Estoicismo de coisas monásticas e mundanas

I

Santiago estava tomando um café. Era uma noite quente, 35 graus às 20h00. Estava esperando o funcionário novo chegar. Um aprendiz. De pouco sabia da vida, mas da Morte sabia que ele não sabia era nada. A campainha tocou. Olhou pelo circuito, o rapaz miúdo, tacanho, sem nenhum estereótipo aparente. Estava mais pra um nerd, pensando bem, na segunda análise. Tomou um gole lento e saboroso do café, abriu a porta, esboçou um sorriso,

-Boa Noite Tadeu! Tudo bem? Está preparado?

-Boa Noite Senhor Santiago! Acredito que sim… Vai ser um desafio e tanto não é? Já temos algo? – disse o guri, com ares de surpresa, misturada com curiosidade e aquela pitada de medo do desconhecido, disfarçado com a fala rápida, afobada e insegura.

— Oras! Que entusiasmo! Aceitas um café, antes de ir pra sala de preparo? E pode me chamar de Santiago, tenho 35 anos apenas. Sou um jovem adulto, digamos assim!

Tadeu sentou-se na poltrona, olhou para o quadro na parede: “Ajudando na hora da partida”. Um quadro bonito, retratando um campo de lírios brancos.

— Bem melhor que crisântemos não é? – disse Santiago, estendendo o café.

— Crisântemos? Nem sabia o nome dessa flor. Pra mim, é tudo flor. Minha mãe gosta de plantas. Eu gosto de cactos. Não precisam de água, sobrevivem comigo.

—Crisântemos são bonitos, mas são flores tristes. Uma flor clichê. Fico feliz quando a coroa fúnebre não é de crisântemos. A Morte poderia ser menos clichê. Mas eu entendo: o clichê custa-nos mais barato.

—Vamos, vou te mostrar o laboratório. Coloque essas roupas de proteção, e não se esqueça das luvas e da máscara. O cheiro de formol é forte.

Desceram as escadas, na casa do fundo dava para uma garagem com 2 carros fúnebres e 2 furgões.

— Quando vamos no IML ou hospitais retirar um corpo, utilizamos as vans. Elas tem de ser higienizadas todos os dias, de preferência após a retirada do corpo. Se o cadáver estiver em decomposição, a desinfecção deve ser imediata, senão o fedor fica, e demora muito tempo pra tirar ou, nunca sai.

— Senhor, opa, Santiago, o cheiro é tão ruim assim?

— Acredite amigo. Quando sentir nunca mais vai esquecer. Ele gruda em você, é persistente. Parece atá que nossa alma fica com isso. Mas sai, com um bom banho tomado, um pouco de borra de café ou limão.

Entraram numa sala de tamanho mediano, com três macas de anatomia, uma bancada com aparelhos de infusão, uma mesa móvel com bisturi, dissecadores, aspirador nasal, tesouras, agulha e linha, um armário com produtos químicos e um rádio, que tocava baixinho uma frequência de músicas antigas. Tadeu ficou imóvel, olhando aquele ambiente branco, as canaletas de escoamento de material biológico, o líquido na bomba de infusão e sobretudo, o cadáver coberto na maca central.

— Venha, vamos preparar este corpo. – Disse Santiago, colocando um avental por cima da roupa de proteção. Tome, vista também. Vamos começar devagar.

Ainda meio paralisado, mas voltando a si, olhou para o corpo disposto na maca. Era um homem, aparentemente 45 anos.

— Este é o Fabiano. Vítima de bala perdida. Morava na região do Paiol. Infelizmente estava na rua quando começou o tiroteio entre facções rivais. A bala perfurou o pulmão, ele já tinha problema de enfisema pulmonar. A família deixou a roupa e os sapatos não quer que tire a barba, pois ele amava ela e tinha um cuidado especial com a mesma. Foi a única exigência, querem um velório simples, caixão compensado. Nada muito luxuoso.

—Vamos fazer um processo para higienização e conservação do corpo. Chama-se Tanatopraxia. Faremos infusão de soluções de formol através de uma incisão perto da clavícula, para pegarmos a carótida e a jugular e vamos introduzir uma cânula de infusão. Faremos também aspiração de cavidades abdominal e intracraniana. Intracraniana a partir das fossas nasais. Parece assustador né? Mas isso traz maior segurança para o velório e consequentemente um pouco de conforto para a família.

— Parece difícil, na verdade. O que eu vou fazer?

— Você ai massagear o corpo para auxiliar no dreno do sangue. Depois do processo, vai me ajudar na lavagem do corpo e tamponamento, para prevenir qualquer tipo de vazamento. Hoje, no processo mais complexo, vai observar. Aos poucos pegarás o jeito.

O corte necroscópico desenhava um Y no corpo. Um cheiro forte e incomum ao Tadeu, junto com o cheiro de solução de formol das bombas injetoras o faziam respirar devagar, mas o coração batia acelerado.

— Está pensando quem está aí?

— Oi? – disse Tadeu, num pulo.

— Sabe, eu sempre trabalhei sozinho. Sem exceções, desde o acolhimento da família, a venda, a preparação do corpo, o funeral: em todos esses anos, me deparo com essa pergunta.

— Não entendi, que pergunta?

— Conheço esse olhar meu caro. Você está se perguntando: “Quem realmente era ele? Será que viveu intensamente?” – disse, Santiago, com um olhar de quem sabia e viveu tudo aquilo, pois dia após dia, a Morte sempre bate na sua porta.

— Pois é… Desculpa, está certo. Só não queria demonstrar minha perplexidade. Quero ser forte, e fazer meu trabalho. Não quero que me aches um maricas. Mas isso… – disse ele massageando as mãos rígidas do cadáver – É o momento mais sórdido ao qual eu passei. Minha pergunta: Seria ele, essa pessoa boa ou má? Como lidar com isso? Dia a dia? Poderia ser meu pai, homem bom, de honra. Poderia ser um uma pessoa cruel, aqui nessa mesa!

— Independente de tudo, você sempre realizará o seu trabalho como se fosse uma obra de arte. Você vai lapidá-la. Se a pessoa era má, com o seu trabalho, você irá deixá-la muito boa.

— É complexo!

— É complexo meu caro, mas, ao mesmo tempo, além disso, filosófico, quase metafísico.

— Metafísico? Por conta dos questionamento do “além” da vida?

— Muito mais do que isso. Aqui nesta mesa, esse corpo frio é resultado de milhões e milhões de anos de evolução.

— Uma evolução explicada pela ciência, mas e a alma? Eu acredito que exista uma alma, mesmo ela a ciência não tendo explicações para o fato.

— E temos o que intriga os filósofos desde tempos antigos: a ótica do bem e do mal. O que será que este homem foi: bom ou mal?

II

— Sarah, já lestes “Admirável Mundo Novo”? – disse Hélio, enquanto tomava um gole de cerveja escura.

— Já sim, por que? – olhei pra ele enquanto colocava o molho de receita secreta, num anel de cebola de esfera perfeita.

— Lembra da cena, do enforcado, balançando, demasiadamente humano?

— Sim! Cena extremamente perturbadora. Fiquei dias pensando no corpo, balançando tal como um pêndulo e o quanto somos robóticos num mundo ao qual, deveríamos ser selvagens.

— Enquanto houver sensibilidade entre nós, estamos bem. Quando encararmos a vida como pêndulos, vamos terminar como sobreviventes na luta pela vida, cada qual a sua maneira, porque no fundo, a vida sempre foi isso mesmo: SOBREVIVER.

E então Hélio deu aquele sorriso triste de Pierrot: digno de uma cena tragicômica da commedia dell’arte, apertando os olhos daquele jeito que eu tanto amava.

Foi a última vez que eu vi Hélio.

Eu, Sarah Almeida, 28 anos, tal como um pêndulo, dei voltas, Fui uma bússola, mas por vezes vivi quase sem rumo. Meu corpo e mente foram ao sul, norte, nordeste. Esquerda, direita, centro. Ele se deteve no sudeste, numa São Paulo louca e apressada, e meus pés apontaram para o sol que nasce de frente pra minha janela, quando meu corpo parou de convulsionar de desespero.

AGORA,

Há uma fileira de formigas negras entrando e saindo pelas minhas narinas. Sinto o fervilhar de larvas brancas e macias dançando em meu ouvido esquerdo. Sinto o tragicômico pedaço de carne entalado na minha garganta. A garganta que já se entalou de anos e anos de pequenas decepções do cotidiano, mas que bradou feliz durante os momentos de felicidade. Dias atrás, derrubei gelo em meus pés quando me desesperei momentos antes da minha morte, enquanto gritava-me o desespero ao sentir-me sufocada. Tentei gritar, mas a voz não saia, o ar não entrava em meus pulmões. A casa impecável e limpa me recebia. O pedaço quente de carne tenra e saborosa obstruindo o ar que me mantinha viva.

O chão duro e frio era como a Morte me chamando:

VENHA.

III

Duas semanas atrás, antes da Indesejada vir me chamar em sua jornada solitária, a crueza do verão já não me era mais contemplativa.

Eu enxergava ao meu redor uma sordidez de sorrisos desconhecidos e alheios num misto de emoção e raiva atenuadas por uma pitada tênue, porém sagaz de emoção. Olhava meu destino no redemoinho de espuma que formava-se na dose de café forte com mancha de leite. Pedi um pão com manteiga levemente aquecido, com toda aquela gordura amarela e sorridente. Uma mordida, e minhas artérias entupindo… E eu imaginando minhas lamúrias ao longo de exames de colesterol, diabetes, triglicérides e eletrocardiogramas. O destino foi tão trágico que agora estou agonizando com o corpo decomposto largado ao chão. O piso antes branca está repleto de uma mancha marrom e preta.

Daqui a pouco os vizinhos reclamam do cheiro. Em breve. Logo vão reparar nas moscas zombeteiras no vidro da janela, e a quantidade de besouros que circulam pela casa. Apesar de morta e putrefata, sinto saudades do cheiro de café…

A saudade talvez seja a delicadeza mais triste que podemos ter. Sempre pensei nisso, quando viva.

A saudade de sentar numa cafeteria ou bar e observar a beleza e a crueza do caleidoscópio das relações humanas: lembranças, associações e detalhes, as pequenas ranhuras de um quadro que estava se formando ali, naquele momento. Os gestos, as expressões, as rugas, os olhos… Os olhos se apertando, os olhos sorrindo, os corpos se abraçando, os corpos se afastando e tudo isso me abraçando com tanta força a ponto de rasgar meus poros. É como se todas as falácias que sangram alimentassem minha vida, gritando nos meus ouvidos. Eu me refugiava nas minhas aquarelas tímidas e a cada pincelada eu construía traços que podiam servir de refúgio na minha pele. Os pássaros de Bukowski me acompanharam nas costas em forma de tatuagem aquarela. O pássaro azul trancafiado na costela do lado esquerdo. Os pássaros vermelhos das quatro e meia da manhã sempre voavam em liberdade do flanco das costas e se tornavam pequeninos em volta do pescoço.

O pássaro azul… Escapuliu com o descolamento da minha pele putrefata. Os pássaros de tom vermelho lançaram suas cores para o pecado. Estou morta. Mas ainda assim sou dura demais comigo mesma.

IV

Um dia antes de morrer, quatro horas despretensiosas da tarde, estava numa esquina observando os maxilares do motorista de ônibus se movendo com o pão cheio de vinagrete. A gordura da carne estava escorrendo pelos beiços. As mãos do churrasqueiro mexiam com a carne e dinheiro ao mesmo tempo. Os homens da construção ao lado do ponto de ônibus limpavam as bocas no antebraço. Os traços grosseiros cansados dos anos de labuta pesada, misturavam-se sutilmente com o instinto mais primitivo: a fome. Eu estava ali, parada e quieta nas minhas observações com um berro tresmalhado, uma virulenta congestão causada por um mero axioma da vida, com um alívio de culpa. Culpa por que? Oras, eu julgava a pausa merecida do motorista de ônibus, que pediu dois espetinhos e pediu para colocar num pão velho com vinagrete. Comeu com um sofrimento que doía, pois os olhos se fechavam quando a boca se abria inteira para devorar o pão e os poucos minutos da pausa merecida.

