Se e somente…SE.

*Nota mental escrita durante esta madrugada.

Subimos montanhas, nos prendendo nas pedras, ora olhando para baixo
Ao respirar o ar de todas as manhã, nos sentimos tão pequenos,
Ante o sorriso de uma criança alegre nos braços da mãe,
Não existem surpresas que nos amedrontem, nesse mundo,
É apenas nossas mãos dando bordoadas no escuro,
É apenas nossa dor tão mesquinha nos atormentando,
É apenas um Amor que nunca existiu indo embora.

Na dor nossa de cada dia, há um espetáculo fabuloso,
Milhares de borboletas rodopiando num campo de margaridas,
E aquela criança dentro de nós se liberta, e se põe a correr,
Distante dos problemas, vamos sorrir como crianças bonitas,
E talvez isso nós faça sentir pequenos demais, ante a beleza
De um milhão de cores explodindo no horizonte, brincando com nossos olhos.

E de repente ao olharmos para o céu, há uma ave de rapina
Rodopiando em círculos, calmamente pela manhã durante a semana
O frescor deixado pela orvalhada da madrugada, e os olhos azuis,
Da criança que parece um anjo de mãos dadas com o pai, de traços fortes
Então olhamos para nossas vidas, ela pode ser bela também?
E então, um dia me disseram que há muitas verdades e meias-verdades,
Nesse caminho cheio de pedras, nunca teremos certezas de nada,
Há apenas o nosso discernimento ante a razão do coração.

Se somente pudermos contemplar o horizonte sem compromisso,
Alguém nos diria que estamos apenas perdendo tempo,
O quão bonito é um homem perdido em pensamentos, em olhos calmos,
Se e somente se, nos apaixonássemos por nós mesmos,sem dor e mágoa
Talvez o mundo seria um pouco menos doloroso, mas a vida está aí,
Rodopiando em torno de nossos medos, ansiedades, lágrimas e felicidade,
E o Amor me faz sentir pequena, ante a escuridão e desejo que o permeia.

Temos um coração a se manter calmo, vamos sair de mãos dadas,
E eu lhe digo apenas que a vida é passageira demais para termos medo,
Lhe beijo os olhos grandes, porque alguém me disse um dia,
Que os olhos podem ser o espelho da alma, e teus olhos são bonitos
Se e somente se, nós déssemos as mãos, talvez poderei amar,
A vida seria mais passageira, como o sorriso de uma criança
Não importa, somos tão pequenos quando sozinhos?

Se e somente se…pudéssemos ser um pouco mais sensatos,
Um dia alguém me disse, que meu corpo dançaria conforme uma música,
Que Amor e Sexo podem caminhar em linhas diferentes, mas se dão as mãos,
De vez em quando nos quartos, na penumbra de um bairro do subúrbio,
E então um dia o Amor se acabou, alguém me disse que um dia isso acaba,
E eu com muita dor, aceitei e saí a caminhar por aí, com sentimentos vazios,
E foi então que meus olhos se abriram e nunca me surpreendi tanto,
Para as coisas que sempre estiveram ali, passando despercebidas,
E então eu me senti tão pequena…você me faz sentir tão pequena,
Diante deste coração tão surrado quanto o meu, vamos caminhar juntos,

E um dia me disseram, vamos dar as mãos e sair por aí,
Rompendo nossas barreiras tão mesquinhas que nos aprisiona,
E nada será dito, além de palavras sensatas e histórias a contar
Talvez seja mais engraçado e surpreendente do que imaginei,
Mas você segura minha mão como se me conhecesse há tempos,
E como um livro vira a página e me conta aquela história,
E então eu me sinto tão pequena, estive o tempo todo sem perceber,
Que meus olhos grandes estavam cegos por uma venda, então eu dei risada,
Porque um dia me disseram, que a vida é uma piada, contada por um comediante frustrado.

E um alívio, um grito de liberdade sã e consciente grita dentro deste coração,
E um dia alguém me disse, que quando abrimos os olhos depois de tempos cegos,
Nós nos sentimos tão pequenos…tão pequenos diante de nossa idiotice,
E um dia me disseram que há milhões e milhões de pessoas neste mundo,
E um deles estará a sorrir pra mim…um dia me disseram, em tom de sermão:
Se e somente se, a vida sorrir para nós, devemos então, sorrir pra ela também.

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“Por quem os lençóis dobram” – Da série, “Eu não sei fazer poesia, mas eu tento!”

Depois de andar por um caminho cheio de folhas coloridas,
Já não é mais outono, é apenas um inverno ambíguo, cheio de sol e calor,
E os olhos azuis, grandes e tão perdidos, a fala mansa e o andar calmo,
Um homem incomum tão próximo, a alguns poucos centímetros,
E o sorriso na indelicadeza desconcertante de uma boca carnuda…desnuda,
Tão doce, bruta, elegante, curiosidade, os olhos, os olhos nus,
Fitando a boca voraz, era o desejo e a malícia no pensamento,
E a pele desnuda, a boca e a língua divina, e o cheiro natural,
A linha do pescoço que sobe até o rosto a emociona,
Ela estava então na cova do leão…

A vida, as pessoas, o caos, caminhando todos juntos de mãos dadas,
Os ventos de fim da noite os carregam, assim como as folhas,
Caindo calmamente, quase uma heresia,
Uma heresia calma e ao mesmo tempo bruta,

A folha toca o chão numa leveza simples, as mãos lhe tocam a pele,
Numa beleza ímpar, um gemido alto de prazer enlouquecedor,
São jovens demais para deixar a natureza emudecer noite afora,
Às vezes um homem deixa seus medos e ansiedade para trás,
Não há nada a temer, olhos nos olhos há sempre uma razão, ainda que febril,
E os olhos nus, encantados, e os corpos nus, se contorcendo,
Numa dança erótica, a indecência e o desejo tem cheiro de jasmim.

