Eppur Si Muove

Outrora, eu tinha voado. Não sei se foi em um sonho, provavelmente sim. Lembro-me que quando eu era criança, eu acreditava que se eu comesse asa de frango, eu poderia voar, e sim, eu era criança e não fui atenta ao fato de que frangos não voam, mas a risada dos adultos diante de meu sonho Ícaro, voavam até o vizinho mais distante. Hoje a única asa que eu me permito ter, são as asas da imaginação, e uma viagem frenética de deja-vu por hora.

Dias atrás fui caminhar. Caminhei durante duas horas, escutando música ou apenas um eco de meus pensamentos. Era necessário sair para espantar alguns fantasmas que andam me atordoando, e esquecer aquilo que me tirou do eixo. A racionalidade me pegou, assim de surpresa. Então coloquei os livros de um presente esquecido propositalmente de ser entregue na minha estante. Vejo lá o meu amigo Fernando Pessoa, com uma fita de cetim separando o poema eu marquei como o meu preferido. Foi a primeira vez e assim espero que seja a última, que eu nunca entreguei um presente ao qual gostaria de entregar. Porra, é tão chato isso! Eu poderia entregar-lhe em casa, mas nunca entreguei um presente à alguém sem olhar nos olhos. Na Europa, não sem brinda sem olhar nos olhos. Eu não entrego presentes sem olhar nos olhos. Eu não ligo pra teu desconforto, eu sou mais simples do que imagina. Se isso não é possível, engulo meu orgulho, certas coisas eu carrego junto ao meu egoísmo. E a leitura, ou releitura dos livros que eu não lhe dei, terá um gosto, assim, triste. Não gosto de guardar mágoas, mágoa tem gosto de fel. A mágoa é amarga, é dura de engolir, não tem tempero, sem nada. Mastiga, mastiga e mastiga. As mandíbulas doem, e você não quer engolir, mas seria horrível cuspir aquele pedaço de Amor intragável, não diluído tentamos em vão, talvez, aceitar nossa condição, nossos erros, nosso amor e desamor. Engolimos, em seco, ou com um pouco de água. A garganta dói, é nosso orgulho passando. Entra no estômago, dá uma indigestão, mas aceitamos. Simplesmente, aceitamos. A razão, quando chega, destruindo nossas emoções cheias de lembranças, embriaguez, flores, cidade distante no horizonte, sonhos de homens que atordoados, caem na cama ou sarjeta, esperando por dias melhores. A verdade dói, mentiras são muito mais confortáveis, e a verdade volta com a necessidade de esquecermos algo que em nossos sonhos de Dom Quixote achamos que eram recíprocos. Dom Quixote amava Dulcinéia, e achava que os moinhos de vento eram dragões. Minha consciência é o Sancho Pança. Ela sempre, como um fidalgo montado num burrico, tentou me avisar, mas eu era como (ou ainda sou?) como Dom Quixote. Ora Sancho como tu és besta! Assim como Dom Quixote, tenho o mal da fome em excesso, o Amor às causas perdidas, as dores do mundo não me bastam em meus ombros, sinto todo o Amor do mundo, e mesmo sendo besta e atordoada, me contento com a tua falta de atenção. Sim, um Amor besta às causas perdidas, ou talvez desconhecidas. Há um frio no estômago a quem me dirijo as palavras, e o frio emudece, como uma pradaria no inverno. Escuta-se apenas o eco do vento e o uivar dos lobos, mas só me sobra, ou nos sobra, um silêncio sepulcral, algumas palavras talvez por pura obrigação ou aquele medo de ser cruel sem querer.

Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga “eu não acredito no amor”, a vida sempre nos surpreende. (Dom Quixote)

Dom Quixote era um besta. Morreu louco. Ele nunca desistiu. O velho de Hemingway também nunca desistiu, foi inclusive dormir em sua velha cama forrada com jornais, e sonhou, com as praias de areia branca. Na minha praia não existem leões, nem pegadas. Estou sempre em alto mar, mas eu não espero nada. Nada mais. Minha garganta dói até agora. Tenho os marcadores de cetim dos livros sorrindo pra mim. Talvez apenas eu ache marcadores de cetim algo bonito. Talvez apenas eu ache que o poema do Girassol do Alberto Caeiro traduza a alma de alguém.

O meu olhar é nitido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando pra direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo… (Alberto Caeiro)

Eu fui uma trouxa ao reler “O retrato de Dorian Gray” enquanto esperava no aeroporto apenas para marcar teu trecho favorito e entregar-lhe. Sempre achei bonita a comodidade de abrir uma página marcada por fita de cetim e ver ali, um trecho que marcou-lhe a vida. Escutar teu trecho em um tablet é algo moderno, mas você consegue sentir a aspereza e a beleza da sabedoria impressa em palavras? Amo o toque. Gosto de passar os dedos numa folha de papel. Gosto de livros antigos, eles tinham a nobreza do cetim.O Amor possui a beleza sensual e suave do cetim, mas é ao mesmo tempo, áspero como as páginas de um livro velho. E um velho Amor áspero, fica guardado lá na estante. Ficamos olhando a capa já tão surrada, as páginas desejosas das traças. Se eu pegá-lo de volta uma rinite viciante recomeça. Tento curar minha indisposição com um xarope chamado Razão. Mas Amor é como uma droga. Basta sorrir, e o vício volta. Pego os teus livros não entregues, coloco-os numa caixa, e volto a forrá-la com papel de seda azul, prender o laço que eu comprei pronto, pois não sei fazer laços. Odeio amarrar sapatos, mas faço, por pura força da necessidade.  E eu fico, com minhas emoções desvairadas e simples aos olhos dos poucos que me compreendem. Fico aqui, em meu silêncio, uma pagã triste com flores no regaço. A velha garrafa com rosas ainda pousa na minha cabeceira, ao lado de Cervantes e Ernest Hemingway. Teus livros que eu não entreguei sorriam, e na metáfora eles olham pra mim com aquele olhar que você nunca teve, aquele que você nunca se esforçou ou por desacostume e desconforto, nunca ousou em mostrar. Minha rinite está atacada. Meu xarope de Razão acabou. Eppur Si Muove…

Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

O bom menino.

Você mostrou-me teus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro… Daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…

Éramos jovens, você se lembra? Corríamos pelas ruas do subúrbio buscando sonhos desacordados, com canções em tons desafinados, cores ajustadas, como a mistura de Renoir num quadro pintado em Paris. Posso estar escrevendo coisas das linhas pra fora. Entenda querido, já são além da uma da manhã, e eu ando tendo madrugadas insones. Há um silêncio lá fora que me convida para contemplar os gatos por cima do muro. Eles andam numa graça inocente por entre as grades, e quando me veem com os cabelos ao vento, no meio dessa madrugada de outono indeciso, eles me encaram com os olhos brilhantes. Há um gato, negro como a noite, eu só vejo os olhos amarelos, me encarando como se soubesse dos meus sonhos de ir e vir, das minhas noites tecendo a saudade em meu tricô imaginário de vinho Merlot. Hoje bebo no gargalo, desde que te conheci ignorei a etiqueta de tomar vinho como gente educada. Eu não sou mais educada, sou tresloucada.

