Cama de gato – Lay, Lady, Lay

De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo. E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo. E, se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso.  (Lavoura Arcaica, Raduan Nassar)

A carícia da língua na pele nua arrepiada em uníssono com os lençóis em desalinho finalizou com o despertador ao lado da cama. Era o fim das horas nuas, do sono regado à softporn e filosofias obscenas perdidas e jorradas no dilema Eros vs Psiquê, deixando seu corpo abandonado na cama, inundado pela meia-luz que queria penetrar o quarto por completo. Aquela manhã acordou estranha, um cheiro ruim invadiu as narinas. Abriu os olhos devagar, subiu as cobertas até a cabeça, se cobrindo para que a luz não a atordoe. Ouviu um miado, era seu Gato, ela se descobriu, olhou para o lado, e lá estava o Gato, sorridente, lambendo as patinhas. Lá estava o Gato, o seu Gato… E um pássaro morto.

No mês passado ele lhe trouxe uma barata. Brincava em cima da cama com aquele inseto asqueroso, e desde então as baratas tiveram um cheiro peculiar. Ele tinha o mesmo olhar de sempre, olhos sádicos. Sádicos felinos. Levou uma bronca, o pobre do Gato, como se gatos entendessem broncas, mas ela interpretou aqueles olhos amendoados do gato rajado como um pedido de desculpas. Trocou os lençóis, mas o cheiro da barata continuou ali, como se o fantasma da pobre coitada rondasse por ali e deixasse sua marca. Um velho amigo lhe disse um dia que as baratas tinham um cheiro peculiar. Desde então ela nunca esqueceu: sua mente criou um cheiro e deu um nome infame de “cheiro de barata”. Tudo tem cheiro, inclusive a Morte. Dizem que os cães sabem quando seu dono vai morrer, logo, a Morte também tem cheiro. Pode ser uma dedução imbecil, mas o ser humano é tomado de devaneios imbecis na maior parte do tempo.

E ali naquela manhã existia um cheiro. Cheiro de pássaro morto, junto com o cheiro de sarcasmo dos olhos zombeteiros de seu gato. Os modos aristocráticos ao qual ele se limpava a irritava, naquele momento. Como ousa? Como pode achar que aquilo seria um presente para trazer à dona. Ela ficou paralisada, olhando aquele pássaro, aquele pardal com pequenas tripas saindo pra fora e a marca de sangue seco nos lençóis brancos. Desde que seu homem foi embora, ele passou a lhe trazer presentes. E sempre deixa ao seu lado na cama. Um dia, ensandecida no embalo da noite regada a jogos de cartas e gin, a paixão pelos pecados do céu noturno e calado a chamava na varanda. Na boêmia solitária tropeçou e caiu. A pancada a fez adormecer. Derrubou a garrafa no chão que se espatifou em estilhaços, cortando a pele, o sangue se misturou junto ao leite que trazia num pires para o Gato. Misturou o gin, misturou o leite, as cartas do baralho se misturavam no meio das almofadas cheirando a mofo, amor, desamor, licores humanos e cheiro de livros velhos e empoeirados. Tudo naquela casa, naquele cenário, se misturava. Os cinco sentidos eram uma sinfonia sinestésica. Bob Dylan cantava “Lay Lady Lay” naquela noite, e o gato lambia seu rosto e corpo embebidos em leite, gin, sangue e ela inconsciente, deitada na mais vã das filosofias, em um chão mundano de um quarto com paredes descascadas fadadas ao esquecimento daqueles que já se amaram entre elas. E ela embalava seus sonhos etílicos e obscenos enquanto Dylan no repeat cantava, e seu velho homem deitado na cama, com as costas arranhadas. Mas agora era só lembrança, o pássaro morto em sua cama lhe dava uma compaixão pavorosa.

O pássaro morto continuava ali, ela também, paralisada num misto de asco, surpresa, devaneios, lembranças. E o Gato fazia graça, os pelos eriçando, ele se esticando, ronronando, entrando por baixo das cobertas, aninhando-se entre as pernas delas que se encontravam num tremor de assombros. Ela se lembrou de um poema do velho safado, que dizia ter um pássaro azul trancafiado no peito:

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele”

E o pássaro estava de uma maneira sutil, trancafiado em sua morte, disposto como uma mensagem sórdida e metafórica embalada à saliva, tripas, sangue e pelos e penas. Seu funeral era ali, em cima de sua cama com lençóis de brancura impecável, mas de uma maneira única, sentia seu coração sufocado por ele. Uma espécie de amor pela dor, e a dor estava ali, com as tripas para fora, uma ofensa. O Amor é uma ofensa. O medo também, com uma diferença que o medo não nos traz prazeres. Levantou-se, foi para o outro lado quarto. Encostou na parede úmida e gelada. A cena toda não parecia menos assustadora. O Gato rajado a encarava, balançava o rabo peludo, piscava os olhos amendoados numa calma insuportável. Pulou saltou da  cama, enroscou em suas pernas novamente, chamou-a pra cama de novo, tal como um amante insaciável. Voltou pra cama, para “seu” pássaro imóvel,  Pensou nos vermes que vão invadir o corpo do pobre pássaro e consumir suas entranhas. Sentiu o corpo todo formigar, como se ela fosse devorada. Os olhos sem brilho do pássaro contavam uma história triste. Os olhos de sarcasmo do Gato queriam lhe dizer algo, uma história zombeteira, uma metáfora mesquinha, uma filosofia obscena escancara na pureza hipócrita da brancura de seus lençóis. Levantou-se, colocou um velho vinil para tocar. Tirou-lhe o pó. Deixou-se arrepiar pela chiado, deitou-se na cama, ao lado do Gato e seu pássaro morto.  Bob Dylan cantava novamente, numa epifania perturbadora:

Lay, lady, lay, lay across my big brass bed
Lay, lady, lay, lay across my big brass bed…

Nada era mais obsceno que aquilo.

Conhaque, comprimidos e lapsos de razão.

Marlene preparava a comida favorita de Carlinhos, ovos com bacon e linguiça. Sabia ela que aquilo que enojava seu estômago era melhor que o conhaque e comprimidos de falsa felicidade que substituía sua alimentação. Ela olhava para Carlinhos, que brincava com seu carrinho na mesa, enquanto esperava a comida. Ele era lindo, puxou a beleza do pai. Ela queria segurar a mão dele e não largar nunca mais. Ficou ali, parada, com a frigideira antiaderente nas mãos delicadas, com unhas pintadas de vermelho. Colocou a comida no prato do filho, que a retribuiu com um sorriso banguela de criança. Ficou estarrecida, emocionada, mais do que o normal, se é que existe uma concepção para a sensação “normal” de sentir-se feliz. Segurou a mão de Carlinhos, “Segure a mão de mamãe, e não solte nunca mais”. Carlinhos comia os ovos mexidos, com a outra mão segurava as mãos da mãe, que chorava numa tristeza sem limites para as lágrimas que escorriam de seus olhos verdes. “Vá brincar lá fora querido, e saiba que eu te amo”. Chovia lá fora, e Carlinhos pegou a sua capa de chuva azul, seu barquinho de poliestireno amarelo com listras vermelhas. Pegou seus bonequinhos marinheiros, foi brincar no oceano imaginário feito de poças do quintal. Ela ficou olhando o filho, linda criança tão inocente em seu mundo imaginário, sentada numa cadeira velha que era de seu avô, madeira de lei, almofadas artesanais. Tinha saudades do marido, mas ele enlouqueceu, ele guardava as salsichas cozidas dentro dos bolsos da calça, e não comia. A mãe dele, vienense, forçava-o a comer toda a comida no prato. Ele não queria. Ela abria a goela e forçava dentro. Ele vomitava, e depois apanhava. Cresceu revoltado e aos poucos a loucura tomou conta. Com medo de não chatear a esposa que tanto amava, escondia a comida nos bolsos e em outros locais. Um dia, ela encontrou vários pães mofados embaixo do colchão. “Mamãe dizia que se eu não comesse eu era estúpido feito meu pai, eu não quero ser estúpido”, e ele emagrecia, cada vez mais. Paranoico e anoréxico passa seus dias no hospital psiquiátrico em ala solitária. Não reconhece nem a esposa e o filho. Ela sentia saudades lúcidas do marido, e toda vez que o via através da janela da solitária, algo a dizia que em seus olhos de homem louco, ele a reconhecia. Na última vez que viu seu amado lúcido, ele estava recebendo uma injeção em casa, comendo alimentos via sonda. Tomava sedativos frequentemente e ela se recorda que na última noite ao ser levado pela ambulância, ele segurava as mãos dela e dizia: “Segure minha mão, até que eu durma”. E foi assim, ele adormeceu e agora talvez apenas seus sonhos de homem esquizofrênico mantenham uma lembrança lúcida da imagem dela.

