A menina má.

Acordou numa manhã preguiçosa qualquer. Foi na geladeira, pegou um abacate grande, cortou ao meio, tirou a semente, cortou um limão, fez uma pasta verde e mole, espremeu o limão e depois, duas colheres de açúcar na mistura. Estava lá, a mistura verde quase alienígena. Levou ao quarto, comeu na cama enquanto lia o jornal que foi jogado no quintal às cinco horas da manhã.

Depois de corpo e alma alimentados, tomou um banho para expulsar aquele resto de sono que ainda habitava o corpo. De alma então renovada, saiu enfim ao trabalho, de salto alto, “meia fina” e vestido meia estação. Pegou seu livro de MarioVargas Llosa em cima da cabeceira e foi em direção ao ponto de ônibus. Como sempre, esqueceu-se de alguma coisa. Voltou correndo para sua casa buscar o carregador do celular… Correndo de salto alto, cabelo balançando de um lado para outro. Pegou o celular, fechou o portão e escutou o ônibus aproximando-se, correu de novo. O motorista da linha 325 a conhecia, pois habitualmente ela sempre pegava o mesmo ônibus. Ele parou a cem metros depois do ponto de ônibus, e então ela subiu esbaforida, suada, cabelo em desalinho. “Bom dia”, disse o motorista, rindo do desespero do medo de se atrasar e a graça dos cabelos bagunçadas da passageira habitual.

Ela passou pela catraca e sentou-se no primeiro banco desocupado que viu. Abriu o livro “Travessuras de uma menina má”. Começou a ler as primeiras linhas do capítulo em que havia parado. Viajou, ela não estava mais ali, estava fora de si mesma, enquanto isso, as paisagens urbanas passavam pela janela, e o vento entrava pela janela. Em seu mundinho de encontros e desencontros, esqueceu-se de arrumar os cabelos em desalinho, e nem percebeu a linha que se soltava da manga de seu vestido ¾, vestido meia estação. “Moça, moça, chegamos!”. Era o motorista do ônibus gritando de forma simpática e risonha, avisando que havia chegado ao terminal. Ela olhou ao redor, todos os demais passageiros haviam descido. Era o chamado para a vida. Deixou de ser menina má.

Estou lendo este livro. É maravilhoso!
Estou lendo este livro. É maravilhoso!

Memórias de Café com livros: A mulher no balcão.

No meu dia nublado de abril, eu escritora insone não remunerada, analista de sistemas estressada, porém em férias, estava a escrever na mesa de uma cafeteria de livraria. Naquela mesa, com  papéis espalhados, canetas, água com gás e uma xícara de expresso duplo, pensando na minha meta literária do dia, pensamentos misturados em meio a sonhos e também em Amor, aquele Amor que chamamos de Amor Próprio, junto daquele que envenena os apaixonados. Não sou de ferro, queria ser um ser assexuado e desprovido de sentimentos, eu poderia tal como um ciborgue, emular sentimentos. Sentimento fingido as pessoas dão mais valor, aquele sem sinceridade, sem a típica bofetada, cheia de palavras afáveis a todo momento, o sapo que virou príncipe e outras mitificações. Diante de uma pessoa que vê a realidade das coisas, sem precisar ser moldada, o encanto cai, as coisas ficam difíceis, pois sabe-se, sempre queremos alguém a quem possamos moldar ao nosso jeito, é mais fácil de aceitar, engolir e menos perturbador. No meio de uma sociedade como a nossa, aquele que não questiona, concorda com tudo, vai na moda, é muito é mais fácil de se conviver, pois sendo assim, normal, os problemas ficam mais fáceis de serem contornados. Gostamos de coisas afáveis. Verdade dói, mentiras são mais confortáveis.

Comprei o volume um de contos do Hemingway, e um pocket do Charles Bukowski, “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. Apaixonei-me por estes dois escritores, intensos, nus, crus, estética brutal. Não gosto de escrita mimimi. Gosto da realidade, aprecio ler e sentir bofetadas no rosto e isso não é sadismo, é apreciar ler aqueles que não vivem em um mundo de fantasias.

Na minha frente, estava sentada uma mulher com uma camisa listrada branca e verde-água. Ela carregava duas bolsas grandes, uma preta e uma marrom. Mulher bonita, deveria ter uns trinta e poucos anos. Era loira, cabelo na altura do pescoço, olhos azuis. Pediu chocolate quente no balcão da cafeteria. Já tomei daquele chocolate quente, aliás, creio eu que já tenha tomado todos os drinks que eles servem lá. Como viciada na arte de elaboração de bebidas com cafeína, passar o dia regado a doses de cafés bem elaborados é um certo luxo ao qual me permito. Café, assim como o vinho, expande meus horizontes.

Foi neste mesmo lugar que eu tive meu primeiro contato com Hemingway, através do livro “O Velho e o Mar”. E desde então esse livro e muitos trechos dele moram em minha memória. Perdi as contas de quantas vezes eu já o li, dentro de uma tarde solitária, e em todas as vezes, eu acho mais formidável, impossível não se encantar cada vez vez mais, e ir colhendo, aqui e ali, impressões que nos deixou passar batido. Eu só tenho a agradecer a quem me apresentou tal obra de arte, tem de ter uma sensibilidade grande, para compreender a beleza do que está escrito aí, e isso não encontramos em qualquer um. Pessoas assim são raras, um diamante quase lapidado, digo quase pois não somos perfeitos, muito pelo contrário, muitas vezes temos mais defeitos do que qualidades propriamente ditas, mas nossas qualidades nos deixa ignorar os defeitos, ou simplesmente aceitá-los. Não sei lidar com o silêncio, já disse aqui, mas aos poucos, eu vou aprendendo. Preciso do silêncio para completar o pedaço que falta em mim. Sempre gostei das pessoas silenciosas, vejo um equilíbrio ao qual não tenho, essas pessoas falam com os olhos, precisam de poucas palavras para se expressarem. Muitas vezes eu não consigo fazer isso sem verbalizar no mínimo umas cem palavras. Saudades daqueles olhos silenciosos, mas tão expressivos, que fazem meus olhos, tão grandes, baixarem desajeitados, pois é, acreditem, eu sou tímida diante daquilo que me desconcerta. Em questões de Amor, eu muitas vezes me protejo por trás de meus muros do ego. É aquele medo de se machucar, mas eu sempre acabo pegando uma marreta, e mostrando o que há por trás do muro, mesmo que na sutileza, eu posso não ver mais aquele que me tirou da toca, eu posso fingir que não estou mais nem aí, mas isso é uma maldição aparente, eu me preocupo, não nego, mas tem horas que deixo meu amor próprio falar mais alto, mas aqui dentro, bate um coração já tão estilhaçado, mas que mantem a beleza e a sinceridade de um vitral.

Em tantos anos de leituras, noite a dentro, dia a fora, como que eu nunca li nada do Hemingway? Creio eu que tudo acontece na hora certa, talvez eu não tinha na época maturidade para entender o que estava escrito ali. Existem certos livros que aparecem nos momentos certos, não estou dizendo que Hemingway é leitura para a partir dos 25 anos, iguais aqueles cremes anti-rugas, mas certas leituras dependem de um nível de amadurecimento mental, de novas ideias, conceitos, perda de preconceitos. Talvez, se eu tivesse lido “O Velho e o Mar” com quinze anos, eu não teria a eloquência necessária para entender ao certo o que está escrito ali. Aliás, eu estou desviando o assunto dessa memória, vamos voltar ao tema, para a mulher no balcão.

Como eu havia escrito, linhas acima, ela estava tomando um chocolate quente, e se eu dizer que era uma mulher de olhos tristes? Uma mulher que em seus olhos carregava uma angústia que me sensibilizou a ponto de interromper meu texto sobre a fonte da juventude, e pegar um outro papel para escrever o que agora, vocês estão lendo. Comecei a escrever em uma folha sulfite cor de laranja. “Ana você é uma invasora”, não, eu não sou. Se me olhassem escrevendo, veriam uma mulher com olhos grandes e perdidos, mas que vê tudo ao redor, sem se deixar ser percebida, por isso não sou uma invasora, eu não encaro, eu apenas observo, na calma, na paz. O ato de encarar é chegar sem pedir permissão e criar uma zona de desconforto. Observar não, você vê, mas finge que não percebe, toma seu café, na boa, na paz, olha para outros lados, concentra-se, folheia, rabisca. É o simples ato de sentir-se vivo. Eu sou uma pessoa que desligada, viajo na maionese, penso na morte da bezerra quase que o tempo todo, mas isso não me impede de estar atenta ao meu redor. Nem sempre fui assim é uma questão de prática.  Comecei a escrever memórias há pouco tempo, e não fiz isso com mais frequência para não ser interpretada como um ser invasor e/ou imoral. Gosto de escrever sobre a vida, sobre momentos, assim, como estes, perdidos nas observações da vida transbordando incógnitas numa cafeteria, cuja mesa ocupada por uma mulher de tristes olhos azuis, que de repente tirou um bloco de anotações da bolsa, que mexia o chocolate quente com uma colher bonita, mas o olhar dela, distante, aflito. Posso enganar-me com as minhas observações, minhas convicções podem estar erradas, pois estamos fadados a ter ou sermos vítimas de falsos julgamentos, mas veja bem, eu não cheguei nela e perguntei por que ela tinha os olhos tão tristes, guardei minha opinião pra mim, e agora compartilho com vocês,  que apesar dos olhos tristes, a beleza daquela mulher ao tomar goles curtos daquela bebida quente, não poderia passar por despercebido. Eu não perco os instantes, e quando eu perco, eu jogo uma maldição em mim mesma.  Não perco a beleza de meus breves minutos, se a tristeza ou a beleza me atrai, eu me entrego a ela. A beleza dos olhos nus anda comigo, e por mais que essa minha característica possa jogar contra eu mesma, eu não sou uma pessoa imoral, pois meus instantes não são o meu eco, o tempo todo. Permito-me amar aquilo que me desconcerta, e escrever meus sentimentos perante a sinfonia de vida ao meu redor, se você fez ou faz parte da minha vida, e de alguma forma me encantou, serás imortalizado aqui, em linhas insones, e tais como os olhos azuis daquela mulher, em meio a goles de quem sabe um conforto, eu canto aqui minha composição perante o encanto que teus olhos me trouxeram, e eu sinto em meu peito a saudade me apertando. Escrevo porque sinto saudades…Saudades de teus olhos azuis, aqui, sentada neste mesmo local que eu roubei a bolacha que acompanhava teu café.

“três dias depois partimos, a menina má e eu, de trem, para a sua casinha nos arredores de sète, no alto de uma colina, de onde se via o formoso mar cantado por valery em “o cemitério marinho”. era uma casinha pequena, austera, bonita, bem-ajeitada, com um jardinzinho. durante duas semanas ela passou tão bem, parecia tão contente que, contrariando toda a lógica, pensei que podia se recuperar. uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.
– e por que pensou isso?
– porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. não foi, bom menino?”  Trecho de travessuras de uma menina má, de Vargas Llosa.
 
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O Tempo e o Vento

“E aí meu velho amigo, como vai?, disse o Vento ao Tempo, como aqueles que não querem nada. “O que você quer?”, o Tempo falou, rabugento e desconfiado, já que o Vento não era nem um pouco confiável, pois levantava a saia e vestidos de mulheres quase indefesas, bagunça os cabelos daqueles que vão numa entrevista de emprego, destrói guarda-chuvas na companhia da amiga Tempestade. “Qual é velho Tempo?Teus ponteiros acordaram de TPM?, “Tu sabes que eu não tenho sexo. Não sou mulher e nem homem, não me venha com brincadeiras imbecis, não tens o que fazer não?Sabes que comigo ninguém brinca, pois sou a única verdade que existe neste universo, eu e a Morte, somos a única coisa na certeza dos pobres e tolos humanos”. O Tempo estava raivoso, bufando seus minutos e segundos. “Calma aê sabichão, mestre do universo!Os “tolos” humanos tentam te enganar o tempo inteiro, atrasando ou adiantando os seus ponteiros, mulheres aplicam um tal de botox pra esconder as rugas causadas por ti, outros “pobres” humanos, simplesmente te ignoram. Você assim como eu, é tão ou mais odiado, na mesma proporção daqueles que te amam. As pessoas vivem querendo brincar contigo, voltando ou adiantando seus minutos. Qual teu argumento agora, meu Rei?”, disse o Vento, com o raro aspecto sério, tão sério que por alguns minutos os moinhos de vento do planeta Terra pararam de girar. O Tempo encarou o Vento bufão, um verdadeiro bobo da corte, divertido mas muito chato. “Os tolos humanos que tentam me enganar, enganam somente a si mesmos, por isso são tolos, se acham tão espertos, que ao final se iludem, achando que conseguiram escapar das minhas areias, que escorrem tão lentamente numa antiga ampulheta. Humanos, sempre se desvencilhando das horas, mal sabem eles, que elas infindavelmente escorrerão por entre os dedos.” Na televisão de Dona Janete, a previsão do Tempo anunciava tempestade com rajadas de Vento…

Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.
Érico Veríssimo

 

Apartamento em chamas

Lúcia gosta de tomar banho com  banheiro cheio de velas. Ela usa isso como uma forma de ritual, sem compromisso, sem pressa alguma. Chega cansada do trabalho e coloca um John Coltrane ou B.B King para relaxar, pensar na vida, ter um sorriso de canto de boca, emoções surgidas nas trilhas de um solo de jazz ou blues tarado.

Deixa as roupas pelo caminho, fazendo uma trilha em direção ao banheiro, vai andando nua pelo apartamento de subúrbio, enquanto devora o resto de doce de banana feita pela avó no final de semana. Liga o computador, acompanha os último status das redes sociais e notícias de portais web, dá risada da última coluna do Zé Simão e seu colírio alucinógeno. Um ritual de bruxaria, um ritual totalmente pagão, seus demônio dançando em volta das chamas tremulantes da vela. Anjos soprando nos ouvidos, demônios em forma de pensamentos, todos num coro, na penumbra de jogo claro e escuro, luz e escuridão. Seu banheiro era um pintura barroca.

Faz amor consigo mesma, os homens que a tiram de sua toca, faz-lhe querer respirar por um mundo menos mesquinho com suas cores cinzas esparsas, no meio de seu mundinho tão colorido, solitário, a viva alma de um homem que veja suas nuances é tão raro quanto uma espuma de banho que seja duradoura. Lava a alma, lava o corpo, pensa em sexo e também em Amor.  Assopra a espuma nas mãos, como uma criança em corpo de mulher adulta. Não tem medo da solidão, pois ela é aquela que lhe completa  e faz sua consciência ão andar tanto nas sombras e nem tanto em caminhos iluminados, há o equilíbrio entre sombras e luz. Alimenta sua sede de viver pecando e fazendo as coisas certas, em passos de dança desalinhados, um tango teimoso.

Enxuga-se com uma felpuda , perfuma-se com algumas gotas de perfume atrás da orelha, 5 gotas tal como Marilyn Monroe em seus tempos áureos, amante de John Kennedy, baleado na surdina por um tiro na cabeça . Deita-se nua, na cama, com o corpo coberto apenas por um película perfumada de hidratante.  Agarra o travesseiro, aperta-o entre as pernas. Ela ama a solidão, mas gostaria de ali, naquele momento, naquele apartamento, queria o elemento Fogo, não queria a brisa suave do ar-condicionado.

Os carros passam lá embaixo, janelinhas de prédios ao redor, cheias de vida e histórias, sombras passando na janela, há um rio de emoções e segredos, diante de seus olhos naquela janela. Na penumbra de seu apartamento ela reflete sobre suas ambições e desejos. Numa aflição silenciosa, ela aperta um pouco mais o travesseiro entre as pernas. Queria um homem ali, no meio das pernas. Queria esquecer as velas acesas, perto de papéis, madeira nobre. Queria que as velas que fazem a trilha do banheiro ao quarto, trouxessem aquela chama que ela tanto necessita.

É verão naquela selva de pedra, naquela metrópole carregada de desejos,  ansiedades, ambições, todos os sete pecados capitais. Queria um apartamento em chamas, um homem entre as pernas e não um travesseiro. Um pouco de Amor…

Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.Albert Camus
Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.
Albert Camus

A imoralidade mora no céu…E no coração dos homens.

Este texto é a coisa mais imoral que eu já escrevi. Eu sou humana, fraca, eu tento resistir à tentação, mas ela é mais forte do eu. Eu não sou um eco de ninguém, apenas permito-me escrever um fluxo de pensamentos, um fluxo de coisas que fazem parte da minha tão simples vida. Sim , eu escrevo sobre a vida, eu adoro metáforas, eu acho a sutileza algo extremamente elegante. Eu demorei muito para escrever essa metáfora sobre o Sol e a Lua, entre outras coisas da Terra, eu terminei de escrevê-lo eram três horas da manhã. Fiquei por minutos, pensando se valia a pena publicá-lo ou não. Publiquei primeiramente no meu outro blog, que um grupo de escritores e ilustradores. E por que, você se pergunta, que eu fiquei por tempos pensando se publicava ou não? Porque este texto pode ser considerado muito, mas muito, absurdamente imoral. Mas este texto tem alma própria, é bonito, sensível, e se eu pensei em alguém pra escrever isso, não é porque não tenho idéias próprias, mas a partir do momento que algo entra em nossas vidas a ponto de refletirmos sobre nossas atitudes, razões, emoções, que nos traz um sorriso mais largo, enfim, não creio que seja imoral. Pode ser um tentação irresistível, claro, pode mesmo, e o que nos resta, como seres humanos, é quando não podemos vencer nossas convicções, nos entregamos ao pecado. E teria outro jeito? Renunciar, talvez, eu sou teimosa, odeio renúncias, sou uma eterna errante, eu não nego e não renúncio, eu luto até o fim. Não sou de renunciar sentimentos, já machuquei-me muito por ser assim, mas creio que tudo nesta vida vale a pena, tudo nós levamos como uma lição, e não devemos deixar de correr riscos. Sigo por aí, traindo minhas convicções, pecando, mas não deixo de ser única, ter virtudes reais, sentimentos intensos, ideias e pensamentos que voam como uma folha na fúria de um vento. Se deixo-me inspirar, é porque permito-me olhar o que há de Belo nesta vida, e eu não falo só de lindos olhos azuis e um sorriso. Existem muitas coisas além disso,  muitas coisas além do que os nossos olhos enxergam. Somente a Beleza não me basta, é preciso que toque meu coração e que me tire completamente da toca. São bem poucos, não passa nem de uma mão, se eu contar nos dedos, as pessoas que me fizeram crer que nem tudo está perdido. Sou uma eterna errante, tal como Dom Quixote, estou sempre em busca de causas perdidas.

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Este texto que vem logo abaixo é um conceito. Deve ser lido como uma fantasia, um sonho, uma metáfora. O Sol, a Lua, como dois apaixonados, trocando mensagens entre si.  Quem sabe, você, querido (a) leitor (a), leia este texto pensando na pessoa amada, mesmo que ele (a) não esteja anos luz de distância, mas sempre, ao amanhecer, no pôr do sol ou numa noite de lua cheia, quando olhar para o céu, é o sorriso desconcertante do ser amado que lhe surge  na memória. O amanhecer e os primeiros raios da manhã que nos aquece, o entardecer e os raios alaranjados do Soberano Sol, a Lua com suas fases…Todas esses fatores “astronômicos”, influenciam não só o movimento das marés do oceano, mas também os sentimentos e pensamentos dos homens e mulheres na Terra. Já dizia Lord Henry, em “O Retrato de Dorian Gray”, livro de Oscar Wilde:

– Não existe boa influência – respondeu Lord Henry. – Toda influência é imoral – imoral do ponto de vista científico -, porque influenciar uma pessoa é dar-lhe sua própria alma. Ela já não pensa com seus próprios pensamentos nem sente suas próprias paixões. Suas virtudes não são reais para ela. Seus pecados, se existem tais coisas, são emprestados. Torna-se um eco da música de outra pessoa. O objetivo da vida é o autodesenvolvimento. Cumprir a própria natureza perfeitamente – essa é a razão por que estamos aqui. As pessoas têm medo de si mesmas, hoje em dia. Esqueceram-se de seu principal dever. Claro que são caridosas: alimentam os famintos, vestem os mendigos. Mas suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. O terror da sociedade, que é a base da moral, e o terror de Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam. Mas eu acredito que se um homem vivesse sua vida completamente, desse forma a todo sentimento, expressão a todo pensamento, a realidade a cada sonho, acredito que o mundo ganharia um impulso novo de alegria. Mas o mais corajoso dos homens tem medo de si mesmo. Cada impulso que lutamos para estrangular aninha-se na mente e nos envenena. O corpo peca uma vez e não tem nada mais a ver com o pecado, pois a ação é um modo de purificação. Nada permanece, a não ser a lembrança de um prazer ou desgosto. A única maneira de se livrar de uma tentação é entregar-se a ela…

Quando o Sol ou a Lua não aparecem, é porque estão cansados de ser a inspiração e influência amorosa dos seres da Terra. Eles se entristecem de tal forma, que se escondem por trás de nuvens. Por vezes, a lua fica minguante, ela quer mostrar apenas uma parte da sua saudade, mas ela é amada mesmo assim. Nós, humanos, entregamos todas as nossas tentações e pecados embaixo do calor de uma estrela imponente, e fazemos declarações sob o Luar.

Espero que gostem, e que ao terminarem de ler este texto, pensem na pessoa amada, mandem uma mensagem dizendo “Eu te amo”, ou dizer que está com saudades, e agradeça, de alguma forma, por essa pessoa ter surgido em sua vida e iluminado seu sorriso e razão de viver. E se você, querido (a) leitor (a), que ama alguém, e a pessoa não saiba disso, meu amigo (a), eu digo-lhe que a vida é muito curta para não tentar. Não se vive sem correr riscos, lembrem-se disso. Obrigada e boa leitura!

Prólogo.

– No começo existia apenas a escuridão. Então surgiu o sol, seu nome é Guaraci. Um dia ele ficou muito cansado e precisou dormir. Quando Guaraci fechou os olhos, tudo escureceu. Então, para iluminar a escuridão deixada por ele, enquanto ele fechava os olhos por longo período de tempo, ele criou a lua, e lhe deu Jaci, de alcunha. Ele Guaraci, criou uma Lua tão bonita que imediatamente apaixonou-se por ela. Encantou-se de uma forma tão intensa, que o seu brilho a ofuscava, como se ela estivesse assustada perante tal intensidade de seus raios de sol. Ela, Jaci, era uma menina desajeitada perante o brilho inebriante do Sol, e este, um menino desajeitado perante a intensidade da Lua. A Lua desaparecia tímida, quando o Sol aparecia. Guaraci criou, então, o Amor, deu-lhe o nome de Rudá, e este era seu porta-voz. O Amor até então, a única coisa que ele conhecia, era a Luz ou as Trevas. Não importando as estações do ano, a passagem do tempo, o momento, não importava nada… Rudá sempre podia dizer a Jaci o quanto Guaraci, o rei soberano, era apaixonado por ela. Vendo que a Lua estava sempre sozinha, Guaraci criou também companheiras para ela. Deu-lhe o nome de Estrelas, elas tornaram-se então, suas irmãs. O rei soberano, enquanto dormia, não queria que sua amada ficasse sozinha. Os dois se amavam, apesar de toda distância. Guaraci ama tanto a Jaci, que lhe deu seu brilho e calor enquanto dormia.
De tempos em tempos, os amantes se tocam… E quando eles transformam-se em seres únicos, mesmo na efemeridade deste encontro, visto à unidade de tempo do nosso universo, o Amor, a maneira de como um toca o outro, se torna única. E foi assim, segundo os indígenas, que tudo o que existe quando olhamos o céu, é fruto do Amor de Guaraci e Jaci.

Cartas ao meu Rei Soberano

Esta noite eu me lembrei de você. Não sei por que exatamente escrevo-lhe “Esta noite”, pois você sabe que todas as noites, aqui no nosso céu, você sabe que eu penso em você e que eu posso sentir seus raios me aquecendo mesmo em noites de inverno, mesmo quando as nuvens me encobrem, quando eu me sinto cansada da contemplação dos seres humanos, quando o uivo dos lobos, e o miado dos gatos que namoram nos telhados ou em árvores, enfim, estes sons me enlouquecem e por momentos, meu Amor, eu quero ficar surda. Quero apenas que me toque, e que me aqueça ainda mais. Quero que olhem nosso Amor, e fiquem todos cegos. Alguns humanos, eu percebi, ficam acanhados perante um casal que se ama, os que estão solitários, olham pra mim e me pedem uma paixão, um Amor, alguns, sofrem, platonicamente, e me pedem que lhe trague o ser amado ao qual amam à distância. Eu posso ver o amor platônico deles rolando numa cama iluminada pela minha luz, mas nesta Terra, os humanos acreditam em algo que eles chamam de Esperança. Eu também, todas as noites, eu tenho algo bem semelhante a este sentimento dos terráqueos, seria também, Esperança? Amor, meu rei soberano, queria que o Universo adiantasse nosso encontro. Eu sinto muitas saudades, mesmo você deixando em mim todo o teu calor, eu sinto uma saudade extrema do momento efêmero de deitar-me em teu peito.

Esta noite, quando olhei lá embaixo, num bairro de subúrbio qualquer, eu encontrei uma flor chamada Girassol, dizem por aí que ele é UM flor, e não UMA flor. Ele é lindo, imponente, de uma beleza que o nosso amigo Tempo me contou que é como um verbo que não se conjuga. Alguns humanos se calam perante a Beleza do Girassol, outros dizem, o quanto é belo, tão belo quanto tu. Outros humanos, dizem que seus amados possuem a mesma beleza e sentimentos do Girassol. Um lobo me contou, que o Girassol, em dias chuvosos, murcha e coloca-se a olhar para os pés, tímido, como se estivesse acuado, ou se a chuva trouxesse a ele todos os tons de cinza que ela carrega. Ele, Girassol, agradece pelas gotas de chuva que caem aos pés, se sente pleno com a água escorrendo nas pétalas, mas ele sente falta do teu brilho, sente falta do teu calor aquecendo-lhe as pétalas. Quando você o aquece e ilumina, ele fica altivo e contente.

O lobo contou-me também, que o Girassol também gosta do silêncio. Ele pede para aqueles que pousam em seu ombro, que respeitem seu Silêncio. O Girassol é de poucas palavras, o Silêncio que ele carrega, é como um belo poema. O Girassol se fosse um ser humano, como os homens que caminham na Terra, ele amaria com olhos.

Alguns pássaros pousam nele e comem as sementes que saltam de seu miolo. E ele não esbraveja, sente-se feliz, e um dia, ele finalmente morre. Mas alguns pássaros, distraídos, deixam algumas sementes caírem ao chão.  Depois de alguns dias de chuva, outros dias iluminados com tua Força, Beleza e Calor, outro Girassol surge, mas, todos os Girassóis, me disse o Lobo, ficam extasiantes diante de ti. Eu confesso meu Amor, eu senti uma ponta de ciúme desta flor, pois ela está lá, sempre lhe contemplando, isso me perturba um pouco, pois sou eu, a sua Dama, aquela que lhe espera, sempre nova, para poder me aconchegar-me no teu peito, encher-lhe de beijos, e sussurrar meu êxtase nos teus ouvidos. Mas eu percebo, que da mesma maneira que aparentemente o Girassol lhe contempla, ele também me observa nas noites de minha estação nova ou cheia. Ele me olha, nos olhos, parece que quer me dizer algo, mas não consegue. É como se o Silêncio que ele carrega timidamente, fosse uma forma de aplauso. A Beleza do Girassol me deixa extasiada, por lembrar tanto você, as pétalas do Girassol, lembram-me teus raios, que me envolvem naquele momento que eu tão espero.

Eu te amo meu Amor, eu sei que já lhe escrevi isso, durante toda a nossa existência. As nuvens me dizem que você também sente saudades, que quando fecha os seus olhos e eu abro os meus, é comigo com quem sonha. Peço-lhe meu querido, toda a calma do universo. Eu, sempre mais expressiva, talvez porque os humanos, uma espécie de humano que eles chamam de “Poetas”, dizem que eu tenho alma feminina, que sou como as mulheres na Terra, porque elas, assim como eu, são cheias de fases, mas todas elas querem um abraço, o calor de um homem, que neste caso, dizem por aí, estes mesmos “Poetas”, que você, meu Sol soberano, é como o Homem, pois é de poucas palavras. Você gosta do Silêncio, eu sou verborrágica. Rudá entrega-lhe minhas mensagens em muitas linhas, você é tão calado que sinceramente eu lhe digo que teu silêncio por vezes me corrói. Eu me preocupo contigo, eu sei que estás aí, brilhando alto e imponente, que às vezes, como o Girassol, se esconde encolhendo-se em dias de chuva. Mas você não é sempre assim. Uma coruja buraqueira contou-me, que um dia, estava chovendo, e ela estava tomando um banho no toco de uma cerca na beira da estrada. E você apareceu, no meio da chuva, e fez uma coisa que os humanos chamam de arco-íris. Mas, ela disse-me que você chora toda vez que faz isso, ao entardecer. E você, em seu silêncio, nunca me contou.

Enfim, saiba meu Amado, que enquanto você estiver vivo, radiando seu calor, em Silêncio, eu sei que está por perto, pois eu sinto teu calor toda vez que eu acordo, e ele me lembra do dia em que eu me deitei em teu peito. Fique bem, pois aonde quer que esteja o meu pensamento eu levo junto a ti. 

Cartas do Rei Soberano para sua Rainha.

Olá, tudo bem? Andei muito ocupado. Alguns humanos estão construindo centros que captam minha energia. Chamam isso de Energia Solar, inserido num contexto que eles chamam de sustentabilidade. Eles me sufocam, e eu também os sufoco com o meu calor. Mas eles estão me sufocando tanto, que qualquer hora vai ter daquelas minhas tempestades solares. Ando muito cansado. Desculpa se eu não falo muito contigo. Sabes tu que eu gosto do silêncio, eu não tenho toda a sua intensidade, entenda, este é o meu jeito de ser.

Eu tenho uma surpresa pra você, estive conversando com tal de Deus, e ele me disse que há muito tempo atrás, ele criou uma espécie de flor que se assemelha a mim. O nome dela é Girassol, ele tem minhas cores, é calado. Tu já deves ter olhado para ele, e se sentido estranha alguma vez. Deus me confessou que fez à minha imagem e semelhança, algo que os humanos chamam de metáfora. Conhece essa palavra?Achei-a bem bonita, ME-TÁ-FO-RA, lindo não é? Deus disse que esta flor, fica imponente com meus raios, e quando eu vou dormir, este tal de Girassol fica na terra, e quando você aparece, ele contempla-lhe, e de uma maneira simbólica, “metaforicamente” falando, aquela flor ali, sou eu olhando pra ti. Deus é tão sacana, depois de bilhares de anos, ele foi-me contar isso só agora. Aquele Girassol é um mimo pra você, se você o olhar, e amá-lo, é a mim que está contemplando. Quando eu acordo, o Girassol sempre me fala que você estava linda, com suas manchinhas. Desculpe-me falar disso só agora, eu ando meio esquecido. Eu sempre esqueço as coisas, esses dias eu esqueci um dos meus neutrinos no espaço, achei até que havia esquecido, porém, desta vez eu encontrei.

Esses dias foram chuvosos, eu não apareci no céu, mas tentei pela bilionésima vez deixar um presente pra ti. Eu sou teimoso, eu sei que talvez não vá dar certo nunca, mas eu não desisto. Um dia você vai acordar, e a noite irá nascer duas vezes pra ti. Quando chove, eu saio timidamente da minha toca, e tento criar junto com minha amiga Chuva, um arco de sete cores. Você me disse que gosta de cores, e eu vejo sua alma assim, cheia de cores, nuances. Mas eu fico triste, pois esse arco é efêmero, quando chega o entardecer, ele some. Se você pudesse ver a Beleza dele, se encantaria. Eu sei, eu já lhe disse que a influência é imoral, mas se você pudesse ver o arco-íris, seria tão lindo. Estarei eu traindo a minha convicção?Eu acredito que não poderia ser melhor, mas eu confesso, eu sou como o Homem lá na Terra. Dizem os humanos, que o homem perante do que é belo e caótico, sente-se como um menino desajeitado. Eu não lhe prometo a mesma intensidade verborrágica, não tenho a mesma coragem que tu. Meus instantes, talvez sejam mal traduzidos, mas é minha forma de ser. Peço que releve isso. Boa noite querida.

Majesty – She & Him

 You were majesty
Your ropes were heavy
And your longing was a cutting from bone

1 – She
E o Amor se tornando real, os olhos abrindo-se aos poucos, diante de uma noite de brisa leve. E eles eram tão jovens, e ela era sua majestade. E quando ela sentia medo, ele aninhava ela nos braços e sussurra palavras doces nos ouvidos. E as lágrimas que escorriam de seus olhos molhavam as mãos dele, que lhe segurava o rosto dizendo olhos nos olhos que ela era especial e as tempestades nesta vida eram passagens, um mal necessário. E aqueles olhos, tão escuros, tão castanhos, como uma tempestade, tal como a canção de Renato Russo, olhos grandes e curiosos, com brilho de avelã. Em sua memória,seus olhos, boca e na pele, o sentido do toque, na mente. Uma fotografia que nunca envelhece, que nos momentos de raiva, quando está sozinha, essa fotografia quer queimar numa fogueira junto com todas as suas emoções, memórias, sentidos. E então ela lembra que a tentação é mais forte do que a sua própria força de vontade de parar. E a vontade de sair gritando, correndo, embaixo de uma tempestade, talvez, um raio cair sobre seu corpo e sofrer uma perda de memória, e todos os erros impulsivos serem completamente apagados da memória. Tão jovem, e os caminhos se estreitando e ela então caindo e caindo nos mesmos erros. E o corvo que sempre dizia, “Nunca mais, nunca mais”, canta sua velha canção novamente, e de noite, nas noites solitárias a canção do pássaro ecoa pelo quarto de paredes frias, e o seu medo invade, e todas as suas veias dilatadas, coração acelerado. Ela liga o ventilador, talvez o barulho das hélices girando, faça seus sentimentos dispersar, talvez a vontade de chorar vá embora, talvez o Amor que está surgindo devagar, a saudade sem sentido, vá embora, como uma dor aguda no corredor de um hospital, com o soro na veia e dopada de remédios. E quando ela fecha os olhos, ela se lembra, daqueles olhos, com as pupilas dilatadas pelo momento de êxtase, e ela era pra ele como sua droga, ela lhe dava prazer, mas não precisava ficar com ele, era uma troca, apenas uma troca. Ele precisava de sexo, e ela também, e eram apenas amigos. A vida poderia ser muito mais fácil, se não fosse a eterna luta entre a razão e o coração, tão irracional. E então ela se apaixonou e ela tentou vê-lo, pelo o que ele é, e tentou, sentir como ele se sentia. Ela poderia lhe estender a mão, poderia acariciar o rosto e fazer carinho na cabeça, ou simplesmente, deitar-lhe a cabeça no colo, e contar-lhe histórias engraçadas da infância, e fazê-lo rir, e ver seu sorriso, ou aquela risada besta de uma piada ruim. E ele poderia lhe dizer que ela não tem talento para ser humorista, apesar de toda força de vontade, e então, eles poderiam rir juntos, e ela acharia aquilo lindo, mesmo sem a beleza e o despudor do sexo. E ela queria que pelo menos, ele a enxergasse por dentro, e não como um pedaço de carne para degustar como quiser, quando quiser. E o Amor, pensou ela, é uma coisa bonita que dói, que aperta como uma corta no pescoço, tirando o ar, pouco a pouco, ela vai morrendo, por dentro, pouco a pouco ela se sente fraca, pouco a pouco as lágrimas escorrem pelos olhos e então ela vê o quanto ela cavou sua sepultura, e aos poucos a terra está sendo jogada sobre o corpo, e essa terra lhe cobriu os olhos, ela não enxerga mais, não respira, mas sente todo o peso do corpo dele, como uma tonelada de terra…E aquilo era bom… “Abra os olhos querida”, e então ela abriu e lá estavam os olhos de tempestade, e desde então eles a observam dormindo, entre lençóis, um sorriso sádico no rosto, uma meia luz entrando no quarto, e ele gostava disso.

2 – Him

So am I good or bad?
The way that things did turn out

E ele sempre a achou linda. Uma beleza exótica, um dia ele disse isso a ela. Ele poderia lhe dizer várias coisas, mas o tempo seria um bálsamo que lhe cairia pelo corpo, e o medo da rejeição talvez fosse embora. Ele era tímido, será que ela saberia disso?E o sexo era ótimo, ele sabia disso, mas os olhos dela eram um mistério não revelado. E quando ela o olhava, por cima, aqueles olhos contavam uma história sem início, meio ou fim, e ele queria entendê-la muito além do corpo, aquele corpo no início coberto por uma lingerie lânguida e meias 7/8, e ele olhava ela com um olhar de desejo, e ele então pensava que ela era apenas mais uma mulher, e que talvez ele poderia se apaixonar, e um dia magoá-la. Ele poderia fugir, ao não saber como fazer, ele era jovem e poderia ter várias mulheres, quando quisesse, porque iria se prender e acabar com a liberdade?E ela estava lá, tão linda e tão real,com todos os seus defeitos, e não como capas de revistas impressas em papel de editoração. E ele não queria se sentir tão mesquinho, e o medo de se apaixonar o amedronta como um menininho com medo de palhaço. Um dia ela lhe contou que tinha medo de palhaço, porque na cena de um filme,que ela havia assistido quando criança, um palhaço malvado arrastou um menino para dentro de um bueiro. E aquela cena não saia da cabeça dela. E então ele ri, por dentro, quando lembra que ela é linda sendo mesmo assim, meio boba, com seus medos traumáticos de criança ou quando conta aquela piada velha e ridícula dos pontinhos e ela ri dela mesma e ele gosta disso nela, o senso de humor, mesmo com suas crises de bipolaridade. E ele queria que ela visse aquele jogo de favores sexuais, estreitados em laços de amizade, para conhecê-la melhor, como mulher, e não com um objeto sexual.

But in my mind
I could still climb inside your bed
And I could be victorious
Still the only man
To pass through the glorious arch of your head.

A visão dela, enrolada nua nos lençóis, ou o toque ora suave ora agressivo em suas costas, o deixava fraco, e essa fraqueza o preocupava, pois era a mesma fraqueza que sentiu em experiências anteriores, com outras mulheres, uma lembrança ruim de relacionamentos mal resolvidos. Ele queria ser racional, aquela mulher ali deitada, era para ser apenas alguém para servir como válvula de escape, para suas necessidades íntimas. Ele não queria se envolver, para depois, talvez ser rejeitado. Desta vez, ele queria apenas ser mais um amigo. E quando ele começa a sentir amor por aquela criatura de cabelos emaranhados pós-sexo, ele quer apenas fugir como uma criança. E o corvo um dia lhe sussurrou nos ouvidos: “Nunca mais, nunca mais”, mas ele, mais uma vez, se deixou levar. E então ele olha ela adormecida, com o peito subindo lentamente numa respiração doce e calma, e então um sorriso lhe abre no rosto.

Homem e mulher, morrendo de sede,
Na noite se sentindo tão sozinhos,
E então talvez uma xícara de chá lhe acalmem os nervos,
Ele a deseja, essa mulher, sua majestade,
E ela também o desejo, amá-lo como um rei,
Acariciar seu rosto e amar com a devoção de uma súdita,
E ele queria, toda vez que ele tirasse seu manto de rainha,
Que ele não fosse tão pesado, e quando ele lhe beijasse a face,
Ela não se sentisse tão sozinha,

Ela era sua majestade, ele era o seu rei,
E os olhos grandes e escuros dele não eram mais tão tristes,
E os olhos grandes e escuros dela, lhe contava uma história,
E os anseios não eram mais impossíveis…o medo se chamava Amor,
O tempo os ensinou, que o medo pode nos surpreender.

“Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos, com incrustações de prata.
Enquanto o rei está assentado à sua mesa, o meu nardo exala o seu perfume.
O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.
Cânticos 1:10-13”