Eppur Si Muove

Outrora, eu tinha voado. Não sei se foi em um sonho, provavelmente sim. Lembro-me que quando eu era criança, eu acreditava que se eu comesse asa de frango, eu poderia voar, e sim, eu era criança e não fui atenta ao fato de que frangos não voam, mas a risada dos adultos diante de meu sonho Ícaro, voavam até o vizinho mais distante. Hoje a única asa que eu me permito ter, são as asas da imaginação, e uma viagem frenética de deja-vu por hora.

Dias atrás fui caminhar. Caminhei durante duas horas, escutando música ou apenas um eco de meus pensamentos. Era necessário sair para espantar alguns fantasmas que andam me atordoando, e esquecer aquilo que me tirou do eixo. A racionalidade me pegou, assim de surpresa. Então coloquei os livros de um presente esquecido propositalmente de ser entregue na minha estante. Vejo lá o meu amigo Fernando Pessoa, com uma fita de cetim separando o poema eu marquei como o meu preferido. Foi a primeira vez e assim espero que seja a última, que eu nunca entreguei um presente ao qual gostaria de entregar. Porra, é tão chato isso! Eu poderia entregar-lhe em casa, mas nunca entreguei um presente à alguém sem olhar nos olhos. Na Europa, não sem brinda sem olhar nos olhos. Eu não entrego presentes sem olhar nos olhos. Eu não ligo pra teu desconforto, eu sou mais simples do que imagina. Se isso não é possível, engulo meu orgulho, certas coisas eu carrego junto ao meu egoísmo. E a leitura, ou releitura dos livros que eu não lhe dei, terá um gosto, assim, triste. Não gosto de guardar mágoas, mágoa tem gosto de fel. A mágoa é amarga, é dura de engolir, não tem tempero, sem nada. Mastiga, mastiga e mastiga. As mandíbulas doem, e você não quer engolir, mas seria horrível cuspir aquele pedaço de Amor intragável, não diluído tentamos em vão, talvez, aceitar nossa condição, nossos erros, nosso amor e desamor. Engolimos, em seco, ou com um pouco de água. A garganta dói, é nosso orgulho passando. Entra no estômago, dá uma indigestão, mas aceitamos. Simplesmente, aceitamos. A razão, quando chega, destruindo nossas emoções cheias de lembranças, embriaguez, flores, cidade distante no horizonte, sonhos de homens que atordoados, caem na cama ou sarjeta, esperando por dias melhores. A verdade dói, mentiras são muito mais confortáveis, e a verdade volta com a necessidade de esquecermos algo que em nossos sonhos de Dom Quixote achamos que eram recíprocos. Dom Quixote amava Dulcinéia, e achava que os moinhos de vento eram dragões. Minha consciência é o Sancho Pança. Ela sempre, como um fidalgo montado num burrico, tentou me avisar, mas eu era como (ou ainda sou?) como Dom Quixote. Ora Sancho como tu és besta! Assim como Dom Quixote, tenho o mal da fome em excesso, o Amor às causas perdidas, as dores do mundo não me bastam em meus ombros, sinto todo o Amor do mundo, e mesmo sendo besta e atordoada, me contento com a tua falta de atenção. Sim, um Amor besta às causas perdidas, ou talvez desconhecidas. Há um frio no estômago a quem me dirijo as palavras, e o frio emudece, como uma pradaria no inverno. Escuta-se apenas o eco do vento e o uivar dos lobos, mas só me sobra, ou nos sobra, um silêncio sepulcral, algumas palavras talvez por pura obrigação ou aquele medo de ser cruel sem querer.

Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga “eu não acredito no amor”, a vida sempre nos surpreende. (Dom Quixote)

Dom Quixote era um besta. Morreu louco. Ele nunca desistiu. O velho de Hemingway também nunca desistiu, foi inclusive dormir em sua velha cama forrada com jornais, e sonhou, com as praias de areia branca. Na minha praia não existem leões, nem pegadas. Estou sempre em alto mar, mas eu não espero nada. Nada mais. Minha garganta dói até agora. Tenho os marcadores de cetim dos livros sorrindo pra mim. Talvez apenas eu ache marcadores de cetim algo bonito. Talvez apenas eu ache que o poema do Girassol do Alberto Caeiro traduza a alma de alguém.

