Confessionário

O prazer é um pecado, e às vezes o pecado é um prazer. 
(Lord Byron)

As luzes lá fora já se apagaram. Os quatro comprimidos sublinguais de Rivotril duas miligramas estão se desmanchando na boca. O conhaque Presidente está pela metade, sorrindo pra ela, o gato oportunista passeando entre as pernas, entrelaçando-se, olhando pra cima e emitindo o som estranho que vem dos gatos: ronronar… Ronronar. Ela sempre gostou desta palavra, soa estranhamente erótico. Doente… Pensou ela… O gato, de alcunha Byron, queria carinho? Não, ele quer comida, está sempre faminto, com olhares piedosos, tal como o gato do desenho do ogro verde e o burro falante. O prato de Byron, o Gato está vazio. Talvez tenha um pouco de leite não coalhado na geladeira e um resto de comida de gato enlatada. Byron a encara, na penumbra da madrugada aqueles olhos amarelos lhe dão arrepios e ele a segue sentindo-se satisfeito quando ela coloca a tigela de comida ao chão.

Gatos desgraçados, tão classudos, comendo sentados, parando para respirar, olhando ao redor. Aqueles olhos amarelos de reprovação, enquanto ela toma goles longos de conhaque e acende a porcaria dos cigarros mentolados que ela esconde na gaveta. Os comprimidos de Rivotril, numa pasta nojenta, misturando com o conhaque made in Paraguai na boca. Aquela sensação relaxante, quente, densa e consoladora, com um peso de um homem entre as pernas, seu velho homem.

Os olhos do gato dizem: tal como o peso daquele seu velho homem ao qual você nunca teve.

Dá uma alta risada de escárnio, e vai se derretendo no sofá, com o olhar perdido no teto mofado com pintura descascada. Talvez toda a concepção que ela tenha a respeito de sexo, seja como aquelas paredes, aquela pintura… Incompleta, inacabada, cheia de manchas. Talvez ela se junte ao trovador bêbado que passa todas as noites declamando versos desconexos embaixo de sua janela, mas hoje, justamente hoje que ela precisava se deleitar do escárnio dos desgraçados, eles não cantam suas emoções. Fica somente o eco das vozes na escuridão, repetindo como trechos de canções em disco riscado…

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

É o que diz no disco riscado do Pink Floyd. Enquanto “Echoes” toca e ela delira no sofá, os olhos do gato, reprovadores, encarando-a como os olhos do padre durante a confissão. Lembrou-se que só se confessou uma vez na vida, na primeira comunhão. Entrou em uma sala no pátio da Igreja Nossa Senhora Aparecida, da cidadezinha pacata onde todos puxam o “r”. O padre estava sentado numa grande cadeira de madeira maciça e couro. Conte-me seus pecados minha filha, do que você se arrepende? Mas eram pecados de criança, tal como roubar doces, gastar dinheiro do lanche com fliperama,  subir no telhado escondido, simular sexo com a Barbie e o Ken, e fazer desenhos sem educação sobre a professora chata. Vou-me confessar Byron… Só você me entende, eu sei e você agora está com aquele olhar de que quer me ouvir…

Byron, o gato, se aproximou, lambeu-lhe a mão, não gostou muito, tinha gosto de conhaque, nicotina e sangue. Ela cortou a mão na lata de comida pra gato e não percebeu. O chão da cozinha estava manchado, contando histórias no chão. Mas o gato ficou lá, sentado, olhando pra ela, seminua e bêbada no sofá.

Byron eu pequei… Eu peco todos os dias, todas as noites…

O gato arrepia os pelos, lambe as patinhas e volta em sua posição de olhos atentos.

Eu queria beijar-lhe a boca inteira, afundar minhas mãos nos negros cabelos,

 Daquele seu velho homem que você nunca teve, disse o gato, com os olhos…

 Eu poderia lamber-lhe a cara, eu poderia beijar todos os pelos do rosto. Aquela barba negra por fazer. Eu poderia Byron… Eu poderia pensar em um milhão de coisas sujas e vulgares, eu poderia dançar nua pela sala, eu poderia fazer uma rima pobre e podre, mas eu não sou poeta. Eu poderia percorrer-lhe o corpo inteiro, como um inseto ou morder-lhe como um animal sádico, brincando com a presa. Aquele velho homem… Velho… Antigo, empoeirado, um quadro inacabado perdido em um souvenir.

Tomou mais um gole de conhaque; desejar sem poder é pecado? Até onde minhas entranhas expostas são um grito desconexo de utopia? O que é utopia? O que eu tenho medo? Qual o índice da minha maldade? Da nossa maldade, sem exceções? É matar alguém com 200 facadas, é torturar uma criança até a morte por inanição? É ver um cadáver na rua esperando o rabecão e tomar uma cerveja na calçada da esquina? Eu posso sufocar meu tesão com um travesseiro e pedir desculpas depois? Eu posso lhe arranhar as costas, posso traçar mapas de desejo no meio do suor, pelos, veias e tendões? Qual o prazer em sentir dor? De ver meu corpo rasgado e com marcas profundas de dedos, pequenas irritações causadas nas pele por causa do passeio de um rosto barbado? A preguiça masculina de 3, 4 dias de pelos na cara. E o meu corpo no espelho, dilacerado, desalmado e talvez amado? Qual foi o meu pecado? Pecado Byron… PE-CA-DO…

 Byron subiu no sofá, sentou no ventre nu e suado daquela que balbuciava eloquências e metáforas, e com olhos piedosos passou a língua áspera no ventre dela, como se quisesse caçar as mariposas no útero. E os pelos do gato como uma carícia, as patinhas pressionando como dedos. Ele se deitou, encarou-a com os olhos de incógnita e o piscar de felino. Trouxe-lhe a exata sensação de que o pecado era para ser vivido, mesmo na utopia. Dormiu, sonhou com o seu velho homem, que tem olhos e jeitos de felino. Dorme e sonha com dias poéticos, desgastados, descascados, com um pouco do mofo das tristezas, cores sinestésicas e os ventos de alegrias cheias de tragédia. Versos, neologismos, dor, beijos e gemidos.

 O gato olhou para a janela, poderia dar um passeio lá fora, no mundo paralelo dos gatos, perturbando o sono alheio com as transas felinas que atiçam o sono dos incautos, mas ficou com sua dona, e pensou nos albatrozes, “imóveis no ar”, do disco riscado do Pink Floyd. A noite foi como eco, cheio de vozes e desejos ensandecidos. A noite apenas começou, com seus encantos, prazeres, pecados e desejos, deitando em metáforas, aforismos, metonímias e falácias. O bêbado trovador passou embaixo da janela.  Todos os olhos felinos piscaram e sorriram, enquanto lambiam-se uns aos outros, as patas, a cara, o corpo, o sexo…

Escrito ouvindo isso aqui várias vezes:

Stains on the memory…

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, como um irresponsável. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado amigo, no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos teus pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos seus braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, o gerente que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Queria explodir todos os meus relatórios, toda aquela baboseira de índices de gestão. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei  queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir. As estrelas lá fora, como candelabros…

The Spell (broken) – Karien Deroo

Emoções rasgadas.