Estava ali um homem simples, com uma gratidão que não cabia dentro de si. Ele subiu no ônibus, cumprimentou cada passageiro cansado e suado da labuta de todos os dias. Cada corpo cansado e intoxicado do sol que insistia em provar sua existência. O sol que aquecia o corpo daquelas pessoas, era o mesmo cujos raios entravam pela janela e tentavam, em vão, aquecer meu corpo gelado e sem vida no piso na sala de jantar. A única coisa que me olhava, era um girassol sorridente no parapeito da janela.

Enquanto uns amaldiçoavam o verão, senhoras com traços brandos e alegres diziam que a tarde estava perfeita.

Perfeita… Quais nossos critérios para a perfeição? Lembro-me de que anos atrás, numa conversa despretensiosa com cerveja e batata frita, um amigo dizia em ares de contemplação:

“Porque ela era perfeita. Um ser intocável, loiro, olhos claros, shorts jeans e uma camiseta do Superman. Ela queria passar e eu estava no seu caminho. Ela me pediu com doçura: Com licença.”

Ela era perfeita. PER-FEI-TA. Os lábios dele se mexiam como se estivesse soletrando. E eu pensava se aquilo, aquela contemplação era de fato uma felicidade clandestina ao qual eu nunca tive. Uma felicidade clandestina unicamente dele, mas ele estava lá, dividindo comigo essas pequenas ilusões e devaneios, essa espécie de Amor Inventado, um Amor platônico que sustenta por anos. Talvez um dia, quando lhe baterem à porta e chamá-lo de volta, ele abandone aquele amor inventado de um metro e sessenta.

SESSENTA…

V

Sessenta besouros nascendo de minha boca e orifícios agora. Sessenta dias atrás pensei num poema do Augusto dos Anjos Eram 18h30 e horário de verão… Da janela do ônibus durante o trânsito caótico da cidade vi uma mulher aparentemente grávida fumando crack. Era um local conhecido por toda sordidez de acontecimentos mundanos da cidade. Com vestes sujas e mãos trêmulas, acendia um cachimbo improvisado. A cada tragada eu saia da minha introspecção e sentia meus pulmões queimarem. Eu sentia a dor dela, de alguma forma muito íntima, era como se eu também fosse um ser jogada à sorte do próprio destino, e agora, tal como ela, apodreço no chão da minha própria casa, com toda a impertinência de um abandono, exceto as bactérias e toda variedade de insetos necrófilos fazendo de meu corpo seu alimento e uma espécie de útero gigante. Da morte nasceu a vida: milhares de insetos carregando o meu DNA. E aquela mulher das 18h30? Qual era seu alimento? Qual seria sua morte? Ao lado dela um velho de costelas protuberantes quase que perfurando a pele, comia uma marmita com as mãos, pegando os grãos de arroz e feijão com as pontas dos dedos, mastigando de maneira afoita. A mulher que carregava um filho no ventre estava totalmente fora de si. Acendia, puxava, soltava. Delirava. E a criança gritava, dentro daquele ventre como se implorasse para sair dali. Um grito ensurdecedor, um corpo talvez já morto, tal como o meu, mas que não estava em paz. E o homem que engravidou aquela mulher? Foi amor ou apenas um escarro de violência, de esperma bruto, cruel e insensível? A dor que rasga as genitálias num ato de prazer não consentido. Quando na vida o prazer podia ter tudo para ser lindo, a sordidez da bestialidade humana dá um sorriso, e escarra…

“Escarra… Escarra nesta boca que lhe beija”, dizia Anjos.

Uma cópula forçada nas vielas da grande cidade. Ela estava lá, sozinha, tentando ter uma falsa paz teleguiada causada por pedrinhas amarelas venenosas e traiçoeiras. O velho da marmita escarrou no chão, limpou as mãos engorduradas na bermuda rasgada e entregou parte da marmita para a mulher grávida. Alucinada e quase paralisada, exceto pelas mãos trêmulas. Retribuiu um sorriso agradecido ao velho das costelas protuberantes. Foi o sorriso mais delicado e perturbador que eu já vi, nos cinco minutos de trânsito que foram uma eternidade dolorida.

VI

Na casa ao lado da minha uma mulher reclama do cheiro. Diz que há dias sente cheiro de “bicho morto”. Somos reduzidos a isso: bichos. Os jornais e correspondências se acumulam na minha porta há dias. Na primeira semana de minha morte, a vizinha da casa ao lado varreu minha calçada. Ninguém sentiu minha falta, o telefone tocou, mensagens chegaram, devem ser mensagens preocupadas, mas e as visitas? Cadê o “bater em minha porta”? Cadê a preocupação de fato? Como eu poderia dizer que estou ali, trancada e sozinha, esperando por um pouco de atenção e um velório com caixão aberto, para que possam olhar para meu rosto e dizerem o clichê: “ela era tão nova e bonita”, “para morrer, basta estar vivo”. Nenhuma mulher… Nenhum homem. Nenhum homem que eu amei.

Já amei muito nessa vida, já amei muito poucos homens. O pouco no muito. O muito, no pouco. Já amei muito os relevos que formam a tatuagem desenhada no peito e no antebraço. Duas cicatrizes artísticas que resumiam em cores e traços o homem deitado ali, que me ligava uma e meia da manhã querendo me ver. Falácia. Mentira. Não amei, mas fingi que amei. No primeiro acorde de uma canção desafinada eu fui embora sem olhar pra trás. Ele era cheio de acordes desafinados e cordas arrebentadas. Cinco minutos depois ele colocou uma foto de um outdoor em forma de guitarra paralelo à lua cheia que estava no céu. Era apenas a Lua e somente ela que ele amava. Essa coisa brega. Fui embora sem olhar pra trás. Ele nem sequer notou minha presença, mas o relevo das tatuagens dele, ainda permanecem na ponta dos dedos, não como uma lembrança, mas como um erro.

Já amei um homem que tinha olhos gentis e um abraço acolhedor. Uma mente brilhante e um olhar gentil. Mas foi platônico. Um velho amor de tempos de pré-puberdade, reencontrado anos mais tarde, mas que nunca foi real, via de fato.

Já amei um homem ao qual eu fui apenas um pequeno grão de areia existente em seu imenso planeta chamado “cama”. Entre uma canção e outra, fui apenas uma nota solta e esparsa.

Já quase amei um homem, mas gostei mais do guarda-chuva dele, ao qual nunca mais devolvi. Ele também nunca mais voltou. Estamos quites. Ao menos tenho como me proteger da chuva.

Já amei um homem que cantava murmurando no banheiro da pousada de nosso romance de 2 dias. Um romance de dois dias ao qual eu olhava aquele homem cheio de inseguranças, encolhido como um feto. Fiquei na penumbra encostada na parede tentando entender toda aquela dinâmica de amores, desamores, política, educação e toda a modernidade tão líquida quanto o copo de água que em vão, foi uma tentativa falha de salvar-me do pedaço de carne traiçoeira. A carne que peca, que se contraí, tal como um copo de cólera, nos dá aconchego porém nos adoece. Tal como um lobo das estepes, à procura de alimento. Penso nos pecados da carne metaforizados na figura de um lobo: o lobo rastejando e arranhando a presa. Sentimos a dor, os uivos, ficamos cegos, pois o Lobo em sua fome nos arrancou os olhos, nos umedeceu com sua língua, nos enrijeceu com seu toque. Paramos. Nos lamentamos. E dizemos: “Nunca mais”. O tempo passa, e o Lobo está lá, na espreita, sempre com fome, com seus olhos brilhantes na penumbra. As cartas de amor se extinguiram, palavras de ceticismo tomaram seu lugar, num mundo mesquinho cheio de desespero e incertezas.

Alimentei meu ceticismo e pecados da carne mal sucedidos…

Com álcool.

VII

Displicentemente, tal como uma criança implorando por doce, afogava minhas maledicências diárias em um copo de uísque sem gelo. Descia garganta adentro, queimando. Calhamaços e mais calhamaços de lamúrias, piadas de humor negro e ossos do ofício ecoavam no boteco do bairro. Havia ali uma disputa entre poucos amigos. Quem bebia mais? Vira um, vira outro… E a conversa rolava solta, entre risos alegres e etílicos. Quando bebia sozinha, os monólogos eram ao mesmo tempo, incríveis e enfadonhos. Sozinha, eu não gostava de falar muito. Sou excelente ouvinte, péssima em dar conselhos. Ouvia meus monólogos internos. Jamais respondia, porque não sabia o que dizer.

— Parei de beber. Mas voltei. – disse Fábio, depois de pedir um velho Jack.

— Porque? Pensei que você era mais forte que eu. Que bom, não aguentava mais te ver com seu copo de água com gás, gelo e limão.

— Pensa pelo lado bom! Você voltava pra casa com segurança. Eu era o sóbrio da história toda. Teve aquela vez, que eu abri a porta pra você. Sua coordenação motora estava pior que o normal—rindo, de canto de lábio.

— Bullshit! Você sempre conta essa. Sempre consegui abrir portas. Mas me conta, porque voltou pra essa vida de boemia?

— Ser professor é complicado. Fiz uma proposta aos alunos. Pedi para representar um ponto de vista sobre a violência urbana usando literatura.

— Ótima proposta, mas o que lhe atormentou tanto a ponto de em menos de 5 minutos já ter matado mais da metade da dose de uísque?

Fábio pegou a pasta, tirou uma folha de caderno. Lá tinha o nome do aluno, série e data. O texto, cercado de rabiscos e desenhos aleatórios, era cercado de erros crassos de português. Olhei a série,

— Segundo ano do ensino médio?

— Sim. Mas leia o texto.

O texto falava de um jovem na comunidade. O funk rolando adoidado, a polícia também.

“Varios carro de som tudo tocano mc zax e jerry” (sic)

Ai a b.a.e.p pia… dano tiro de boracha ai acerta na perna se corre mancano locão a b.a.e.p passano por cima dos outro os mlk caino de moto sangue pra todo lado”

Me encolhi na cadeira. A princípio, me deu horror os erros crassos de português. Era o horror aos ossos do ofício, horror da ignorância alheia, horror à falta de perspectiva de tentar sair do que era comum. Depois me deu outro desconforto: o que estava escrito ali era muito mais horrível do que o analfabetismo em si, e talvez as falhas de um sistema educacional. Bebi outro gole de uísque. Olhei nossos copos então quase vazios. Chamei o garçom. Ele encheu os copos.

“os mano da tiro leva tiro da facada leva facada e tudo numa boa. isso e a violencia.

ass: cachorro”

– Os mano da tiro leva tiro da facada leva facada… E TUDO NUMA BOA. – disse Fábio. – Tudo numa boa.

– Ok. – coloquei o papel na mesa. Suspirei, retornei pra minha zona de conforto, que já não era mais a mesma.

– Um brinde! – ergui o copo

– A que? – disse Fábio, erguendo o copo e parando poucos centímetros antes do meu.

– Ao estoicismo do seu aluno, tão resignado em aceitar seu destino e a nós que não sabemos levar tudo numa boa.

– Zenão era um cara meio louco não é? – disse ele ao tilintar nossos copos.

Também foi a última vez que eu vi Fábio.

IX

Tic-tac Tic-tac tic-tac

Há 15 dias eu escuto os segundos do meu relógio passarem. A vizinha viajou, meu quintal ficou sujo. Meu telefone tocou e eu não atendi. Eu trabalhava em casa, como tradutora e revisora. Estava sem trabalho, mas com dinheiro suficiente pra passar razoavelmente bem durante um mês, ou talvez dois. Uma vida tranquila, mas sem muito luxo. Estava pensando em chamar Fábio e Audrey para uma noite de conversas despretensiosas e a base de uísque barato, mas me engasguei antes de mandar a mensagem.

Meus pais morreram em um acidente de carro, quando eu tinha 23 anos. O caixão foi lacrado. O meu também vai ser. Meu rosto corpo está inchado, com uma coloração horrível. Dificilmente vão conseguir limpar esse lugar. Meu cheiro, minha morte, minhas larvas, minhas moscas… Estão por toda parte. Provavelmente meu braço descolará do meu corpo quando me jogarem dentro da padiola e por fim, uma voltinha no rabecão.

– Relaxa, pra tudo nessa vida dá-se um jeito! – Audrey sempre me dizia isso, quando eu estava na merda.

Mas agora estou numa merda sem volta.

Olha só. Pancadas na porta. Primeiro foram toques de campainha, primeiramente calmos, depois sem a paciência de antes. Quem seria? Quem estava ali?

Sarah??? Sarah?? Você está aí? Responda Sarah!

Era o Fábio. Ele vai se transformar em um alcoólatra inveterado depois dos próximos cinco minutos.

XI

—Caramba esse cheiro! Argh! – disse Fábio, respirando com o nariz nas dobras do braço.

—Ela tem animais em casa senhor? – disse uma voz.

— Não, mora sozinha. Ela era bem reservada, às vezes sumia, mas sempre dava notícias.

— Vamos ter que estourar a porta, saiam de perto. – disse o policial, pedindo pra Fábio e o vizinho que não sei o nome saírem de perto.

Porta estourada. O vizinho ao qual eu nunca conversei deu um grito. Fábio não gritou. Se encolheu num canto, com as mãos no rosto. O silêncio nunca foi tão perturbador.

A mosca que nasceu dentro do meu corpo, carregava meu DNA e deu seu último adeus, pousando nas roupas pretas de Fábio. Ele estava ali, no canto, encolhido como um feto que acaba de sair de dentro de um útero, tremendo e chorando como uma criança, observando meus fragmentos espalhados pelo piso gelado. Estava eu ali, despedaçada, na luz tranquila que atravessava o vitrô. Era minha densidade, minha libertação. Os meus cacos espalhados ali, formaram o meu mosaico, e ele tinha um milhão de histórias pra contar. Já não estava mais trancada neste mundo de coisas monásticas e mundanas. Eu me libertei de minha cela.

Um brinde Fábio.

Cheguei ao ponto final do meu estoicismo. Extirpei minhas paixões, abracei minha razão. Aceitei meu destino.

XII

— Chefe… – disse Tadeu com cara de quem chupou um limão azedo.

— É difícil lidar não é? – o cheiro, a situação. Morrer em casa, uma morte mesquinha, causada por hábitos do dia a dia.

— O rapaz disse que ela quer ser cremada. Colocaremos bastante pó de grafite, cal e então lacramos o caixão e mandamos pro crematório. – disse Santiago, enquanto batucava no volante do furgão, esperando o semáforo dar permissão de avanço.

— Que triste. Morrer sozinha. E só perceberem por causa do cheiro. Ela devia ser uma mulher detestável. Quem era Sarah Almeida? – disse Tadeu, passando um pouco de Vick Vaporub na narina, para disfarçar o cheiro pútrido do cadáver de Sarah.

— Olha caro aprendiz… Presenciei muitos suicídios, mortes mesquinhas, ao qual as pessoas eram muito solitárias, mas sempre tinha alguém no velório, ao mesmo tempo que já realizei um funeral de uma pessoa que não valia nada e mesmo assim, do meu bolso, coloquei uma roupa nela. Mas, hoje, eu não consigo mais realizar um pré-julgamento de alguém que morreu sozinho. Não sei mais lhe dizer se a pessoa era boa ou má. Talvez a questão mais pertinente é se era feliz ou triste. Existe alegria na maldade, existe tristeza nas pessoas boas. Aprendi isso com nossa profissão.

Tadeu concordou com a cabeça, ligou o sistema de ar, Passou mais Vick nas narinas, pegou um chiclete no console.

— É pesado não é? Como conseguimos suportar tudo isso? Minha irmã morre de medo de morrer sozinha. Ela tem pesadelos ao qual volta do trabalho e encontra a casa sem móveis, com o vidro das janelas pintadas de preto, com muito mofo na parede. Quando ela entra no quarto, ela se vê morta no chão. Isso entra em conflito com a opção dela não querer casar e ter filhos. Eu sempre peguei no pé dela, pra ela ter filhos, ter um marido, mas sabe aquela vez que fomos no asilo São Vicente? Dois cadáveres de uma só vez. Eles tinham filhos que nunca mais foram visitá-los. Morrem de depressão e abandono. Parei de brigar com ela. Ela seguirá a vida dela, e o que tiver de ser será. Acho que essa profissão me deixou frio como uma pedra de gelo.

— Asilos são depósitos. Uma ode ao individualismo contemporâneo, à falta de gratidão. Não nos tornamos frios Tadeu. Tornamo-nos racionais demais.

— Chefe… Me lembro que um dia você disse que nosso trabalho era por deveras filosófico. Ontem minha namorada me perguntou se eu acredito que exista algo depois da Morte.

— O que você respondeu?

— Teria importância se soubéssemos o final da história antes de terminá-la?

— Eu penso assim também. Tudo o que eu tenho são minha esposa, minha filha, quatro cães e minha bicicleta. A funerária é nosso sustento. Sou órfão de pais, passei uma boa jornada na solidão, beijando suicídios, afundado em drogas. Mas eu saí. Se eu morresse agora, morreria feliz, pois além de não estar sozinho, sei que deixei algo de bom. Eu não vivi em vão. Se estamos neste planeta, temos de fazer barulho, e não apenas respirarmos. Isso me lembra Ouro de Tolo:

Eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes  esperando a morte chegar.

— Sabe o que estava escrito no quadro da parede da sala da moça? – disse Tadeu, enquanto olhava as mensagens no celular.

— Não vi. Na verdade tenho o costume de não reparar muito em objetos de decoração da casa dos defuntos. Mas o que estava escrito? – disse Santiago, rindo.

— Enquanto houver sensibilidade, entre nós, humanos, estaremos vivos.

Silêncio.

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Death Contemplating Life – David Ho

PS: O título foi retirado de um trecho do livro “Um copo de Cólera”, do escritor Raduan Nassar, um dos meus livros favoritos.

Agradeço ao amigo Marcos da Silva, profissional da área fúnebre, pela nossa conversa numa manhã de sábado, ao Wagner Galesco e suas experiências com a docência e aos amigos que me deram força para voltar a escrever num momento tão difícil.

Quando eu era menina…

Seu eu morrer muito novo, ouçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. (Alberto Caeiro)

Eu me lembro como se fosse hoje, a rua cheia de crianças. A velha rua sem saída que tinha a poucos passos de minha casa. Naquela época, ao menos, assim eu penso, analisando os dias de hoje, cerca de 18 anos depois, aqueles tempos era seguro brincar nas ruas, mesmo aquelas que tinham saída. Pode ser que no meu olhar de criança, eu não enxergava a maldade. Não existe nada mais belo que o olhar inocente de uma criança. Existe apenas a consciência do querer brincar pra sempre, de nossas mães ou aqueles que cuidam de nós, de nunca alcançarem o portão de casa e nos chamar porque estava entardecendo. Talvez este fosse o momento mais triste do dia. Quando eu era criança, eu não almejava o entardecer, quando ele chegava eu sabia de alguma forma muito simplista de que teria de me despedir de outras crianças e entrar para casa. Hoje, adulta, eu almejo os entardeceres, pois sei que minha jornada de trabalho está chegando ao fim e que eu posso chegar em casa, tomar um banho e relaxar. O mais engraçado é que quando éramos crianças, queríamos ser adultos. Esta é a coisa mais besta que uma criança possa querer. Eu falo aos meus irmãos menores que eles nunca devem ter pressa de querer ser adultos.

E a rua sem saída e demais ruas ao entorno era um palco de sorrisos e brincadeiras. Naquela época as crianças ainda fabricavam suas próprias pipas, e corriam para buscar as que caiam no céu. Dias atrás fui num churrasco com os amigos em um bairro da periferia. Lá pude ver as pipas no céu. Me trouxe uma lembrança doce dos meus tempos de criança. Estávamos na calçada com nossas “bebidas de adulto” e cigarros que já não eram de chocolate. Um menino desceu correndo atrás da pipa que foi derrotada. E quando ele subiu novamente e passou por nós, parabenizamos a criança: “Ehhhhhhhhhhhh!” e então o menino abriu um sorriso e levantou a pipa em sinal de vitória. Fazia tanto tempo que eu não via isso, e então pensei o quanto estou ficando velha ranzinza em um bairro de metrópole onde as crianças das famílias que existem por aqui brincam trancafiadas em casa com seus videogames, tablets, carrinhos de controle remoto. Não existem mais brincadeiras na rua. Não vejo mais carrinhos de rolimã, meninos soltando pião, rodinha de crianças jogando bafo ou bolinhas de gude. Como costumo dizer, as brincadeiras hoje se transmutam em divertimentos eletrônicos sem nenhum contato com o que existe real. Antes eu brincava na terra. Hoje uma criança dificilmente brinca na terra, talvez a única terra que elas “tocam” são as dos canteiros do Farmville.

Lembro-me que eu sentava na soleira da calçada e via os meninos descendo a mil nos carrinhos de rolimã. Às vezes um se ralava todo e a mãe saia correndo preocupada. Ficavam alguns dias de castigo e depois voltava, com um carrinho de rolimã novo. E não era só isso que tinha pelas ruas. Na rua de casa, tinham jogos de amarelinha desenhados no asfalto. Eu me lembro de que nós roubávamos giz colorido da escola para poder desenhá-las no chão. O céu era feito com giz azul, o inferno com giz vermelho, e os números, obviamente com giz amarelo. E pegávamos pedras da rua para jogar. Lembro-me o quanto era difícil acertar o número 10, mas as crianças que chegavam até o final da amarelinha, tinham o dia ganho. E as tardes semanais e finais de semana eram recheadas de pega-pega, pique-esconde, pula corda… Eu era muito ruim em pular corda. Ficava frustrada por ser desengonçada. Mas mandava bem nos patins. Um dia peguei uma ladeira e me arrebentei porque uma pedra apareceu no meio do caminho, e não deu tempo de desviar, foi a única vez que eu me arrebentei nos patins. Eu pulava, fazia manobras, coisa de criança doida mesmo. Carrego em meus joelhos e cotovelos as marcas da queda. No dia chorei, hoje dou risada. Lembro-me de que naquela época merthiolate tinha álcool. E ele era o terror das crianças travessas, o terror dos que andavam de bicicleta, patins e rolimã. Jogar futebol e chutar o chão ao invés da bola era lágrima certeira. Nada era mais terrível que o merthiolate, as crianças queriam voltar para suas casas com roupas imundas e pés sujos, mas não queriam voltar cedo e encarar aquele vidrinho daquele “negócio que ardia”.

Tinham as lendas que contavam para as crianças. Nunca me esqueço do homem do saco. O homem do saco era o terror para as crianças cujos pais as educavam para ficarem sempre por perto de casa ou dos pais durante os passeios. Um dia, fui à feira com minha mãe e me perdi dela para comprar pastel. Achei que fosse encontrá-la e me enganei. Então fiquei esperando na banca de pastel. Ela me encontrou e me deu o sermão do velho do saco. Quando chegamos ao portão de casa, um velho com um saco nas costas estava descendo a rua, e ele olhou pra mim e disse: “Que criança linda! Quer ir embora comigo?”. Então corri pra dentro de casa, e fiquei anos acreditando que o homem do saco existia, e tinha certo medo de ir pra escola sozinha e encontrar o velho, e ele me pegar à força e colocar dentro do saco. Eu acreditava mais no velho do saco do que em papai noel. Sempre soube que o papai noel era meu tio, mas o homem do saco não, ele existia e não era o papai noel, era um homem velho que sequestrava as crianças e depois as comia ou vendia.