Se eu fumasse, acenderia um cigarro, talvez um mentolado, ou aqueles doces, de cereja. Ficaria soltando anéis de fumaça no ar, quem sabe eu fizesse um grande o bastante? Tem uma coruja aqui perto do terreno baldio, ela mora num buraco. Em meus sonhos, ela poderia passar voando nos meus anéis de fumaça mentolados. Ela passaria por dentro deles e daria um rasante no chão. Talvez, pegasse minhas emoções que jazem no chão, e levaria para bem longe, talvez para um inferno Dantesco, ou para o paraíso dos sonhos de Beatriz. Lá existe um pouco de Amor. Eu escuto Chico Buarque e sinto Amor, e eu queria que quando eu passasse você me estendesse a mão, ou o chapéu, mas tu não usas chapéu. Um dia queria que me mostrasse o sol, aquele que lhe faz sorrir, assim, mais de duas vezes ao dia. Percebe? Eu te mostraria toda a beleza de um dia chuvoso, talvez encontrássemos alguma coruja tomando banho, enquanto as pessoas passam aturdidas com seus guarda-chuvas, com raiva, passos largos. Eu contaria os segundos, contigo, e depois me apoiaria em teu ombro quando o trovão bradasse a fúria dos Deuses lá naquele horizonte de campo aberto.

Quando eu era criança, eu gostava de andar de bicicleta embaixo da chuva. Eu passava na poça de lama, e conforme ia pedalando, a roda de trás respingava lama nas costas da minha camiseta velha de guerra. Meu pai sempre falou que eu poderia tomar um raio na cabeça, mas a única coisa que eu tomei, foram gotas de chuva que me escorriam nos lábios. Eu era uma criança levada. E você ficou com minhas fotografias… Tem uma delas que eu estou feliz e banguela num balanço. Tem outras que estou acampando em Brotas, e eu praticava trilha na serra com minha mãe e aquele que um dia eu chamei de pai. É uma longa história, queria te contar um dia, sobre minhas aventuras, dos dias que eu subia no telhado escondida. A vida era incrível vista de cima, e pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não dão valor para quase nada, não tinham um olhar apurado, nunca ninguém me viu lá em cima, ninguém, só pardais e pombas que balançavam nos fios do poste… Ahhh, e o cachorro da vizinha, que eu tinha que passar de fininho, porque ele ficava nervosinho e se colocava a latir ininterruptamente. Tinha medo de ele chamar a atenção da minha vizinha balofa que não dormia porque o marido roncava. Ela poderia acabar com a minha brincadeira infantil de ser uma stalker das alturas. Um dia, atirei uma pedra no cachorro dela. Você vai me dizer:

“Malvada”…

Mas um dia, você me contou que jogou o gato da janela. Tu eras uma criança, tão malévola quanto eu, ou não… Apenas queria ver se o gato cairia de pé… Lembra? Quando você me contou isso, eu lhe disse pra você amarrar um pão com manteiga nas costas do gato, assim ele cairia de costas… Mas você cresceu meu bom menino… E nas ruas desse subúrbio, enquanto você dorme, com seus sonhos que talvez nem se lembre quando acordar, eu lembro da sua travessura de menino, como cenas de um frame despedaçado. Eu posso ver duas crianças correndo pelo subúrbio… Mas isso é apenas um devaneio, perdido entre meus anéis imaginários de fumaça. Na primeira tragada eu vou achar que vou morrer. Tentei tragar uma vez, quase morri, mas você tentou me ensinar. Eu acho que ainda não aprendi, ou tenha me esquecido. Fico apenas na vontade de menta, cereja ou pinho…

Eu poderia te reconstruir, como um vitral, daquelas igrejas europeias, mas não seriam imagens santificadas, já lhe disse um dia, eu fujo de tudo que é convencional, e faço isso sem querer, sou tresloucada… Quando criança chutava os formigueiros e passava o tempo observando o caos. Eu me perguntava se as formigas gritavam, como as pessoas na televisão quando aconteciam aqueles terremotos lá no Japão. Hoje só escuto meu próprio grito. O resto eu ignoro. Além de louca, sou egoísta. Mas eu te amo, mesmo tendo atirado o gato da janela. Você chega até mim nessa noite, com seus sonhos e travessuras de bom menino.

Epifania de uma personagem sem nome.

“Bem, tem sido um longo tempo
Desde que vi seu sorriso

Eu apostei meu medo
Até as luzes da manhã brilharem
Manhã de domingo
Somente névoa sob os limbos
Eu chamei novamente
O que você sabe?
E eu preenchi nossos dias
Com cartas e gin…”

 

Na noite de um sábado, enquanto deitada na cama confortavelmente vestindo calcinha e sutiã, nossa personagem sem nome estava esparramada na cama de sua humilde residência de mulher independente que mora sozinha. Muitos livros na estante, lápis coloridos comprados em um impulso de querer desenhar e pintar. Fã de vinhos e nostalgia, ela guarda uma garrafa de vinho chileno com duas rosas, enfeitando a estante. Estava lendo um livro e pensando em coisas da vida, no universo e tudo mais. Num momento, dá um pulo na cama, um insight, uma lembrança que a sempre consta em mente, mas ali, naquela noite de 27 de abril de 2013, ela se recordou, por vezes com um sorriso iluminado e com lágrimas de saudade, e ela sussurra, “Como sou brega”, ela que tanto pregou contra as pieguices do ser apaixonado, caiu numa “armadilha” que deste então povoa seus sonhos e caminhadas pelo bairro onde flores nascem em pleno asfalto.

Era sábado, estava um dia quente, mas não muito exagerado, como os dias fatídicos de verão. A “personagem sem nome” estava nervosa, após tentar quase sem sucesso arrumar o lugar que paga aluguel e chama de seu.

Olhava para o guarda-roupa, sem saber direito o que vestir. Fazia tempo que não tinha um encontro, ela estava desacostumada e achava que estava sonhando, chegou por vezes a se perguntar se aquilo realmente estava acontecendo. Pra quem veio de um relacionamento de três anos e meio com alguém que foi seu segundo namoro, e depois de um período brincando de eremita, enchendo em cara com colegas de trabalho e lendo o dia inteiro ou passeando em parques apenas para comer churros e pensar na vida, enquanto patos atravessam para cair na lagoa. Tinha na cabeça que seguiria a vida como uma mulher assexuada cheia de cachorros cagando alucinadamente no quintal. Dava risada sozinha, enquanto tentava espairar a cabeça folheando livros lidos e relidos.