Depois de uma noite de insônia, poucas horas de sono, e aquela sensação de resfriado chato querendo derrubar, acordei quase rouca, com voz estranha, que sumia em poucas palavras. Quase desmarquei a entrevista, mas não desisti: salto alto, camisa, meia fina e saia executiva. Sapato fino, de tom bordô em couro aveludado, cujo salto enganchava nas malditas calçadas de pedras soltas. E eu penso… Por quê dificultamos tanto? Tudo poderia ser mais simples. Eu me irritei com minha meia-calça. Passei em uma loja no meio do caminho, comprei outra, entrei no banheiro do estabelecimento e troquei minha neura por outra neura… Fiquei com medo de rasgar a meia de fio 15 em lycra, fato que realmente aconteceu, mas foi no portão de casa, quando a coroa do abacaxi que eu comprei encostou-se a minha meia. Quando fui trocar as sacolas de braço, escutei o barulho desesperador de fios rasgando. Olhei, dei risada. Pedreiros na espreita… Um naco de minha coxa branquela debaixo do rasgo seria normal e mais divertido se fosse à hora de um bom sexo, aquela coisa de desespero. Melhor uma meia rasgada em cima da cama pelas mãos de um homem do que pela coroa de abacaxi pérola comprado na promoção que estava azedo. Nada que um açúcar resolva. Devorei três fatias com requintes de crueldade e sadismo, sentada em minha cama, marcando trechos de “Cartas de um Escritor Solitário”, de Sam Savage. Joguei fora a meia, fiquei em mangas de camisa e adormeci. Não passei na entrevista, recebi um e-mail frustrante, mas sou forte, paciência! Terei outros momentos para rasgar meias por aí e dar risada de meu próprio medo. Pelo menos tenho algo divertido com tons de tragicomédia para contar. Adormeci esparramada na cama e sonhei com teus braços com veias e tendões aparentes de tua pele branca e combinando com meus tons embaixo de minha meia rasgada…

Garotinha.

Ninguém sente mais nada. Doses de morfina tomaram conta da madrugada. Ninguém sabe de mais nada, está tarde agora querido, gatos namoram nos muros, a coruja de mau agouro e olhos grandes amarelados pia lá fora e eu sou apenas uma mulherzinha, uma garotinha pintando aquarelas na madrugada. Não sinto sono, mas sinto fome, tenho preguiça de ligar no delivery. Mentira, na verdade não tenho crédito no celular. Ele está jogado no chão. Eu dormi e ele caiu no chão, abrindo e a bateria saiu fora. Não tenho ligações importantes pra fazer e nem receber. Detesto falar ao celular, prefiro pessoalmente. Perdemos todo o contato, queria me comunicar por sinais de fumaça, mas eu não ando com isqueiros, nem fósforo. Não sei cortar lenha, sou magrela, frágil… E levemente folgada. Prefiro sair por aí catando gravetos, do que cortar lenha. Sou meio confusa, complexa, mas sou apenas uma garotinha, em cima de um salto alto, camisa de mulher, meia calça fina, saia executiva. Apenas uma mulher, incendiária… Gosto de incendiar meu Amor, em fogueiras de fagulhas coloridas, só sei escrever sobre a vida, e tudo o que ela compreende, desde a decadência até breguices de amor. Sou brega, romântica incorrigível e muitas vezes, ogra… Nesse caso sou garotinha mal criada, escarrada. Levo o demônio montado em minhas costas. Mas quando eu vejo um anjo, entro no dilema de não ser tão ordinária. Palavras afáveis funcionam, mas não sempre. Sou uma chata, me cobro demais, mas muitas vezes deixo coisas para trás, sendo relaxada dentro de minha própria mania de perfeccionismo, que é tão imperfeito. Eu escrevo, sou um poço de linhas tortas e insones, verdades e falsas mentiras num balde de verbos… Passo lendo e relendo, mas sempre deixo escapar aforismos, pleonasmos, entre outras coisas. Meu caos não permite a perfeição e eu quero, sinceramente, fugir dela. Gosto de palavras lançadas, sem medo, sem preparo, apenas um fluxo sincero, sádico…

Nesta noite, eu gostaria que chovesse, eu queria ficar parada, no portão, vendo a enxurrada descer na ladeira de casa. É óbvio, se é ladeira, não poderia subir. Tu viste? Eu sou um fracasso! Queria rasgar roupas novas, fazer camas para cachorros de rua. Hoje eu vi um lindo tomba latas dormindo embaixo de um caminhão. Eu pensei se ele passava frio, quando eu era pequena, minha cadelinha morria de frio. Dei um cobertor pra ela. Queria colocar fitinhas na orelhinha dela, mas ela era uma cachorra idosa. Quando soube que iria morrer, saiu pra rua. Encontrei-a morta, na sarjeta, teve uma morte natural. Parecia que ela sabia que seu fim estava chegando, e que ficaríamos todos tristes. Foi meu segundo encontro com a morte, depois de ver um pássaro morto com os vermes a comer as entranhas. Achei que a pomba dormia… Mas não…

Eu tenho uma amiga, que toma anfetaminas. Ela diz que nunca seria abençoada, pois ela considera-se que é um grande pedaço de merda. Queria ser coberta de pérolas, ter flores nos cachos do cabelo, ela queria fugir, num vagão de trem, sem ninguém descobrir, viver a vida sem rumo, no anonimato. Ela amaldiçoa toda falta de sorte que carrega nos ombros. Enquanto isso, eu queria ficar parada, no meio de um temporal… Magoada… Pobre garotinha. Eu tenho fome. Já disse… Escrevo porque sinto saudades. Deixa pra lá…

As horas nuas.

“O amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor. O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, menos para as vidas sem amor.” Oscar Wilde.

Eu passei tanto tempo encantada com a suposição de que a eternidade exista apenas para aqueles que caem aturdidos diante o fracasso, lamentando os pecados. Eu pensei tanto no conceito de pecado, divagando em linhas tortas as minhas próprias convicções sobre os sete pecados capitais. Eu pensei na luxúria de um homem e uma mulher errante, na avareza de um mercador de flores, ao tentar reconstruir tulipas pintando-as com formol, como se elas fossem eternas e ele nunca perdesse o que cultivou. Pensei na preguiça que me acolhe aos domingos, mesmo com o sol me sorrindo lá fora, faz tempo que meu dia não nasce duas vezes, e então eu padeço numa preguiça levada em galopes de saudade, eu tenho minha saudade quando nas manhãs preguiçosas. Eu sinto a gula tecendo meus sonhos de cama manchados de desejo. A gula, metaforicamente um desejo de carne, aquela que desce languidamente da nuca até o torço, gula que se enlaça, olhando as veias e tendões aparentes de meu amor com braços ao volante. E o que falar da inveja? Eu não sei bem dizer o que é inveja. Talvez uma inveja daqueles casais que sentam juntos em mesas de cafeterias, inveja daqueles que podem ir à Paris apenas para escrever, inveja daqueles que podem contemplar a beleza de seus olhos de dilúvio ao longo do dia.  Eu sinto a Ira da tempestade que cai lá fora, e quando eu saio lá fora querendo me encharcar, eu queria a vaidade daqueles que se molham por puro orgulho. Queria que me visse de roupas molhadas, com frio, mas com um sorriso no rosto como uma criança que fugiu de casa apenas para brincar na chuva. E depois um banho quente e acolhedor, usar meus utensílios de vaidade, passar um traçado negro em meus olhos, deixar algum trecho de minha pele nua, apenas para lhe provocar, um orgulho bobo de te ver na rua ao longe e guardar em segredo, por pura vaidade passar ao teu lado e apenas esboçar um sorriso maroto, de passar próximo a sua casa e nem lhe fazer uma visita, olhar o horizonte de ruas cheias de folhas de outono caídas ao chão, e pintar uma saudade carregada de sete pecados. Avareza em querer tomar uma garrafa de vinho sozinha, gula ao querer devorar e ser devorada, preguiça ao querer dormir ao teu lado e de lá não sair mais, inveja do vento ao entardecer que lhe toca a face, ira daqueles dias que te estressam e lhe sufocam a alma, estrangulando teu tempo já tão escasso, luxúria ao te desejar nas minhas madrugadas úmidas de insônia, orgulho de poder escrever isso assim, nas horas nuas da madrugada…

Crônicas Completas: Russel e as pradarias.