Carlinhos voltou no fim da tarde, a mãe lia um livro na varanda. Ele estava cansado e sujo de lama. Ela lhe deu um banho quente, preparou um lanche. “Mamãe, quero dormir contigo hoje!”. Ela o levou pra cama, deitou-se ao lado dele, junto com o Julinho, seu boneco que era o homem das estrelas. Carlinhos segurou as mãos da mãe, deu-lhe um beijo no rosto, disse que a amava… ”Mamãe, segure a minha mão até que eu durma”. E ela viu ali, uma reconstrução infantil do homem que tanta amava, e ela sabia que Carlinhos, ao acordar, reconheceria seu rosto ao acordá-lo e levar café com bolachas. Parou com o conhaque e psicotrópicos, a sua vontade de viver dormia ao lado.

A menina má.

Acordou numa manhã preguiçosa qualquer. Foi na geladeira, pegou um abacate grande, cortou ao meio, tirou a semente, cortou um limão, fez uma pasta verde e mole, espremeu o limão e depois, duas colheres de açúcar na mistura. Estava lá, a mistura verde quase alienígena. Levou ao quarto, comeu na cama enquanto lia o jornal que foi jogado no quintal às cinco horas da manhã.

Depois de corpo e alma alimentados, tomou um banho para expulsar aquele resto de sono que ainda habitava o corpo. De alma então renovada, saiu enfim ao trabalho, de salto alto, “meia fina” e vestido meia estação. Pegou seu livro de MarioVargas Llosa em cima da cabeceira e foi em direção ao ponto de ônibus. Como sempre, esqueceu-se de alguma coisa. Voltou correndo para sua casa buscar o carregador do celular… Correndo de salto alto, cabelo balançando de um lado para outro. Pegou o celular, fechou o portão e escutou o ônibus aproximando-se, correu de novo. O motorista da linha 325 a conhecia, pois habitualmente ela sempre pegava o mesmo ônibus. Ele parou a cem metros depois do ponto de ônibus, e então ela subiu esbaforida, suada, cabelo em desalinho. “Bom dia”, disse o motorista, rindo do desespero do medo de se atrasar e a graça dos cabelos bagunçadas da passageira habitual.

Ela passou pela catraca e sentou-se no primeiro banco desocupado que viu. Abriu o livro “Travessuras de uma menina má”. Começou a ler as primeiras linhas do capítulo em que havia parado. Viajou, ela não estava mais ali, estava fora de si mesma, enquanto isso, as paisagens urbanas passavam pela janela, e o vento entrava pela janela. Em seu mundinho de encontros e desencontros, esqueceu-se de arrumar os cabelos em desalinho, e nem percebeu a linha que se soltava da manga de seu vestido ¾, vestido meia estação. “Moça, moça, chegamos!”. Era o motorista do ônibus gritando de forma simpática e risonha, avisando que havia chegado ao terminal. Ela olhou ao redor, todos os demais passageiros haviam descido. Era o chamado para a vida. Deixou de ser menina má.

Estou lendo este livro. É maravilhoso!
Estou lendo este livro. É maravilhoso!

O pão no prato.

Letícia escrevia sua monografia numa vontade que a aniquilava. Mais dispersava do que escrevia. Odiava escrever com prazos. Escrevia durante a madrugada, pois era o tempo que ela tinha. Curava o sonho com doses de cafeína. Não tinha mais vida, não tinha mais nada. Perdeu as contas de tanto tempo que não vê mais os amigos, perdeu as contas de quantas latas de cerveja já tomou nesse tempo…Sozinha. O cartão de crédito bem sabe suas idas ao mercado para comprar um fardo de energético. Ela não sabia contar os pigmentos das suas olheiras. Traços escuros embaixo dos olhos. Se houvesse alguma forma de contar, seria mais um método para dispersar sua obrigação. Tirou todos os livros legais da estante, colocou-os numa caixa no porão. Sem dispersões…sem dispersões. Nem o gato estava mais lá, ela poderia dispersar ao olhar pra ele, e dar risada ao lembrar do amigo que quando criança atirou o gato da janela do segundo andar: “Queria saber se ele cairia em pé”, e então ela divagava e ria, pois num restaurante em dia chuvoso os dois divagavam sobre teorias malucas. “Talvez, se você amarrasse um pão com manteiga nas costas do gato, ele não cairia de pé…Porque o pão com manteiga sempre, mas SEMPRE, cai no chão com a manteiga para baixo”. E lá estava ela, dispersando. Queria ficar longe, de coisas legais, aquelas que lhe tirassem o foco, a concentração que tanto precisava. E queria colocar fogo em tudo. Em um mundo de cobranças, o sacrifício que por horas era tão digno e necessário, parece decantar em potes de preguiça. Queria jogar-se nos braços do sono, e em sonhos de uma eternidade, sonhar com um mundo menos besta e mais sensato.

Sua mãe fez um lanche para ela, antes de ir dormir, deitar sozinha com toda a vida de viúva estampada na cara. Preocupava-se com a filha, muitas vezes ela só ficava no café com bolachas. Todos os dias, a mãe preparava-lhe um sanduíche, batia na porta do quarto, colocava o lanche e o copo de leite em cima da mesa, lhe dava um abraço, um beijo e um “Boa noite minha querida, vá dormir cedo”. O leite sempre acabava nos beiços do gato. Cerveja e leite não davam certo.

“Mamãe deveria namorar”, pensou Letícia, fugindo novamente…Mas sabia que sua mãe estava desiludida demais para querer ter outro relacionamento. Chega uma hora, pensou ela, que as ilusões vão embora e sobram-nos apenas momentos de extrema lucidez, que tantas horas são mais venenosas do uma vida de sonhos e crenças que o ser humano pode ter compaixão e ser isento de crueldade. Letícia acreditava na possibilidade de existirem dias melhores, talvez uma grande tragédia mudasse a visão das pessoas, e que talvez fizesse o mundo melhor. Tem gente que só aprende quando apanha na vida, quando perde. Ela acreditava nisso, nas boas ações. O pão que sua mãe preparou, continuou em cima da mesa durante duas horas, ali, descansando no prato. O gato por perto, pois sentia o cheiro do patê de atum. Sua mãe preocupou-se com ela, mas o pão continuava no prato, como se ele não existisse.

O relógio sem pilhas.

Lucas estava lendo um livro, de maneira gostosa, preguiçosa, corpo todo esparramado no sofá da sala. A cachorra dormia perto dos pés dele, e tirando os roncos dela, ali, naquele local, não havia mais barulho algum, além do barulho da troca de páginas. Páginas virando, cachorro roncando, páginas virando, cachorro roncando…Era uma sinfonia agradável. Ele esfregava os pés na barriguinha preta da cachorra tão pequena, uma bola de pelos preta que roncava, passeou e correu o dia inteiro, e agora estava ali em seu momento de paz, suspirando baixinho com o seu dono fazendo um carinho gostoso com os pés. Lucas ficou dessa forma, perdido nas páginas de um livro, até dar-se conta que precisava dormir, pois amanhã terá que acordar cedo para ir trabalhar. O ônibus da empresa parava em um ônibus perto da sua casa, bastava andar alguns poucos metros.

Verificou quantas páginas precisava ler para encerrar o capítulo, pois tinha uma mania de sempre ler um capítulo até o fim, para que no outro dia não pegue o assunto pela metade, aquela coisa de pegar o bonde andando, pra ele, uma espécie de sensação ruim, para digerir o que foi lido, ele precisa juntar peça por peça, começar um capítulo pela metade, é o mesmo que pegar um jogo de xadrez em andamento. Perde-se a estratégia, aí é necessário recomeçar. Logo, um tempo perdido. Leu até o final do capítulo, fechou o livro, não havia mais o barulho do “virar de páginas”, apenas a cachorra roncando. E sentiu falta, de um barulho: o tic-tac do relógio de parede da sala…

