Confessionário

O prazer é um pecado, e às vezes o pecado é um prazer. 
(Lord Byron)

As luzes lá fora já se apagaram. Os quatro comprimidos sublinguais de Rivotril duas miligramas estão se desmanchando na boca. O conhaque Presidente está pela metade, sorrindo pra ela, o gato oportunista passeando entre as pernas, entrelaçando-se, olhando pra cima e emitindo o som estranho que vem dos gatos: ronronar… Ronronar. Ela sempre gostou desta palavra, soa estranhamente erótico. Doente… Pensou ela… O gato, de alcunha Byron, queria carinho? Não, ele quer comida, está sempre faminto, com olhares piedosos, tal como o gato do desenho do ogro verde e o burro falante. O prato de Byron, o Gato está vazio. Talvez tenha um pouco de leite não coalhado na geladeira e um resto de comida de gato enlatada. Byron a encara, na penumbra da madrugada aqueles olhos amarelos lhe dão arrepios e ele a segue sentindo-se satisfeito quando ela coloca a tigela de comida ao chão.

Gatos desgraçados, tão classudos, comendo sentados, parando para respirar, olhando ao redor. Aqueles olhos amarelos de reprovação, enquanto ela toma goles longos de conhaque e acende a porcaria dos cigarros mentolados que ela esconde na gaveta. Os comprimidos de Rivotril, numa pasta nojenta, misturando com o conhaque made in Paraguai na boca. Aquela sensação relaxante, quente, densa e consoladora, com um peso de um homem entre as pernas, seu velho homem.

Os olhos do gato dizem: tal como o peso daquele seu velho homem ao qual você nunca teve.

Dá uma alta risada de escárnio, e vai se derretendo no sofá, com o olhar perdido no teto mofado com pintura descascada. Talvez toda a concepção que ela tenha a respeito de sexo, seja como aquelas paredes, aquela pintura… Incompleta, inacabada, cheia de manchas. Talvez ela se junte ao trovador bêbado que passa todas as noites declamando versos desconexos embaixo de sua janela, mas hoje, justamente hoje que ela precisava se deleitar do escárnio dos desgraçados, eles não cantam suas emoções. Fica somente o eco das vozes na escuridão, repetindo como trechos de canções em disco riscado…

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

É o que diz no disco riscado do Pink Floyd. Enquanto “Echoes” toca e ela delira no sofá, os olhos do gato, reprovadores, encarando-a como os olhos do padre durante a confissão. Lembrou-se que só se confessou uma vez na vida, na primeira comunhão. Entrou em uma sala no pátio da Igreja Nossa Senhora Aparecida, da cidadezinha pacata onde todos puxam o “r”. O padre estava sentado numa grande cadeira de madeira maciça e couro. Conte-me seus pecados minha filha, do que você se arrepende? Mas eram pecados de criança, tal como roubar doces, gastar dinheiro do lanche com fliperama,  subir no telhado escondido, simular sexo com a Barbie e o Ken, e fazer desenhos sem educação sobre a professora chata. Vou-me confessar Byron… Só você me entende, eu sei e você agora está com aquele olhar de que quer me ouvir…

Byron, o gato, se aproximou, lambeu-lhe a mão, não gostou muito, tinha gosto de conhaque, nicotina e sangue. Ela cortou a mão na lata de comida pra gato e não percebeu. O chão da cozinha estava manchado, contando histórias no chão. Mas o gato ficou lá, sentado, olhando pra ela, seminua e bêbada no sofá.

Byron eu pequei… Eu peco todos os dias, todas as noites…

O gato arrepia os pelos, lambe as patinhas e volta em sua posição de olhos atentos.

Eu queria beijar-lhe a boca inteira, afundar minhas mãos nos negros cabelos,

 Daquele seu velho homem que você nunca teve, disse o gato, com os olhos…

 Eu poderia lamber-lhe a cara, eu poderia beijar todos os pelos do rosto. Aquela barba negra por fazer. Eu poderia Byron… Eu poderia pensar em um milhão de coisas sujas e vulgares, eu poderia dançar nua pela sala, eu poderia fazer uma rima pobre e podre, mas eu não sou poeta. Eu poderia percorrer-lhe o corpo inteiro, como um inseto ou morder-lhe como um animal sádico, brincando com a presa. Aquele velho homem… Velho… Antigo, empoeirado, um quadro inacabado perdido em um souvenir.

Tomou mais um gole de conhaque; desejar sem poder é pecado? Até onde minhas entranhas expostas são um grito desconexo de utopia? O que é utopia? O que eu tenho medo? Qual o índice da minha maldade? Da nossa maldade, sem exceções? É matar alguém com 200 facadas, é torturar uma criança até a morte por inanição? É ver um cadáver na rua esperando o rabecão e tomar uma cerveja na calçada da esquina? Eu posso sufocar meu tesão com um travesseiro e pedir desculpas depois? Eu posso lhe arranhar as costas, posso traçar mapas de desejo no meio do suor, pelos, veias e tendões? Qual o prazer em sentir dor? De ver meu corpo rasgado e com marcas profundas de dedos, pequenas irritações causadas nas pele por causa do passeio de um rosto barbado? A preguiça masculina de 3, 4 dias de pelos na cara. E o meu corpo no espelho, dilacerado, desalmado e talvez amado? Qual foi o meu pecado? Pecado Byron… PE-CA-DO…

 Byron subiu no sofá, sentou no ventre nu e suado daquela que balbuciava eloquências e metáforas, e com olhos piedosos passou a língua áspera no ventre dela, como se quisesse caçar as mariposas no útero. E os pelos do gato como uma carícia, as patinhas pressionando como dedos. Ele se deitou, encarou-a com os olhos de incógnita e o piscar de felino. Trouxe-lhe a exata sensação de que o pecado era para ser vivido, mesmo na utopia. Dormiu, sonhou com o seu velho homem, que tem olhos e jeitos de felino. Dorme e sonha com dias poéticos, desgastados, descascados, com um pouco do mofo das tristezas, cores sinestésicas e os ventos de alegrias cheias de tragédia. Versos, neologismos, dor, beijos e gemidos.