Há um sorriso tímido nos lábios, um enrubescer no rosto, um jogo de poder e sedução,
E ela sente os pelos do rosto dele junto ao pescoço, corpo estremecido e sem rumo,
E enquanto ele tira as suas roupas, ela se despe da vergonha,
E a noite segue tímida nos gemidos, enquanto as mãos firmes escorregam,
Como num torpor, num deslize, o suor sagrado se mistura mãos fortes e brutas,
No corpo tão frágil e delicado de mulher, as garras do leão lhe marcam a pele,
E as marcas na pele dela, um sorriso sádico no espelho pela manhã,
Ela fecha os olhos e se entrega, e então ela acredita, que ali naquele erotismo,
Naquela cama, com aquele homem, ela encontrou sua paz de espírito.

E o gosto sincero do medo, tão natural, ansioso, e latejante,
Num grito noturno sufocado pelo silêncio, uma mulher aflita,
Ao lembrar-se da cova do leão, o tremor, o desejo e o paladar visual,
Na madrugada afora o corpo clama por um pouco mais de amor,
Seja ele sensato ou insensato infiel ou fiel, perigoso e delicado,
A luta entre amor e razão é fado pesado e dói o peito,
O peso de uma incerteza silenciosa carregando um coração tão maltratado,
O rosto queima com a lembrança do beijo molhado, quente e profundo.

E a lembrança de um gosto amargo lhe traz uma saudade,
E o peso de um corpo sobre o seu nunca foi tão intenso e excitante,
Tão profundo, úmido, na meia luz, um gemido abafado e solitário,
É na cova do leão, a saudade, a lascívia, e o cheiro do jasmim,
Ela o amou, fez do seu desejo sua morada, bebeu do seu cálice até a última gota,
E ele fez do corpo dela seu altar, com uma fúria docemente obscena,
Um altar do desejo na cova do leão, quente, úmido e delicado.

Ficou uma bosta, mas foda-se essa merda!!hahahahahahahahahaha
Ficou uma bosta, mas foda-se essa merda!!hahahahahahahahahaha

Tal como vinho italiano.

Descobri uma forma de desejo que escorre pela garganta. Não queridos leitores, não estou falando de sexo oral. Estou falando sobre o calor causado por goles de vinho italiano, especificamente Cavicchioli Lambrusco, safra de 1928. Vinho expande meus horizontes, faz-me sentir plena, com todas as emoções à flor da pele, é como se as cores e sabores ficassem mais nítidos, meu universo tão incompleto, é como se os vapores etílicos desta bebida me desse todas as coisas que eu sonho, seja de olhos abertos, ou fechados, nas minhas poucas horas de sono de todos os dias. Numa dessas sensações, a vontade louca de fazer amor impera como frames por segundo numa tela de cinema. Não importa a quantidade de álcool que escorre como um rio garganta dentro, basta o cheiro de vinho, vinho é extremamente sensual. Um dia, sonhei que tomamos uma garrafa de vinho e transamos escondidos embaixo da mesa. Quando eu era garotinha, às vezes pegava escondido um copo e tomava embaixo da mesa. Na época, me dava sono, então logo em seguida eu ia dormir. Minha mãe achava que simplesmente era uma soneca infantil. Creio que o meu sonho cruzou essa lembrança de minha infância e traçou um desejo de minha alma já adulta mas com traços de criança feliz. Ainda adoro algodão-doce, a ponto de lamber meus dedos como sorvo o vinho de teus lábios manchados, pecado rubro, pele manchada de desejo. Nós dois rolando ao chão como garrafas ao chão. Você me quebra, em pedaços de emoção, faz-me tua lembrança doce surgir em mesas solitárias de bar. Cada gole solitário dessa bebida enebriante é um pedaço de tua pele que me toca os lábios, cada cheiro emanado da taça que eu levo à boca, é um cheiro teu envolvendo-me, uma lembrança de teu pescoço nu, consigo sentir seus tendões e veias aparentes, teu sangue nobre, tal como o vinho.

Nas minhas memórias encharcadas de lençol de motel, só tem lugar para aquele ao qual eu imortalizo nessas linhas tão tortas, aquele que me levou ao sétimo céu, aquele que eu não tenho vergonha alguma de admitir que o quero entre as pernas. Sou uma mulher e não mais uma garotinha de 15 anos, cheia de incertezas. A vida é muito curta para nos privar de desejos. Queria agora, neste momento em que escrevo solitária numa mesa de bar, que ele estivesse ao meu lado agora, mas a falta de sorte anda me perseguindo com seus passos de glória descontente. Ando perdida em um oceano, esperando este homem de olhos incógnitos, olhos que eu daria minha emoção mais incontida numa bandeja servida com carne e molho pardo. Uma faca, um garfo, deguste-me sem moderação. Queria beijá-lo, seus lábios silenciosos, beijaria teus olhos azuis todos os dias, se eu pudesse, mas eu transformo esse desejo em metáfora, eu olho para o céu e vejo a imensidão infinita de teus olhos. Eu não consigo tocar e nem beijar o céu, mas apenas o fato de olhar para o alto e lembrar-me de ti, já me és suficiente para traçar uma lembrança saudosa de teus olhos que falam.

Queria deitar-me em seu peito, e escutar suas histórias, espalhar-me em sua cama, como uma garrafa de vinho, rolando no chão. Teu rosto, linhas de perfeição com todos os seus vincos e barba por fazer, um traço de sua pele branca me convidando a devorar-lhe como um fruto proibido, fruto doce, cheio de sumo, incontido em meus sonhos encharcados durante a madrugada, nas poucas horas que eu durmo. Venha e derrame toda a sua fúria, sabor, calor. Meu corpo é uma taça, e você é delicioso como um vinho italiano.

“O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso
Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinha
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo”

Dois filhos, um banheiro e abacate com especiarias.

Ela chegou na pressa do retorno à morada. Depois de um dia no trabalho, pegou os filhos no colégio. Ela queria descansar, mas as crianças gritavam no carro que queriam biscoitos. Talvez ela desencavasse alguma receita da sua avó, daqueles biscoitos amanteigados. Sua vida sem tempo não permitia ela, mãe solteira, ter a dignidade e o gosto de cozinhar todos os dias para os filhos. Ela era uma mulher moderna, independente, 33 anos e 2 filhos. Amou um homem em um flerte rápido. Ela se apaixonou, ele não, na verdade, ela não sabe, até hoje. O pai das crianças vêm pegá-las todo final de semana. Ela acredita no Amor dele pelos filhos. Pode não amá-la, apesar de todo o respeito e por nunca ter deixado ela na mão, mesmo ela recusando a pensão, ele fez questão de contribuir com os filhos, gerados num momento de descontrole. A vida, é feita de erros e acertos. Ela não acha que errou, ela amou aquele homem desde o primeiro instante que os olhos dela encontraram os dele. Quando soube que estava grávida, de gêmeos, bateu um desespero. Omitiu por três meses, mas chega um tempo que o corpo da mulher muda, e não há mais nada a esconder. Um dia o chamou, depois de várias tentativas fracassadas de dizer o quanto ela gostava dele, naquele momento da fatídica conversa via SMS “Precisamos conversar, sério…”, enviada depois de cerca de dezenas mensagens carinhosas sem resposta alguma, ela finalmente se tocou que era uma trouxa apaixonada. Tola, tola, tola…Pensava ela. Ela foi apenas um alarme de incêndio. Um homem tão bonito, poderia ter quantas mulheres quisesse, num estralar de dedos. Ela se lembra, o quanto as mulheres entortavam o pescoço quando ele passava, seu magnetismo era e ainda é, surreal. Dentro de uma farmácia, ele comprava colírio e era o colírio. As mulheres do balcão o devoravam com os olhos, e ela dava risada assistindo a cena de dentro do carro. Nunca contou isso a ele. Deixou que ele percebesse isso sozinho, ele era desligado, olhos perdidos e distantes em pensamentos que a tanto fascinavam. Ela achava que faria diferença, num mundo de mulheres com a cabeça alienada e afundada em sapatos, esmaltes, roupas, novelas e fofocas de salão, ela observava as coisas que ninguém reparava. Nunca foi uma mulher leviana, em sua vida, poucos homens se atreveram a entrar em seu mundinho, tão fechado, tão pra poucos. Um amigo de colegial, lhe disse uma vez, que ela pensava demais, e isso seria prejudicial pra ela. Às vezes, dizia esse amigo, nós temos que nos entregar falsamente para as convicções clichês desse mundo, pelo menos tentar não soar tão diferente. “Nos faz sofrer menos”, pensa ela. Muitas vezes ela pensa que deveria ser uma vadia, quantas vezes já ouviu que homem gosta mesmo daquelas que pisam em cima, cospem no prato que comem e dão pra meio mundo, sem valor algum. Tratar os homens como objetos, como bibelôs mal feitos de lojas de R$1,99. Usaria eles a seu bel prazer, e assim ouviria um ridículo “Eu te amo” ou outra coisa qualquer, ou um “bom dia vamos transar agora”, sem precisar ser quase misericordiosa. Pobre mulher tola, acredita sempre na boa índole dos homens, e que um dia, quem sabe, alguém a olhe com os olhos nus, e não como uma mulher que dá medo e uma certa ponta de fascínio medroso, cansou de ouvir frases de “se todas as mulheres do mundo fossem como você, teríamos um mundo melhor”, e depois de todo um envolvimento, ouvir que mulher inteligente dá trabalho, pois não é possível moldá-las, elas tem argumento pra tudo, são imbatíveis. Homens tolos, mal sabem eles que a mulher inteligente sabe se calar quando está errada, basta ter argumentos tão bons quanto o delas, o suficiente para os olhos brilharem e se calarem diante da convicção que está na frente de um Homem e não de um ser com um pênis, apenas um pênis. Ela sempre pensou que homens são como o abacate. Quando muito crus, são extremamente sem graça. Um amontoado de pelos, e uma coisa comprida que fica dura de repente no meio das pernas. Nada muito atraente. Mas quando misturado com bastante limão, açúcar, ou batido com leite, com outros ingredientes, se torna algo extraordinariamente divino. Abacates puros não fazem sentir tesão nenhum, apenas repulsa. Aqueles abacates que ficam se olhando no espelho enquanto levantam peso e não sabem pensar em outra coisa a não ser carro, futebol, peitudas anencéfalas siliconadas e o quanto seus tríceps e bíceps aumentaram. Aqueles abacates que nunca leram nada na vida, sem ser legendas de revista Penthouse. Aqueles que dizem que mulher inteligente dá trabalho. Os homens ao qual essa mulher amou, são seres divinos, com ingredientes que a fizeram salivar e desejar mais. Não eram um amontoado de pelos deslizando em cima de seu corpo, não era um objeto estranho invadindo seu ventre, era algo doce, único e que a fazia subir pelas paredes. Pena que a felicidade dura pouco, e homens abacate com especiarias sejam tão raros. No mundo de hoje, temos os abacates, mas falta em muito as especiarias.

Um dia, ela saiu de sua kitnet em bairro universitário, isso numa época antes de ter os dois filhos, uma menina e um menino. Deus não foi tão cruel com ela, deu-lhe ao menos um casal, gêmeos, mas ao qual poderia diferenciar. Ela saiu de sua casa decidida e se divertir e sair com o primeiro homem interessante aos olhos (apenas aos olhos) que a fizesse sorrir. “Vou ser vadia”, pensou ela. Dizem por aí, que a mulher que não é vadia por uma noite não é feliz, porque reza a lenda que toda mulher um dia vai comer na mão de um homem, assim como todo homem um dia se engana, comerá feito um cão nas mãos de uma mulher. Alguns inclusive, segundo histórias ao qual ela já ouviu, levam tapas no rosto da mão que comem feito cachorrinhos famintos de rua. Ela colocou uma roupa atraente, bonita, mas não vulgar. Queria ser uma vadia, mas uma vadia com classe. Transaria na primeira noite com aquele que lhe dissesse que ela é linda e que fosse atraente aos olhos dela. Apenas isso: SEXO, SEXO, SEXO, BELEZA, BELEZA, nada de papos intelectuais de livros e afins. Cansou de fazer as coisas por sentimento. “Gente boazinha e que dá valor ao sentimento alheio só se fode nessa vida”, pensava ela no entorno da primeira taça de vinho chileno que pediu no balcão. Naquela noite teria Pink Floyd cover, uma das suas bandas favoritas. Esperava encontrar alguém ali para transar ao som de “The great gig in the sky”, tocada em repeat contínuo, ou durante o álbum inteiro do “The Dark Side of the moon”. Talvez discutissem algo sobre a velha história de que o álbum é sincronizado com o filme “O Mágico de Oz”, e talvez surgisse uma desculpa esfarrapada de assistirem o filme, num apê bagunçado de cidade universitária. Ela tentaria ser igual ao homem de lata, sem coração, mas no fundo, o sonho dele era ter um coração batendo ali dentro. Ela queria ser uma mulher de lata…Sem coração. Coração só atrapalha, mesmo quando só se quer Sexo. Chegaram ali, naquela embriagada noite, vários homens, mas a bebida a fazia ficar mais sã. Não saiu, não “pegou” ninguém. Ficou lá até o fim do show, divagando sobre um milhão de pensamentos que a bombardeavam durante a flauta lírica em combinação com guitarras e sintetizadores psicodélicos. Voltou pra sua casa, semi-embriagada, sozinha, num táxi que pegou próximo ao Terminal. Chegou, atirou os sapatos para cada canto do quarto, deitou na cama. As hélices do ventilador giravam sem parar, ela estava com calor, o vinho lhe aquecia. Um calor entre as pernas, mas não teve nenhum homem que a satisfizesse. Para entrar em seu ventre, era necessário açúcar e bastante limão. Definitivamente, ser mulher lata não era pra ela. Sentiu nojo de ter tentado ser uma vadia. Na verdade ela não tentou, ela entrou naquele lugar, pediu uma garrafa de vinho, 3 cervejas Irish Red e ficou pensando na morte da bezerra, especificamente na vaca do “Atom Heart Mother”.

Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco "Atom Heart Mother"
Ficou pensando na morte da bezerra, cuja mãe era a capa do disco “Atom Heart Mother”

Ficou assim, pensando na sua tolice, e decidiu que nunca mais tentaria vestir a máscara da mulher “Like a Valeska Popozuda”. A vontade de dar seria controlada consigo mesma e num próximo homem que a fizesse sorrir por dentro e por fora. E que ela fosse, aquelas mulheres com uma casa e um cão, ela não tinha o dom de ser leviana. Ela poderia fazer sexo sem qualquer resposta de sentimento do outro lado, mas alguma forma de Amor ela têm de sentir por aquele que deita em seu peito e a devora. E foi assim com o pai de seus dois filhos. A reação dele ao “Estou grávida”, foi um misto de surpresa. Ela, 30 anos nas costas, sabia que ele não assumiria, se ele gostasse dela, teria dado algum sinal de vida. Conversaram, eles se vêem, trocam confidências, mas não por tempo suficiente para terem flertes. As crianças choravam e queriam o peito, ou queriam insistentemente subir em cima da mesa, ou brigarem pelo controle da casa. Ela recebia propostas, declarações, de tudo, sexo casual, amor eterno, mas o pai daquelas crianças enchia o mundo dela de cores. E cada vez que ela transava com um homem, era nele que ela pensava ao gozar. Hipocrisia, pensava ela, mas ela tinha que fazer o outro lado feliz, e ela se deixava enganar pela sensação induzida de prazer causada pela mente. HumildeMENTE, ela sentia orgasmos…

