João e Maria

Era de se admirar. João ficava no canto da cela com os olhos baixos como se a saudade fosse a única que restasse. Os remédios já o tranquilizavam. Ele brincava na solitária com seus brinquedos de criança. Pensam que o louco não tem memórias, e tenho um amigo que me diz que lembranças e saudade enlouquecem o homem. Ali, no canto, perto da cama dura de hospital, João achava que era um herói. Um dia, sua tia lhe deu um cavalinho de plástico. Não queriam deixar ele entrar no hospital com seu cavalinho. Não era um louco perigoso, mas cortaram as patas do cavalo. Ele era louco de fazer de um brinquedinho de plástico uma arma? Talvez, mas era feliz com seu cavalo, ele falava inglês e João dizia à enfermeira que era necessário um dom para ouvi-lo. Uma enfermeira indagou João, que o cavalo dele não poderia levar o Herói João e a mocinha Maria… Ele não tinha patas. João ficou um tempo de cabeça baixa, enquanto a enfermeira aplicava-lhe a injeção. Pensou em algo coerente ou incoerente para responder àquela enfermeira pequenina com olhos de menina e lábios carnudos de musa renascentista. Disse-lhe que teu cavalo podia não ter patas, mas ele voava no confins dos sonhos de toda uma humanidade. A enfermeira deu um sorriso e o questionou se ele era realmente louco. Pensou baixinho, consigo mesmo. Queria desvendar aquela homem ali, que em acessos de loucura disse à todos que não iria mais ao jardim tomar sol porque o demônio dançava pelado no jardim. O que eram os sonhos de uma humanidade para um louco?

– Você é a noiva do cowboy! – disse João, segurando uma boneca de pano que pertencia à irmã, que nunca mais o visitou.

– E quem é este cowboy, menino João? – disse a enfermeira, ao ver o boneco velho também sem pernas, considerado pontiagudo demais para conviver em pacífica consciência com João, o Louco.

– Agora o herói sou eu Rosaly… E você é a Maria, além das outras três ali, mas hoje minha rainha é você, e estou levando-lhe para um faroeste em Paris… Você fala a língua de Paris?

– Não, não falo. O que vai ter neste faroeste em Paris? Não quer mais ser cantor de rock? O que faz um cowboy em Paris?

– Tonta! Já lhe disse, eu sou um herói! Eu tenho o cavalo Rocinante, eu mato dragões que cospem champagne e caviar. Sabia, eu tenho batalhões, todos vestem chapéu e carregam o coldre com uma pistola de cada lado. Levo um punhado de dólares. Ainda sou cantor de rock, sou um astro, maior que o sol.

– Mas tu disseste que és cowboy…

– Eu canto apenas de manhã, e o sol que entra no quarto agora indica que já é tarde. Agora eu enfrento batalhões, tenho de matar Hitler com uma facada no pescoço, beber até a última gota de sangue. Depois transar contigo… Além das outras três.

E as outras três bonecas de pano jaziam no canto do quarto. João, o Louco, só queria Maria…

– Estás muito bonita hoje Rosaly… Maria Rosaly – disse João enquanto pegava um copo de água da enfermeira Rosaly.

– Como sabe que o meu primeiro nome é Maria? Tu és bem espertinho!

– Você tem os olhos de mulher louca… Sabe? Crazy eyes… Eles se movimentam, fora de órbita. E o M na frente de seu crachá. M. Rosaly… Sou louco mas não sou burro. Agora saia. Quero brincar que sou rei. Cansei do faroeste. Minha mão está cheia de pólvora. Tenho alergia à pólvora. Saia, por favor…

– Pensei que agora eu seria tua rainha e seríamos felizes, cavalgando as tardes nas colinas! – e Rosaly saiu, fechou a porta e viu João atirar o cavalo pra longe.

João pegou sua coroa de papel. Ele era Luis XIV. Era o sol, era um juiz, era o professor supremo, amado por tudo e por todos, desde as pessoas sadias, aos loucos das montanhas. Os solitários, os extravagantes, a lua e as estrelas. Todo mundo obrigado a ser feliz. Quem não era, ia para a guilhotina e com o sangue fazia chouriços para alimentar o povo. Só faltava a princesa. Aquela era a terra de ninguém, era apenas ele, e os sonhos de correr com sua amada, pelas ruas floridas do seu reino. Ela poderia andar nua se quisesse, mas a enfermeira Rosaly achava que ela era apenas um brinquedo, uma boneca de pano jogada no quarto. João era louco, ela não poderia dar-lhe a mão, não poderiam jogar pião no jardim. O demônio andava por lá, ele tinha medo. João poderia montar-lhe em cima, e fazer dela o seu brinquedo, o seu bicho favorito. Queria não sentir medo. Queria que ela não sentisse medo, queria que eles se dessem as mãos. Mas ele era louco. O medo sempre foi a maior loucura dos homens e a maldade, ainda existe. E João ficou, na sua solitária, olhando lá fora na janela cheia de grades e vidro blindado. Murmurava ” Não fuja, não fuja não…”, e por vezes procurava enfermeira Rosaly no jardim. Rosaly era sua Maria. Ele a mandou embora, pois em sua consciência de louco, sabia que tudo ali era um faz de conta. Para além das fronteiras do jardim do manicômio, sua Maria some, e nem dele vai se despedir. Ela se aninha nos braços do marido, faz a janta das crianças, carrega-as no colo e lhes conta uma história de ninar. E em seus sonhos de romance, ele como homem, desmistificado de toda sua loucura, as noites com Maria não teriam fim. Rosaly apareceu no jardim. Pela primeira vez ela viu que João a observava da janela. Sorriu e mandou um aceno. Será que aquilo era sincero?

Quando estava anoitecendo, Rosaly entrou na solitária. Queria se despedir de seu louco favorito.

– E agora João, quando anoitece, o que você é agora?

– Agora Mariazinha, eu sou o louco consciente, que se pergunta o que a vida afinal vai fazer de mim.

Silêncio…

Beatriz: À mestra com carinho.

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz…

Este texto é uma homenagem a uma grande amiga minha de longa data, precisamente, mais de  10 anos. Uma pessoa que eu compartilhei momentos, diários, blocos de anotações, mágoas, dores, risadas, nerdices. Sofremos muito bullying juntas, inclusive já chegaram a nos dizer que era para nós duas estudarmos bastante porque nunca iríamos ter um homem na vida. Pode uma coisa dessa?E aqui estamos nós, bem sucedidas, independentes e mulheres lindas. Eu chamava ela de gostosa no corredor do Polivalente e dizia que nós éramos amantes. As pessoas quase acreditavam. A nossa amizade era forte, e muitas vezes motivo de ódio ou inveja. Fomos humilhadas, choramos juntas muitas vezes, mas isso nos fortaleceu. Nossa adolescência, com toda nossa insegurança perante a um mundo de valores tão rasos e mesquinhos, nos fez tornar o que somos hoje. É com muito orgulho e carinho, que eu faço aqui uma homenagem à minha eterna musa, uma autêntica musa de Chico Buarque. Nunca me esqueço, foi por causa desta música que sua mãe, a querida Rose, deu-lhe este nome. E é impossível escutar essa música sem lembrar-me da Bia, Beatriz, a bailarina que dança no sétimo céu. Hoje, eu estava escutando a versão instrumental desta música, lindamente interpretada por Tom Jobim, quando recebo um feed do facebook contando que ela agora é Mestre. Sempre acreditei na força dela, mesmo ela sendo quase uma barreira intransponível de força, a inteligência e a sensibilidade desta garota nunca me decepcionaram. Eu sempre acreditei na força dela, e que força de vontade!Tenho ela como motivo de orgulho, e um dia, quando tu ficares famosa, eu vou dizer: “Orgulho dessa garota, eu conheci a Beatriz Blanco!Eu batia na bunda dela no corredor da escola!” e nós cantávamos uma pra outra:

Filosofia é poesia é o que dizia a minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem pra chamar de seu
Mesmo que esse homem seja eu
Um homem prá chamar de seu

Lembrarei das nossas filosofias de quiosque do Polivalente (o que acontece no quiosque do Polivalente, fica no quiosque do Polivalente), da teoria da banheira de osmose, o velório da paçoca, dos nossos patos de madeira, o chamado espiritual de Napoleão na prova de história, da costa oeste do México que é inteira mexicana, na cola homérica da prova de eletrofísica, do nosso trabalho sobre cultura popular brasileira, nossas discussões sobre “O retrato de Dorian Gray” e ” O apanhador do campo de centeio”. Você se lembra? Nós compartilhávamos a ideia que Holden Caufield era nossa versão masculina.

Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer.

Nós duas sempre queríamos salvar as crianças de despencarem do abismo. Nosso campo de centeio, sempre foi cercado de confiança e amizade verdadeira. Você esteve presente em vários momentos importantes da minha vida, e foi uma das poucas, aliás  eu diria, única, que me estendeu a mão no momento que eu mais precisei, aquela que me disse: “Acorda Ana”, aquela que me chamou pra tomar uma no bar e me falou umas verdades, e me estendeu a mão. O pessoal olhava e achava que era um casal de lésbicas, mas foda-se o que os outros pensavam. Nós ali, demos um brinde, um brinde às nossas vidas, nossas emoções, risadas, tristezas, histórias resolvidas e outras sem aparente solução, talvez até hoje, até porquê, que mulher não tem seus mistérios?

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

Ficamos longe uma da outra durante um longo tempo, separadas inclusive por barreiras estaduais, mas eu digo que apesar de todos estes anos, eu digo em alto e bom som que você é um pessoa que eu posso sentar num bar 5 anos depois e contar os meus segredos mais escabrosos, e você vai me julgar, sim, você pode e deve, pode me chamar de estúpida ou aler isso dizer pra si mesma rindo e depois entrar no inbox do facebook: “Ana, você continua brega, piegas, cafona…”, e depois você vai cantarolar  “Sandra Rosa Madalena” como se você não fosse cafona também.

Nunca me esqueço quando assistimos “The Apple”, a hora bin, Mister Topps…

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Marina Zoraide disse: “QUE PORRA É ESSA????”
Quem é ele?Aquele é o Mr Topps…
Marina: Essa porra aí é o Roberto Carlos!
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Ana, que porra de filme é esse com um cara de um chifrinho só…

Ainda tenho aquele saudosismo de emprestar vinis e fitas tape. De filosofar sobre “Pink Floyd The Wall”, sobre o quanto tínhamos um lado “Pink” obscuro nas nossas vidas, carregando ratos com leptospirose. E eu posso dizer que me sinto muito honrada por ter conhecido e compartilhado músicas, livros e ideias contigo. Eu queria aqui, escrever algo bem mais bonito, pode não ser algo digno de um Sallinger da vida, mas aqui está meus sinceros sentimentos e carinho por você. E eu lhe digo mais uma vez, parabéns pelo seu mestrado, agora você é uma Jedi, e eu, sua padawan, porque tenho muito o que aprender ainda jovem mestra.

Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel

Se você chorar num quarto de hotel, me chama pra darmos um rolê na Rua Augusta. Aproveitamos e vamos naquele restaurante indiano!

E para encerrar om chave de ouro, olha só o que eu tenho na parede da Caverna da Anaidris, e com toda a licença poética do Sir Vinicius de Morais:

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Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando
chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de
grandes chuvas e das recordações da infância.
Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças d´água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo. 
Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo”