Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”

Olimpo.

Estava sonhando. Padeceu em castelos de cristal, construídos por Deuses pagãos do Olimpo. Acendeu velas ao entardecer, ajoelhou-se perante seus medos, lapidados em pérolas de ostras do inferno de Hades. Apaixonou-se pelo cão de duas cabeças, tinha o olhar desconcertante de um brilho que nem todas as plêiades juntas são capazes de seduzir. Ela era como, no céu de Aqueronte, a mulher dos olhos de caleidoscópio.

Acordou encharcada de suor. Abriu as janelas e deixou-se levar pela friagem da madrugada. Seu velho e bom homem dormia ao seu lado como um anjo intocável. Deixou-o lá, com seus sonhos de menino. Pegou as chaves de casa, saiu para caminhar nas calçadas de pedras soltas do bairro do subúrbio. Em volta dos postes, as sombras voavam. Pontos negros de mariposas, rodopiando embriagadas em volta das luzes amareladas que tanto seduziram. Era o céu de Vênus, criado na natureza da imaginação dos que criaram a mitologia divina, de Deuses, raios e trovões. Similitudes, cantando, dançando. A pele dourava-se de Vênus, o coração batia cores, tingidos de paixão nunca atingida, incólume contra o tempo, que não tem hora para chegar. Não existem idas e nem vindas, apenas a imortalidade, bruxas voando em feitiços de bom menino. Atirou-se, de corpo e alma nas estrelas que iluminavam as pedras brancas no meio do caminho.

Bagunça

Estrelas repletas de brilho no céu, poeira e quasares
E todo esse brilho é tão antigo, esparso nesse caos
Refletindo nos olhos como um sol de milhões de noites passadas
E os sons desta noite relaxam meus nervos amo essa bagunça…
Enquanto caminho as luzes estão piscando, amarelas, neon…
E eu estou apenas lembrando doces lembranças dos dias
Reino de tragédias, donzelas com febre, histórias em livros aleatórios
Retirados de uma estante cansada de tanto peso, páginas velhas.
Um dia me disseram, ”prove deste reino distante e bonito”
E o que eu direi?Algumas palavras escarradas ao vento.

Carrego comigo todas as emoções brincantes com minha sombra
Isto é divertido não é?Talvez um dia qualquer eu voltarei a ser criança
Cobrirei meus olhos com velhos filmes de máquinas fotográficas,
Olhando o céu, escondendo os olhos, do brilho eclipsado
Eclipse muito bonito, assim, queimando meus olhos
Talvez eu já esteja completamente cega, mas não creio nisso
O que eu tenho de melhor a oferecer além de minha falta de fé?

Há uma rosa em minha mesa, outrora ela foi jovem
Mas agora ela está a envelhecer, e as pétalas caem em meus pés…
Ao olhar novamente, ela continua bela, ao desfalecer
Se eu pudesse reconstruí-la, eu pintaria suas pétalas,
Com um vermelho vivo mas eu posso, revivê-la?
A beleza de um rosa eterna, desnecessário reconstrução
E numa página perdida eu guardo as pétalas velhas
Guardo o registro de uma bagunça, o que eu acho disto tudo?
E o que estamos fazendo aqui?Vivendo o melhor dos momentos?
Está tudo uma bagunça, eu sou forte demais para entender isso?

Olhos com ressaca, face embriagada, insônia, que bagunça é essa?
Bagunça de minhas emoções, sentimentos sinceros e tresloucados
Perto de minha janela, linda noite inquieta, eu amo o caos
Essa bagunça que tu deixastes há alguns meses, faço limpeza?
Esfrego meus sentimentos com gotas de razão em pó…

Simplesmente, nesta bela bagunça, com minhas rosas desfalecendo
Sapatos espalhados, aromas e páginas velhas, rasgando poemas
Rasgar meus sentimentos fora?Jogar numa fogueira?E as recordações?