Capítulo I: Pradarias

Russel está cantando nas pradarias, quando o inverno russo se aproxima, ele faz seu trompete chorar, enquanto sua mãe chora pela matrioska quebrada. A mãe amada de Russel, espatifada no chão em convulsão.
Ele está indo para Budapeste, mas também gostaria de ir para Bellerophon, mas a Grécia está muito longe, são milhas e milhas de distância dos gelados ventos do leste europeu, ventos que o fazem se encharcar na melancolia transparente da vodka. Vãs memórias inundam seu peito, sua mãe entregando-lhe uma rosa, já com o estômago cheio de remédios escolhidos aleatoriamente, engolido com uma garrafa de vodka, cujo resto deslizou até embaixo da mesa, onde via os pés e pernas de sua amável mãe em um terremoto insano. Antes de dizer “Adeus”, sua amada mãe disse: “Apenas diga ao teu pai, que eu o amei muito”.
Sua irmã, Elissa, dormia, e quando Russel tocava seu trompete, Elissa chorava, berrava, e a mãe de Russel a acalmava com seu retorno doce de mãe. E Russel se cansava, pegava seu trompete e se colocava a tocar nas pradarias tristes. Visitava seu pai nas minas, homem forte, porém pré-envelhecido. A sujeira do carvão dava-lhe traços rudes, primitivos.
No frio daquele leste europeu, todas as matrioskas eram incompletas, Russel andava em círculos, nas pradarias contínuas do seu ego e força de viver, mesmo sabendo que nada cresceria ali, nas pradarias inférteis pelo frio. Nas pradarias que ele tanto amava, não existe nada, apenas sua mãe cansada num túmulo triste com apenas uma cruz de madeira, e lobos uivando na noite. Até mesmo, quando viva, a mãe de Russel estava sempre cansada, mesmo nas passeatas onde Russel tocava seu trompete e as baionetas furavam sorrisos descontentes. Matrioskas caiam no chão durante a fúria perante a morte da matriarca, que dizia que se a Felicidade tivesse uma cor, ela seria vermelha. E ela o abraçava, antes de dormir, e quando seu pai chegava, ela chupava os dedos de carvão dele. Pra ela, sua amada mãe, aquilo era um momento de carinho, não importava a sujeira interna e externa de seu pai, que transava com as operárias sujas e suadas nas galerias escuras.
Dentro das casas as matrioskas quebram a mãe de Russel o amava, numa tristeza incontida das baionetas que cantavam lá fora. Por isso, Russel sai correndo em direção às pradarias. Queria ele ir para Budapeste, pois dizem que lá, todas as emoções são ditosas e incontidas. Levaria seu trompete, e o estalar de seus dedos magros e sofridos, percorrem a pradaria do Leste Europeu. Russel amava aquele lugar, assim como o vento amava a face do seu pai, enegrecido pelo carvão, e os cabelos longos e loiros de sua mãe.

Capítulo II: Matrioska e o delírio das pradarias.

A mãe de Russel queria passear nas pradarias geladas. Ela mal conseguia ficar de pé, mas em seu sonho de mulher prestes a morrer, ela se via com os cabelos loiros de saudade balançando no vento gelado. E ela, em seus sonhos ainda lúcidos, balbuciava ao filho que o pai estava chegando enegrecido pelo carvão, surgindo no horizonte, como um soldado voltando da guerra, carregando uma baioneta com a ponta cheia de sangue seco. Era a glória, manchada, tingida de sangue oxidado, coagulado, a beleza da violência fazendo sua mãe sentir desejo reprimido, a crueldade estampada em desejo, imaginava seu velho homem tingindo-se com o sangue do inimigo, via as veias e tendões dos braços, transcenderem em trilhas do desejo, enquanto carregava os corpos para serem jogados em valas fétidas. Depois, sonhava com os olhos dele, azuis quase cinzas de dilúvio… Via as chamas que queimavam os cadáveres dançando nos olhos quase cristalinos, e o fogo e esforço fazendo-o suar, mas ele era apenas um trabalhador das minas de carvão, e ela sabia que estava morrendo, nas pradarias do Leste Europeu. “Russel meu filho, apague a luz, e diga ao teu pai que eu o amo.” Russel apagou a luz, secou as lágrimas, pegou nas mãos de sua irmã, e foram brincar nas pradarias tristes.  A matrioska continua incompleta, a saudade fragmentada em mil pedaços.

Capítulo III: O sorriso de Elissa.

Elissa quer correr pelos prados, ela queria sorrir também, mas é uma criança com um sorriso fraturado pelas passeatas onde as famílias carregam seus entes mortos pela guerra, furados por baionetas que cantam uma canção triste de que a ideologia deve ser engolida às forças, com todo o sangue amargo. “Papai vai chegar Russel!”, gritava Elissa correndo em círculos, o olhar triste da mãe perdido no horizonte, enquanto ela penteava os cabelos na janela. Russel tocando seu trompete, intercalando com goles de vodka. Se ele soubesse escrever, seria um poeta bêbado. A mãe gritava da janela que precisaria de panos úmidos, ela sempre falava isso, pois queria limpar o rosto manchado de carvão quando o pai de Russel chegasse, mas ele nunca chegou. Sua mãe sempre dizia que seu pai tinha uma beleza imunda, e a única coisa limpa nele eram os olhos azuis de dilúvio, de uma beleza cristalina quase cinzenta, contraposta a sua beleza enegrecida. Os trabalhos nas minas de carvão deixavam seu pai imundo… Era a fuligem do carvão que o fazia bater na mãe. Quando ele retornava ao trabalho, a mãe sempre gritava que o amava na soleira da porta. Via seu velho homem indo embora, depois dele dar-lhe um beijo e dizer que também a amava. Sempre pedia perdão pelos braços roxos dela, a culpa era sempre da vodka.