Além do velho do saco, tinha o velho do muro… O velho do muro era um tio de um menininho que estudava na mesma escola que eu. Ele sempre ficava até altas horas no muro da casa dele, apenas com a cabeça aparecendo. Era um muro alto. Fiquei sabendo da real causa da aparência dele, anos depois, quando adulta. Eu tinha medo dele. Ele era um senhor de idade muito pálido, com covas profundas no rosto e sem nenhum cabelo, completamente careca. Quando a noite chegava e nas vezes que iá com meu irmão comprar tortuguitas na vendinha, ele estava lá, espiando a vida por cima do muro. E as luzes das luminárias de rua davam mais ênfase a palidez dele. E eu sempre dizia que não gostava do velho do muro. Um dia minha mãe me perguntava por que eu não gostava dele. Eu respondi a ela que era porque nunca tinha visto uma expressão tão triste em alguém. Eu não conhecia muito a tristeza até os meus 8 anos, quando tudo era teoricamente normal em minha vida. Aquele velho foi meu primeiro encontro com a expressão de tristeza no rosto de alguém. Dos meus oito anos em diante, descobri a tristeza em meu próprio olhar. Mas daí já é uma longa e talvez desnecessária história, ainda com dores não curadas, talvez alguns meses de terapia me ajudem. Mas só posso dizer que sei na pele o que é não saber conviver na mesma esfera de compreensão de uma criança.

Vocês dizem: “Cansa-nos ter de conviver com as crianças”. Tem razão. Vocês dizem ainda: “Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-los. (Janusz Korczak)

Eu tive um namoradinho na infância. Eu inclusive já falei dele. Chamava-se André Luis. Era um menino que me escrevia cartinhas de amor com as canetas coloridas da irmãzinha. Já escrevi aqui também que um dia eu e ele encontramos uma pomba no chão, e ignorantes das certezas da vida, achávamos que ela “dormia” na calçada. Depois, descobrimos que era apenas uma pomba morta com vermes devorando as entranhas. Mas ela estava ali, no meio da calçada, como se tivesse feito um ninho. E eu me lembro daquele momento até hoje, e do cheiro das balas de doce de leite de Andre Luis, e do momento que eu chorava inconformada por causa de um pássaro morto, e ele simplesmente me deu a mão e fomos de mãos dadas até o portão de casa. Ele me deu um beijinho no rosto. Era um beijo melado, com cheiro e sabor de doce de leite. Hoje, quando vejo aquelas balas quadradas de doce de leite, lembro-me de André Luis, e seu cabelo loiro tigelinha. Ele tinha os olhos quase claros, de um castanho esverdeado. Era uma linda criança. Eu acho que eu era uma criança bonita também, os meninos do jardim me davam flores, mas André Luis foi o único a quem eu andei de mãos dadas naquela época. E o mais engraçado é que eu via os adultos se beijando na boca e tinha nojo daquilo. E comentava com André que ele não faria aquilo. E ele dizia: “Blergh, não… É nojento”. E ficávamos somente nos beijinhos de despedida e nas cartas inocentes com letras tortas, reféns de cadernos de caligrafia. Não posso dizer, (ou posso?), que eu vivenciei um amor na sua esfera mais pura, mas não sei dizer, 17 anos depois, se aquilo foi amor. Foi uma história de infância, cheia de timidez e risinhos. Era como um amigo com algo a mais. Eu e André Luis dividíamos o lanche, contávamos nossos segredos um ao outro, e, sobretudo, andávamos de mãos dadas, e eu acreditava que por ele estar comigo, estaríamos protegidos do homem do saco. Quando descia a rua de mãos dadas com André, eu nem me lembrava do “Velho do Muro” e sua fisionomia triste. Descobri muitos anos depois que aquele velho na verdade não era um velho. Era um homem de quarenta e poucos anos que sofria de câncer. Quando ele morreu, eu em minha consciência de criança, eu achava apenas que ele tinha enjoado de ficar ali. Descobri que as coisas e pessoas morrem quando vi a pomba morta no chão. E chorei dias seguidos com medo de perder alguém próximo. Os adultos me confortavam dizendo que as pessoas que morrem vão para um lugar bonito, onde não existia tristeza e demais coisas ruins. No ano passado confortei meu irmão menor que chorou dias e dias a morte de um amigo de minha família que vendia pastel na rodoviária e que por costume íamos até o trailer dele toda sexta-feira. Meu irmãozinho aguardava ansiosamente a “Sexta-feira do pastel”. E teve um dia que a pastelaria nunca mais abriu. O Senhor dos Pastéis foi executado cruelmente. Amarrado, colocaram-no de joelhos e deram-lhe um tiro na nuca. Tudo por causa de uma furadeira, uma televisão e cerca de quinhentos reais. E a notícia correu quatro cantos. Meu irmão viu a foto tirada ao longe do corpo sem vida do seu amigo pasteleiro jogado no canavial. Foi vítima do sensacionalismo barato. Ele chorou nos meus ombros. A Morte pra ele foi mais traumática. O meu primeiro encontro com ela foi através de um pássaro no meio da calçada, mas ele passou para um degrau filosófico muito mais pesado que aquele que eu passei. Ele em tenra idade passou a questionar quanto vale a vida… E ficava triste pelos cantos, até que o Tempo lhe curou as dores…

Quando eu era menina, e ficava triste pelos cantos, eu subia no telhado de casa. A vida era incrível lá em cima. Isso passou a ser corriqueiro na época em que eu me tornei uma criança triste, fragilizada emocionalmente. Era em cima do telhado que eu encontrava minha paz que tanto me fazia falta. Eu era feliz quando meu irmão Ricardo ia me visitar, e nós íamos ao cinema, escutávamos música, ou quando ele me levava para brincar em piscinas de bolinhas ou carrinhos bate-bate. Ele sabia que eu passei a ser uma criança sozinha em um mundo de adultos estressados, deprimidos e alguns deles, opressores. Quando ele não estava lá, eu ficava no telhado. Escondida, sim, escondida. Porque as pessoas passavam sempre olhando em frente ou olhando para o chão. Nenhuma delas olhava pra cima para ver o quanto o céu estava bonito, ou o bem-te-vi que sempre cantava em galhos nas árvores da minha rua. Outra alegria que eu tinha era levar minhas cachorras para passear. Ver a alegria delas cheirando pequenos canteiros e chegarem cansadas em casa era uma forma de eu ficar feliz. Um dia minha cadela Gabi, já velhinha, talvez ciente de sua morte, fugiu. Dizem que os cães sabem quando vão morrer, e alguns deles se afastam dos donos para evitar que eles sofram. Todos os meus bichinhos sabiam quando eu estava magoada. Eles deitavam ao meu lado e não saiam, e os mais novos faziam graça para tentar me fazer rir. E de certa forma, funcionava. Hoje, sinto falta de ter um cão. O amor dos animais é incondicional. Um amigo me disse que eles são mais humanos do que aqueles que recebem essa alcunha. Falam que o Homem é ser-HUMANO… Tenho minhas dúvidas. A criança sim, esta é um ser humano. Um ser em perfeição, tão incompreendido. Não penso em ter filhos, não agora. Penso que o mundo é cruel demais para seres tão perfeitos conviverem. E então eu pensei se ainda podemos oferecer para as crianças um mundo mais bonito. Mas o problema não está em nós, está ao redor. O que podemos fazer? Mantê-las em redoma de vidro? No momento sou egoísta o suficiente para apenas eu sofrer com as dores e intempéries do mundo, a ponto de querer ter de volta a inocência que eu tinha anos atrás. Eu era apenas uma menininha banguela, magrela que sorria brincando em balanços. Muitas vezes eu sonho com essa época, com as crianças que eu brincava, com André Luis… Um lapso momentâneo daquilo que perdemos ao passar dos tempos. Mas quando eu acordo, vejo que estou de volto para aquilo que corresponde à minha realidade. Hoje, não vejo mais crianças nas ruas. Não mais como antigamente… Não mais… Ser adulto é tão chato!

Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta... Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou...
Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta… Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou…

Memórias da madrugada: Antes de Amanhecer (Before Sunrise).

Eu lembro da minha infância de um modo…Sabe, uma época mágica. Eu me lembro quando minha mãe me falou pela primeira vez sobre a morte. Minha bisavó havia acabado de morrer, e minha família toda estava na Flórida. Eu tinha uns três anos e meio. Eu estava no pátio dos fundos jogando e minha irmã estava me ensinando como usar a mangueira, de uma forma que você pudesse fazer um spray em direção ao sol, e então formar um arco-íris. Então eu estava fazendo isso, e através da nuvem de gotas eu podia ver minha avó. E ela estava ali, sorrindo pra mim.
E eu fiquei ali, segurando a mangueira por um bom tempo e olhando para ela. Finalmente eu tirei o dedo do esguicho…Então larguei a mangueira, e ela desapareceu.
Então entrei em casa e contei aos meus pais. Eles me deram uma bela palmada, dizendo que quando as pessoas morrem, nunca mais a vemos, e que eu imaginei aquilo tudo. Eu sabia que tinha visto, e estava muito feliz com isso. Mas sabe, nunca mais vi nada como aquilo desde então. Mas, não sei. Esse é o tipo de acontecimento que me faz ver como as coisas são ambíguas. Até mesmo a morte.” Jesse (Ethan Hawke)

Sobre o filme "Antes de Amanhecer", retirado do site "Adoro Cinema":  Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.
Sobre o filme “Antes de Amanhecer”, retirado do site “Adoro Cinema”:
Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.

Garotinha.

Ninguém sente mais nada. Doses de morfina tomaram conta da madrugada. Ninguém sabe de mais nada, está tarde agora querido, gatos namoram nos muros, a coruja de mau agouro e olhos grandes amarelados pia lá fora e eu sou apenas uma mulherzinha, uma garotinha pintando aquarelas na madrugada. Não sinto sono, mas sinto fome, tenho preguiça de ligar no delivery. Mentira, na verdade não tenho crédito no celular. Ele está jogado no chão. Eu dormi e ele caiu no chão, abrindo e a bateria saiu fora. Não tenho ligações importantes pra fazer e nem receber. Detesto falar ao celular, prefiro pessoalmente. Perdemos todo o contato, queria me comunicar por sinais de fumaça, mas eu não ando com isqueiros, nem fósforo. Não sei cortar lenha, sou magrela, frágil… E levemente folgada. Prefiro sair por aí catando gravetos, do que cortar lenha. Sou meio confusa, complexa, mas sou apenas uma garotinha, em cima de um salto alto, camisa de mulher, meia calça fina, saia executiva. Apenas uma mulher, incendiária… Gosto de incendiar meu Amor, em fogueiras de fagulhas coloridas, só sei escrever sobre a vida, e tudo o que ela compreende, desde a decadência até breguices de amor. Sou brega, romântica incorrigível e muitas vezes, ogra… Nesse caso sou garotinha mal criada, escarrada. Levo o demônio montado em minhas costas. Mas quando eu vejo um anjo, entro no dilema de não ser tão ordinária. Palavras afáveis funcionam, mas não sempre. Sou uma chata, me cobro demais, mas muitas vezes deixo coisas para trás, sendo relaxada dentro de minha própria mania de perfeccionismo, que é tão imperfeito. Eu escrevo, sou um poço de linhas tortas e insones, verdades e falsas mentiras num balde de verbos… Passo lendo e relendo, mas sempre deixo escapar aforismos, pleonasmos, entre outras coisas. Meu caos não permite a perfeição e eu quero, sinceramente, fugir dela. Gosto de palavras lançadas, sem medo, sem preparo, apenas um fluxo sincero, sádico…

