O Tempo e o Vento

“E aí meu velho amigo, como vai?, disse o Vento ao Tempo, como aqueles que não querem nada. “O que você quer?”, o Tempo falou, rabugento e desconfiado, já que o Vento não era nem um pouco confiável, pois levantava a saia e vestidos de mulheres quase indefesas, bagunça os cabelos daqueles que vão numa entrevista de emprego, destrói guarda-chuvas na companhia da amiga Tempestade. “Qual é velho Tempo?Teus ponteiros acordaram de TPM?, “Tu sabes que eu não tenho sexo. Não sou mulher e nem homem, não me venha com brincadeiras imbecis, não tens o que fazer não?Sabes que comigo ninguém brinca, pois sou a única verdade que existe neste universo, eu e a Morte, somos a única coisa na certeza dos pobres e tolos humanos”. O Tempo estava raivoso, bufando seus minutos e segundos. “Calma aê sabichão, mestre do universo!Os “tolos” humanos tentam te enganar o tempo inteiro, atrasando ou adiantando os seus ponteiros, mulheres aplicam um tal de botox pra esconder as rugas causadas por ti, outros “pobres” humanos, simplesmente te ignoram. Você assim como eu, é tão ou mais odiado, na mesma proporção daqueles que te amam. As pessoas vivem querendo brincar contigo, voltando ou adiantando seus minutos. Qual teu argumento agora, meu Rei?”, disse o Vento, com o raro aspecto sério, tão sério que por alguns minutos os moinhos de vento do planeta Terra pararam de girar. O Tempo encarou o Vento bufão, um verdadeiro bobo da corte, divertido mas muito chato. “Os tolos humanos que tentam me enganar, enganam somente a si mesmos, por isso são tolos, se acham tão espertos, que ao final se iludem, achando que conseguiram escapar das minhas areias, que escorrem tão lentamente numa antiga ampulheta. Humanos, sempre se desvencilhando das horas, mal sabem eles, que elas infindavelmente escorrerão por entre os dedos.” Na televisão de Dona Janete, a previsão do Tempo anunciava tempestade com rajadas de Vento…

Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.
Érico Veríssimo

 

Memórias de um homem no espelho do banheiro.

E não havia mais nada o que se pudesse fazer. Seu velho rosto misturado nos vincos do lençol, cobrindo-lhe o corpo, protegendo do medo indigesto de acordar todas as manhãs, sair daquele canto quente e aconchegante, escorregar os ímpetos do dia, emoções à dentro, represadas no meio do caos do trânsito. Sua beleza de frente do espelho está desmistificada por um par de olhos que lhe encaram. Sozinho naquele apartamento, as revistas jogadas ao chão, pares de meias, perdidas uns dos outros, mal sabia ele onde estava seu tênis. Estava cansado, não queria amarrar cadarços naquele dia, queria apenas amarrar o tempo, dar um nó nos ponteiros, e não deixar eles se movimentarem. Queria ele que o fogo tivesse as chamas extinguidas, mas sabia ele, que quando o inverno chegasse a eloquência das chamas o aqueceriam, de uma forma que ele não saberia como substituir. “Comprarei uma manta térmica”, pensou ele, mas então ele se lembrou de sua estadia no Canadá, onde sua vizinha, uma senhora idosa, foi morta, viu seu corpo carbonizado ser retirado da casa. A manta térmica que tanto protegia do frio, lhe trouxe calor inesperado. Sendo assim, descartou a compra da manta térmica.

Estava ele ali, na frente do espelho, com toda sua beleza britânica e a cama vazia. Onde estaria a sua força agora, por trás das olheiras de noites mal dormidas?A única coisa que queria naquele momento, era a sensação grandiosa de poder tomar um café apenas observando a vida lá fora da sacada do apartamento. Não queria ver ninguém, nem homens engravatados de orgulhos, nem mulheres de saia executiva cruzando as pernas como se tivessem pudor de algo. Esses dias, uma executiva de vendas transava com ele no banheiro, ela era casada, com filhos, fotos nas colunas sociais ao lado do marido. Se naquele banheiro tivesse câmeras, elas iriam flagrar as pernas que ela cruzava na reunião executiva, abertas, desnudas e com a cabeça dele no meio delas. Ela, tão educada, uma mulher, uma dama, condenava aos gritos as celebridades e as traições delas: “Ahhh você viu fulana de tal? Foi flagrada traindo o marido. Essa gente não presta!”, dizia isto com cara de desdém, no spa onde sua máscara de mulher correta da alta sociedade era lapidada por design de sobrancelhas, aplicações de colágeno nos lábios e botox na testa, pagos pelo marido ao qual ela amava tanto. Hipócrita, hipócrita, hipócrita, dizia ele no espelho do banheiro. Já não via mais a sua imagem, era só vapor.

Tomou um banho revigorante, esfregou as costas, sozinho, queria ali uma mulher, ao qual amasse, brigasse, sofresse, e não uma prostituta ou mulheres interesseiras que ele passava o telefone. Uma vez, num jantar executivo, conheceu Juliete, loira, linda, rosto de modelo. Por instantes quase se apaixonou. Mas ela era burra, feito uma porta, era daquelas mulheres doutrinadas que a beleza física era a única coisa que as tornariam reconhecidas no mundo. Gostava de transar com ela, desde que ela fosse como o vinho. Ele usava um termo, existem mulheres, que são como o vinho: devem estar sempre mantidas na horizontal, e com uma rolha na boca. Quando ela se atrevia a falar algo, ele mantinha a boca dela ocupada. Simples, mas chegou uma hora que ele se cansou. Nem só de sexo oral vive-se uma relação de homem e mulher. Despediu-se dela, quando a deixou na porta da casa dela, deu-lhe um beijo no rosto e um sórdido: “Te vejo por aí”. Nunca mais foi no restaurante, nunca mais a procurou. Dizem os amigos, que ela ficou desolada, por alguns dias. Semanas depois, era o vinho de outro homem.
Saiu do banho, enxugou o espelho com a toalha felpuda. Queria ver de relance, no reflexo do espelho, uma mulher real deitada em sua cama, com celulites, estrias, e um lindo rosto amassado. Que andasse de chinelos colocasse a camisa dele, e que permitisse ele bagunçar os cabelos, que tomasse sorvete no parque e que aceitasse comer cachorro quente na rua. Que passe alguns dias com o esmalte descascando.

Seu rosto no espelho, semi-embaçado, de homem de traços britânicos, beleza imensurável. Queria ele ser visto como um homem, um bicho, uma coisa. Tinha sentimentos, ímpetos de raiva, tristeza, vontade de jogar celulares, tablets e outros gadgets na parede. Ele se sente como Sansão. Teve toda a sua força extinguida, como se Danila tivesse cortado-lhe as madeixas que lhe davam força, e como um sopro doce, ela lhe disse adeus, e esta Dalila, ele nunca conheceu, talvez ela o encare no espelho do banheiro, talvez ela já estivesse por lá antes, em tempos remotos, ela reconhecesse seus passos, tímidos e cansados depois de uma noite de trabalho. Ele queria uma mulher, uma mulher que lhe fizesse perder o rumo, e que após o sexo, sem forças, pudesse contemplá-la sentado no sofá, que pudesse ver seu rosto ao amanhecer, com os olhos miúdos, cabelos sem escova, camisetão de algodão. A perfeição em detalhes imperfeitos, como um espelho quebrado. Estava ali, um homem despedaçado.

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Tal como o vinho, parte II.

Eu simplesmente não consigo mais ignorar a zona incauta de prazer que me invade a alma a cada gole de vinho tinto seco. Seria muita insensibilidade de minha parte se eu ignorasse todo o poder quase insano, enlouquecedor, de teus lábios manchados, sua saliva, nossa saliva etílica, aquele cheiro teu tão próximo, eu devorei teu cheiro em um longo percurso, e ainda não levemente embriagada, eu já sabia muito antes que eu estava já fora da minha toca, apenas tentei em vão ignorar tão sagaz e ensurdecedor insight de razão emocionada. Eu não pretendia beijar-lhe e nem ser beijada, mas eis aí que a vida nos engana. Quando nós achamos que temos todo o controle da situação, eis que os ventos de tempestade chegam e balançam nossas roupas de orgulho penduradas no varal. E a camisa branca impecável, seca no varal, ficou úmida de prazer, marcada por vincos de um abraço de saudade. Meu vestido ficou um tempo separado num balaio de roupas, longe das outras, porque ali estava algo especial, uma gota de vinho derramado e seu cheiro esparramado. Joguei o vestido na máquina de lavar, mas só fiz isso quando gravei tuas marcas olfativas em minha memória, e ela está longe de ser jogada no sóton de minhas memórias cognitivas. Está num acesso dinâmico, rápido, bizarro e sem frescura, sem tempos ruins para negar memórias entorpecidas. Pode estar uma tempestade de pedra lá fora, a chuva será linda, pesada, e eu vou contemplar da minha janela. Lamberei uma pedra de gelo, um pedaço do céu em minha boca, eis que me lembrarei de ti novamente, não estou dizendo que és um homem frio, mas sim porque como o gelo, você derrete em minha boca e num acesso de lembranças boas, as borboletas dançam todas descontroladas no jardim de meu estômago.

E eu saí daquele bar numa sexta-feira ameaçadora de chuva. Com meu casaco amarelo eu suava, e o vento de prenúncio de chuva bagunçou meus cabelos, acalmou minha face avermelhada. Subi para o ônibus sobre o efeito do fogo. Algo em mim queimava, se eu pudesse lhe chamaria para um sexo improvisado, como uma dança, num salão, onde ritmos variados nos convidam a passos desajeitados. Neste palco eu meu arrisco, a vida toda é um palco, penso eu, pois temos de dançar conforme o ritmo dela, portanto, se nos sentirmos envergonhados e desajeitados durante os passos de tango argentino, vamos cair, e rir de nosso tombo. Daremos as mãos e dançaremos novamente, até a que a Morte chegue. Se o céu, o paraíso e outras metáforas semelhantes existirem, vamos continuar dançando no paraíso. Se o inferno existe, vamos dançar nus, sem pudor algum, queimando em chamas, um ritmo caliente de música caribenha. Usarei meu espanhol desajeitado, sem vergonha. Aliás, vergonha é algo que não me pertence. Deixei-a abandonada e guardada numa caixa, na mesma caixa onde guardava meus textos proibidos de 15 anos, antes de serem atirados ao fogo.

Tal como o vinho, bebo-te em goles de saudade, e ele desce, quente, aquecendo minh’alma e coração, numa sexta-feira de emoções violentas em forma de pensamentos. Queria eu ser agora como uma garrafa, um vinho, um licor de uvas, envelhecido de emoções. Deite-me em sua taça e me beba, sem pressa. DEGUSTE, sem moderação.

Quatro minicontos antes de dormir.

1-     Lola, a porca de Clarice.

Clarice tinha uma porca de estimação. A porca se chamava Lola, e gostava de dormir embaixo do tanque. Naquele sítio florido herdado de uma sucessão de gerações da família, ela corria em volta do casarão de mais de duzentos anos, feliz, com seu sorriso banguela na boca. Lola dormia estirada no gramado. Lola era quase um cachorro, só faltava latir. Tinha em seu pescoço um lindo lenço vermelho, tomava banho e só comia do bom e do melhor. Era paparicada por tudo e todos. Todas as visitas do sítio amavam aquela porquinha. Um dia, Clarice, no florescer de seus 16 anos, conheceu um rapaz, era seu primeiro contato com as maravilhas do sexo, e existia ali um pouquinho de amor, mas era, a princípio, apenas um tesão louco incontido. Numa manhã de sexta-feira seus pais viajaram, e voltariam apenas no domingo ao entardecer. Clarice queria ser popular, reconhecida, queria que todos a olhassem como uma garota descolada. Ela cansou de ser a garota caipira, já não era mais virgem, perdeu a virgindade no banheiro de uma festa regada à refrigerante e coxinha. Era uma festa da escola, proibido a ingestão de álcool por menores de 18 anos, mas ela bebia seus goles de vício agachada aos pés do seu namoradinho juvenil. Bebeu um copo de guaraná e comeu um brigadeiro. Queria tirar o gosto do licor de seu garotinho da boca. Estava com raiva, ele lhe disse que seus dentes raspavam muito e que ela precisava praticar mais. Mas ele sempre gozava, ”Filho da puta”, pensou ela.

Tudo pronto, Clarice conseguiu arrecadar dinheiro para as biritas e alguma comida. A festa rolando, gente se pegando, gente se drogando. Ela já havia bebido tequila, fumado um baseado e agora se preparava para o chá de cogumelos. O sexo nunca foi tão primitivo, as cores eram muito mais vivas, e o queijo da pizza onde as moscas deitavam suas emoções nunca foi tão delicioso.

A festa rolou, até tarde da noite do sábado. Sua fome era intensa. Perdeu as contas com quantos se deitou, até que o cansaço não a permitia mais viver a luxúria adolescente. Dormiu nua no gramado, e no dia seguinte tinha porco no rolete. Não era uma bad-trip, era Lola, sua amada porca rolando num espeto improvisado.

2 – Uma nuca, um pescoço, pele branca…Barba por fazer.

Era tarde da noite. Estava voltando do trabalho. Estava precisando de umas horas-extras para aquietar a mente. Aquietar no sentido de lhe tirar as coisas que a atormentavam. Ficou esperando o ônibus do outro lado da passarela. Colocou uma música nos ouvidos, e pensava o quanto o cansaço a fez querer sua quente e solitária cama. Entrou no ônibus, cumprimentou Chris, o motorista, e ele perguntou, “mais uma vez trabalhando até tarde! Assim vai ficar rica!”. Ela sorriu um riso cansado, os olhos pesados, querendo fechar. Sentou-se no banco nos fundos do ônibus. Hoje, ela não pensaria no seu amado, seria uma noite apenas para seu cansaço. Ela sabe que iria sonhar com ele de qualquer forma, e que de noite as ruas são escuras demais para ver as flores amarelas que nascem no asfalto. O girassol do jardim do bairro de subúrbio caiu e morreu, mas tinham as pequenas e graciosas florzinhas amarelas ou alaranjadas.

Ficou olhando as notícias no celular, o ônibus tardaria a sair, e nesse dia nem ao menos um livro tinha. Não conseguia dormir no ônibus, lhe incomoda dormir em coletivos, dá-lhe a impressão que vai se perder e que ela será esquecida, pois estava escondida, lá atrás. Entrou um rapaz no ônibus, ele sentou-se no banco à frente dela. Ela nem viu nada, estava por hora, delirante, pensando no projeto para a empresa. Ergueu os olhos, e se deparou com uma nuca, os fios castanhos claros do cabelo, que se encerravam na nuca, um pescoço branco, barba por fazer. Ela viu apenas uma nuca, uma linha tênue de pescoço, e um pedaço de uma barba acastanhada, e lembrou-se daquele que ela deixou duas marcas roxas num acesso de excitação e devoção. Não havia nada que a fizesse deixar seu dia branco de lembranças doces e selvagens. Os olhos daquele rapaz nem eram azuis, mas aquele pescoço foi o estopim para ela se perder na beleza dos olhos nus e expressivos daquele que lhe tirou o sono.

3 – Plástico

Letícia tinha regador de plástico, mas ela não tinha flores de verdade para regar, pois todas as flores que ela tinha sua vontade de cuidar delas era tão falsa quanto a sua vontade de viver.

Julio tinha uma boneca inflável de plástico, que segundo ele, gemia, adorava fazer sexo oral e transar com ele. Mas ele não tinha uma mulher de verdade para transar.

Cláudia tem uma árvore de natal, enfeitada e colorida. Tem presentes de plástico para dar à família. Todo natal tem risos, mas por dentro, ela é sempre de um riso de poliestireno e emoções plastificadas de PVC.

Marlene tem um homem que lhe diz todos os dias que a ama. Mas quem a satisfaz é seu brinquedinho de plástico.

Marcos queria ser amado, mas queria transar com uma mulher que não tivesse vínculo afetivo nenhum com ele. Poderia visitá-la e transar quando quiser, sem cobranças, uma mulher sem dor de cabeça e dias ruins. Pagou por Luciana, com seu dinheiro de plástico, no crédito e fatura só para daqui 40 dias.