“Russel, um dia terá a pele tão áspera quanto a de teu pai, será um herói nas terras sofridas e gélidas, o carvão não nos mata, apenas nos deixa imundos…”

Russel sabia da tosse negra do pai, Elissa quando viu seu pai manchar um velho lenço de escarro negro, por mais que fosse uma criança, sabia que algo muito errado existia ali, mas sua mãe queria o tempo todo se enganar que aquilo era normal. Por isso Russel estava sempre com Elissa, brincando de correr um atrás do outro na pradaria deserta, próximo ao velho casebre de madeira que viviam. Quando Elissa estava com ele, ela sempre o contemplava com um riso de criança, e quando ela chora de saudades do pai, ela corre para os braços roxos da mãe. Russel pega sua garrafa de vodka e caminha sem rumo com seu trompete pelas pradarias gélidas. Notas tristes ecoam, um falcão da pradaria apenas o observa ao longe.

Capítulo IV: Canção Cigana.

A mãe de Russel canta versos ciganos, enquanto Russel brinca com Elissa erguendo ela para o alto. A sobriedade abandonada depois de uma garrafa de vodka o faz querer voar e fazerem os outros voarem. Gostaria de voar por cima dos campos de trigo, e quando se aproximasse dos campos de guerra, carregaria a alma dos soldados mortos junto a Deus. Queria Russel ser um mensageiro, um mensageiro de almas, pegar as almas que rondam próximas as valas lotadas de corpos, já indistintos um dos outros. Existiam ali talvez, civis, soldados… Crianças. Um dia, andando pelas pradarias, encontrou uma família abrindo uma cova para enterrar a filha. A mãe com o lenço envolto na cabeça, com a face molhada pelas lágrimas causadas pelo terrível Ceifeiro. O pai abria a cova, enquanto o irmão mais velho segurava um corpinho frágil envolto por um velho pano branco. Russel viu que uma mecha de cabelo loiro escapava do lençol. Poderia ser sua irmãzinha ali, mas quem cavaria a cova? Ele… Seu pai não existia mais, e quando aparecia era apenas um vulto etílico que estuprava a mãe. Mas sabia ele, que ela gostava daquele “jogo”, preferia pensar que aquilo era um jogo, uma brincadeira de mal gosto de adultos. Gostaria que a guerra estivesse por perto, pois as canções dos tiros das baionetas ao longe, abafariam os gritos hipócritas da mãe.

Olhou para mãe, ela ainda cantava silenciosamente versos ciganos, e eles corriam como uma lebre. Russel sabia, que toda vez que a mãe entoava aquela canção, era porque a saudade queria gritar. E ela gritava, em forma de canção cigana.

Capítulo V: Saudade e Vodka

O pai voltando das minas, Russel jamais espera isso. Ele foi uma alma que partiu, um pobre homem soterrado pelas convicções sujas e negras, ou uma explosão do gás metano, explosão de arrependimento talvez, por ter abandonado os filhos com uma mulher miserável e já doente. Ele se foi, deu um sorriso de canto de boca e um beijo longo em Elissa e Russel. Olhou calmamente para a mãe de Russel, que trançava os cabelos em frente ao espelho, longos cabelos loiros, como os trigais avulsos das pradarias tristes do leste europeu, beijou-a como se fosse a última vez, e num afago nos cabelos, disse apenas que a amava.
O pai de Russel tinha lindos olhos azuis e um silêncio que matava, e por vezes, quando voltava bêbado das minas, mãos que estrangulavam. Mas todas as manhãs, quando Russel acordava e olhava em direção à cama dos pais, via os dois abraçados como se nada tivesse acontecido. E os lençóis ao chão, com manchas negras de carvão. Esta foi última vez que viu o pai junto à mãe, e crê que apesar de tudo, sentia saudades de seu velho, dos momentos em que eles caminhavam pelas estepes a caçar coelhos, tiros de baioneta embalados a goles de vodka. “Cuide delas”, foram últimas palavras de seu pai, e assim, ele sumiu, caminhando nas pradarias, com os olhos azuis baixos de tormenta.

Capítulo VI: O lobo das estepes.

Russel em seu pesadelo corre, e sua mãe afunda na lama, gritando para ele pegar os casacos, as botas e não esquecer-se de esquentar-se junto à fogueira, pois as pradarias e estepes são frias e perigosas. Ele corre, e em sua mente a voz da mãe ecoa como um grito nas montanhas solitárias, “Corra meu filhinho, o inverno chegou e ele dói, suas narinas se abrem, no âmago da sua respiração de fugitivo, e eu sei que você sente o lobo te espreitando na escuridão…”. E ele realmente sabe, tal como sua mãe.

Sabe o quanto o uivo do lobo curioso tem um cheiro agradável, que no fechar dos olhos ao dormir, o Lobo das Estepes o persegue, assim como as digitais dos sujos dedos de carvão de seu velho e desaparecido pai, estampadas no último copo de vodka que ele deixou em cima da mesa antes de partir pra sempre. A sombra do Lobo que o atormenta, responsável pelo ato dele encolher o corpo enquanto dorme, mas deixa em seu rosto um sorriso triste, desesperado, mas com tom de sadismo consumado.

Em seu pesadelo ele vai para os prados e estepes com sua baioneta para caçar coelhos, ele sempre encontra o tal do lobo, mas ele sabe que nunca conseguirá matá-lo. Quando o uivo aproxima-se ele fecha os olhos e tampa os ouvidos, porque a Beleza do Lobo certamente irá cegá-lo e o uivo enlouquecedor, o deixará surdo. A mãe dele, suja de lama, balbucia, “Reze meu filho… Reze”, mas enquanto o lobo rasteja sobre o corpo dele, arranhando-lhe as costas, ele não sente dor. Na cena onírica do lobo em cima dele o lambendo e encarando, um medo com desejo sutil, e sabe ele, que por mais que ele feche os olhos enquanto o desejo permeia em seu sexo, não poderá deixar-se cair em tentação, mas sempre se esquece de rezar. A mordida do lobo na linha tênue do pescoço já se tornou um vício, uma ferida que ele tenta cicatrizar jogando vodka, ferida que arde como paixão dançando nas chamas das fogueiras dos soldados russos em campanha. Será ele hipócrita, ao sentir dor e prazer? Não sabe ele dizer… Ao acordar, assustado, manda três copos de vodka goela abaixo, enquanto as matrioskas da pequena mesa o encaram, cada uma com um julgamento de tamanho diferente, mas não importa, sabe e esconde por baixo de sua matriz de arrependimento, que quando o lobo das estepes se aproxima, as estrelas surgem no seu céu particular, e ele corre… Do uivo que ensurdece e beleza que mata. Na sua baioneta nunca tem bala de prata… E jamais terá…

Capítulo VII: Na beira do rio Neva.

 Russel estava tocando uma canção na beira do Rio Neva. Estava ele e Elissa no enterro da mãe. Uma cruz de madeira no chão, algumas flores. Fizeram uma viagem na velha carroça do tio Vlad. Russel sabia que sua mãe pediria uma canção triste e também sabia que queria ser enterrada com sua matrioska. Ela não admitia, mas sua mãe era refém da tristeza, e de alguma forma ela aprendeu a lidar com aquilo, inclusive amá-la. Entoou uma canção cigana, a favorita de sua mãe, e enquanto cantava, veio a lembrança de sua mãe entoando canções ciganas apoiada na janela de sua velha e deteriorada morada na pradaria. Ela sempre começava a cantar com os olhos perdidos no horizonte, e terminava sempre com os olhos fechados e o rosto molhado em lágrimas. Depois que cantava, ela enchia a cara de vodka, e ficava a amaldiçoar os olhos claros e rosto enegrecido de carvão do marido. Russel segurava as mãos magras e trêmulas da mãe. Sua mãe dizia que a única coisa que tinha era um gosto amargo na boca. De fato tinha, era sangue, a doença já estava instalada e a Morte estava chegando a galope. Quando ela deu o último suspiro na cama, Russel sentiu um vento gelado, e não era das pradarias. Foi seu primeiro encontro frente à face fria e invisível daquela que ninguém consegue fugir.