 O gato olhou para a janela, poderia dar um passeio lá fora, no mundo paralelo dos gatos, perturbando o sono alheio com as transas felinas que atiçam o sono dos incautos, mas ficou com sua dona, e pensou nos albatrozes, “imóveis no ar”, do disco riscado do Pink Floyd. A noite foi como eco, cheio de vozes e desejos ensandecidos. A noite apenas começou, com seus encantos, prazeres, pecados e desejos, deitando em metáforas, aforismos, metonímias e falácias. O bêbado trovador passou embaixo da janela.  Todos os olhos felinos piscaram e sorriram, enquanto lambiam-se uns aos outros, as patas, a cara, o corpo, o sexo…

Escrito ouvindo isso aqui várias vezes:

Metáfora

As horas passam, sangue correndo nas tuas veias e artérias como um rio calmo em dia de inverno. E tem aquele frio, lá dentro,  arrepiando a pele, apertando o peito, uma pressão, como um súcubo ou incubus sentado no peito, olhando-te enquanto dorme. É preciso ter nervos de aço para entender o além de todas as coisas. É preciso astúcia para entender as notas de uma música, e se não conhecê-las, tenha a astúcia para saber senti-las. É necessário o medo, a solidão, a saudade… É necessário um pouco de dor para nos tornarmos fortes, é preciso se encolher na hora de um pesadelo, para abraçarmos a nós mesmos. Que falta de amor próprio, queremos tanto o abraço alheio, mas nós mesmos não nos abraçamos todos os dias. Dias atrás vi em um muro, uma pichação: “Você já amou hoje?”. Já perdi as contas de quantas vezes eu disse não. Já perdi as contas dos dias que o sol não me dá nenhum sorriso. Ele é apenas algo que me esquenta, que aparece todas as manhãs, e no auge das três horas da tarde, ele invade minha sala e me dá aquela vontade de ficar nua no chão, com a luz do sol envolvendo minha pele e tirando aquela tristeza que me entope os poros. É quando eu permito sua luz me abraçar, é como o calor de um abraço. Entende? Não tenho o abraço da pessoa que eu amo, mas eu posso de alguma forma me permitir de usar uma metáfora para representar o calor de seu abraço, mesmo que seja em um dia frio. Eu amo o poder das palavras e toda a luxúria delas transando entre si. Adoro o calor, o amor e o desamor das metáforas. Seria bom se as pessoas fossem como as metáforas… Seria bom…

A metáfora da mariposa e o lampião.

Em volta do lampião aceso naquele quarto, naquele sítio no meio do nada, vários insetos circundando ao redor, bêbados ao redor do fogo, debatendo-se, caindo no chão, rodopiando com as asas pra baixo, perninhas pra cima, como se estivessem tendo uma convulsão. Não sei se insetos tem convulsão, como os humanos… Devem ter, pois tais humanos se aproximam mais a insetos do que aquilo que chamamos de natureza humana, logo, devem existir insetos mais humanos do que nós.

E os insetos são como anjos caídos, frente a luz divina que os mata, eles acreditam em suas convicções, e amanhecem mortos e pisoteados, por nós humanos, eles são mortos pela própria luz que tanto idolatraram. E a mariposa enquanto rodopiava em volta de sua paixão luminosa, não se importava com seu vício. Ela dançava obscenamente, hipnotizada, suas asas batendo em segundos violentos, chama sensual, como um casal que se ama entre as quatro paredes de um motel de beira-estrada. O calor do lampião queimando as asas é como um casal arranhando as costas um do outro, cravando as unhas no ápice de um prazer enlouquecedor. Ela se joga no vidro do lampião, golpe… Quando o lampião se apaga, ela chora como uma criança, sua fonte de Amor foi embora. Ela vai embora e pousa numa flor no jardim de frente para a janela onde a lampião se acende, ou ela se camufla em um tronco marrom cheio de juras de amor de 1980. E quando a noite chega, o lampião se acende, e ela beija a luz com seus cílios. Ela se curva… Perante aquele fogo suas asas batem um milhão de vezes. A mulher a fazer Amor no quarto também…

 

luz

Trilogia do Vento – Vaidade, Cólera e Desejo – Parte 1: A Vaidade

Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.
Eclesiastes 1:2

Georgia penteava os cabelos com uma escova de cerdas macias. Sentada na cama, ao acordar, a primeira coisa que ela fazia depois de colocar os dois pés no chão, era dirigir-se até a penteadeira e escovar os cabelos. Era um carinho, uma espécie de ritual, um carinho diário de todas as manhãs, enquanto seus olhos se mantinham pequenos e inchados de uma noite de sono. Vários fios de cabelo ficavam presos na escova, e ela tinha medo que o número de fios de cabelo perdidos ultrapassem os cem fios diários. Leu numa revista de beleza, que toda mulher perde em cerca, 100 fios de cabelo todos os dias, sendo eles repostos por novos fios. Ela não contava os fios perdidos, tinha medo de enlouquecer.

