas sensações, a vontade louca de fazer amor impera como frames por segundo numa tela de cinema. Não importa a quantidade de álcool que escorre como um rio garganta dentro, basta o cheiro de vinho, vinho é extremamente sensual. Um dia, sonhei que tomamos uma garrafa de vinho e transamos escondidos embaixo da mesa. Quando eu era garotinha, às vezes pegava escondido um copo e tomava embaixo da mesa. Na época, me dava sono, então logo em seguida eu ia dormir. Minha mãe achava que simplesmente era uma soneca infantil. Creio que o meu sonho cruzou essa lembrança de minha infância e traçou um desejo de minha alma já adulta mas com traços de criança feliz. Ainda adoro algodão-doce, a ponto de lamber meus dedos como sorvo o vinho de teus lábios manchados, pecado rubro, pele manchada de desejo. Nós dois rolando ao chão como garrafas ao chão. Você me quebra, em pedaços de emoção, faz-me tua lembrança doce surgir em mesas solitárias de bar. Cada gole solitário dessa bebida enebriante é um pedaço de tua pele que me toca os lábios, cada cheiro emanado da taça que eu levo à boca, é um cheiro teu envolvendo-me, uma lembrança de teu pescoço nu, consigo sentir seus tendões e veias aparentes, teu sangue nobre, tal como o vinho.

Nas minhas memórias encharcadas de lençol de motel, só tem lugar para aquele ao qual eu imortalizo nessas linhas tão tortas, aquele que me levou ao sétimo céu, aquele que eu não tenho vergonha alguma de admitir que o quero entre as pernas. Sou uma mulher e não mais uma garotinha de 15 anos, cheia de incertezas. A vida é muito curta para nos privar de desejos. Queria agora, neste momento em que escrevo solitária numa mesa de bar, que ele estivesse ao meu lado agora, mas a falta de sorte anda me perseguindo com seus passos de glória descontente. Ando perdida em um oceano, esperando este homem de olhos incógnitos, olhos que eu daria minha emoção mais incontida numa bandeja servida com carne e molho pardo. Uma faca, um garfo, deguste-me sem moderação. Queria beijá-lo, seus lábios silenciosos, beijaria teus olhos azuis todos os dias, se eu pudesse, mas eu transformo esse desejo em metáfora, eu olho para o céu e vejo a imensidão infinita de teus olhos. Eu não consigo tocar e nem beijar o céu, mas apenas o fato de olhar para o alto e lembrar-me de ti, já me és suficiente para traçar uma lembrança saudosa de teus olhos que falam.

Queria deitar-me em seu peito, e escutar suas histórias, espalhar-me em sua cama, como uma garrafa de vinho, rolando no chão. Teu rosto, linhas de perfeição com todos os seus vincos e barba por fazer, um traço de sua pele branca me convidando a devorar-lhe como um fruto proibido, fruto doce, cheio de sumo, incontido em meus sonhos encharcados durante a madrugada, nas poucas horas que eu durmo. Venha e derrame toda a sua fúria, sabor, calor. Meu corpo é uma taça, e você é delicioso como um vinho italiano.

“O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso
Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinha
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo”

Dois filhos, um banheiro e abacate com especiarias.