Dias antes, como se ela soubesse do que a esperava, chamou Russel para a beira da cama. Ele estava com um prato de sopa rala de batatas, única coisa que tinha naquela pobre casa, e dava para a mãe comer, as mãos dela não conseguiam mais segurar uma colher. “Russel meu filho, estou encomendada aos anjos. Cuide bem da sua irmã, não me culpe, daqui a pouco seu pai chega, segure as mãos dele sujas de carvão, e vá passear com ele nos Montes Urais. As colinas de Valdai também são bonitas, nos casamos lá. Meu sonho era pegar um trem e partir para São Petersburgo, ver as passeatas de Rjev…”.

Russel deu um sorriso, na última pá de terra da beira do Neva que cobriu o corpo da mãe envolto em um velho lençol de manchas negras que ela se recusava a lavar. De alguma forma, havia ali um pedaço de seu pai, mesmo que seja apenas pó negro de hulha. Lembrou-se do semblante triste da matrioska que ficava ao lado da cama. Um dia, seu pai o levou para as margens do rio Volga. Passaram a noite lá, encobertos pelo frio, aquecidos pela vodka. A baioneta do pai descansava ao seu lado, e dois coelhos assavam na fogueira. Foi ali naquele local, que seu pai disse uma frase ao qual ele nunca esqueceu:

Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…

Após os últimos ritos do enterro, Russel segurou as mãos da pequena Elissa. Foram passear na beira do rio Neva. Provavelmente Elissa vai morar com o tio Vlad, e então Russel vai desaparecer com seu trompete, cujo som será levado sem rumo pelo vento gelado do leste europeu.

Capítulo VIII: до свидания (Adeus)

Elissa ficou na guarda de seu tio Vlad. Partiram para Praga, onde poderá ter uma vida melhor. Russel resolveu ficar, renunciou todo conforto, quis seguir suas raízes, tão fincadas nas pradarias frias. Carregaria sempre consigo a velha baioneta do pai, será um nômade, trocando seu trompete noite adentro. Sonhará com um lobo salivante mordendo o pescoço, acordará e tomará o primeiro gole de vodka, que descerá inquietante garganta adentro. Talvez aceite algum trabalho temporário nas minas de carvão que encontrar pelo caminho.  Conhecerá o amor de várias mulheres, algumas delas dar-lhe-ão um abrigo temporário. Depois ele irá embora, sem se despedir, deixando uma mancha de carvão nos pobres lençóis das matrioskas, que se abriram ao seu toque de homem em arquejos de desejo, que as encheu de calor nas madrugadas frias. Amará cada uma delas, mas as quebrará em milhares de pedaços. Um dia ele vai se apaixonar, mas ele crê que terá que renunciar a dor. A mãe sofreu demais, passando anos e anos esperando seu pai surgir no horizonte. Quando aparecia, deixava nela marcas de embriaguez, e um amor que nem anjos e demônios são capazes de compreender. Ela amava  o marido e sonhava com sua vinda triunfante, como um soldado que venceu a guerra. O tempo passou, sua mãe morreu e foi enterrada na beira do rio Neva envolta de lençóis usados e sujos de hulha.

Viu Elissa partindo numa velha carroça com uma mala, partiria depois em um monstro de ferro que a levaria para Praga. Nunca se esquecerá dela, olhando para trás, com os olhos cinzentos em lágrimas e parte do seu cabelo loiro saindo do lenço, que tremulava ao vento. Era mais um dia frio nas pradarias, mas desta vez era um dia bem mais triste, carregado de adeus, e uma saudade eterna, que gritaria para sempre sua dor por todo Leste Europeu.

Russel seguirá então os conselhos do pai, pois não há mais nada que ele possa fazer. Apenas seguir em direção ao rio, e tudo o que ele mais queria, era poder ver o tempo cumprir seu dever, o fogo em linha horizontal, sem rumo, queimando lembranças tristes. Num saco velho, colocou suas coisas, ele nunca teve muito, a pobreza nunca o permitiu nada mais que roupas deterioradas, uma caneca velha, o trompete  e a baioneta do pai… Um velho caderno preto com partituras. Bastava cortar algumas lenhas para comprar garrafas de vodka. Tinha os velhos cobertores e lençóis gastos da mãe. Apenas isso bastava. Colocou fogo no velho casebre de madeira. Todo o cheiro ocre de lembranças despedaçadas e transformadas em cinzas. Foi embora, sem olhar para trás. Uma nuvem negra subia para o céu, avisando a todos que ali não tinha mais nada a se fazer, nada a se guardar, todas as matrioskas eram cacos, e não havia tempo para vitrais. A velha porcelana russa perdeu todo o seu valor.

E a voz de seu pai, e a lembrança dos olhos azuis, envolto de rugas de expressão e um cansaço tão triste que chegava a ser belo, foram com ele, na sua busca por acalento onde as baionetas cantavam canções de sorrisos e amores estilhaçados:

“Dê-me sua mão, vamos cantar na beira do Volga, vou te contar um segredo meu filho:
Quando não há mais para onde correr, siga apenas a direção do rio…”

Ele percorreu milhas e milhas, até chegar à beira do rio Volga. E Russel desapareceu, sem deixar rastros, nem folhas de seu velho caderno preto, restou apenas esperança, e a lembrança daqueles que ouviram seu trompete de notas incólumes às tragédias. Ficou a lembrança de seu calor nos dias das mulheres que ele amou. E todas elas, tal como sua mãe, aguardam até hoje, ele surgir no horizonte. Russel desapareceu, mas sua marca permaneceu, e os ventos gelados do Leste Europeu nunca mais foram os mesmos.

“ …entregava-se àquele alheamento profundo, uma espécie de torpor, continuando o caminho sem dar a mínima importância às coisas circunstantes, sem querer reparar no que o cercava. De quando em vez, entretanto, resmungava palavras indistintas, em virtude do hábito de monologar, de que, ainda havia pouco, se confessava atacado. Percebia que, às vezes, as ideias se lhe embaralhavam no cérebro e adquiria consciência de sua extrema fraqueza”. (Fiodor Dostoiesvski)

Atlantic City.

Everything dies, baby, that’s a fact
But maybe everything that dies someday comes back…

Esta noite vejo-me sorrindo, com os olhos brilhantes, tal como um diamante louco negro e todo lapidado. Eu vou colocar a mais bela música, tomar um banho longo, e a água morna irá envolver-me como um abraço, um abraço que eu sinto tanta falta. Olho para o alto, fecho meus olhos, tranco minha respiração enquanto a água escorre pelo meu rosto, e na ponta dos pés, como uma bailarina, eu ergo as mãos, me espreguiçando longamente soltando um suspiro.