Sua tia Berenice tinha câncer, e os seus cabelos antes tão bonitos, não existiam mais. Eram pretos, ondulados, e volumosos, Os cabelos de Tia Berenice ganhavam vida conforme o vento os balançava. Tia Berenice era o sonho e desejo de muitos homens, e continua sendo, mesmo ela não tendo mais a esperança de que a Beleza e o vigor de sua juventude possam voltar como que um milagre bíblico ela sentia-se como um Sansão de saias. O câncer chegou e arrancou toda a sua força. Sua doença era como uma metáfora bíblica, ela era agnóstica, e não acreditava em milagres. Já passou-se o tempo em que seus cabelos eram afagados pelas mãos dos homens que tanto amou na vida.

Tia Berenice usava um lenço colorido na cabeça, e eles sempre combinavam com seus olhos azuis. Apesar do rosto envelhecido e cheio de rugas, marcas de experiência e sabedoria de vida, Tia Berenice nunca perdeu a beleza que fazia o trânsito parar na glória de sua juventude. Ela gostava de ler, e ela era teimosa feito uma mula, recusava em usar óculos, recusava qualquer forma que provasse à sua consciência que o tempo chegou pra ela. Ela comprava livros num velho sebo cujo dono era seu namorado, e eles transavam no chão ao lado de prateleiras cheias de livros, alguns cheirando a mofo e com traças famintas. Hebert, o dono do sebo, adorava os cabelos negros e ondulados de Berenice, e quando Georgia passava em frente à loja, uma vez por semana ele lhe entregava um livro para ela levar à tia. Hebert sabia todos os livros que Tia Berenice já havia lido. Ele era apaixonado por ela, mas Berenice sempre foi uma alma livre, consistente no espírito idealista e livre da década de setenta. Tia Berenice envelheceu, perdeu os cabelos, mas nunca deixou de devanear sentada em sua poltrona velha da sala. Seus olhos vagavam longe nas páginas de um livro. Seu corpo era coberto pelas suas antigas vestimentas hippies, e ela mesmo doente, continuava fumando um cigarro atrás do outro. Cigarros mentolados, que ela acreditava que fazia-lhe menos mal que cigarros “convencionais”. O seu médico proibiu os cigarros, mas sua alma era orgulhosa demais para abandonar aquilo que ela gostava. Já havia perdido os cabelos, e tal como Sansão, sua Força foi embora, só que ralo abaixo… Desde então, tornara-se uma pessoa amargurada. As águas de suas emoções não passam mais pelo seu coração, já adoecido com três pontes de safena. Seu coração estava entupido pelos fios de cabelo que caiam aos montes no ralo do box do chuveiro. Georgia nunca esquecia a cena em que sua Tia Berenice gritava e chorava desesperada, nua, com metade de um seio extirpado  e com os fios de cabelos que lhe restaram, todos ao chão, sendo varridos pela água morna do chuveiro. Desde aquele outono, Berenice quebrou-se em centenas de cacos. Georgia tentava o tempo todo recolher os cacos e tentar trazer de volta o vitral da beleza e força de viver de sua tia, mas por mais que juntasse os cacos, o vitral nunca se completaria. Tia Berenice era incompleta.

Um dia, numa manhã de outono, três anos após o acontecimento trágico que ocorreu à sua Tia Berenice, embaixo de águas mornas, Tia Berenice apareceu-lhe ao pé da cama, sem o lenço cobrindo a cabeça. Ela tinha um sorriso no rosto, algo que Georgia não via há tempos, mas o velho e aromático cigarro mentolado descansava no canto dos lábios.

Bom dia Georgia…,

Tia Berenice era uma mulher de poucas palavras. Quando ela, nas raras vezes conversava, acontecimento em festas de família em que ela bebia escondida, Tia Berenice sempre falava do saudosismo da década de setenta, onde seus cabelos eram longos, pretos, brilhantes e ondulados. E o quão bonitos e selvagens ficavam quando o vento batia neles. Ela foi até a penteadeira de Georgia, e uma voz doce com cheiro de cigarro mentolado invadiu o quarto:

Este móvel era onde eu e sua mãe escovávamos os cabelos todas as manhãs. Eu brigava com tua mãe, pois neste espelho, como pode ver, há espaço para apenas uma imagem. Eu sempre fui difícil e quase invencível, e não nego, egoísta. Logo, sua mãe não perdia o tempo dela discutindo comigo.

Ela riu, Georgia viu seus dentes amarelados pela nicotina do tabaco de todos os dias. Fazia tempo que não via sua Tia Berenice soltar uma gargalhada tão gostosa. Tia Berenice puxou a cadeira em frente à penteadeira, num gesto batendo as mãos no assento da cadeira, chamou Georgia para sentar,

Sente-se aqui querida, vou-lhe contar uma história

Georgia saiu da cama, com os cabelos longos e negros, desgrenhados, como se ela tivesse saído de uma tempestade de vento, sentou-se na cadeira e sua Tia Berenice pegou sua escova de cerdas macias e um spray de colônia perfumada para cabelos.

Quando eu era jovem como tu, meus cabelos eram longos e bonitos quanto os teus

Soltou uma fumaça mentolada no ar, e penteava suavemente os cabelos de Georgia, num carinho saudosista, alegre, porém com um “q” de tristeza que talvez somente ela poderia compreender.