4 – Esquina

Nas ruas amarelas do bairro de subúrbio, uma prostituta espera pelos clientes em seus carros esporte, suas desculpas de que trabalharam até tarde, seus desabafos sobre esposa frígida que finge orgasmo e acha que os engana. Ela sente frio em sua minúscula roupa, mas um conhaque com limão no bar da esquina a faz ignorar o frio insano da madrugada. Na última hora esteve com um cliente, ele queria apenas uma massagem, e ele gostava apenas de olhar. Ele pedia a ela que transasse com si mesmo, ele sempre pedia isso para a esposa, mas ela tinha vergonha. Jogou cem reais na cama e saiu de lá feliz. Ela não teve trabalho nenhum, bastava apenas pensar no seu velho homem, que um dia poderia voltar naquela esquina, em qualquer hora, talvez na próxima primavera.

 

 

Aerodinâmica num tanque de guerra.

We were born and raised in a summery haze
Bound by the surprise of our glory days
Domingo, 03 de março de 2013
Local: Empório Dona Bella, Shopping Dom Pedro


Detalhes sórdidos ou não:

  • Há orquídeas na parede, não sei se são reais um de plástico, mas não deixam de ser bonitas.
  • Nas prateleiras, existem lindas corujas esculpidas em madeira.
  • Cheguei lá 15h00 e saí 22h30. Sim…aprecio meus instantes de solidão.
  • Tocou Jack Johnson,  “Upside Down”, Adele, “Someone Like You” e Joss Stone, “Tell me what we are gonna do now”.
  • Meu celular estava com a bateria no berro. Pedi para o garçom para carregar. Ele tinha um carregador. Achei muita gentileza da parte dele. Viciados em tecnologia é assim, uma merda. Sinto saudades dos tempos das cartas. Era algo assim, mais sincero e espontâneo, e forçava as pessoas no velho e lindo hábito de pegar uma caneta e um papel, e escrever um pouco. Hoje o ato de escrever se remete a conversas abreviadas e cheias de gírias numa tela de comunicador instantâneo.
  • Vinho me traz saudades, uma saudade daquelas que eu nunca senti.
  • Corinthians e Santos estavam jogando, até o momento em que chego nesta linha, no papel de meu bloco de anotações, o jogo estava zerado. Chupaaaaaa Corinthians!
  • Estava, entre goles e garfadas de carpaccio, lendo “O Homem Despedaçado” pela terceira vez. Sim, eu leio e escrevo coisas em restaurantes, e não tenho vergonha dos olhares incrédulos e por vezes curiosos.
  • O resto daqui pra frente, será altamente emotivo, imoral talvez, porém extremamente sincero. Não escrevi isso devido a uma talvez embriaguez, escrevi isso pois é essa a minha forma de ser. No meio daquele turbilhão de pensamentos que por vezes instalava a tormenta, por outras oras, um sorriso tímido com tons de saudade. Imoral seria eu ter escrito tudo isso aqui ficado quieta. Apesar de eu ser uma mulher com entranhas para fora, não sou previsível, sou uma caixa de surpresas. Não é porque eu escrevo o que eu sinto e penso, que as pessoas podem julgar que me conhecem.
  • O intuito era escrever um conto de apenas 150 palavras para um concurso literário, mas o vinho me trouxe lembranças, e aí todo o meu planejamento se transformou em uma carta de amor em tons de Almodóvar. Eu não aprendo, devia ter ouvido minha mãe quando ela me disse para não ilusões nesta vida. Eu um dia, fiz um desenho em letras artísticas, pendurei na porta do meu quarto. Toda vez que eu acordava, eu olhava para a frase, e via a frase “Não tenha ilusões”. E eu repetia aquilo comigo mesma, como uma forma de oração. Meu coração foi duro e frio por longos períodos. Eu havia prometido a mim mesma que não me deixaria levar por um belo par de olhos. Mas, novamente a vida me prega uma peça, me mostra um poema de Petrarca, e eu mulher incorrigível, deixo-me levar pelos erros e tropeços de nunca saber ficar quieta. Antes, meus amores eram platônicos, eles não precisavam saber que eu existia. Apenas deveriam saber do meu falso desdém.  Mas hoje, eu, Ana, com 25 anos e velha demais para baboseiras de adolescente e ciente que a vida é curta demais para nos escondermos, enquanto escrevia em folhas, naquela mesa de um restaurante chique, eu tentava dissipar meus pensamentos para o meu livro de francês,e as páginas de um homem despedaçado.

 

Mas a única coisa que eu pensava, era no meu delírio de uma mulher despedaçada, uma mulher fitando uma mosca no vidro, e querendo por vezes ser apenas uma migalha de pão.
Mas a única coisa que eu pensava, era no meu delírio de uma mulher despedaçada, uma mulher fitando uma mosca no vidro, e querendo por vezes ser apenas uma migalha de pão.

Trecho esparso, onde tudo aconteceu, a primeira estocada da lembrança sublime de um domingo de madrugada. Estava eu na minha segunda taça de vinho Merlot, e mastigando minhas convicções como o pedaço de carne crua com rúcula que eu devorava.

  1. E por um instante, eu chorei. Derrubei uma lágrima triste de canto de olho, e eu nem ao menos havia percebido. Ela escorreu apelo meu rosto antes que eu me desse conta. A lágrima escorreu e molhou minha camisa de seda vermelha. Disfarcei. Não gosto de extravasar minhas emoções em público. Não gosto da minha linguagem de olhos emocionados. Eu sempre procurei passar a imagem de uma fortaleza inabalável. Poucos me viram chorar, e ali, naquele momento, quando vi que não conseguiria segurar, fui ao banheiro. Encarei minha face no espelho do banheiro, por alguns segundos, senti-me estilhaçada, e recolhendo meus cacos, um a um, enquanto pegava o papel para enxugar os olhos. Respirei fundo, voltei pra mesa, o jogo do Santos e Corinthians continuava a rolar no telão. Minhas emoções também nunca acabam, rolam ladeira abaixo e não há lei da Física que as impeçam. Continuo dando meu reino por um beijo em teus ombros. E nunca acaba, nunca acaba…

E depois dessa sensação, começou aqui o fluxo para livrar de meu caos, que há um tempo me atormenta. Eu me responsabilizo pelas consequências que virão depois do estiver daqui para baixo, mas arrependimento é uma palavra que não me pertence. Seu eu pudesse voltar no tempo, cometeria os mesmos erros novamente, permitiria sentir todo o meu Amor novamente, sim, eu sou uma errante. E aliás, não acho que seja um erro. E se for, talvez eu aprenda algo com ele

Então, vamos lá, vou começar aqui, minha prosa não fictícia:

 

 É preciso ter uma quantidade considerável de coragem para ser escritora, uma coragem quase física, do tipo que se precisa para atravessar um rio sobre troncos flutuando. (…)

Depois de um domingo perdida entre ideias e cochiladas aleatórias, resolvi sair, seja lá acompanhada ou não. Eu já acostumei-me com minha solidão, ela não me intimida mais. Eu faço um convite, simplesmente não ligo e não acho ruim que não me respondam, na minha brincadeira de aceitar minha própria solidão, aprender e conviver com ela, de forma que eu fosse uma pessoa melhor, fez de mim uma pessoa mais sensata neste quesito. Mas não nego que a companhia ao qual estendi meu convite, se estivesse ali ao meu lado, talvez me ensinasse a ser uma pessoa mais silenciosa, sim, mais silenciosa do que eu já sou, mas gostaria muitas vezes de não ter minha habilidade de me exprimir bem com as palavras. Gostaria de aprender usar apenas os olhos, e palavras verbalmente escritas, apenas no momento certo.


Fiz meu ritual de domingo, acendi umas velas no banheiro, escolhi uma fragrância na minha tímida coleção de incensos. Abri o chuveiro, coloquei na chave “morno”, naquele começo de tarde de domingo, enquanto algumas pessoas rezam indo à missa ou contam piadas na mesa de família, minha tarde pedia um banho e um  tempo calmo, embaixo das gotas mornas do chuveiro da minha tão simples morada. Eu não vou negar que naquele momento, que as gotas que  caiam em meu corpo, me trouxeram a doce lembrança de um pequeno rio de vinho correndo em minhas costas, e uma língua lambendo languidamente minhas costas. E nós dois, talvez, levados pela sensação de uma leve embriaguez, cravou em meu peito e no meu armário de memórias, um momento inesquecível e único. E naquele momento, enquanto as gotas mornas me tiravam a eloquência de raciocínio, eu queria que estivesse ali comigo, com seus beijos em minhas costas nuas. Cada momento, cada talvez maldito momento que sinto algo escorrer minhas costas, eu sinto teu cheiro aproximando-se  seu toque, ora doce, ora selvagem, uma sinestesia violenta, uma vontade de amar-lhe imoralmente na frente de uma multidão.

É um cheiro de sexo, é um cheiro teu, me chamando embaixo do chuveiro, são teus olhos azuis desconcertantes, imorais, absurdamente imorais, uma tentação que me provoca, e eu me entrego à ela. É a lembrança dos teus olhos, nos momentos que eu me permiti perder a vergonha e olhar para dentro deles, é a lembrança deles que deixaram meus olhos marejados.

Enquanto eu escrevia naquele restaurante, quando eu olhei para o telão, para disfarçar a minha vergonha, estava passando o jogo do Penapolense e São Paulo, que estava ganhando. Jogos do São Paulo fazem-me lembrar do meu avô, torcedor deste time desde os tempos da mocidade. Lembrei-me de quando meu irmãozinho nasceu, ele contava o tempo para chegar o primeiro ano do meu tão querido irmão, para presenteá-lo com um uniforme do São Paulo. Meu irmão, quando nasceu, tinha os mesmos olhos lindos tais como os teus, mas o tempo passou e ele herdou os olhos escuros da família. Eu amo os olhos do meu irmão, assim como os teus, e isso aconteceu no primeiro instante em que levantei meus olhos do livro e vi você chamar meu nome. Mas esta história, você já conhece. Deves pensar que eu estava bêbada enquanto escrevia isso, eu estava na minha quase quarta taça, mas eu preciso de muito mais para ficar totalmente fora do meu mundo real. Pode ser que o vinho me deixou desavergonhada o bastante para pegar uma caneta que carrego na bolsa velha e sem zíper, uma caneta que estaria ali aguardando o tempo certo para um momento sensato. Sim, estou completamente sensata, o vinho faz apenas eu suspirar mais, um suspiro leve, faz meu peito levantar-se mais rápido, e um calor subir gostosamente até a nuca, mas ele não traiu minhas convicções, nem meus sentimentos aqui expostos.


Não é fácil me levar para o lado romântico da Força, você, homem silencioso e digno do meu tempo quem sabe perdido, ali naquela mesa de restaurante chique. Eu escrevo aqui com minhas linhas tortas, porém sinceras. Permito-me escrever aqui o quão perturbada tu me deixaste, ao surgir em minha vida. Não, não estou culpando-lhe de nada. A palavra perturbação aqui tem seu lado poético, e não literal. Sua personalidade questionadora e segura de si, fez-me não sentir-me tão sozinha neste mundo. Até então eu acreditava que pessoas como você não passavam de um delírio de um personagem de um conto clássico. Eu não acredito em perfeição, eu sei exatamente que nesta vida, o segredo é saber lidar com as imperfeições e angústias de nossos próximos, e não surgir apenas quando as coisas estão relativamente boas. Por isso, se eu pudesse, eu lhe perguntaria todos os dias, “Olá, tudo bem contigo, como foi o teu dia?”, ou uma vez por semana, eu perguntaria isso no plural, “como foram os teus dias?”. Pode ser que nossos corpos não se toquem mais, eu digo pode ser, pois odeio tomar conclusões precipitadas. Eu tenho toda a calma e paciência deste mundo. Talvez a ocorrência entre nós tenha sido apenas um momento ou um conto pornô aristocrático.


Eu, naquele restaurante, com minha saia longa e camisa de seda vermelha, ansiava um momento em que seus olhos lânguidos me olhassem de tal forma como se quisessem desamarrar o laço de minha camisa. Eu queria teus olhos naquele momento, olhando para dentro de minha transparência, enquanto eu me concentrava e suspirava na taça de meu vinho, enquanto eu baixasse meus olhos tímidos, a ponto de não querer me entregar tão facilmente, entregar meus sentimentos que há tanto tempo eu bradei aos quatro cantos, que essa pieguice não me atingiria. O Amor é brega, mas ele é bonito… Dizem por aí que a bebida entra e a verdade sai. Eu estava fazendo algo exclusivo em minha vida. No momento em que as músicas boas pararam de tocar, dando espaço para a merda do sertanejo universitário, musicas de gosto bem duvidoso, eu permiti que o som não me incomodasse, e eu então continuei com minhas impressões no papel. Eu não tenho expectativas de um amor pra vida toda, eu não sei nem se estarei viva amanhã, criar expectativa é algo cruel que praticamos para prejudicar sem intenções de parecer algo insensato. As expectativas são inimigas da tão querida e importante Razão, tão logo eu digo que o meu melhor amigo é o senhor Tempo, me encarando nos olhos com o passar dos dias. Ele é a maior caixa de surpresas do universo, e eu me curvo perante um lindo relógio arquitetônico. O Tempo é meu fiel e melhor amigo, mas confesso que anseio que os ponteiros dele andem às vezes mais rápido que o habitual. eu conto as horas, minutos e segundos, eu anseio por teus beijos, pela tua linha lânguida de pescoço e os teus braços. Sim, eu amei seus braços, os detalhes das veias e tendões. Por mais que no momento em que eu escrevia isso, eu estava com taninos em altas concentrações, estou agora, sóbria o suficiente para escrever que amei cada detalhe do teu rosto, cada tom de sua voz, e a sua risada é algo tão sublime, que me faz esquecer que a vida seja mal humorada na maior parte das vezes.



Permita-me ser imoral o bastante, apesar de não me achar imoral em nenhum momento, pois eu não sou um eco, eu escrevo aqui porque desde os meus quinze anos, eu deitava minhas impressões no papel. Eu não sei muitos miligramas dos teus pensamentos sobre minha pessoa, e confesso que isso me deixa loucamente excitada, a mesma excitação que eu sinto quando pego o ônibus para ir ao trabalho  todas as manhãs, e encontro um jardim de Girassóis plantados em plena rua de subúrbio de uma cidade de pedra. Qualquer dia, se quiseres, eu lhe levarei até este jardim, que me faz lembrar alegremente de ti, todas as manhãs, manhãs que ao lembrar-me de teu rosto iluminado pelo sol, me traz um arrepio, e eu me contorço toda, e sinto várias borboletas em meu estômago. Eu queria ser a borboleta que pousa sensualmente e beija a face do girassol, a borboleta que deita em teu peito e se deixa ser devorada.

O Amor é algo que até hoje o homem tenta em vão desmistificar a sua nudez crua, Amor cujas raízes pedem um pouco mais de compreensão não esclarecedora, o Amor sempre tem que manter uma nuance de mistério , senão perde totalmente a graça. O Amor é um desafio, e nem os gênios mais influentes deste nosso universo, souberam lidar com ele. E nós, meros mortais com nossos dias carregados de trabalho e obrigações da vida. Meros mortais com vivência tão questionada, sempre nos bisbilhotando o tempo inteiro, muitas vezes, queremos apenas momentos de paz, talvez uma paz teleguiada. A honestidade não é guiada por taças de vinho, ela nasceu junto comigo e eu não tenho vergonha disso. Não preciso embriagar-me para minhas verdades saírem. Sentiria-me uma mulherzinha, sim, uma Mulher com “m” minúsculo, se eu tão tivesse minha honestidade perante estes teus olhos, tenho toda a minha eloquência aqui e agora, eu só a perco quando seus lábios me tocam, ou quando teus olhos pousam numa graça tão incontida, que eu perco totalmente a noção do tempo e o cinza das horas.


Eu não ligo para o que as pessoas pensavam, ao me ver escrevendo sozinha em um restaurante. Todas as mesas existem uma segunda ou terceira pessoa, mas eu estava ali, sozinha, por vezes com lágrimas aos olhos, de emoção, dificilmente eu não choro quando eu escrevo. São minhas emoções traçadas aqui, nuas e cruas.


Enquanto eu escrevo, há um casal na minha frente com a filha. Ela carrega uma rosa nos cabelos, e ela, com toda a sua teimosia de criança, brincava com os utensílios dispostos naquela mesa. E quando ela não tentava instalar o caos naquela mesa, ela dançava alegremente e inocentemente a música com gosto duvidoso que tocava. Você, homem silencioso e questionador, me cativou a ponto de ignorar toda a blasfêmia sonora que tocava naquele lugar. O que mais me importava naquele momento, era a sinceridade neste fluxo tão intenso de pensamentos, pensamentos que eu esperava ter coragem suficiente para transcrever para este humilde endereço. E eu perdi uma madrugada de segunda inteira, dormi apenas 2 horas, para enfim, desmistificar o meu medo de ao menos tentar ser feliz, não ter medos de arriscar. Eu perdi um certo tempo de minha vida não permitindo-me mostrar-me por inteiro, pelo medo de que os julgamentos de uma sociedade tão mesquinha e cheia de julgamentos injustos e desnecessários. Antes, eu me escondia por trás da pilastra que me dava a falsa sensação de proteção, de conforto. Hoje, o desconforto do meu caos não me amedronta mais. Eu sou como São Jorge, como Dom Quixote, mato os meus dragões de medo com minha espada, e ela não precisa estar afiada a todo momento, para isto basta-me apenas minha coragem.  A coragem de uma mulher é o elemento mais cortante deste mundo, é algo resistente, lapidado como um diamante, nós mulheres, somo como um rio…Eu li isso em um livro ao qual estou relendo pela terceira vez. Quando minhas mãos se sentiam cansadas do ofício de escrever, eu me perdia nas páginas de um livro sobre um homem despedaçado, sobre o delírio das moscas, sobre a filosofia dos homens-rios.


Minha querida mãe e sábio pai, sempre me diziam  que tenho mãos de pianista, devido aos meus dedos compridos e finos. Talvez eu os cruze para que me deem um pouco de sorte para que perca alguns minutos ou horas do teu dia me lendo. E talvez eu tenha um pouco de sorte o bastante, ou meu marlim azul chegue na beira de uma praia, devorado por tubarões. Mas, assim espero, que o tubarão que o matou, aquele que devorou meu tão fiel amigo, seja bonito aos olhos desacostumados de alguém. Sempre levamos algo de bom em qualquer uma de nossas lições. Talvez eu adormeça depois de minha derrota, mas depois eu sei que a imagem reconfortante de leões andando pelas areias brancas da África, me trarão um sono lindo, e eu então vou agradecer por toda minha coragem instanciada assim, tão aerodinâmica, eu posso estar num tanque de guerra, mas minhas palavras são armas que jamais tiveram a intensão de ferir. Talvez você sinta um desconforto no peito, mas isso passa…


Se gostares das palavras digitadas aqui, posso reescrever-lhe isso aqui à mão, ou lhe dar os originais. Permito-me dar um tom mais estético e harmonioso nesta versão digital, mas a intensidade e sinceridade de minhas palavras continuam as mesmas, só a minha letra que é feia, à propósito, muito feia. Se eu for reescrever-lhe isto a mão, para guardar como uma lembrança, eu vou fazer uma letra bonita, para que leias e não tenha nenhuma dúvida sobre o que está escrito ali. O que transcrevo aqui, o que eu escrevi naquela mesa de bar, no primeiro domingo de março, não é o teu eco, e sim a voz do meu desejo, e sim, talvez ele seja imoral, pois minha memória é palpitante, e meus sonhos são úmidos. Eu sou imoral, quando eu tento, em vão, renunciar meu desejo. Isso pra mim, é imoral. A vida é curta demais para negar e deixar de viver aquilo que nos faz felizes, por mero conforto do não desconforto. Viver sem medo é desconfortável, sendo assim eu prefiro minha cama de pregos, do que um colchão macio. Uma vida macia é confortável, mas é vazia.


Você me olha silencioso, e eu lhe envolvo com minhas palavras. Cada palavra aqui, é um abraço e um beijo apertado. Eu amo teu silêncio, assim como amo dias chuvosos. Por vezes, me faz entristecer, mas eu olho pela janela, e acho tudo absurdamente encantador, a ponto de meu desejo ser ensurdecedor. Se meu desejo pudesse cantar, ele seria um cantor lírico, onde na beleza da minha incerteza, compõe uma canção de notas melodiosas e talvez mal compreendidas por seres incautos, pois aqui tem um toque de malícia aristocrática. O incautos não enxergam a malícia, e quando a enxergam a tomam como algo ruim. Toda malícia é necessária, e ela não se torna vulgar se soubermos lapidá-la com cuidado.
Talvez, depois de tudo isso, eu possa causar um afastamento causado por um desconforto que eu não sou capaz de medir. E se isso acontecer, não me torne apenas uma imagem na tua memória. Não gostaria que você se tornasse apenas uma lembrança em forma de pixels. Não espero e não criarei expectativas que me respondas. É necessário um certo tempo para digerir tudo o que aqui está escrito. Eu conto agora, no meu editor, três mil e trinta e seis palavras, e eu nem ao menos terminei. Eu não vou lhe dizer que eu te amo, pois isso é uma atitude desesperadora de uma mulher que não aceita ser sozinha nesta vida. Para dizer Eu te amo, é necessário tempo, “Eu te amo” é uma palavra muito forte, mas eu não nego que estou chegando quase na estrada onde está esta placa escrita em letras garrafais. Mas eu parei no acostamento, e estou fumando um cigarro. Talvez os meus pneus estejam furados, e eu não entendo nada sobre isso. Talvez meus pneus estejam apenas murchos, esperando um sopro de ar. Assim eu continuarei na minha estrada, e quando eu encontrar essa tão complexa placa, eu espero ter toda a sabedoria do mundo para não deixar que ela me derrube. Ela é linda, mas o Amor dói, o Amor machuca. O Amor é como uma rosa, doce, suave, bonito, mas com espinhos. Eu sou madura o suficiente para aceitar este fato, eu aprendi nas duras lições dessa vida.


Quando veres minha imagem em fotografias de criança, penses que aquela criatura magra, banguela e feliz, te admira como um Homem, assim, com H maiúsculo. E se eu demorei muito para permitir ser beijada e beijar-lhe, o porque o desejo que se acumula aqui dentro, me fazem contar os segundos para ter a oportunidade de lhe fazer um homem feliz. Não lhe digo o mais feliz deste mundo, a felicidade pode não existir, mas ela é feita de momentos, e que nos maus momentos, o seu antônimo seja bom o bastante para relevar os dias e momentos cinzentos. Nada como um dia após o outro, e a nossa capacidade de ver e compreender as adversidades que tanto nos perseguem e nos tiram, por vezes, a fé.


E eu encerro aqui. Todas as minhas palavras até então, são por Amor…Um Amor pelas causas perdidas, um Amor pelo fim de sentimentos rasos. Uma ode, talvez, à loucura dos seres que acreditam que nem tudo está perdido. Que nossos dragões sejam apenas belos e imponentes moinhos de vento. Jaz aqui, neste fim de parágrafo, uma fidalga, uma mulher que está navegando no mar, olhando as gaivotas voarem contra a luz do sol, sentindo sede, e talvez, uma falta de sorte…


“(…)Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.”



E isto é o que eu quero ter a sorte em dizer-lhe:


Boa noite homem nobre. Feche teus olhos e não se assombre com os dragões, nem com tubarões. Dragões são apenas moinhos de vento, tubarões são apenas um mal necessário devorando nossa luta em alto mar. Deite-se na cama, e sonhe com leões que caminham na areia branca. Erga os olhos ao céu, e não baixe os olhos quando a tempestade chegar. Não baixe os olhos para o chão, como a flor do sol perante a chuva, siga em frente, seja um fidalgo, seja um sonhador, seja um apanhador no campo de um centeio, por amor às causas tão perdidas.

A imoralidade mora no céu…E no coração dos homens.

Este texto é a coisa mais imoral que eu já escrevi. Eu sou humana, fraca, eu tento resistir à tentação, mas ela é mais forte do eu. Eu não sou um eco de ninguém, apenas permito-me escrever um fluxo de pensamentos, um fluxo de coisas que fazem parte da minha tão simples vida. Sim , eu escrevo sobre a vida, eu adoro metáforas, eu acho a sutileza algo extremamente elegante. Eu demorei muito para escrever essa metáfora sobre o Sol e a Lua, entre outras coisas da Terra, eu terminei de escrevê-lo eram três horas da manhã. Fiquei por minutos, pensando se valia a pena publicá-lo ou não. Publiquei primeiramente no meu outro blog, que um grupo de escritores e ilustradores. E por que, você se pergunta, que eu fiquei por tempos pensando se publicava ou não? Porque este texto pode ser considerado muito, mas muito, absurdamente imoral. Mas este texto tem alma própria, é bonito, sensível, e se eu pensei em alguém pra escrever isso, não é porque não tenho idéias próprias, mas a partir do momento que algo entra em nossas vidas a ponto de refletirmos sobre nossas atitudes, razões, emoções, que nos traz um sorriso mais largo, enfim, não creio que seja imoral. Pode ser um tentação irresistível, claro, pode mesmo, e o que nos resta, como seres humanos, é quando não podemos vencer nossas convicções, nos entregamos ao pecado. E teria outro jeito? Renunciar, talvez, eu sou teimosa, odeio renúncias, sou uma eterna errante, eu não nego e não renúncio, eu luto até o fim. Não sou de renunciar sentimentos, já machuquei-me muito por ser assim, mas creio que tudo nesta vida vale a pena, tudo nós levamos como uma lição, e não devemos deixar de correr riscos. Sigo por aí, traindo minhas convicções, pecando, mas não deixo de ser única, ter virtudes reais, sentimentos intensos, ideias e pensamentos que voam como uma folha na fúria de um vento. Se deixo-me inspirar, é porque permito-me olhar o que há de Belo nesta vida, e eu não falo só de lindos olhos azuis e um sorriso. Existem muitas coisas além disso,  muitas coisas além do que os nossos olhos enxergam. Somente a Beleza não me basta, é preciso que toque meu coração e que me tire completamente da toca. São bem poucos, não passa nem de uma mão, se eu contar nos dedos, as pessoas que me fizeram crer que nem tudo está perdido. Sou uma eterna errante, tal como Dom Quixote, estou sempre em busca de causas perdidas.

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Este texto que vem logo abaixo é um conceito. Deve ser lido como uma fantasia, um sonho, uma metáfora. O Sol, a Lua, como dois apaixonados, trocando mensagens entre si.  Quem sabe, você, querido (a) leitor (a), leia este texto pensando na pessoa amada, mesmo que ele (a) não esteja anos luz de distância, mas sempre, ao amanhecer, no pôr do sol ou numa noite de lua cheia, quando olhar para o céu, é o sorriso desconcertante do ser amado que lhe surge  na memória. O amanhecer e os primeiros raios da manhã que nos aquece, o entardecer e os raios alaranjados do Soberano Sol, a Lua com suas fases…Todas esses fatores “astronômicos”, influenciam não só o movimento das marés do oceano, mas também os sentimentos e pensamentos dos homens e mulheres na Terra. Já dizia Lord Henry, em “O Retrato de Dorian Gray”, livro de Oscar Wilde:

– Não existe boa influência – respondeu Lord Henry. – Toda influência é imoral – imoral do ponto de vista científico -, porque influenciar uma pessoa é dar-lhe sua própria alma. Ela já não pensa com seus próprios pensamentos nem sente suas próprias paixões. Suas virtudes não são reais para ela. Seus pecados, se existem tais coisas, são emprestados. Torna-se um eco da música de outra pessoa. O objetivo da vida é o autodesenvolvimento. Cumprir a própria natureza perfeitamente – essa é a razão por que estamos aqui. As pessoas têm medo de si mesmas, hoje em dia. Esqueceram-se de seu principal dever. Claro que são caridosas: alimentam os famintos, vestem os mendigos. Mas suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. O terror da sociedade, que é a base da moral, e o terror de Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam. Mas eu acredito que se um homem vivesse sua vida completamente, desse forma a todo sentimento, expressão a todo pensamento, a realidade a cada sonho, acredito que o mundo ganharia um impulso novo de alegria. Mas o mais corajoso dos homens tem medo de si mesmo. Cada impulso que lutamos para estrangular aninha-se na mente e nos envenena. O corpo peca uma vez e não tem nada mais a ver com o pecado, pois a ação é um modo de purificação. Nada permanece, a não ser a lembrança de um prazer ou desgosto. A única maneira de se livrar de uma tentação é entregar-se a ela…

Quando o Sol ou a Lua não aparecem, é porque estão cansados de ser a inspiração e influência amorosa dos seres da Terra. Eles se entristecem de tal forma, que se escondem por trás de nuvens. Por vezes, a lua fica minguante, ela quer mostrar apenas uma parte da sua saudade, mas ela é amada mesmo assim. Nós, humanos, entregamos todas as nossas tentações e pecados embaixo do calor de uma estrela imponente, e fazemos declarações sob o Luar.

Espero que gostem, e que ao terminarem de ler este texto, pensem na pessoa amada, mandem uma mensagem dizendo “Eu te amo”, ou dizer que está com saudades, e agradeça, de alguma forma, por essa pessoa ter surgido em sua vida e iluminado seu sorriso e razão de viver. E se você, querido (a) leitor (a), que ama alguém, e a pessoa não saiba disso, meu amigo (a), eu digo-lhe que a vida é muito curta para não tentar. Não se vive sem correr riscos, lembrem-se disso. Obrigada e boa leitura!

Prólogo.

– No começo existia apenas a escuridão. Então surgiu o sol, seu nome é Guaraci. Um dia ele ficou muito cansado e precisou dormir. Quando Guaraci fechou os olhos, tudo escureceu. Então, para iluminar a escuridão deixada por ele, enquanto ele fechava os olhos por longo período de tempo, ele criou a lua, e lhe deu Jaci, de alcunha. Ele Guaraci, criou uma Lua tão bonita que imediatamente apaixonou-se por ela. Encantou-se de uma forma tão intensa, que o seu brilho a ofuscava, como se ela estivesse assustada perante tal intensidade de seus raios de sol. Ela, Jaci, era uma menina desajeitada perante o brilho inebriante do Sol, e este, um menino desajeitado perante a intensidade da Lua. A Lua desaparecia tímida, quando o Sol aparecia. Guaraci criou, então, o Amor, deu-lhe o nome de Rudá, e este era seu porta-voz. O Amor até então, a única coisa que ele conhecia, era a Luz ou as Trevas. Não importando as estações do ano, a passagem do tempo, o momento, não importava nada… Rudá sempre podia dizer a Jaci o quanto Guaraci, o rei soberano, era apaixonado por ela. Vendo que a Lua estava sempre sozinha, Guaraci criou também companheiras para ela. Deu-lhe o nome de Estrelas, elas tornaram-se então, suas irmãs. O rei soberano, enquanto dormia, não queria que sua amada ficasse sozinha. Os dois se amavam, apesar de toda distância. Guaraci ama tanto a Jaci, que lhe deu seu brilho e calor enquanto dormia.
De tempos em tempos, os amantes se tocam… E quando eles transformam-se em seres únicos, mesmo na efemeridade deste encontro, visto à unidade de tempo do nosso universo, o Amor, a maneira de como um toca o outro, se torna única. E foi assim, segundo os indígenas, que tudo o que existe quando olhamos o céu, é fruto do Amor de Guaraci e Jaci.

Cartas ao meu Rei Soberano

Esta noite eu me lembrei de você. Não sei por que exatamente escrevo-lhe “Esta noite”, pois você sabe que todas as noites, aqui no nosso céu, você sabe que eu penso em você e que eu posso sentir seus raios me aquecendo mesmo em noites de inverno, mesmo quando as nuvens me encobrem, quando eu me sinto cansada da contemplação dos seres humanos, quando o uivo dos lobos, e o miado dos gatos que namoram nos telhados ou em árvores, enfim, estes sons me enlouquecem e por momentos, meu Amor, eu quero ficar surda. Quero apenas que me toque, e que me aqueça ainda mais. Quero que olhem nosso Amor, e fiquem todos cegos. Alguns humanos, eu percebi, ficam acanhados perante um casal que se ama, os que estão solitários, olham pra mim e me pedem uma paixão, um Amor, alguns, sofrem, platonicamente, e me pedem que lhe trague o ser amado ao qual amam à distância. Eu posso ver o amor platônico deles rolando numa cama iluminada pela minha luz, mas nesta Terra, os humanos acreditam em algo que eles chamam de Esperança. Eu também, todas as noites, eu tenho algo bem semelhante a este sentimento dos terráqueos, seria também, Esperança? Amor, meu rei soberano, queria que o Universo adiantasse nosso encontro. Eu sinto muitas saudades, mesmo você deixando em mim todo o teu calor, eu sinto uma saudade extrema do momento efêmero de deitar-me em teu peito.

Esta noite, quando olhei lá embaixo, num bairro de subúrbio qualquer, eu encontrei uma flor chamada Girassol, dizem por aí que ele é UM flor, e não UMA flor. Ele é lindo, imponente, de uma beleza que o nosso amigo Tempo me contou que é como um verbo que não se conjuga. Alguns humanos se calam perante a Beleza do Girassol, outros dizem, o quanto é belo, tão belo quanto tu. Outros humanos, dizem que seus amados possuem a mesma beleza e sentimentos do Girassol. Um lobo me contou, que o Girassol, em dias chuvosos, murcha e coloca-se a olhar para os pés, tímido, como se estivesse acuado, ou se a chuva trouxesse a ele todos os tons de cinza que ela carrega. Ele, Girassol, agradece pelas gotas de chuva que caem aos pés, se sente pleno com a água escorrendo nas pétalas, mas ele sente falta do teu brilho, sente falta do teu calor aquecendo-lhe as pétalas. Quando você o aquece e ilumina, ele fica altivo e contente.

O lobo contou-me também, que o Girassol também gosta do silêncio. Ele pede para aqueles que pousam em seu ombro, que respeitem seu Silêncio. O Girassol é de poucas palavras, o Silêncio que ele carrega, é como um belo poema. O Girassol se fosse um ser humano, como os homens que caminham na Terra, ele amaria com olhos.

Alguns pássaros pousam nele e comem as sementes que saltam de seu miolo. E ele não esbraveja, sente-se feliz, e um dia, ele finalmente morre. Mas alguns pássaros, distraídos, deixam algumas sementes caírem ao chão.  Depois de alguns dias de chuva, outros dias iluminados com tua Força, Beleza e Calor, outro Girassol surge, mas, todos os Girassóis, me disse o Lobo, ficam extasiantes diante de ti. Eu confesso meu Amor, eu senti uma ponta de ciúme desta flor, pois ela está lá, sempre lhe contemplando, isso me perturba um pouco, pois sou eu, a sua Dama, aquela que lhe espera, sempre nova, para poder me aconchegar-me no teu peito, encher-lhe de beijos, e sussurrar meu êxtase nos teus ouvidos. Mas eu percebo, que da mesma maneira que aparentemente o Girassol lhe contempla, ele também me observa nas noites de minha estação nova ou cheia. Ele me olha, nos olhos, parece que quer me dizer algo, mas não consegue. É como se o Silêncio que ele carrega timidamente, fosse uma forma de aplauso. A Beleza do Girassol me deixa extasiada, por lembrar tanto você, as pétalas do Girassol, lembram-me teus raios, que me envolvem naquele momento que eu tão espero.

Eu te amo meu Amor, eu sei que já lhe escrevi isso, durante toda a nossa existência. As nuvens me dizem que você também sente saudades, que quando fecha os seus olhos e eu abro os meus, é comigo com quem sonha. Peço-lhe meu querido, toda a calma do universo. Eu, sempre mais expressiva, talvez porque os humanos, uma espécie de humano que eles chamam de “Poetas”, dizem que eu tenho alma feminina, que sou como as mulheres na Terra, porque elas, assim como eu, são cheias de fases, mas todas elas querem um abraço, o calor de um homem, que neste caso, dizem por aí, estes mesmos “Poetas”, que você, meu Sol soberano, é como o Homem, pois é de poucas palavras. Você gosta do Silêncio, eu sou verborrágica. Rudá entrega-lhe minhas mensagens em muitas linhas, você é tão calado que sinceramente eu lhe digo que teu silêncio por vezes me corrói. Eu me preocupo contigo, eu sei que estás aí, brilhando alto e imponente, que às vezes, como o Girassol, se esconde encolhendo-se em dias de chuva. Mas você não é sempre assim. Uma coruja buraqueira contou-me, que um dia, estava chovendo, e ela estava tomando um banho no toco de uma cerca na beira da estrada. E você apareceu, no meio da chuva, e fez uma coisa que os humanos chamam de arco-íris. Mas, ela disse-me que você chora toda vez que faz isso, ao entardecer. E você, em seu silêncio, nunca me contou.

Enfim, saiba meu Amado, que enquanto você estiver vivo, radiando seu calor, em Silêncio, eu sei que está por perto, pois eu sinto teu calor toda vez que eu acordo, e ele me lembra do dia em que eu me deitei em teu peito. Fique bem, pois aonde quer que esteja o meu pensamento eu levo junto a ti. 

Cartas do Rei Soberano para sua Rainha.

Olá, tudo bem? Andei muito ocupado. Alguns humanos estão construindo centros que captam minha energia. Chamam isso de Energia Solar, inserido num contexto que eles chamam de sustentabilidade. Eles me sufocam, e eu também os sufoco com o meu calor. Mas eles estão me sufocando tanto, que qualquer hora vai ter daquelas minhas tempestades solares. Ando muito cansado. Desculpa se eu não falo muito contigo. Sabes tu que eu gosto do silêncio, eu não tenho toda a sua intensidade, entenda, este é o meu jeito de ser.

Eu tenho uma surpresa pra você, estive conversando com tal de Deus, e ele me disse que há muito tempo atrás, ele criou uma espécie de flor que se assemelha a mim. O nome dela é Girassol, ele tem minhas cores, é calado. Tu já deves ter olhado para ele, e se sentido estranha alguma vez. Deus me confessou que fez à minha imagem e semelhança, algo que os humanos chamam de metáfora. Conhece essa palavra?Achei-a bem bonita, ME-TÁ-FO-RA, lindo não é? Deus disse que esta flor, fica imponente com meus raios, e quando eu vou dormir, este tal de Girassol fica na terra, e quando você aparece, ele contempla-lhe, e de uma maneira simbólica, “metaforicamente” falando, aquela flor ali, sou eu olhando pra ti. Deus é tão sacana, depois de bilhares de anos, ele foi-me contar isso só agora. Aquele Girassol é um mimo pra você, se você o olhar, e amá-lo, é a mim que está contemplando. Quando eu acordo, o Girassol sempre me fala que você estava linda, com suas manchinhas. Desculpe-me falar disso só agora, eu ando meio esquecido. Eu sempre esqueço as coisas, esses dias eu esqueci um dos meus neutrinos no espaço, achei até que havia esquecido, porém, desta vez eu encontrei.

Esses dias foram chuvosos, eu não apareci no céu, mas tentei pela bilionésima vez deixar um presente pra ti. Eu sou teimoso, eu sei que talvez não vá dar certo nunca, mas eu não desisto. Um dia você vai acordar, e a noite irá nascer duas vezes pra ti. Quando chove, eu saio timidamente da minha toca, e tento criar junto com minha amiga Chuva, um arco de sete cores. Você me disse que gosta de cores, e eu vejo sua alma assim, cheia de cores, nuances. Mas eu fico triste, pois esse arco é efêmero, quando chega o entardecer, ele some. Se você pudesse ver a Beleza dele, se encantaria. Eu sei, eu já lhe disse que a influência é imoral, mas se você pudesse ver o arco-íris, seria tão lindo. Estarei eu traindo a minha convicção?Eu acredito que não poderia ser melhor, mas eu confesso, eu sou como o Homem lá na Terra. Dizem os humanos, que o homem perante do que é belo e caótico, sente-se como um menino desajeitado. Eu não lhe prometo a mesma intensidade verborrágica, não tenho a mesma coragem que tu. Meus instantes, talvez sejam mal traduzidos, mas é minha forma de ser. Peço que releve isso. Boa noite querida.

Majesty – She & Him

 You were majesty
Your ropes were heavy
And your longing was a cutting from bone

1 – She
E o Amor se tornando real, os olhos abrindo-se aos poucos, diante de uma noite de brisa leve. E eles eram tão jovens, e ela era sua majestade. E quando ela sentia medo, ele aninhava ela nos braços e sussurra palavras doces nos ouvidos. E as lágrimas que escorriam de seus olhos molhavam as mãos dele, que lhe segurava o rosto dizendo olhos nos olhos que ela era especial e as tempestades nesta vida eram passagens, um mal necessário. E aqueles olhos, tão escuros, tão castanhos, como uma tempestade, tal como a canção de Renato Russo, olhos grandes e curiosos, com brilho de avelã. Em sua memória,seus olhos, boca e na pele, o sentido do toque, na mente. Uma fotografia que nunca envelhece, que nos momentos de raiva, quando está sozinha, essa fotografia quer queimar numa fogueira junto com todas as suas emoções, memórias, sentidos. E então ela lembra que a tentação é mais forte do que a sua própria força de vontade de parar. E a vontade de sair gritando, correndo, embaixo de uma tempestade, talvez, um raio cair sobre seu corpo e sofrer uma perda de memória, e todos os erros impulsivos serem completamente apagados da memória. Tão jovem, e os caminhos se estreitando e ela então caindo e caindo nos mesmos erros. E o corvo que sempre dizia, “Nunca mais, nunca mais”, canta sua velha canção novamente, e de noite, nas noites solitárias a canção do pássaro ecoa pelo quarto de paredes frias, e o seu medo invade, e todas as suas veias dilatadas, coração acelerado. Ela liga o ventilador, talvez o barulho das hélices girando, faça seus sentimentos dispersar, talvez a vontade de chorar vá embora, talvez o Amor que está surgindo devagar, a saudade sem sentido, vá embora, como uma dor aguda no corredor de um hospital, com o soro na veia e dopada de remédios. E quando ela fecha os olhos, ela se lembra, daqueles olhos, com as pupilas dilatadas pelo momento de êxtase, e ela era pra ele como sua droga, ela lhe dava prazer, mas não precisava ficar com ele, era uma troca, apenas uma troca. Ele precisava de sexo, e ela também, e eram apenas amigos. A vida poderia ser muito mais fácil, se não fosse a eterna luta entre a razão e o coração, tão irracional. E então ela se apaixonou e ela tentou vê-lo, pelo o que ele é, e tentou, sentir como ele se sentia. Ela poderia lhe estender a mão, poderia acariciar o rosto e fazer carinho na cabeça, ou simplesmente, deitar-lhe a cabeça no colo, e contar-lhe histórias engraçadas da infância, e fazê-lo rir, e ver seu sorriso, ou aquela risada besta de uma piada ruim. E ele poderia lhe dizer que ela não tem talento para ser humorista, apesar de toda força de vontade, e então, eles poderiam rir juntos, e ela acharia aquilo lindo, mesmo sem a beleza e o despudor do sexo. E ela queria que pelo menos, ele a enxergasse por dentro, e não como um pedaço de carne para degustar como quiser, quando quiser. E o Amor, pensou ela, é uma coisa bonita que dói, que aperta como uma corta no pescoço, tirando o ar, pouco a pouco, ela vai morrendo, por dentro, pouco a pouco ela se sente fraca, pouco a pouco as lágrimas escorrem pelos olhos e então ela vê o quanto ela cavou sua sepultura, e aos poucos a terra está sendo jogada sobre o corpo, e essa terra lhe cobriu os olhos, ela não enxerga mais, não respira, mas sente todo o peso do corpo dele, como uma tonelada de terra…E aquilo era bom… “Abra os olhos querida”, e então ela abriu e lá estavam os olhos de tempestade, e desde então eles a observam dormindo, entre lençóis, um sorriso sádico no rosto, uma meia luz entrando no quarto, e ele gostava disso.

2 – Him

So am I good or bad?
The way that things did turn out

E ele sempre a achou linda. Uma beleza exótica, um dia ele disse isso a ela. Ele poderia lhe dizer várias coisas, mas o tempo seria um bálsamo que lhe cairia pelo corpo, e o medo da rejeição talvez fosse embora. Ele era tímido, será que ela saberia disso?E o sexo era ótimo, ele sabia disso, mas os olhos dela eram um mistério não revelado. E quando ela o olhava, por cima, aqueles olhos contavam uma história sem início, meio ou fim, e ele queria entendê-la muito além do corpo, aquele corpo no início coberto por uma lingerie lânguida e meias 7/8, e ele olhava ela com um olhar de desejo, e ele então pensava que ela era apenas mais uma mulher, e que talvez ele poderia se apaixonar, e um dia magoá-la. Ele poderia fugir, ao não saber como fazer, ele era jovem e poderia ter várias mulheres, quando quisesse, porque iria se prender e acabar com a liberdade?E ela estava lá, tão linda e tão real,com todos os seus defeitos, e não como capas de revistas impressas em papel de editoração. E ele não queria se sentir tão mesquinho, e o medo de se apaixonar o amedronta como um menininho com medo de palhaço. Um dia ela lhe contou que tinha medo de palhaço, porque na cena de um filme,que ela havia assistido quando criança, um palhaço malvado arrastou um menino para dentro de um bueiro. E aquela cena não saia da cabeça dela. E então ele ri, por dentro, quando lembra que ela é linda sendo mesmo assim, meio boba, com seus medos traumáticos de criança ou quando conta aquela piada velha e ridícula dos pontinhos e ela ri dela mesma e ele gosta disso nela, o senso de humor, mesmo com suas crises de bipolaridade. E ele queria que ela visse aquele jogo de favores sexuais, estreitados em laços de amizade, para conhecê-la melhor, como mulher, e não com um objeto sexual.

But in my mind
I could still climb inside your bed
And I could be victorious
Still the only man
To pass through the glorious arch of your head.

A visão dela, enrolada nua nos lençóis, ou o toque ora suave ora agressivo em suas costas, o deixava fraco, e essa fraqueza o preocupava, pois era a mesma fraqueza que sentiu em experiências anteriores, com outras mulheres, uma lembrança ruim de relacionamentos mal resolvidos. Ele queria ser racional, aquela mulher ali deitada, era para ser apenas alguém para servir como válvula de escape, para suas necessidades íntimas. Ele não queria se envolver, para depois, talvez ser rejeitado. Desta vez, ele queria apenas ser mais um amigo. E quando ele começa a sentir amor por aquela criatura de cabelos emaranhados pós-sexo, ele quer apenas fugir como uma criança. E o corvo um dia lhe sussurrou nos ouvidos: “Nunca mais, nunca mais”, mas ele, mais uma vez, se deixou levar. E então ele olha ela adormecida, com o peito subindo lentamente numa respiração doce e calma, e então um sorriso lhe abre no rosto.

Homem e mulher, morrendo de sede,
Na noite se sentindo tão sozinhos,
E então talvez uma xícara de chá lhe acalmem os nervos,
Ele a deseja, essa mulher, sua majestade,
E ela também o desejo, amá-lo como um rei,
Acariciar seu rosto e amar com a devoção de uma súdita,
E ele queria, toda vez que ele tirasse seu manto de rainha,
Que ele não fosse tão pesado, e quando ele lhe beijasse a face,
Ela não se sentisse tão sozinha,

Ela era sua majestade, ele era o seu rei,
E os olhos grandes e escuros dele não eram mais tão tristes,
E os olhos grandes e escuros dela, lhe contava uma história,
E os anseios não eram mais impossíveis…o medo se chamava Amor,
O tempo os ensinou, que o medo pode nos surpreender.

“Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos, com incrustações de prata.
Enquanto o rei está assentado à sua mesa, o meu nardo exala o seu perfume.
O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.
Cânticos 1:10-13”