Janela

Talvez eu seja jovem demais pra impedir que um bom amor dê errado

Chuva. Homens e mulheres apressados lá embaixo com seus guarda-chuvas negros, com os olhares sempre baixos, como se estivessem procurando suas lamentações,juízo e razões perdidas no meio das poças que se formam aos montes nas calçadas esburacadas. Passos apressados, sapatos velhos, novos, pequenos, grandes. Pessoas sem proteção correndo, alguns se protegendo com sacolas plásticas, mas sempre a velha pressa. Algumas, aguardavam a chuva terminar, embaixo de alpendres, cheios de rachaduras, pichações e cheiro de urina. Apenas a nudez do mundo, ao mesmo tempo calada com o silêncio arrebatador das pessoas cinzentas como o tempo e o ensurdecer dos motores de carros e ônibus. Diante da janela do apartamento, durante um gole e outro de café forte, amargo e sem açúcar, aquele mundo morno e requentado. Ao final da tarde, a chuva vai terminar. O sol aparecerá tímido, entre as nuvens cinzentas, e talvez, um sorriso surgirá naquelas pessoas taciturnas lá embaixo. Entre um gole e outro, eu penso naquele tempo em que meu velho amor ficava me encarando, enquanto eu contemplava a fúria e o frescor da noite na janela do quarto. Deitado, com um braço cruzado atrás da cabeça, soltando a fumaça de um maldito cigarro,  como veio ao mundo, um menino em corpo de homem, com seus medos, desejos, delírios, suas aventuras de ir e vir, contadas numa euforia entre um riso e outro. As luzes amareladas dos postes da metrópole invadiam o quarto, quase sem querer, sem pedir permissão. Eu, minha xícara de café, nua de meu pudor, coração aberto a expressões de prazer quando você beijava meus ombros quando passava por mim para alcançar o cinzeiro. E aquela mescla de nicotina com balas de menta, nos meus lábios de café, tomava café adoçado, você reclamava das minhas grandes gotas de adoçante, o tempo passou e comecei a sentir a vida de uma forma mais amarga. E você me dizia que eu parecia estar imersa em outro mundo paralelo, enquanto ficava diante da janela, cheia de convicções, medos, histórias e lembranças úmidas entre as pernas. E eu lhe observava de canto de olho, enquanto deitado, talvez um medo de você incendiar a casa, adormecendo com o cigarro aceso em cima da cama. Ao final, me transformei naquela piranha sem coração que você deixou, sem nem ao menos olhar para trás. Talvez eu pisasse no seu coração com a mesma força do homem correndo apressado lá fora, talvez, eu seja orgulhosa demais para pedir desculpas, talvez eu sinta uma pequena incógnita tirando meu sono, enquanto molho meus sapatos, enquanto sinto cada gota de chuva escorrer entre meus lábios, é aquela maldita cena de você indo embora naquele sábado chuvoso. O café amargo e sem açúcar é apenas minha nova forma de ver o amor. Um dia me disseram para colocar um chocolate Alpino no café, mas eu penso que isso é apenas um disfarce sutil. Ao final, a amargura toma o lugar da doçura e posso sentir a minha úlcera gritando, e aquele amargo estrangulando, apertando a garganta, mas é algo bom, estimulante, forte, porém amargo. Adotei um gato, e ele fica me olhando com os grandes olhos amarelos. Ainda deve ter uma lata de comida na dispensa. Ele se aninha e esfrega-se em minhas pernas, soltando um ruído estranho. Eu coloco uma tigela de comida e entre uma bocada e outra, ele senta e lambe as patinhas, e me olha com aqueles olhos, aqueles olhos que me dizem que a cama está pronta, os lençóis impecáveis, a louça na pia, que tenho de ligar para mamãe e que mais uma vez eu trouxe trabalho para casa. Eu devo abrir a janela e deixar a chuva entrar, eu devo assistir a cena toda, sentada no sofá, sem roupas, apenas com cinco gotas de colônia atrás do pescoço. Eu poderia esperar você entrar pela porta e beijar meus ombros de novo, tal como diz naquela canção, “my kingdom for a kiss upon her shoulder”. Talvez eu me contorça de desespero, talvez eu venda tudo e desapareça mundo afora, contemplando a nudez na metrópole de outro país. Enquanto penso nestes disparates, na nítida e mesquinha falta de sorte, meu café esfria, e em goles de sadismo, minha amargura fria desce pela garganta. O sol começa a aparecer. Talvez um arco-íris surja lá fora… Vou escutar o mesmo disco, várias e várias vezes. Tomarei as cervejas que você deixou na geladeira, fumarei todos os seus cigarros que estão na gaveta, sem nem ao menos saber tragar. Soltarei um sorriso sádico enquanto a nicotina acaba com meus pulmões, e na próxima chuva, sairei lá fora, sem guarda-chuva, tomarei um café duplo e amargo naquela cafeteria que íamos todos os dias, e voltarei para casa, na mesma fúria amarga. E talvez isso nunca acabe, o gato continuará me encarando, tomarei meu café na janela na próxima tempestade e pensarei nisso novamente. Talvez eu me lembre de colocar o tapete escrito “Seja bem vindo” na porta de casa, talvez eu me lembre de comprar um guarda-chuva. Quando você voltar, não se esqueça de limpar os pés e trancar a porta. Você deveria aparecer…