Nesta noite, eu gostaria que chovesse, eu queria ficar parada, no portão, vendo a enxurrada descer na ladeira de casa. É óbvio, se é ladeira, não poderia subir. Tu viste? Eu sou um fracasso! Queria rasgar roupas novas, fazer camas para cachorros de rua. Hoje eu vi um lindo tomba latas dormindo embaixo de um caminhão. Eu pensei se ele passava frio, quando eu era pequena, minha cadelinha morria de frio. Dei um cobertor pra ela. Queria colocar fitinhas na orelhinha dela, mas ela era uma cachorra idosa. Quando soube que iria morrer, saiu pra rua. Encontrei-a morta, na sarjeta, teve uma morte natural. Parecia que ela sabia que seu fim estava chegando, e que ficaríamos todos tristes. Foi meu segundo encontro com a morte, depois de ver um pássaro morto com os vermes a comer as entranhas. Achei que a pomba dormia… Mas não…

Eu tenho uma amiga, que toma anfetaminas. Ela diz que nunca seria abençoada, pois ela considera-se que é um grande pedaço de merda. Queria ser coberta de pérolas, ter flores nos cachos do cabelo, ela queria fugir, num vagão de trem, sem ninguém descobrir, viver a vida sem rumo, no anonimato. Ela amaldiçoa toda falta de sorte que carrega nos ombros. Enquanto isso, eu queria ficar parada, no meio de um temporal… Magoada… Pobre garotinha. Eu tenho fome. Já disse… Escrevo porque sinto saudades. Deixa pra lá…

Crônicas Completas: Russel e as pradarias.

Capítulo I: Pradarias

Russel está cantando nas pradarias, quando o inverno russo se aproxima, ele faz seu trompete chorar, enquanto sua mãe chora pela matrioska quebrada. A mãe amada de Russel, espatifada no chão em convulsão.
Ele está indo para Budapeste, mas também gostaria de ir para Bellerophon, mas a Grécia está muito longe, são milhas e milhas de distância dos gelados ventos do leste europeu, ventos que o fazem se encharcar na melancolia transparente da vodka. Vãs memórias inundam seu peito, sua mãe entregando-lhe uma rosa, já com o estômago cheio de remédios escolhidos aleatoriamente, engolido com uma garrafa de vodka, cujo resto deslizou até embaixo da mesa, onde via os pés e pernas de sua amável mãe em um terremoto insano. Antes de dizer “Adeus”, sua amada mãe disse: “Apenas diga ao teu pai, que eu o amei muito”.
Sua irmã, Elissa, dormia, e quando Russel tocava seu trompete, Elissa chorava, berrava, e a mãe de Russel a acalmava com seu retorno doce de mãe. E Russel se cansava, pegava seu trompete e se colocava a tocar nas pradarias tristes. Visitava seu pai nas minas, homem forte, porém pré-envelhecido. A sujeira do carvão dava-lhe traços rudes, primitivos.
No frio daquele leste europeu, todas as matrioskas eram incompletas, Russel andava em círculos, nas pradarias contínuas do seu ego e força de viver, mesmo sabendo que nada cresceria ali, nas pradarias inférteis pelo frio. Nas pradarias que ele tanto amava, não existe nada, apenas sua mãe cansada num túmulo triste com apenas uma cruz de madeira, e lobos uivando na noite. Até mesmo, quando viva, a mãe de Russel estava sempre cansada, mesmo nas passeatas onde Russel tocava seu trompete e as baionetas furavam sorrisos descontentes. Matrioskas caiam no chão durante a fúria perante a morte da matriarca, que dizia que se a Felicidade tivesse uma cor, ela seria vermelha. E ela o abraçava, antes de dormir, e quando seu pai chegava, ela chupava os dedos de carvão dele. Pra ela, sua amada mãe, aquilo era um momento de carinho, não importava a sujeira interna e externa de seu pai, que transava com as operárias sujas e suadas nas galerias escuras.
Dentro das casas as matrioskas quebram a mãe de Russel o amava, numa tristeza incontida das baionetas que cantavam lá fora. Por isso, Russel sai correndo em direção às pradarias. Queria ele ir para Budapeste, pois dizem que lá, todas as emoções são ditosas e incontidas. Levaria seu trompete, e o estalar de seus dedos magros e sofridos, percorrem a pradaria do Leste Europeu. Russel amava aquele lugar, assim como o vento amava a face do seu pai, enegrecido pelo carvão, e os cabelos longos e loiros de sua mãe.

Capítulo II: Matrioska e o delírio das pradarias.

A mãe de Russel queria passear nas pradarias geladas. Ela mal conseguia ficar de pé, mas em seu sonho de mulher prestes a morrer, ela se via com os cabelos loiros de saudade balançando no vento gelado. E ela, em seus sonhos ainda lúcidos, balbuciava ao filho que o pai estava chegando enegrecido pelo carvão, surgindo no horizonte, como um soldado voltando da guerra, carregando uma baioneta com a ponta cheia de sangue seco. Era a glória, manchada, tingida de sangue oxidado, coagulado, a beleza da violência fazendo sua mãe sentir desejo reprimido, a crueldade estampada em desejo, imaginava seu velho homem tingindo-se com o sangue do inimigo, via as veias e tendões dos braços, transcenderem em trilhas do desejo, enquanto carregava os corpos para serem jogados em valas fétidas. Depois, sonhava com os olhos dele, azuis quase cinzas de dilúvio… Via as chamas que queimavam os cadáveres dançando nos olhos quase cristalinos, e o fogo e esforço fazendo-o suar, mas ele era apenas um trabalhador das minas de carvão, e ela sabia que estava morrendo, nas pradarias do Leste Europeu. “Russel meu filho, apague a luz, e diga ao teu pai que eu o amo.” Russel apagou a luz, secou as lágrimas, pegou nas mãos de sua irmã, e foram brincar nas pradarias tristes.  A matrioska continua incompleta, a saudade fragmentada em mil pedaços.

Capítulo III: O sorriso de Elissa.

Elissa quer correr pelos prados, ela queria sorrir também, mas é uma criança com um sorriso fraturado pelas passeatas onde as famílias carregam seus entes mortos pela guerra, furados por baionetas que cantam uma canção triste de que a ideologia deve ser engolida às forças, com todo o sangue amargo. “Papai vai chegar Russel!”, gritava Elissa correndo em círculos, o olhar triste da mãe perdido no horizonte, enquanto ela penteava os cabelos na janela. Russel tocando seu trompete, intercalando com goles de vodka. Se ele soubesse escrever, seria um poeta bêbado. A mãe gritava da janela que precisaria de panos úmidos, ela sempre falava isso, pois queria limpar o rosto manchado de carvão quando o pai de Russel chegasse, mas ele nunca chegou. Sua mãe sempre dizia que seu pai tinha uma beleza imunda, e a única coisa limpa nele eram os olhos azuis de dilúvio, de uma beleza cristalina quase cinzenta, contraposta a sua beleza enegrecida. Os trabalhos nas minas de carvão deixavam seu pai imundo… Era a fuligem do carvão que o fazia bater na mãe. Quando ele retornava ao trabalho, a mãe sempre gritava que o amava na soleira da porta. Via seu velho homem indo embora, depois dele dar-lhe um beijo e dizer que também a amava. Sempre pedia perdão pelos braços roxos dela, a culpa era sempre da vodka.

“Russel, um dia terá a pele tão áspera quanto a de teu pai, será um herói nas terras sofridas e gélidas, o carvão não nos mata, apenas nos deixa imundos…”

Russel sabia da tosse negra do pai, Elissa quando viu seu pai manchar um velho lenço de escarro negro, por mais que fosse uma criança, sabia que algo muito errado existia ali, mas sua mãe queria o tempo todo se enganar que aquilo era normal. Por isso Russel estava sempre com Elissa, brincando de correr um atrás do outro na pradaria deserta, próximo ao velho casebre de madeira que viviam. Quando Elissa estava com ele, ela sempre o contemplava com um riso de criança, e quando ela chora de saudades do pai, ela corre para os braços roxos da mãe. Russel pega sua garrafa de vodka e caminha sem rumo com seu trompete pelas pradarias gélidas. Notas tristes ecoam, um falcão da pradaria apenas o observa ao longe.

Capítulo IV: Canção Cigana.

A mãe de Russel canta versos ciganos, enquanto Russel brinca com Elissa erguendo ela para o alto. A sobriedade abandonada depois de uma garrafa de vodka o faz querer voar e fazerem os outros voarem. Gostaria de voar por cima dos campos de trigo, e quando se aproximasse dos campos de guerra, carregaria a alma dos soldados mortos junto a Deus. Queria Russel ser um mensageiro, um mensageiro de almas, pegar as almas que rondam próximas as valas lotadas de corpos, já indistintos um dos outros. Existiam ali talvez, civis, soldados… Crianças. Um dia, andando pelas pradarias, encontrou uma família abrindo uma cova para enterrar a filha. A mãe com o lenço envolto na cabeça, com a face molhada pelas lágrimas causadas pelo terrível Ceifeiro. O pai abria a cova, enquanto o irmão mais velho segurava um corpinho frágil envolto por um velho pano branco. Russel viu que uma mecha de cabelo loiro escapava do lençol. Poderia ser sua irmãzinha ali, mas quem cavaria a cova? Ele… Seu pai não existia mais, e quando aparecia era apenas um vulto etílico que estuprava a mãe. Mas sabia ele, que ela gostava daquele “jogo”, preferia pensar que aquilo era um jogo, uma brincadeira de mal gosto de adultos. Gostaria que a guerra estivesse por perto, pois as canções dos tiros das baionetas ao longe, abafariam os gritos hipócritas da mãe.

Olhou para mãe, ela ainda cantava silenciosamente versos ciganos, e eles corriam como uma lebre. Russel sabia, que toda vez que a mãe entoava aquela canção, era porque a saudade queria gritar. E ela gritava, em forma de canção cigana.

Capítulo V: Saudade e Vodka

O pai voltando das minas, Russel jamais espera isso. Ele foi uma alma que partiu, um pobre homem soterrado pelas convicções sujas e negras, ou uma explosão do gás metano, explosão de arrependimento talvez, por ter abandonado os filhos com uma mulher miserável e já doente. Ele se foi, deu um sorriso de canto de boca e um beijo longo em Elissa e Russel. Olhou calmamente para a mãe de Russel, que trançava os cabelos em frente ao espelho, longos cabelos loiros, como os trigais avulsos das pradarias tristes do leste europeu, beijou-a como se fosse a última vez, e num afago nos cabelos, disse apenas que a amava.
O pai de Russel tinha lindos olhos azuis e um silêncio que matava, e por vezes, quando voltava bêbado das minas, mãos que estrangulavam. Mas todas as manhãs, quando Russel acordava e olhava em direção à cama dos pais, via os dois abraçados como se nada tivesse acontecido. E os lençóis ao chão, com manchas negras de carvão. Esta foi última vez que viu o pai junto à mãe, e crê que apesar de tudo, sentia saudades de seu velho, dos momentos em que eles caminhavam pelas estepes a caçar coelhos, tiros de baioneta embalados a goles de vodka. “Cuide delas”, foram últimas palavras de seu pai, e assim, ele sumiu, caminhando nas pradarias, com os olhos azuis baixos de tormenta.

Capítulo VI: O lobo das estepes.

Russel em seu pesadelo corre, e sua mãe afunda na lama, gritando para ele pegar os casacos, as botas e não esquecer-se de esquentar-se junto à fogueira, pois as pradarias e estepes são frias e perigosas. Ele corre, e em sua mente a voz da mãe ecoa como um grito nas montanhas solitárias, “Corra meu filhinho, o inverno chegou e ele dói, suas narinas se abrem, no âmago da sua respiração de fugitivo, e eu sei que você sente o lobo te espreitando na escuridão…”. E ele realmente sabe, tal como sua mãe.

Sabe o quanto o uivo do lobo curioso tem um cheiro agradável, que no fechar dos olhos ao dormir, o Lobo das Estepes o persegue, assim como as digitais dos sujos dedos de carvão de seu velho e desaparecido pai, estampadas no último copo de vodka que ele deixou em cima da mesa antes de partir pra sempre. A sombra do Lobo que o atormenta, responsável pelo ato dele encolher o corpo enquanto dorme, mas deixa em seu rosto um sorriso triste, desesperado, mas com tom de sadismo consumado.

Em seu pesadelo ele vai para os prados e estepes com sua baioneta para caçar coelhos, ele sempre encontra o tal do lobo, mas ele sabe que nunca conseguirá matá-lo. Quando o uivo aproxima-se ele fecha os olhos e tampa os ouvidos, porque a Beleza do Lobo certamente irá cegá-lo e o uivo enlouquecedor, o deixará surdo. A mãe dele, suja de lama, balbucia, “Reze meu filho… Reze”, mas enquanto o lobo rasteja sobre o corpo dele, arranhando-lhe as costas, ele não sente dor. Na cena onírica do lobo em cima dele o lambendo e encarando, um medo com desejo sutil, e sabe ele, que por mais que ele feche os olhos enquanto o desejo permeia em seu sexo, não poderá deixar-se cair em tentação, mas sempre se esquece de rezar. A mordida do lobo na linha tênue do pescoço já se tornou um vício, uma ferida que ele tenta cicatrizar jogando vodka, ferida que arde como paixão dançando nas chamas das fogueiras dos soldados russos em campanha. Será ele hipócrita, ao sentir dor e prazer? Não sabe ele dizer… Ao acordar, assustado, manda três copos de vodka goela abaixo, enquanto as matrioskas da pequena mesa o encaram, cada uma com um julgamento de tamanho diferente, mas não importa, sabe e esconde por baixo de sua matriz de arrependimento, que quando o lobo das estepes se aproxima, as estrelas surgem no seu céu particular, e ele corre… Do uivo que ensurdece e beleza que mata. Na sua baioneta nunca tem bala de prata… E jamais terá…

Capítulo VII: Na beira do rio Neva.

 Russel estava tocando uma canção na beira do Rio Neva. Estava ele e Elissa no enterro da mãe. Uma cruz de madeira no chão, algumas flores. Fizeram uma viagem na velha carroça do tio Vlad. Russel sabia que sua mãe pediria uma canção triste e também sabia que queria ser enterrada com sua matrioska. Ela não admitia, mas sua mãe era refém da tristeza, e de alguma forma ela aprendeu a lidar com aquilo, inclusive amá-la. Entoou uma canção cigana, a favorita de sua mãe, e enquanto cantava, veio a lembrança de sua mãe entoando canções ciganas apoiada na janela de sua velha e deteriorada morada na pradaria. Ela sempre começava a cantar com os olhos perdidos no horizonte, e terminava sempre com os olhos fechados e o rosto molhado em lágrimas. Depois que cantava, ela enchia a cara de vodka, e ficava a amaldiçoar os olhos claros e rosto enegrecido de carvão do marido. Russel segurava as mãos magras e trêmulas da mãe. Sua mãe dizia que a única coisa que tinha era um gosto amargo na boca. De fato tinha, era sangue, a doença já estava instalada e a Morte estava chegando a galope. Quando ela deu o último suspiro na cama, Russel sentiu um vento gelado, e não era das pradarias. Foi seu primeiro encontro frente à face fria e invisível daquela que ninguém consegue fugir.

Dias antes, como se ela soubesse do que a esperava, chamou Russel para a beira da cama. Ele estava com um prato de sopa rala de batatas, única coisa que tinha naquela pobre casa, e dava para a mãe comer, as mãos dela não conseguiam mais segurar uma colher. “Russel meu filho, estou encomendada aos anjos. Cuide bem da sua irmã, não me culpe, daqui a pouco seu pai chega, segure as mãos dele sujas de carvão, e vá passear com ele nos Montes Urais. As colinas de Valdai também são bonitas, nos casamos lá. Meu sonho era pegar um trem e partir para São Petersburgo, ver as passeatas de Rjev…”.

Russel deu um sorriso, na última pá de terra da beira do Neva que cobriu o corpo da mãe envolto em um velho lençol de manchas negras que ela se recusava a lavar. De alguma forma, havia ali um pedaço de seu pai, mesmo que seja apenas pó negro de hulha. Lembrou-se do semblante triste da matrioska que ficava ao lado da cama. Um dia, seu pai o levou para as margens do rio Volga. Passaram a noite lá, encobertos pelo frio, aquecidos pela vodka. A baioneta do pai descansava ao seu lado, e dois coelhos assavam na fogueira. Foi ali naquele local, que seu pai disse uma frase ao qual ele nunca esqueceu:

Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…

Após os últimos ritos do enterro, Russel segurou as mãos da pequena Elissa. Foram passear na beira do rio Neva. Provavelmente Elissa vai morar com o tio Vlad, e então Russel vai desaparecer com seu trompete, cujo som será levado sem rumo pelo vento gelado do leste europeu.

Capítulo VIII: до свидания (Adeus)

Elissa ficou na guarda de seu tio Vlad. Partiram para Praga, onde poderá ter uma vida melhor. Russel resolveu ficar, renunciou todo conforto, quis seguir suas raízes, tão fincadas nas pradarias frias. Carregaria sempre consigo a velha baioneta do pai, será um nômade, trocando seu trompete noite adentro. Sonhará com um lobo salivante mordendo o pescoço, acordará e tomará o primeiro gole de vodka, que descerá inquietante garganta adentro. Talvez aceite algum trabalho temporário nas minas de carvão que encontrar pelo caminho.  Conhecerá o amor de várias mulheres, algumas delas dar-lhe-ão um abrigo temporário. Depois ele irá embora, sem se despedir, deixando uma mancha de carvão nos pobres lençóis das matrioskas, que se abriram ao seu toque de homem em arquejos de desejo, que as encheu de calor nas madrugadas frias. Amará cada uma delas, mas as quebrará em milhares de pedaços. Um dia ele vai se apaixonar, mas ele crê que terá que renunciar a dor. A mãe sofreu demais, passando anos e anos esperando seu pai surgir no horizonte. Quando aparecia, deixava nela marcas de embriaguez, e um amor que nem anjos e demônios são capazes de compreender. Ela amava  o marido e sonhava com sua vinda triunfante, como um soldado que venceu a guerra. O tempo passou, sua mãe morreu e foi enterrada na beira do rio Neva envolta de lençóis usados e sujos de hulha.

Viu Elissa partindo numa velha carroça com uma mala, partiria depois em um monstro de ferro que a levaria para Praga. Nunca se esquecerá dela, olhando para trás, com os olhos cinzentos em lágrimas e parte do seu cabelo loiro saindo do lenço, que tremulava ao vento. Era mais um dia frio nas pradarias, mas desta vez era um dia bem mais triste, carregado de adeus, e uma saudade eterna, que gritaria para sempre sua dor por todo Leste Europeu.

Russel seguirá então os conselhos do pai, pois não há mais nada que ele possa fazer. Apenas seguir em direção ao rio, e tudo o que ele mais queria, era poder ver o tempo cumprir seu dever, o fogo em linha horizontal, sem rumo, queimando lembranças tristes. Num saco velho, colocou suas coisas, ele nunca teve muito, a pobreza nunca o permitiu nada mais que roupas deterioradas, uma caneca velha, o trompete  e a baioneta do pai… Um velho caderno preto com partituras. Bastava cortar algumas lenhas para comprar garrafas de vodka. Tinha os velhos cobertores e lençóis gastos da mãe. Apenas isso bastava. Colocou fogo no velho casebre de madeira. Todo o cheiro ocre de lembranças despedaçadas e transformadas em cinzas. Foi embora, sem olhar para trás. Uma nuvem negra subia para o céu, avisando a todos que ali não tinha mais nada a se fazer, nada a se guardar, todas as matrioskas eram cacos, e não havia tempo para vitrais. A velha porcelana russa perdeu todo o seu valor.

E a voz de seu pai, e a lembrança dos olhos azuis, envolto de rugas de expressão e um cansaço tão triste que chegava a ser belo, foram com ele, na sua busca por acalento onde as baionetas cantavam canções de sorrisos e amores estilhaçados:

“Dê-me sua mão, vamos cantar na beira do Volga, vou te contar um segredo meu filho:
Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…”

Ele percorreu milhas e milhas, até chegar à beira do rio Volga. E Russel desapareceu, sem deixar rastros, nem folhas de seu velho caderno preto, restou apenas esperança, e a lembrança daqueles que ouviram seu trompete de notas incólumes às tragédias. Ficou a lembrança de seu calor nos dias das mulheres que ele amou. E todas elas, tal como sua mãe, aguardam até hoje, ele surgir no horizonte. Russel desapareceu, mas sua marca permaneceu, e os ventos gelados do Leste Europeu nunca mais foram os mesmos.

“ …entregava-se àquele alheamento profundo, uma espécie de torpor, continuando o caminho sem dar a mínima importância às coisas circunstantes, sem querer reparar no que o cercava. De quando em vez, entretanto, resmungava palavras indistintas, em virtude do hábito de monologar, de que, ainda havia pouco, se confessava atacado. Percebia que, às vezes, as ideias se lhe embaralhavam no cérebro e adquiria consciência de sua extrema fraqueza”. (Fiodor Dostoiesvski)

Memórias da madrugada: Onde as flores morrem e a ilusão em alto mar.

Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.

Ernest Hemingway

Eu poderia estar dormindo agora sabe?Mas não, é na minha insônia que encontro a paz de espírito, pois faço o balanço das resoluções do meu dia. E o que eu tenho a dizer? No meio de um monte de infinidades que atormentam minha alma, eu confesso aqui em linhas insones que eu poderia ser diferente, do que sou agora, talvez tentar ser normal, mas não, aqui jaz uma alma que tem olhos desacostumados, e sabe por quê? Porque eu tento, nesse mundo tão vazio, cheio de ideais fúteis, que não levam a nada, eu tento, como uma errante, tal como Dom Quixote de saias, montada em meu cavalo, tenta ver um mundo mais cheio de cores, mesmo ele sendo tão monocromático. Eu embaixo de um poço racional, ou escondendo-me por trás de uma muralha de uma mulher forte, dizem por aí “mais macho que muito homem”. Eu ando por aí, com meu guarda-chuva aberto, mesmo em dias de sol, eu já escrevi que estamos constantemente nos protegendo, daquelas coisas que por muitas vezes só são vistas por nossos olhos, ninguém vê, mas está lá, e você sabe que existe, no seu mundo de máscaras, aquela que tanto carregamos no dia a dia, vivemos um dia de sorrisos, uma falsa convicção, um sorriso falso de “Oi querido, tudo bem, comigo está ótimo!”, aquela mesmíssima coisa falsa de sempre. Mas por dentro, nós, humanos tolos e atores de nosso próprio espetáculo de personagens de contos de fada, sabemos que somos todos personagens de Hemingway. Já leram algum conto dele?Experimentem, ali, naquelas palavras estão traçadas a natureza nua e crua do ser humano, sem frescura, personagens com sonhos, mas numa realidade igual a que vivemos, com fracassos, vitórias, amor, desamor, ilusão. Muitas pessoas não gostam desse tipo de leitura, sabe, aquela leitura que te dá chibatadas, aquela que te faz chorar, dá aquela perturbação aquele aperto, o gosto amargo nos lábios, porque sabemos que a verdade não nos é conveniente, sabemos que quando achamos que pescamos um peixe grande em alto mar, podem vir as ilusões, em forma de tubarões, e então você luta, pega os remos da esperança e tenta acabar com cada ilusão que tenta devorar nossa vontade, aquele sonho, fisgado por mãos tão calejadas. Você sonha, você luta, trabalha feito um desgraçado ou uma desgraçada, e quando vê que seus oitenta e quatro dias de espera no mar, estão perdidos, esperamos em vão que algo bom finalmente lhe olhe nos olhos? Não necessariamente, depende dos olhos de cada um. Enquanto isso, navegamos com nossos barcos em alto mar, conversamos com as gaivotas de nossos pensamentos, e são eles, nossos amigos, de todas as horas. No momento que escrevo essa memória, que talvez seja totalmente amaldiçoada ou despercebida, eu estou deitada na minha cama. Eu tentei dormir, isso é fato que venho tentando, sabe?Ter uma noite de sono normal, mas na minha cabeça, eu estou sempre escrevendo, em sonhos, eu escrevo também, e quando não escrevo, eu acordo pensando em escrever, parece tão simples não é? Deixei meus remédios de dormir de lado. Sou teimosa, quando não se pode lutar contra algo, o que fazemos?Entregamos-nos a ela. Existem coisas nessa vida, que tem um propósito. Tal como o Velho de Hemingway, eu mantenho em mim uma Força, e não estou falando da Força tão discutida no universo de George Lucas, eu falo de uma Força frente à realidade. Não acredito em Felicidade eterna, nem em paz na república, conflitos sempre existirão. A vida é feita de momentos, e no meio de tantos momentos, vemos frames de drama, comédia, suspense. Temos sete formas de arte não é?Eu digo que temos oito… A vida integra todas as outras sete, somos atores, pintores, músicos, nós somos toda a maravilha da arte, de forma condensada, conseguem ver isso? Já parou para pensar, para olhar com outros olhos, toda a intensidade e beleza do que está ao teu redor, ou apenas pensou em juntar dinheiro para ter um carro zero? Aí que está… Nós andamos pelas ruas e chutamos as flores que nascem no asfalto. Um dia me escreveram que elas são amaldiçoadas pela falta de atenção. É meus amigos, e você, já deu atenção para as coisas ao teu redor? Já amou alguém, ou Amor é uma palavra tão desconhecida quanto um termo jurídico escabroso qualquer? Muitas pessoas dizem por aí, ahhh eu amo? Você ama o quê?Já parou pra pensar? Ou tem medo de enlouquecer? Sim, evitamos pensar nos dilemas que nos atormentam, fazemos com eles o que fazemos com as flores que nascem no asfalto, ignoramos, ela está lá, vai morrer um dia.

 

Numa manhã, certo dia, eu tirei uma fotografia de uma dessas centenas de flores que nascem por aí. Hoje eu digo centenas, pois eu vi que ela não era única no bairro em que eu moro. Da janela do meu ônibus de todos os dias, eu vi várias, numa imensidão de cores. A flor que eu fotografei, não existe mais, assim como o girassol tão bonito que eu via num jardim todas as manhãs. Mas sei, eu não desisto, eu sei que novas flores nascerão novamente, sei que pássaros brincalhões e com fome, na sua festa, no banquete de seus dias, ao pousar naquele girassol, derrubaram algumas sementes no chão, e ele nascerá lá novamente, tão belo como seu sucessor. Vejo o girassol, como uma metáfora de esperança, de luta. Quando achamos que nossos ideais e sonhos morreram, ou que fomos vencidos pelo Tempo, eis que ressurge uma nova esperança, basta a nós aceitá-la ou não, e por mais que possa vir a ser uma ilusão, quando vistas no horizonte, por outros olhos, ela podem a ser belas, porque não? Ilusões destroem, mas fazem parte dos nossos dias de ir e vir. Quando nos cansamos, vamos deitar, em nossas camas, mesmo elas não sendo feitas de jornais velhos, quando chega a noite, caminhamos em praias de areia branca, cheias de leões, ou qualquer outra coisas que seja agradável, mesmo que fuja de nossa realidade. Mas não nos esqueçamos, de olhar as flores do asfalto. Vamos deixar nossa arrogância de lado, nossa maldição, a falta de atenção. Um dia me disseram que aquela flor não pediu para nascer, mas nasceu, ali, no asfalto, amaldiçoada pela nossa falta de atenção, e não existe nada pior nesse mundo, que o desprezo. Eu sigo minha luta, em alto mar, um pedaço de linha nas mãos, faça sol, chuva, eu sigo, navegando no oceano de minhas convicções, e no meu desconforto, eu sigo com os olhos bem abertos, sou uma mulher forte, que não perde jamais a esperança de dias melhores, me chamem de tola… Os tolos são justamente tolos, por acreditarem sempre que dias melhores virão, mesmo sabendo que os contos de fada existem apenas nos livros. A realidade é bem diferente, a vida nos dá bofetadas no rosto, o príncipe na verdade sempre será sapo, cavalos brancos sempre nascem rebeldes, a beleza não é eterna, dinheiro não traz felicidade, nada é eterno. E a única certeza que temos nessa vida, chama-se Morte, e o Tempo, que tentamos enganar sempre, achando que aqui ele sempre vai existir. Ele é breve, não vamos perdê-lo com coisas mesquinhas, a vida é curta meus amigos, e não se vive sem correr riscos, e a vida é assim, como o oceano, imprevisível… Temos dias calmos, de maré baixa, marolas tímidas, outros amaldiçoados pela falta de sorte e nós não conseguimos prever, nem a sorte, nem a falta dela. Boa noite!

Querida, eu já estive aqui antes Eu vi este quarto, eu andei neste chão Eu vivia sozinho antes de conhecer você E eu vi sua bandeira no arco de mármore E o amor não é uma marcha da vitória É um frio e sofrido Aleluia... Leonard Cohen
Querida, eu já estive aqui antes
Eu vi este quarto, eu andei neste chão
Eu vivia sozinho antes de conhecer você
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
E o amor não é uma marcha da vitória
É um frio e sofrido Aleluia…
Leonard Cohen

Trilogia do Vento – Vaidade, Cólera e Desejo – Parte 1: A Vaidade

Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Eclesiastes 1:2

Georgia penteava os cabelos com uma escova de cerdas macias. Sentada na cama, ao acordar, a primeira coisa que ela fazia depois de colocar os dois pés no chão, era dirigir-se até a penteadeira e escovar os cabelos. Era um carinho, uma espécie de ritual, um carinho diário de todas as manhãs, enquanto seus olhos se mantinham pequenos e inchados de uma noite de sono. Vários fios de cabelo ficavam presos na escova, e ela tinha medo que o número de fios de cabelo perdidos ultrapassem os cem fios diários. Leu numa revista de beleza, que toda mulher perde em cerca, 100 fios de cabelo todos os dias, sendo eles repostos por novos fios. Ela não contava os fios perdidos, tinha medo de enlouquecer.

Sua tia Berenice tinha câncer, e os seus cabelos antes tão bonitos, não existiam mais. Eram pretos, ondulados, e volumosos, Os cabelos de Tia Berenice ganhavam vida conforme o vento os balançava. Tia Berenice era o sonho e desejo de muitos homens, e continua sendo, mesmo ela não tendo mais a esperança de que a Beleza e o vigor de sua juventude possam voltar como que um milagre bíblico ela sentia-se como um Sansão de saias. O câncer chegou e arrancou toda a sua força. Sua doença era como uma metáfora bíblica, ela era agnóstica, e não acreditava em milagres. Já passou-se o tempo em que seus cabelos eram afagados pelas mãos dos homens que tanto amou na vida.

Tia Berenice usava um lenço colorido na cabeça, e eles sempre combinavam com seus olhos azuis. Apesar do rosto envelhecido e cheio de rugas, marcas de experiência e sabedoria de vida, Tia Berenice nunca perdeu a beleza que fazia o trânsito parar na glória de sua juventude. Ela gostava de ler, e ela era teimosa feito uma mula, recusava em usar óculos, recusava qualquer forma que provasse à sua consciência que o tempo chegou pra ela. Ela comprava livros num velho sebo cujo dono era seu namorado, e eles transavam no chão ao lado de prateleiras cheias de livros, alguns cheirando a mofo e com traças famintas. Hebert, o dono do sebo, adorava os cabelos negros e ondulados de Berenice, e quando Georgia passava em frente à loja, uma vez por semana ele lhe entregava um livro para ela levar à tia. Hebert sabia todos os livros que Tia Berenice já havia lido. Ele era apaixonado por ela, mas Berenice sempre foi uma alma livre, consistente no espírito idealista e livre da década de setenta. Tia Berenice envelheceu, perdeu os cabelos, mas nunca deixou de devanear sentada em sua poltrona velha da sala. Seus olhos vagavam longe nas páginas de um livro. Seu corpo era coberto pelas suas antigas vestimentas hippies, e ela mesmo doente, continuava fumando um cigarro atrás do outro. Cigarros mentolados, que ela acreditava que fazia-lhe menos mal que cigarros “convencionais”. O seu médico proibiu os cigarros, mas sua alma era orgulhosa demais para abandonar aquilo que ela gostava. Já havia perdido os cabelos, e tal como Sansão, sua Força foi embora, só que ralo abaixo… Desde então, tornara-se uma pessoa amargurada. As águas de suas emoções não passam mais pelo seu coração, já adoecido com três pontes de safena. Seu coração estava entupido pelos fios de cabelo que caiam aos montes no ralo do box do chuveiro. Georgia nunca esquecia a cena em que sua Tia Berenice gritava e chorava desesperada, nua, com metade de um seio extirpado  e com os fios de cabelos que lhe restaram, todos ao chão, sendo varridos pela água morna do chuveiro. Desde aquele outono, Berenice quebrou-se em centenas de cacos. Georgia tentava o tempo todo recolher os cacos e tentar trazer de volta o vitral da beleza e força de viver de sua tia, mas por mais que juntasse os cacos, o vitral nunca se completaria. Tia Berenice era incompleta.

Um dia, numa manhã de outono, três anos após o acontecimento trágico que ocorreu à sua Tia Berenice, embaixo de águas mornas, Tia Berenice apareceu-lhe ao pé da cama, sem o lenço cobrindo a cabeça. Ela tinha um sorriso no rosto, algo que Georgia não via há tempos, mas o velho e aromático cigarro mentolado descansava no canto dos lábios.

Bom dia Georgia…,

Tia Berenice era uma mulher de poucas palavras. Quando ela, nas raras vezes conversava, acontecimento em festas de família em que ela bebia escondida, Tia Berenice sempre falava do saudosismo da década de setenta, onde seus cabelos eram longos, pretos, brilhantes e ondulados. E o quão bonitos e selvagens ficavam quando o vento batia neles. Ela foi até a penteadeira de Georgia, e uma voz doce com cheiro de cigarro mentolado invadiu o quarto:

Este móvel era onde eu e sua mãe escovávamos os cabelos todas as manhãs. Eu brigava com tua mãe, pois neste espelho, como pode ver, há espaço para apenas uma imagem. Eu sempre fui difícil e quase invencível, e não nego, egoísta. Logo, sua mãe não perdia o tempo dela discutindo comigo.

Ela riu, Georgia viu seus dentes amarelados pela nicotina do tabaco de todos os dias. Fazia tempo que não via sua Tia Berenice soltar uma gargalhada tão gostosa. Tia Berenice puxou a cadeira em frente à penteadeira, num gesto batendo as mãos no assento da cadeira, chamou Georgia para sentar,

Sente-se aqui querida, vou-lhe contar uma história

Georgia saiu da cama, com os cabelos longos e negros, desgrenhados, como se ela tivesse saído de uma tempestade de vento, sentou-se na cadeira e sua Tia Berenice pegou sua escova de cerdas macias e um spray de colônia perfumada para cabelos.