O meu olhar é nitido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando pra direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo… (Alberto Caeiro)

Eu fui uma trouxa ao reler “O retrato de Dorian Gray” enquanto esperava no aeroporto apenas para marcar teu trecho favorito e entregar-lhe. Sempre achei bonita a comodidade de abrir uma página marcada por fita de cetim e ver ali, um trecho que marcou-lhe a vida. Escutar teu trecho em um tablet é algo moderno, mas você consegue sentir a aspereza e a beleza da sabedoria impressa em palavras? Amo o toque. Gosto de passar os dedos numa folha de papel. Gosto de livros antigos, eles tinham a nobreza do cetim.O Amor possui a beleza sensual e suave do cetim, mas é ao mesmo tempo, áspero como as páginas de um livro velho. E um velho Amor áspero, fica guardado lá na estante. Ficamos olhando a capa já tão surrada, as páginas desejosas das traças. Se eu pegá-lo de volta uma rinite viciante recomeça. Tento curar minha indisposição com um xarope chamado Razão. Mas Amor é como uma droga. Basta sorrir, e o vício volta. Pego os teus livros não entregues, coloco-os numa caixa, e volto a forrá-la com papel de seda azul, prender o laço que eu comprei pronto, pois não sei fazer laços. Odeio amarrar sapatos, mas faço, por pura força da necessidade.  E eu fico, com minhas emoções desvairadas e simples aos olhos dos poucos que me compreendem. Fico aqui, em meu silêncio, uma pagã triste com flores no regaço. A velha garrafa com rosas ainda pousa na minha cabeceira, ao lado de Cervantes e Ernest Hemingway. Teus livros que eu não entreguei sorriam, e na metáfora eles olham pra mim com aquele olhar que você nunca teve, aquele que você nunca se esforçou ou por desacostume e desconforto, nunca ousou em mostrar. Minha rinite está atacada. Meu xarope de Razão acabou. Eppur Si Muove…

Ansiedade e os moinhos de vento.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Fernando Pessoa)

Ser ansioso é ser idealista, é ter pressa, das coisas acontecerem, pressa da chuva passar rápido e colocar-se a correr nu pelas calçadas da cidade de pedra. Digo correr nu, porque pessoas ansiosas vivem constantemente nuas, são pessoas intensas, mesmo aquelas imersas na timidez, que não se permitem sair da toca, por medo de serem julgadas, mas que todas as noites, muitas vezes insones, coloca-se a pensar no tripé “E se”, “Será”, “Quando”. E então imaginamos um turbilhão de possibilidades para o nosso mundinho, um milhão de situações em que imaginamos nossos castelinhos de areia construídos de maneiras diferentes, e sempre nos cobrando por castelos perfeitos que nunca sejam destruídos quando a marola chegar. Às vezes é uma marola tão mansa, tão calma, que apenas molha nossos pés, mas nós a vemos como um maremoto prestes a engolir uma linda cidadezinha litorânea.Eu costumo citar o Dom Quixote, um fidalgo que confunde inofensivos moinhos de ventos com dragões enormes, e vale lembrar que hoje, as Dulcinéias é que matam seus próprios dragões, talvez pela pura ansiedade nossa, das mulheres, de tomarmos um passo à frente e ficar roendo as unhas ou comendo barras infinitas de chocolate Talento.

"Sonhar o sonho impossível, Sofrer a angústia implacável, Pisar onde os bravos não ousam, Reparar o mal irreparável, Amar um amor casto à distância, Enfrentar o inimigo invencível, Tentar quando as forças se esvaem, Alcançar a estrela inatingível: Essa é a minha busca." Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha
“Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.” Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha

E assim vamos levando nossos dias, nós pessoas ansiosas, que sempre queremos o aqui o agora, que nos aborrecemos com o fracasso, com conclusões precipitadas, queremos nossos ideais realizados da noite para o dia. Nós planejamos para ontem, e quando nosso escopo de vida se atrasa, nos martirizamos por não ter chegado e fincado nossas espadas de aço no coração de nossos dragões, que são nossos medos, angústias, sonhos, amores, e até a tão cruel e desnecessária vingança. Temos pressa e ouvir e ser ouvidos. Temos pressa de Amar e sermos correspondidos. Esperamos um telefonema que nunca chega, uma conversa que nunca nos chama, esperamos sempre por algo que nos faça sair da toca, algo para dividirmos nossa tão esfomeada ansiedade. Entramos embaixo do chuveiro cinco horas da amanhã, e já pensamos nas cinco horas da manhã do dia seguinte, olhamos nossa cara amassada no espelho e já imaginamos as olheiras do dia seguinte. Construímos nossas estruturas em cima de uma base, e estamos sempre torcendo para nossa base nunca desmoronar. E quando ela desmorona, no dia seguinte já queremos nossas estruturas abaladas novamente no lugar. Por quê?Pra que tanta pressa?Nós pessoas Ansiosas, estamos sempre correndo contra as areias do tempo, nossa calma esvazia-se em poucos segundos, mas muitas vezes escondemos nossa falta de calma em um rosto sereno e dissimulado, deixamos nossas emoções desafloradas dentro de um vaso guardado num armário à sete chaves, dentro de nossa bolha de proteção. É o medo de sermos julgados, de ver nossos anseios jogados no lixo, como uma estratégia mal feita em um jogo de xadrez. E talvez, esses nossos atos sejam apenas por Amor,por Amor às nossas causas que quase sempre as pessoas ao nosso redor acham que são perdidas. Jaz aqui, uma ansiosa forte e decidida, por Amor às minhas tão queridas causas…PERDIDAS?