Saio do banho, vejo meu sorriso no espelho, rosto molhado e sereno. A vida é muito curta para termos preocupações, por isso eu ando nua pelo quarto, onde as velas são acesas e eu encontro minha felicidade em jogos de luz e sombra.

A infusão de maças e canela me chama. Eu tombo a chaleira e me divirto com as nuvens do calor brincando no ar. Mas as canelas em casca com maçãs inteiras… Não é esse aroma estimulante que eu mais queria agora…

Ouço os carros passarem em alta velocidade lá fora, mas o Tempo passa devagar, talvez ele saiba que é minha hora de amar, enquanto eu bebo um chá, eu penso em você bebendo goles de café, são meus turbilhões de pensamentos, pensando em um toque que não é meu, mãos que não são minhas.

Borrifo em locais estratégicos meu melhor perfume, aquele que eu guardei especialmente para quando for beijar meu pescoço, aquele que me traduz como mulher e lhe dará boas memórias olfativas. Estou cantando um murmúrio, aquela música que está tocando em minha mente, e que tanto faz-me lembrar de teus olhos, pena que o dia não está chuvoso lá fora.

Escolho o meu melhor vestido, soltando meus cabelos. Lembro-me de teu afago doce e suave em meus cabelos ondulados, naquele dia de ventania, e desde então, em dias de vento de outono, cada afago do vento eu acho que é o teu,  queria eu afagar teus cabelos novamente, bagunça-los e deixá-lo zangado, depois ver-te rir perante minha alma de criança levada.

Eu vejo Vênus lá no horizonte, vejo o brilho vermelho de marte, queria ensinar-lhe sobre as constelações, você não sabia o que eram plêiades, mas sabia o que era um conglomerado de estrelas. Eu o completei neste quesito.

A brisa noturna bate no meu rosto, e eu deito em minha cama, fixando o horizonte com olhos perdidos. Eu olho para todos os cantos, vejo minha coleção de canetas, meus livros na estante, minhas garrafas de vinho vazias, mas com as rosas que você me deu. Tenho em mãos agora um enfadonho caderno de prosas, e fora isso não há mais ninguém, a única que me acompanha agora é a saudade e a espera.

Toque a campainha, a porta sempre estará aberta. Entre e fique, veja como eu estou agora, todos os dias eu me pergunto se o Amor não passa de um joguinho besta entre lençóis, mas eu espero que você chegue com teus olhos azuis de dilúvio e bagunce meus cabelos, que rasgue meu vestido caro de boutique do Jardim Cambuí.

Enquanto isso não acontece, eu sigo cantarolando “Something” dos Beatles. Quando eu coloco minhas mãos juntas, quando eu abraço o travesseiro, ou quando eu olho o horizonte e vejo as luzes amarelas da cidade, ao longe, é apenas em você que eu penso, e este perfume que eu sinto agora, é o cheiro que eu quero que sinta em minha pele, a estrela lá fora, aquele brilho do passado, não quero admirar sozinha.
Agora eu posso pintar um quadro seu, com meus crayons, porque eu consigo enxergar todas as suas cores, e eu tenho a esperança, de escutar a sua voz me chamando, para irmos para Atlantic City.

Put your makeup on, fix your hair up pretty and meet me tonight in Atlantic City!

A metáfora da mariposa e o lampião.

Em volta do lampião aceso naquele quarto, naquele sítio no meio do nada, vários insetos circundando ao redor, bêbados ao redor do fogo, debatendo-se, caindo no chão, rodopiando com as asas pra baixo, perninhas pra cima, como se estivessem tendo uma convulsão. Não sei se insetos tem convulsão, como os humanos… Devem ter, pois tais humanos se aproximam mais a insetos do que aquilo que chamamos de natureza humana, logo, devem existir insetos mais humanos do que nós.

E os insetos são como anjos caídos, frente a luz divina que os mata, eles acreditam em suas convicções, e amanhecem mortos e pisoteados, por nós humanos, eles são mortos pela própria luz que tanto idolatraram. E a mariposa enquanto rodopiava em volta de sua paixão luminosa, não se importava com seu vício. Ela dançava obscenamente, hipnotizada, suas asas batendo em segundos violentos, chama sensual, como um casal que se ama entre as quatro paredes de um motel de beira-estrada. O calor do lampião queimando as asas é como um casal arranhando as costas um do outro, cravando as unhas no ápice de um prazer enlouquecedor. Ela se joga no vidro do lampião, golpe… Quando o lampião se apaga, ela chora como uma criança, sua fonte de Amor foi embora. Ela vai embora e pousa numa flor no jardim de frente para a janela onde a lampião se acende, ou ela se camufla em um tronco marrom cheio de juras de amor de 1980. E quando a noite chega, o lampião se acende, e ela beija a luz com seus cílios. Ela se curva… Perante aquele fogo suas asas batem um milhão de vezes. A mulher a fazer Amor no quarto também…

 

luz

Por quem os sonhos dobram.

Começarei com duas citações, que só serão entendidas ao final do texto:

Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança. Ernest Hemingway

Um bom romance é qualquer romance que nos faça sentir. Ele deve enfiar sua lâmina por entre as dobras do couro com o qual a maioria de nós cobre.  A sensação que nos causa não deve ser puramente dramática, e pronta, pois, a desaparecer assim que ficamos sabendo como a história acaba. Deve ser uma sensação duradoura, sobre questões que são, de uma forma ou de outra, importantes para nós. Virginia Woolf.

Ela dormia, numa noite quente de outono. Deveria estar frio, pensou ela, enquanto se arranjava para dormir, madrugada adentro. Na sua mente de escritora amadora, as madrugadas foram feitas para escrever, elas têm o dom da criação, o poder de imortalizar qualquer forma de arte, desde as mais abstratas, produzidas por loucos envoltos nos absurdos de  suas camisas de força ou perdidos em bairros boêmios  olhos abertos na noite, consciência etílica, porém tão racional, incompreendida por muitos, ignorada ou até mesmo o orgulho. Sim o orgulho, ou olhos desacostumados…Olhos desacostumados, seria medo, passos de menino desajeitado, ocupado, cansado, nos dias de ir e vir, a falta de sorte ou o excesso dela, quem sabe? Estava ela ali, perdendo a insônia, aos poucos, querendo fechar os olhos. Nas suas férias, ela queria apenas escrever, colocar as entranhas pra fora, ganhar algo por isso. Concursos literários estão por vir, queria ela um pouco de sorte, um beijo na cara que ela dá a bater. Mulher corajosa, sem medo, sem vergonha, talvez quase sem limites. A intensidade da alma lhe dói, sentir machuca. O mundo é menos cruel com os insensíveis, aqueles que fazem das pessoas uma marionete numa peça de teatro amador, de quinta categoria. Não era uma atriz, e se fosse, seria uma em teatro shakespeariano, de Amor e tragédia, aos olhos emocionados daqueles que a leem, um olhar perdido daquele que ela ama ou seria um Amor dissimulado, um eco, servido ao molho pardo e alcaparras. Não podemos engolir o eco, engolimos o ego, à seco, mas ecos não, apenas gritamos, e eles respondem do outro lado, tortos e dissimulados, e outras vezes, gritamos e nem o eco responde. O eco também aprecia o silêncio, e ela, não sabe lidar com ele, o Silêncio, mas tenta, caindo feito bêbada, mas sóbria, na sarjeta dos seus sentimentos. Mas ela não desiste, segue mar adentro, com suas folhas escritas, ego emudecido, marolas de razão e sensatez, mas com a sede de viver sem perder os segundos. Enfim, dormiu, e quando fechou os olhos que já o olharam sem medo, mas com um pingo de timidez dissimulada, mãos trêmulas, lábios úmidos…Fechou os olhos e sonhou…

Estava ela na sua velha casa em que morou na infância. Estava apoiada no muro, observando o movimento noturno. Ela estava em um lugar de seu passado, e as crianças que ela via brincando na rua, eram as mesmas crianças que ela brincava na rua sem saída, com seus 8 anos. Ali naquele muro branco, com pintura descascando, algumas rachaduras na parede, calçada com pedras soltas, ela observava, calada.  Saiu de lá, queria caminhar na rua, a lua estava soberba e inspiradora. Saiu pela porta da frente, a que dava pelo jardim, flores mortas, outras vivas, cheiro de terra molhada, mesmo sem chuva. Sonhos nos proporcionam momentos sem sentido, e na cabeça dela, a terra não poderia ter aquele cheiro, a não ser que tenha chovido ou alguém tenha molhado ela.  A terra estava seca, como se há dias ninguém cuidasse de seu jardim. Teve ela uma infância triste, mas com momentos alegres, momentos em que brincava num balanço velho de praça, com o sorriso banguela, corpo franzino. Aquele que a tira da toca, conserva suas fotos de infância. Queria ela, numa tarde de final de semana, não onírica, numa realidade próxima, uma tarde tranquila num dia ensolarado, sentar ao lado dele e lhe contar cada detalhe daquelas fotos, datadas de dezessete anos atrás. Falaria ele sobre as formigas, seu senso de organização, vida em grupo? Eis aí seres em cooperação, nenhum ser em vida é uma ilha, por mais que queremos às vezes nos esconder em nossas cavernas, viver como eremitas, num buraco solitário improvável onde reina uma única formiga, distantes, de tudo aquilo que nós possa machucar ou enganar nossas convicções, dizer à nossa vida que aquilo que nos motiva, que nos dá disposição para seguir em frente, não passa de uma ilusão dos homens, ou sonhos de madrugada quente de outono.

Estava ela lá na rua, sentada na beira da calçada, embaixo de uma árvore cujas raízes quebravam a calçada. Pensou nele, era o que ela mais queria naquele momento, era saber se ele estava bem. Eis que vindo despreocupado, rua abaixo, vinha ele, mãos nos bolsos, boina azul, que combinava com seus olhos tímidos porém tão inquisidores. Chamou o nome dele, ele olhou em direção à ela, deu um sorriso. Deus sabia como amava aquele sorriso. Se abraçaram, abraço leve, rápido, porém cheio de intensidade, um instante que ela queria que não acabasse. Ele a beijou na face, sua barba por fazer causou-lhe um arrepio.

– Está tudo bem contigo?Parece cansado… – disse ela, olhando-o nos olhos, ela não sabia, pelo menos era o que pensava ela, falar apenas com o olhar. Ela queria ser mais silenciosa, agir quem sabe na surdina, falar menos e pensar mais. Seria possível?A razão de seus problemas frente à sociedade retrógrada, era que ela era uma mulher que pensava demais e falava em demasia. Escritores e escritoras jamais se calam. É com as palavras que eles gritam seus desejos, derramam os copos cheio de cólera, abraçam seus amores, beijam, transam, imortalizam aqueles aos quais se apaixonam, mesmo sendo imoral, na visão de Oscar Wilde, ou seria na visão de seu personagem Lord Henry? Personagens são ecos disfarçados daqueles que os criaram. Cada criação carrega um pouco da vaidade de seu criador, algumas mentiras, meias verdades, e um poço profundo cheio de sinceridade que por muitas vezes dói. Em tempos de idade média, o silencio tímido de uma mulher era tido como algo de obrigatoriedade. Em tempos modernos, em tempos de machões que acham que vivem numa época feudal, de vassalos e servos, a mulher ainda tem de ser mantida na sombra, no porão escuro de seus desejos. Mulher não tem o direito de desejar…Reprime…Eis aí o coeficiente da razão tingida de cores mesquinhas. Até quando, pensa ela?

Ele disse que estava cheio de coisas pra fazer, tinha acabado de chegar do trabalho e estava apenas caminhando para colocar os pensamentos em ordem. As crianças continuavam a brincar, mas parecia que o tempo parou ali. Queria agarrar os ponteiros do relógio e não largar mais. Chamou ele, pra uma festa, no final de semana sabia ela que ele não teria tempo, ou não teria vontade, ou sabe-se lá mais o que.  Aquele homem ali na sua frente, era uma incógnita, o brilho de uma estrela incompreendida, e que talvez já morreu, mas seu brilho, na mente dela, durava anos luz, e nunca morriam.    Ele foi embora, pensativo, dobrou a esquina. Ela ficou parada, na rua, vendo ele partir. Voltou pra sua casa, e ficou apoiada no muro, talvez ele voltasse. Talvez…

Pausa, ela não se lembra o que aconteceu naquele meio tempo, durante seu sonho. Talvez ela brincava com os cachorros que teve correndo e cagando pelo quintal. Talvez ela estava a olhar para o céu, tentando entender as estrelas ou ser abduzida por extraterrestres do Arquivo X. No trecho que se lembrou, ela estava sentada num banco de jardim, ao lado da escada que dava pra garagem, que ficava na parte subterrânea da casa. E lá veio ele, subindo as escadas, mãos fora dos bolsos, cabelos desalinhados, a boina sumiu… Coisa de sonho, ou talvez ele tinha perdido, ele lhe disse um dia que costumava perder ou esquecer as coisas. Igual ela, esses dias, ela perdeu as chaves de casa, chegou em frente de sua casa e esparramou as coisas da bolsa na calçada de concreto liso. Era tarde da noite, incomodou a senhora que alugava sua casa a preço de banana. Ela apareceu, de pijamas, e lhe deu uma cópia das chaves. A música de Adriana Calcanhoto na cabeça…

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será, que você está… Agora?

Estava ele lá, na sua frente, disse-lhe que iria para a festa ao qual foi convidado. Os olhos dela sorriram, sua boca o fitou, sim, essa mistura sinestésica, queria sentir o cheiro dele, na pele…Foi embora, lhe deu um sorriso tímido, daqueles de canto de boca. Deixou seu cheiro no ar, junto com a saudade de seu sorriso de fração de segundos.

Como o tempo em sonhos não tem uma ordem cronológica lógica, o final de semana chegou rápido. Ela saiu do elemento cenas da infância em tempos presentes, e estava no local onde seria a festa. Era uma chácara grande, num bairro conhecido da sua cidade, com um casarão cheio de suítes, com grandes janelas que davam para o horizonte. No horizonte daquela janela, haviam vários templos religiosos, grandes sultuosos, seria que aquele sonho, o seu inconsciente talvez a estivesse chamando atenção para sua falta de crença, ou falta de atenção para o seu lado espiritual? Esta foi uma das incógnitas, que ficou questionando quando ela abriu os olhos marejados. Ela tomou banho, colocou seu melhor perfume, preparou-se, um ritual, cheio de felicidade. Escutou um barulho, estava de biquíni, desceu as escadas do casarão, parou na porta, ainda colocando desajeitadamente um vestido por cima da roupa de praia. Ele chegou, estava de camisa, branca, olhos de dilúvio, sorriso, olhou pra ela com expressão de desejo, rindo do jeito desengonçado com ao qual ela tentava colocar o vestido enquanto caminhava, ela suspirava  esbaforida, uma ansiedade e um desejo incontido. Abraçou-a fortemente, deu-lhe um beijo, que somente os que vivem a intensidade das brincadeiras do inconsciente, podem sentir. Parecia tudo muito real. Ele estava suado, no abraço, sentiu as costas dele molhadas, a camisa estava úmida, ela também. Ele perdeu-se no cheiro de seus cabelos molhados, na delicadeza do tecido do vestido que a cobria. Ela sentia o cheiro dele, um cheiro natural, bom, de homem feito, uma mistura de sua colônia borrifada de manhã, resquícios de perfume fabricado com o mais divino cheiro natural. Ela tinha aquilo com ela, ela é de uma natureza selvagem, e aquele homem a decifrava com os olhos, sem dizer uma única palavra, ela se perdia, ele interpretava seus mitos, sabia ele que ela era uma mulher que corria à frente dos lobos, perdida em pradarias, estepes, mas sempre sem perder o medo, mostrando os dentes, salivando de desejo, na cólera, na raiva, na emoção, no Amor, na dor, em todas as quatro estações. E ali naquele abraço, tão real, tão sensato, ele lhe disse ao pé do ouvido:

– Tome um banho…comigo…

Sabia ele, que ela já havia feito isso, e talvez sabia, que ela faria de novo…E de novo…Até toda a sua pele ficar enrugada. Uma mulher intensa cheia de sentimentos, não perde seu tempo, ela aproveita até o último momento, e quando o momento não foi aproveitado por n razões, seja por freios do ego ou orgulho, ela se lamenta, até a último segundo de tempo perdido. Ela abraça os ponteiros do relógio, e propõe ao Tempo um jogo erótico. Talvez, se o Tempo pudesse ser levado na base da chantagem emocional ou sexual,  estaria todo boêmio, cheio de doenças, todo mundo seria imoral, até aqueles que se recusam a cair na tentação. Todos nós nos entregamos à ela, quando não conseguimos lutar mais.

Subiram para o quarto, eles contemplavam o horizonte na janela, cheio de templos. Chamava a atenção, naquele horizonte, um templo budista amarelo, igual a cor de um girassol. Os monges regavam um jardim, e um deles segurava um vaso com um lindo girassol. O sol brilhava lá fora, e o girassol estava imponente, soberano como o seu semelhante que reina no céu.

Ela acordou, com  estrondo do trovão. A noite que começou quente, trouxe o frio sereno e agradável do Outono. Estava deitada, num colchão, na sala da casa do irmão. Acordou suada, e viu que agarrava o travesseiro, o abraçava, e ele estava molhado. A triste realidade a deu uma bofetada na cara, seu Amor não era um homem, era um travesseiro, e ela estava sozinha, ali naquele lugar, no escuro. Subiu no sofá, estava amanhecendo, olhou a manhã tímida querendo nascer, bocejando pra ela. Escutou o som dos pombos imundos que ficam no telhado do prédio, viu os líquens brotando nas paredes rachadas do prédio, viu o brilho das luzes acesas, sombras de pessoas que assim como ela, acordaram para a vida. Foi o sonho mais lindo que ela já teve, ela estava suada, era como se o abraço dele tivesse aquecido, como se tivessem transado até as forças se acabarem, e deitarem um ao lado do outro. Quando se deu conta de que tudo era uma pegadinha do inconsciente, pegou um caderno, uma caneta perdida em cima da mesa. Deitada no sofá, começou à escrever, e você, querido leitor, está lendo sua alma cheia de sonhos…

“Todos precisam de alguém para conversar – disse a mulher. – Antes tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”

Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway

Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.
Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.

Apartamento em chamas

Lúcia gosta de tomar banho com  banheiro cheio de velas. Ela usa isso como uma forma de ritual, sem compromisso, sem pressa alguma. Chega cansada do trabalho e coloca um John Coltrane ou B.B King para relaxar, pensar na vida, ter um sorriso de canto de boca, emoções surgidas nas trilhas de um solo de jazz ou blues tarado.

Deixa as roupas pelo caminho, fazendo uma trilha em direção ao banheiro, vai andando nua pelo apartamento de subúrbio, enquanto devora o resto de doce de banana feita pela avó no final de semana. Liga o computador, acompanha os último status das redes sociais e notícias de portais web, dá risada da última coluna do Zé Simão e seu colírio alucinógeno. Um ritual de bruxaria, um ritual totalmente pagão, seus demônio dançando em volta das chamas tremulantes da vela. Anjos soprando nos ouvidos, demônios em forma de pensamentos, todos num coro, na penumbra de jogo claro e escuro, luz e escuridão. Seu banheiro era um pintura barroca.

Faz amor consigo mesma, os homens que a tiram de sua toca, faz-lhe querer respirar por um mundo menos mesquinho com suas cores cinzas esparsas, no meio de seu mundinho tão colorido, solitário, a viva alma de um homem que veja suas nuances é tão raro quanto uma espuma de banho que seja duradoura. Lava a alma, lava o corpo, pensa em sexo e também em Amor.  Assopra a espuma nas mãos, como uma criança em corpo de mulher adulta. Não tem medo da solidão, pois ela é aquela que lhe completa  e faz sua consciência ão andar tanto nas sombras e nem tanto em caminhos iluminados, há o equilíbrio entre sombras e luz. Alimenta sua sede de viver pecando e fazendo as coisas certas, em passos de dança desalinhados, um tango teimoso.

Enxuga-se com uma felpuda , perfuma-se com algumas gotas de perfume atrás da orelha, 5 gotas tal como Marilyn Monroe em seus tempos áureos, amante de John Kennedy, baleado na surdina por um tiro na cabeça . Deita-se nua, na cama, com o corpo coberto apenas por um película perfumada de hidratante.  Agarra o travesseiro, aperta-o entre as pernas. Ela ama a solidão, mas gostaria de ali, naquele momento, naquele apartamento, queria o elemento Fogo, não queria a brisa suave do ar-condicionado.

Os carros passam lá embaixo, janelinhas de prédios ao redor, cheias de vida e histórias, sombras passando na janela, há um rio de emoções e segredos, diante de seus olhos naquela janela. Na penumbra de seu apartamento ela reflete sobre suas ambições e desejos. Numa aflição silenciosa, ela aperta um pouco mais o travesseiro entre as pernas. Queria um homem ali, no meio das pernas. Queria esquecer as velas acesas, perto de papéis, madeira nobre. Queria que as velas que fazem a trilha do banheiro ao quarto, trouxessem aquela chama que ela tanto necessita.

É verão naquela selva de pedra, naquela metrópole carregada de desejos,  ansiedades, ambições, todos os sete pecados capitais. Queria um apartamento em chamas, um homem entre as pernas e não um travesseiro. Um pouco de Amor…

Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.Albert Camus
Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.
Albert Camus