Num sábado ensolarado, seu Amor bateu à porta para buscar as crianças. Elas deram muito trabalho na noite de sexta, foram dormir tarde e incrivelmente estavam dormindo. Estavam dormindo todos em sua cama, e ela passou o dia insone, no sofá da sala lendo um livro. Adormeceu algumas horas com o livro no peito. Permitiu-se chorar com a estória ali, ela sempre chorava com Hemingway, pois foi ele que apresentou a metáfora da sorte lançada ao oceano, o céu de gaivotas, e a derrota em forma de tubarões. Naquele sofá, ela sonhou, como o velho Santiago em sua cama de jornais. Ela queria seu Manolim, ela cuidaria dele, e ele dela. Acordou num susto, seu celular tocava, seu velho Amor estava na porta, gritou “Já vou”, foi até o banheiro, escovou os dentes, deu uma ajeitada nos cabelos. Não podia fazer mais nada, pra ficar bonita demandaria um certo tempo e ele apenas buscaria as crianças. Ele não a amava mais, pode nunca ter amado, então, o que importava a Beleza?Abriu a porta, descalça, cabelo em desalinho, camisetão branco, calcinha de algodão por baixo, óculos de leitura, meio tortos na cara. Apenas um cheiro natural, sem perfume, mas o rosto todo iluminado, boca natural, sem traços escuros nos olhos, ela estava ali, de roupa, mas nua e crua. E lá estavam os velhos olhos azuis, e a saudade invasora. Deu-lhe um beijo no rosto, e disse que as crianças dormiam. Ele esperaria elas acordarem e foram pra cozinha, ela lhe fez uma xícara de café, fez a brincadeira de Dona Florinda e Professor Girafales, “Gostaria de entrar e tomar uma xícara de café?”, ele respondeu que não seria muito incomodo. Ela lhe ofereceria um copo de ovomaltine com leite bem gelado, mas as crianças tomavam aquilo como água. Puxaram tal qual o pai e a mãe, disse ela, e eles riram, baixinho na cozinha. Ela estendeu a xícara de café fumegante pra ele, e foram pra sala. Ele viu o livro “O velho e o Mar” num canto do sofá. Deu um sorriso de canto de boca, pegou o livro e viu onde estava o marcador de página, estava na parte sobre a sorte e a vontade do velho Santiago de querer poder comprá-la.

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.

Ele perguntou a ela se ela dormiu com o livro sobre o peito, enquanto ele esperava que ela respondesse o SMS que ele enviou sete e meia da manhã, ela disse que sim, e que já perdeu as contas de quantas vezes já leu aquele livro. Ele perguntou, quanto tempo ela estava jogada ao mar, sem pegar nenhum peixe. Ela disse: Três anos…três anos esperando a sorte, e essa era a única coisa que eu queria agora. Se pegaram, no sofá, as crianças poderiam acordar, ele queria deitar aquela mulher de cabelos bagunçados na cama do quarto, mas as crianças dormiam lá. Ela era uma mulher, com dois filhos e um banheiro…Transaram embaixo do chuveiro.

Dez minicontos de 150 palavras.

1 – A Garota no espelho

É de madrugada, neste domingo chuvoso a dor no peito tomou conta. No sábado passado dormiu o dia inteiro, por oras perdeu os instantes digerindo um livro e contando suas angústias para aquele que lhe cura sem falar muito. Ela pensa: “interessante a vida”, e faz isso olhando seu corpo preso em um vestido preto de malha amarrotado. Seus cabelos em desalinho, por um dia inteiro rolando na cama, e se ao menos fosse sexo, mas a única coisa que ela tinha era fazer amor consigo mesma.

Diante daquele espelho em sua pequena casa, aquela forma de mulher ali exposta eram suas entranhas, todas elas dispostas numa tábua, com cebolas, tempero. Mais tarde, seria gratinada com manteiga ou azeite, e servida em linhas insones, linhas gourmet. Tomou um banho e deitou-se, nua, olhou lá fora, a brisa da tempestade saudava seu corpo como um amante. Sorriu.

2 – O Homem Girassol

Acordou de manhã, arrastou seu corpo cansado até o chuveiro. Embaçou suas emoções no espelho do banheiro. Sonhou com teu amor massageando-lhe as costas durante o banho. E ela disse que amava todos os vincos do rosto dele e quando ele acordava com os olhos azuis comprimidos e cheios de sono. E o sol que entrava pela janela iluminava o rosto dele, e aquilo era de uma beleza tal como um verbo irregular, ela não conseguia conjugar. Quando chovia, gotas tímidas, aquele tempo indeciso de chove não chove, seu amor era como um girassol em um jardim, ele se encolhia, tímido, e colocava-se a olhar os pés, mas quando o sol imponente se erguia no céu, ele se tornava um rei soberano, e naquele sorriso de homem silencioso, ela não conseguia exprimir em palavras o seu encanto. No canto esquerdo de uma rua, um girassol sorria no jardim.

3 – Maresia de Hemingway

Caminhou pelas areias fofas da praia durante várias horas. Deixou com que as marolas serenas lhe molhassem os pés. Quando seu corpo suava, ela dava um mergulho no mar, e ficou lá, meditando sobre seu eu salgado. Queria ela ter a doçura de todos os dias, mas as horas do tempo lhe trazem sabores e dissabores. Por vezes, sua natureza é amarga, outras horas ardente, nos braços daquele que a chama pra fora de sua redoma de ego e proteção.

As gaivotas se reuniam no céu, um barco pesqueiro balançava no horizonte. E ela se colocava a pensar se era a sorte ou falta dela que acompanhava aquele barco no horizonte. Depois de banhar-se e enrugar todos os vincos da pele, ela sentou-se placidamente na areia, observando a vida ao redor, crianças brincando na areia. O barco pesqueiro chegou à orla, e ele transbordava sorte e cansaço.

4 – Refúgio

Nos papéis perdidos na escrivaninha, em meio de livros, pequenos papéis com meias verdades, com mentiras de fundo vago, cantou uma canção de melodia desconexa. Estava ali lhe fitando nos olhos, um inseto na parede, esfregando as patinhas, ela deveria matá-lo, mas apenas ligou seu ventilador de teto. E quando as hélices começaram a girar numa simplicidade complexa, ela deitou-se na cama, tinha o louvor e o desejo de um Amor não incontido, verborrágico e jogado na sorte, algo ao qual ela não poderia comprar. Os ponteiros de seu relógio de parede pararam. Tinha ela, de comprar pilhas novas?Não, ela queria ali, poder voltar no tempo, e ficar apenas naquele instante que ela tentou em vão manter sua eloquência de raciocínio, antes de ser tomada por um beijo doce e inesperado no seio direito, e mãos tão maliciosas na graça de um anjo diabólico passeando em sua virilha. Desejo.

5 – Domingo à tarde.

Enquanto algumas pessoas rezam indo à missa ou contam piadas na mesa de família, a tarde pedia um banho. Ela negava que naquele momento, as gotas que  caiam no corpo, trouxeram-lhe a doce lembrança de um pequeno rio de vinho correndo nas costas, e uma língua languida. E os dois, talvez, levados pela sensação de uma leve embriaguez, cravou em seu peito e armário de memórias, um momento inesquecível e único. E naquele momento, enquanto as gotas mornas tiravam-lhe a eloquência de raciocínio, ela queria que ele estivesse ali, com seus beijos em sua pele nua. Cada momento, que ela sentia algo escorrer-lhe nas costas, ela sentia o cheiro dele aproximando-se.  Seu toque, ora doce, ora selvagem, uma sinestesia violenta, uma vontade de amar-lhe imoralmente na frente de uma multidão. E o som de piano tomou espaço n’alma. Ela enxugou seu desejo com uma toalha felpuda.

6 – Inverno

Perdeu a beleza dos instantes. Adormeceu no metrô, não viu o título do livro nas mãos do homem que estava sentado ao teu lado. Apenas gravou seu cheiro de água de banho. Em seu sonho de preguiça  numa manhã de uma metrô lotado, ela estava abraçando o tempo e seus ponteiros, e não largava, o enchia de beijos e deixava-lhe  invadir seu ventre numa fúria inconstante. Estava chovendo, e havia neblina lá fora. Nos túneis tristes do metrô há apenas a escuridão, e o monstro de ferro a toda velocidade carregando pessoas encharcadas de sonhos, esperando um pouco de atenção, uma alma de cores entrando em seus mundinhos de tons tempestuosos. Ela continuou ali sonhando, amando a frieza do inverno, e a eloquência de se proteger por debaixo de dezenas de roupas. O inverno silencioso calava sua alma, e diante de  tal beleza, ela se contorcia por dentro.

7 – Delírio

Do alto da sacada de seu apartamento, Lola colocou-se a pensar no tempo e em delírios. Havia uma varejeira grande e verde rodeando o vidro da janela, desejando as migalhas de comida da mesa. Sorte que a porta está fechada. Aquela mosca nojenta poderia entrar e pousar na sua comida, ou nas suas emoções perdidas durante a noite de sono. Segurava uma xícara de café, sua vida insone clamava por cafeína todas as manhãs. A insônia era uma (in)sanidade que a perseguia de noite, debaixo de cobertas, embaixo das hélices barulhentas de seu ventilador de teto, mas dentro dela, um silêncio devastador, que pode ser escutado na banda de pensamentos tão altos quanto o barulho de uma fanfarra em dia da independência. Era um silêncio, quieto, e muitas vezes inoportuno. Seu grito é uma canção muda, escutado por poucas pessoas. Talvez aquela mosca na janela a compreendesse. Porque não?

8 – Mosca

O vento balançava seus cabelos, do alto daquela sacada a vida era miúda, mas não deixava de ser bonita. Era como suas olheiras. Era um fruto trágico, mas ela gostava. A insônia não a tornava mais feia, a Beleza é relativa. Noites mal dormidas tinham seu “q” de beleza. Ela poderia tirar o sábado para dormir, deitar um pouco de suas emoções na luz do dia, e acordar de madrugada para fazer uma xícara de chá e sentar-se na sacada do apartamento, observar estrelas e imaginar uma cena de um quadro surrealista, e talvez cantarolar alguma canção oportuna para aquele dia, cantar baixinho, como o zunzum da mosca inquieta e gulosa que rodeava o vidro. A mosca estava faminta. Se Lola tivesse olhos de microscópio, enxergaria a salivação daquela mosca, suas 4 pupilas dilatadas, lembrou das aulas de Biologia.  Uma mosca pode ter de dois a quatro olhos.

9 – Isabela

Isabela sonhava que estava voando por cima de um campo cheio de lírios, leve como uma borboleta, e o desabrochar de um milhão de flores tímidas encharcadas de lirismo enalteciam sua alma. Ela já estivera ali antes, em tempos remotos, andando em uma velha bicicleta amarela, já enferrujada pela umidade do tempo. E ela corria naquele campo. Nem os urubus na arvorezinha de galhos retorcidos e secos, tiravam a beleza daquele lugar. Naquele sonho, naquele lugar que ela poderia chamar de seu, amanhecia um dia de cores multicoloridas, e seu desejo incontido de ser a nuance principal daquele jardim de delícias e prazeres angelicais, se diluíam quando ela escutou o despertador a chamar para a realidade. Ela que estava tão confortável embaixo de suas cobertas protetoras, acordou com o som do carro de gás que passava na rua e com o latido incontrolável do seu cão. Sentou e chorou.

10 – Irregular

A Beleza é um verbo irregular ao qual não se conjuga. Renata escreveu no guardanapo de papel que seu pai colocou em cima da mesa do café. Embrulhou o papel e meteu ele num cantinho da bolsa. Iria para a faculdade naquela manhã, e estava entediada. Dias de tédio a fazem escrever momentos e lapsos de razão ou a falta dela, em meio de linhas tortas e sonolentas. Ela estava ali, presente de corpo físico, mas ali, nas aulas inúteis, ela pensava apenas em anjos e bisões extintos.  Pensando em seu esconderijo no refúgio da arte, que poderia ter tanto sentido para ela e Humbert Humbert de Vladimir Nabokov e sua Lolita imortalizada. Pensou na imortalidade de seu Amor, ele era como o cântico das baleias, teria de navegar longe para poder ouvi-lo, desamarrar seu barco de beira mar, e navegar em direção da beleza irregular dos olhos dele.

 

Miniconto extra. Presente para os meus leitores.

11 – Trânsito

Lançava-se nos passos na pressa incalculável. De repente, o tempo parou, seus passos diminuíram. Ficaram tímidos, como os olhos dos súditos ao soberano. Na floricultura, da esquina um lindo rapaz com um vaso de lírios. Ele saiu e foi em sua direção com um sorriso. E naquele instante, ela mirou a Beleza sem baixar os olhos. Encarou o verbo irregular, Beleza era teu nome. Estava ali o refúgio da arte que ela tão timidamente não acreditava que pudesse existir. Ela suspirou e perdeu a respiração. Seus olhos de ressaca fecharam-se, e seu corpo padecia no asfalto com pessoas ao redor feito urubus. O rapaz dos lírios foi quem atirou o lençol em seu corpo esmagado pela linha 331. A Beleza a encarou, tirando-lhe toda a razão. O tempo pra ela não tinha mais conjugações e a Beleza com lírios nas mãos exclamou: “Ela não olhou a rua ao atravessar.”

Memórias de uma mulher cansada voltando do trabalho lendo Hemingway.

Eu não quero mais mentir, usar espinhos que só causam dor, pois eu não enxergo mais o inferno que me atraiu…Dos cegos do castelo eu me despeço e vou…A pé…Até encontrar…Um caminho…Um lugar, para aquilo que eu sou…Eu cuidarei do seu jantar…Do céu e do mar…E de você e de mim…

Depois de doze horas de trabalho, chegou uma hora que meus olhos não distinguiam mais as linhas de tabelas, parâmetros e tudo mais. Status report concluído e uma sensação de fracasso que me tomou conta, pois eu acreditava que mataria o gargalo do projeto naquela noite. Foi extremamente desmotivante sair da empresa com uma sensação de peso nas costas. Posso parecer uma pessoa totalmente despreocupada, mas sou perfeccionista em meu trabalho, quero que as coisas saiam dentro dos conformes, e não foi o caso de hoje. Segui meu rumo, andando cansada no meio de todas aquelas pessoas que assim como eu, partiam para suas casas. Minha cara, meus olhos, são de cansaço agora. Escrevo aqui apenas para espantar alguns demônios pessoais, para tirar um pouco da tormenta que me acompanha. Cheguei na passarela que corta a rodovia, respirei fundo, aquela passarela, à noite, no meio das luzes amarelas, em tempos de hora extra são como luzes confortantes. Gosto da beleza das luzes amarelas dos postes e os carros passando, na paz, ora no caos, com seus faróis. Coloco uma música e passo a pensar no dia de amanhã, e que talvez eu consiga resolver grande parte dos meus problemas pendentes. E então eu escuto uma música que me traz lembranças, e um certa sensação de saudade me invade, e então um turbilhão de pensamentos e memórias e por vezes, cheiros, invadem esse coração e memória, e eu suspiro, enquanto ouço os carros passando embaixo da passarela. No ponto de ônibus, pessoas com suas cabeças baixas e mesma expressão de cansaço na face, e então não me senti mais tão sozinha naquele universo. E hoje à noite está uma noite fresca, com ventos que me bagunçam o cabelo e teimam em virar a página do livro que terminei de ler esta noite. O ônibus chega, minguado, com pessoas dormindo e uma inclusive, babando de boca aberta. E a música de Tim Buckley, chamada “Love from Room 109 – Strange Feelin” começou a tocar, e nela diz:

O cheiro de sua pele doce faz complicar o meu sonho
Oh posso ficar aqui por algum tempo vivendo o seu sorriso

Ah, como você poderia saber o que você fez
Você aqueceu meu coração quando eu estava tão sozinho
Mas tudo o que tenho para dar
São os meus sonhos de ir e vir para sempre
Dentro dos rios do tempo você vai me encontrar esperando
Para que você possa encontrar paz em sua mente
Assim, podemos amar de novo

E então um sorriso invadiu meu rosto, mas por dentro, aqui neste frágil coração apenas uma lembrança que pode ficar apenas nos baús da minha memória, e por hora, eu até me culpo de ser tão intensa, muitas vezes devo guardar minha sinceridade apenas para mim, não devo abusar da sorte, muitas vezes eu sou assim, como o Velho Santiago do romance de Hemingway, “O velho e o mar”:

"Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado"
“Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.”

E eu estava lá, no ponto de ônibus do terminal de Barão Geraldo, esperando o segundo ônibus que levaria esse corpo cansado para os braços de minha cama. Fiquei lá, no meio do vento, sentada no banco, solitária com meu vestido vermelho e face cansada. O vento teimava em querer virar as últimas páginas do meu livro do Hemingway. Mas eu estava ali, lutando contra o vento e colocando a minha missão de terminar de ler aquele livro tão encantador. É muito incrível o poder e a forma de como uma boa leitura pode nos golpear a face com luvas de pelica. Estava eu ali, amaldiçoando a minha falta de sorte por ser assim, intensa demais, essa minha falta de noção de mostrar minhas ideias, meus sentimentos, aquela coisa de dar as duas faces para bater. Se me batem, eu ofereço outra face. Simples assim, o tempo cicatriza qualquer ferida, é o que minha sábia mãe dizia, que por sua vez, minha avó já dizia a ela. E por mais que minha mãe sempre me diz que nesta nossa vida, se alimentar de ilusões é um erro, eu sou uma errante, e naquele ponto de ônibus eu tomei uma bofetada ao perceber que nenhum ser humano, nem mesmo o magnífico Hemingway pode reconhecer a sorte e até mesmo a falta dela se aproximando. Eu diria o mesmo, sobre ilusões e expectativas, nós fingimos viver embaixo de nossos guarda-chuvas de ceticismo, mas por dentro carregamos aquela esperança boba e pura que a nossa sorte está chegando sorrindo em noite de lua cheia com vento, com os olhos mais bonitos e desconcertantes que já vimos, mas envoltos numa neblina de mistério.
Naquele ônibus das dez horas da noite, tinham duas mulheres que falavam sobre novelas e BBB, e eu que sempre presto atenção nos detalhes ao meu redor, deixei as pérolas de lado. Quem sou eu para julgar aqueles que gostam de coisas ao qual eu não gosto?As coisas são simples, para conversas alheias e desinteressantes, existe o bom e velho fone de ouvido, ou um livro, neste caso, a história do velho Santiago e sua fé perturbadora nas conquistas e força de vontade. E eu, lendo este livro, vejo que nossa fé nas coisas que acreditamos deve ficar ali, forte e decidida. Só devemos soltar nossa linha quando a Morte chega, enquanto isso não acontece, devemos acreditar na nossa força de pescarmos nossos marlins, e por mais que eles sejam devorados pela falta de sorte, sempre sobra algo de nossos sonhos, alguma carcaça, e mais tarde, alguma pessoa pode enxergar a beleza que nossa falta de sorte trouxe, a cauda de nossa fé inabalável naquilo que acreditamos, pode estar chegando, boiando na beira-costa. Talvez alguém veja e diga:

Não sabia que os tubarões tinham caudas tão belas e tão bem formadas”

A nossa fé inabalável, regada por sorte ou a falta dela, aos olhos dos outros pode ser reconhecida como uma beleza, pois nossos atos falhos nos trazem reconhecimentos, pois com nossos erros vangloriamos mais tarde com nossas vitórias, na alegria ou tristeza, sempre levamos uma boa lição ao deitarmos nas nossas camas à noite. O Velho Santiago dormia em sua cama, sua almofada era sua única calça embrulhada, seu colchão consistia apenas de alguns jornais velhos amontoados, mas aquele velho ali, que tanto amava seu amigo Manolin,e enxergava a beleza nas pequenas coisas, quando fechava os olhos, sonhava com leões, praias de areia branca da África. Humbert Humbert, de Nabokov, sonhava com bisões extintos, anjos e pensava no refúgio da arte. Eu deito meu corpo cansado em minha cama agora, que não é feita de jornais, talvez de alguns livros espalhados que durmo junto quando o sono aparece repentino e sem aviso acordo no outro dia…Acontece, muitas vezes, de eu dormir com um livro aberto no peito, e as luzes acesas. Eu estou cansada agora, quero a minha tão preciosa cama. Enquanto Manolin observa seu velho dormindo, ele sonha com Leões…E eu, incorrigivel, com minha fé inabalável, talvez com sorte ou falta de sorte, ando sonhando com um girassol. E ele está lá, em seu jardim, solitário, talvez pensando anjos e bisões antigos, ou em leões…