Hoje à tarde eu saí para caminhar, e eu pensei nesse caos, nesse cortiço…
E por um instante eu quis, abrir mão e partir. Mas por quê?
Esse reino onde dragões estão vivos e as princesas apenas esperam?
Eu não acredito em contos de fada, um dia a princesa matará o dragão?
Com suas próprias mãos, um dia as princesas roubarão espadas?
Porque nessa bagunça, não há mais cavalheiros, não há fadas, não há nada.
Um muro de utopia, talvez um muro de verdades, surpreenda-se
Caminhava na tarde ensolarada, os carros passavam, as pessoas reluzentes
Emoções estampadas em passos apressados e cansaço descontente
Silêncio…

Invasão de felicidade no meu silêncio particular, caminhando por aí
Bagunça que eu vivo agora, dores bonitas, cores incompreendidas,
Mas o que eu tenho a perder?Perdas e ganhos?Ilusões e expectativas?
Alegrias, Amor, ruas tortas e sem sentido, felicidade, frustrações?
Eu não sei dizer…

Nesta bagunça que deixaste, esse Caos em meu peito estilhaçado
No meu pedaço insone cheio de papéis e livros na estante,
Eu estou atirando meus sapatos nessa bagunça que eu Amo
Convido-lhe a jogar teus sapatos também… Venha então…
Errante desordeiro…

600full-eternal-sunshine-of-the-spotless-mind-screenshot

Atlantic City.

Everything dies, baby, that’s a fact
But maybe everything that dies someday comes back…

Esta noite vejo-me sorrindo, com os olhos brilhantes, tal como um diamante louco negro e todo lapidado. Eu vou colocar a mais bela música, tomar um banho longo, e a água morna irá envolver-me como um abraço, um abraço que eu sinto tanta falta. Olho para o alto, fecho meus olhos, tranco minha respiração enquanto a água escorre pelo meu rosto, e na ponta dos pés, como uma bailarina, eu ergo as mãos, me espreguiçando longamente soltando um suspiro.

Saio do banho, vejo meu sorriso no espelho, rosto molhado e sereno. A vida é muito curta para termos preocupações, por isso eu ando nua pelo quarto, onde as velas são acesas e eu encontro minha felicidade em jogos de luz e sombra.

A infusão de maças e canela me chama. Eu tombo a chaleira e me divirto com as nuvens do calor brincando no ar. Mas as canelas em casca com maçãs inteiras… Não é esse aroma estimulante que eu mais queria agora…

Ouço os carros passarem em alta velocidade lá fora, mas o Tempo passa devagar, talvez ele saiba que é minha hora de amar, enquanto eu bebo um chá, eu penso em você bebendo goles de café, são meus turbilhões de pensamentos, pensando em um toque que não é meu, mãos que não são minhas.

Borrifo em locais estratégicos meu melhor perfume, aquele que eu guardei especialmente para quando for beijar meu pescoço, aquele que me traduz como mulher e lhe dará boas memórias olfativas. Estou cantando um murmúrio, aquela música que está tocando em minha mente, e que tanto faz-me lembrar de teus olhos, pena que o dia não está chuvoso lá fora.

Escolho o meu melhor vestido, soltando meus cabelos. Lembro-me de teu afago doce e suave em meus cabelos ondulados, naquele dia de ventania, e desde então, em dias de vento de outono, cada afago do vento eu acho que é o teu,  queria eu afagar teus cabelos novamente, bagunça-los e deixá-lo zangado, depois ver-te rir perante minha alma de criança levada.

Eu vejo Vênus lá no horizonte, vejo o brilho vermelho de marte, queria ensinar-lhe sobre as constelações, você não sabia o que eram plêiades, mas sabia o que era um conglomerado de estrelas. Eu o completei neste quesito.

A brisa noturna bate no meu rosto, e eu deito em minha cama, fixando o horizonte com olhos perdidos. Eu olho para todos os cantos, vejo minha coleção de canetas, meus livros na estante, minhas garrafas de vinho vazias, mas com as rosas que você me deu. Tenho em mãos agora um enfadonho caderno de prosas, e fora isso não há mais ninguém, a única que me acompanha agora é a saudade e a espera.

Toque a campainha, a porta sempre estará aberta. Entre e fique, veja como eu estou agora, todos os dias eu me pergunto se o Amor não passa de um joguinho besta entre lençóis, mas eu espero que você chegue com teus olhos azuis de dilúvio e bagunce meus cabelos, que rasgue meu vestido caro de boutique do Jardim Cambuí.

Enquanto isso não acontece, eu sigo cantarolando “Something” dos Beatles. Quando eu coloco minhas mãos juntas, quando eu abraço o travesseiro, ou quando eu olho o horizonte e vejo as luzes amarelas da cidade, ao longe, é apenas em você que eu penso, e este perfume que eu sinto agora, é o cheiro que eu quero que sinta em minha pele, a estrela lá fora, aquele brilho do passado, não quero admirar sozinha.
Agora eu posso pintar um quadro seu, com meus crayons, porque eu consigo enxergar todas as suas cores, e eu tenho a esperança, de escutar a sua voz me chamando, para irmos para Atlantic City.

Put your makeup on, fix your hair up pretty and meet me tonight in Atlantic City!

Por quem os sonhos dobram.

Começarei com duas citações, que só serão entendidas ao final do texto:

Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança. Ernest Hemingway

Um bom romance é qualquer romance que nos faça sentir. Ele deve enfiar sua lâmina por entre as dobras do couro com o qual a maioria de nós cobre.  A sensação que nos causa não deve ser puramente dramática, e pronta, pois, a desaparecer assim que ficamos sabendo como a história acaba. Deve ser uma sensação duradoura, sobre questões que são, de uma forma ou de outra, importantes para nós. Virginia Woolf.

Ela dormia, numa noite quente de outono. Deveria estar frio, pensou ela, enquanto se arranjava para dormir, madrugada adentro. Na sua mente de escritora amadora, as madrugadas foram feitas para escrever, elas têm o dom da criação, o poder de imortalizar qualquer forma de arte, desde as mais abstratas, produzidas por loucos envoltos nos absurdos de  suas camisas de força ou perdidos em bairros boêmios  olhos abertos na noite, consciência etílica, porém tão racional, incompreendida por muitos, ignorada ou até mesmo o orgulho. Sim o orgulho, ou olhos desacostumados…Olhos desacostumados, seria medo, passos de menino desajeitado, ocupado, cansado, nos dias de ir e vir, a falta de sorte ou o excesso dela, quem sabe? Estava ela ali, perdendo a insônia, aos poucos, querendo fechar os olhos. Nas suas férias, ela queria apenas escrever, colocar as entranhas pra fora, ganhar algo por isso. Concursos literários estão por vir, queria ela um pouco de sorte, um beijo na cara que ela dá a bater. Mulher corajosa, sem medo, sem vergonha, talvez quase sem limites. A intensidade da alma lhe dói, sentir machuca. O mundo é menos cruel com os insensíveis, aqueles que fazem das pessoas uma marionete numa peça de teatro amador, de quinta categoria. Não era uma atriz, e se fosse, seria uma em teatro shakespeariano, de Amor e tragédia, aos olhos emocionados daqueles que a leem, um olhar perdido daquele que ela ama ou seria um Amor dissimulado, um eco, servido ao molho pardo e alcaparras. Não podemos engolir o eco, engolimos o ego, à seco, mas ecos não, apenas gritamos, e eles respondem do outro lado, tortos e dissimulados, e outras vezes, gritamos e nem o eco responde. O eco também aprecia o silêncio, e ela, não sabe lidar com ele, o Silêncio, mas tenta, caindo feito bêbada, mas sóbria, na sarjeta dos seus sentimentos. Mas ela não desiste, segue mar adentro, com suas folhas escritas, ego emudecido, marolas de razão e sensatez, mas com a sede de viver sem perder os segundos. Enfim, dormiu, e quando fechou os olhos que já o olharam sem medo, mas com um pingo de timidez dissimulada, mãos trêmulas, lábios úmidos…Fechou os olhos e sonhou…

Estava ela na sua velha casa em que morou na infância. Estava apoiada no muro, observando o movimento noturno. Ela estava em um lugar de seu passado, e as crianças que ela via brincando na rua, eram as mesmas crianças que ela brincava na rua sem saída, com seus 8 anos. Ali naquele muro branco, com pintura descascando, algumas rachaduras na parede, calçada com pedras soltas, ela observava, calada.  Saiu de lá, queria caminhar na rua, a lua estava soberba e inspiradora. Saiu pela porta da frente, a que dava pelo jardim, flores mortas, outras vivas, cheiro de terra molhada, mesmo sem chuva. Sonhos nos proporcionam momentos sem sentido, e na cabeça dela, a terra não poderia ter aquele cheiro, a não ser que tenha chovido ou alguém tenha molhado ela.  A terra estava seca, como se há dias ninguém cuidasse de seu jardim. Teve ela uma infância triste, mas com momentos alegres, momentos em que brincava num balanço velho de praça, com o sorriso banguela, corpo franzino. Aquele que a tira da toca, conserva suas fotos de infância. Queria ela, numa tarde de final de semana, não onírica, numa realidade próxima, uma tarde tranquila num dia ensolarado, sentar ao lado dele e lhe contar cada detalhe daquelas fotos, datadas de dezessete anos atrás. Falaria ele sobre as formigas, seu senso de organização, vida em grupo? Eis aí seres em cooperação, nenhum ser em vida é uma ilha, por mais que queremos às vezes nos esconder em nossas cavernas, viver como eremitas, num buraco solitário improvável onde reina uma única formiga, distantes, de tudo aquilo que nós possa machucar ou enganar nossas convicções, dizer à nossa vida que aquilo que nos motiva, que nos dá disposição para seguir em frente, não passa de uma ilusão dos homens, ou sonhos de madrugada quente de outono.

Estava ela lá na rua, sentada na beira da calçada, embaixo de uma árvore cujas raízes quebravam a calçada. Pensou nele, era o que ela mais queria naquele momento, era saber se ele estava bem. Eis que vindo despreocupado, rua abaixo, vinha ele, mãos nos bolsos, boina azul, que combinava com seus olhos tímidos porém tão inquisidores. Chamou o nome dele, ele olhou em direção à ela, deu um sorriso. Deus sabia como amava aquele sorriso. Se abraçaram, abraço leve, rápido, porém cheio de intensidade, um instante que ela queria que não acabasse. Ele a beijou na face, sua barba por fazer causou-lhe um arrepio.

– Está tudo bem contigo?Parece cansado… – disse ela, olhando-o nos olhos, ela não sabia, pelo menos era o que pensava ela, falar apenas com o olhar. Ela queria ser mais silenciosa, agir quem sabe na surdina, falar menos e pensar mais. Seria possível?A razão de seus problemas frente à sociedade retrógrada, era que ela era uma mulher que pensava demais e falava em demasia. Escritores e escritoras jamais se calam. É com as palavras que eles gritam seus desejos, derramam os copos cheio de cólera, abraçam seus amores, beijam, transam, imortalizam aqueles aos quais se apaixonam, mesmo sendo imoral, na visão de Oscar Wilde, ou seria na visão de seu personagem Lord Henry? Personagens são ecos disfarçados daqueles que os criaram. Cada criação carrega um pouco da vaidade de seu criador, algumas mentiras, meias verdades, e um poço profundo cheio de sinceridade que por muitas vezes dói. Em tempos de idade média, o silencio tímido de uma mulher era tido como algo de obrigatoriedade. Em tempos modernos, em tempos de machões que acham que vivem numa época feudal, de vassalos e servos, a mulher ainda tem de ser mantida na sombra, no porão escuro de seus desejos. Mulher não tem o direito de desejar…Reprime…Eis aí o coeficiente da razão tingida de cores mesquinhas. Até quando, pensa ela?

Ele disse que estava cheio de coisas pra fazer, tinha acabado de chegar do trabalho e estava apenas caminhando para colocar os pensamentos em ordem. As crianças continuavam a brincar, mas parecia que o tempo parou ali. Queria agarrar os ponteiros do relógio e não largar mais. Chamou ele, pra uma festa, no final de semana sabia ela que ele não teria tempo, ou não teria vontade, ou sabe-se lá mais o que.  Aquele homem ali na sua frente, era uma incógnita, o brilho de uma estrela incompreendida, e que talvez já morreu, mas seu brilho, na mente dela, durava anos luz, e nunca morriam.    Ele foi embora, pensativo, dobrou a esquina. Ela ficou parada, na rua, vendo ele partir. Voltou pra sua casa, e ficou apoiada no muro, talvez ele voltasse. Talvez…

Pausa, ela não se lembra o que aconteceu naquele meio tempo, durante seu sonho. Talvez ela brincava com os cachorros que teve correndo e cagando pelo quintal. Talvez ela estava a olhar para o céu, tentando entender as estrelas ou ser abduzida por extraterrestres do Arquivo X. No trecho que se lembrou, ela estava sentada num banco de jardim, ao lado da escada que dava pra garagem, que ficava na parte subterrânea da casa. E lá veio ele, subindo as escadas, mãos fora dos bolsos, cabelos desalinhados, a boina sumiu… Coisa de sonho, ou talvez ele tinha perdido, ele lhe disse um dia que costumava perder ou esquecer as coisas. Igual ela, esses dias, ela perdeu as chaves de casa, chegou em frente de sua casa e esparramou as coisas da bolsa na calçada de concreto liso. Era tarde da noite, incomodou a senhora que alugava sua casa a preço de banana. Ela apareceu, de pijamas, e lhe deu uma cópia das chaves. A música de Adriana Calcanhoto na cabeça…

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será, que você está… Agora?

Estava ele lá, na sua frente, disse-lhe que iria para a festa ao qual foi convidado. Os olhos dela sorriram, sua boca o fitou, sim, essa mistura sinestésica, queria sentir o cheiro dele, na pele…Foi embora, lhe deu um sorriso tímido, daqueles de canto de boca. Deixou seu cheiro no ar, junto com a saudade de seu sorriso de fração de segundos.

Como o tempo em sonhos não tem uma ordem cronológica lógica, o final de semana chegou rápido. Ela saiu do elemento cenas da infância em tempos presentes, e estava no local onde seria a festa. Era uma chácara grande, num bairro conhecido da sua cidade, com um casarão cheio de suítes, com grandes janelas que davam para o horizonte. No horizonte daquela janela, haviam vários templos religiosos, grandes sultuosos, seria que aquele sonho, o seu inconsciente talvez a estivesse chamando atenção para sua falta de crença, ou falta de atenção para o seu lado espiritual? Esta foi uma das incógnitas, que ficou questionando quando ela abriu os olhos marejados. Ela tomou banho, colocou seu melhor perfume, preparou-se, um ritual, cheio de felicidade. Escutou um barulho, estava de biquíni, desceu as escadas do casarão, parou na porta, ainda colocando desajeitadamente um vestido por cima da roupa de praia. Ele chegou, estava de camisa, branca, olhos de dilúvio, sorriso, olhou pra ela com expressão de desejo, rindo do jeito desengonçado com ao qual ela tentava colocar o vestido enquanto caminhava, ela suspirava  esbaforida, uma ansiedade e um desejo incontido. Abraçou-a fortemente, deu-lhe um beijo, que somente os que vivem a intensidade das brincadeiras do inconsciente, podem sentir. Parecia tudo muito real. Ele estava suado, no abraço, sentiu as costas dele molhadas, a camisa estava úmida, ela também. Ele perdeu-se no cheiro de seus cabelos molhados, na delicadeza do tecido do vestido que a cobria. Ela sentia o cheiro dele, um cheiro natural, bom, de homem feito, uma mistura de sua colônia borrifada de manhã, resquícios de perfume fabricado com o mais divino cheiro natural. Ela tinha aquilo com ela, ela é de uma natureza selvagem, e aquele homem a decifrava com os olhos, sem dizer uma única palavra, ela se perdia, ele interpretava seus mitos, sabia ele que ela era uma mulher que corria à frente dos lobos, perdida em pradarias, estepes, mas sempre sem perder o medo, mostrando os dentes, salivando de desejo, na cólera, na raiva, na emoção, no Amor, na dor, em todas as quatro estações. E ali naquele abraço, tão real, tão sensato, ele lhe disse ao pé do ouvido:

– Tome um banho…comigo…

Sabia ele, que ela já havia feito isso, e talvez sabia, que ela faria de novo…E de novo…Até toda a sua pele ficar enrugada. Uma mulher intensa cheia de sentimentos, não perde seu tempo, ela aproveita até o último momento, e quando o momento não foi aproveitado por n razões, seja por freios do ego ou orgulho, ela se lamenta, até a último segundo de tempo perdido. Ela abraça os ponteiros do relógio, e propõe ao Tempo um jogo erótico. Talvez, se o Tempo pudesse ser levado na base da chantagem emocional ou sexual,  estaria todo boêmio, cheio de doenças, todo mundo seria imoral, até aqueles que se recusam a cair na tentação. Todos nós nos entregamos à ela, quando não conseguimos lutar mais.

Subiram para o quarto, eles contemplavam o horizonte na janela, cheio de templos. Chamava a atenção, naquele horizonte, um templo budista amarelo, igual a cor de um girassol. Os monges regavam um jardim, e um deles segurava um vaso com um lindo girassol. O sol brilhava lá fora, e o girassol estava imponente, soberano como o seu semelhante que reina no céu.

Ela acordou, com  estrondo do trovão. A noite que começou quente, trouxe o frio sereno e agradável do Outono. Estava deitada, num colchão, na sala da casa do irmão. Acordou suada, e viu que agarrava o travesseiro, o abraçava, e ele estava molhado. A triste realidade a deu uma bofetada na cara, seu Amor não era um homem, era um travesseiro, e ela estava sozinha, ali naquele lugar, no escuro. Subiu no sofá, estava amanhecendo, olhou a manhã tímida querendo nascer, bocejando pra ela. Escutou o som dos pombos imundos que ficam no telhado do prédio, viu os líquens brotando nas paredes rachadas do prédio, viu o brilho das luzes acesas, sombras de pessoas que assim como ela, acordaram para a vida. Foi o sonho mais lindo que ela já teve, ela estava suada, era como se o abraço dele tivesse aquecido, como se tivessem transado até as forças se acabarem, e deitarem um ao lado do outro. Quando se deu conta de que tudo era uma pegadinha do inconsciente, pegou um caderno, uma caneta perdida em cima da mesa. Deitada no sofá, começou à escrever, e você, querido leitor, está lendo sua alma cheia de sonhos…

“Todos precisam de alguém para conversar – disse a mulher. – Antes tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”

Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway

Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.
Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.

Aos olhos do rei.

Ninguém sente dor nenhuma durante a noite. Aqui parada embaixo da chuva, estou sem pressa, esperando nas esquinas das minhas emoções. Talvez um ramo de flores em minhas mãos, e sentirei toda a pureza das pétalas, e posso pensar em tão suave era sua carícia na noite passada. No meio das coisas banais, há ossos e tendões, há um coração batendo forte no peito, há veias pulsando em baixo ventre, e é de noite que eu me emociono, mesmo sem a presença do ramo que lhe toca o ventre, suave como uma primavera repentina, as borboletas dançando no estômago, são as mãos de um fidalgo, tal como Dom Quixote num mundo tão perdido e sem emoções dos olhos nus. Os olhos nus, se cobriram de véus, mas o tempo chegou e a encarou com os olhos, e então nos devoramos um ao outro sem pressa. Talvez eu seja apenas uma garotinha, talvez ele seja apenas um homem incomum, esbravejando contra os muros, um homem incomum de coração de ouro. E na rivalidade do tempo, o vento lá fora está esbravejando demônios, e nossos corpos se perdem em saliva, suor e desejo. Não tema o frio que chega nesta noite, e nem a aproximação dos meus olhos grandes junto aos seus, se o frio atingir-lhe, vou cobri-lo com meu afeto, e minha simples vontade de lhe abraçar. Não tema o desejo da noite, não tema o luar encoberto por espessas nuvens. Está relampeando lá fora, eu posso me assustar com o barulho dos trovões, e esconder-me por debaixo das cobertas. Posso fechar-me dentro de minha redoma, mas terás permissão para entrar. Chega de mansinho, como quem não quer nada, e jogue seu pano de estrelas em meu céu, que antes então tão cheios de nuvens e sem brilhos, ganhou tons de aurora boreal. E eu estremeço, quando sinto seu cheiro se aproximar, invadindo meu sonho à noite, e um milhão de sensações a gritarem madrugada adentro. Deite-se aqui ao meu lado, e eu lhe contarei uma estória e darei um beijo em teus ombros e olharei em seus olhos, como um gato que olha nos olhos do rei, sempre com fome…

E nunca acaba, dou meu reino por um beijo em seus ombros…

Mova-me

As ondas, quebradas à beira mar…
Molhando meus cabelos, meu corpo…
Sinto então o salgado mar, que ironia!
Escorrendo nos lábios, já sentiu isso antes?
É desconcertante, a sensação,
De um milhão de fagulhas salgadas,
Meu suor, minha dor, meu paladar,
Tudo tão salgado…Áspero…
Feito o mar de todos os Deuses,
Feito a areia que escorre entre os dedos…
O sol, a iluminar, o meu sorriso, incrédulo?
Talvez…
Os olhos, os cabelos, o rosto…Quentes,
Com os raios de sol que um dia nos matará,
O fim chega pra todos nós… e o meu Amor?
Acabará um dia, ou o levarei comigo,
Para uma eternidade, um lugar que ninguém,
Nunca voltou pra dizer que existe…Sou cética?
Talvez…Mas meu Amor, olhe o céu lá fora…
Cores alaranjadas, raios de luz, estrelas brilhantes,
Por um instante, um único instante, porém tão Eterno…
Eu olho para os céus, inquieta…e me calo,
Me calo na calada da noite, nos raios de sol, estrelas…
Mantenho-me calada…O silêncio me move.