Tudo bem… Até pode ser

Que os dragões sejam moinhos de vento

Muito prazer… Ao seu dispor

Se for por amor às causas perdidas

Por amor às causas perdidas

 

* Este texto foi escrito em pedido a uma amiga, publicado no Facebook via nota, e no site MLD Quadrinhos, ao qual também escrevo.

Aerodinâmica num tanque de guerra.

We were born and raised in a summery haze
Bound by the surprise of our glory days
Domingo, 03 de março de 2013
Local: Empório Dona Bella, Shopping Dom Pedro


Detalhes sórdidos ou não:

  • Há orquídeas na parede, não sei se são reais um de plástico, mas não deixam de ser bonitas.
  • Nas prateleiras, existem lindas corujas esculpidas em madeira.
  • Cheguei lá 15h00 e saí 22h30. Sim…aprecio meus instantes de solidão.
  • Tocou Jack Johnson,  “Upside Down”, Adele, “Someone Like You” e Joss Stone, “Tell me what we are gonna do now”.
  • Meu celular estava com a bateria no berro. Pedi para o garçom para carregar. Ele tinha um carregador. Achei muita gentileza da parte dele. Viciados em tecnologia é assim, uma merda. Sinto saudades dos tempos das cartas. Era algo assim, mais sincero e espontâneo, e forçava as pessoas no velho e lindo hábito de pegar uma caneta e um papel, e escrever um pouco. Hoje o ato de escrever se remete a conversas abreviadas e cheias de gírias numa tela de comunicador instantâneo.
  • Vinho me traz saudades, uma saudade daquelas que eu nunca senti.
  • Corinthians e Santos estavam jogando, até o momento em que chego nesta linha, no papel de meu bloco de anotações, o jogo estava zerado. Chupaaaaaa Corinthians!
  • Estava, entre goles e garfadas de carpaccio, lendo “O Homem Despedaçado” pela terceira vez. Sim, eu leio e escrevo coisas em restaurantes, e não tenho vergonha dos olhares incrédulos e por vezes curiosos.
  • O resto daqui pra frente, será altamente emotivo, imoral talvez, porém extremamente sincero. Não escrevi isso devido a uma talvez embriaguez, escrevi isso pois é essa a minha forma de ser. No meio daquele turbilhão de pensamentos que por vezes instalava a tormenta, por outras oras, um sorriso tímido com tons de saudade. Imoral seria eu ter escrito tudo isso aqui ficado quieta. Apesar de eu ser uma mulher com entranhas para fora, não sou previsível, sou uma caixa de surpresas. Não é porque eu escrevo o que eu sinto e penso, que as pessoas podem julgar que me conhecem.
  • O intuito era escrever um conto de apenas 150 palavras para um concurso literário, mas o vinho me trouxe lembranças, e aí todo o meu planejamento se transformou em uma carta de amor em tons de Almodóvar. Eu não aprendo, devia ter ouvido minha mãe quando ela me disse para não ilusões nesta vida. Eu um dia, fiz um desenho em letras artísticas, pendurei na porta do meu quarto. Toda vez que eu acordava, eu olhava para a frase, e via a frase “Não tenha ilusões”. E eu repetia aquilo comigo mesma, como uma forma de oração. Meu coração foi duro e frio por longos períodos. Eu havia prometido a mim mesma que não me deixaria levar por um belo par de olhos. Mas, novamente a vida me prega uma peça, me mostra um poema de Petrarca, e eu mulher incorrigível, deixo-me levar pelos erros e tropeços de nunca saber ficar quieta. Antes, meus amores eram platônicos, eles não precisavam saber que eu existia. Apenas deveriam saber do meu falso desdém.  Mas hoje, eu, Ana, com 25 anos e velha demais para baboseiras de adolescente e ciente que a vida é curta demais para nos escondermos, enquanto escrevia em folhas, naquela mesa de um restaurante chique, eu tentava dissipar meus pensamentos para o meu livro de francês,e as páginas de um homem despedaçado.

 

Mas a única coisa que eu pensava, era no meu delírio de uma mulher despedaçada, uma mulher fitando uma mosca no vidro, e querendo por vezes ser apenas uma migalha de pão.
Mas a única coisa que eu pensava, era no meu delírio de uma mulher despedaçada, uma mulher fitando uma mosca no vidro, e querendo por vezes ser apenas uma migalha de pão.

Trecho esparso, onde tudo aconteceu, a primeira estocada da lembrança sublime de um domingo de madrugada. Estava eu na minha segunda taça de vinho Merlot, e mastigando minhas convicções como o pedaço de carne crua com rúcula que eu devorava.

  1. E por um instante, eu chorei. Derrubei uma lágrima triste de canto de olho, e eu nem ao menos havia percebido. Ela escorreu apelo meu rosto antes que eu me desse conta. A lágrima escorreu e molhou minha camisa de seda vermelha. Disfarcei. Não gosto de extravasar minhas emoções em público. Não gosto da minha linguagem de olhos emocionados. Eu sempre procurei passar a imagem de uma fortaleza inabalável. Poucos me viram chorar, e ali, naquele momento, quando vi que não conseguiria segurar, fui ao banheiro. Encarei minha face no espelho do banheiro, por alguns segundos, senti-me estilhaçada, e recolhendo meus cacos, um a um, enquanto pegava o papel para enxugar os olhos. Respirei fundo, voltei pra mesa, o jogo do Santos e Corinthians continuava a rolar no telão. Minhas emoções também nunca acabam, rolam ladeira abaixo e não há lei da Física que as impeçam. Continuo dando meu reino por um beijo em teus ombros. E nunca acaba, nunca acaba…

E depois dessa sensação, começou aqui o fluxo para livrar de meu caos, que há um tempo me atormenta. Eu me responsabilizo pelas consequências que virão depois do estiver daqui para baixo, mas arrependimento é uma palavra que não me pertence. Seu eu pudesse voltar no tempo, cometeria os mesmos erros novamente, permitiria sentir todo o meu Amor novamente, sim, eu sou uma errante. E aliás, não acho que seja um erro. E se for, talvez eu aprenda algo com ele

Então, vamos lá, vou começar aqui, minha prosa não fictícia:

 

 É preciso ter uma quantidade considerável de coragem para ser escritora, uma coragem quase física, do tipo que se precisa para atravessar um rio sobre troncos flutuando. (…)

Depois de um domingo perdida entre ideias e cochiladas aleatórias, resolvi sair, seja lá acompanhada ou não. Eu já acostumei-me com minha solidão, ela não me intimida mais. Eu faço um convite, simplesmente não ligo e não acho ruim que não me respondam, na minha brincadeira de aceitar minha própria solidão, aprender e conviver com ela, de forma que eu fosse uma pessoa melhor, fez de mim uma pessoa mais sensata neste quesito. Mas não nego que a companhia ao qual estendi meu convite, se estivesse ali ao meu lado, talvez me ensinasse a ser uma pessoa mais silenciosa, sim, mais silenciosa do que eu já sou, mas gostaria muitas vezes de não ter minha habilidade de me exprimir bem com as palavras. Gostaria de aprender usar apenas os olhos, e palavras verbalmente escritas, apenas no momento certo.


Fiz meu ritual de domingo, acendi umas velas no banheiro, escolhi uma fragrância na minha tímida coleção de incensos. Abri o chuveiro, coloquei na chave “morno”, naquele começo de tarde de domingo, enquanto algumas pessoas rezam indo à missa ou contam piadas na mesa de família, minha tarde pedia um banho e um  tempo calmo, embaixo das gotas mornas do chuveiro da minha tão simples morada. Eu não vou negar que naquele momento, que as gotas que  caiam em meu corpo, me trouxeram a doce lembrança de um pequeno rio de vinho correndo em minhas costas, e uma língua lambendo languidamente minhas costas. E nós dois, talvez, levados pela sensação de uma leve embriaguez, cravou em meu peito e no meu armário de memórias, um momento inesquecível e único. E naquele momento, enquanto as gotas mornas me tiravam a eloquência de raciocínio, eu queria que estivesse ali comigo, com seus beijos em minhas costas nuas. Cada momento, cada talvez maldito momento que sinto algo escorrer minhas costas, eu sinto teu cheiro aproximando-se  seu toque, ora doce, ora selvagem, uma sinestesia violenta, uma vontade de amar-lhe imoralmente na frente de uma multidão.

É um cheiro de sexo, é um cheiro teu, me chamando embaixo do chuveiro, são teus olhos azuis desconcertantes, imorais, absurdamente imorais, uma tentação que me provoca, e eu me entrego à ela. É a lembrança dos teus olhos, nos momentos que eu me permiti perder a vergonha e olhar para dentro deles, é a lembrança deles que deixaram meus olhos marejados.

Enquanto eu escrevia naquele restaurante, quando eu olhei para o telão, para disfarçar a minha vergonha, estava passando o jogo do Penapolense e São Paulo, que estava ganhando. Jogos do São Paulo fazem-me lembrar do meu avô, torcedor deste time desde os tempos da mocidade. Lembrei-me de quando meu irmãozinho nasceu, ele contava o tempo para chegar o primeiro ano do meu tão querido irmão, para presenteá-lo com um uniforme do São Paulo. Meu irmão, quando nasceu, tinha os mesmos olhos lindos tais como os teus, mas o tempo passou e ele herdou os olhos escuros da família. Eu amo os olhos do meu irmão, assim como os teus, e isso aconteceu no primeiro instante em que levantei meus olhos do livro e vi você chamar meu nome. Mas esta história, você já conhece. Deves pensar que eu estava bêbada enquanto escrevia isso, eu estava na minha quase quarta taça, mas eu preciso de muito mais para ficar totalmente fora do meu mundo real. Pode ser que o vinho me deixou desavergonhada o bastante para pegar uma caneta que carrego na bolsa velha e sem zíper, uma caneta que estaria ali aguardando o tempo certo para um momento sensato. Sim, estou completamente sensata, o vinho faz apenas eu suspirar mais, um suspiro leve, faz meu peito levantar-se mais rápido, e um calor subir gostosamente até a nuca, mas ele não traiu minhas convicções, nem meus sentimentos aqui expostos.