Olhou para o relógio, aquele som que o atormentava não estava mais ali. O som congelou-se nas sete horas da noite. Seu celular marcava duas horas da manhã. Queria ele que as coisas continuassem paradas nas sete horas da noite. Queria ele levar uma vida mais calma, muitas vezes queria enganar o Tempo, congelando-o, como aquele relógio sem pilhas. Ele sabia que tinha de pegar o banco da cozinha, abrir a gaveta, procurar pilhas, subir no banco, pegar o relógio, tirar as pilhas, separar as pilhas velhas para serem jogadas em lixos específicos, colocar as pilhas novas, arrumar os ponteiros, pendurar o relógio na parede novamente, guardar o banco. Ele sabia de tudo isso, mas ficou lá, no sofá, contemplando o Tempo com seu ponteiro congelado. A cachorra deu um suspiro, e assim como a vida, ela lambia seus pés…Vida úmida, movida com pilhas alcalinas.

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhum batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.

Willian Faulkner

Tempo-Livres-de-todo-Mal

Memórias de Café com livros: A mulher no balcão.

No meu dia nublado de abril, eu escritora insone não remunerada, analista de sistemas estressada, porém em férias, estava a escrever na mesa de uma cafeteria de livraria. Naquela mesa, com  papéis espalhados, canetas, água com gás e uma xícara de expresso duplo, pensando na minha meta literária do dia, pensamentos misturados em meio a sonhos e também em Amor, aquele Amor que chamamos de Amor Próprio, junto daquele que envenena os apaixonados. Não sou de ferro, queria ser um ser assexuado e desprovido de sentimentos, eu poderia tal como um ciborgue, emular sentimentos. Sentimento fingido as pessoas dão mais valor, aquele sem sinceridade, sem a típica bofetada, cheia de palavras afáveis a todo momento, o sapo que virou príncipe e outras mitificações. Diante de uma pessoa que vê a realidade das coisas, sem precisar ser moldada, o encanto cai, as coisas ficam difíceis, pois sabe-se, sempre queremos alguém a quem possamos moldar ao nosso jeito, é mais fácil de aceitar, engolir e menos perturbador. No meio de uma sociedade como a nossa, aquele que não questiona, concorda com tudo, vai na moda, é muito é mais fácil de se conviver, pois sendo assim, normal, os problemas ficam mais fáceis de serem contornados. Gostamos de coisas afáveis. Verdade dói, mentiras são mais confortáveis.

Comprei o volume um de contos do Hemingway, e um pocket do Charles Bukowski, “Pedaços de um caderno manchado de vinho”. Apaixonei-me por estes dois escritores, intensos, nus, crus, estética brutal. Não gosto de escrita mimimi. Gosto da realidade, aprecio ler e sentir bofetadas no rosto e isso não é sadismo, é apreciar ler aqueles que não vivem em um mundo de fantasias.

Na minha frente, estava sentada uma mulher com uma camisa listrada branca e verde-água. Ela carregava duas bolsas grandes, uma preta e uma marrom. Mulher bonita, deveria ter uns trinta e poucos anos. Era loira, cabelo na altura do pescoço, olhos azuis. Pediu chocolate quente no balcão da cafeteria. Já tomei daquele chocolate quente, aliás, creio eu que já tenha tomado todos os drinks que eles servem lá. Como viciada na arte de elaboração de bebidas com cafeína, passar o dia regado a doses de cafés bem elaborados é um certo luxo ao qual me permito. Café, assim como o vinho, expande meus horizontes.

Foi neste mesmo lugar que eu tive meu primeiro contato com Hemingway, através do livro “O Velho e o Mar”. E desde então esse livro e muitos trechos dele moram em minha memória. Perdi as contas de quantas vezes eu já o li, dentro de uma tarde solitária, e em todas as vezes, eu acho mais formidável, impossível não se encantar cada vez vez mais, e ir colhendo, aqui e ali, impressões que nos deixou passar batido. Eu só tenho a agradecer a quem me apresentou tal obra de arte, tem de ter uma sensibilidade grande, para compreender a beleza do que está escrito aí, e isso não encontramos em qualquer um. Pessoas assim são raras, um diamante quase lapidado, digo quase pois não somos perfeitos, muito pelo contrário, muitas vezes temos mais defeitos do que qualidades propriamente ditas, mas nossas qualidades nos deixa ignorar os defeitos, ou simplesmente aceitá-los. Não sei lidar com o silêncio, já disse aqui, mas aos poucos, eu vou aprendendo. Preciso do silêncio para completar o pedaço que falta em mim. Sempre gostei das pessoas silenciosas, vejo um equilíbrio ao qual não tenho, essas pessoas falam com os olhos, precisam de poucas palavras para se expressarem. Muitas vezes eu não consigo fazer isso sem verbalizar no mínimo umas cem palavras. Saudades daqueles olhos silenciosos, mas tão expressivos, que fazem meus olhos, tão grandes, baixarem desajeitados, pois é, acreditem, eu sou tímida diante daquilo que me desconcerta. Em questões de Amor, eu muitas vezes me protejo por trás de meus muros do ego. É aquele medo de se machucar, mas eu sempre acabo pegando uma marreta, e mostrando o que há por trás do muro, mesmo que na sutileza, eu posso não ver mais aquele que me tirou da toca, eu posso fingir que não estou mais nem aí, mas isso é uma maldição aparente, eu me preocupo, não nego, mas tem horas que deixo meu amor próprio falar mais alto, mas aqui dentro, bate um coração já tão estilhaçado, mas que mantem a beleza e a sinceridade de um vitral.

Em tantos anos de leituras, noite a dentro, dia a fora, como que eu nunca li nada do Hemingway? Creio eu que tudo acontece na hora certa, talvez eu não tinha na época maturidade para entender o que estava escrito ali. Existem certos livros que aparecem nos momentos certos, não estou dizendo que Hemingway é leitura para a partir dos 25 anos, iguais aqueles cremes anti-rugas, mas certas leituras dependem de um nível de amadurecimento mental, de novas ideias, conceitos, perda de preconceitos. Talvez, se eu tivesse lido “O Velho e o Mar” com quinze anos, eu não teria a eloquência necessária para entender ao certo o que está escrito ali. Aliás, eu estou desviando o assunto dessa memória, vamos voltar ao tema, para a mulher no balcão.

Como eu havia escrito, linhas acima, ela estava tomando um chocolate quente, e se eu dizer que era uma mulher de olhos tristes? Uma mulher que em seus olhos carregava uma angústia que me sensibilizou a ponto de interromper meu texto sobre a fonte da juventude, e pegar um outro papel para escrever o que agora, vocês estão lendo. Comecei a escrever em uma folha sulfite cor de laranja. “Ana você é uma invasora”, não, eu não sou. Se me olhassem escrevendo, veriam uma mulher com olhos grandes e perdidos, mas que vê tudo ao redor, sem se deixar ser percebida, por isso não sou uma invasora, eu não encaro, eu apenas observo, na calma, na paz. O ato de encarar é chegar sem pedir permissão e criar uma zona de desconforto. Observar não, você vê, mas finge que não percebe, toma seu café, na boa, na paz, olha para outros lados, concentra-se, folheia, rabisca. É o simples ato de sentir-se vivo. Eu sou uma pessoa que desligada, viajo na maionese, penso na morte da bezerra quase que o tempo todo, mas isso não me impede de estar atenta ao meu redor. Nem sempre fui assim é uma questão de prática.  Comecei a escrever memórias há pouco tempo, e não fiz isso com mais frequência para não ser interpretada como um ser invasor e/ou imoral. Gosto de escrever sobre a vida, sobre momentos, assim, como estes, perdidos nas observações da vida transbordando incógnitas numa cafeteria, cuja mesa ocupada por uma mulher de tristes olhos azuis, que de repente tirou um bloco de anotações da bolsa, que mexia o chocolate quente com uma colher bonita, mas o olhar dela, distante, aflito. Posso enganar-me com as minhas observações, minhas convicções podem estar erradas, pois estamos fadados a ter ou sermos vítimas de falsos julgamentos, mas veja bem, eu não cheguei nela e perguntei por que ela tinha os olhos tão tristes, guardei minha opinião pra mim, e agora compartilho com vocês,  que apesar dos olhos tristes, a beleza daquela mulher ao tomar goles curtos daquela bebida quente, não poderia passar por despercebido. Eu não perco os instantes, e quando eu perco, eu jogo uma maldição em mim mesma.  Não perco a beleza de meus breves minutos, se a tristeza ou a beleza me atrai, eu me entrego a ela. A beleza dos olhos nus anda comigo, e por mais que essa minha característica possa jogar contra eu mesma, eu não sou uma pessoa imoral, pois meus instantes não são o meu eco, o tempo todo. Permito-me amar aquilo que me desconcerta, e escrever meus sentimentos perante a sinfonia de vida ao meu redor, se você fez ou faz parte da minha vida, e de alguma forma me encantou, serás imortalizado aqui, em linhas insones, e tais como os olhos azuis daquela mulher, em meio a goles de quem sabe um conforto, eu canto aqui minha composição perante o encanto que teus olhos me trouxeram, e eu sinto em meu peito a saudade me apertando. Escrevo porque sinto saudades…Saudades de teus olhos azuis, aqui, sentada neste mesmo local que eu roubei a bolacha que acompanhava teu café.