Ela chegou na pressa do retorno à morada. Depois de um dia no trabalho, pegou os filhos no colégio. Ela queria descansar, mas as crianças gritavam no carro que queriam biscoitos. Talvez ela desencavasse alguma receita da sua avó, daqueles biscoitos amanteigados. Sua vida sem tempo não permitia ela, mãe solteira, ter a dignidade e o gosto de cozinhar todos os dias para os filhos. Ela era uma mulher moderna, independente, 33 anos e 2 filhos. Amou um homem em um flerte rápido. Ela se apaixonou, ele não, na verdade, ela não sabe, até hoje. O pai das crianças vêm pegá-las todo final de semana. Ela acredita no Amor dele pelos filhos. Pode não amá-la, apesar de todo o respeito e por nunca ter deixado ela na mão, mesmo ela recusando a pensão, ele fez questão de contribuir com os filhos, gerados num momento de descontrole. A vida, é feita de erros e acertos. Ela não acha que errou, ela amou aquele homem desde o primeiro instante que os olhos dela encontraram os dele. Quando soube que estava grávida, de gêmeos, bateu um desespero. Omitiu por três meses, mas chega um tempo que o corpo da mulher muda, e não há mais nada a esconder. Um dia o chamou, depois de várias tentativas fracassadas de dizer o quanto ela gostava dele, naquele momento da fatídica conversa via SMS “Precisamos conversar, sério…”, enviada depois de cerca de dezenas mensagens carinhosas sem resposta alguma, ela finalmente se tocou que era uma trouxa apaixonada. Tola, tola, tola…Pensava ela. Ela foi apenas um alarme de incêndio. Um homem tão bonito, poderia ter quantas mulheres quisesse, num estralar de dedos. Ela se lembra, o quanto as mulheres entortavam o pescoço quando ele passava, seu magnetismo era e ainda é, surreal. Dentro de uma farmácia, ele comprava colírio e era o colírio. As mulheres do balcão o devoravam com os olhos, e ela dava risada assistindo a cena de dentro do carro. Nunca contou isso a ele. Deixou que ele percebesse isso sozinho, ele era desligado, olhos perdidos e distantes em pensamentos que a tanto fascinavam. Ela achava que faria diferença, num mundo de mulheres com a cabeça alienada e afundada em sapatos, esmaltes, roupas, novelas e fofocas de salão, ela observava as coisas que ninguém reparava. Nunca foi uma mulher leviana, em sua vida, poucos homens se atreveram a entrar em seu mundinho, tão fechado, tão pra poucos. Um amigo de colegial, lhe disse uma vez, que ela pensava demais, e isso seria prejudicial pra ela. Às vezes, dizia esse amigo, nós temos que nos entregar falsamente para as convicções clichês desse mundo, pelo menos tentar não soar tão diferente. “Nos faz sofrer menos”, pensa ela. Muitas vezes ela pensa que deveria ser uma vadia, quantas vezes já ouviu que homem gosta mesmo daquelas que pisam em cima, cospem no prato que comem e dão pra meio mundo, sem valor algum. Tratar os homens como objetos, como bibelôs mal feitos de lojas de R$1,99. Usaria eles a seu bel prazer, e assim ouviria um ridículo “Eu te amo” ou outra coisa qualquer, ou um “bom dia vamos transar agora”, sem precisar ser quase misericordiosa. Pobre mulher tola, acredita sempre na boa índole dos homens, e que um dia, quem sabe, alguém a olhe com os olhos nus, e não como uma mulher que dá medo e uma certa ponta de fascínio medroso, cansou de ouvir frases de “se todas as mulheres do mundo fossem como você, teríamos um mundo melhor”, e depois de todo um envolvimento, ouvir que mulher inteligente dá trabalho, pois não é possível moldá-las, elas tem argumento pra tudo, são imbatíveis. Homens tolos, mal sabem eles que a mulher inteligente sabe se calar quando está errada, basta ter argumentos tão bons quanto o delas, o suficiente para os olhos brilharem e se calarem diante da convicção que está na frente de um Homem e não de um ser com um pênis, apenas um pênis. Ela sempre pensou que homens são como o abacate. Quando muito crus, são extremamente sem graça. Um amontoado de pelos, e uma coisa comprida que fica dura de repente no meio das pernas. Nada muito atraente. Mas quando misturado com bastante limão, açúcar, ou batido com leite, com outros ingredientes, se torna algo extraordinariamente divino. Abacates puros não fazem sentir tesão nenhum, apenas repulsa. Aqueles abacates que ficam se olhando no espelho enquanto levantam peso e não sabem pensar em outra coisa a não ser carro, futebol, peitudas anencéfalas siliconadas e o quanto seus tríceps e bíceps aumentaram. Aqueles abacates que nunca leram nada na vida, sem ser legendas de revista Penthouse. Aqueles que dizem que mulher inteligente dá trabalho. Os homens ao qual essa mulher amou, são seres divinos, com ingredientes que a fizeram salivar e desejar mais. Não eram um amontoado de pelos deslizando em cima de seu corpo, não era um objeto estranho invadindo seu ventre, era algo doce, único e que a fazia subir pelas paredes. Pena que a felicidade dura pouco, e homens abacate com especiarias sejam tão raros. No mundo de hoje, temos os abacates, mas falta em muito as especiarias.