Não é fácil me levar para o lado romântico da Força, você, homem silencioso e digno do meu tempo quem sabe perdido, ali naquela mesa de restaurante chique. Eu escrevo aqui com minhas linhas tortas, porém sinceras. Permito-me escrever aqui o quão perturbada tu me deixaste, ao surgir em minha vida. Não, não estou culpando-lhe de nada. A palavra perturbação aqui tem seu lado poético, e não literal. Sua personalidade questionadora e segura de si, fez-me não sentir-me tão sozinha neste mundo. Até então eu acreditava que pessoas como você não passavam de um delírio de um personagem de um conto clássico. Eu não acredito em perfeição, eu sei exatamente que nesta vida, o segredo é saber lidar com as imperfeições e angústias de nossos próximos, e não surgir apenas quando as coisas estão relativamente boas. Por isso, se eu pudesse, eu lhe perguntaria todos os dias, “Olá, tudo bem contigo, como foi o teu dia?”, ou uma vez por semana, eu perguntaria isso no plural, “como foram os teus dias?”. Pode ser que nossos corpos não se toquem mais, eu digo pode ser, pois odeio tomar conclusões precipitadas. Eu tenho toda a calma e paciência deste mundo. Talvez a ocorrência entre nós tenha sido apenas um momento ou um conto pornô aristocrático.


Eu, naquele restaurante, com minha saia longa e camisa de seda vermelha, ansiava um momento em que seus olhos lânguidos me olhassem de tal forma como se quisessem desamarrar o laço de minha camisa. Eu queria teus olhos naquele momento, olhando para dentro de minha transparência, enquanto eu me concentrava e suspirava na taça de meu vinho, enquanto eu baixasse meus olhos tímidos, a ponto de não querer me entregar tão facilmente, entregar meus sentimentos que há tanto tempo eu bradei aos quatro cantos, que essa pieguice não me atingiria. O Amor é brega, mas ele é bonito… Dizem por aí que a bebida entra e a verdade sai. Eu estava fazendo algo exclusivo em minha vida. No momento em que as músicas boas pararam de tocar, dando espaço para a merda do sertanejo universitário, musicas de gosto bem duvidoso, eu permiti que o som não me incomodasse, e eu então continuei com minhas impressões no papel. Eu não tenho expectativas de um amor pra vida toda, eu não sei nem se estarei viva amanhã, criar expectativa é algo cruel que praticamos para prejudicar sem intenções de parecer algo insensato. As expectativas são inimigas da tão querida e importante Razão, tão logo eu digo que o meu melhor amigo é o senhor Tempo, me encarando nos olhos com o passar dos dias. Ele é a maior caixa de surpresas do universo, e eu me curvo perante um lindo relógio arquitetônico. O Tempo é meu fiel e melhor amigo, mas confesso que anseio que os ponteiros dele andem às vezes mais rápido que o habitual. eu conto as horas, minutos e segundos, eu anseio por teus beijos, pela tua linha lânguida de pescoço e os teus braços. Sim, eu amei seus braços, os detalhes das veias e tendões. Por mais que no momento em que eu escrevia isso, eu estava com taninos em altas concentrações, estou agora, sóbria o suficiente para escrever que amei cada detalhe do teu rosto, cada tom de sua voz, e a sua risada é algo tão sublime, que me faz esquecer que a vida seja mal humorada na maior parte das vezes.



Permita-me ser imoral o bastante, apesar de não me achar imoral em nenhum momento, pois eu não sou um eco, eu escrevo aqui porque desde os meus quinze anos, eu deitava minhas impressões no papel. Eu não sei muitos miligramas dos teus pensamentos sobre minha pessoa, e confesso que isso me deixa loucamente excitada, a mesma excitação que eu sinto quando pego o ônibus para ir ao trabalho  todas as manhãs, e encontro um jardim de Girassóis plantados em plena rua de subúrbio de uma cidade de pedra. Qualquer dia, se quiseres, eu lhe levarei até este jardim, que me faz lembrar alegremente de ti, todas as manhãs, manhãs que ao lembrar-me de teu rosto iluminado pelo sol, me traz um arrepio, e eu me contorço toda, e sinto várias borboletas em meu estômago. Eu queria ser a borboleta que pousa sensualmente e beija a face do girassol, a borboleta que deita em teu peito e se deixa ser devorada.

O Amor é algo que até hoje o homem tenta em vão desmistificar a sua nudez crua, Amor cujas raízes pedem um pouco mais de compreensão não esclarecedora, o Amor sempre tem que manter uma nuance de mistério , senão perde totalmente a graça. O Amor é um desafio, e nem os gênios mais influentes deste nosso universo, souberam lidar com ele. E nós, meros mortais com nossos dias carregados de trabalho e obrigações da vida. Meros mortais com vivência tão questionada, sempre nos bisbilhotando o tempo inteiro, muitas vezes, queremos apenas momentos de paz, talvez uma paz teleguiada. A honestidade não é guiada por taças de vinho, ela nasceu junto comigo e eu não tenho vergonha disso. Não preciso embriagar-me para minhas verdades saírem. Sentiria-me uma mulherzinha, sim, uma Mulher com “m” minúsculo, se eu tão tivesse minha honestidade perante estes teus olhos, tenho toda a minha eloquência aqui e agora, eu só a perco quando seus lábios me tocam, ou quando teus olhos pousam numa graça tão incontida, que eu perco totalmente a noção do tempo e o cinza das horas.


Eu não ligo para o que as pessoas pensavam, ao me ver escrevendo sozinha em um restaurante. Todas as mesas existem uma segunda ou terceira pessoa, mas eu estava ali, sozinha, por vezes com lágrimas aos olhos, de emoção, dificilmente eu não choro quando eu escrevo. São minhas emoções traçadas aqui, nuas e cruas.


Enquanto eu escrevo, há um casal na minha frente com a filha. Ela carrega uma rosa nos cabelos, e ela, com toda a sua teimosia de criança, brincava com os utensílios dispostos naquela mesa. E quando ela não tentava instalar o caos naquela mesa, ela dançava alegremente e inocentemente a música com gosto duvidoso que tocava. Você, homem silencioso e questionador, me cativou a ponto de ignorar toda a blasfêmia sonora que tocava naquele lugar. O que mais me importava naquele momento, era a sinceridade neste fluxo tão intenso de pensamentos, pensamentos que eu esperava ter coragem suficiente para transcrever para este humilde endereço. E eu perdi uma madrugada de segunda inteira, dormi apenas 2 horas, para enfim, desmistificar o meu medo de ao menos tentar ser feliz, não ter medos de arriscar. Eu perdi um certo tempo de minha vida não permitindo-me mostrar-me por inteiro, pelo medo de que os julgamentos de uma sociedade tão mesquinha e cheia de julgamentos injustos e desnecessários. Antes, eu me escondia por trás da pilastra que me dava a falsa sensação de proteção, de conforto. Hoje, o desconforto do meu caos não me amedronta mais. Eu sou como São Jorge, como Dom Quixote, mato os meus dragões de medo com minha espada, e ela não precisa estar afiada a todo momento, para isto basta-me apenas minha coragem.  A coragem de uma mulher é o elemento mais cortante deste mundo, é algo resistente, lapidado como um diamante, nós mulheres, somo como um rio…Eu li isso em um livro ao qual estou relendo pela terceira vez. Quando minhas mãos se sentiam cansadas do ofício de escrever, eu me perdia nas páginas de um livro sobre um homem despedaçado, sobre o delírio das moscas, sobre a filosofia dos homens-rios.


Minha querida mãe e sábio pai, sempre me diziam  que tenho mãos de pianista, devido aos meus dedos compridos e finos. Talvez eu os cruze para que me deem um pouco de sorte para que perca alguns minutos ou horas do teu dia me lendo. E talvez eu tenha um pouco de sorte o bastante, ou meu marlim azul chegue na beira de uma praia, devorado por tubarões. Mas, assim espero, que o tubarão que o matou, aquele que devorou meu tão fiel amigo, seja bonito aos olhos desacostumados de alguém. Sempre levamos algo de bom em qualquer uma de nossas lições. Talvez eu adormeça depois de minha derrota, mas depois eu sei que a imagem reconfortante de leões andando pelas areias brancas da África, me trarão um sono lindo, e eu então vou agradecer por toda minha coragem instanciada assim, tão aerodinâmica, eu posso estar num tanque de guerra, mas minhas palavras são armas que jamais tiveram a intensão de ferir. Talvez você sinta um desconforto no peito, mas isso passa…


Se gostares das palavras digitadas aqui, posso reescrever-lhe isso aqui à mão, ou lhe dar os originais. Permito-me dar um tom mais estético e harmonioso nesta versão digital, mas a intensidade e sinceridade de minhas palavras continuam as mesmas, só a minha letra que é feia, à propósito, muito feia. Se eu for reescrever-lhe isto a mão, para guardar como uma lembrança, eu vou fazer uma letra bonita, para que leias e não tenha nenhuma dúvida sobre o que está escrito ali. O que transcrevo aqui, o que eu escrevi naquela mesa de bar, no primeiro domingo de março, não é o teu eco, e sim a voz do meu desejo, e sim, talvez ele seja imoral, pois minha memória é palpitante, e meus sonhos são úmidos. Eu sou imoral, quando eu tento, em vão, renunciar meu desejo. Isso pra mim, é imoral. A vida é curta demais para negar e deixar de viver aquilo que nos faz felizes, por mero conforto do não desconforto. Viver sem medo é desconfortável, sendo assim eu prefiro minha cama de pregos, do que um colchão macio. Uma vida macia é confortável, mas é vazia.


Você me olha silencioso, e eu lhe envolvo com minhas palavras. Cada palavra aqui, é um abraço e um beijo apertado. Eu amo teu silêncio, assim como amo dias chuvosos. Por vezes, me faz entristecer, mas eu olho pela janela, e acho tudo absurdamente encantador, a ponto de meu desejo ser ensurdecedor. Se meu desejo pudesse cantar, ele seria um cantor lírico, onde na beleza da minha incerteza, compõe uma canção de notas melodiosas e talvez mal compreendidas por seres incautos, pois aqui tem um toque de malícia aristocrática. O incautos não enxergam a malícia, e quando a enxergam a tomam como algo ruim. Toda malícia é necessária, e ela não se torna vulgar se soubermos lapidá-la com cuidado.
Talvez, depois de tudo isso, eu possa causar um afastamento causado por um desconforto que eu não sou capaz de medir. E se isso acontecer, não me torne apenas uma imagem na tua memória. Não gostaria que você se tornasse apenas uma lembrança em forma de pixels. Não espero e não criarei expectativas que me respondas. É necessário um certo tempo para digerir tudo o que aqui está escrito. Eu conto agora, no meu editor, três mil e trinta e seis palavras, e eu nem ao menos terminei. Eu não vou lhe dizer que eu te amo, pois isso é uma atitude desesperadora de uma mulher que não aceita ser sozinha nesta vida. Para dizer Eu te amo, é necessário tempo, “Eu te amo” é uma palavra muito forte, mas eu não nego que estou chegando quase na estrada onde está esta placa escrita em letras garrafais. Mas eu parei no acostamento, e estou fumando um cigarro. Talvez os meus pneus estejam furados, e eu não entendo nada sobre isso. Talvez meus pneus estejam apenas murchos, esperando um sopro de ar. Assim eu continuarei na minha estrada, e quando eu encontrar essa tão complexa placa, eu espero ter toda a sabedoria do mundo para não deixar que ela me derrube. Ela é linda, mas o Amor dói, o Amor machuca. O Amor é como uma rosa, doce, suave, bonito, mas com espinhos. Eu sou madura o suficiente para aceitar este fato, eu aprendi nas duras lições dessa vida.


Quando veres minha imagem em fotografias de criança, penses que aquela criatura magra, banguela e feliz, te admira como um Homem, assim, com H maiúsculo. E se eu demorei muito para permitir ser beijada e beijar-lhe, o porque o desejo que se acumula aqui dentro, me fazem contar os segundos para ter a oportunidade de lhe fazer um homem feliz. Não lhe digo o mais feliz deste mundo, a felicidade pode não existir, mas ela é feita de momentos, e que nos maus momentos, o seu antônimo seja bom o bastante para relevar os dias e momentos cinzentos. Nada como um dia após o outro, e a nossa capacidade de ver e compreender as adversidades que tanto nos perseguem e nos tiram, por vezes, a fé.


E eu encerro aqui. Todas as minhas palavras até então, são por Amor…Um Amor pelas causas perdidas, um Amor pelo fim de sentimentos rasos. Uma ode, talvez, à loucura dos seres que acreditam que nem tudo está perdido. Que nossos dragões sejam apenas belos e imponentes moinhos de vento. Jaz aqui, neste fim de parágrafo, uma fidalga, uma mulher que está navegando no mar, olhando as gaivotas voarem contra a luz do sol, sentindo sede, e talvez, uma falta de sorte…


“(…)Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.”



E isto é o que eu quero ter a sorte em dizer-lhe:


Boa noite homem nobre. Feche teus olhos e não se assombre com os dragões, nem com tubarões. Dragões são apenas moinhos de vento, tubarões são apenas um mal necessário devorando nossa luta em alto mar. Deite-se na cama, e sonhe com leões que caminham na areia branca. Erga os olhos ao céu, e não baixe os olhos quando a tempestade chegar. Não baixe os olhos para o chão, como a flor do sol perante a chuva, siga em frente, seja um fidalgo, seja um sonhador, seja um apanhador no campo de um centeio, por amor às causas tão perdidas.

Aos olhos do rei.