“três dias depois partimos, a menina má e eu, de trem, para a sua casinha nos arredores de sète, no alto de uma colina, de onde se via o formoso mar cantado por valery em “o cemitério marinho”. era uma casinha pequena, austera, bonita, bem-ajeitada, com um jardinzinho. durante duas semanas ela passou tão bem, parecia tão contente que, contrariando toda a lógica, pensei que podia se recuperar. uma tarde, sentados no jardim, ao crepúsculo, ela me disse que se algum dia eu pensasse em escrever a nossa história de amor, não a deixasse muito mal, senão o seu fantasma viria me puxar os pés todas as noites.
– e por que pensou isso?
– porque você sempre quis ser escritor e nunca teve coragem. agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. não foi, bom menino?”  Trecho de travessuras de uma menina má, de Vargas Llosa.
 
IMG_20130325_152039
 

Um conto em três atos: O Sonho, A Beleza e a Razão

E de uma vez eu soube que não era magnífico
Perdido acima do corredor da estrada
(Vagas irregulares, cheias de gelo)
Eu poderia ver por milhas, milhas, milhas

Ato 1: O sonho

Isabela sonhava. Sonhava que estava voando por cima de um campo cheio de lírios. Ela se sentia leve como uma borboleta, e o desabrochar de um milhão de flores tímidas encharcadas de lirismo enalteciam sua alma. Ela já estivera ali antes, em tempos remotos, andando com sua velha bicicleta amarela, já enferrujada pela umidade do tempo. E ela corria naquele campo, quando seus pés preparavam seu pouso, por vezes desengonçado. Nem os urubus na arvorezinha de galhos retorcidos e secos, tiravam a beleza daquele lugar. Naquele sonho, naquele lugar que ela poderia chamar de seu, amanhecia um dia de cores multicoloridas, e seu desejo incontido de ser a nuance principal daquele jardim de delícias e prazeres angelicais, se diluíam quando ela escutou o despertador a chamar para a realidade. Ela que estava tão confortável embaixo de suas cobertas protetoras, acordou com o som do carro de gás que passava na rua e com o latido incontrolável do seu cão.
Abriu os olhos, timidamente, ela queria acreditar que ainda estava sonhando, mas o cheiro de café e pão na chapa que seu pai fazia todas as manhãs, a chamou para fora da toca. Sonolenta, mas com um sorriso preguiçoso nos lábios, deixou as roupas irem caindo pelo chão e foi para o banho. Ligou o chuveiro, esperou o primeiro vapor embaçar a sua face amassada refletida no espelho do banheiro. Ela tinha ali, olhos de ressaca, tal como Capitu, de Machado de Assis, uma incoerência coerente surgiam no brilho de seu olhar. E os cabelos vermelhos desbotados e bagunçados, ficaram úmidos com o vapor que emanava da ducha. Entrou no banho, usou um sabonete de lavanda e se colocou a pensar no seu sonho. Algo ali poderia ser real. Talvez ela poderia ganhar um lírio, tal como viu no seu sonho, ou ela poderia trombar com borboletas multicoloridas quando cruzasse o jardim da sua casa. E ela ficou ali, de cabeça baixa, deixando que aquele banho morno trouxesse suas emoções oníricas em forma de relaxamento. E ela se sentiu bem, em paz, ali naquele mundo real, ora tão cheio de ódio e tristeza, naquela manhã ela se permitiu olhar o mundo com mais Amor e Esperança. Nem tudo está perdido, pensou ela, ainda há esperança de existirem pessoas com nuances de um arco-íris, que nasce num horizonte infinito e acaba em seu coração, tão desajeitado e maltratado pelas areias do tempo.

2 – A Beleza

A Beleza é um verbo irregular ao qual não se conjuga. Isabela anotou isso no guardanapo de papel que seu pai colocou em cima da mesa. Embrulhou o papel e meteu ele num cantinho da bolsa. Ela estava empolgada, iria para faculdade naquela manhã, sem se sentir entediada com as aulas de “Blá blá blá”, nome que ela dava para aquelas matérias que eram apenas pura encheção de linguiça. Aulas que a faziam escrever momentos e lapsos de razão ou a falta dela, em meio de linhas tortas e sonolentas. Perdeu seu fone de ouvido em algum lugar, ela não conseguiria, até arrumar dinheiro para um novo fone, fingir que estava tendo uma aula agradável. Ela estava ali, presente de corpo físico, mas ali, nas aulas de “Blá blá blás”, ela pensava apenas em anjos e bisões extintos, e que deveria estar fazendo Artes Visuais ao invés de Sistemas de Informação. Talvez assim, seu esconderijo no refúgio da arte, tivesse tanto sentido quanto Humbert Humbert de Nabokov.
Isabela abraçou o pai, e partiu em direção à rua que seguiria durante meia hora até chegar no campus da faculdade. Ela queria poder ler um livro e andar ao mesmo tempo, sem que isso a fizesse esbarrar nas pessoas, sem que essas pessoas tão ranzinzas a encarassem como uma louca fora do ninho. Ninho de proteção…Ela criava sua própria redoma de vidro, quando se sentia ameaçada. Não ousava olhar nos olhos de um rei, não era como um gato. Dizem por aí que somente gatos tinham coragem e loucura suficiente para olharem fixamente nos olhos de um soberano. Quando ela via um par de olhos que a chamava para fora da toca, ela mirava o chão ou a mesa de madeira da sua sala, ou qualquer outro ponto fixo que a tirasse da sensação de se deixar seduzir. A Beleza, segundo a definição de Isabela numa tarde de domingo depois de se embriagar na solidão de seu quarto, enquanto observava os cães copulando desenfreadamente no jardim, era como os ponteiros de um relógio invertido, com ponteiros tortos, que contavam os segundos em direção contrária. A Beleza, pensava ela, atrasava a razão e a eloquência de raciocínio. A Beleza deveria ser evitada, pois a beleza vicia, e nos tira toda a noção da realidade. Ela pensou na beleza de seu sonho, e o quanto este fato fez o tempo correr mais devagar, pois a Beleza nos faz perder o rumo, e os segundos passam devagar como o desabrochar de uma flor. Pétala a pétala, a Beleza nos embriaga com seu perfume. Isabela chegou na sala de aula e desembrulhou o guardanapo de papel que trazia na bolsa, e quando começou o blá blá blá, traiu suas convicções e pensou numa Beleza que não se conjuga…E a sala se encheu de lírios.

3 – A Razão

As aulas acabaram naquele dia. Ela saiu da faculdade apressada, pois seu pai a esperava para visitar os avós. Ela, de início, lançava-se nos passos com uma pressa incalculável. De repente, o tempo parou, seus passos diminuíram. Ficaram tímidos, como os olhos dos súditos ao soberano. Na floricultura, da esquina um lindo rapaz estava comprando um vaso de lírios. Ele saiu pela porta e foi em direção à ela. E ele tinha o sorriso e os olhos mais belos que ela já viu na vida. E naquele instante, ela mirou a Beleza sem baixar os olhos. Ela permitiu-se encarar o verbo irregular com os olhos de ressaca. Estava ali o refúgio da arte que ela tão timidamente não acreditava que pudesse existir. E ele segurava um lírio, tão lindo quanto aqueles que ela via desabrochar em seu sonho…Ela suspirou e perdeu a respiração. Seus olhos fecharam-se, e seu corpo padecia no asfalto. O guardanapo manchado de sangue, pessoas ao redor feito urubus. O Belo rapaz dos lírios foi o que atirou o lençol em seu corpo esmagado pela linha 331. A Beleza a encarou, e o tempo ali passou a ser irregular. O tempo parou pra ela. A Beleza tirou-lhe toda a razão…O tempo pra ela não tinha mais conjugações.