Eu era muito parecida contigo. Os homens me desejavam como uma tempestade que deseja fazer amor com o vento. Já fiz muitas coisas nessa vida, muitas coisas erradas, inclusive. Nos dias de chuva, eu trançava meu cabelo, em dias de praia, eu os deixava soltos, enquanto eu caminhava pela areia próxima onde as ondas quebravam, Quando eu me abaixava para colher conchas, a água das marolas molhavam as pontas dos meus cabelos. Você já amou alguém Georgia? Já sentiu o afago das mãos de um homem, por entre os cabelos?Não há nada mais divino, minha querida, que as mãos de um homem no meio de nossos cabelos, enquanto nos beija na boca. Mãos que percorrem gostosamente perto daqueles fiozinhos tímidos e finos que terminam na nuca, dedos que afastam nosso cabelo para perto do lóbulo da orelha. Sinto falta de meus cabelos minha querida, e quando eu lhe vejo, na flor de sua juventude, eu permito-me dar um sorriso por dentro…Sinto muita falta…Muita falta…

Os cabelos de Georgia estavam impecavelmente escovados, e com cheiro de água de colônia.

Agora Georgia, minha querida, coloque isto, sua beleza ficará indiscutível e terá todos os olhares dirigidos à você

Tia Berenice entregou-lhe um pacote, com um vestido azul, da mesma cor de seus olhos. Georgia e Tia Berenice tinham os mesmos olhos azuis, era herança de família. Era um vestido de viscose indiana, e aquilo foi a coisa mais bonita que cobriu o corpo de Georgia até então. Georgia pegou os livros da faculdade, tirou o celular do carregador, e desceu as escadas. Tia Berenice esperava na varanda, fumando como sempre, seus cigarros mentolados Lucky Strike.

Está linda querida!

Tia Berenice chorava, abraçou Georgia e lhe deu um beijo demorado na testa.

Vá com Deus minha querida…

Georgia foi para a faculdade, e percebeu que atraiu olhos que nunca haviam lhe dado atenção. Parecia que naquele momento a sua vida tinha tomado um outro sentido, era como se o vento que batia em seu rosto, lhe trouxesse algo que nunca vivenciou.

Horas mais tarde, ao chegar em casa, seus pais estavam na sala, cabisbaixos. Na sala, um cinzeiro lotado, com cheiro de menta. A poltrona onde sua Tia Berenice passava seus instantes lendo ou dormindo, estava vazia. Tia Berenice morreu naquela manhã, próximo do almoço, naquele sofá, segurando uma fotografia de quando era jovem, com cabelos compridos. Na fotografia, Tia Berenice vestia o mesmo vestido de viscose azul indiana que acariciava o corpo de Georgia.

O enterro foi no dia seguinte, pela manhã. Georgia disse à mãe que demoraria alguns minutos, que pegaria depois um táxi até o velório. Foi ao quarto que era de sua Tia Berenice e pegou um maço de seus cigarros mentolados. Acendeu um, passou mal na ´primeira tentativa frustrada de tragar. Em frente à penteadeira,escovou os cabelos, borrifou colônia perfumada, pegou uma tesoura, e cortou os cabelos rentes à nuca. Seus cabelos estavam na altura da cintura, e agora eles não existiam mais. Chegou no enterro, com os cabelos curtos e desalinhados. Carregava consigo uma caixa, e nela continha as madeixas negras que sua Tia Berenice tanto amava. No caixão, vestida com o vestido de viscose indiana da mesma cor de seus olhos já sem vida, Tia Berenice parecia sorrir.

espelho+quebrado[1]

 

 

A metáfora da mariposa

Há várias mariposas circundando ao redor, dançando bêbadas ao redor do fogo, debatendo-se caindo no chão e rodopiando com as asas pra baixo. São como os anjos caídos por acreditar nas próprias convicções contrárias à lei divina, quando amanhecem no dia seguinte mortas, queimadas pela luz que elas tanto amavam. E as mariposas não se importam, aquela luz eram delas, e elas rodopiam em volta, até suas forças serem consumidas. Caem, mortas, secas e depois varridas por uma velha rabugenta. As mariposas não voam mais, jazem mortas na terra, levadas por formigas.

E as demais mariposas, todos os dias ficam numa dança obscena, hipnotizadas, com suas asas batendo violentamente, em volta das lâmpadas, do fogo dos lampiões, tão sensuais quanto um casal amando-se entre quatro paredes. Quando as luzes se apagam, as mariposas choram como mulheres que perderam um amor que se acabou. Elas esperam pelas noites, num jardim, rodopiando pelas flores de cores sensatas e insensatas, camuflando-se em troncos marrons cheios de juras de amor dos anos 80. E quando as luzes do quarto se acendem, ou quando vêem a chama dos lampiões, elas se aproximam novamente. Elas beijam sua luzes, como um vício, beijam suas luzes, como uma mulher que beija os olhos de seu amado. Tal como as mariposas, as mulheres curvam perante seus desejos, e as nossas mariposas batem as asas, freneticamente em nosso ventre.

luz

Instantes

No domingo choveu, eu fiquei embaixo da chuva ao caminhar de volta pra casa. Depois de um final de semana com olhos baixos e alma em silêncio, a chuva que caia lá fora limpava minha alma, e eu me senti plena, tal como uma flor após os tímidos raios de sol. Ali no meio da tempestade minh’alma gritava, num silêncio interrompido pelos barulhos dos trovões. E eu pensei no meu amanhã, como seria o trabalho, planos para o futuro, minha calma, minha alma, meu Amor. Pensei na Beleza e no poder do silêncio, e o quanto as almas silenciosas nos ensinam a sermos mais sensatos, o silêncio me cura, e me traz uma saudade galopante nos ponteiros de um relógio de um Tempo não tão distante, mas a ansiedade me torna humana, e eu por horas aflita me coloco a lutar contra minha pressa de encher minha instância metafórica com beijos e um abraço caloroso. E um milhão de violinos inquietos tocam uma canção bela, ensurdecedora, e nos meus instantes de silêncio, eu deito meus pensamentos numa maresia de sons. Eles cantam, e eu escrevo as notas musicais num pedaço de papel ou num editor de texto. E deixo o ardor e a fúria da madrugada tomar conta da minha intensidade ao qual não consigo represar em horas saudáveis de sono. Minha paz, minha calma, meu espírito…Só silencia quando uma ode de verbos conjugados e não conjugados ressoam pelas linhas perdidas de meu espaço onde minha alma grita, onde intensamente eu grito meu canto, minha razão de viver.

E nesta segunda-feira, choveu novamente. Eu me vi tarde da noite voltando do trabalho, e a chuva me pegou no meio do caminho. Os carros passavam, divinamente embaixo da passarela. As gotas de chuva transmutavam na beleza das luzes amarelas dos postes urbanos. E eu ali, encharcada de emoções, lembranças e sonhos. E eu pensei o quanto gostaria de ser beijada embaixo de uma chuva tórrida, o quanto queria que os trovões de minha eloquência perdessem toda a razão de assustar os incautos. Eu queria os instantes do meu amado silêncio, eu gostaria de ter minha metáfora de tons amarelos, aquela flor que estava em um bonito jardim. Hoje eu passo no jardim de minha metáfora e vejo que a flor não existe mais ali. Talvez, uma nova semente surgirá, depois do período de tempestade, a flor imponente aparecerá de novo, renovada depois dos tempos incólumes de fúria. Eu apenas escuto o silêncio em sua alma, e isso me basta. Sigo minha vida ouvindo os sons que me permeiam, as chamas que me queimam o peito. Na passarela de minha razão e intensidade, eu murmuro um soneto sem métrica, eu vou andando contra o vento, e talvez meu guarda-chuva se quebre ou minha alma teimosa sempre será tentada a sair na chuva sem proteção alguma e sofrer as mágoas e dores de um resfriado que somente o Tempo e sua consequente Razão são capazes de curar.

Eu posso estar caminhando para o cruel, insensato e inocente caminho daqueles que amam. Eu posso estar andando embaixo da neve, sem agasalho, mas a cada instante eu tento compreender as imperfeições dos flocos de neve, e mesmo assim, tais flocos que permeiam o chão e nos fazem escorregar, ou tremer de frio, nos fazem querer contemplar a chama de nossa lareira de emoções, por mais breve que as chamas durem. A memória do fogo marcou uma chaga, uma tatuagem colorida na pele, e por vezes eu sinto-me com o poder e beleza de uma criança com um sorriso no rosto.

Eu enfrento águas calmas, eu mergulho numa maré turbulenta, eu não carrego mais guarda-chuvas, antes eu andava com guarda-chuvas até embaixo de marquises. Hoje eu saio nas ruas e deixo-me levar pela fúria do Tempo, que não me permite mais viver sem correr riscos. Se eu dizer “Eu te amo”, qualquer dia desses, é porque já perdi todo o meu medo mesquinho de ser atingida pelo raio da negação e julgamentos alheios. Minha entrega é tão somente minha e da minha metáfora literária, e a Vida me dirá em qualquer tempo verbal, se minha eloquência foi correta ou não. Amar é um verbo, tão irregular  e sem conjugações tal qual a Beleza. Podemos ser traídos por nossas talvez falsas convicções, pela falta de juízo causada pelo desconforto e caos. Em questões de Amor, eu sou como Ícaro. Talvez eu seja sonhadora demais, e ao me aproximar do sol, queimarei minhas asas e cairei em direção ao mar, onde minhas pesadas asas não me deixaram voar mais, em busca de meu juízo e redoma de proteção que deixei na beira da praia, lá, onde as ondas quebram em silêncio e sem desconforto, mas, ali, naquele lugar, eu vivia como uma eremita com fobias e medo do desconhecido. Eu tinha medo de andar descalça sob as pedras, então colocava minhas sandálias de moralidade e bom senso pré-julgado, a síndrome de mocinha de contos de fada.

Sigo minha vida num barco, e talvez eu fique 84 dias sem sorte, perdida no mar, mas sem perder a minha Força. Talvez eu me enfraqueça, talvez eu deite em minha cama de jornais, e então sonharei, com aquilo que há de mais belo em meu nobre coração. Talvez eu seja agraciada pela coerência tão dolorosa de um erro, mas eu me erguerei, e jogarei meu barco ao mar novamente. Nunca é tarde para se pescar um Marlim  Ele aparece sem querer, tão fascinante, intenso e desconcertante, mas ele pode ser devorado por tubarões, mas eu tentei, embaixo de chuva ou sol escaldante, obter minha sorte, que trago aqui por meio de metáforas e permissões literárias e talvez a olhos de outros, uma imoralidade, em muitos, uma coragem que atordoa. E eu sigo com o Tempo me olhando nos olhos, me encarando com seus ponteiros, me trazendo a saudade que eu não consigo por horas deixar de me emocionar, uma saudade que seus olhos me trouxeram, uma saudade em forma de silêncio, uma beleza e inquietude que fala com os olhos, e cujas palavras apenas esperam o Tempo certo para serem ditas, e que talvez muitos anos se passem, e este homem que fala com olhos não consiga dizer tudo o que tem de ser dito, eis a beleza misteriosa de sua alma, a Graça faz-me calar, nas manhãs, nas madrugadas insones, silenciosamente eu lhe carrego em meus mais íntimos e belos instantes.

Com seus olhos pequenos e inquietos a Graça beijou meus ombros,
Deixou-me esperando debaixo de uma chuva gelada, com trovões cantando ao fundo
Mas o raio iluminou a noite e no clarão eu vi a Graça me observando nas sombras,
E quando eu fecho os olhos, nós comungamos o pecado como crianças na Eucaristia.

A imoralidade mora no céu…E no coração dos homens.

Este texto é a coisa mais imoral que eu já escrevi. Eu sou humana, fraca, eu tento resistir à tentação, mas ela é mais forte do eu. Eu não sou um eco de ninguém, apenas permito-me escrever um fluxo de pensamentos, um fluxo de coisas que fazem parte da minha tão simples vida. Sim , eu escrevo sobre a vida, eu adoro metáforas, eu acho a sutileza algo extremamente elegante. Eu demorei muito para escrever essa metáfora sobre o Sol e a Lua, entre outras coisas da Terra, eu terminei de escrevê-lo eram três horas da manhã. Fiquei por minutos, pensando se valia a pena publicá-lo ou não. Publiquei primeiramente no meu outro blog, que um grupo de escritores e ilustradores. E por que, você se pergunta, que eu fiquei por tempos pensando se publicava ou não? Porque este texto pode ser considerado muito, mas muito, absurdamente imoral. Mas este texto tem alma própria, é bonito, sensível, e se eu pensei em alguém pra escrever isso, não é porque não tenho idéias próprias, mas a partir do momento que algo entra em nossas vidas a ponto de refletirmos sobre nossas atitudes, razões, emoções, que nos traz um sorriso mais largo, enfim, não creio que seja imoral. Pode ser um tentação irresistível, claro, pode mesmo, e o que nos resta, como seres humanos, é quando não podemos vencer nossas convicções, nos entregamos ao pecado. E teria outro jeito? Renunciar, talvez, eu sou teimosa, odeio renúncias, sou uma eterna errante, eu não nego e não renúncio, eu luto até o fim. Não sou de renunciar sentimentos, já machuquei-me muito por ser assim, mas creio que tudo nesta vida vale a pena, tudo nós levamos como uma lição, e não devemos deixar de correr riscos. Sigo por aí, traindo minhas convicções, pecando, mas não deixo de ser única, ter virtudes reais, sentimentos intensos, ideias e pensamentos que voam como uma folha na fúria de um vento. Se deixo-me inspirar, é porque permito-me olhar o que há de Belo nesta vida, e eu não falo só de lindos olhos azuis e um sorriso. Existem muitas coisas além disso,  muitas coisas além do que os nossos olhos enxergam. Somente a Beleza não me basta, é preciso que toque meu coração e que me tire completamente da toca. São bem poucos, não passa nem de uma mão, se eu contar nos dedos, as pessoas que me fizeram crer que nem tudo está perdido. Sou uma eterna errante, tal como Dom Quixote, estou sempre em busca de causas perdidas.

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Este texto que vem logo abaixo é um conceito. Deve ser lido como uma fantasia, um sonho, uma metáfora. O Sol, a Lua, como dois apaixonados, trocando mensagens entre si.  Quem sabe, você, querido (a) leitor (a), leia este texto pensando na pessoa amada, mesmo que ele (a) não esteja anos luz de distância, mas sempre, ao amanhecer, no pôr do sol ou numa noite de lua cheia, quando olhar para o céu, é o sorriso desconcertante do ser amado que lhe surge  na memória. O amanhecer e os primeiros raios da manhã que nos aquece, o entardecer e os raios alaranjados do Soberano Sol, a Lua com suas fases…Todas esses fatores “astronômicos”, influenciam não só o movimento das marés do oceano, mas também os sentimentos e pensamentos dos homens e mulheres na Terra. Já dizia Lord Henry, em “O Retrato de Dorian Gray”, livro de Oscar Wilde:

– Não existe boa influência – respondeu Lord Henry. – Toda influência é imoral – imoral do ponto de vista científico -, porque influenciar uma pessoa é dar-lhe sua própria alma. Ela já não pensa com seus próprios pensamentos nem sente suas próprias paixões. Suas virtudes não são reais para ela. Seus pecados, se existem tais coisas, são emprestados. Torna-se um eco da música de outra pessoa. O objetivo da vida é o autodesenvolvimento. Cumprir a própria natureza perfeitamente – essa é a razão por que estamos aqui. As pessoas têm medo de si mesmas, hoje em dia. Esqueceram-se de seu principal dever. Claro que são caridosas: alimentam os famintos, vestem os mendigos. Mas suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. O terror da sociedade, que é a base da moral, e o terror de Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam. Mas eu acredito que se um homem vivesse sua vida completamente, desse forma a todo sentimento, expressão a todo pensamento, a realidade a cada sonho, acredito que o mundo ganharia um impulso novo de alegria. Mas o mais corajoso dos homens tem medo de si mesmo. Cada impulso que lutamos para estrangular aninha-se na mente e nos envenena. O corpo peca uma vez e não tem nada mais a ver com o pecado, pois a ação é um modo de purificação. Nada permanece, a não ser a lembrança de um prazer ou desgosto. A única maneira de se livrar de uma tentação é entregar-se a ela…

Quando o Sol ou a Lua não aparecem, é porque estão cansados de ser a inspiração e influência amorosa dos seres da Terra. Eles se entristecem de tal forma, que se escondem por trás de nuvens. Por vezes, a lua fica minguante, ela quer mostrar apenas uma parte da sua saudade, mas ela é amada mesmo assim. Nós, humanos, entregamos todas as nossas tentações e pecados embaixo do calor de uma estrela imponente, e fazemos declarações sob o Luar.

Espero que gostem, e que ao terminarem de ler este texto, pensem na pessoa amada, mandem uma mensagem dizendo “Eu te amo”, ou dizer que está com saudades, e agradeça, de alguma forma, por essa pessoa ter surgido em sua vida e iluminado seu sorriso e razão de viver. E se você, querido (a) leitor (a), que ama alguém, e a pessoa não saiba disso, meu amigo (a), eu digo-lhe que a vida é muito curta para não tentar. Não se vive sem correr riscos, lembrem-se disso. Obrigada e boa leitura!

Prólogo.

– No começo existia apenas a escuridão. Então surgiu o sol, seu nome é Guaraci. Um dia ele ficou muito cansado e precisou dormir. Quando Guaraci fechou os olhos, tudo escureceu. Então, para iluminar a escuridão deixada por ele, enquanto ele fechava os olhos por longo período de tempo, ele criou a lua, e lhe deu Jaci, de alcunha. Ele Guaraci, criou uma Lua tão bonita que imediatamente apaixonou-se por ela. Encantou-se de uma forma tão intensa, que o seu brilho a ofuscava, como se ela estivesse assustada perante tal intensidade de seus raios de sol. Ela, Jaci, era uma menina desajeitada perante o brilho inebriante do Sol, e este, um menino desajeitado perante a intensidade da Lua. A Lua desaparecia tímida, quando o Sol aparecia. Guaraci criou, então, o Amor, deu-lhe o nome de Rudá, e este era seu porta-voz. O Amor até então, a única coisa que ele conhecia, era a Luz ou as Trevas. Não importando as estações do ano, a passagem do tempo, o momento, não importava nada… Rudá sempre podia dizer a Jaci o quanto Guaraci, o rei soberano, era apaixonado por ela. Vendo que a Lua estava sempre sozinha, Guaraci criou também companheiras para ela. Deu-lhe o nome de Estrelas, elas tornaram-se então, suas irmãs. O rei soberano, enquanto dormia, não queria que sua amada ficasse sozinha. Os dois se amavam, apesar de toda distância. Guaraci ama tanto a Jaci, que lhe deu seu brilho e calor enquanto dormia.
De tempos em tempos, os amantes se tocam… E quando eles transformam-se em seres únicos, mesmo na efemeridade deste encontro, visto à unidade de tempo do nosso universo, o Amor, a maneira de como um toca o outro, se torna única. E foi assim, segundo os indígenas, que tudo o que existe quando olhamos o céu, é fruto do Amor de Guaraci e Jaci.

Cartas ao meu Rei Soberano

Esta noite eu me lembrei de você. Não sei por que exatamente escrevo-lhe “Esta noite”, pois você sabe que todas as noites, aqui no nosso céu, você sabe que eu penso em você e que eu posso sentir seus raios me aquecendo mesmo em noites de inverno, mesmo quando as nuvens me encobrem, quando eu me sinto cansada da contemplação dos seres humanos, quando o uivo dos lobos, e o miado dos gatos que namoram nos telhados ou em árvores, enfim, estes sons me enlouquecem e por momentos, meu Amor, eu quero ficar surda. Quero apenas que me toque, e que me aqueça ainda mais. Quero que olhem nosso Amor, e fiquem todos cegos. Alguns humanos, eu percebi, ficam acanhados perante um casal que se ama, os que estão solitários, olham pra mim e me pedem uma paixão, um Amor, alguns, sofrem, platonicamente, e me pedem que lhe trague o ser amado ao qual amam à distância. Eu posso ver o amor platônico deles rolando numa cama iluminada pela minha luz, mas nesta Terra, os humanos acreditam em algo que eles chamam de Esperança. Eu também, todas as noites, eu tenho algo bem semelhante a este sentimento dos terráqueos, seria também, Esperança? Amor, meu rei soberano, queria que o Universo adiantasse nosso encontro. Eu sinto muitas saudades, mesmo você deixando em mim todo o teu calor, eu sinto uma saudade extrema do momento efêmero de deitar-me em teu peito.

Esta noite, quando olhei lá embaixo, num bairro de subúrbio qualquer, eu encontrei uma flor chamada Girassol, dizem por aí que ele é UM flor, e não UMA flor. Ele é lindo, imponente, de uma beleza que o nosso amigo Tempo me contou que é como um verbo que não se conjuga. Alguns humanos se calam perante a Beleza do Girassol, outros dizem, o quanto é belo, tão belo quanto tu. Outros humanos, dizem que seus amados possuem a mesma beleza e sentimentos do Girassol. Um lobo me contou, que o Girassol, em dias chuvosos, murcha e coloca-se a olhar para os pés, tímido, como se estivesse acuado, ou se a chuva trouxesse a ele todos os tons de cinza que ela carrega. Ele, Girassol, agradece pelas gotas de chuva que caem aos pés, se sente pleno com a água escorrendo nas pétalas, mas ele sente falta do teu brilho, sente falta do teu calor aquecendo-lhe as pétalas. Quando você o aquece e ilumina, ele fica altivo e contente.

O lobo contou-me também, que o Girassol também gosta do silêncio. Ele pede para aqueles que pousam em seu ombro, que respeitem seu Silêncio. O Girassol é de poucas palavras, o Silêncio que ele carrega, é como um belo poema. O Girassol se fosse um ser humano, como os homens que caminham na Terra, ele amaria com olhos.