O bom menino.

Você mostrou-me teus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro… Daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…

Éramos jovens, você se lembra? Corríamos pelas ruas do subúrbio buscando sonhos desacordados, com canções em tons desafinados, cores ajustadas, como a mistura de Renoir num quadro pintado em Paris. Posso estar escrevendo coisas das linhas pra fora. Entenda querido, já são além da uma da manhã, e eu ando tendo madrugadas insones. Há um silêncio lá fora que me convida para contemplar os gatos por cima do muro. Eles andam numa graça inocente por entre as grades, e quando me veem com os cabelos ao vento, no meio dessa madrugada de outono indeciso, eles me encaram com os olhos brilhantes. Há um gato, negro como a noite, eu só vejo os olhos amarelos, me encarando como se soubesse dos meus sonhos de ir e vir, das minhas noites tecendo a saudade em meu tricô imaginário de vinho Merlot. Hoje bebo no gargalo, desde que te conheci ignorei a etiqueta de tomar vinho como gente educada. Eu não sou mais educada, sou tresloucada.

Se eu fumasse, acenderia um cigarro, talvez um mentolado, ou aqueles doces, de cereja. Ficaria soltando anéis de fumaça no ar, quem sabe eu fizesse um grande o bastante? Tem uma coruja aqui perto do terreno baldio, ela mora num buraco. Em meus sonhos, ela poderia passar voando nos meus anéis de fumaça mentolados. Ela passaria por dentro deles e daria um rasante no chão. Talvez, pegasse minhas emoções que jazem no chão, e levaria para bem longe, talvez para um inferno Dantesco, ou para o paraíso dos sonhos de Beatriz. Lá existe um pouco de Amor. Eu escuto Chico Buarque e sinto Amor, e eu queria que quando eu passasse você me estendesse a mão, ou o chapéu, mas tu não usas chapéu. Um dia queria que me mostrasse o sol, aquele que lhe faz sorrir, assim, mais de duas vezes ao dia. Percebe? Eu te mostraria toda a beleza de um dia chuvoso, talvez encontrássemos alguma coruja tomando banho, enquanto as pessoas passam aturdidas com seus guarda-chuvas, com raiva, passos largos. Eu contaria os segundos, contigo, e depois me apoiaria em teu ombro quando o trovão bradasse a fúria dos Deuses lá naquele horizonte de campo aberto.

Quando eu era criança, eu gostava de andar de bicicleta embaixo da chuva. Eu passava na poça de lama, e conforme ia pedalando, a roda de trás respingava lama nas costas da minha camiseta velha de guerra. Meu pai sempre falou que eu poderia tomar um raio na cabeça, mas a única coisa que eu tomei, foram gotas de chuva que me escorriam nos lábios. Eu era uma criança levada. E você ficou com minhas fotografias… Tem uma delas que eu estou feliz e banguela num balanço. Tem outras que estou acampando em Brotas, e eu praticava trilha na serra com minha mãe e aquele que um dia eu chamei de pai. É uma longa história, queria te contar um dia, sobre minhas aventuras, dos dias que eu subia no telhado escondida. A vida era incrível vista de cima, e pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não dão valor para quase nada, não tinham um olhar apurado, nunca ninguém me viu lá em cima, ninguém, só pardais e pombas que balançavam nos fios do poste… Ahhh, e o cachorro da vizinha, que eu tinha que passar de fininho, porque ele ficava nervosinho e se colocava a latir ininterruptamente. Tinha medo de ele chamar a atenção da minha vizinha balofa que não dormia porque o marido roncava. Ela poderia acabar com a minha brincadeira infantil de ser uma stalker das alturas. Um dia, atirei uma pedra no cachorro dela. Você vai me dizer:

