Quando eu era menina…

Seu eu morrer muito novo, ouçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. (Alberto Caeiro)

Eu me lembro como se fosse hoje, a rua cheia de crianças. A velha rua sem saída que tinha a poucos passos de minha casa. Naquela época, ao menos, assim eu penso, analisando os dias de hoje, cerca de 18 anos depois, aqueles tempos era seguro brincar nas ruas, mesmo aquelas que tinham saída. Pode ser que no meu olhar de criança, eu não enxergava a maldade. Não existe nada mais belo que o olhar inocente de uma criança. Existe apenas a consciência do querer brincar pra sempre, de nossas mães ou aqueles que cuidam de nós, de nunca alcançarem o portão de casa e nos chamar porque estava entardecendo. Talvez este fosse o momento mais triste do dia. Quando eu era criança, eu não almejava o entardecer, quando ele chegava eu sabia de alguma forma muito simplista de que teria de me despedir de outras crianças e entrar para casa. Hoje, adulta, eu almejo os entardeceres, pois sei que minha jornada de trabalho está chegando ao fim e que eu posso chegar em casa, tomar um banho e relaxar. O mais engraçado é que quando éramos crianças, queríamos ser adultos. Esta é a coisa mais besta que uma criança possa querer. Eu falo aos meus irmãos menores que eles nunca devem ter pressa de querer ser adultos.

E a rua sem saída e demais ruas ao entorno era um palco de sorrisos e brincadeiras. Naquela época as crianças ainda fabricavam suas próprias pipas, e corriam para buscar as que caiam no céu. Dias atrás fui num churrasco com os amigos em um bairro da periferia. Lá pude ver as pipas no céu. Me trouxe uma lembrança doce dos meus tempos de criança. Estávamos na calçada com nossas “bebidas de adulto” e cigarros que já não eram de chocolate. Um menino desceu correndo atrás da pipa que foi derrotada. E quando ele subiu novamente e passou por nós, parabenizamos a criança: “Ehhhhhhhhhhhh!” e então o menino abriu um sorriso e levantou a pipa em sinal de vitória. Fazia tanto tempo que eu não via isso, e então pensei o quanto estou ficando velha ranzinza em um bairro de metrópole onde as crianças das famílias que existem por aqui brincam trancafiadas em casa com seus videogames, tablets, carrinhos de controle remoto. Não existem mais brincadeiras na rua. Não vejo mais carrinhos de rolimã, meninos soltando pião, rodinha de crianças jogando bafo ou bolinhas de gude. Como costumo dizer, as brincadeiras hoje se transmutam em divertimentos eletrônicos sem nenhum contato com o que existe real. Antes eu brincava na terra. Hoje uma criança dificilmente brinca na terra, talvez a única terra que elas “tocam” são as dos canteiros do Farmville.

Lembro-me que eu sentava na soleira da calçada e via os meninos descendo a mil nos carrinhos de rolimã. Às vezes um se ralava todo e a mãe saia correndo preocupada. Ficavam alguns dias de castigo e depois voltava, com um carrinho de rolimã novo. E não era só isso que tinha pelas ruas. Na rua de casa, tinham jogos de amarelinha desenhados no asfalto. Eu me lembro de que nós roubávamos giz colorido da escola para poder desenhá-las no chão. O céu era feito com giz azul, o inferno com giz vermelho, e os números, obviamente com giz amarelo. E pegávamos pedras da rua para jogar. Lembro-me o quanto era difícil acertar o número 10, mas as crianças que chegavam até o final da amarelinha, tinham o dia ganho. E as tardes semanais e finais de semana eram recheadas de pega-pega, pique-esconde, pula corda… Eu era muito ruim em pular corda. Ficava frustrada por ser desengonçada. Mas mandava bem nos patins. Um dia peguei uma ladeira e me arrebentei porque uma pedra apareceu no meio do caminho, e não deu tempo de desviar, foi a única vez que eu me arrebentei nos patins. Eu pulava, fazia manobras, coisa de criança doida mesmo. Carrego em meus joelhos e cotovelos as marcas da queda. No dia chorei, hoje dou risada. Lembro-me de que naquela época merthiolate tinha álcool. E ele era o terror das crianças travessas, o terror dos que andavam de bicicleta, patins e rolimã. Jogar futebol e chutar o chão ao invés da bola era lágrima certeira. Nada era mais terrível que o merthiolate, as crianças queriam voltar para suas casas com roupas imundas e pés sujos, mas não queriam voltar cedo e encarar aquele vidrinho daquele “negócio que ardia”.

Tinham as lendas que contavam para as crianças. Nunca me esqueço do homem do saco. O homem do saco era o terror para as crianças cujos pais as educavam para ficarem sempre por perto de casa ou dos pais durante os passeios. Um dia, fui à feira com minha mãe e me perdi dela para comprar pastel. Achei que fosse encontrá-la e me enganei. Então fiquei esperando na banca de pastel. Ela me encontrou e me deu o sermão do velho do saco. Quando chegamos ao portão de casa, um velho com um saco nas costas estava descendo a rua, e ele olhou pra mim e disse: “Que criança linda! Quer ir embora comigo?”. Então corri pra dentro de casa, e fiquei anos acreditando que o homem do saco existia, e tinha certo medo de ir pra escola sozinha e encontrar o velho, e ele me pegar à força e colocar dentro do saco. Eu acreditava mais no velho do saco do que em papai noel. Sempre soube que o papai noel era meu tio, mas o homem do saco não, ele existia e não era o papai noel, era um homem velho que sequestrava as crianças e depois as comia ou vendia.

Além do velho do saco, tinha o velho do muro… O velho do muro era um tio de um menininho que estudava na mesma escola que eu. Ele sempre ficava até altas horas no muro da casa dele, apenas com a cabeça aparecendo. Era um muro alto. Fiquei sabendo da real causa da aparência dele, anos depois, quando adulta. Eu tinha medo dele. Ele era um senhor de idade muito pálido, com covas profundas no rosto e sem nenhum cabelo, completamente careca. Quando a noite chegava e nas vezes que iá com meu irmão comprar tortuguitas na vendinha, ele estava lá, espiando a vida por cima do muro. E as luzes das luminárias de rua davam mais ênfase a palidez dele. E eu sempre dizia que não gostava do velho do muro. Um dia minha mãe me perguntava por que eu não gostava dele. Eu respondi a ela que era porque nunca tinha visto uma expressão tão triste em alguém. Eu não conhecia muito a tristeza até os meus 8 anos, quando tudo era teoricamente normal em minha vida. Aquele velho foi meu primeiro encontro com a expressão de tristeza no rosto de alguém. Dos meus oito anos em diante, descobri a tristeza em meu próprio olhar. Mas daí já é uma longa e talvez desnecessária história, ainda com dores não curadas, talvez alguns meses de terapia me ajudem. Mas só posso dizer que sei na pele o que é não saber conviver na mesma esfera de compreensão de uma criança.

Vocês dizem: “Cansa-nos ter de conviver com as crianças”. Tem razão. Vocês dizem ainda: “Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-los. (Janusz Korczak)

Eu tive um namoradinho na infância. Eu inclusive já falei dele. Chamava-se André Luis. Era um menino que me escrevia cartinhas de amor com as canetas coloridas da irmãzinha. Já escrevi aqui também que um dia eu e ele encontramos uma pomba no chão, e ignorantes das certezas da vida, achávamos que ela “dormia” na calçada. Depois, descobrimos que era apenas uma pomba morta com vermes devorando as entranhas. Mas ela estava ali, no meio da calçada, como se tivesse feito um ninho. E eu me lembro daquele momento até hoje, e do cheiro das balas de doce de leite de Andre Luis, e do momento que eu chorava inconformada por causa de um pássaro morto, e ele simplesmente me deu a mão e fomos de mãos dadas até o portão de casa. Ele me deu um beijinho no rosto. Era um beijo melado, com cheiro e sabor de doce de leite. Hoje, quando vejo aquelas balas quadradas de doce de leite, lembro-me de André Luis, e seu cabelo loiro tigelinha. Ele tinha os olhos quase claros, de um castanho esverdeado. Era uma linda criança. Eu acho que eu era uma criança bonita também, os meninos do jardim me davam flores, mas André Luis foi o único a quem eu andei de mãos dadas naquela época. E o mais engraçado é que eu via os adultos se beijando na boca e tinha nojo daquilo. E comentava com André que ele não faria aquilo. E ele dizia: “Blergh, não… É nojento”. E ficávamos somente nos beijinhos de despedida e nas cartas inocentes com letras tortas, reféns de cadernos de caligrafia. Não posso dizer, (ou posso?), que eu vivenciei um amor na sua esfera mais pura, mas não sei dizer, 17 anos depois, se aquilo foi amor. Foi uma história de infância, cheia de timidez e risinhos. Era como um amigo com algo a mais. Eu e André Luis dividíamos o lanche, contávamos nossos segredos um ao outro, e, sobretudo, andávamos de mãos dadas, e eu acreditava que por ele estar comigo, estaríamos protegidos do homem do saco. Quando descia a rua de mãos dadas com André, eu nem me lembrava do “Velho do Muro” e sua fisionomia triste. Descobri muitos anos depois que aquele velho na verdade não era um velho. Era um homem de quarenta e poucos anos que sofria de câncer. Quando ele morreu, eu em minha consciência de criança, eu achava apenas que ele tinha enjoado de ficar ali. Descobri que as coisas e pessoas morrem quando vi a pomba morta no chão. E chorei dias seguidos com medo de perder alguém próximo. Os adultos me confortavam dizendo que as pessoas que morrem vão para um lugar bonito, onde não existia tristeza e demais coisas ruins. No ano passado confortei meu irmão menor que chorou dias e dias a morte de um amigo de minha família que vendia pastel na rodoviária e que por costume íamos até o trailer dele toda sexta-feira. Meu irmãozinho aguardava ansiosamente a “Sexta-feira do pastel”. E teve um dia que a pastelaria nunca mais abriu. O Senhor dos Pastéis foi executado cruelmente. Amarrado, colocaram-no de joelhos e deram-lhe um tiro na nuca. Tudo por causa de uma furadeira, uma televisão e cerca de quinhentos reais. E a notícia correu quatro cantos. Meu irmão viu a foto tirada ao longe do corpo sem vida do seu amigo pasteleiro jogado no canavial. Foi vítima do sensacionalismo barato. Ele chorou nos meus ombros. A Morte pra ele foi mais traumática. O meu primeiro encontro com ela foi através de um pássaro no meio da calçada, mas ele passou para um degrau filosófico muito mais pesado que aquele que eu passei. Ele em tenra idade passou a questionar quanto vale a vida… E ficava triste pelos cantos, até que o Tempo lhe curou as dores…

Quando eu era menina, e ficava triste pelos cantos, eu subia no telhado de casa. A vida era incrível lá em cima. Isso passou a ser corriqueiro na época em que eu me tornei uma criança triste, fragilizada emocionalmente. Era em cima do telhado que eu encontrava minha paz que tanto me fazia falta. Eu era feliz quando meu irmão Ricardo ia me visitar, e nós íamos ao cinema, escutávamos música, ou quando ele me levava para brincar em piscinas de bolinhas ou carrinhos bate-bate. Ele sabia que eu passei a ser uma criança sozinha em um mundo de adultos estressados, deprimidos e alguns deles, opressores. Quando ele não estava lá, eu ficava no telhado. Escondida, sim, escondida. Porque as pessoas passavam sempre olhando em frente ou olhando para o chão. Nenhuma delas olhava pra cima para ver o quanto o céu estava bonito, ou o bem-te-vi que sempre cantava em galhos nas árvores da minha rua. Outra alegria que eu tinha era levar minhas cachorras para passear. Ver a alegria delas cheirando pequenos canteiros e chegarem cansadas em casa era uma forma de eu ficar feliz. Um dia minha cadela Gabi, já velhinha, talvez ciente de sua morte, fugiu. Dizem que os cães sabem quando vão morrer, e alguns deles se afastam dos donos para evitar que eles sofram. Todos os meus bichinhos sabiam quando eu estava magoada. Eles deitavam ao meu lado e não saiam, e os mais novos faziam graça para tentar me fazer rir. E de certa forma, funcionava. Hoje, sinto falta de ter um cão. O amor dos animais é incondicional. Um amigo me disse que eles são mais humanos do que aqueles que recebem essa alcunha. Falam que o Homem é ser-HUMANO… Tenho minhas dúvidas. A criança sim, esta é um ser humano. Um ser em perfeição, tão incompreendido. Não penso em ter filhos, não agora. Penso que o mundo é cruel demais para seres tão perfeitos conviverem. E então eu pensei se ainda podemos oferecer para as crianças um mundo mais bonito. Mas o problema não está em nós, está ao redor. O que podemos fazer? Mantê-las em redoma de vidro? No momento sou egoísta o suficiente para apenas eu sofrer com as dores e intempéries do mundo, a ponto de querer ter de volta a inocência que eu tinha anos atrás. Eu era apenas uma menininha banguela, magrela que sorria brincando em balanços. Muitas vezes eu sonho com essa época, com as crianças que eu brincava, com André Luis… Um lapso momentâneo daquilo que perdemos ao passar dos tempos. Mas quando eu acordo, vejo que estou de volto para aquilo que corresponde à minha realidade. Hoje, não vejo mais crianças nas ruas. Não mais como antigamente… Não mais… Ser adulto é tão chato!

Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta... Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou...
Lembro-me que eu usava polainas, sonhava em ser bailarina. Meu pai tinha me presenteado com um porta-joias que quando dava-se corda, a bailarina dançava. Então, eu sempre dava corda, e tentava fazer igual. Ao fim eu nunca me tornei bailarina, nem médica, nem toquei violino, nem astronauta… Não fui nada que eu sonhava quando criança. Mas eu sinto que essa menininha aí da foto nunca me abandonou…

Incêndio

“Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.” Albert Camus

Chamas. Naquele acampamento do auge de meus quinze anos, eu via as chamas dançando enquanto a batata com fondor (aquele pó amarelo que segundo a lenda, “amacia” carne), assava na fogueira, envolta de papel alumínio. E eu aprendi, que se você esquentar a água com uma pedra dentro, a temperatura se mantém como uma garrafa térmica. E me perguntam, “não seria mais fácil ter levado uma garrafa térmica?”. Sim, seria, mas eu penso que o ato falho do esquecimento da bendita garrafa, nos faz voltar a um estado primitivo. Tem gente que odeia acampar… “Onde vou conectar minhas máquinas? Ou ainda, existe camping com energia elétrica, já vi gente levando o grill, aquela coisa que só faz sujeira e deixa a comida borrachuda ou máquinas de fazer pão. Muitas vezes queria fugir para um lugar onde não existissem tantas máquinas de fazer coisas. Penso que daqui a pouco teremos máquinas que vão sorrir por nós.  Algo como uma tela com um visor, e várias opções:

  1. Bom dia!
  2. Boa Tarde!
  3. Boa Noite!
  4. Tudo ótimo!
  5. Sim, muito! ( aquele sorriso de concordância, sabe?)
  6. Tudo bem!E você?
  7. Tive um lindo final de semana
  8. Eu te amo!
  9. Sou feliz!
  10. Que dia lindo hoje!
  11. Tenho dinheiro na conta! (mentira, você está no cheque especial!)

Acordaremos de manhã, faremos nossas tarefas por vezes odiosas, tal como sair da cama, arrastar-se até o banheiro e começar a amaldiçoar o dia desde as seis horas da manhã, e isso se torna insuportável desde a segunda-feira. Normal, estamos sempre reclamando, jogando o celular na parede quando ele não para de despertar. Imagino nossas cabeças explodindo junto ao nosso ódio das passagens do tempo, junto com nossas convicções de que estamos ficando velhos. Sendo assim, viveremos com nossa máquina de sorrisos, talvez um aplicativo no celular que manda sinais para algum chip implantado nas nossas cabecinhas perturbadas, algumas bem ocas, só com o eco do vento entrando pelas têmporas e saindo por outro lado. Vamos emular sorrisos eletrônicos! Bons eram os tempos de criança. Criança não tinha a maldade de simulação…

Parece que pintamos uma fotografia daqueles tempos de criança sem compromisso, sem malícia e aquela perspectiva de que a vida seria uma eterna brincadeira, ou como os filmes da TV. Eu me lembro de que sempre quis viver uma aventura, brincar de pirata, e nunca mais envelhecer. Um sonho na Terra do Nunca. Crianças e seus sonhos… Um dia, eu queria ser caixa de supermercado. Na minha cabeça de criança, eu imaginava que todo aquele dinheiro que entrava no caixa, seria todo meu. Eu achava que as caixas de supermercado eram donas de tudo e moravam em suas confortáveis casas com uma piscina no quintal. Eu tive um amigo que dizia que seu sonho era ser coletor de lixo. Ele pegava os sacos de lixo escondido da mãe e espalhava no quintal, alguns com brinquedos dentro, e outros ele pegava da lixeira.  Tinha um triciclo azul, e andava pelo quintal, apanhando os sacos, colocando nas costas e levando até a lixeira. Quando o caminhão de lixo passava, saía no portão e olhava emocionado para aqueles homens que corriam atrás do caminhão. E sempre ele mandava “tchau” para os coletores que passavam no portão. No final do ano, ele pegava parte de suas economias, e entregava para os coletores, que passavam nas ruas, fazendo festa. Ele me contou que um dia, ao entregar o dinheiro para um deles, ele disse com um sorriso que quando crescesse, ele queria ser “catador de lixo”. O coletor sorriu, e quase chorou, porque aquele menino de cabelos bagunçados e boca suja de chocolate, dizia que se sentia orgulhoso, e não ligava para o cheiro ruim do caminhão de lixo. No meio de tantas pessoas passando e tampando o nariz, estava ali um ser que nunca deixou de cumprimentar ou dizer “Boa Tarde”.

“Não queira ser lixeiro bom garoto!Promete?”

E então o coletor saiu, correndo atrás do caminhão e olhando pra trás, deu um sorriso para o garotinho com ares de incógnita, parado no portão, com o cachorro louco correndo e latindo no pequeno jardim que havia na casa de infância. Para ele, não importava se a mãe dizia que aquilo era serviço de quem não estudou para ser alguém na vida. Aquele garotinho que mais tarde se tornou meu amigo e contamos nossos sonhos de criança numa mesa de almoço corporativo, não conseguia imaginar a sobrevivência em um mundo cheio de lixo. E nesse nosso mundinho de chorume, eu penso que acordaremos, e vamos escolher num visor a opção de sorriso. Sorrir dá trabalho, existem máquinas de fazer arroz, máquinas de fazer sanduíche, máquinas de fazer café… Enfim, máquinas. Hoje eu apertaria o botão: “Sorriso sarcástico com ponta de ironia”, mas a máquina de sorrisos apenas simula sorrisos de felicidade. No mundinho de lixo, acordamos emulando “sem querer querendo” sorrisos de felicidade, apenas para agradar, e evitar perguntas desnecessárias. Hoje, simulamos que somos correspondidos, por mais que nosso Amor nem nos olhe na cara ou que se preocupe com você da mesma ou na mínima maneira como você se importa,  ou quando dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” às pessoas e as desgraçadas não respondem, quando nos sentamos no banco de terminal de ônibus, cansados e introspectivos, com fone de ouvido ou um livro… Ou os dois… Chega sempre alguém querendo conversar, e você quer apenas fugir dali, mas sente-se obrigado a ouvir ou expressar um “É…”, “Hummm”, “Legal”, “É mesmo” na conversa. E quando chegamos finalmente em nosso lar, podemos pensar o quão nós somos mesquinhos. Já dizia Renato Russo, estamos mergulhados em nossa arrogância, esperando um pouco de atenção, sabe? Aquela que não damos aos outros. E eu vou lá, emular o meu sorriso de “Estado de Felicidade incondicional”, mas na verdade, estou com olhos de saudade, e um sorriso de lábios secos. Sabe? Arrogante, esperando um pouco de atenção e todo Amor do mundo para incendiar…

Conhaque, comprimidos e lapsos de razão.

Marlene preparava a comida favorita de Carlinhos, ovos com bacon e linguiça. Sabia ela que aquilo que enojava seu estômago era melhor que o conhaque e comprimidos de falsa felicidade que substituía sua alimentação. Ela olhava para Carlinhos, que brincava com seu carrinho na mesa, enquanto esperava a comida. Ele era lindo, puxou a beleza do pai. Ela queria segurar a mão dele e não largar nunca mais. Ficou ali, parada, com a frigideira antiaderente nas mãos delicadas, com unhas pintadas de vermelho. Colocou a comida no prato do filho, que a retribuiu com um sorriso banguela de criança. Ficou estarrecida, emocionada, mais do que o normal, se é que existe uma concepção para a sensação “normal” de sentir-se feliz. Segurou a mão de Carlinhos, “Segure a mão de mamãe, e não solte nunca mais”. Carlinhos comia os ovos mexidos, com a outra mão segurava as mãos da mãe, que chorava numa tristeza sem limites para as lágrimas que escorriam de seus olhos verdes. “Vá brincar lá fora querido, e saiba que eu te amo”. Chovia lá fora, e Carlinhos pegou a sua capa de chuva azul, seu barquinho de poliestireno amarelo com listras vermelhas. Pegou seus bonequinhos marinheiros, foi brincar no oceano imaginário feito de poças do quintal. Ela ficou olhando o filho, linda criança tão inocente em seu mundo imaginário, sentada numa cadeira velha que era de seu avô, madeira de lei, almofadas artesanais. Tinha saudades do marido, mas ele enlouqueceu, ele guardava as salsichas cozidas dentro dos bolsos da calça, e não comia. A mãe dele, vienense, forçava-o a comer toda a comida no prato. Ele não queria. Ela abria a goela e forçava dentro. Ele vomitava, e depois apanhava. Cresceu revoltado e aos poucos a loucura tomou conta. Com medo de não chatear a esposa que tanto amava, escondia a comida nos bolsos e em outros locais. Um dia, ela encontrou vários pães mofados embaixo do colchão. “Mamãe dizia que se eu não comesse eu era estúpido feito meu pai, eu não quero ser estúpido”, e ele emagrecia, cada vez mais. Paranoico e anoréxico passa seus dias no hospital psiquiátrico em ala solitária. Não reconhece nem a esposa e o filho. Ela sentia saudades lúcidas do marido, e toda vez que o via através da janela da solitária, algo a dizia que em seus olhos de homem louco, ele a reconhecia. Na última vez que viu seu amado lúcido, ele estava recebendo uma injeção em casa, comendo alimentos via sonda. Tomava sedativos frequentemente e ela se recorda que na última noite ao ser levado pela ambulância, ele segurava as mãos dela e dizia: “Segure minha mão, até que eu durma”. E foi assim, ele adormeceu e agora talvez apenas seus sonhos de homem esquizofrênico mantenham uma lembrança lúcida da imagem dela.

Carlinhos voltou no fim da tarde, a mãe lia um livro na varanda. Ele estava cansado e sujo de lama. Ela lhe deu um banho quente, preparou um lanche. “Mamãe, quero dormir contigo hoje!”. Ela o levou pra cama, deitou-se ao lado dele, junto com o Julinho, seu boneco que era o homem das estrelas. Carlinhos segurou as mãos da mãe, deu-lhe um beijo no rosto, disse que a amava… ”Mamãe, segure a minha mão até que eu durma”. E ela viu ali, uma reconstrução infantil do homem que tanta amava, e ela sabia que Carlinhos, ao acordar, reconheceria seu rosto ao acordá-lo e levar café com bolachas. Parou com o conhaque e psicotrópicos, a sua vontade de viver dormia ao lado.

Jardim de Infância.

Era de manhã, saiu pra fora no jardim, com os pés descalços, amassando a terra, tatu-bolas de jardim. A doçura da brisa das manhãs bagunçando os cabelos, e a certeza de um amor distante que a observava. Cantou com lábios quase fechados, uma canção que a emocionava, e uma lágrima escorreu, molhou a terra, onde sementes de flores amarelas que ela plantava todos os dias dormiam esperando a hora certa para germinarem. Todos os dias ela pega um regador e molha a beleza com olhos de devoção. Coração quebrado, cabelos cortados, uma Força despretensiosa, sincera, no peito um coração de vitral, colorido intenso. Queria ela dizer que o ama todos os dias, mas sua timidez desajeitada a faz emudecer, por isso ela canta baixinho, e crê ela, que o seu sussurro chegue aos ouvidos dele, o seu Amor, como anjos zombeteiros numa capela abandonada no deserto. E corre, pelo jardim, com seu vestido branco manchado de amarelo, lábios de café, para combater a insônia que tanto a enlouqueceu. E numa multidão de palavras ditas e não ditas, a falta de coragem não a impele de acreditar em dias que ainda nascerão sendo eles chuvosos ou iluminados por infernais raios de sol. E ela continuou agachada no jardim, sujando as mãos de terra, vendo pássaros brincar nas poças que se formavam ao chão. Sujou os pés de barro, e isso era bom, era puro, era ela voltando às origens, desprotegida de sapatos que a protegem de viver. Sujar-se é viver, sentir, no mais íntimo das verdades, quem vive sempre no que é limpo, não conheceu toda a intensidade de viver. Quando ela tiver filhos, permitirá que eles construam castelos, brinquem descalços no jardim, deitem na grama, pulem nas poças. As crianças andam limpas demais, aquela falsa convicção que é saudável viver longe da sujeira, aquelas crianças com roupas e sapatos impecáveis, olhos tristes ao verem as crianças sujas com as mãos de terra, crianças de apartamento, criadas a brinquedos eletrônicos e bonecos de roupas lavadas toda a semana. Sorrisos eletrônicos, falsos, por dentro uma certeza, uma vazio. Sim, crianças sentem tanto o vazio quanto nós os adultos, e naquele jardim, enquanto plantava uma flor, ela agradeceu por ter sido uma criança imunda, e não ter tido apenas um sorriso eletrônico estampado no rosto.

Por quem os sonhos dobram.

Começarei com duas citações, que só serão entendidas ao final do texto:

Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança. Ernest Hemingway

Um bom romance é qualquer romance que nos faça sentir. Ele deve enfiar sua lâmina por entre as dobras do couro com o qual a maioria de nós cobre.  A sensação que nos causa não deve ser puramente dramática, e pronta, pois, a desaparecer assim que ficamos sabendo como a história acaba. Deve ser uma sensação duradoura, sobre questões que são, de uma forma ou de outra, importantes para nós. Virginia Woolf.

Ela dormia, numa noite quente de outono. Deveria estar frio, pensou ela, enquanto se arranjava para dormir, madrugada adentro. Na sua mente de escritora amadora, as madrugadas foram feitas para escrever, elas têm o dom da criação, o poder de imortalizar qualquer forma de arte, desde as mais abstratas, produzidas por loucos envoltos nos absurdos de  suas camisas de força ou perdidos em bairros boêmios  olhos abertos na noite, consciência etílica, porém tão racional, incompreendida por muitos, ignorada ou até mesmo o orgulho. Sim o orgulho, ou olhos desacostumados…Olhos desacostumados, seria medo, passos de menino desajeitado, ocupado, cansado, nos dias de ir e vir, a falta de sorte ou o excesso dela, quem sabe? Estava ela ali, perdendo a insônia, aos poucos, querendo fechar os olhos. Nas suas férias, ela queria apenas escrever, colocar as entranhas pra fora, ganhar algo por isso. Concursos literários estão por vir, queria ela um pouco de sorte, um beijo na cara que ela dá a bater. Mulher corajosa, sem medo, sem vergonha, talvez quase sem limites. A intensidade da alma lhe dói, sentir machuca. O mundo é menos cruel com os insensíveis, aqueles que fazem das pessoas uma marionete numa peça de teatro amador, de quinta categoria. Não era uma atriz, e se fosse, seria uma em teatro shakespeariano, de Amor e tragédia, aos olhos emocionados daqueles que a leem, um olhar perdido daquele que ela ama ou seria um Amor dissimulado, um eco, servido ao molho pardo e alcaparras. Não podemos engolir o eco, engolimos o ego, à seco, mas ecos não, apenas gritamos, e eles respondem do outro lado, tortos e dissimulados, e outras vezes, gritamos e nem o eco responde. O eco também aprecia o silêncio, e ela, não sabe lidar com ele, o Silêncio, mas tenta, caindo feito bêbada, mas sóbria, na sarjeta dos seus sentimentos. Mas ela não desiste, segue mar adentro, com suas folhas escritas, ego emudecido, marolas de razão e sensatez, mas com a sede de viver sem perder os segundos. Enfim, dormiu, e quando fechou os olhos que já o olharam sem medo, mas com um pingo de timidez dissimulada, mãos trêmulas, lábios úmidos…Fechou os olhos e sonhou…

Estava ela na sua velha casa em que morou na infância. Estava apoiada no muro, observando o movimento noturno. Ela estava em um lugar de seu passado, e as crianças que ela via brincando na rua, eram as mesmas crianças que ela brincava na rua sem saída, com seus 8 anos. Ali naquele muro branco, com pintura descascando, algumas rachaduras na parede, calçada com pedras soltas, ela observava, calada.  Saiu de lá, queria caminhar na rua, a lua estava soberba e inspiradora. Saiu pela porta da frente, a que dava pelo jardim, flores mortas, outras vivas, cheiro de terra molhada, mesmo sem chuva. Sonhos nos proporcionam momentos sem sentido, e na cabeça dela, a terra não poderia ter aquele cheiro, a não ser que tenha chovido ou alguém tenha molhado ela.  A terra estava seca, como se há dias ninguém cuidasse de seu jardim. Teve ela uma infância triste, mas com momentos alegres, momentos em que brincava num balanço velho de praça, com o sorriso banguela, corpo franzino. Aquele que a tira da toca, conserva suas fotos de infância. Queria ela, numa tarde de final de semana, não onírica, numa realidade próxima, uma tarde tranquila num dia ensolarado, sentar ao lado dele e lhe contar cada detalhe daquelas fotos, datadas de dezessete anos atrás. Falaria ele sobre as formigas, seu senso de organização, vida em grupo? Eis aí seres em cooperação, nenhum ser em vida é uma ilha, por mais que queremos às vezes nos esconder em nossas cavernas, viver como eremitas, num buraco solitário improvável onde reina uma única formiga, distantes, de tudo aquilo que nós possa machucar ou enganar nossas convicções, dizer à nossa vida que aquilo que nos motiva, que nos dá disposição para seguir em frente, não passa de uma ilusão dos homens, ou sonhos de madrugada quente de outono.

Estava ela lá na rua, sentada na beira da calçada, embaixo de uma árvore cujas raízes quebravam a calçada. Pensou nele, era o que ela mais queria naquele momento, era saber se ele estava bem. Eis que vindo despreocupado, rua abaixo, vinha ele, mãos nos bolsos, boina azul, que combinava com seus olhos tímidos porém tão inquisidores. Chamou o nome dele, ele olhou em direção à ela, deu um sorriso. Deus sabia como amava aquele sorriso. Se abraçaram, abraço leve, rápido, porém cheio de intensidade, um instante que ela queria que não acabasse. Ele a beijou na face, sua barba por fazer causou-lhe um arrepio.

– Está tudo bem contigo?Parece cansado… – disse ela, olhando-o nos olhos, ela não sabia, pelo menos era o que pensava ela, falar apenas com o olhar. Ela queria ser mais silenciosa, agir quem sabe na surdina, falar menos e pensar mais. Seria possível?A razão de seus problemas frente à sociedade retrógrada, era que ela era uma mulher que pensava demais e falava em demasia. Escritores e escritoras jamais se calam. É com as palavras que eles gritam seus desejos, derramam os copos cheio de cólera, abraçam seus amores, beijam, transam, imortalizam aqueles aos quais se apaixonam, mesmo sendo imoral, na visão de Oscar Wilde, ou seria na visão de seu personagem Lord Henry? Personagens são ecos disfarçados daqueles que os criaram. Cada criação carrega um pouco da vaidade de seu criador, algumas mentiras, meias verdades, e um poço profundo cheio de sinceridade que por muitas vezes dói. Em tempos de idade média, o silencio tímido de uma mulher era tido como algo de obrigatoriedade. Em tempos modernos, em tempos de machões que acham que vivem numa época feudal, de vassalos e servos, a mulher ainda tem de ser mantida na sombra, no porão escuro de seus desejos. Mulher não tem o direito de desejar…Reprime…Eis aí o coeficiente da razão tingida de cores mesquinhas. Até quando, pensa ela?

Ele disse que estava cheio de coisas pra fazer, tinha acabado de chegar do trabalho e estava apenas caminhando para colocar os pensamentos em ordem. As crianças continuavam a brincar, mas parecia que o tempo parou ali. Queria agarrar os ponteiros do relógio e não largar mais. Chamou ele, pra uma festa, no final de semana sabia ela que ele não teria tempo, ou não teria vontade, ou sabe-se lá mais o que.  Aquele homem ali na sua frente, era uma incógnita, o brilho de uma estrela incompreendida, e que talvez já morreu, mas seu brilho, na mente dela, durava anos luz, e nunca morriam.    Ele foi embora, pensativo, dobrou a esquina. Ela ficou parada, na rua, vendo ele partir. Voltou pra sua casa, e ficou apoiada no muro, talvez ele voltasse. Talvez…

Pausa, ela não se lembra o que aconteceu naquele meio tempo, durante seu sonho. Talvez ela brincava com os cachorros que teve correndo e cagando pelo quintal. Talvez ela estava a olhar para o céu, tentando entender as estrelas ou ser abduzida por extraterrestres do Arquivo X. No trecho que se lembrou, ela estava sentada num banco de jardim, ao lado da escada que dava pra garagem, que ficava na parte subterrânea da casa. E lá veio ele, subindo as escadas, mãos fora dos bolsos, cabelos desalinhados, a boina sumiu… Coisa de sonho, ou talvez ele tinha perdido, ele lhe disse um dia que costumava perder ou esquecer as coisas. Igual ela, esses dias, ela perdeu as chaves de casa, chegou em frente de sua casa e esparramou as coisas da bolsa na calçada de concreto liso. Era tarde da noite, incomodou a senhora que alugava sua casa a preço de banana. Ela apareceu, de pijamas, e lhe deu uma cópia das chaves. A música de Adriana Calcanhoto na cabeça…

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será, que você está… Agora?

Estava ele lá, na sua frente, disse-lhe que iria para a festa ao qual foi convidado. Os olhos dela sorriram, sua boca o fitou, sim, essa mistura sinestésica, queria sentir o cheiro dele, na pele…Foi embora, lhe deu um sorriso tímido, daqueles de canto de boca. Deixou seu cheiro no ar, junto com a saudade de seu sorriso de fração de segundos.

Como o tempo em sonhos não tem uma ordem cronológica lógica, o final de semana chegou rápido. Ela saiu do elemento cenas da infância em tempos presentes, e estava no local onde seria a festa. Era uma chácara grande, num bairro conhecido da sua cidade, com um casarão cheio de suítes, com grandes janelas que davam para o horizonte. No horizonte daquela janela, haviam vários templos religiosos, grandes sultuosos, seria que aquele sonho, o seu inconsciente talvez a estivesse chamando atenção para sua falta de crença, ou falta de atenção para o seu lado espiritual? Esta foi uma das incógnitas, que ficou questionando quando ela abriu os olhos marejados. Ela tomou banho, colocou seu melhor perfume, preparou-se, um ritual, cheio de felicidade. Escutou um barulho, estava de biquíni, desceu as escadas do casarão, parou na porta, ainda colocando desajeitadamente um vestido por cima da roupa de praia. Ele chegou, estava de camisa, branca, olhos de dilúvio, sorriso, olhou pra ela com expressão de desejo, rindo do jeito desengonçado com ao qual ela tentava colocar o vestido enquanto caminhava, ela suspirava  esbaforida, uma ansiedade e um desejo incontido. Abraçou-a fortemente, deu-lhe um beijo, que somente os que vivem a intensidade das brincadeiras do inconsciente, podem sentir. Parecia tudo muito real. Ele estava suado, no abraço, sentiu as costas dele molhadas, a camisa estava úmida, ela também. Ele perdeu-se no cheiro de seus cabelos molhados, na delicadeza do tecido do vestido que a cobria. Ela sentia o cheiro dele, um cheiro natural, bom, de homem feito, uma mistura de sua colônia borrifada de manhã, resquícios de perfume fabricado com o mais divino cheiro natural. Ela tinha aquilo com ela, ela é de uma natureza selvagem, e aquele homem a decifrava com os olhos, sem dizer uma única palavra, ela se perdia, ele interpretava seus mitos, sabia ele que ela era uma mulher que corria à frente dos lobos, perdida em pradarias, estepes, mas sempre sem perder o medo, mostrando os dentes, salivando de desejo, na cólera, na raiva, na emoção, no Amor, na dor, em todas as quatro estações. E ali naquele abraço, tão real, tão sensato, ele lhe disse ao pé do ouvido:

– Tome um banho…comigo…

Sabia ele, que ela já havia feito isso, e talvez sabia, que ela faria de novo…E de novo…Até toda a sua pele ficar enrugada. Uma mulher intensa cheia de sentimentos, não perde seu tempo, ela aproveita até o último momento, e quando o momento não foi aproveitado por n razões, seja por freios do ego ou orgulho, ela se lamenta, até a último segundo de tempo perdido. Ela abraça os ponteiros do relógio, e propõe ao Tempo um jogo erótico. Talvez, se o Tempo pudesse ser levado na base da chantagem emocional ou sexual,  estaria todo boêmio, cheio de doenças, todo mundo seria imoral, até aqueles que se recusam a cair na tentação. Todos nós nos entregamos à ela, quando não conseguimos lutar mais.

Subiram para o quarto, eles contemplavam o horizonte na janela, cheio de templos. Chamava a atenção, naquele horizonte, um templo budista amarelo, igual a cor de um girassol. Os monges regavam um jardim, e um deles segurava um vaso com um lindo girassol. O sol brilhava lá fora, e o girassol estava imponente, soberano como o seu semelhante que reina no céu.

Ela acordou, com  estrondo do trovão. A noite que começou quente, trouxe o frio sereno e agradável do Outono. Estava deitada, num colchão, na sala da casa do irmão. Acordou suada, e viu que agarrava o travesseiro, o abraçava, e ele estava molhado. A triste realidade a deu uma bofetada na cara, seu Amor não era um homem, era um travesseiro, e ela estava sozinha, ali naquele lugar, no escuro. Subiu no sofá, estava amanhecendo, olhou a manhã tímida querendo nascer, bocejando pra ela. Escutou o som dos pombos imundos que ficam no telhado do prédio, viu os líquens brotando nas paredes rachadas do prédio, viu o brilho das luzes acesas, sombras de pessoas que assim como ela, acordaram para a vida. Foi o sonho mais lindo que ela já teve, ela estava suada, era como se o abraço dele tivesse aquecido, como se tivessem transado até as forças se acabarem, e deitarem um ao lado do outro. Quando se deu conta de que tudo era uma pegadinha do inconsciente, pegou um caderno, uma caneta perdida em cima da mesa. Deitada no sofá, começou à escrever, e você, querido leitor, está lendo sua alma cheia de sonhos…

“Todos precisam de alguém para conversar – disse a mulher. – Antes tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”

Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway

Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.
Seremos crianças serenas, acordadas com medo do escuro. Minha doce criança em corpo de homem feito, quando você fecha sua alma, é como se tivesse arrancado um pedaço de minh’alma tola. Em meus sonhos, você cai aturdido em meus braços, e dá uma gostosa gargalhada. Eu cuidei bem de meu Amor esta noite, e quando eu olho as estrelas, queria lhe contar uma parábola astronômica, enquanto você se aconchega em meus braços, os vestígios de saudade deixariam de queimar dentro do meu peito, e se você me olhar por dentro, seus olhos de incógnita me tornariam uma mulher plena, serena. Eu te amo, minha doce criança mal criada. Eu o amo enquanto ouço os sinos da velha igreja tocarem uma canção triste ao final do entardecer. Eu queria dizer-lhe, “Está tarde querido, vamos descansar”, eu lhe daria um beijo doce de despedida, te beijaria com lábios quentes de conhaque para que não sinta frio nesta noite suave de outono. Não olhe pra trás, eu ainda sinto teus lábios doces no meu rosto, porém agora estão frios. Beleza insólita, aperte-me em seus braços, não se vá pelos confins de um outono indeciso, não me deixe partir, eu, mulher teimosa e distraída, minha doce criança, eu estou andando na contramão, seguindo minha rota de olhos bem fechados. Segure minhas mãos,meus dedos magros…Estou andando sozinha numa velha praça, e quando ver-me, sentada num gramado, com meus tão grandes olhos perdidos no sabiá que colhe um pedaço de grama no bico, perdida nas folhas que estão caídas já mortas ao chão…Apenas lembre-se que eu posso sentir o Tempo escorrendo por entre meus dedos, como areia fina das praias descritas em um livro de Hemingway. Doce criança, seja sempre suave e presente em minha memória. Doce criança dos olhos azuis…Eu te adoro. Lembre-se…Sereníssima beleza de olhos desacostumados.

O olhar de Beatriz

Era verão e as crianças saiam nas ruas com suas bexigas cheias de água. Numa rua sem saída perto de casa, as crianças andavam em paz com seus patins, bicicletas e carrinhos de rolimã. Havia torneios de queimada, e Beatriz sempre era campeã invicta. Seu reflexo era tão bom quanto o de uma mosca varejeira descansando na parede da cozinha.

Beatriz tinha uma bicicleta amarela enferrujada. Deslizava com ela nas ruas com pequenos buracos. Ela adorava a vida infantil do subúrbio. Encontrava ali uma infância que imaginava que de uma certa forma, quando adulta, seria uma infância memorável. Quando fosse adulta, Beatriz queria ser pediatra. Sua mãe contou-lhe que o médico que cuida de crianças doentes chama-se pediatra. Beatriz queria salvar todas as crianças da rua, todas as crianças da cidade, todas as crianças do mundo que se arrebentavam com seus carrinhos de rolimã nas ladeiras. Braços, pernas, narizes quebrados. Um dia contou para a mãe que queria consertar ossos quebrados. Então sua mãe disse que o médico que consertava ossos quebrados era o ortopedista. Beatriz ficou pensativa por alguns minutos, enquanto comia seu mingau de aveia, e na audácia de seus oito anos de idades, disse à mãe que não queria ser apenas pediatra, queria ser ortopediatra. Sua mãe riu, e sentiu-se feliz com o raciocínio e lógica da filha, por mais que seja tão prematuro. “Por quê Beatriz? Porque mudou de ideia meu bem?”, enquanto lhe estendia o copo de ovomaltine gelado com gemada, receita antiga de família e que Beatriz adorava. A menina, de olhos grandes e indagadores disse que mudou de ideia porque as crianças ao redor dela estavam constantemente se quebrando. Com um bigode de leite no canto dos lábios, Beatriz disse: “Karina quebrou uma perna ontem andando de patins na rua de cima, Guto quebrou o nariz quando recebeu uma bolada do Luizinho bem no meio da cara. E a Clara, Clara está sempre quebrada, ela é estranha mamãe…”Por que Clarinha é estranha querida, ela parece ser tão legal!, Beatriz olhou nos olhos da mãe com uma expressão de surpresa, como se a mãe fosse ingênua o bastante perto dela. “Porque Clarinha está sempre triste, como se ela estivesse quebrada, por dentro, e eu queria poder consertá-la”. O silêncio tomou conta da cozinha, a mãe de Beatriz não lhe fez mais perguntas. Enquanto lavava o copo sujo deixado pela filha, percebeu que o olhar nu de uma criança é tudo aquilo que muitos adultos perderam com o passar dos anos.

"Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas." Jean-Paul Sartre
“Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas.”
Jean-Paul Sartre

Domingo chuvoso, visões aleatórias numa janela.

Sim, minha letra é feia bagaralho, principalmente quando estou com a hiperatividade mental em nível absurdo.
Sim, minha letra é feia bagaralho, principalmente quando estou com a hiperatividade mental em nível absurdo.

Então, vamos lá!Antes que comece este texto, que provavelmente vai ser a coisa mais insana e débil que eu já escrevi nesse humilde espaço, tenho que explicar a situação. No último domingo eu estava numa pizzaria muitíssimo bem acompanhada. Estava com fome, muita fome, o queijo gorgonzola e a pizza de banana nunca tiveram um gosto tão divino. Dias de chuva me inspiram, alguns me deixam cinzenta, mas neste domingo não tinha como e nem porquê de encarnar “Ana, a cinzenta”, afinal, como eu disse, estava bem acompanhada. Em cima da mesa que sentamos tinha um bloco de papel, e nós sentamos ao lado de uma janela panorâmica. Estava chovendo lá fora, e dava pra ter uma visão maravilhosa da rua, dos carros, das pessoas, ou seja, a vida lá no mundo exterior. Nas Tags da postagem, contém as anotações que fiz no restaurante, enquanto olhava lá fora e mastigava um pedaço de pizza de pepperoni, minha pizza favorita. No meio de gravuras de arte, uma conversa agradável e pensamentos aleatórios, pedi uma caneta para o garçom. Espero que gostem, mas digamos que o que vai sair daqui pra baixo, poderá não ter sentido nenhum. Então, se não tiver uma mente, digamos, expandida, por favor, pule o que vêm daqui pra frente e vá ler Cinquenta Tons de Cinza.


1 – Mingau de Aveia

Na mesa da frente, havia uma família sentada com três crianças. Crianças bem alegres, falantes. Uma delas não queria comer a pizza de brocólis. E o pai dessa criança dizia: “Vamos papar, só um pouquinho”. Foi esse o estopim para trazer a tona uma memória perdida. Eu tinha de quatro a seis anos, e lembro-me de meu pai, que fazia mingau de aveia ou mingau com farinha láctea, não me lembro ao certo qual dos dois, mas lembro-me que era por volta das sete horas. Eu não comeria o mingau se não houvesse uma chantagem emocional. Naquela época, eu queria ser bailarina. Meu pai, um dia, me levou para ver uma apresentação de balé, o lago dos cisnes, nunca esqueço. Era o meu sonho, calçar sapatilhas e sair dançando por aí…

No fim, não realizei o meu sonho de ser bailarina. Mas acredito que sei dançar igual o Timão aí...
No fim, não realizei o meu sonho de ser bailarina. Mas acredito que sei dançar igual o Timão aí…

A chantagem emocional ficava por conta de um porta jóias que eu tinha. Quando ele abria, tinha uma bailarina que dançava. A chantagem era a seguinte: “Coma duas colheradas de mingau, e eu te mostro a bailarina”. E eu engolia as duas colheres de mingau, e meu pai colocava a bailarina pra dançar. Eu ficava na pontinha dos pés, e imitava toscamente a bailarina que dançava no espelho. A música que tocava, consigo lembrar-me dela até hoje, até poderia assovia-la, se eu soubesse assoviar, mas como eu, mulher com 25 anos, não sei assoviar, vou deixar a música daquele porta jóias, guardado no confim da minha memória. E eu me lembrei, naquele exato momento, no meio da pizza de marguerita, que meu pai dizia, “Vamos papar, e então eu coloco a bailarina pra dançar”…

2 – Picape Amarela

Naquele tempo chuvoso lá fora, passou uma picape amarela, mas daquelas bem amarelas mesmo, amarelo igual um girassol. E eu lembrei do girassol plantado no quintal da casa dos meus pais. Eu não sei se aquela grande e bela flor ainda existe, ali, plantado naquele lugar que eu amo tanto. E vendo aquela picape amarelo-girassol, eu me lembrei de um quadro do Van Gogh, “Doze girassóis numa jarra”. Enquanto eu estava ali, tinha um girassol pensando no refúgio da arte, em meio de tantas páginas de arte e semiótica. E eu fiz minha analogia ali, aquela picape amarela, o girassol no jardim do meu pai, e o girassol como um refúgio de arte. E ele não estava encolhido, como o girassol do jardim do meu pai, em tempos indecisos. Ali naquele momento, ele estava belo e incógnito.

Girassóis...
Girassóis…Doze girassóis numa jarra…

3 – Luzes Verdes

Na praça de convivência de Campinas tem luzes verdes. Essas luzes verdes combinam muito com toda a variedade de flora que existe naquele local. Dava inclusive um tom psicodélico para as folhas e flores de tons lilás-violeta, que estavam naquele local e com a echarpe verde-musgo que eu trazia no pescoço.

4 – Guarda Chuva discreto, medo da chuva, gente aleatória, gordinho corredor, a mulher com sacola de supermercado na cabeça.

As pessoas passavam naquele local, e havia ali vários perfis delas. Existiam aquelas que não se intimidavam pela chuva. Passavam ali deixando as gotas de chuva limparem seus pecados ou trazer, quem sabe, um pouco de dignidade, ou a simples sensação gostosa de estar na chuva e se molhar. Passou um gordinho correndo, não sabia se ele suava por conta da atividade ou se era a chuva que o deixou molhado, naquela confusão ali, acreditei que fosse os dois. E eu lá fazendo gordisse, mal pensando em exercícios, já estava com o corpo dolorido devido ao exercício daquela manhã de domingo. Eram muitas pessoas, passeando por ali, cada uma com suas manias e atitudes randômicas, inclusive usando guarda-chuvas de cores incomuns, verde-água. Eu vi aquilo e pensei no mar, naquelas praias paradisíacas . Mas a que mais me trouxe um “q” de “inacreditável”, foi uma mulher caminhando na praça com uma sacola de supermercado na cabeça. Nós vimos aquilo e eu tive uma crise de riso. E tentávamos até então entender o que leva uma pessoa num domingo chuvoso, meter uma sacola de supermercado na cabeça e sair pra caminhar. Não é mais válido pegar um guarda-chuva ou simplesmente adotar a frase “Se está na chuva, deixe-se molhar!”. Mas, vai ver que aquilo era uma nova moda. Novidades vivem surgindo por aí, mas aí está uma moda que eu não seguiria. Fazer amor embaixo da chuva é uma coisa que eu quero fazer um dia, mas sem sacolas na cabeça. Isso foi uma frase que eu escrevi no papel. Eu gosto de chuva, mesmo me deixando cinza, tempos de chuva são inspiradores e extremamente sensuais.


5 – Garibaldo e placas amarelas de trânsito.

Isso aqui vai ser curto e sem nexo, talvez tenha um sentido apenas pra mim…Eu lembrei do nome do personagem que eu associei às placas amarelas de aviso de obras, que eu vi na estrada. O pior foi eu falando “Como é mesmo aquele personagem que é um pintão amarelo cheio de penas?”, e eis que no restaurante o Garibaldo apareceu. Vila Sésamo!

Isto é uma placa de advertência de sinalização de trânsito.
Isto é uma placa de advertência de sinalização de trânsito.
Isto é o Garibaldo do Vila Sésamo.
Isto é o Garibaldo do Vila Sésamo.