Olhou para o cabide e viu um vestido de malha roxo, com detalhes em verde musgo na cintura e na amarração que contornava o pescoço. Mas ele era sem manga, e ela estava com as marcas na pele de uma doença filha da puta que acabava com sua vaidade. Era ali mais um motivo para sua insegurança, estampada com um suor frio e respiração ofegante. Queria estar bonita, tirou o vestido do cabide, e apesar de estar passado, ligou o ferro mesmo assim. Escolheu um casaquinho preto de crochê, e um sapato verde, no mesmo tom dos detalhes do vestido. Olhou no relógio, tinha marcado com ele às sete horas, em frente ao terminal de ônibus do bairro em que morava. Eram cinco e meia.  Acendeu um incenso e algumas velas no banheiro. Escolheu o que tinha de melhor, aprendam, mulher se prepara para vocês, mesmo que ela ache ou tenha a insegurança de que pode estragar tudo. Trinta minutos embaixo do chuveiro, talvez a água morna e o cheiro do óleo de pimenta rosa fizesse sua ansiedade diminuir. Depois de todo ritual, finalmente vestida, não do jeito que queria. Se estivesse sem aquelas manchas terríveis teria com um vestido na altura do joelho e com os braços de fora. Olhou no espelho, e perguntava-se se estava bonita. “Foda-se, pensou ela”… Passou três borrifos do seu mais caro e melhor perfume, pegou o livro que comprou no dia anterior num saldão da FNAC no meio de títulos de autoajuda pedantes e livros para mulherzinhas mal resolvidas e foi para o ponto de ônibus. Visivelmente nervosa, colocou o IPOD no modo shuffle, é um ritual que sempre dava certo. Chegou ao ponto de ônibus, não se atrasou apesar dela ser meio esbaforida e odiar horários, chegou meia hora mais cedo, vai que ele tivesse a tal da pontualidade britânica, olhasse no relógio e dissesse que ela estava 1 minuto e 45 segundos atrasada?

Na frente do terminal, tem um hortifruti cujo dono é um simpático senhorzinho japonês, e ao lado, também de frente para o terminal, há uma banca de pastel. Não pensou duas vezes… Suco de laranja da pastelaria a faria acalmar os nervos. Tomou dois copos, enquanto estava lendo. Resolveu olhar o celular e viu que tinha ligações perdidas. Eram dele, já pensou em um milhão de desgraças, mulher é um bicho difícil, entendam… Mas ficou otimista. Saiu da mesa da barraca de pastel e sentou-se em frente do hortifruti. Encontrou a paz necessária no livro que se encantou, mas deu misto de inquietude por ser um livro tão perturbador. O livro falava sobre o delírio das moscas, dilatação de porcos, sobre um homem despedaçado frente ao espelho do banheiro. Por alguns minutos, desligou-se completamente das coisas que a cercavam, até o momento em que sentiu um arrepio e passos leves e logo em seguida o seu nome bradado. Assustou-se um pouco, levantou os olhos do livro e então aquela calma perturbadora saiu de foco e voltou ao nervosismo, mas era um nervosismo causado pelo desconforto perante a beleza que os grandes olhos amendoados e sempre perdidos dela estavam encarando timidamente. De estatura mediana, um pouco mais alto que ela, olhos azuis, cabelos castanhos claros e barba por fazer, de uns dois dias e um sorriso que desde então apostou todos os seus medos.

Deu-lhe um tímido e quase atrapalhado beijo no rosto não barbeado ao qual ela agradeceu ele não ter tido a estupidez de ter tirado. Ela sempre pensa porque todo homem acha que toda mulher gosta de barba feita. E foi ali, o primeiro momento que ela se contorceu toda, numa felicidade nervosa. Estava com o livro nas mãos, aquilo foi bom, pois disfarçava as mãos trêmulas. O suco de laranja não tirou-lhe o nervosismo, o encanto de dois olhos azuis inquietantes trouxe-o de volta.

“O que está lendo?”

Depois de ter ficado tanto tempo escondida, aquela pergunta a fez pensar que ali ao seu lado, caminhando devagar não estava um homem que enxergava apenas oito bits de cores, talvez o universo cheio de cores e nuances dela seja pela primeira vez compreendidos, não em sua totalidade, ela não acredita nisso, uma das graças da vida, é a inquietude perante a não compreensão. E ela já percebeu pelo seu rosto de britânico, mas, com descendência italiana de que ali ao seu lado, estava um fractal cheio de equações complexas, e achou isso encantador. Ele não tinha denominador comum. Era único, e ela começou a sair da toca, já estava com o pé direito pra fora da sua caverna de proteção.

Estava ventando e o cabelo da “personagem sem nome” estava um ninho de mafagafos, e ele lá, tão bonito com seus olhos claros e cabelos cor de mel. Ela respirava fundo, baixinho, pois não queria que ele percebesse o quanto ela estava nervosa. Ela era uma atriz de quinta categoria, não sabia representar, ela era nua e crua, dentro da sua natureza nenhum pouco convencional. Até uma criança pura e sem malícia perceberia que ela estava tão nervosa quanto um cachorro que apronta e disfarça, mas lá dentro existia uma ponta de arrepio e certo tremor. Se ele perguntasse por que ela estava tremendo, ela lhe diria que era porque tinha hipoglicemia, mas não seria verdade. Ela não sabia mentir, tudo ali a denunciava.

Entrou no carro, ela disse a ele que o cabelo dela estava um fuá, e ele então passou a mão nos cabelos negros dela. Ali, naquele momento, veio-lhe o segundo arrepio, e não foi o vento, não foi frio, um pouco de nervoso e um pouco de tesão que depois ela reprimiu e desviou para qualquer outra coisa para não pensar em coisas, digamos, mundanas. Ela era muito sexual, não no sentido de ver malícia em tudo, de ver um perfume cilíndrico numa loja e pensar em sexo, tal como Freud explica sobre símbolos fálicos, coisas simples, ela não precisava ver um outdoor com um homem lindo de cueca para sentir desejo, coisas simples e banais a movem, e a mão dele no cabelo naquele momento inicial a fez querer agarrá-lo, mas ela era uma mulher contida. Despistou os pensamentos pecaminosos falando da escova progressiva da irmã e da mãe, e que foi a única da família a gostar de sua herança de cabelos ondulados, indecisos, levemente cacheados. O pensamento dele puxando-lhe os cabelos e beijando-lhe o pescoço foi ocupado pela lembrança de o quão bonito eram os cachos da irmã dela. Obviamente ela preferia o pensamento voluptuoso a pensar nos cachos da irmã, mas ela fez isso para não ficar arrepiada e com as bochechas vermelhas. Ainda bem que os olhos dela são castanhos bem escuros, a pupila dilatada seria muito difícil de ser percebida, a não ser que ele fosse o Chuck Norris ou tivesse o poder de ler mentes. Se ele visse auras, naquele instante ela estava num vermelho rubro de puro desejo. Reza a lenda que homens pensam na sogra para não gozarem rápido demais, ela em gatos mortos, erros de português e na família…

Durante o tempo que se passou, no caminho até a livraria, foram se conhecendo, ela perdera parte da vergonha, e não estava mais insegura, aos poucos perdeu a tensão, mas não o tesão. Na livraria ele lhe sugeriu um livro, dizia ele que ela era parecida com o personagem principal, um velho pescador que nunca perdia a fé, mesmo perante do fracasso de ter o marlim devorado por tubarões. Ela também sugeriu um livro a ele. Viu naquele homem um menino sonhador que guardava a beira de um abismo. Se algum menino se aproximasse, ele agarraria. Ficaria ali, o tempo todo, cuidando para que criancinhas indefesas nunca caíssem no abismo. Ele tem a alma de Holden Caulfield, se pudesse, ele se fingiria de surdo mudo, pois seus olhos são desacostumados, segundo ele o mundo é cheio de “pessoas cinzas e valores rasos” e o silêncio, tem o ajudado a tolerar:

“… Mas não me importava que tipo de emprego ia ser, desde que eu não conhecesse ninguém e ninguém me conhecesse… Ai bolei o que é que eu devia fazer: ia fingir ser surdo-mudo. Desse modo não precisava ter nenhuma conversa imbecil e inútil com ninguém… Com o dinheiro que fosse ganhando, construiria uma cabaninha pra mim em algum lugar e viveria lá o resto da vida. Ia fazer a cabana bem pertinho de uma floresta, mas não dentro da mata porque ia fazer questão de ter a casa ensolarada pra burro o tempo todo. Cozinharia minha própria comida e mais tarde, se quisesse casar ou coisa parecida, ia encontrar uma garota bonita, também surdo-muda, e nos casaríamos. Ela viria viver comigo na cabana… Se tivéssemos filhos, iam ficar escondidos em algum canto. Podíamos comprar uma porção de livros para eles e nós mesmos íamos ensiná-los a ler e escrever.”

 

Ele comprou o livro e ela reservou o que ele sugeriu, pois não tinha na loja e chegaria dentro de cinco dias. Foram para a cafeteria da livraria. Ele pediu um café simples, e ela exagerada, um café duplo com chantilly. Os olhos dele eram desconcertantes, a ponto dela baixar os olhos em direção à mesa, pois diante de tal beleza ela poderia talvez perder o juízo. Naquele ponto ela estava definitivamente fora da toca. Ele a tirava do sério. Respirava fundo, sentiu a cafeína estimulando as “endorfinas naturais” e ela precisava perder o foco da beleza dos olhos dele para que ela não se contorcesse por dentro. Os olhos dele falavam, e a prova disso era o biscoito que acompanhava o café que ele não comeu. Ela foi cara de pau o suficiente para pedir. Ela teve um insight de Clementine Kruczynski, de “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, na cena em que Clementine e Joel Barish estão na praia e ela pega a coxinha de frango do prato dele. Joel pensa que ela chegou assim, sem pedir permissão. A “personagem sem nome” pelo menos pediu, poderia ser mais invasora no mundo encantador dele, cheio de perguntas, umas com respostas, outras perguntas sem respostas, que podem ser completas ou incompletas, e cheias de viagens na maionese. Talvez, tal como Holden Caulfield, ele pode pensar para onde vão os patos no inverno. E ela amava essa essência indagadora dele, essência que a assustava, pois estava ali, sentado ao seu lado, um homem que sempre achou que só existia no mundo dos livros. Estava ali um homem que assim como ela, tenta salvar as crianças de cair no abismo, um homem que falava com os olhos, que a fazia rir e tal como ela, assistia “A Praça é nossa” com o avô. Ela assistia com a avó. Ela poderia ouvir e compartilhar piada ruim de gosto duvidoso o dia inteiro, sentada com ele no gramado da praça da universidade. Eles poderiam rir, como duas crianças, sem medo de ser feliz. Quando ela conta piadas, todo mundo olhava pra ela com cara de merda, mas ele ria, e ela se encantava com as covas que se abriam no rosto de barba acastanhada por fazer.

Eles saíram da cafeteria e decidiram ir para um bar num bairro charmoso e boêmio. Ele pediu uma cerveja e porções de bolinhos. Ele perguntou se ele acendesse um cigarro a incomodaria. Cigarro era o de menos. Ela vinha de uma família e noventa por cento de seus amigos eram fumantes. Ele pediu um energético, dizia ele que precisava acompanhar o pique de mulher que sofria de insônia. Ela contou-lhe sobre a doença que tanto aniquilava sua autoestima, e que se sentia incomodada com as manchinhas marrons que estavam espalhadas pelo corpo. Ele disse que não havia que se preocupar, ele também sofria do mal da doença de pele, pois tinha a pele muito clara. Contou algumas coisas que aconteceram com ele, levando as mãos dela ao rosto dele, para sentir um pequeno cisto imperceptível. A partir do dia em que o conheceu, ela deixou de lado as camisas de manga comprida, e saiu de vestido na altura do joelho e braços de fora. Ele a fez sentir-se plena novamente, ela recuperou toda a beleza que achava que havia sido raptada por uma doença. Contou a ele que nunca havia ganhado flores, ele riu, disse que era inconcebível, uma mulher não ganhar flores. Continuaram a conversa e alguns minutos mais tarde uma florista estava caminhando por entre as mesas dispersas na calçada. Sempre havia a primeira vez pra tudo, é o que dizem por aí. Ele chamou a florista, e pediu para que nossa “personagem sem nome” escolhesse duas flores. Ela se emocionou, como toda mulher, e por mais que um ramalhete de rosas morresse, ela ainda conserva as duas rosas dentro da garrafa de vinho que compraram para tomar embaixo de uma noite enluarada, com estrelas por vezes encobertas por nuvens tímidas, em cima de uma enorme pedra, longe da cidade, que poderia ser vista com suas luzes amarelas, no horizonte. Antes de irem para aquele local deserto, tomado pelo cheiro de imensas árvores de eucaliptos, ele estava preocupado se ela passaria frio, pois era um lugar aberto e logo, o vento seria intenso. Ela disse que já estava protegida, depois de dois anos morando no sul do país. E partiram, e ali naquele local, a cena hilária da tentativa bem sucedida e até aquele momento desconhecida pra ela, de abrir a garrafa de vinho usando tênis. Hoje, as flores a encaram da estante, dentro da garrafa de vinho chileno cujo conteúdo foi consumido no meio de um vento que o fez tremer de frio. Ela, acostumada com os ventos minuanos do sul, sentia-se plena e contente, e ao vê-lo tremendo de frio, não poderia deixar desamparada uma pessoa que lhe deu flores.  Fez uma massagem terna nos braços dele, explicou um pouco sobre o que aprendeu sobre chakras e centros de energia. Ela, enquanto esquentava os braços dele, sentiu os tendões aparentes, as veias pulsantes, os pelos dos braços dele, eriçados. O frio também a invadiu, mas não era um frio de sensação térmica, era um calafrio causado por endorfinas… Entende?Endorfinas naturais…

E então, ali naquele momento, ele fazia um carinho leve, gostoso, e o perfume dele estava mais forte do que outrora. Ela lhe disse sobre á inquietude dela diante de cheiros. Enquanto ele estava explorando aquele lugar em que eles ficaram, ela estava andando naquela estrada, com os sapatos de salto 15, tropeçando nas pedras. Pegou uma folha de eucalipto e cheirou-a, enquanto o observava, oras pensando na beleza da vida, na beleza daquele lugar que até então ela desconhecia, aquele pedaço de paz, vento e árvores balançando. E ao mesmo tempo em que ela sentia o perfume daquela folha de eucalipto, ela lembrou-se de quando se aproximou para ver a programação dos bares no celular, e então ela sentiu o cheiro dele. Ela tinha problemas com cheiros. Na hora, ela pensou: “Fudeu”, e depois veio um “Se controle…”. Ele disse que leu “A casa dos budas ditosos”, ela se contorceu de novo, era seu livro erótico favorito. “Droga… se controle, se controle, foca…controle, relaxa, você é boba”, pensava ela, enquanto tentava sem sucesso dissipar-se da vontade de agarrá-lo. Ela ria, mas por dentro se contorcia, e as pernas tremiam, e ela fingia que estavam apenas conversando sobre o universo, a vida e tudo mais, e que nada daquilo a excitaria, e ela não transaria na primeira noite, coisa que nunca fez. Sempre teve uma opinião de que a mulher deve deixar o homem curioso, com o desejo que nos próximos dias que estão por vir, uma fresta por vez do vestido será desnuda, mas não tudo de uma vez. E naquela madrugada de domingo, dia 28 de janeiro, ela quebrou as barreiras das convicções dela, e ela nunca se arrependeu. Deixou-se levar pelo desejo, pela chama, pelo lugar, pelo ser cativante e inspirador que ele emanava com paz e tranquilidade. Ela já estava cativada, enquanto ele a acariciava, ela tentava manter a eloquência de raciocínio, até que ele percebeu que ela estava perdendo o rumo dos pensamentos, que às vezes ela parava e suspirava forte, foi aí que ela se entregou e aceitou a ideia de que ela não conseguiria resistir. Ela relutava, enquanto deitada ali, e no primeiro beijo que ele deu nos seios dela, especificamente no seio direito, o tesão que latejava no meio das coxas a denunciou, e então ela perdeu o rumo. O hálito de vinho merlot dos lábios dele e o frio do vinho que ele derramou nos seios dela, os beijos nas costas nuas, no caminho da espinha, fizeram-lhe sair completamente da toca, e o barulho do sexo ao ar livre era uma melodia que em nada perdia para uma orquestra sinfônica. Ela não sabe dizer se algum carro passou ali e algum stalker viu aquela cena toda. Ela estava excitada demais com a respiração ofegante e forte no pescoço dela, que nem ao menos o vento intenso daquele local, que fazia as árvores balançarem de um lado para o outro, mas ela sentia… E sentia intensamente. Era apenas ele e ela, ali naquele momento, em chamas, embaixo daquele luar enlouquecedor e a garrafa da bebida que tanto influenciou os poetas desse nosso mundinho ordinário, porém maravilhoso.

E a licença poética daquele lugar, escreveu na memória dela um conto erótico, e ela não poderia, sentada numa mesa, ao som apenas das hélices do ventilador, deixar passar as impressões daquele dia que ocorreu há exatamente três meses atrás. Ela queria que esse conto fosse um presente entre ela e ele. Um presente sincero, talvez assustador, uma epifania pintada em cores de Almodóvar, mal escrita, mas com a sinceridade de um Woody Allen…

"Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo."
“Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo.”

Sunshine.

Na madrugada, deixo a poesia de John Denver. Sim, eu gosto de música de “véio”. Essa música me traz boas lembranças…Girassóis adoram o sol…Ficam cabisbaixos com a chuva, se encolhem, olhando tristes para chão, mas quando o sol aparece, o dia dele nasce duas vezes…

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Se eu tivesse um dia que pudesse dar a você
Eu lhe daria agora mesmo um dia igual hoje
Se eu tivesse uma canção que pudesse cantar pra você
Eu cantaria uma canção que ajude você seguir melhor seu caminho

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo

Luz do sol em meus ombros – me faz feliz
Luz do sol em meus olhos – pode me fazer chorar
Luz do sol na água – veja como é bonito
Luz do sol a ponto de – me fazer sempre contente

Luz do sol durante o tempo todo me deixa contente
Luz do sol, sempre…

Girassóis...
Girassóis…

Majestade.

MAJESTADE

Deite-se deleito
Sussurros suspeitos.
Gritos na madrugada
Teu corpo por cima
Uma tonelada de terra
Cadáver sou eu?
Cubra-me com teu ímpeto
Rasteja como um verme
Pele deslizante, pelos a fazer
Teu suor, minha umidade
Deita aqui em meu peito
Aureolas despudoradas
Face rosácea, amor rubro
Vinho seco derramado
Costas nuas etílicas
Teus lábios manchados
Doce trilha desalmada
Meu sexo descoberto
Madrugada fria
Imortal doce amante
Relembro-te em linhas
Imoralidade sem-vergonha
Poema escarrado
Sem remédio para dor
Canto a saudade em verso
Passo desritmado
Pisa em meus pés
Derreto teu desejo
Engulo tuas emoções
Olhos desacostumados
Candelabros não morrem
Nos sonhos dos homens
Uma única vela acesa
Chama de desejo
E nunca acaba…
Nunca acaba
Saudade Manchada
Duas rosas na garrafa
Hemingway na estante
Teu cheiro pelos cantos
Olhos de dilúvio
Chove lá fora
Girassol cabisbaixo
Felicidade úmida
Amor na chuva
Silêncio…
Somente raios e trovões
Quatro paredes de um quarto
Ajoelho eis sua súdita
Minha Majestade.

ANA IDRIS.

Memórias da madrugada: Essa porra de texto não tem título.

Estou andando pela cidade, procurando uma nova razão para estar nesse mundo, pensando nos meus últimos passos, o quanto fazer giro, nas aulas de flamenco é tão difícil, procurando emoções inexistentes, um grito aonde eu posso dizer que tudo o que eu sinto é verdadeiro. E não me perguntem o porquê disso. Quando se ama, não temos que procurar explicações, não tem que explicar aos outros porque nos sentimos dessa forma. E quando me perguntam o porquê eu amo, eu sempre digo para não tentar entender. Eu digo que mulher é uma espécie complicada. Nós somos complicados, homens e mulheres. E isso não é uma desculpa, porque se eu tivesse uma explicação, também teria um motivo para esquecer. Eu não tenho nenhum dos dois, então, eu não perco meu tempo criando desculpas, razões e o caramba a quatro. Quando resolvemos uma equação, ela tem seu resultado exato, a não ser que o lápis escorregue milagrosamente e trace um sinal negativo na frente ou transforme o número 1 em 7. Todo mundo me pergunta o que é necessário fazer para se esquecer de alguém. E então eu digo, “eu não sei”. E eu ainda digo que não quero esquecer, porque aquilo que nós perdermos pode não ter volta, e aquilo em que acreditamos, há sempre algo de belo. E então eu me pego pensando, se realmente vale a pena abrirmos mãos de nossas crenças e conceitos porque as pessoas disseram que aquilo não é real. Somente nossos sentimentos nos dizem o que é bom para nós. Se existe a tormenta no que sentimos, se existem lágrimas em nossos olhos, se quando nos vemos traçando rumo seguindo os pontilhados da incerteza, eu não costumo dizer… Eu não costumo pensar nisso. Minha mãe um dia me disse que temos várias pedras nas mãos. Nós atiramos aquelas que não nos interessam, ou que nunca nos fizeram nada de bom. Mas sempre há aquela que não sabemos ao certo porque a carregamos conosco. Ela é pesada, mas há algo ali que a torna irresistível. Eu gosto de pedras. Eu costumava colecioná-las. Quando eu era criança, passava horas procurando pedras com cores bonitas. E eu ficava em uma cachoeira, chafurdando o fundo, no meio das águas gélidas, procurando pedras. E quando eu encontrava a perfeição, eu guardava, e quando chegava a noite, eu deixava perto do peito, porque disseram que aquela pedra tão perfeita, foi retirada da natureza, ela era algo puro, estava energizada. E então eu deveria cuidar bem dela, por mais pesada que seja aquilo, era real. E eu amava… Eu amava aquela pedra.

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Atlantic City.

Everything dies, baby, that’s a fact
But maybe everything that dies someday comes back…

Esta noite vejo-me sorrindo, com os olhos brilhantes, tal como um diamante louco negro e todo lapidado. Eu vou colocar a mais bela música, tomar um banho longo, e a água morna irá envolver-me como um abraço, um abraço que eu sinto tanta falta. Olho para o alto, fecho meus olhos, tranco minha respiração enquanto a água escorre pelo meu rosto, e na ponta dos pés, como uma bailarina, eu ergo as mãos, me espreguiçando longamente soltando um suspiro.

Saio do banho, vejo meu sorriso no espelho, rosto molhado e sereno. A vida é muito curta para termos preocupações, por isso eu ando nua pelo quarto, onde as velas são acesas e eu encontro minha felicidade em jogos de luz e sombra.

A infusão de maças e canela me chama. Eu tombo a chaleira e me divirto com as nuvens do calor brincando no ar. Mas as canelas em casca com maçãs inteiras… Não é esse aroma estimulante que eu mais queria agora…

Ouço os carros passarem em alta velocidade lá fora, mas o Tempo passa devagar, talvez ele saiba que é minha hora de amar, enquanto eu bebo um chá, eu penso em você bebendo goles de café, são meus turbilhões de pensamentos, pensando em um toque que não é meu, mãos que não são minhas.

Borrifo em locais estratégicos meu melhor perfume, aquele que eu guardei especialmente para quando for beijar meu pescoço, aquele que me traduz como mulher e lhe dará boas memórias olfativas. Estou cantando um murmúrio, aquela música que está tocando em minha mente, e que tanto faz-me lembrar de teus olhos, pena que o dia não está chuvoso lá fora.

Escolho o meu melhor vestido, soltando meus cabelos. Lembro-me de teu afago doce e suave em meus cabelos ondulados, naquele dia de ventania, e desde então, em dias de vento de outono, cada afago do vento eu acho que é o teu,  queria eu afagar teus cabelos novamente, bagunça-los e deixá-lo zangado, depois ver-te rir perante minha alma de criança levada.

Eu vejo Vênus lá no horizonte, vejo o brilho vermelho de marte, queria ensinar-lhe sobre as constelações, você não sabia o que eram plêiades, mas sabia o que era um conglomerado de estrelas. Eu o completei neste quesito.

A brisa noturna bate no meu rosto, e eu deito em minha cama, fixando o horizonte com olhos perdidos. Eu olho para todos os cantos, vejo minha coleção de canetas, meus livros na estante, minhas garrafas de vinho vazias, mas com as rosas que você me deu. Tenho em mãos agora um enfadonho caderno de prosas, e fora isso não há mais ninguém, a única que me acompanha agora é a saudade e a espera.

Toque a campainha, a porta sempre estará aberta. Entre e fique, veja como eu estou agora, todos os dias eu me pergunto se o Amor não passa de um joguinho besta entre lençóis, mas eu espero que você chegue com teus olhos azuis de dilúvio e bagunce meus cabelos, que rasgue meu vestido caro de boutique do Jardim Cambuí.

Enquanto isso não acontece, eu sigo cantarolando “Something” dos Beatles. Quando eu coloco minhas mãos juntas, quando eu abraço o travesseiro, ou quando eu olho o horizonte e vejo as luzes amarelas da cidade, ao longe, é apenas em você que eu penso, e este perfume que eu sinto agora, é o cheiro que eu quero que sinta em minha pele, a estrela lá fora, aquele brilho do passado, não quero admirar sozinha.
Agora eu posso pintar um quadro seu, com meus crayons, porque eu consigo enxergar todas as suas cores, e eu tenho a esperança, de escutar a sua voz me chamando, para irmos para Atlantic City.

Put your makeup on, fix your hair up pretty and meet me tonight in Atlantic City!

Memórias de Café com livros: A mulher no balcão.

No meu dia nublado de abril, eu escritora insone não remunerada, analista de sistemas estressada, porém em férias, estava a escrever na mesa de uma cafeteria de livraria. Naquela mesa, com  papéis espalhados, canetas, água com gás e uma xícara de expresso duplo, pensando na minha meta literária do dia, pensamentos misturados em meio a sonhos e também em Amor, aquele Amor que chamamos de Amor Próprio, junto daquele que envenena os apaixonados. Não sou de ferro, queria ser um ser assexuado e desprovido de sentimentos, eu poderia tal como um ciborgue, emular sentimentos. Sentimento fingido as pessoas dão mais valor, aquele sem sinceridade, sem a típica bofetada, cheia de palavras afáveis a todo momento, o sapo que virou príncipe e outras mitificações. Diante de uma pessoa que vê a realidade das coisas, sem precisar ser moldada, o encanto cai, as coisas ficam difíceis, pois sabe-se, sempre queremos alguém a quem possamos moldar ao nosso jeito, é mais fácil de aceitar, engolir e menos perturbador. No meio de uma sociedade como a nossa, aquele que não questiona, concorda com tudo, vai na moda, é muito é mais fácil de se conviver, pois sendo assim, normal, os problemas ficam mais fáceis de serem contornados. Gostamos de coisas afáveis. Verdade dói, mentiras são mais confortáveis.

Comprei o volume um de contos do Hemingway, e um pocket do Charles Bukowski, “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. Apaixonei-me por estes dois escritores, intensos, nus, crus, estética brutal. Não gosto de escrita mimimi. Gosto da realidade, aprecio ler e sentir bofetadas no rosto e isso não é sadismo, é apreciar ler aqueles que não vivem em um mundo de fantasias.

Na minha frente, estava sentada uma mulher com uma camisa listrada branca e verde-água. Ela carregava duas bolsas grandes, uma preta e uma marrom. Mulher bonita, deveria ter uns trinta e poucos anos. Era loira, cabelo na altura do pescoço, olhos azuis. Pediu chocolate quente no balcão da cafeteria. Já tomei daquele chocolate quente, aliás, creio eu que já tenha tomado todos os drinks que eles servem lá. Como viciada na arte de elaboração de bebidas com cafeína, passar o dia regado a doses de cafés bem elaborados é um certo luxo ao qual me permito. Café, assim como o vinho, expande meus horizontes.

Foi neste mesmo lugar que eu tive meu primeiro contato com Hemingway, através do livro “O Velho e o Mar”. E desde então esse livro e muitos trechos dele moram em minha memória. Perdi as contas de quantas vezes eu já o li, dentro de uma tarde solitária, e em todas as vezes, eu acho mais formidável, impossível não se encantar cada vez vez mais, e ir colhendo, aqui e ali, impressões que nos deixou passar batido. Eu só tenho a agradecer a quem me apresentou tal obra de arte, tem de ter uma sensibilidade grande, para compreender a beleza do que está escrito aí, e isso não encontramos em qualquer um. Pessoas assim são raras, um diamante quase lapidado, digo quase pois não somos perfeitos, muito pelo contrário, muitas vezes temos mais defeitos do que qualidades propriamente ditas, mas nossas qualidades nos deixa ignorar os defeitos, ou simplesmente aceitá-los. Não sei lidar com o silêncio, já disse aqui, mas aos poucos, eu vou aprendendo. Preciso do silêncio para completar o pedaço que falta em mim. Sempre gostei das pessoas silenciosas, vejo um equilíbrio ao qual não tenho, essas pessoas falam com os olhos, precisam de poucas palavras para se expressarem. Muitas vezes eu não consigo fazer isso sem verbalizar no mínimo umas cem palavras. Saudades daqueles olhos silenciosos, mas tão expressivos, que fazem meus olhos, tão grandes, baixarem desajeitados, pois é, acreditem, eu sou tímida diante daquilo que me desconcerta. Em questões de Amor, eu muitas vezes me protejo por trás de meus muros do ego. É aquele medo de se machucar, mas eu sempre acabo pegando uma marreta, e mostrando o que há por trás do muro, mesmo que na sutileza, eu posso não ver mais aquele que me tirou da toca, eu posso fingir que não estou mais nem aí, mas isso é uma maldição aparente, eu me preocupo, não nego, mas tem horas que deixo meu amor próprio falar mais alto, mas aqui dentro, bate um coração já tão estilhaçado, mas que mantem a beleza e a sinceridade de um vitral.

Em tantos anos de leituras, noite a dentro, dia a fora, como que eu nunca li nada do Hemingway? Creio eu que tudo acontece na hora certa, talvez eu não tinha na época maturidade para entender o que estava escrito ali. Existem certos livros que aparecem nos momentos certos, não estou dizendo que Hemingway é leitura para a partir dos 25 anos, iguais aqueles cremes anti-rugas, mas certas leituras dependem de um nível de amadurecimento mental, de novas ideias, conceitos, perda de preconceitos. Talvez, se eu tivesse lido “O Velho e o Mar” com quinze anos, eu não teria a eloquência necessária para entender ao certo o que está escrito ali. Aliás, eu estou desviando o assunto dessa memória, vamos voltar ao tema, para a mulher no balcão.

Como eu havia escrito, linhas acima, ela estava tomando um chocolate quente, e se eu dizer que era uma mulher de olhos tristes? Uma mulher que em seus olhos carregava uma angústia que me sensibilizou a ponto de interromper meu texto sobre a fonte da juventude, e pegar um outro papel para escrever o que agora, vocês estão lendo. Comecei a escrever em uma folha sulfite cor de laranja. “Ana você é uma invasora”, não, eu não sou. Se me olhassem escrevendo, veriam uma mulher com olhos grandes e perdidos, mas que vê tudo ao redor, sem se deixar ser percebida, por isso não sou uma invasora, eu não encaro, eu apenas observo, na calma, na paz. O ato de encarar é chegar sem pedir permissão e criar uma zona de desconforto. Observar não, você vê, mas finge que não percebe, toma seu café, na boa, na paz, olha para outros lados, concentra-se, folheia, rabisca. É o simples ato de sentir-se vivo. Eu sou uma pessoa que desligada, viajo na maionese, penso na morte da bezerra quase que o tempo todo, mas isso não me impede de estar atenta ao meu redor. Nem sempre fui assim é uma questão de prática.  Comecei a escrever memórias há pouco tempo, e não fiz isso com mais frequência para não ser interpretada como um ser invasor e/ou imoral. Gosto de escrever sobre a vida, sobre momentos, assim, como estes, perdidos nas observações da vida transbordando incógnitas numa cafeteria, cuja mesa ocupada por uma mulher de tristes olhos azuis, que de repente tirou um bloco de anotações da bolsa, que mexia o chocolate quente com uma colher bonita, mas o olhar dela, distante, aflito. Posso enganar-me com as minhas observações, minhas convicções podem estar erradas, pois estamos fadados a ter ou sermos vítimas de falsos julgamentos, mas veja bem, eu não cheguei nela e perguntei por que ela tinha os olhos tão tristes, guardei minha opinião pra mim, e agora compartilho com vocês,  que apesar dos olhos tristes, a beleza daquela mulher ao tomar goles curtos daquela bebida quente, não poderia passar por despercebido. Eu não perco os instantes, e quando eu perco, eu jogo uma maldição em mim mesma.  Não perco a beleza de meus breves minutos, se a tristeza ou a beleza me atrai, eu me entrego a ela. A beleza dos olhos nus anda comigo, e por mais que essa minha característica possa jogar contra eu mesma, eu não sou uma pessoa imoral, pois meus instantes não são o meu eco, o tempo todo. Permito-me amar aquilo que me desconcerta, e escrever meus sentimentos perante a sinfonia de vida ao meu redor, se você fez ou faz parte da minha vida, e de alguma forma me encantou, serás imortalizado aqui, em linhas insones, e tais como os olhos azuis daquela mulher, em meio a goles de quem sabe um conforto, eu canto aqui minha composição perante o encanto que teus olhos me trouxeram, e eu sinto em meu peito a saudade me apertando. Escrevo porque sinto saudades…Saudades de teus olhos azuis, aqui, sentada neste mesmo local que eu roubei a bolacha que acompanhava teu café.

“três dias depois partimos, a menina má e eu, de trem, para a sua casinha nos arredores de sète, no alto de uma colina, de onde se via o formoso mar cantado por valery em “o cemitério marinho”. era uma casinha pequena, austera, bonita, bem-ajeitada, com um jardinzinho. durante duas semanas ela passou tão bem, parecia tão contente que, contrariando toda a lógica, pensei que podia se recuperar. uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.
– e por que pensou isso?
– porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. não foi, bom menino?”  Trecho de travessuras de uma menina má, de Vargas Llosa.
 
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Memórias da madrugada: Onde as flores morrem e a ilusão em alto mar.

Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.

Ernest Hemingway

Eu poderia estar dormindo agora sabe?Mas não, é na minha insônia que encontro a paz de espírito, pois faço o balanço das resoluções do meu dia. E o que eu tenho a dizer? No meio de um monte de infinidades que atormentam minha alma, eu confesso aqui em linhas insones que eu poderia ser diferente, do que sou agora, talvez tentar ser normal, mas não, aqui jaz uma alma que tem olhos desacostumados, e sabe por quê? Porque eu tento, nesse mundo tão vazio, cheio de ideais fúteis, que não levam a nada, eu tento, como uma errante, tal como Dom Quixote de saias, montada em meu cavalo, tenta ver um mundo mais cheio de cores, mesmo ele sendo tão monocromático. Eu embaixo de um poço racional, ou escondendo-me por trás de uma muralha de uma mulher forte, dizem por aí “mais macho que muito homem”. Eu ando por aí, com meu guarda-chuva aberto, mesmo em dias de sol, eu já escrevi que estamos constantemente nos protegendo, daquelas coisas que por muitas vezes só são vistas por nossos olhos, ninguém vê, mas está lá, e você sabe que existe, no seu mundo de máscaras, aquela que tanto carregamos no dia a dia, vivemos um dia de sorrisos, uma falsa convicção, um sorriso falso de “Oi querido, tudo bem, comigo está ótimo!”, aquela mesmíssima coisa falsa de sempre. Mas por dentro, nós, humanos tolos e atores de nosso próprio espetáculo de personagens de contos de fada, sabemos que somos todos personagens de Hemingway. Já leram algum conto dele?Experimentem, ali, naquelas palavras estão traçadas a natureza nua e crua do ser humano, sem frescura, personagens com sonhos, mas numa realidade igual a que vivemos, com fracassos, vitórias, amor, desamor, ilusão. Muitas pessoas não gostam desse tipo de leitura, sabe, aquela leitura que te dá chibatadas, aquela que te faz chorar, dá aquela perturbação aquele aperto, o gosto amargo nos lábios, porque sabemos que a verdade não nos é conveniente, sabemos que quando achamos que pescamos um peixe grande em alto mar, podem vir as ilusões, em forma de tubarões, e então você luta, pega os remos da esperança e tenta acabar com cada ilusão que tenta devorar nossa vontade, aquele sonho, fisgado por mãos tão calejadas. Você sonha, você luta, trabalha feito um desgraçado ou uma desgraçada, e quando vê que seus oitenta e quatro dias de espera no mar, estão perdidos, esperamos em vão que algo bom finalmente lhe olhe nos olhos? Não necessariamente, depende dos olhos de cada um. Enquanto isso, navegamos com nossos barcos em alto mar, conversamos com as gaivotas de nossos pensamentos, e são eles, nossos amigos, de todas as horas. No momento que escrevo essa memória, que talvez seja totalmente amaldiçoada ou despercebida, eu estou deitada na minha cama. Eu tentei dormir, isso é fato que venho tentando, sabe?Ter uma noite de sono normal, mas na minha cabeça, eu estou sempre escrevendo, em sonhos, eu escrevo também, e quando não escrevo, eu acordo pensando em escrever, parece tão simples não é? Deixei meus remédios de dormir de lado. Sou teimosa, quando não se pode lutar contra algo, o que fazemos?Entregamos-nos a ela. Existem coisas nessa vida, que tem um propósito. Tal como o Velho de Hemingway, eu mantenho em mim uma Força, e não estou falando da Força tão discutida no universo de George Lucas, eu falo de uma Força frente à realidade. Não acredito em Felicidade eterna, nem em paz na república, conflitos sempre existirão. A vida é feita de momentos, e no meio de tantos momentos, vemos frames de drama, comédia, suspense. Temos sete formas de arte não é?Eu digo que temos oito… A vida integra todas as outras sete, somos atores, pintores, músicos, nós somos toda a maravilha da arte, de forma condensada, conseguem ver isso? Já parou para pensar, para olhar com outros olhos, toda a intensidade e beleza do que está ao teu redor, ou apenas pensou em juntar dinheiro para ter um carro zero? Aí que está… Nós andamos pelas ruas e chutamos as flores que nascem no asfalto. Um dia me escreveram que elas são amaldiçoadas pela falta de atenção. É meus amigos, e você, já deu atenção para as coisas ao teu redor? Já amou alguém, ou Amor é uma palavra tão desconhecida quanto um termo jurídico escabroso qualquer? Muitas pessoas dizem por aí, ahhh eu amo? Você ama o quê?Já parou pra pensar? Ou tem medo de enlouquecer? Sim, evitamos pensar nos dilemas que nos atormentam, fazemos com eles o que fazemos com as flores que nascem no asfalto, ignoramos, ela está lá, vai morrer um dia.

 

Numa manhã, certo dia, eu tirei uma fotografia de uma dessas centenas de flores que nascem por aí. Hoje eu digo centenas, pois eu vi que ela não era única no bairro em que eu moro. Da janela do meu ônibus de todos os dias, eu vi várias, numa imensidão de cores. A flor que eu fotografei, não existe mais, assim como o girassol tão bonito que eu via num jardim todas as manhãs. Mas sei, eu não desisto, eu sei que novas flores nascerão novamente, sei que pássaros brincalhões e com fome, na sua festa, no banquete de seus dias, ao pousar naquele girassol, derrubaram algumas sementes no chão, e ele nascerá lá novamente, tão belo como seu sucessor. Vejo o girassol, como uma metáfora de esperança, de luta. Quando achamos que nossos ideais e sonhos morreram, ou que fomos vencidos pelo Tempo, eis que ressurge uma nova esperança, basta a nós aceitá-la ou não, e por mais que possa vir a ser uma ilusão, quando vistas no horizonte, por outros olhos, ela podem a ser belas, porque não? Ilusões destroem, mas fazem parte dos nossos dias de ir e vir. Quando nos cansamos, vamos deitar, em nossas camas, mesmo elas não sendo feitas de jornais velhos, quando chega a noite, caminhamos em praias de areia branca, cheias de leões, ou qualquer outra coisas que seja agradável, mesmo que fuja de nossa realidade. Mas não nos esqueçamos, de olhar as flores do asfalto. Vamos deixar nossa arrogância de lado, nossa maldição, a falta de atenção. Um dia me disseram que aquela flor não pediu para nascer, mas nasceu, ali, no asfalto, amaldiçoada pela nossa falta de atenção, e não existe nada pior nesse mundo, que o desprezo. Eu sigo minha luta, em alto mar, um pedaço de linha nas mãos, faça sol, chuva, eu sigo, navegando no oceano de minhas convicções, e no meu desconforto, eu sigo com os olhos bem abertos, sou uma mulher forte, que não perde jamais a esperança de dias melhores, me chamem de tola… Os tolos são justamente tolos, por acreditarem sempre que dias melhores virão, mesmo sabendo que os contos de fada existem apenas nos livros. A realidade é bem diferente, a vida nos dá bofetadas no rosto, o príncipe na verdade sempre será sapo, cavalos brancos sempre nascem rebeldes, a beleza não é eterna, dinheiro não traz felicidade, nada é eterno. E a única certeza que temos nessa vida, chama-se Morte, e o Tempo, que tentamos enganar sempre, achando que aqui ele sempre vai existir. Ele é breve, não vamos perdê-lo com coisas mesquinhas, a vida é curta meus amigos, e não se vive sem correr riscos, e a vida é assim, como o oceano, imprevisível… Temos dias calmos, de maré baixa, marolas tímidas, outros amaldiçoados pela falta de sorte e nós não conseguimos prever, nem a sorte, nem a falta dela. Boa noite!

Querida, eu já estive aqui antes Eu vi este quarto, eu andei neste chão Eu vivia sozinho antes de conhecer você E eu vi sua bandeira no arco de mármore E o amor não é uma marcha da vitória É um frio e sofrido Aleluia... Leonard Cohen
Querida, eu já estive aqui antes
Eu vi este quarto, eu andei neste chão
Eu vivia sozinho antes de conhecer você
E eu vi sua bandeira no arco de mármore
E o amor não é uma marcha da vitória
É um frio e sofrido Aleluia…
Leonard Cohen