“Malvada”…

Mas um dia, você me contou que jogou o gato da janela. Tu eras uma criança, tão malévola quanto eu, ou não… Apenas queria ver se o gato cairia de pé… Lembra? Quando você me contou isso, eu lhe disse pra você amarrar um pão com manteiga nas costas do gato, assim ele cairia de costas… Mas você cresceu meu bom menino… E nas ruas desse subúrbio, enquanto você dorme, com seus sonhos que talvez nem se lembre quando acordar, eu lembro da sua travessura de menino, como cenas de um frame despedaçado. Eu posso ver duas crianças correndo pelo subúrbio… Mas isso é apenas um devaneio, perdido entre meus anéis imaginários de fumaça. Na primeira tragada eu vou achar que vou morrer. Tentei tragar uma vez, quase morri, mas você tentou me ensinar. Eu acho que ainda não aprendi, ou tenha me esquecido. Fico apenas na vontade de menta, cereja ou pinho…

Eu poderia te reconstruir, como um vitral, daquelas igrejas europeias, mas não seriam imagens santificadas, já lhe disse um dia, eu fujo de tudo que é convencional, e faço isso sem querer, sou tresloucada… Quando criança chutava os formigueiros e passava o tempo observando o caos. Eu me perguntava se as formigas gritavam, como as pessoas na televisão quando aconteciam aqueles terremotos lá no Japão. Hoje só escuto meu próprio grito. O resto eu ignoro. Além de louca, sou egoísta. Mas eu te amo, mesmo tendo atirado o gato da janela. Você chega até mim nessa noite, com seus sonhos e travessuras de bom menino.

Pássaro.

“Essa é a última canção que você irá cantar…
Segurei-o de cabeça pra baixo, quebrei seu pescoço
Ensinei-lhe uma lição que ele jamais esqueceria”

Queria sair por aí, com uma mochila nas costas, andar sem rumo, sem sentir o peso da saudade. Talvez nunca mais voltar. É um grito que escorre por aí nas ruínas do alter ego. Como um cão sem dono, vagando pelas ruas, sem rumo, talvez esperando alguém para acolher. Queria também ser como uma andorinha, sair por aí, voando, mas com o risco de ser um pássaro devorado por gato faminto ou por pura brincadeira de extinto, apenas um novelo de lã que sente dor. Gatos brincam com a comida, mas sem necessariamente querer devorá-la. Já vi um gato matar uma andorinha por puro prazer, era um lindo gato siamês de olhos azuis. Ele brincava com a andorinha já morta pelas mordidas e arranhões. Carregava o pobre pássaro pra lá e pra cá como um troféu. Quando se cansou deixou a andorinha morta com tripas expostas no gramado do condomínio. Eu não pude fazer nada, apenas lamentar, e na minha curiosidade de criança observar o gato com sua brincadeira sádica. E o sadismo também existe com os homens. Nas guerras matavam por pura diversão. Homens, mulheres e crianças, enfileirados de frente pra uma vala a céu aberto. Mãos nas costas e gritos de misericórdia. Olhavam para baixo e apenas o tiro e pedaços de miolos espalhados. Os soldados apenas os chutavam dentro das valas. Se não fossem executados, morreriam de fome, não havia ali meio termo, não havia tempo, não existia nada ali, apenas o ceifeiro invisível esperando recolher as almas que muitas vezes devem ter fugido, vagando até hoje por memoriais tristes e hipócritas. Se eu fosse um pássaro, eu não queria ser um da época de guerras, eu não sobreviveria ao som estridente de tiros e bombardeios. Teria minha alma de pássaro fraturada, dizem por aí que animais são mais puros e “humanos”, mas eu me lembro do gato sádico, e havia um brilho cruel e inquietante naqueles olhos azuis de felino. Eu poderia ser o seu jantar, se eu fosse uma andorinha.

Lena.

A embriaguez batendo, rodopiando, batendo palmas. O cheiro etílico dela se aproximando devagar, com traços aromáticos de chacota. Lena deitou e rolou no chão, no meio do bar, e o blues melancólico em notas de Eric Clapton e B.B King. Na multidão cheia de rostos e risos de escárnio, rostos pintados, partindo para uma guerra de quadro impressionista. Foi embora pra casa, caminhando bêbada pela rua Augusta. Sabia que sua casa ficava em algum ponto da Avenida Paulista. Talvez ligasse para seu vizinho abrir a porta, caso ela não conseguisse. Acontecia…Várias e várias vezes.