Ninguém sente dor nenhuma durante a noite. Aqui parada embaixo da chuva, estou sem pressa, esperando nas esquinas das minhas emoções. Talvez um ramo de flores em minhas mãos, e sentirei toda a pureza das pétalas, e posso pensar em tão suave era sua carícia na noite passada. No meio das coisas banais, há ossos e tendões, há um coração batendo forte no peito, há veias pulsando em baixo ventre, e é de noite que eu me emociono, mesmo sem a presença do ramo que lhe toca o ventre, suave como uma primavera repentina, as borboletas dançando no estômago, são as mãos de um fidalgo, tal como Dom Quixote num mundo tão perdido e sem emoções dos olhos nus. Os olhos nus, se cobriram de véus, mas o tempo chegou e a encarou com os olhos, e então nos devoramos um ao outro sem pressa. Talvez eu seja apenas uma garotinha, talvez ele seja apenas um homem incomum, esbravejando contra os muros, um homem incomum de coração de ouro. E na rivalidade do tempo, o vento lá fora está esbravejando demônios, e nossos corpos se perdem em saliva, suor e desejo. Não tema o frio que chega nesta noite, e nem a aproximação dos meus olhos grandes junto aos seus, se o frio atingir-lhe, vou cobri-lo com meu afeto, e minha simples vontade de lhe abraçar. Não tema o desejo da noite, não tema o luar encoberto por espessas nuvens. Está relampeando lá fora, eu posso me assustar com o barulho dos trovões, e esconder-me por debaixo das cobertas. Posso fechar-me dentro de minha redoma, mas terás permissão para entrar. Chega de mansinho, como quem não quer nada, e jogue seu pano de estrelas em meu céu, que antes então tão cheios de nuvens e sem brilhos, ganhou tons de aurora boreal. E eu estremeço, quando sinto seu cheiro se aproximar, invadindo meu sonho à noite, e um milhão de sensações a gritarem madrugada adentro. Deite-se aqui ao meu lado, e eu lhe contarei uma estória e darei um beijo em teus ombros e olharei em seus olhos, como um gato que olha nos olhos do rei, sempre com fome…

E nunca acaba, dou meu reino por um beijo em seus ombros…

Apenas moinhos de vento.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Fernando Pessoa)

Ser ansioso é ser idealista, é ter pressa, das coisas acontecerem, pressa da chuva passar rápido e colocar-se a correr nu pelas calçadas da cidade de pedra. Digo correr nu, porque pessoas ansiosas vivem constantemente nuas, são pessoas intensas, mesmo aquelas imersas na timidez, que não se permitem sair da toca, por medo de serem julgadas, mas que todas as noites, muitas vezes insones, coloca-se a pensar no tripé “E se”, “Será”, “Quando”. E então imaginamos um turbilhão de possibilidades para o nosso mundinho, um milhão de situações em que imaginamos nossos castelinhos de areia construídos de maneiras diferentes, e sempre nos cobrando por castelos perfeitos que nunca sejam destruídos quando a marola chegar. Às vezes é uma marola tão mansa, tão calma, que apenas molha nossos pés, mas nós a vemos como um maremoto prestes a engolir uma linda cidadezinha litorânea.
Eu costumo citar o Dom Quixote, um fidalgo que confunde inofensivos moinhos de ventos com dragões enormes, e vale lembrar que hoje, as Dulcinéias é que matam seus próprios dragões, talvez pela pura ansiedade nossa, das mulheres, de tomarmos um passo à frente e ficar roendo as unhas ou comendo barras infinitas de chocolate Talento.

"Sonhar o sonho impossível, Sofrer a angústia implacável, Pisar onde os bravos não ousam, Reparar o mal irreparável, Amar um amor casto à distância, Enfrentar o inimigo invencível, Tentar quando as forças se esvaem, Alcançar a estrela inatingível: Essa é a minha busca." Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha
“Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.”
Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha

E assim vamos levando nossos dias, nós pessoas ansiosas, que sempre queremos o aqui o agora, que nos aborrecemos com o fracasso, com conclusões precipitadas, queremos nossos ideais realizados da noite para o dia. Nós planejamos para ontem, e quando nosso escopo de vida se atrasa, nos martirizamos por não ter chegado e fincado nossas espadas de aço no coração de nossos dragões, que são nossos medos, angústias, sonhos, amores, e até a tão cruel e desnecessária vingança. Temos pressa e ouvir e ser ouvidos. Temos pressa de Amar e sermos correspondidos. Esperamos um telefonema que nunca chega, uma conversa que nunca nos chama, esperamos sempre por algo que nos faça sair da toca, algo para dividirmos nossa tão esfomeada ansiedade. Entramos embaixo do chuveiro cinco horas da amanhã, e já pensamos nas cinco horas da manhã do dia seguinte, olhamos nossa cara amassada no espelho e já imaginamos as olheiras do dia seguinte. Construímos nossas estruturas em cima de uma base, e estamos sempre torcendo para nossa base nunca desmoronar. E quando ela desmorona, no dia seguinte já queremos nossas estruturas abaladas novamente no lugar. Por quê?Pra que tanta pressa?Nós pessoas Ansiosas, estamos sempre correndo contra as areias do tempo, nossa calma esvazia-se em poucos segundos, mas muitas vezes escondemos nossa falta de calma em um rosto sereno e dissimulado, deixamos nossas emoções desafloradas dentro de um vaso guardado num armário à sete chaves, dentro de nossa bolha de proteção. É o medo de sermos julgados, de ver nossos anseios jogados no lixo, como uma estratégia mal feita em um jogo de xadrez. E talvez, esses nossos atos sejam apenas por Amor,por Amor às nossas causas que quase sempre as pessoas ao nosso redor acham que são perdidas. Jaz aqui, uma ansiosa forte e decidida, por Amor às minhas tão queridas causas…PERDIDAS?

Tudo bem… Até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Muito prazer… Ao seu dispor
Se for por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas