Detalhes

 Estava quase anoitecendo, começava no céu aquelas cores indecisas, um misto de claro-escuro, céu em tom roxo-alaranjado e o jasmineiro da esposa todo em flor. Lembrou-se de que quando criança, gostava de sentar-se na varanda com o avô e escutar suas histórias. Todas elas começavam com “há muito tempo atrás”. Perguntava-se qual a diferença disso com o comum “era uma vez”. Pode ser que o “era uma vez” referia-se a algo que nunca aconteceu, apenas uma lenda. As histórias de vovô eram de verdade. Sultões impiedosos, monstros, meninos com poderes mágicos, pássaros e mulheres donas de uma beleza inquietante. Eram essas histórias que impermeavam o seu imaginário de garoto. Hoje quase não houve mais histórias, ou estórias… que seja! Vovô morreu e as crianças não ligam mais para “essas coisas”. A história que ele mais gostava era de como o vovô conheceu a vovó. Fazia parte das histórias das mulheres de beleza inquietante. Toda vez que ele contava esta história ele sempre colocava elementos de coincidências, talvez, para tornar tudo mais poético, ou seria uma verdade carregada de poesia?

– No dia em que eu beijei sua avó pela primeira vez, a flor de minha mãe abriu. Ela nunca tinha florescido.

-Quando eu disse para sua avó que eu amava, uma estrela cadente passou no céu, e eu fiz um pedido. E ele se realizou…

Foi há muito tempo atrás e ele conseguia reconstruir os detalhes como se fosse um filme em sua cabeça. Seu avô tinha mostrado velhas fotografias de sua avó Martha, ainda quando jovem. Conheceu ela com 23 anos e ela tinha 15 anos. Andava com os cabelos escuros presos em uma trança, e usava impecáveis vestidos e linho e seda que iam até o joelho.

-Eu vi sua avó pela primeira vez quando eu comecei a entregar o jornal para o bairro. Trabalhava numa banca de um velho amigo da família. Passava nas casas interessadas, arremessando os jornais, que ficavam dentro de um cesto na bicicleta. Sua avó ia para a escola todas as manhãs, a casa dela ficava no alto de uma ladeira. Todos os dias, sete horas em ponto, sua avó saia de casa. Eu eu, admirado olhava ela andando, indo para a escola. A trança dela balançando de um lado para o outro,cuja ponta terminava em uma fita de cetim branco ou vermelho. E aquelas panturrilhas, a canela fina, o barulho do salto ao tocar no chão. Eu amava ver aquele movimento, aquele som, ela andando e a melodia do assobio de uma música. Às vezes ela cantarolava. Nos primeiros dias ela nem ligava pra mim, passei semanas fazendo aquele ritual.

Engraçado, pensou ele… Apaixonou-se pelas canelas. Não foi uma bunda, não foram peitos. Seu avô gostava das canelas e meia panturrilha, que aparecia a partir de onde o vestido acabava.

-Um dia, o tio de sua avó morreu, era amigo de meu pai. Tive a oportunidade de dar uma carona pra ela, ela conversou um pouco comigo, mas bem pouco, estava transtornada e cheirando a jasmim. Hoje, toda vez que eu vou ao jardim de sua mãe, e vejo o jasmineiro em flor, eu lembro da minha velha. São os pequenos detalhes sabe?

– Detalhes? Não… Eu ainda não sei, o que são detalhes?

– Um dia, quando crescer, vai ouvir falar de um tal de Flaubert. Tem uma frase que atribuem a ele, “Alguns detalhes se desvaneceram, mas a saudade permaneceu”… Do que você sente saudades?

-Sinto saudades do bolo de cenoura da vovó, feitos em dias de chuva. Nós comíamos na varanda, vendo a chuva cair. E nós contávamos os segundos, depois que um raio caía. E depois Brrrrrrrr! Trovão. Às vezes eu me assustava e vovó me abraçava. Mas, o que isso tem a ver com detalhes? O que é desvaneceram?

– Você acabou de responder sutilmente o que é detalhe. Desvaneceram vem de desvanecer… Tá vendo o céu agora? Está entardecendo, o sol, está sumindo? Entendeu?

-Entendi… É como o chá de cidreira da vovó!

-Por que?

– Quando ela preparava, o cheiro ficava na casa, mas depois, conforme o chá esfriava, o cheiro desaparecia.

-Isso mesmo… Eu não me recordo de muitos detalhes do dia em que eu conheci a sua avó. Eu não me lembro mais de muitas coisas, mas este entre outros detalhes, construíram uma saudade… Mais tarde, você entenderá.

-Mais tarde quando vovô? Amanhã?

-Sim, amanhã, depois de muitos entardeceres, como este.

E era mais um entardecer, depois de muitos. Foi um detalhe como esse, que o fez sentir saudades.

Front

Já estive aqui antes, contemplando outros amanheceres. Já estive aqui, andando de um lado para o outro, com as mãos manchadas de sangue. Já vi meus velhos amigos perderem a luta em campos de batalha, minhas mãos e roupas cheias de sangue. Matei meu melhor amigo com um tiro na cabeça, porque ele me implorava para acabar com os sofrimentos que sentia. As tripas saltando da barriga, e ele segurando-as nas mãos, numa tentativa desesperada de botá-las para dentro de novo. Mate-me, por favor, por amor à sua vida, mate-me… Ouço isso me atormentando, dia após dia, ano após ano… Já ouvi os sinos da velha capela anunciar muitos funerais. Pessoas de luto a murmurar orações, cujos ecos invadem meus ouvidos, levando ao longe velhos murmúrios já tanto desgastados, e aquele som entalado na minha garganta. E Deus, aquele velho tolo que não existe… Estou sempre cansado de lamentações. Se eu pudesse, andaria milhas e milhas pelos campos de centeio, e como Holden Caulfield, eu salvaria as crianças de caírem dentro do abismo. Muito prazer minha amiga, sinta todo o calor de minhas mãos trêmulas. Mas você tem as mãos tão frias, que me sinto diante de minha própria morte. Teu rosto já tão fundo, as olheiras marcando um profundo desespero embaixo de teus olhos. Tens a fala mansa, muitas vezes eu não escuto. E olhando dentro dos teus olhos, vejo apenas uma garotinha aturdida, perdida. Talvez, falte algumas mãos empurrando-lhe, naquele balanço velho, perto do velho poço. Quando eu era um garotinho, sem barba na cara, você chegava e me pedia para empurrar-lhe no balanço. Você não tinha forças, minha cara amiga, para dar sentido ao teu próprio voo. Dizia-me que me encontraria algum dia, perto da velha capela. Fiquei esperando, anos e anos. Amigos morreram, guerras aconteceram, ouvi tiros, explosões, gritos de desespero. Cruzei rios, pegando cadáveres que boiavam ao meu redor. Esperava que com o tanto de peso que tinha, eu afundasse, para abraçar o inferno que tanto me espera. Mas era apenas eu e o fedor de meus companheiros mortos em campos de batalha. E hoje carrego no peito uma medalha  de ouro ridícula, pelo trabalho realizado, salvando vidas e a honra de companheiros. Consegue ver, o quão bonito é isso? Lembro-me das noites que passei em bares, enchendo a cara, e ao final da noite saía com prostitutas. Elas amavam um homem de farda. Algumas me davam de graça, e por mais que eu implorasse que aceitassem o pagamento, diziam que um homem de honra deve ter amor todos os dias. E que merda de Amor é esse?

Encarei a vida como um pássaro voando sem rumo no horizonte. Lembro-me, quando criança, de matar um a um com estilingadas, sentia todo o prazer de enterrá-los, um cemitério de pássaros, no jardim de minha casa. E você me ajudava, colhendo flores para fazermos o enterro. Eu já gostava do teu sorriso sádico, desde quando você era uma criança, descabelada, desdentada, com seu vestidinho branco impecável, sempre sujo de terra ao final do dia.  São essas doces lembranças que me fazem escorrer lágrimas de delírio.

Queria agora, dar tiros em todas as direções, ver pessoas correndo de desespero, implorando por misericórdia, enquanto seguro a arma, ouvindo um coral de anjos desafinados a cada gota de sangue derramado, e eu poderia lhe ver dançando nua em cima do mar de sangue formando-se aos seus pés e então eu amaria cada pedaço de tua pele, como se fosse a coisa mais divinamente perfeita neste mundo. E diante de deuses em fúria, cometeria o maior pecado do mundo, e seria então feliz, discordando da boa moral e costumes das pessoas que eu mais amei, apenas você e eu, num mundo vermelho, manchado de injúrias, apenas com a dor e tristeza de passeatas fúnebres. Mas estou aqui neste funeral, e a marcha militar fúnebre vai começar. E o barulho dos tiros ao alto, sou apenas um homem na multidão, um homem condecorado, um herói de guerra, manco… Salvei vidas e quase acabei perdendo a perna. A ironia da vida quase me mata, e os gritos de sofrimento ainda me perseguem, ainda tenho o mesmo pesadelo durante anos. Ainda amo a mesma mulher, ainda desejo casar e ter filhos e contar-lhes crônicas de guerra. Ainda quero andar embaixo da chuva, mas sem que nenhum pensamento me atordoe. No próximo anoitecer, durante a madrugada, serei um andarilho miserável vagando pela casa com uma arma na mão, uma garrafa e murmúrios. Vejo você, dizendo-me que sou apenas um homem fracassado, largado à sorte de meu próprio destino. Se chover nesta noite querida, deixarei que cada gota d’água escorra para meus lábios e que lave este meu rosto de ressaca. Poderei estourar os vasos que herdei de minha mãe. Dentro de cada um deles tem as cartas que ela me enviava durante a guerra. Muitas se perderam no front de batalha, algumas têm manchas de sangue, algumas outras me trouxeram alguns minutos efêmeros de paz e aconchego. Minha velha mãe na soleira da porta me dando adeus. Foi a última imagem dela que eu tive em minha vida. E a saudade do aconchego dos braços de minha velha mãe, é o único calor que me traz um sorriso no rosto. O calor do amor materno, as palavras de apoio, os sermões. Se eu pudesse trazer algo de volta, seria ela, mas os anos passaram, perdi amigos, amei e fui amado. Tento parar de pensar nesses disparates, a fim de manter longe o canhão de meu revólver longe de minhas têmporas.  E é assim todas as noites. Tenho apenas uma bala no tambor do revólver, e sei bem como usá-la. Quando vier me visitar, limpe o meu sangue, troque os lençóis, apague a luz e feche as portas.

Incêndio

“Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.” Albert Camus

Chamas. Naquele acampamento do auge de meus quinze anos, eu via as chamas dançando enquanto a batata com fondor (aquele pó amarelo que segundo a lenda, “amacia” carne), assava na fogueira, envolta de papel alumínio. E eu aprendi, que se você esquentar a água com uma pedra dentro, a temperatura se mantém como uma garrafa térmica. E me perguntam, “não seria mais fácil ter levado uma garrafa térmica?”. Sim, seria, mas eu penso que o ato falho do esquecimento da bendita garrafa, nos faz voltar a um estado primitivo. Tem gente que odeia acampar… “Onde vou conectar minhas máquinas? Ou ainda, existe camping com energia elétrica, já vi gente levando o grill, aquela coisa que só faz sujeira e deixa a comida borrachuda ou máquinas de fazer pão. Muitas vezes queria fugir para um lugar onde não existissem tantas máquinas de fazer coisas. Penso que daqui a pouco teremos máquinas que vão sorrir por nós.  Algo como uma tela com um visor, e várias opções:

  1. Bom dia!
  2. Boa Tarde!
  3. Boa Noite!
  4. Tudo ótimo!
  5. Sim, muito! ( aquele sorriso de concordância, sabe?)
  6. Tudo bem!E você?
  7. Tive um lindo final de semana
  8. Eu te amo!
  9. Sou feliz!
  10. Que dia lindo hoje!
  11. Tenho dinheiro na conta! (mentira, você está no cheque especial!)

Acordaremos de manhã, faremos nossas tarefas por vezes odiosas, tal como sair da cama, arrastar-se até o banheiro e começar a amaldiçoar o dia desde as seis horas da manhã, e isso se torna insuportável desde a segunda-feira. Normal, estamos sempre reclamando, jogando o celular na parede quando ele não para de despertar. Imagino nossas cabeças explodindo junto ao nosso ódio das passagens do tempo, junto com nossas convicções de que estamos ficando velhos. Sendo assim, viveremos com nossa máquina de sorrisos, talvez um aplicativo no celular que manda sinais para algum chip implantado nas nossas cabecinhas perturbadas, algumas bem ocas, só com o eco do vento entrando pelas têmporas e saindo por outro lado. Vamos emular sorrisos eletrônicos! Bons eram os tempos de criança. Criança não tinha a maldade de simulação…

Parece que pintamos uma fotografia daqueles tempos de criança sem compromisso, sem malícia e aquela perspectiva de que a vida seria uma eterna brincadeira, ou como os filmes da TV. Eu me lembro de que sempre quis viver uma aventura, brincar de pirata, e nunca mais envelhecer. Um sonho na Terra do Nunca. Crianças e seus sonhos… Um dia, eu queria ser caixa de supermercado. Na minha cabeça de criança, eu imaginava que todo aquele dinheiro que entrava no caixa, seria todo meu. Eu achava que as caixas de supermercado eram donas de tudo e moravam em suas confortáveis casas com uma piscina no quintal. Eu tive um amigo que dizia que seu sonho era ser coletor de lixo. Ele pegava os sacos de lixo escondido da mãe e espalhava no quintal, alguns com brinquedos dentro, e outros ele pegava da lixeira.  Tinha um triciclo azul, e andava pelo quintal, apanhando os sacos, colocando nas costas e levando até a lixeira. Quando o caminhão de lixo passava, saía no portão e olhava emocionado para aqueles homens que corriam atrás do caminhão. E sempre ele mandava “tchau” para os coletores que passavam no portão. No final do ano, ele pegava parte de suas economias, e entregava para os coletores, que passavam nas ruas, fazendo festa. Ele me contou que um dia, ao entregar o dinheiro para um deles, ele disse com um sorriso que quando crescesse, ele queria ser “catador de lixo”. O coletor sorriu, e quase chorou, porque aquele menino de cabelos bagunçados e boca suja de chocolate, dizia que se sentia orgulhoso, e não ligava para o cheiro ruim do caminhão de lixo. No meio de tantas pessoas passando e tampando o nariz, estava ali um ser que nunca deixou de cumprimentar ou dizer “Boa Tarde”.

“Não queira ser lixeiro bom garoto!Promete?”

E então o coletor saiu, correndo atrás do caminhão e olhando pra trás, deu um sorriso para o garotinho com ares de incógnita, parado no portão, com o cachorro louco correndo e latindo no pequeno jardim que havia na casa de infância. Para ele, não importava se a mãe dizia que aquilo era serviço de quem não estudou para ser alguém na vida. Aquele garotinho que mais tarde se tornou meu amigo e contamos nossos sonhos de criança numa mesa de almoço corporativo, não conseguia imaginar a sobrevivência em um mundo cheio de lixo. E nesse nosso mundinho de chorume, eu penso que acordaremos, e vamos escolher num visor a opção de sorriso. Sorrir dá trabalho, existem máquinas de fazer arroz, máquinas de fazer sanduíche, máquinas de fazer café… Enfim, máquinas. Hoje eu apertaria o botão: “Sorriso sarcástico com ponta de ironia”, mas a máquina de sorrisos apenas simula sorrisos de felicidade. No mundinho de lixo, acordamos emulando “sem querer querendo” sorrisos de felicidade, apenas para agradar, e evitar perguntas desnecessárias. Hoje, simulamos que somos correspondidos, por mais que nosso Amor nem nos olhe na cara ou que se preocupe com você da mesma ou na mínima maneira como você se importa,  ou quando dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” às pessoas e as desgraçadas não respondem, quando nos sentamos no banco de terminal de ônibus, cansados e introspectivos, com fone de ouvido ou um livro… Ou os dois… Chega sempre alguém querendo conversar, e você quer apenas fugir dali, mas sente-se obrigado a ouvir ou expressar um “É…”, “Hummm”, “Legal”, “É mesmo” na conversa. E quando chegamos finalmente em nosso lar, podemos pensar o quão nós somos mesquinhos. Já dizia Renato Russo, estamos mergulhados em nossa arrogância, esperando um pouco de atenção, sabe? Aquela que não damos aos outros. E eu vou lá, emular o meu sorriso de “Estado de Felicidade incondicional”, mas na verdade, estou com olhos de saudade, e um sorriso de lábios secos. Sabe? Arrogante, esperando um pouco de atenção e todo Amor do mundo para incendiar…

Brilho eterno de uma mente de criança

Eram duas crianças, totalmente isentas de conhecimento que atordoa. Crianças apenas. No vai e vem de balanços, sorrindo uma pra outra. Não precisavam do empurre de outra criança ou de um adulto. Lá no alto, indo e voltando, crianças completamente alheias e dispersas nesse nosso mundinho tão perdido. E eu sentada em um banco de praça, observando o movimento, trazendo à tona minhas lembranças de infância. Lembro-me que eu ia à praça comer algodão doce, e quando eu me sentava no banco de concreto, vários pombos se reuniam em volta, pedindo com seus olhos esbugalhados e vermelhos, um pedaço do açúcar em fios cor de rosa que manchavam meus dedos. Eu gosto de algodão doce até hoje, e de lamber meus dedos como uma criança. Mas faz tanto tempo… Tanto tempo que eu não me sinto mais como uma criança. Sinto saudades, muitas vezes, dos tempos em que não éramos atingidos pela malícia, e que pensávamos que a solidão de fato é algo apenas como ficar sem os pais, por exemplo, de acreditar que o brilho das estrelas são pessoas mortas queridas. Hoje sei que as estrelas que estão ali são talvez uma luz que nem exista mais. Mas eu vejo uma linda poesia nessa coisa toda. Eu adoro astronomia. Queria poder ficar num gramado ou um local aberto, longe da civilização e estudar as constelações. Ter uma luneta ou um telescópio. Queria poder viver das estrelas, estudá-las… Mas, eu queria muitas coisas. Ser humano sempre querendo mais e mais, sempre descontente com algo ou, mesmo feliz, tem aquele ingrediente perdido no meio da receita. Entendem? É como ser um bolo de fubá, mas sem erva-doce. Ahhh, minhas abstrações, mas enfim. Minha vida é gostosa como uma bolo de fubá, mas falta algo como erva-doce ou queijo minas frescal.

E a praça, cheia de coisas curiosas, um brinde aos meus pensamentos sobre a vida, o universo e tudo mais. E tinha a inveja infantil… A criançada brincando num canto de areia, construindo castelinhos. E um menino dos olhos claros teve seu castelo destruído pela guriazinha chorona. E ela gritava: ” Seu castelo é mais bonito que o meu.” Num tempo de castelos sem princesas, a inveja e o ego começa a reinar desde cedo. Quando eu estava no jardim, lá na escolinha Sete Anões, em Limeira, eu me lembro dessas intrigas infantis. Tinham os “vendedores” de areia molhada. Eles traziam de casa as garrafas plásticas de refrigerante. Enchiam de água e areia, e passeavam pelo parquinho vendendo suas garrafas para as crianças escultoras ou crianças cozinheiras. Eu fazia dos dois. Bolos de barro e montanhas que eu colocava meus bonequinhos, que eu costumava dizer que eram moradores da “minha montanha”. E o escambo era geral. Nós costumávamos ir para o campo de areia, depois do recreio. E os que estavam interessados em areia molhada trocavam a garrafa com o barro pronto, por balas, chicletes, frutas, chocolate. Tudo dependia do que você tinha a oferecer. Tinha aqueles “Depois eu pago”… E ficavam sempre no depois. E então vinham as brigas, criançada correndo e gritando pelo pátio da escola BRIGAAAAAA!!!!! Os vendedores de areia molhada versus os caloteiros. E a briga corria solta, e as inspetoras vinham correndo. E dá-lhe diretoria! E no dia seguinte, a venda de barro continuava rolando solta, sob olhos atentos das “tias”.

E eu disse que no começo do texto não existia a malícia. Bem tinha um pouco sim. Tinham os beijinhos atrás da moitinha, as flores que os meninos entregavam para as guriazinhas tidas como as mais bonitas. E eu me lembro, hoje, lembrança ao qual eu dou risada. Havia um guri que gostava de mim, e me dava flores todos os dias. Mas ele era bagunceiro e mal criado. Roubava os lanches alheios, batia nos meus amiguinhos e gostava de mim. Um dia, teve o primeiro ensaio da quadrilha da festa junina da escola. A professora, que se chamava Ana, colocou ele como meu par. Eu o odiava, mas ele vibrou e me chamou de “Meu Amor”. E então eu fiz um escândalo. Comecei à chorar. Quiseram me obrigar a dançar com ele, mas eu fiquei muito tristinha e me recusei a ir na escola. Minha mãe, foi à escola e então eu fui a única aluna que não dançou quadrilha. E eu digo, até hoje, não gosto de dançar quadrilha. Tem certas coisas que ficam enraizadas, não digo que seja um trauma de infância, ou seria? Mas foi a primeira vez que eu fui forçada a fazer algo que eu não queria. Eu não queria tomar injeção, mas eu de alguma forma sabia que aquilo era para o meu bem. Aquele menino tentava me beijar a toda hora e dizia que se casaria comigo. E não, aquilo não era agradável, de forma alguma.

Quando eu entrei na minha primeira série, eu tinha seis anos. Entrei mais nova, não fiz o pré, pois já sabia ler e escrever. Lembro-me que meu primeiro amor ( bem, não era amor, mas vamos deixar por assim “amor”) foi um japonês. Ele se chamava ( lembro-me até hoje), Caio Muriel Tanaka. Tudo que ele tinha era do Japão, inclusive a mochila, era uma preta, meio quadradona. Ele tinha o cabelo de tigelinha. Era um linda criança, não sei como, mas lembro-me do rosto dele até hoje. Era o melhor aluno da sala, de longe. Éramos amiguinhos, mas apenas isso. Eu tinha vergonha que ele soubesse que eu “gostava” dele, e naquela época eu seguia o conceito de amor platônico sem nem ao menos saber quem era Platão. Eu gostava do japonês, mas eu tinha um admirador, de seis anos, que me mandava cartas de amor. Chamava-se André Luís, e era loiro dos olhos verdes. Tenho um episódio único de minha infância com esse garotinho…

Um belo dia, estava eu e André Luís voltando da escola. Tínhamos comprado aquelas balas quadradas de doce de leite. No meio do caminho tinha uma pomba, aparentemente “deitada” tal como aves fazem, no meio da calçada. Eu como criança deslumbrada em um mundo de pássaros entre outros bichinhos, me agachei enquanto André Luís permanecia de pé, chupando uma bala atrás da outra. A pomba permanecia quieta, e eu achava que ela estava dormindo. André pegou um graveto e me deu. E quando viramos ela, tinham vermes devorando suas entranhas. Foi o meu primeiro contato com a morte. Aquela coisa efêmera ali na minha frente, trouxe-me uma série de questionamentos, e eu nunca me esqueço, do local, das pedras na calçada, de André Luís e o cheiro de balas quadradas de doce de leite. E até hoje, quando sinto cheiro de doce de leite, lembro do menino André tentando me acalmar, mesmo sendo uma criança. Ele me viu chorar, e me deu a mão até eu chegar em casa. Se despediu com um beijinho no rosto, e me mandava cartas coloridas com letras tortas. Ahhh a infância… Brilho eterno de uma mente… Com lembranças.

Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

Emoções rasgadas.

Depois de uma noite de insônia, poucas horas de sono, e aquela sensação de resfriado chato querendo derrubar, acordei quase rouca, com voz estranha, que sumia em poucas palavras. Quase desmarquei a entrevista, mas não desisti: salto alto, camisa, meia fina e saia executiva. Sapato fino, de tom bordô em couro aveludado, cujo salto enganchava nas malditas calçadas de pedras soltas. E eu penso… Por quê dificultamos tanto? Tudo poderia ser mais simples. Eu me irritei com minha meia-calça. Passei em uma loja no meio do caminho, comprei outra, entrei no banheiro do estabelecimento e troquei minha neura por outra neura… Fiquei com medo de rasgar a meia de fio 15 em lycra, fato que realmente aconteceu, mas foi no portão de casa, quando a coroa do abacaxi que eu comprei encostou-se a minha meia. Quando fui trocar as sacolas de braço, escutei o barulho desesperador de fios rasgando. Olhei, dei risada. Pedreiros na espreita… Um naco de minha coxa branquela debaixo do rasgo seria normal e mais divertido se fosse à hora de um bom sexo, aquela coisa de desespero. Melhor uma meia rasgada em cima da cama pelas mãos de um homem do que pela coroa de abacaxi pérola comprado na promoção que estava azedo. Nada que um açúcar resolva. Devorei três fatias com requintes de crueldade e sadismo, sentada em minha cama, marcando trechos de “Cartas de um Escritor Solitário”, de Sam Savage. Joguei fora a meia, fiquei em mangas de camisa e adormeci. Não passei na entrevista, recebi um e-mail frustrante, mas sou forte, paciência! Terei outros momentos para rasgar meias por aí e dar risada de meu próprio medo. Pelo menos tenho algo divertido com tons de tragicomédia para contar. Adormeci esparramada na cama e sonhei com teus braços com veias e tendões aparentes de tua pele branca e combinando com meus tons embaixo de minha meia rasgada…

Memórias da madrugada: Xeque…

Mergulhada em pensamentos de trevas, perdida no meio de escuridão com os olhos vendados. Sentimento dúbio, no escuro sente os raios do sol queimarem os meus olhos, mas é uma luz que eu não encontro. Tateamos emoções em paredes de tijolos esfarelados, nossas mãos sujas de terra vermelha. Seu eu pudesse faria um desenho em teu rosto, ou rabiscaria um jogo da velha num chão de concreto ou na areia da praia. Deixaria você ganhar, eu era campeã de jogo da velha, e eu achava que sabia jogar xadrez. Quatro movimentos… Você olha e diz: Xeque! E então você me mata, e eu perdida em seus olhos de dilúvio fixos no tabuleiro e na tua malícia talvez sem querer. Sou uma garotinha, em jogadas desgovernadas, trêmulas e desajeitadas. Vejo meu rei aturdido… Já era! Meu reino foi teu em quatro movimentos. Na segunda partida, tento salvar minha rainha, e depois mato teu pastor safado com um pobre peão suicida, pois geralmente é o que me sobra… Peões suicidas. Jogada burra, péssima, eu diria. Mas o que eu posso fazer? Sem querer você me desfoca com seus olhos nas cores bicolores de luz e escuridão dos quadrados do tabuleiro. Chego ao meio do caminho com teus peões jogados na grama, rindo de minhas jogadas desajeitadas. Olho do teu lado e vejo minha cavalaria e alta sociedade agonizando pedindo para meu rei se entregar. Você sorri: Xeque-Mate!Eu me entrego… Meu reino é teu.

Bordeaux

Entre um gole e outro vou cavocando lembranças madrugada adentro. O barulho do ar-condicionado não me tira a concentração. Entre um gole e outro vou digerindo como um doce pecado as páginas de um livro. Encosto-me a parede de maneira não anatomicamente correta. Eu detesto coisas politicamente corretas. Eu gosto do caos. Aquele caos indecente dentro da minha organização. Daqui a pouco sei que vou dormir provavelmente com o livro em cima do peito, ou simplesmente vou beber o último gole que decanta indecentemente no final da garrafa. EU olho pela janela, vejo as casinhas de luzes amareladas no horizonte, e estou perto do mar, mas não escuto as marolas, escuto a molecada insone conversando na rua, e um calor que me aflige, de todas as formas. Pode ser o vinho, carregado de calor das emoções tingidas de lembranças. Ou seria o contrário?Estou tomando um vinho Bordeaux, se fosse um Merlot, já estaria em meu quarto, e não em um mesa de tampo de vidro. Entre um gole e outro, bebo minhas tórridas lembranças em goles de uma certa melancolia. Talvez seja o calor, aqui em Salvador é extremamente quente.

 

Hoje eu passei na beira da praia. Foi a primeira orla que eu vi em meus vinte e cinco anos que possuí cactos. Adoro cactos sabia? Mas não tanto quanto girassóis. Tive um momento de epifania, assim que encontramos o primeiro posto depois de uma viagem de avião Teco-Teco da Trip. Chegamos ao aeroporto e subimos no carro. Tínhamos pela frente cerca de duas horas e meia de viagem. Paramos em um posto de conveniência, era de madrugada, bateu uma fome. Logo na entrada da loja, tinha uma escadaria e um jardim de girassóis. Alguns estavam despedaçados, mas mesmo os girassóis incompletos me encantam de tal forma, que seria um poema de muitas estrofes se eu fosse escrever meu amor diante os girassóis. Quando eu era jovem, eu amava, aliás, eu ainda amo, aquela música do “Ira!”, “O Girassol”, mas não sou fã da música “Girassol” do Cidade Negra. Acho enjoativa e repetitiva.

 

“Um Girassol sem sol, um navio sem direção…” (algo assim. É tarde da noite e estou com doses de tanino na cabeça).

 

Mas a música mais linda que se aproxima da beleza de um Girassol, é “Sunshine”, do John Denver. Eu amo essa música, se eu soubesse cantar, eu cantaria essa música numa serenata, mas enfim, escrever é uma das certezas que eu tenho que de alguma forma eu sei fazer, mesmo que algumas vezes eu tropeço em pedras no meio do caminho. Como escritora insone, quando o dia ameaça amanhecer, fico cansada demais para revisões minuciosas. Este escrito aleatório, além de ser escrito madrugada adentro, tem o fato “Tanino” com notas de saudades, aroma de lembrança com poesia e um pouco de breguice incontida e imensurável. Às vezes a saudade é tanta, que eu poderia construir vários prédios azuis, com tijolos velhos, apenas para matar o tempo. Muitas vezes tenho vontade de cometer um crime contra o tempo. Poderia sacanear os ponteiros, convidá-los para dançar na beira de um abismo. Iria rodopiá-los, até os ponteiros ficarem tontos e se atirarem sem querer no abismo. Assim ficaria somente o agora. Não teríamos que ficar pensando nos dias de amanhã, remoendo a desconstrução os sonhos, embriagando-se na falta de perspectiva de tudo o que nos cerca, aquelas coisas aos quais deitamos a cabeça no travesseiro e perdemos noites de pesadelos cheios de medo do fracasso. Queremos algo como o poema “Lídia”… Seria bom se pudéssemos ficar na beira do rio, como pagãos tristes, com flores no colo, mas a vida seria monótoma… Ou não, posso estar delirando à toa. Gosto de fazer isso, divagar… Divagar, principalmente com taninos na cabeça…

Imagem
Girassóis baianos de uma escadaria de um posto de meia estrada… Epifania.

 

Memórias da madrugada: Antes de Amanhecer (Before Sunrise).

Eu lembro da minha infância de um modo…Sabe, uma época mágica. Eu me lembro quando minha mãe me falou pela primeira vez sobre a morte. Minha bisavó havia acabado de morrer, e minha família toda estava na Flórida. Eu tinha uns três anos e meio. Eu estava no pátio dos fundos jogando e minha irmã estava me ensinando como usar a mangueira, de uma forma que você pudesse fazer um spray em direção ao sol, e então formar um arco-íris. Então eu estava fazendo isso, e através da nuvem de gotas eu podia ver minha avó. E ela estava ali, sorrindo pra mim.
E eu fiquei ali, segurando a mangueira por um bom tempo e olhando para ela. Finalmente eu tirei o dedo do esguicho…Então larguei a mangueira, e ela desapareceu.
Então entrei em casa e contei aos meus pais. Eles me deram uma bela palmada, dizendo que quando as pessoas morrem, nunca mais a vemos, e que eu imaginei aquilo tudo. Eu sabia que tinha visto, e estava muito feliz com isso. Mas sabe, nunca mais vi nada como aquilo desde então. Mas, não sei. Esse é o tipo de acontecimento que me faz ver como as coisas são ambíguas. Até mesmo a morte.” Jesse (Ethan Hawke)

Sobre o filme "Antes de Amanhecer", retirado do site "Adoro Cinema":  Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.
Sobre o filme “Antes de Amanhecer”, retirado do site “Adoro Cinema”:
Jesse (Ethan Hawke), um jovem americano, e Celine (Julie Delpy), uma estudante francesa, se encontram casualmente no trem para Viena e logo começam a conversar. Ele a convence a desembarcar em Viena e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela irá para Paris e ele voltará ao Estados Unidos. Com isso, resta aos dois apaixonados aproveitar o máximo o pouco tempo que lhes resta.

Garotinha.

Ninguém sente mais nada. Doses de morfina tomaram conta da madrugada. Ninguém sabe de mais nada, está tarde agora querido, gatos namoram nos muros, a coruja de mau agouro e olhos grandes amarelados pia lá fora e eu sou apenas uma mulherzinha, uma garotinha pintando aquarelas na madrugada. Não sinto sono, mas sinto fome, tenho preguiça de ligar no delivery. Mentira, na verdade não tenho crédito no celular. Ele está jogado no chão. Eu dormi e ele caiu no chão, abrindo e a bateria saiu fora. Não tenho ligações importantes pra fazer e nem receber. Detesto falar ao celular, prefiro pessoalmente. Perdemos todo o contato, queria me comunicar por sinais de fumaça, mas eu não ando com isqueiros, nem fósforo. Não sei cortar lenha, sou magrela, frágil… E levemente folgada. Prefiro sair por aí catando gravetos, do que cortar lenha. Sou meio confusa, complexa, mas sou apenas uma garotinha, em cima de um salto alto, camisa de mulher, meia calça fina, saia executiva. Apenas uma mulher, incendiária… Gosto de incendiar meu Amor, em fogueiras de fagulhas coloridas, só sei escrever sobre a vida, e tudo o que ela compreende, desde a decadência até breguices de amor. Sou brega, romântica incorrigível e muitas vezes, ogra… Nesse caso sou garotinha mal criada, escarrada. Levo o demônio montado em minhas costas. Mas quando eu vejo um anjo, entro no dilema de não ser tão ordinária. Palavras afáveis funcionam, mas não sempre. Sou uma chata, me cobro demais, mas muitas vezes deixo coisas para trás, sendo relaxada dentro de minha própria mania de perfeccionismo, que é tão imperfeito. Eu escrevo, sou um poço de linhas tortas e insones, verdades e falsas mentiras num balde de verbos… Passo lendo e relendo, mas sempre deixo escapar aforismos, pleonasmos, entre outras coisas. Meu caos não permite a perfeição e eu quero, sinceramente, fugir dela. Gosto de palavras lançadas, sem medo, sem preparo, apenas um fluxo sincero, sádico…

Nesta noite, eu gostaria que chovesse, eu queria ficar parada, no portão, vendo a enxurrada descer na ladeira de casa. É óbvio, se é ladeira, não poderia subir. Tu viste? Eu sou um fracasso! Queria rasgar roupas novas, fazer camas para cachorros de rua. Hoje eu vi um lindo tomba latas dormindo embaixo de um caminhão. Eu pensei se ele passava frio, quando eu era pequena, minha cadelinha morria de frio. Dei um cobertor pra ela. Queria colocar fitinhas na orelhinha dela, mas ela era uma cachorra idosa. Quando soube que iria morrer, saiu pra rua. Encontrei-a morta, na sarjeta, teve uma morte natural. Parecia que ela sabia que seu fim estava chegando, e que ficaríamos todos tristes. Foi meu segundo encontro com a morte, depois de ver um pássaro morto com os vermes a comer as entranhas. Achei que a pomba dormia… Mas não…

Eu tenho uma amiga, que toma anfetaminas. Ela diz que nunca seria abençoada, pois ela considera-se que é um grande pedaço de merda. Queria ser coberta de pérolas, ter flores nos cachos do cabelo, ela queria fugir, num vagão de trem, sem ninguém descobrir, viver a vida sem rumo, no anonimato. Ela amaldiçoa toda falta de sorte que carrega nos ombros. Enquanto isso, eu queria ficar parada, no meio de um temporal… Magoada… Pobre garotinha. Eu tenho fome. Já disse… Escrevo porque sinto saudades. Deixa pra lá…