Ligou para Ramires, seu vizinho barbudo tresloucado comunista. Ele abriu a porta e lhe fez companhia. Deu um banho em Lena, banho gelado: “Ahhh Lena!!! Se eu for embora algum dia, quem vai cuidar de você hein cupcake?”. Ela entendia apenas os risos tímidos de vergonha alheia, mas Ramires sempre esteve ali quando precisava, nas horas bêbadas e cuidava da gata persa cinzenta, que vomitava bolas de pelo no apartamento inteiro. Fez-lhe uma bebida quente, e quando ela melhorou, despediu-se dela com um beijo na testa. “Descansa Lena, amanhã venha jantar em casa, terá pizza, aquela que você gosta, e depois vamos jogar mahjong!Ahhh, dei banho na Mary, ela estava precisando, “tava” de “enrosque-enrosque” com o gatão vira-lata do 151. Até sua gata tem um bofe minha linda…E você aí, triste e bêbada ”. Fechou a porta, deixou apenas a luz do abajur acesa, herança de família, brilho antigo que desde criança ilumina sua penumbra, que conta histórias, acompanha os sonos insones em que ela caminha sozinha entre vales e bosques, fugindo do medo que não adormece. Mary ronronava nos seus pés deitava e lambia as patinhas. Queria ela ser como gato, se caísse, cairia sempre de pé, e teria, reza a lenda, seis vidas para desperdiçar. Daria valor apenas na última vida, consertando as besteiras que cometeu nas outras seis.

Quando criança, Lena ajudava a avó a fazer bolo. E o cheiro doce de cobertura de chocolate impregnava a casa, e ela amava aquilo, se envolvia, era uma fúria infantil, brigava com os irmãos pela lambeção do tacho. Hoje ela bebe sua fúria em copos de licor de chocolate com conhaque de procedência duvidosa… Alcoólatra atingida, mas tingida de todas as cores. Enxergava-se como uma caixa cheia delas, mas fechada hermeticamente. Queria alguém sádico o suficiente que se envolve-se em seus fios coloridos, e com sinestesia suficiente para ver notas musicais, um samba no amarelo, tango no preto, salsa no verde. Estava bêbada, nada mais aceitável do que ter ideias de bêbada. Sentiu saudades do bolo da vovó… Começou a passar mal…

O enjoo foi em passos de loucura até o lixo ao lado da escrivaninha. Não foi Lena, foi o enjoo. Lena foi movida por aquilo que sentia, ela não estava mais ali, apenas náusea, enxaqueca e a vontade de não estar. O banheiro estava longe, ela chapada demais para se arriscar, podia bater a cabeça e morrer. E ela pensou, que seria a coisa mais poética ser encontrada morta no próprio vômito, com traumatismo craniano. Seu piso branco de banheiro tingido de sangue com pedaços de morango. Sakê, whisky com energético, conhaque, vodka com soda e batatas fritas. Cheiro etílico, fritura, uma fruta silvestre em pedaços e sangue semi-oxidado. Seria legal, poderia sair naqueles sites sensacionalistas de tragédias, fotos circulando nas redes sociais, povo adora tragédia. Seria mais legal ainda se ao invés de batatas fritas e pedaços aleatórios de morangos regados ao cheiro de pandemônio boêmio, fosse sopa de ervilha apenas. Poderia cair de forma batesse na pia e seu pescoço torcesse de tal forma como a personagem do filme “O exorcista”. Mas eram apenas pensamentos de uma mulher embriagada.

No dia seguinte, arrumou a casa, fez um almoço para os amigos. Tinha bolo de sobremesa, com cobertura de chocolate. Jogaram Mahjong a tarde inteira. No final da noite foram para a casa de Ramires, o Comunista, e pediram pizza, ela não quis comer pizza, disse que estava de regime, pois estava gorda e queria um namorado. Foram todos embora antes da noite chegar, cheios de elogios e chamando a atenção dela para sua percepção errônea sobre o corpo, “você é linda” de um lado, “você não é gorda” do outro. Agradeceu os comentários e tentativas fracassadas e falsas. Fechou a porta, deu um sorriso pra gata, que a esperava na beira da janela.

Foi no armário, tirou cinco pacotinhos de sopa de caneca e preparou. Era sopa de ervilha. Enquanto a água esquentava, tirou todas as roupas, passou seu perfume favorito, penteou os cabelos. Sentou-se no sofá, comendo sopa, tomando wisky no gargalo e assistindo canais adultos.

“I can feel your body
When I’m lying in bed
There’s too much confusion
Going around through my head”
Eric Clapton cantava na sua mente enquanto assistia aquelas baboseiras eróticas. Atiçou-se, fez um amor solitário, depois atirou-se nua, crua e úmida da janela do décimo quinto altar. Não pareceu uma cena do filme o exorcista, o corpo espatifado no chão era uma massa de carne e ossos quebrados, misturados nos cacos escoceses do velho Johnnie. Ao menos não morreu sozinha, velho Johnnie sempre a acompanhava. Mary, sentada na janela, lambia as patinhas…
Woman – Karien Deroo

O pão no prato.

Letícia escrevia sua monografia numa vontade que a aniquilava. Mais dispersava do que escrevia. Odiava escrever com prazos. Escrevia durante a madrugada, pois era o tempo que ela tinha. Curava o sonho com doses de cafeína. Não tinha mais vida, não tinha mais nada. Perdeu as contas de tanto tempo que não vê mais os amigos, perdeu as contas de quantas latas de cerveja já tomou nesse tempo…Sozinha. O cartão de crédito bem sabe suas idas ao mercado para comprar um fardo de energético. Ela não sabia contar os pigmentos das suas olheiras. Traços escuros embaixo dos olhos. Se houvesse alguma forma de contar, seria mais um método para dispersar sua obrigação. Tirou todos os livros legais da estante, colocou-os numa caixa no porão. Sem dispersões…sem dispersões. Nem o gato estava mais lá, ela poderia dispersar ao olhar pra ele, e dar risada ao lembrar do amigo que quando criança atirou o gato da janela do segundo andar: “Queria saber se ele cairia em pé”, e então ela divagava e ria, pois num restaurante em dia chuvoso os dois divagavam sobre teorias malucas. “Talvez, se você amarrasse um pão com manteiga nas costas do gato, ele não cairia de pé…Porque o pão com manteiga sempre, mas SEMPRE, cai no chão com a manteiga para baixo”. E lá estava ela, dispersando. Queria ficar longe, de coisas legais, aquelas que lhe tirassem o foco, a concentração que tanto precisava. E queria colocar fogo em tudo. Em um mundo de cobranças, o sacrifício que por horas era tão digno e necessário, parece decantar em potes de preguiça. Queria jogar-se nos braços do sono, e em sonhos de uma eternidade, sonhar com um mundo menos besta e mais sensato.

Sua mãe fez um lanche para ela, antes de ir dormir, deitar sozinha com toda a vida de viúva estampada na cara. Preocupava-se com a filha, muitas vezes ela só ficava no café com bolachas. Todos os dias, a mãe preparava-lhe um sanduíche, batia na porta do quarto, colocava o lanche e o copo de leite em cima da mesa, lhe dava um abraço, um beijo e um “Boa noite minha querida, vá dormir cedo”. O leite sempre acabava nos beiços do gato. Cerveja e leite não davam certo.

“Mamãe deveria namorar”, pensou Letícia, fugindo novamente…Mas sabia que sua mãe estava desiludida demais para querer ter outro relacionamento. Chega uma hora, pensou ela, que as ilusões vão embora e sobram-nos apenas momentos de extrema lucidez, que tantas horas são mais venenosas do uma vida de sonhos e crenças que o ser humano pode ter compaixão e ser isento de crueldade. Letícia acreditava na possibilidade de existirem dias melhores, talvez uma grande tragédia mudasse a visão das pessoas, e que talvez fizesse o mundo melhor. Tem gente que só aprende quando apanha na vida, quando perde. Ela acreditava nisso, nas boas ações. O pão que sua mãe preparou, continuou em cima da mesa durante duas horas, ali, descansando no prato. O gato por perto, pois sentia o cheiro do patê de atum. Sua mãe preocupou-se com ela, mas o pão continuava no prato, como se ele não existisse.

Dona Rita e a Fonte da Juventude de Lucas Cranach.

Primeiramente, é necessário observar a seguinte obra abaixo, depois, partir para a leitura. É necessário a compreensão da linguagem desse quadro, para que a ideia do texto possa fluir sem complicações. Se estiver muito pequeno, devido ao layout do blog, no google imagens tem em tamanho maior. Esta prosa fala sobre a saudade, sobre o Tempo, emoções, lembranças. Espero que apreciem, sem moderação. Obrigada e boa leitura. Se gostou, comente, críticas são bem vindas!

A fonte da juventude, do pintor renascentista Lucas Cranach.
Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos aos, estes ainda reservam prazeres.
Sêneca

Rita sozinha na frente do espelho, aos setenta e cinco anos, sozinha, em seu apartamento localizado no quinto andar de um prédio do subúrbio, onde as flores nascem no asfalto, esperando um pouco de atenção dos olhos incautos, preocupados, com gotas de mau-humor. Transeuntes amanhecidos em dias ensolarados , mas por dentro, coração e alma tão nublados como dias de dilúvio, e às vezes o dilúvio nunca acaba, estamos sempre nos protegendo de nossas tempestades invisíveis, mas que nos molha tanto, é como se fosse uma histeria, real, andamos pelas ruas encharcados pelas águas das dores do mundo. Andamos escondidos embaixo de nossos guarda-chuvas, algumas pessoas possuem guarda-chuvas transparentes, a alma pode ser vista por todos, até aqueles que assistem o espetáculo da vida do alto da sacada do apartamento, tal como fazia Dona Rita, da sacada do quinto andar, recordando-se de histórias tão antigas quanto as cicatrizes rachadas de prédios velhos, aqueles que foram ocupados por aqueles que não tem onde ir. Polícia do outro lado, os donos na rua, de braços cruzados, crianças chorando nos braços da mãe, enquanto os pais apanhavam dos policiais que os tiram à força. Brigas, desespero, alegrias, Amor…Foram muitas coisas que os olhos experientes e cansados de Dona Rita  já vira.  A guerra do Vietnã, a queda do muro de Berlim, a dissolução da União Soviética. Queria ela poder voltar no tempo? “Não”, pensava ela, mas sabe-se que ali naquele rosto existia o peso da dúvida,  mesmo ela sabendo que já viveu tudo o que tinha que viver, muito suor e lágrimas já escorreram ali naquela face, a única coisa que ela precisava era de um pouco de paz. O mundo estava caótico demais, e ela estava cansada.

Era viúva, morava sozinha, já amou muitos homens nessa vida, tomou muitos cafés nas ruas parisienses, chorou ao lado da torre de Londres, apaixonou-se pela vodka e o frio angustiante e inspirador de Moscou. Usou drogas, transou no meio da multidão do Woodstock, gritou paz e amor, viveu, todos os excessos que a vida poderia permitir que ela vivesse, numa fúria quase que beirando o descontrole. Acordava cedo todos os dias, cuidava do pequeno jardim da sacada do apartamento, regava as flores com um regador amarelo de plástico, que muitas vezes deixava ao lado do vaso com Girassol, mas ela gostava mesmo era de pegar um velho balde e fazer uma concha com as mãos, gostava de sentir a água escorrendo pelos dedos. Este ato era pra ela uma forma de felicidade instantânea, mesmo que momentânea. Ela não acreditava na felicidade, aquele tipo de felicidade que acreditamos que seja eterna. Felicidade é um conceito que a vida é feita de momentos, e os momentos são feitos pelo Tempo, tempo de drama, um livro de contos esparsos, várias histórias cheias de verdades, mas que também carregam a dor da mentira e da ilusão, e o que falar das histórias de Amor e Sexo? Muitas vezes não caminharam juntas, pela inabilidade do ser humano separar Sexo de Amor. Rita tentava, mas ela fez Amor com cada homem que passou pelos seus braços, mesmo que pra eles, tenha sido apenas Sexo.

Um velho cão dormia aos seus pés , o gato oportunista aparecia às vezes para comer e deitar em sua colo. Ela tinha três filhos, e todos eles queriam colocá-la em um asilo. Achavam que a companhia de outros “idosos” a faria bem. Acreditavam que ela não estava mais lúcida. “Pobre ser humano, tolo e mesquinho”, pensa ela, mal eles sabem que ela mantinha o vigor, a coerência, tudo o que uma mulher lúcida têm. Ela estava velha? Sim…Mas ela ainda pensava, respirava, sem precisar de balões de oxigênio, mas, as falsas convicções de que todos os velhos a partir dos setenta anos ou menos, não são capazes de distinguir uma pedra de um pedaço de merda. Parou na frente do espelho, pensou no fedor de uma pedaço de merda, e uma pedra, “Será que somos tão estúpidos assim?”, pensou ela, enquanto penteava os cabelos brancos, que caiam na altura dos ombros. Lembrou de seu marido, de todos os anos que ela viveu ao lado dele. Ela acordava primeiro que ele, se arrumava e penteava os cabelos na frente do espelho. Ele levantava da cama e colocava as mãos em cima dos ombros dela: “Bom dia minha senhora”, dizia ele, toda vez que a via pelas manhãs, penteando os cabelos. Ela sentiu uma saudade, a saudade tocava-lhe os ombros…