Alguns pássaros pousam nele e comem as sementes que saltam de seu miolo. E ele não esbraveja, sente-se feliz, e um dia, ele finalmente morre. Mas alguns pássaros, distraídos, deixam algumas sementes caírem ao chão.  Depois de alguns dias de chuva, outros dias iluminados com tua Força, Beleza e Calor, outro Girassol surge, mas, todos os Girassóis, me disse o Lobo, ficam extasiantes diante de ti. Eu confesso meu Amor, eu senti uma ponta de ciúme desta flor, pois ela está lá, sempre lhe contemplando, isso me perturba um pouco, pois sou eu, a sua Dama, aquela que lhe espera, sempre nova, para poder me aconchegar-me no teu peito, encher-lhe de beijos, e sussurrar meu êxtase nos teus ouvidos. Mas eu percebo, que da mesma maneira que aparentemente o Girassol lhe contempla, ele também me observa nas noites de minha estação nova ou cheia. Ele me olha, nos olhos, parece que quer me dizer algo, mas não consegue. É como se o Silêncio que ele carrega timidamente, fosse uma forma de aplauso. A Beleza do Girassol me deixa extasiada, por lembrar tanto você, as pétalas do Girassol, lembram-me teus raios, que me envolvem naquele momento que eu tão espero.

Eu te amo meu Amor, eu sei que já lhe escrevi isso, durante toda a nossa existência. As nuvens me dizem que você também sente saudades, que quando fecha os seus olhos e eu abro os meus, é comigo com quem sonha. Peço-lhe meu querido, toda a calma do universo. Eu, sempre mais expressiva, talvez porque os humanos, uma espécie de humano que eles chamam de “Poetas”, dizem que eu tenho alma feminina, que sou como as mulheres na Terra, porque elas, assim como eu, são cheias de fases, mas todas elas querem um abraço, o calor de um homem, que neste caso, dizem por aí, estes mesmos “Poetas”, que você, meu Sol soberano, é como o Homem, pois é de poucas palavras. Você gosta do Silêncio, eu sou verborrágica. Rudá entrega-lhe minhas mensagens em muitas linhas, você é tão calado que sinceramente eu lhe digo que teu silêncio por vezes me corrói. Eu me preocupo contigo, eu sei que estás aí, brilhando alto e imponente, que às vezes, como o Girassol, se esconde encolhendo-se em dias de chuva. Mas você não é sempre assim. Uma coruja buraqueira contou-me, que um dia, estava chovendo, e ela estava tomando um banho no toco de uma cerca na beira da estrada. E você apareceu, no meio da chuva, e fez uma coisa que os humanos chamam de arco-íris. Mas, ela disse-me que você chora toda vez que faz isso, ao entardecer. E você, em seu silêncio, nunca me contou.

Enfim, saiba meu Amado, que enquanto você estiver vivo, radiando seu calor, em Silêncio, eu sei que está por perto, pois eu sinto teu calor toda vez que eu acordo, e ele me lembra do dia em que eu me deitei em teu peito. Fique bem, pois aonde quer que esteja o meu pensamento eu levo junto a ti. 

Cartas do Rei Soberano para sua Rainha.

Olá, tudo bem? Andei muito ocupado. Alguns humanos estão construindo centros que captam minha energia. Chamam isso de Energia Solar, inserido num contexto que eles chamam de sustentabilidade. Eles me sufocam, e eu também os sufoco com o meu calor. Mas eles estão me sufocando tanto, que qualquer hora vai ter daquelas minhas tempestades solares. Ando muito cansado. Desculpa se eu não falo muito contigo. Sabes tu que eu gosto do silêncio, eu não tenho toda a sua intensidade, entenda, este é o meu jeito de ser.

Eu tenho uma surpresa pra você, estive conversando com tal de Deus, e ele me disse que há muito tempo atrás, ele criou uma espécie de flor que se assemelha a mim. O nome dela é Girassol, ele tem minhas cores, é calado. Tu já deves ter olhado para ele, e se sentido estranha alguma vez. Deus me confessou que fez à minha imagem e semelhança, algo que os humanos chamam de metáfora. Conhece essa palavra?Achei-a bem bonita, ME-TÁ-FO-RA, lindo não é? Deus disse que esta flor, fica imponente com meus raios, e quando eu vou dormir, este tal de Girassol fica na terra, e quando você aparece, ele contempla-lhe, e de uma maneira simbólica, “metaforicamente” falando, aquela flor ali, sou eu olhando pra ti. Deus é tão sacana, depois de bilhares de anos, ele foi-me contar isso só agora. Aquele Girassol é um mimo pra você, se você o olhar, e amá-lo, é a mim que está contemplando. Quando eu acordo, o Girassol sempre me fala que você estava linda, com suas manchinhas. Desculpe-me falar disso só agora, eu ando meio esquecido. Eu sempre esqueço as coisas, esses dias eu esqueci um dos meus neutrinos no espaço, achei até que havia esquecido, porém, desta vez eu encontrei.

Esses dias foram chuvosos, eu não apareci no céu, mas tentei pela bilionésima vez deixar um presente pra ti. Eu sou teimoso, eu sei que talvez não vá dar certo nunca, mas eu não desisto. Um dia você vai acordar, e a noite irá nascer duas vezes pra ti. Quando chove, eu saio timidamente da minha toca, e tento criar junto com minha amiga Chuva, um arco de sete cores. Você me disse que gosta de cores, e eu vejo sua alma assim, cheia de cores, nuances. Mas eu fico triste, pois esse arco é efêmero, quando chega o entardecer, ele some. Se você pudesse ver a Beleza dele, se encantaria. Eu sei, eu já lhe disse que a influência é imoral, mas se você pudesse ver o arco-íris, seria tão lindo. Estarei eu traindo a minha convicção?Eu acredito que não poderia ser melhor, mas eu confesso, eu sou como o Homem lá na Terra. Dizem os humanos, que o homem perante do que é belo e caótico, sente-se como um menino desajeitado. Eu não lhe prometo a mesma intensidade verborrágica, não tenho a mesma coragem que tu. Meus instantes, talvez sejam mal traduzidos, mas é minha forma de ser. Peço que releve isso. Boa noite querida.