Um dia, ela saiu de sua kitnet em bairro universitário, isso numa época antes de ter os dois filhos, uma menina e um menino. Deus não foi tão cruel com ela, deu-lhe ao menos um casal, gêmeos, mas ao qual poderia diferenciar. Ela saiu de sua casa decidida e se divertir e sair com o primeiro homem interessante aos olhos (apenas aos olhos) que a fizesse sorrir. “Vou ser vadia”, pensou ela. Dizem por aí, que a mulher que não é vadia por uma noite não é feliz, porque reza a lenda que toda mulher um dia vai comer na mão de um homem, assim como todo homem um dia se engana, comerá feito um cão nas mãos de uma mulher. Alguns inclusive, segundo histórias ao qual ela já ouviu, levam tapas no rosto da mão que comem feito cachorrinhos famintos de rua. Ela colocou uma roupa atraente, bonita, mas não vulgar. Queria ser uma vadia, mas uma vadia com classe. Transaria na primeira noite com aquele que lhe dissesse que ela é linda e que fosse atraente aos olhos dela. Apenas isso: SEXO, SEXO, SEXO, BELEZA, BELEZA, nada de papos intelectuais de livros e afins. Cansou de fazer as coisas por sentimento. “Gente boazinha e que dá valor ao sentimento alheio só se fode nessa vida”, pensava ela no entorno da primeira taça de vinho chileno que pediu no balcão. Naquela noite teria Pink Floyd cover, uma das suas bandas favoritas. Esperava encontrar alguém ali para transar ao som de “The great gig in the sky”, tocada em repeat contínuo, ou durante o álbum inteiro do “The Dark Side of the moon”. Talvez discutissem algo sobre a velha história de que o álbum é sincronizado com o filme “O Mágico de Oz”, e talvez surgisse uma desculpa esfarrapada de assistirem o filme, num apê bagunçado de cidade universitária. Ela tentaria ser igual ao homem de lata, sem coração, mas no fundo, o sonho dele era ter um coração batendo ali dentro. Ela queria ser uma mulher de lata…Sem coração. Coração só atrapalha, mesmo quando só se quer Sexo. Chegaram ali, naquela embriagada noite, vários homens, mas a bebida a fazia ficar mais sã. Não saiu, não “pegou” ninguém. Ficou lá até o fim do show, divagando sobre um milhão de pensamentos que a bombardeavam durante a flauta lírica em combinação com guitarras e sintetizadores psicodélicos. Voltou pra sua casa, semi-embriagada, sozinha, num táxi que pegou próximo ao Terminal. Chegou, atirou os sapatos para cada canto do quarto, deitou na cama. As hélices do ventilador giravam sem parar, ela estava com calor, o vinho lhe aquecia. Um calor entre as pernas, mas não teve nenhum homem que a satisfizesse. Para entrar em seu ventre, era necessário açúcar e bastante limão. Definitivamente, ser mulher lata não era pra ela. Sentiu nojo de ter tentado ser uma vadia. Na verdade ela não tentou, ela entrou naquele lugar, pediu uma garrafa de vinho, 3 cervejas Irish Red e ficou pensando na morte da bezerra, especificamente na vaca do “Atom Heart Mother”.

Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco "Atom Heart Mother"
Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco “Atom Heart Mother”

Ficou assim, pensando na sua tolice, e decidiu que nunca mais tentaria vestir a máscara da mulher “Like a Valeska Popozuda”. A vontade de dar seria controlada consigo mesma e num próximo homem que a fizesse sorrir por dentro e por fora. E que ela fosse, aquelas mulheres com uma casa e um cão, ela não tinha o dom de ser leviana. Ela poderia fazer sexo sem qualquer resposta de sentimento do outro lado, mas alguma forma de Amor ela têm de sentir por aquele que deita em seu peito e a devora. E foi assim com o pai de seus dois filhos. A reação dele ao “Estou grávida”, foi um misto de surpresa. Ela, 30 anos nas costas, sabia que ele não assumiria, se ele gostasse dela, teria dado algum sinal de vida. Conversaram, eles se vêem, trocam confidências, mas não por tempo suficiente para terem flertes. As crianças choravam e queriam o peito, ou queriam insistentemente subir em cima da mesa, ou brigarem pelo controle da casa. Ela recebia propostas, declarações, de tudo, sexo casual, amor eterno, mas o pai daquelas crianças enchia o mundo dela de cores. E cada vez que ela transava com um homem, era nele que ela pensava ao gozar. Hipocrisia, pensava ela, mas ela tinha que fazer o outro lado feliz, e ela se deixava enganar pela sensação induzida de prazer causada pela mente. HumildeMENTE, ela sentia orgasmos…

Num sábado ensolarado, seu Amor bateu à porta para buscar as crianças. Elas deram muito trabalho na noite de sexta, foram dormir tarde e incrivelmente estavam dormindo. Estavam dormindo todos em sua cama, e ela passou o dia insone, no sofá da sala lendo um livro. Adormeceu algumas horas com o livro no peito. Permitiu-se chorar com a estória ali, ela sempre chorava com Hemingway, pois foi ele que apresentou a metáfora da sorte lançada ao oceano, o céu de gaivotas, e a derrota em forma de tubarões. Naquele sofá, ela sonhou, como o velho Santiago em sua cama de jornais. Ela queria seu Manolim, ela cuidaria dele, e ele dela. Acordou num susto, seu celular tocava, seu velho Amor estava na porta, gritou “Já vou”, foi até o banheiro, escovou os dentes, deu uma ajeitada nos cabelos. Não podia fazer mais nada, pra ficar bonita demandaria um certo tempo e ele apenas buscaria as crianças. Ele não a amava mais, pode nunca ter amado, então, o que importava a Beleza?Abriu a porta, descalça, cabelo em desalinho, camisetão branco, calcinha de algodão por baixo, óculos de leitura, meio tortos na cara. Apenas um cheiro natural, sem perfume, mas o rosto todo iluminado, boca natural, sem traços escuros nos olhos, ela estava ali, de roupa, mas nua e crua. E lá estavam os velhos olhos azuis, e a saudade invasora. Deu-lhe um beijo no rosto, e disse que as crianças dormiam. Ele esperaria elas acordarem e foram pra cozinha, ela lhe fez uma xícara de café, fez a brincadeira de Dona Florinda e Professor Girafales, “Gostaria de entrar e tomar uma xícara de café?”, ele respondeu que não seria muito incomodo. Ela lhe ofereceria um copo de ovomaltine com leite bem gelado, mas as crianças tomavam aquilo como água. Puxaram tal qual o pai e a mãe, disse ela, e eles riram, baixinho na cozinha. Ela estendeu a xícara de café fumegante pra ele, e foram pra sala. Ele viu o livro “O velho e o Mar” num canto do sofá. Deu um sorriso de canto de boca, pegou o livro e viu onde estava o marcador de página, estava na parte sobre a sorte e a vontade do velho Santiago de querer poder comprá-la.

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.

Ele perguntou a ela se ela dormiu com o livro sobre o peito, enquanto ele esperava que ela respondesse o SMS que ele enviou sete e meia da manhã, ela disse que sim, e que já perdeu as contas de quantas vezes já leu aquele livro. Ele perguntou, quanto tempo ela estava jogada ao mar, sem pegar nenhum peixe. Ela disse: Três anos…três anos esperando a sorte, e essa era a única coisa que eu queria agora. Se pegaram, no sofá, as crianças poderiam acordar, ele queria deitar aquela mulher de cabelos bagunçados na cama do quarto, mas as crianças dormiam lá. Ela era uma mulher, com dois filhos e um banheiro…Transaram embaixo do chuveiro.

Quatro minicontos antes de dormir.

1-     Lola, a porca de Clarice.

Clarice tinha uma porca de estimação. A porca se chamava Lola, e gostava de dormir embaixo do tanque. Naquele sítio florido herdado de uma sucessão de gerações da família, ela corria em volta do casarão de mais de duzentos anos, feliz, com seu sorriso banguela na boca. Lola dormia estirada no gramado. Lola era quase um cachorro, só faltava latir. Tinha em seu pescoço um lindo lenço vermelho, tomava banho e só comia do bom e do melhor. Era paparicada por tudo e todos. Todas as visitas do sítio amavam aquela porquinha. Um dia, Clarice, no florescer de seus 16 anos, conheceu um rapaz, era seu primeiro contato com as maravilhas do sexo, e existia ali um pouquinho de amor, mas era, a princípio, apenas um tesão louco incontido. Numa manhã de sexta-feira seus pais viajaram, e voltariam apenas no domingo ao entardecer. Clarice queria ser popular, reconhecida, queria que todos a olhassem como uma garota descolada. Ela cansou de ser a garota caipira, já não era mais virgem, perdeu a virgindade no banheiro de uma festa regada à refrigerante e coxinha. Era uma festa da escola, proibido a ingestão de álcool por menores de 18 anos, mas ela bebia seus goles de vício agachada aos pés do seu namoradinho juvenil. Bebeu um copo de guaraná e comeu um brigadeiro. Queria tirar o gosto do licor de seu garotinho da boca. Estava com raiva, ele lhe disse que seus dentes raspavam muito e que ela precisava praticar mais. Mas ele sempre gozava, ”Filho da puta”, pensou ela.

Tudo pronto, Clarice conseguiu arrecadar dinheiro para as biritas e alguma comida. A festa rolando, gente se pegando, gente se drogando. Ela já havia bebido tequila, fumado um baseado e agora se preparava para o chá de cogumelos. O sexo nunca foi tão primitivo, as cores eram muito mais vivas, e o queijo da pizza onde as moscas deitavam suas emoções nunca foi tão delicioso.

A festa rolou, até tarde da noite do sábado. Sua fome era intensa. Perdeu as contas com quantos se deitou, até que o cansaço não a permitia mais viver a luxúria adolescente. Dormiu nua no gramado, e no dia seguinte tinha porco no rolete. Não era uma bad-trip, era Lola, sua amada porca rolando num espeto improvisado.

2 – Uma nuca, um pescoço, pele branca…Barba por fazer.

Era tarde da noite. Estava voltando do trabalho. Estava precisando de umas horas-extras para aquietar a mente. Aquietar no sentido de lhe tirar as coisas que a atormentavam. Ficou esperando o ônibus do outro lado da passarela. Colocou uma música nos ouvidos, e pensava o quanto o cansaço a fez querer sua quente e solitária cama. Entrou no ônibus, cumprimentou Chris, o motorista, e ele perguntou, “mais uma vez trabalhando até tarde! Assim vai ficar rica!”. Ela sorriu um riso cansado, os olhos pesados, querendo fechar. Sentou-se no banco nos fundos do ônibus. Hoje, ela não pensaria no seu amado, seria uma noite apenas para seu cansaço. Ela sabe que iria sonhar com ele de qualquer forma, e que de noite as ruas são escuras demais para ver as flores amarelas que nascem no asfalto. O girassol do jardim do bairro de subúrbio caiu e morreu, mas tinham as pequenas e graciosas florzinhas amarelas ou alaranjadas.

Ficou olhando as notícias no celular, o ônibus tardaria a sair, e nesse dia nem ao menos um livro tinha. Não conseguia dormir no ônibus, lhe incomoda dormir em coletivos, dá-lhe a impressão que vai se perder e que ela será esquecida, pois estava escondida, lá atrás. Entrou um rapaz no ônibus, ele sentou-se no banco à frente dela. Ela nem viu nada, estava por hora, delirante, pensando no projeto para a empresa. Ergueu os olhos, e se deparou com uma nuca, os fios castanhos claros do cabelo, que se encerravam na nuca, um pescoço branco, barba por fazer. Ela viu apenas uma nuca, uma linha tênue de pescoço, e um pedaço de uma barba acastanhada, e lembrou-se daquele que ela deixou duas marcas roxas num acesso de excitação e devoção. Não havia nada que a fizesse deixar seu dia branco de lembranças doces e selvagens. Os olhos daquele rapaz nem eram azuis, mas aquele pescoço foi o estopim para ela se perder na beleza dos olhos nus e expressivos daquele que lhe tirou o sono.

3 – Plástico

Letícia tinha regador de plástico, mas ela não tinha flores de verdade para regar, pois todas as flores que ela tinha sua vontade de cuidar delas era tão falsa quanto a sua vontade de viver.

Julio tinha uma boneca inflável de plástico, que segundo ele, gemia, adorava fazer sexo oral e transar com ele. Mas ele não tinha uma mulher de verdade para transar.

Cláudia tem uma árvore de natal, enfeitada e colorida. Tem presentes de plástico para dar à família. Todo natal tem risos, mas por dentro, ela é sempre de um riso de poliestireno e emoções plastificadas de PVC.

Marlene tem um homem que lhe diz todos os dias que a ama. Mas quem a satisfaz é seu brinquedinho de plástico.

Marcos queria ser amado, mas queria transar com uma mulher que não tivesse vínculo afetivo nenhum com ele. Poderia visitá-la e transar quando quiser, sem cobranças, uma mulher sem dor de cabeça e dias ruins. Pagou por Luciana, com seu dinheiro de plástico, no crédito e fatura só para daqui 40 dias.

4 – Esquina

Nas ruas amarelas do bairro de subúrbio, uma prostituta espera pelos clientes em seus carros esporte, suas desculpas de que trabalharam até tarde, seus desabafos sobre esposa frígida que finge orgasmo e acha que os engana. Ela sente frio em sua minúscula roupa, mas um conhaque com limão no bar da esquina a faz ignorar o frio insano da madrugada. Na última hora esteve com um cliente, ele queria apenas uma massagem, e ele gostava apenas de olhar. Ele pedia a ela que transasse com si mesmo, ele sempre pedia isso para a esposa, mas ela tinha vergonha. Jogou cem reais na cama e saiu de lá feliz. Ela não teve trabalho nenhum, bastava apenas pensar no seu velho homem, que um dia poderia voltar naquela esquina, em qualquer hora, talvez na próxima primavera.