Depois de cuidar do pequeno jardim, ela sentava-se na cadeira da sacada, com sua xícara de café fumegante nas mãos. Pensava  na vida, com tudo o que já havia vivido, suas alegrias, tristezas, todos os sonhos que ela carregou durante as madrugadas. Todas as suas emoções, estavam estampadas em cada ruga de expressão de seu rosto envelhecido. Ficou lá, sentada, e de repente veio uma vontade de rever álbuns de fotografia, queria uma quinta-feira cheia de lembranças. Pegou um pesado álbum da estante, e ele conservava os cheiros de lembranças e saudades, estampados em páginas amarelas, algumas fotografias em preto e branco. Ela amava o cheiro de livros novos, livros velhos, gostava de cheiros do seu passado, e o perfume das flores que alegravam seu micro jardim de sacada.  Abriu o álbum, começou a folhear as páginas, e chegou numa parte onde lhe trouxe a memória de sua visita à Berlim, aos trinta anos. Havia uma fotografia dela em frente ao museu Gemäldegalerie. Ela lembrou-se de que naquele local foi onde ela se encantou por uma obra de arte específica, um quadro que ficou marcado em sua memória:

Era um quadro de Lucas Cranach, de 1546, chamado “A fonte da Juventude”. Aquelas fotografias naquele álbum no colo de Dona Rita poderiam estar desintegrando-se, perdendo-se na certeza do Tempo, mas o valor e mensagem de uma grande obra é algo que não morre nunca, e quando morre, sempre terá alguém que conserve o registro no baú de memórias. As coisas não se perdem, recriam-se em outro espaço-tempo. O encanto pela obra era tanto, que ela comprou um livro que a tinha, em duas páginas inteiras. Puxou o livro da estante e lá estava o marcador de fita de cetim guiando sua lembrança, estava lá a fonte da juventude.

As velhas sendo trazidas enfermas, em carroças de madeira, pedaços de pano branco na cabeça, elas não queriam mostrar os cabelos brancos, ou a ausência deles. Senhoras de roupas que cobrem o corpo inteiro, sem a formosura e a volúpia dos corpetes onde saltavam seios exuberantes. Os seios caídos de flacidez, o retrato da vergonha, pintado sobre a forma de uma velha sentada na beira da fonte, agachada, seminua, com a vergonha estampada no rosto. Ela parecia olhar para Dona Rita, e dizer que a vergonha a impede de mostrar suas “vergonhas”, que aquele corpo ali já foi “bonito” um dia, a velha agachada olhava para Rita, senhora da era moderna, com os seios flácidos, pele já tão enrugada. Imaginou-se ali, naquele local, em 1546, o senhor de vestes vermelhas, segurando um livro, avaliando se ela podia ou não entrar na fonte da juventude, estaria ela, velha o suficiente para querer ser rejuvenescida? Velha o suficiente para tirar sua roupa, em frente a uma multidão, entrar na fonte, banhar a alma em águas de cirurgia plástica, carregadas de Botox. Rita até então obedecia à lei natural das coisas, pois ao Tempo não podemos enganar, nem a Morte.

Dona Rita dirigiu-se em direção ao espelho. Tirou todas as roupas, soltou os cabelos. Estava ali, em frente ao espelho, nua, crua e…Velha. Os cabelos brancos escorrendo nas costas, os seios flácidos que seu velho Homem tanto amou…Seu velho Homem…

“Estou velho querida…- dizia ele, olhando nos olhos dela, desde os trinta e um anos de idade…balbuciava…”Estou velho, não tenho mais a flor da juventude…”, este Homem, durante todos os anos que passaram juntos, nunca queixou-se da beleza jovial que aos poucos se perdia do corpo dela. Os seios ficaram flácidos, ele continuou amando-os; as rugas apareciam contando histórias no rosto dela, ele continuou beijando-lhe a face; a pela já não era tão mais macia, com a suavidade de uma pétala de flor, ele continuava deslizando os dedos na pele dela. Aquilo o fez único no mundo, ela nunca mais quis homem algum. Depois de tantas aventuras em braços cujas almas não se completavam. Os tempos de procurar um Amor que não fosse mesquinho e vazio foi embora com o sopro do vento que sacudiu os cabelos na noite em que conheceu o elemento saudade, o dono do peso dela nos ombros. Naquela época, seus cabelos não eram louros, mas sim negros, mas ela sentia-se como as ninfas loiras e rejuvenescidas de Lucas Cranach, viu ali o retrato de sua vida, pintado em dois lados, do lado direito, as festas, jantares, bailes, flertes…Músicas de rock’n roll, bossa nova, tropicália, sexo em Woodstock. Do lado esquerdo, ela, sozinha, nua na frente do espelho.

– “Estou velha querido…Estou velha…Agora, EU que me sinto velha. Que saudades…De você, da nossa juventude, da nossa velhice, dos teus olhos…

E nos ombros sentiu a vasta saudade dos seus tempos de ninfa. A saudade galopando na rajada do tempo, o peso dos ponteiros do relógio. Deveríamos nascer velho e morrer jovens, tal como na estória do Fitzgerald. O curioso caso de Rita estava ali, no reflexo do espelho, os ponteiros do relógio não voltavam, sua eloquência em fuso horário, entrando agora em anti-horário. O gato a olhava da janela, e lambia as patinhas. Seu cão, também velho, porém cego de um olho e quase surdo, dormia ao pé da cama, abria os olhos, devagar, ficava observando e depois voltava a dormir.

Rita foi em direção ao banheiro do quarto, tomou um longo banho, a pele já era enrugada o suficiente para se preocupar com o tempo que passaria embaixo do chuveiro. Secou-se, entrou embaixo dos lençóis, nua…Não precisava de pílulas para dormir. Sonhou…Sonhou com a fonte de Cranach. Do lado direito, seu marido rejuvenescido a esperava. Ela estava do outro lado da fonte, tirando as roupas para entrar. Deu um mergulho, lavou o corpo, depois outro mergulho. Chegou do outro lado e entrou com ele numa tenda de veludo vermelho. E desde então, Dona Rita nunca mais acordou. Foi rejuvenescida com massa fúnebre…

Aos olhos do rei.

Ninguém sente dor nenhuma durante a noite. Aqui parada embaixo da chuva, estou sem pressa, esperando nas esquinas das minhas emoções. Talvez um ramo de flores em minhas mãos, e sentirei toda a pureza das pétalas, e posso pensar em tão suave era sua carícia na noite passada. No meio das coisas banais, há ossos e tendões, há um coração batendo forte no peito, há veias pulsando em baixo ventre, e é de noite que eu me emociono, mesmo sem a presença do ramo que lhe toca o ventre, suave como uma primavera repentina, as borboletas dançando no estômago, são as mãos de um fidalgo, tal como Dom Quixote num mundo tão perdido e sem emoções dos olhos nus. Os olhos nus, se cobriram de véus, mas o tempo chegou e a encarou com os olhos, e então nos devoramos um ao outro sem pressa. Talvez eu seja apenas uma garotinha, talvez ele seja apenas um homem incomum, esbravejando contra os muros, um homem incomum de coração de ouro. E na rivalidade do tempo, o vento lá fora está esbravejando demônios, e nossos corpos se perdem em saliva, suor e desejo. Não tema o frio que chega nesta noite, e nem a aproximação dos meus olhos grandes junto aos seus, se o frio atingir-lhe, vou cobri-lo com meu afeto, e minha simples vontade de lhe abraçar. Não tema o desejo da noite, não tema o luar encoberto por espessas nuvens. Está relampeando lá fora, eu posso me assustar com o barulho dos trovões, e esconder-me por debaixo das cobertas. Posso fechar-me dentro de minha redoma, mas terás permissão para entrar. Chega de mansinho, como quem não quer nada, e jogue seu pano de estrelas em meu céu, que antes então tão cheios de nuvens e sem brilhos, ganhou tons de aurora boreal. E eu estremeço, quando sinto seu cheiro se aproximar, invadindo meu sonho à noite, e um milhão de sensações a gritarem madrugada adentro. Deite-se aqui ao meu lado, e eu lhe contarei uma estória e darei um beijo em teus ombros e olharei em seus olhos, como um gato que olha nos olhos do rei, sempre com fome…

E nunca acaba, dou meu reino por um beijo em seus ombros…