Resumindo, eu via aquele bando de placas amarelas e pensava no Garibaldo. Cores, sempre me trazendo associações um pouco medonhas. Eu via as placas amarelas e pensava no Garibaldo pedindo carona na estrada. Mas estava chovendo, e ele poderia estar com cheiro de galinha molhada. Não, isto não faz nenhum sentido. Mas pra mim teve, então isso é importante. Quando as coisas da nossa própria cabeça não fazem sentido nenhum para nós, é hora de se internar.

6 – Red Hot Chili Peppers, Blade Runner.

Tocou uma música do Red Hot, ao qual eu gosto muito. Isso me lembrou dos tempos de colegial. Pessoas passavam embaixo da chuva pedalando na praça. Um senhor com um guarda-chuva prateado passou duas vezes por ali. Na primeira, passou de mãos vazias, na segunda, com três sacolas de supermercado cheias. O guarda-chuva prateado dele me fez lembrar de Blade Runner, e num universo onde não teríamos capacidade de distinguir humanos de androides. Talvez aquele senhor ali fosse uma máquina perfeita de forma humana, mas era apenas um senhor de idade de ritmo calmo e cabelos brancos.

Fly away on my Zephyr…

7 – Um milhão e meio de gatos mortos.

Além de desviar os pensamentos para os antigos cachos da minha irmã, eu tenho o costume de pensar em gatos mortos, quando preciso que algo saia da minha casa. Eu fico repetindo na minha cabeça, ‘Um milhão e meio de gatos mortos”. Eu ouvi a frase “Eu sou guloso”. Pra quê??Por quê?E na minha cabeça, um milhão de gatos mortos precisaram entrar em frames por segundo, antes que eu fique ruborizado e mais úmida do que o tempo que estava lá fora. E então no meio do pensamento dos gatos mortos e tentando me concentrar no sabor do suco de melão que estava na minha frente, eu me peguei pensando que não haveria a possibilidade de existir a possibilidade de “um milhão e meio de gatos mortos”, porque simplesmente não existe a possibilidade de um gato estar apenas meio morto. Depois veio um “Ana, como você é besta”. Então eu voltei a pensar em gatos mortos, mas desta vez, apenas em um milhão. A tática dos antigos cachos não funcionava mais. Naquela hora eu fiquei com a aura vermelha, e pensando no teu olhar debaixo da renda da minha blusa. Mas aí eu tive que pensar em gatos atirados da janela do segundo andar. Talvez eles caíssem de pé, mas e se tivesse um pão com manteiga amarrado nas costas? A manteiga sempre cai pra baixo, para a infelicidade de nossas mães. Talvez o gato caísse de costas, e morresse, ou, segundo a tese da gravidade, teríamos um gato que flutua. Quando eu penso em sexo, em lugares indevidos, eu penso em gato morto. Fora isso, eu não me preocupo muito. Dessa vez eu pensei em milhares de gatos mortos com pedaço de pão nas costas, alguns flutuando, outros mortos, outros atirados da janela do segundo andar…

Na idade média, ninguém tinha coragem de olhar nos olhos do rei. Apenas os gatos faziam isso.

Na minha cabeça, gatos flutuavam enquanto algumas cenas inapropriadas para menores teimavam em surgir.
Na minha cabeça, gatos flutuavam enquanto algumas cenas inapropriadas para menores teimavam em surgir.

8 – Clichês

Na frente da pizzaria, tinham cones listrados. Pensei em abelhas africanas. Sim, isso foi um clichê, e por um instante tive vontade de comer panquecas com mel.

Isto é um cone...
Isto é um cone…
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Isto são lindas abelhas fabricantes de mel, que nada mais é que vômito de abelha. Aprendi isso no “Mundo de Beakman”.


9 – Verbo irregular no presente do indicativo

Presente do Indicativo
tu colores
ele colore
nós colorimos
vós coloris
eles colorem

Cadê o eu aí?Impossível conjugar. Aprendi isso na quinta série e nunca mais esqueci. Quando eu estou em frente de uma beleza desconcertante, eu costumo dizer que tal beleza é como o verbo colorir na primeira pessoa do singular do presente do indicativo…Tal beleza é impossível de ser conjugada. Tuas cores são bonitas, tal como um arco-íris. E quando estiveres cinza e olhando para os pés, continuarás bonito. A vida é feita de cores escuras e vibrantes…O segredo da vida é saber compor uma arte utilizando todas as cores.

10 – Cabelo bom o nosso…

Essa foi a frase aleatória que eu ouvi na mesa ao lado. Haviam duas mulheres loiras de farmácia comentando sobre cabelos e chuva. Elas se sentiam abençoadas por terem o cabelo liso, provavelmente liso por efeito de chapinha. Como se o tipo de cabelo nos trouxesse a sorte ou a falta dela. Vai entender!

11 – Raio

Toda vez que eu vejo um raio, eu conto os segundos para saber se ele caiu por perto ou não. Toda vez que eu vejo o belo clarão e o sinto o cheiro de ozônio que ele libera, eu lembro-me de “O curioso caso de Benjamin Button”.

Já Ihe disse que fui atingido por um raio sete vezes?
Uma vez, eu estava no campo, cuidando das vacas.
Uma vez eu estava sentado no meu caminhão, tranqüilo.
Alguma vez já te contei que fui atingido por um raio 7 vezes?
Uma vez, eu estava passeando com o cachorro.
Sou cego de um olho, ouço muito mal.
Eu tenho tremedeiras de repente, sempre esqueço o que estava dizendo.
Mas sabe de uma coisa?
Deus vive me lembrando que tenho sorte por estar vivo.
Está vindo uma tempestade…

E então quando eu vejo esse diálogo, me faz pensar no trecho de “O velho e o Mar”, que fala sobre a sorte:

(…)Gostaria de comprar um pouco de sorte se houvesse um lugar onde a vendessem. Mas com que eu poderia comprá-la? Poderia comprá-la com um arpão perdido, com a faca partida ou com estas duas mãos em carne viva?Talvez…Você tentou comprá-la com oitenta e quatro dias no mar. Quase que lhe venderam.
Não posso continuar a pensar nestes disparates. A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la? Por mim aceitaria um bocado de sorte fosse qual fosse a forma como viesse e pagaria o que me pedissem por ela. Gostaria de poder ver o brilho das luzes. Estou sempre desejando coisas. Mas essa é a que mais desejaria agora.

12 – Casal Táxi Lunar

Na praça estava passando um casal, e eles não tinham medo da chuva. A moça, muito bonita por sinal, tinha um longo cabelo vermelho. Quando eu vi aquele casal e aquela mulher do cabelo vermelho, eu lembrei de Zé Ramalho. E comecei a cantarolar baixinho e mentalmente a música Táxi Lunar, enquanto eu umedecia minha boca com suco de caju…

Pela sua cabeleira, vermelha
Pelos raios desse sol, lilás
Pelo fogo do seu corpo, centelha
Belos raios desse sol

13 – Bananas de Juquiá

Chegou a pizza de banana. Então me recordei das viagens com minha família, em direção ao litoral do extremo sul. Sempre passamos por Juquiá, que é uma cidadezinha produtora de bananas. Fica na serra, e os bananais crescem entre corredeiras e casinhas humildes. Eles colocam saco de lixo preto envolvendo o cacho de banana. Querem impedir os pássaros de se alimentarem. Pobre sabiá, terá que voar um pouco mais longe para encontrar um pedaço de amarelo ouro.

14 – A fonte da juventude e Mark Twain

A fonte da juventude, do pintor renascentista Lucas Cranach.
A fonte da juventude, do pintor renascentista Lucas Cranach.

“A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18”

Sem mais…A imagem e a frase falam por si mesmas…