Quando eu era jovem como tu, meus cabelos eram longos e bonitos quanto os teus

Soltou uma fumaça mentolada no ar, e penteava suavemente os cabelos de Georgia, num carinho saudosista, alegre, porém com um “q” de tristeza que talvez somente ela poderia compreender.

Eu era muito parecida contigo. Os homens me desejavam como uma tempestade que deseja fazer amor com o vento. Já fiz muitas coisas nessa vida, muitas coisas erradas, inclusive. Nos dias de chuva, eu trançava meu cabelo, em dias de praia, eu os deixava soltos, enquanto eu caminhava pela areia próxima onde as ondas quebravam, Quando eu me abaixava para colher conchas, a água das marolas molhavam as pontas dos meus cabelos. Você já amou alguém Georgia? Já sentiu o afago das mãos de um homem, por entre os cabelos?Não há nada mais divino, minha querida, que as mãos de um homem no meio de nossos cabelos, enquanto nos beija na boca. Mãos que percorrem gostosamente perto daqueles fiozinhos tímidos e finos que terminam na nuca, dedos que afastam nosso cabelo para perto do lóbulo da orelha. Sinto falta de meus cabelos minha querida, e quando eu lhe vejo, na flor de sua juventude, eu permito-me dar um sorriso por dentro…Sinto muita falta…Muita falta…

Os cabelos de Georgia estavam impecavelmente escovados, e com cheiro de água de colônia.

Agora Georgia, minha querida, coloque isto, sua beleza ficará indiscutível e terá todos os olhares dirigidos à você

Tia Berenice entregou-lhe um pacote, com um vestido azul, da mesma cor de seus olhos. Georgia e Tia Berenice tinham os mesmos olhos azuis, era herança de família. Era um vestido de viscose indiana, e aquilo foi a coisa mais bonita que cobriu o corpo de Georgia até então. Georgia pegou os livros da faculdade, tirou o celular do carregador, e desceu as escadas. Tia Berenice esperava na varanda, fumando como sempre, seus cigarros mentolados Lucky Strike.

Está linda querida!

Tia Berenice chorava, abraçou Georgia e lhe deu um beijo demorado na testa.

Vá com Deus minha querida…

Georgia foi para a faculdade, e percebeu que atraiu olhos que nunca haviam lhe dado atenção. Parecia que naquele momento a sua vida tinha tomado um outro sentido, era como se o vento que batia em seu rosto, lhe trouxesse algo que nunca vivenciou.

Horas mais tarde, ao chegar em casa, seus pais estavam na sala, cabisbaixos. Na sala, um cinzeiro lotado, com cheiro de menta. A poltrona onde sua Tia Berenice passava seus instantes lendo ou dormindo, estava vazia. Tia Berenice morreu naquela manhã, próximo do almoço, naquele sofá, segurando uma fotografia de quando era jovem, com cabelos compridos. Na fotografia, Tia Berenice vestia o mesmo vestido de viscose azul indiana que acariciava o corpo de Georgia.

O enterro foi no dia seguinte, pela manhã. Georgia disse à mãe que demoraria alguns minutos, que pegaria depois um táxi até o velório. Foi ao quarto que era de sua Tia Berenice e pegou um maço de seus cigarros mentolados. Acendeu um, passou mal na ´primeira tentativa frustrada de tragar. Em frente à penteadeira,escovou os cabelos, borrifou colônia perfumada, pegou uma tesoura, e cortou os cabelos rentes à nuca. Seus cabelos estavam na altura da cintura, e agora eles não existiam mais. Chegou no enterro, com os cabelos curtos e desalinhados. Carregava consigo uma caixa, e nela continha as madeixas negras que sua Tia Berenice tanto amava. No caixão, vestida com o vestido de viscose indiana da mesma cor de seus olhos já sem vida, Tia Berenice parecia sorrir.

espelho+quebrado[1]

 

 

Elegy

Quando eu fiz um mochilão pela Europa, depois de largar a escola…Fui para uma ilha perto da Sicília. Era uma ilha vulcânica. No barco, indo pra lá, tinha um caixão de pinho. Era um morador da ilha voltando para ser enterrado lá. Tinha um monte de sicilianos idosos vestidos de preto…Esperando, em fila, na praia. Quando o caixão chegou na praia, todas as velhas enlouqueceram, gritavam, se atiravam sobre ele…Batiam no peito, puxavam os cabelos, uivando como animais. Era tudo tão…Tão verdadeiro. Eu sempre vivi cercado de funerais, mas nunca tinha visto tanta dor. Na época, fiquei assustado, mas acho que aquilo é bem mais saudável do que isto…

Diálogo entre Nate Fischer e Claire Fischer, no episódio piloto de “Six Feet Under” ou “A sete palmos”, meu seriado favorito.

Estou sonhando, com caixões de pinho, cinzas ao vento,
Sinto a terra fofa e cheirosa pesar neste meu corpo,
Estou viva, mas Meu Amor morreu, está triste,
Desfalecendo, e sua canção é tão dolorida,
O Tempo chegou para lavar minha alma,
E ele está me olhando, nos olhos, com toda calma,
E com lágrimas nos olhos eu lhe digo adeus,
Meus olhos tão grandes, estes olhos estão molhados agora,
Cada vez que o Tempo sussurra seu Adeus nos meus ouvidos,
Cada vez que eu vejo seu rosto se desmoronando,
Feito castelos de areia, destruídos pela calma onda da orla,
Na beira da praia, eu pedi a Deus que me trouxesse,
E que me permitisse amar, com o coração mais puro,
Mas os ventos chegaram e levaram meu Amor embora,
E é na tempestade que se aproxima, que minhas emoções afloram,
Cada gota que eu vejo cair na janela, cada tom escuro da tempestade,
Me lembra dos teus olhos, cada riso de uma criança pulando as poças d’água,
É uma elegia, um réquiem, do teu sorriso que eu tanto amei,
Cada canção que o trovão grita, madrugada adentro, são palavras tuas,
Escritas em minha memória, em linhas tortas, devaneios, lembranças,
Teu rosto pálido, como um lírio, és a flor do meu túmulo,
E neste meu túmulo, eu, mulher errante e apaixonada…
Descanso em paz, esperando o Tempo, consumir meu Amor,
E jogá-lo ao mar, ao vento, como as cinzas de um funeral.

E eu não estou com medo de morrer,
a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo.
Por que estaria com medo de morrer?
Não há razão para isso,
você tem que ir algum dia.”
“Eu nunca disse que estava com medo de morrer.

Se você pode ouvir este sussurro você está morrendo…”

* The great gig in the sky, Pink Floyd.

Sobre o Efêmero

O que podemos falar sobre o efêmero?Fugaz, passageiro,momentâneo?É aquela paixonite de adolescente no auge de seus quinze anos achando que encontrou um príncipe encantado e 15 dias depois nos “desapaixonamos porque o príncipe virou sapo“. É aquela visão rápida mas que marca a gente pra sempre?É aquele sono que logo vai embora quando uma pessoa interessante aparece para conversar contigo?

Há dias e dias que eu ando pensando nas coisas fugazes da vida. É engraçado quantas vezes nos meus 24 anos, passei por situações que as pessoas se pegam falando para nós aquela típica frase: “Fica calma, isso passa, logo logo você se esquece!”. Quando eu era criança, um dia estava voltando da escola e encontrei uma pomba no chão. Não era aqueles pombos horríveis, sabe?Era uma pomba rolinha e aparentemente estava deitada no chão. Eu, na minha alegria e inocência  de criança achei que a pomba havia se machucado e eu queria salvar ela. Peguei um gravetinho e comecei a cutucar o pássaro no chão. Ela não se mexia, e eu achei estranho. Virei o bicho de barriga pra cima e vi que tinham vermes devorando sua barriga. Foi a minha primeira experiência que eu tomei consciência que as coisas vivas morrem. Elas morrem e podem ser devoradas, daquela forma, e uma menina piolhenta(eu estava fazendo tratamento contra piolhos na época…) ficaria chafurdando o corpinho putrefato e ficaria alguns minutos entendendo que porra era aquela. Eu ficava me perguntando o que aconteceu com aquele bichinho. Cheguei em casa e perguntei para minha mãe porque tinha “bigatos” na barriga daquela pombinha tão bonitinha. Bem, ela disse: “-Ela morreu!Isso acontece com todo mundo!”. Minha mãe adotiva não tinha tanto tato para explicar as coisas. Na época, comecei a assistir os primeiros filmes de terror. Um deles foi um da “saga” Sexta-Feira 13. Quando abrem o caixão do meu querido Jason Voorhees, aparecem novamente os malditos vermes rastejando na cara dele junto com baratas e besouros cenográficos de gosto bem duvidoso.  Sendo assim, me lembro que entrei em pânico na mesma proporção de quando assisti “A Colheita Maldita” achando que toda espécie de milharal da face do nosso planetinha acolhia uma espécie de demônio que poderia arrancar sua espinha dorsal pela cabeça. Imagina uma criança fazendo associações: “Um dia eu vou morrer, e vou ser devorada. Eu não quero morrer, eu não quero vermes me comendo”. Sei que fiquei uns 2 dias pensando só nisso. Mas, como os adultos dizem, “isso passa”. Isso passou e eu esqueci mesmo. Nem liguei mais para as coisas mortas, pois os adultos me disseram que as pessoas podem ser cremadas, então esse fato me tirou todo aquele pavor. Isso foi um exemplo de algo efêmero. Foi uma visão de uma pomba morta que me deixou em pânico durante 2 dois e depois eu nem me lembrava mais, até que um dia uma coisa que todo mundo tem, chamada memórias cognitivas de curto prazo, no caso, o tal do efêmero, momentâneo, passageiro, transitório.  Foi um episódio de curto prazo, mas é algo que eu voltei a me recordar quando tinha 15 anos,pois eu vi uma criança na praça central de Santa Bárbara d’Oeste cutucando a pomba morta com um graveto de algodão-doce. É engraçado que foi a partir desta idade que eu comecei a ter flashes de memórias perdidas. Sabe?Aquelas memórias banais, que a gente não dava importância no começo, ou que nos deu um trauma leve, porém passageiro, ou simplesmente nem nos lembrávamos mais. Coisas que eu via e não conseguia entender o que era exatamente, e de repente aquilo volta, em decorrência de algo no nosso cotidiano nos trazer de volta qualquer tipo de acontecimento correlato.

Andei pensando esses dias, sobre essas coisas rápidas, como o simples fato de uma pessoa olhar pra você num metrô lotado e sorrir numa plena segunda-feira. Hoje uma senhora bem idosa olhou pra mim e me deu um sorriso, e eu retribui. No meio de várias pessoas mal-humoradas porque era segunda-feira e mal esperavam a sexta-feira chegar, uma pessoa que lhe retribui ou distribui um sorriso, é algo marcante não é?Ela foi embora, desceu na estação da Saúde e eu vi ela bem devagarzinho com sua bengala em direção da escada rolante. Aquele sorriso durou frações de segundo, mas é algo que vou conservar comigo, assim como a visão de meu pai, meus irmãos menores e minha mãe na beira do mar. Eu estava sentada no guarda-sol observando eles de longe. E minha irmãzinha de 10 meses se descobrindo nas marolinhas do mar e sorrindo mostrando seus 2 dentinhos inferiores. Quanto tempo durou isso?10 minutos?Sim, foi muito rápido, mas daqui alguns anos, naquele mesmo local, aquilo que foi efêmero se transformará em saudade e numa lembrança permanente. Quem disse que tudo isso é passageiro?