Se e somente…SE.

*Nota mental escrita durante esta madrugada.

Subimos montanhas, nos prendendo nas pedras, ora olhando para baixo
Ao respirar o ar de todas as manhã, nos sentimos tão pequenos,
Ante o sorriso de uma criança alegre nos braços da mãe,
Não existem surpresas que nos amedrontem, nesse mundo,
É apenas nossas mãos dando bordoadas no escuro,
É apenas nossa dor tão mesquinha nos atormentando,
É apenas um Amor que nunca existiu indo embora.

Na dor nossa de cada dia, há um espetáculo fabuloso,
Milhares de borboletas rodopiando num campo de margaridas,
E aquela criança dentro de nós se liberta, e se põe a correr,
Distante dos problemas, vamos sorrir como crianças bonitas,
E talvez isso nós faça sentir pequenos demais, ante a beleza
De um milhão de cores explodindo no horizonte, brincando com nossos olhos.

E de repente ao olharmos para o céu, há uma ave de rapina
Rodopiando em círculos, calmamente pela manhã durante a semana
O frescor deixado pela orvalhada da madrugada, e os olhos azuis,
Da criança que parece um anjo de mãos dadas com o pai, de traços fortes
Então olhamos para nossas vidas, ela pode ser bela também?
E então, um dia me disseram que há muitas verdades e meias-verdades,
Nesse caminho cheio de pedras, nunca teremos certezas de nada,
Há apenas o nosso discernimento ante a razão do coração.

Se somente pudermos contemplar o horizonte sem compromisso,
Alguém nos diria que estamos apenas perdendo tempo,
O quão bonito é um homem perdido em pensamentos, em olhos calmos,
Se e somente se, nos apaixonássemos por nós mesmos,sem dor e mágoa
Talvez o mundo seria um pouco menos doloroso, mas a vida está aí,
Rodopiando em torno de nossos medos, ansiedades, lágrimas e felicidade,
E o Amor me faz sentir pequena, ante a escuridão e desejo que o permeia.

Temos um coração a se manter calmo, vamos sair de mãos dadas,
E eu lhe digo apenas que a vida é passageira demais para termos medo,
Lhe beijo os olhos grandes, porque alguém me disse um dia,
Que os olhos podem ser o espelho da alma, e teus olhos são bonitos
Se e somente se, nós déssemos as mãos, talvez poderei amar,
A vida seria mais passageira, como o sorriso de uma criança
Não importa, somos tão pequenos quando sozinhos?

Se e somente se…pudéssemos ser um pouco mais sensatos,
Um dia alguém me disse, que meu corpo dançaria conforme uma música,
Que Amor e Sexo podem caminhar em linhas diferentes, mas se dão as mãos,
De vez em quando nos quartos, na penumbra de um bairro do subúrbio,
E então um dia o Amor se acabou, alguém me disse que um dia isso acaba,
E eu com muita dor, aceitei e saí a caminhar por aí, com sentimentos vazios,
E foi então que meus olhos se abriram e nunca me surpreendi tanto,
Para as coisas que sempre estiveram ali, passando despercebidas,
E então eu me senti tão pequena…você me faz sentir tão pequena,
Diante deste coração tão surrado quanto o meu, vamos caminhar juntos,

E um dia me disseram, vamos dar as mãos e sair por aí,
Rompendo nossas barreiras tão mesquinhas que nos aprisiona,
E nada será dito, além de palavras sensatas e histórias a contar
Talvez seja mais engraçado e surpreendente do que imaginei,
Mas você segura minha mão como se me conhecesse há tempos,
E como um livro vira a página e me conta aquela história,
E então eu me sinto tão pequena, estive o tempo todo sem perceber,
Que meus olhos grandes estavam cegos por uma venda, então eu dei risada,
Porque um dia me disseram, que a vida é uma piada, contada por um comediante frustrado.

E um alívio, um grito de liberdade sã e consciente grita dentro deste coração,
E um dia alguém me disse, que quando abrimos os olhos depois de tempos cegos,
Nós nos sentimos tão pequenos…tão pequenos diante de nossa idiotice,
E um dia me disseram que há milhões e milhões de pessoas neste mundo,
E um deles estará a sorrir pra mim…um dia me disseram, em tom de sermão:
Se e somente se, a vida sorrir para nós, devemos então, sorrir pra ela também.

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Tal como o vinho, parte II.

Eu simplesmente não consigo mais ignorar a zona incauta de prazer que me invade a alma a cada gole de vinho tinto seco. Seria muita insensibilidade de minha parte se eu ignorasse todo o poder quase insano, enlouquecedor, de teus lábios manchados, sua saliva, nossa saliva etílica, aquele cheiro teu tão próximo, eu devorei teu cheiro em um longo percurso, e ainda não levemente embriagada, eu já sabia muito antes que eu estava já fora da minha toca, apenas tentei em vão ignorar tão sagaz e ensurdecedor insight de razão emocionada. Eu não pretendia beijar-lhe e nem ser beijada, mas eis aí que a vida nos engana. Quando nós achamos que temos todo o controle da situação, eis que os ventos de tempestade chegam e balançam nossas roupas de orgulho penduradas no varal. E a camisa branca impecável, seca no varal, ficou úmida de prazer, marcada por vincos de um abraço de saudade. Meu vestido ficou um tempo separado num balaio de roupas, longe das outras, porque ali estava algo especial, uma gota de vinho derramado e seu cheiro esparramado. Joguei o vestido na máquina de lavar, mas só fiz isso quando gravei tuas marcas olfativas em minha memória, e ela está longe de ser jogada no sóton de minhas memórias cognitivas. Está num acesso dinâmico, rápido, bizarro e sem frescura, sem tempos ruins para negar memórias entorpecidas. Pode estar uma tempestade de pedra lá fora, a chuva será linda, pesada, e eu vou contemplar da minha janela. Lamberei uma pedra de gelo, um pedaço do céu em minha boca, eis que me lembrarei de ti novamente, não estou dizendo que és um homem frio, mas sim porque como o gelo, você derrete em minha boca e num acesso de lembranças boas, as borboletas dançam todas descontroladas no jardim de meu estômago.

E eu saí daquele bar numa sexta-feira ameaçadora de chuva. Com meu casaco amarelo eu suava, e o vento de prenúncio de chuva bagunçou meus cabelos, acalmou minha face avermelhada. Subi para o ônibus sobre o efeito do fogo. Algo em mim queimava, se eu pudesse lhe chamaria para um sexo improvisado, como uma dança, num salão, onde ritmos variados nos convidam a passos desajeitados. Neste palco eu meu arrisco, a vida toda é um palco, penso eu, pois temos de dançar conforme o ritmo dela, portanto, se nos sentirmos envergonhados e desajeitados durante os passos de tango argentino, vamos cair, e rir de nosso tombo. Daremos as mãos e dançaremos novamente, até a que a Morte chegue. Se o céu, o paraíso e outras metáforas semelhantes existirem, vamos continuar dançando no paraíso. Se o inferno existe, vamos dançar nus, sem pudor algum, queimando em chamas, um ritmo caliente de música caribenha. Usarei meu espanhol desajeitado, sem vergonha. Aliás, vergonha é algo que não me pertence. Deixei-a abandonada e guardada numa caixa, na mesma caixa onde guardava meus textos proibidos de 15 anos, antes de serem atirados ao fogo.

Tal como o vinho, bebo-te em goles de saudade, e ele desce, quente, aquecendo minh’alma e coração, numa sexta-feira de emoções violentas em forma de pensamentos. Queria eu ser agora como uma garrafa, um vinho, um licor de uvas, envelhecido de emoções. Deite-me em sua taça e me beba, sem pressa. DEGUSTE, sem moderação.