Cama de gato – Lay, Lady, Lay

De que adiantavam aqueles gritos se mensageiros mais velozes, mais ativos, montavam melhor o vento, corrompendo os fios da atmosfera? Meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo. E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo. E, se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso.  (Lavoura Arcaica, Raduan Nassar)

A carícia da língua na pele nua arrepiada em uníssono com os lençóis em desalinho finalizou com o despertador ao lado da cama. Era o fim das horas nuas, do sono regado à softporn e filosofias obscenas perdidas e jorradas no dilema Eros vs Psiquê, deixando seu corpo abandonado na cama, inundado pela meia-luz que queria penetrar o quarto por completo. Aquela manhã acordou estranha, um cheiro ruim invadiu as narinas. Abriu os olhos devagar, subiu as cobertas até a cabeça, se cobrindo para que a luz não a atordoe. Ouviu um miado, era seu Gato, ela se descobriu, olhou para o lado, e lá estava o Gato, sorridente, lambendo as patinhas. Lá estava o Gato, o seu Gato… E um pássaro morto.

No mês passado ele lhe trouxe uma barata. Brincava em cima da cama com aquele inseto asqueroso, e desde então as baratas tiveram um cheiro peculiar. Ele tinha o mesmo olhar de sempre, olhos sádicos. Sádicos felinos. Levou uma bronca, o pobre do Gato, como se gatos entendessem broncas, mas ela interpretou aqueles olhos amendoados do gato rajado como um pedido de desculpas. Trocou os lençóis, mas o cheiro da barata continuou ali, como se o fantasma da pobre coitada rondasse por ali e deixasse sua marca. Um velho amigo lhe disse um dia que as baratas tinham um cheiro peculiar. Desde então ela nunca esqueceu: sua mente criou um cheiro e deu um nome infame de “cheiro de barata”. Tudo tem cheiro, inclusive a Morte. Dizem que os cães sabem quando seu dono vai morrer, logo, a Morte também tem cheiro. Pode ser uma dedução imbecil, mas o ser humano é tomado de devaneios imbecis na maior parte do tempo.

E ali naquela manhã existia um cheiro. Cheiro de pássaro morto, junto com o cheiro de sarcasmo dos olhos zombeteiros de seu gato. Os modos aristocráticos ao qual ele se limpava a irritava, naquele momento. Como ousa? Como pode achar que aquilo seria um presente para trazer à dona. Ela ficou paralisada, olhando aquele pássaro, aquele pardal com pequenas tripas saindo pra fora e a marca de sangue seco nos lençóis brancos. Desde que seu homem foi embora, ele passou a lhe trazer presentes. E sempre deixa ao seu lado na cama. Um dia, ensandecida no embalo da noite regada a jogos de cartas e gin, a paixão pelos pecados do céu noturno e calado a chamava na varanda. Na boêmia solitária tropeçou e caiu. A pancada a fez adormecer. Derrubou a garrafa no chão que se espatifou em estilhaços, cortando a pele, o sangue se misturou junto ao leite que trazia num pires para o Gato. Misturou o gin, misturou o leite, as cartas do baralho se misturavam no meio das almofadas cheirando a mofo, amor, desamor, licores humanos e cheiro de livros velhos e empoeirados. Tudo naquela casa, naquele cenário, se misturava. Os cinco sentidos eram uma sinfonia sinestésica. Bob Dylan cantava “Lay Lady Lay” naquela noite, e o gato lambia seu rosto e corpo embebidos em leite, gin, sangue e ela inconsciente, deitada na mais vã das filosofias, em um chão mundano de um quarto com paredes descascadas fadadas ao esquecimento daqueles que já se amaram entre elas. E ela embalava seus sonhos etílicos e obscenos enquanto Dylan no repeat cantava, e seu velho homem deitado na cama, com as costas arranhadas. Mas agora era só lembrança, o pássaro morto em sua cama lhe dava uma compaixão pavorosa.

O pássaro morto continuava ali, ela também, paralisada num misto de asco, surpresa, devaneios, lembranças. E o Gato fazia graça, os pelos eriçando, ele se esticando, ronronando, entrando por baixo das cobertas, aninhando-se entre as pernas delas que se encontravam num tremor de assombros. Ela se lembrou de um poema do velho safado, que dizia ter um pássaro azul trancafiado no peito:

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair, mas eu sou demasiado duro para ele”

E o pássaro estava de uma maneira sutil, trancafiado em sua morte, disposto como uma mensagem sórdida e metafórica embalada à saliva, tripas, sangue e pelos e penas. Seu funeral era ali, em cima de sua cama com lençóis de brancura impecável, mas de uma maneira única, sentia seu coração sufocado por ele. Uma espécie de amor pela dor, e a dor estava ali, com as tripas para fora, uma ofensa. O Amor é uma ofensa. O medo também, com uma diferença que o medo não nos traz prazeres. Levantou-se, foi para o outro lado quarto. Encostou na parede úmida e gelada. A cena toda não parecia menos assustadora. O Gato rajado a encarava, balançava o rabo peludo, piscava os olhos amendoados numa calma insuportável. Pulou saltou da  cama, enroscou em suas pernas novamente, chamou-a pra cama de novo, tal como um amante insaciável. Voltou pra cama, para “seu” pássaro imóvel,  Pensou nos vermes que vão invadir o corpo do pobre pássaro e consumir suas entranhas. Sentiu o corpo todo formigar, como se ela fosse devorada. Os olhos sem brilho do pássaro contavam uma história triste. Os olhos de sarcasmo do Gato queriam lhe dizer algo, uma história zombeteira, uma metáfora mesquinha, uma filosofia obscena escancara na pureza hipócrita da brancura de seus lençóis. Levantou-se, colocou um velho vinil para tocar. Tirou-lhe o pó. Deixou-se arrepiar pela chiado, deitou-se na cama, ao lado do Gato e seu pássaro morto.  Bob Dylan cantava novamente, numa epifania perturbadora:

Lay, lady, lay, lay across my big brass bed
Lay, lady, lay, lay across my big brass bed…

Nada era mais obsceno que aquilo.

Confessionário

O prazer é um pecado, e às vezes o pecado é um prazer. 
(Lord Byron)

As luzes lá fora já se apagaram. Os quatro comprimidos sublinguais de Rivotril duas miligramas estão se desmanchando na boca. O conhaque Presidente está pela metade, sorrindo pra ela, o gato oportunista passeando entre as pernas, entrelaçando-se, olhando pra cima e emitindo o som estranho que vem dos gatos: ronronar… Ronronar. Ela sempre gostou desta palavra, soa estranhamente erótico. Doente… Pensou ela… O gato, de alcunha Byron, queria carinho? Não, ele quer comida, está sempre faminto, com olhares piedosos, tal como o gato do desenho do ogro verde e o burro falante. O prato de Byron, o Gato está vazio. Talvez tenha um pouco de leite não coalhado na geladeira e um resto de comida de gato enlatada. Byron a encara, na penumbra da madrugada aqueles olhos amarelos lhe dão arrepios e ele a segue sentindo-se satisfeito quando ela coloca a tigela de comida ao chão.

Gatos desgraçados, tão classudos, comendo sentados, parando para respirar, olhando ao redor. Aqueles olhos amarelos de reprovação, enquanto ela toma goles longos de conhaque e acende a porcaria dos cigarros mentolados que ela esconde na gaveta. Os comprimidos de Rivotril, numa pasta nojenta, misturando com o conhaque made in Paraguai na boca. Aquela sensação relaxante, quente, densa e consoladora, com um peso de um homem entre as pernas, seu velho homem.

Os olhos do gato dizem: tal como o peso daquele seu velho homem ao qual você nunca teve.

Dá uma alta risada de escárnio, e vai se derretendo no sofá, com o olhar perdido no teto mofado com pintura descascada. Talvez toda a concepção que ela tenha a respeito de sexo, seja como aquelas paredes, aquela pintura… Incompleta, inacabada, cheia de manchas. Talvez ela se junte ao trovador bêbado que passa todas as noites declamando versos desconexos embaixo de sua janela, mas hoje, justamente hoje que ela precisava se deleitar do escárnio dos desgraçados, eles não cantam suas emoções. Fica somente o eco das vozes na escuridão, repetindo como trechos de canções em disco riscado…

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

And no one makes me close my eyes

É o que diz no disco riscado do Pink Floyd. Enquanto “Echoes” toca e ela delira no sofá, os olhos do gato, reprovadores, encarando-a como os olhos do padre durante a confissão. Lembrou-se que só se confessou uma vez na vida, na primeira comunhão. Entrou em uma sala no pátio da Igreja Nossa Senhora Aparecida, da cidadezinha pacata onde todos puxam o “r”. O padre estava sentado numa grande cadeira de madeira maciça e couro. Conte-me seus pecados minha filha, do que você se arrepende? Mas eram pecados de criança, tal como roubar doces, gastar dinheiro do lanche com fliperama,  subir no telhado escondido, simular sexo com a Barbie e o Ken, e fazer desenhos sem educação sobre a professora chata. Vou-me confessar Byron… Só você me entende, eu sei e você agora está com aquele olhar de que quer me ouvir…

Byron, o gato, se aproximou, lambeu-lhe a mão, não gostou muito, tinha gosto de conhaque, nicotina e sangue. Ela cortou a mão na lata de comida pra gato e não percebeu. O chão da cozinha estava manchado, contando histórias no chão. Mas o gato ficou lá, sentado, olhando pra ela, seminua e bêbada no sofá.

Byron eu pequei… Eu peco todos os dias, todas as noites…

O gato arrepia os pelos, lambe as patinhas e volta em sua posição de olhos atentos.

Eu queria beijar-lhe a boca inteira, afundar minhas mãos nos negros cabelos,

 Daquele seu velho homem que você nunca teve, disse o gato, com os olhos…

 Eu poderia lamber-lhe a cara, eu poderia beijar todos os pelos do rosto. Aquela barba negra por fazer. Eu poderia Byron… Eu poderia pensar em um milhão de coisas sujas e vulgares, eu poderia dançar nua pela sala, eu poderia fazer uma rima pobre e podre, mas eu não sou poeta. Eu poderia percorrer-lhe o corpo inteiro, como um inseto ou morder-lhe como um animal sádico, brincando com a presa. Aquele velho homem… Velho… Antigo, empoeirado, um quadro inacabado perdido em um souvenir.

Tomou mais um gole de conhaque; desejar sem poder é pecado? Até onde minhas entranhas expostas são um grito desconexo de utopia? O que é utopia? O que eu tenho medo? Qual o índice da minha maldade? Da nossa maldade, sem exceções? É matar alguém com 200 facadas, é torturar uma criança até a morte por inanição? É ver um cadáver na rua esperando o rabecão e tomar uma cerveja na calçada da esquina? Eu posso sufocar meu tesão com um travesseiro e pedir desculpas depois? Eu posso lhe arranhar as costas, posso traçar mapas de desejo no meio do suor, pelos, veias e tendões? Qual o prazer em sentir dor? De ver meu corpo rasgado e com marcas profundas de dedos, pequenas irritações causadas nas pele por causa do passeio de um rosto barbado? A preguiça masculina de 3, 4 dias de pelos na cara. E o meu corpo no espelho, dilacerado, desalmado e talvez amado? Qual foi o meu pecado? Pecado Byron… PE-CA-DO…

 Byron subiu no sofá, sentou no ventre nu e suado daquela que balbuciava eloquências e metáforas, e com olhos piedosos passou a língua áspera no ventre dela, como se quisesse caçar as mariposas no útero. E os pelos do gato como uma carícia, as patinhas pressionando como dedos. Ele se deitou, encarou-a com os olhos de incógnita e o piscar de felino. Trouxe-lhe a exata sensação de que o pecado era para ser vivido, mesmo na utopia. Dormiu, sonhou com o seu velho homem, que tem olhos e jeitos de felino. Dorme e sonha com dias poéticos, desgastados, descascados, com um pouco do mofo das tristezas, cores sinestésicas e os ventos de alegrias cheias de tragédia. Versos, neologismos, dor, beijos e gemidos.

 O gato olhou para a janela, poderia dar um passeio lá fora, no mundo paralelo dos gatos, perturbando o sono alheio com as transas felinas que atiçam o sono dos incautos, mas ficou com sua dona, e pensou nos albatrozes, “imóveis no ar”, do disco riscado do Pink Floyd. A noite foi como eco, cheio de vozes e desejos ensandecidos. A noite apenas começou, com seus encantos, prazeres, pecados e desejos, deitando em metáforas, aforismos, metonímias e falácias. O bêbado trovador passou embaixo da janela.  Todos os olhos felinos piscaram e sorriram, enquanto lambiam-se uns aos outros, as patas, a cara, o corpo, o sexo…

Escrito ouvindo isso aqui várias vezes:

Front

Já estive aqui antes, contemplando outros amanheceres. Já estive aqui, andando de um lado para o outro, com as mãos manchadas de sangue. Já vi meus velhos amigos perderem a luta em campos de batalha, minhas mãos e roupas cheias de sangue. Matei meu melhor amigo com um tiro na cabeça, porque ele me implorava para acabar com os sofrimentos que sentia. As tripas saltando da barriga, e ele segurando-as nas mãos, numa tentativa desesperada de botá-las para dentro de novo. Mate-me, por favor, por amor à sua vida, mate-me… Ouço isso me atormentando, dia após dia, ano após ano… Já ouvi os sinos da velha capela anunciar muitos funerais. Pessoas de luto a murmurar orações, cujos ecos invadem meus ouvidos, levando ao longe velhos murmúrios já tanto desgastados, e aquele som entalado na minha garganta. E Deus, aquele velho tolo que não existe… Estou sempre cansado de lamentações. Se eu pudesse, andaria milhas e milhas pelos campos de centeio, e como Holden Caulfield, eu salvaria as crianças de caírem dentro do abismo. Muito prazer minha amiga, sinta todo o calor de minhas mãos trêmulas. Mas você tem as mãos tão frias, que me sinto diante de minha própria morte. Teu rosto já tão fundo, as olheiras marcando um profundo desespero embaixo de teus olhos. Tens a fala mansa, muitas vezes eu não escuto. E olhando dentro dos teus olhos, vejo apenas uma garotinha aturdida, perdida. Talvez, falte algumas mãos empurrando-lhe, naquele balanço velho, perto do velho poço. Quando eu era um garotinho, sem barba na cara, você chegava e me pedia para empurrar-lhe no balanço. Você não tinha forças, minha cara amiga, para dar sentido ao teu próprio voo. Dizia-me que me encontraria algum dia, perto da velha capela. Fiquei esperando, anos e anos. Amigos morreram, guerras aconteceram, ouvi tiros, explosões, gritos de desespero. Cruzei rios, pegando cadáveres que boiavam ao meu redor. Esperava que com o tanto de peso que tinha, eu afundasse, para abraçar o inferno que tanto me espera. Mas era apenas eu e o fedor de meus companheiros mortos em campos de batalha. E hoje carrego no peito uma medalha  de ouro ridícula, pelo trabalho realizado, salvando vidas e a honra de companheiros. Consegue ver, o quão bonito é isso? Lembro-me das noites que passei em bares, enchendo a cara, e ao final da noite saía com prostitutas. Elas amavam um homem de farda. Algumas me davam de graça, e por mais que eu implorasse que aceitassem o pagamento, diziam que um homem de honra deve ter amor todos os dias. E que merda de Amor é esse?

Encarei a vida como um pássaro voando sem rumo no horizonte. Lembro-me, quando criança, de matar um a um com estilingadas, sentia todo o prazer de enterrá-los, um cemitério de pássaros, no jardim de minha casa. E você me ajudava, colhendo flores para fazermos o enterro. Eu já gostava do teu sorriso sádico, desde quando você era uma criança, descabelada, desdentada, com seu vestidinho branco impecável, sempre sujo de terra ao final do dia.  São essas doces lembranças que me fazem escorrer lágrimas de delírio.

Queria agora, dar tiros em todas as direções, ver pessoas correndo de desespero, implorando por misericórdia, enquanto seguro a arma, ouvindo um coral de anjos desafinados a cada gota de sangue derramado, e eu poderia lhe ver dançando nua em cima do mar de sangue formando-se aos seus pés e então eu amaria cada pedaço de tua pele, como se fosse a coisa mais divinamente perfeita neste mundo. E diante de deuses em fúria, cometeria o maior pecado do mundo, e seria então feliz, discordando da boa moral e costumes das pessoas que eu mais amei, apenas você e eu, num mundo vermelho, manchado de injúrias, apenas com a dor e tristeza de passeatas fúnebres. Mas estou aqui neste funeral, e a marcha militar fúnebre vai começar. E o barulho dos tiros ao alto, sou apenas um homem na multidão, um homem condecorado, um herói de guerra, manco… Salvei vidas e quase acabei perdendo a perna. A ironia da vida quase me mata, e os gritos de sofrimento ainda me perseguem, ainda tenho o mesmo pesadelo durante anos. Ainda amo a mesma mulher, ainda desejo casar e ter filhos e contar-lhes crônicas de guerra. Ainda quero andar embaixo da chuva, mas sem que nenhum pensamento me atordoe. No próximo anoitecer, durante a madrugada, serei um andarilho miserável vagando pela casa com uma arma na mão, uma garrafa e murmúrios. Vejo você, dizendo-me que sou apenas um homem fracassado, largado à sorte de meu próprio destino. Se chover nesta noite querida, deixarei que cada gota d’água escorra para meus lábios e que lave este meu rosto de ressaca. Poderei estourar os vasos que herdei de minha mãe. Dentro de cada um deles tem as cartas que ela me enviava durante a guerra. Muitas se perderam no front de batalha, algumas têm manchas de sangue, algumas outras me trouxeram alguns minutos efêmeros de paz e aconchego. Minha velha mãe na soleira da porta me dando adeus. Foi a última imagem dela que eu tive em minha vida. E a saudade do aconchego dos braços de minha velha mãe, é o único calor que me traz um sorriso no rosto. O calor do amor materno, as palavras de apoio, os sermões. Se eu pudesse trazer algo de volta, seria ela, mas os anos passaram, perdi amigos, amei e fui amado. Tento parar de pensar nesses disparates, a fim de manter longe o canhão de meu revólver longe de minhas têmporas.  E é assim todas as noites. Tenho apenas uma bala no tambor do revólver, e sei bem como usá-la. Quando vier me visitar, limpe o meu sangue, troque os lençóis, apague a luz e feche as portas.

Stains on the memory…

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, como um irresponsável. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado amigo, no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos teus pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos seus braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, o gerente que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Queria explodir todos os meus relatórios, toda aquela baboseira de índices de gestão. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei  queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir. As estrelas lá fora, como candelabros…

The Spell (broken) – Karien Deroo

Nihil sub sole novi

Eu perdi o alvorecer desses dias tristes de inverno e a neblina indecorosa
Mal conseguia aceitar meus olhos lacrimosos diante de meu desconcerto
Esperei por dias melhores durante amanheceres estoicos, sonhei… Outrora…
Outrora caminhei por onde as folhas indecisas e coloridas do outono agonizaram
Rasguei papéis amarelados com poemas manuscritos e malsucedidos, puro e sádico prazer
Acariciei milhões de grãos de areia dispersos em sonhos ásperos e úmidos de desejo
Sonhei com teus cabelos ao vento, teus passos indecentes embalados sem razão
Mas, tudo foi embora na fração de segundos naquela noite indecente, ainda era Verão
Era verão, outrora sonhei com teus lábios tremendo de frio e almejei a razão e a cura
Silenciei, minha loucura estendeu o chapéu e o brilho de teus olhos. Enlouqueci.
 
Outrora relembrei aquela ventania com tímidas luzes amarelas no horizonte
Lembranças… Agonizei na maresia gélida, como um animal perdido com fome
Disperso na noite a sentir frio, desprotegido, estrofes sem metáforas e métricas
Poderia ter escutado tua voz, seria como uma canção improvisada e talvez desafinada
Qual foi a última vez que eu escutei teu silêncio falar alto?  Esqueci-me, irônica…
Apenas escuto o meu orgulho gritar minha sanidade ao longe, desejo cálido…
Um eco insano eu posso escutar ao longe, nas ondas do mar… Palavras cantadas
Jogadas ao vento, maresia ensolarada que me traz as carícias de lembranças
Lembranças que me atormentam nas úmidas noites que tanto desejei indecorosa
Tuas reticências embaladas à vácuo, uma sutil entrega de suas tímidas palavras.
 
O Amor em um campo de batalha, moinhos de vento são sempre dragões
Derrotas me trouxeram toda a minha razão já perdida em carícias de silêncio
Trouxeram meu ego enterrado debaixo da areia trazida pelo Tempo desajeitado
A saudade ainda permanece numa caixa obscura, trancada, surda e mentirosa
Meu sol de janeiro a abril desvaneceu como as últimas estações de meu amor
No próximo verão estarei a pensar na chuva rápida que me acalma, um desamor
Dilúvio a escorrer em minha janela, teu cheiro esmaecido na memória, amor…
Amor que eu trago, uma construção inacabada, um idioma sem tradução,
Uma flor seca na janela pedindo gotas tímidas que escorrem pelos meus dedos
O Amor em um campo de batalha, agonizando e desejando injeções de morfina.
 
A verdade tão inconveniente de teus pensamentos de instantes mal traduzidos
Caiu em meus ombros já tão pesados, talvez pelas tuas dores sem respostas
Sobrou em mim um resquício de minha natureza crédula e petulante, desnecessária?
Adormeci embaixo daquela árvore onde meu dia nasceu duas vezes, ensolarado
Em tons cinzentos, estendo meu desapego, sou incoerente diante tua distância
A saudade é apenas um eco de uma mentira que já foi uma verdade coerente
Encontrei em velhos poemas as mentiras confortáveis que me pertencem
Outrora eu almejei teus olhos insanos de tempestade e tua culpa, escárnio
Culpa… Culpa de se sentir calado perante os dias chuvosos, silêncio, escárnio…
Descansa alma intensa… Na calada da noite a saudade é apenas uma ironia… Escárnio?
 
Ironia… Estrelas provavelmente já mortas
Mas o brilho delas ainda nos pertence…
Ironia?
Não…
Saudade…

 
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Nihil sub sole novi – expressão em latim que significa: “Não há nada de novo debaixo do sol”.
 

 

João e Maria

Era de se admirar. João ficava no canto da cela com os olhos baixos como se a saudade fosse a única que restasse. Os remédios já o tranquilizavam. Ele brincava na solitária com seus brinquedos de criança. Pensam que o louco não tem memórias, e tenho um amigo que me diz que lembranças e saudade enlouquecem o homem. Ali, no canto, perto da cama dura de hospital, João achava que era um herói. Um dia, sua tia lhe deu um cavalinho de plástico. Não queriam deixar ele entrar no hospital com seu cavalinho. Não era um louco perigoso, mas cortaram as patas do cavalo. Ele era louco de fazer de um brinquedinho de plástico uma arma? Talvez, mas era feliz com seu cavalo, ele falava inglês e João dizia à enfermeira que era necessário um dom para ouvi-lo. Uma enfermeira indagou João, que o cavalo dele não poderia levar o Herói João e a mocinha Maria… Ele não tinha patas. João ficou um tempo de cabeça baixa, enquanto a enfermeira aplicava-lhe a injeção. Pensou em algo coerente ou incoerente para responder àquela enfermeira pequenina com olhos de menina e lábios carnudos de musa renascentista. Disse-lhe que teu cavalo podia não ter patas, mas ele voava no confins dos sonhos de toda uma humanidade. A enfermeira deu um sorriso e o questionou se ele era realmente louco. Pensou baixinho, consigo mesmo. Queria desvendar aquela homem ali, que em acessos de loucura disse à todos que não iria mais ao jardim tomar sol porque o demônio dançava pelado no jardim. O que eram os sonhos de uma humanidade para um louco?

– Você é a noiva do cowboy! – disse João, segurando uma boneca de pano que pertencia à irmã, que nunca mais o visitou.

– E quem é este cowboy, menino João? – disse a enfermeira, ao ver o boneco velho também sem pernas, considerado pontiagudo demais para conviver em pacífica consciência com João, o Louco.

– Agora o herói sou eu Rosaly… E você é a Maria, além das outras três ali, mas hoje minha rainha é você, e estou levando-lhe para um faroeste em Paris… Você fala a língua de Paris?

– Não, não falo. O que vai ter neste faroeste em Paris? Não quer mais ser cantor de rock? O que faz um cowboy em Paris?

– Tonta! Já lhe disse, eu sou um herói! Eu tenho o cavalo Rocinante, eu mato dragões que cospem champagne e caviar. Sabia, eu tenho batalhões, todos vestem chapéu e carregam o coldre com uma pistola de cada lado. Levo um punhado de dólares. Ainda sou cantor de rock, sou um astro, maior que o sol.

– Mas tu disseste que és cowboy…

– Eu canto apenas de manhã, e o sol que entra no quarto agora indica que já é tarde. Agora eu enfrento batalhões, tenho de matar Hitler com uma facada no pescoço, beber até a última gota de sangue. Depois transar contigo… Além das outras três.

E as outras três bonecas de pano jaziam no canto do quarto. João, o Louco, só queria Maria…

– Estás muito bonita hoje Rosaly… Maria Rosaly – disse João enquanto pegava um copo de água da enfermeira Rosaly.

– Como sabe que o meu primeiro nome é Maria? Tu és bem espertinho!

– Você tem os olhos de mulher louca… Sabe? Crazy eyes… Eles se movimentam, fora de órbita. E o M na frente de seu crachá. M. Rosaly… Sou louco mas não sou burro. Agora saia. Quero brincar que sou rei. Cansei do faroeste. Minha mão está cheia de pólvora. Tenho alergia à pólvora. Saia, por favor…

– Pensei que agora eu seria tua rainha e seríamos felizes, cavalgando as tardes nas colinas! – e Rosaly saiu, fechou a porta e viu João atirar o cavalo pra longe.

João pegou sua coroa de papel. Ele era Luis XIV. Era o sol, era um juiz, era o professor supremo, amado por tudo e por todos, desde as pessoas sadias, aos loucos das montanhas. Os solitários, os extravagantes, a lua e as estrelas. Todo mundo obrigado a ser feliz. Quem não era, ia para a guilhotina e com o sangue fazia chouriços para alimentar o povo. Só faltava a princesa. Aquela era a terra de ninguém, era apenas ele, e os sonhos de correr com sua amada, pelas ruas floridas do seu reino. Ela poderia andar nua se quisesse, mas a enfermeira Rosaly achava que ela era apenas um brinquedo, uma boneca de pano jogada no quarto. João era louco, ela não poderia dar-lhe a mão, não poderiam jogar pião no jardim. O demônio andava por lá, ele tinha medo. João poderia montar-lhe em cima, e fazer dela o seu brinquedo, o seu bicho favorito. Queria não sentir medo. Queria que ela não sentisse medo, queria que eles se dessem as mãos. Mas ele era louco. O medo sempre foi a maior loucura dos homens e a maldade, ainda existe. E João ficou, na sua solitária, olhando lá fora na janela cheia de grades e vidro blindado. Murmurava ” Não fuja, não fuja não…”, e por vezes procurava enfermeira Rosaly no jardim. Rosaly era sua Maria. Ele a mandou embora, pois em sua consciência de louco, sabia que tudo ali era um faz de conta. Para além das fronteiras do jardim do manicômio, sua Maria some, e nem dele vai se despedir. Ela se aninha nos braços do marido, faz a janta das crianças, carrega-as no colo e lhes conta uma história de ninar. E em seus sonhos de romance, ele como homem, desmistificado de toda sua loucura, as noites com Maria não teriam fim. Rosaly apareceu no jardim. Pela primeira vez ela viu que João a observava da janela. Sorriu e mandou um aceno. Será que aquilo era sincero?

Quando estava anoitecendo, Rosaly entrou na solitária. Queria se despedir de seu louco favorito.

– E agora João, quando anoitece, o que você é agora?

– Agora Mariazinha, eu sou o louco consciente, que se pergunta o que a vida afinal vai fazer de mim.

Silêncio…

Eppur Si Muove

Outrora, eu tinha voado. Não sei se foi em um sonho, provavelmente sim. Lembro-me que quando eu era criança, eu acreditava que se eu comesse asa de frango, eu poderia voar, e sim, eu era criança e não fui atenta ao fato de que frangos não voam, mas a risada dos adultos diante de meu sonho Ícaro, voavam até o vizinho mais distante. Hoje a única asa que eu me permito ter, são as asas da imaginação, e uma viagem frenética de deja-vu por hora.

Dias atrás fui caminhar. Caminhei durante duas horas, escutando música ou apenas um eco de meus pensamentos. Era necessário sair para espantar alguns fantasmas que andam me atordoando, e esquecer aquilo que me tirou do eixo. A racionalidade me pegou, assim de surpresa. Então coloquei os livros de um presente esquecido propositalmente de ser entregue na minha estante. Vejo lá o meu amigo Fernando Pessoa, com uma fita de cetim separando o poema eu marquei como o meu preferido. Foi a primeira vez e assim espero que seja a última, que eu nunca entreguei um presente ao qual gostaria de entregar. Porra, é tão chato isso! Eu poderia entregar-lhe em casa, mas nunca entreguei um presente à alguém sem olhar nos olhos. Na Europa, não sem brinda sem olhar nos olhos. Eu não entrego presentes sem olhar nos olhos. Eu não ligo pra teu desconforto, eu sou mais simples do que imagina. Se isso não é possível, engulo meu orgulho, certas coisas eu carrego junto ao meu egoísmo. E a leitura, ou releitura dos livros que eu não lhe dei, terá um gosto, assim, triste. Não gosto de guardar mágoas, mágoa tem gosto de fel. A mágoa é amarga, é dura de engolir, não tem tempero, sem nada. Mastiga, mastiga e mastiga. As mandíbulas doem, e você não quer engolir, mas seria horrível cuspir aquele pedaço de Amor intragável, não diluído tentamos em vão, talvez, aceitar nossa condição, nossos erros, nosso amor e desamor. Engolimos, em seco, ou com um pouco de água. A garganta dói, é nosso orgulho passando. Entra no estômago, dá uma indigestão, mas aceitamos. Simplesmente, aceitamos. A razão, quando chega, destruindo nossas emoções cheias de lembranças, embriaguez, flores, cidade distante no horizonte, sonhos de homens que atordoados, caem na cama ou sarjeta, esperando por dias melhores. A verdade dói, mentiras são muito mais confortáveis, e a verdade volta com a necessidade de esquecermos algo que em nossos sonhos de Dom Quixote achamos que eram recíprocos. Dom Quixote amava Dulcinéia, e achava que os moinhos de vento eram dragões. Minha consciência é o Sancho Pança. Ela sempre, como um fidalgo montado num burrico, tentou me avisar, mas eu era como (ou ainda sou?) como Dom Quixote. Ora Sancho como tu és besta! Assim como Dom Quixote, tenho o mal da fome em excesso, o Amor às causas perdidas, as dores do mundo não me bastam em meus ombros, sinto todo o Amor do mundo, e mesmo sendo besta e atordoada, me contento com a tua falta de atenção. Sim, um Amor besta às causas perdidas, ou talvez desconhecidas. Há um frio no estômago a quem me dirijo as palavras, e o frio emudece, como uma pradaria no inverno. Escuta-se apenas o eco do vento e o uivar dos lobos, mas só me sobra, ou nos sobra, um silêncio sepulcral, algumas palavras talvez por pura obrigação ou aquele medo de ser cruel sem querer.

Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga “eu não acredito no amor”, a vida sempre nos surpreende. (Dom Quixote)

Dom Quixote era um besta. Morreu louco. Ele nunca desistiu. O velho de Hemingway também nunca desistiu, foi inclusive dormir em sua velha cama forrada com jornais, e sonhou, com as praias de areia branca. Na minha praia não existem leões, nem pegadas. Estou sempre em alto mar, mas eu não espero nada. Nada mais. Minha garganta dói até agora. Tenho os marcadores de cetim dos livros sorrindo pra mim. Talvez apenas eu ache marcadores de cetim algo bonito. Talvez apenas eu ache que o poema do Girassol do Alberto Caeiro traduza a alma de alguém.

O meu olhar é nitido como um girassol
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando pra direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança, se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo… (Alberto Caeiro)

Eu fui uma trouxa ao reler “O retrato de Dorian Gray” enquanto esperava no aeroporto apenas para marcar teu trecho favorito e entregar-lhe. Sempre achei bonita a comodidade de abrir uma página marcada por fita de cetim e ver ali, um trecho que marcou-lhe a vida. Escutar teu trecho em um tablet é algo moderno, mas você consegue sentir a aspereza e a beleza da sabedoria impressa em palavras? Amo o toque. Gosto de passar os dedos numa folha de papel. Gosto de livros antigos, eles tinham a nobreza do cetim.O Amor possui a beleza sensual e suave do cetim, mas é ao mesmo tempo, áspero como as páginas de um livro velho. E um velho Amor áspero, fica guardado lá na estante. Ficamos olhando a capa já tão surrada, as páginas desejosas das traças. Se eu pegá-lo de volta uma rinite viciante recomeça. Tento curar minha indisposição com um xarope chamado Razão. Mas Amor é como uma droga. Basta sorrir, e o vício volta. Pego os teus livros não entregues, coloco-os numa caixa, e volto a forrá-la com papel de seda azul, prender o laço que eu comprei pronto, pois não sei fazer laços. Odeio amarrar sapatos, mas faço, por pura força da necessidade.  E eu fico, com minhas emoções desvairadas e simples aos olhos dos poucos que me compreendem. Fico aqui, em meu silêncio, uma pagã triste com flores no regaço. A velha garrafa com rosas ainda pousa na minha cabeceira, ao lado de Cervantes e Ernest Hemingway. Teus livros que eu não entreguei sorriam, e na metáfora eles olham pra mim com aquele olhar que você nunca teve, aquele que você nunca se esforçou ou por desacostume e desconforto, nunca ousou em mostrar. Minha rinite está atacada. Meu xarope de Razão acabou. Eppur Si Muove…

Incêndio

“Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.” Albert Camus

Chamas. Naquele acampamento do auge de meus quinze anos, eu via as chamas dançando enquanto a batata com fondor (aquele pó amarelo que segundo a lenda, “amacia” carne), assava na fogueira, envolta de papel alumínio. E eu aprendi, que se você esquentar a água com uma pedra dentro, a temperatura se mantém como uma garrafa térmica. E me perguntam, “não seria mais fácil ter levado uma garrafa térmica?”. Sim, seria, mas eu penso que o ato falho do esquecimento da bendita garrafa, nos faz voltar a um estado primitivo. Tem gente que odeia acampar… “Onde vou conectar minhas máquinas? Ou ainda, existe camping com energia elétrica, já vi gente levando o grill, aquela coisa que só faz sujeira e deixa a comida borrachuda ou máquinas de fazer pão. Muitas vezes queria fugir para um lugar onde não existissem tantas máquinas de fazer coisas. Penso que daqui a pouco teremos máquinas que vão sorrir por nós.  Algo como uma tela com um visor, e várias opções:

  1. Bom dia!
  2. Boa Tarde!
  3. Boa Noite!
  4. Tudo ótimo!
  5. Sim, muito! ( aquele sorriso de concordância, sabe?)
  6. Tudo bem!E você?
  7. Tive um lindo final de semana
  8. Eu te amo!
  9. Sou feliz!
  10. Que dia lindo hoje!
  11. Tenho dinheiro na conta! (mentira, você está no cheque especial!)

Acordaremos de manhã, faremos nossas tarefas por vezes odiosas, tal como sair da cama, arrastar-se até o banheiro e começar a amaldiçoar o dia desde as seis horas da manhã, e isso se torna insuportável desde a segunda-feira. Normal, estamos sempre reclamando, jogando o celular na parede quando ele não para de despertar. Imagino nossas cabeças explodindo junto ao nosso ódio das passagens do tempo, junto com nossas convicções de que estamos ficando velhos. Sendo assim, viveremos com nossa máquina de sorrisos, talvez um aplicativo no celular que manda sinais para algum chip implantado nas nossas cabecinhas perturbadas, algumas bem ocas, só com o eco do vento entrando pelas têmporas e saindo por outro lado. Vamos emular sorrisos eletrônicos! Bons eram os tempos de criança. Criança não tinha a maldade de simulação…

Parece que pintamos uma fotografia daqueles tempos de criança sem compromisso, sem malícia e aquela perspectiva de que a vida seria uma eterna brincadeira, ou como os filmes da TV. Eu me lembro de que sempre quis viver uma aventura, brincar de pirata, e nunca mais envelhecer. Um sonho na Terra do Nunca. Crianças e seus sonhos… Um dia, eu queria ser caixa de supermercado. Na minha cabeça de criança, eu imaginava que todo aquele dinheiro que entrava no caixa, seria todo meu. Eu achava que as caixas de supermercado eram donas de tudo e moravam em suas confortáveis casas com uma piscina no quintal. Eu tive um amigo que dizia que seu sonho era ser coletor de lixo. Ele pegava os sacos de lixo escondido da mãe e espalhava no quintal, alguns com brinquedos dentro, e outros ele pegava da lixeira.  Tinha um triciclo azul, e andava pelo quintal, apanhando os sacos, colocando nas costas e levando até a lixeira. Quando o caminhão de lixo passava, saía no portão e olhava emocionado para aqueles homens que corriam atrás do caminhão. E sempre ele mandava “tchau” para os coletores que passavam no portão. No final do ano, ele pegava parte de suas economias, e entregava para os coletores, que passavam nas ruas, fazendo festa. Ele me contou que um dia, ao entregar o dinheiro para um deles, ele disse com um sorriso que quando crescesse, ele queria ser “catador de lixo”. O coletor sorriu, e quase chorou, porque aquele menino de cabelos bagunçados e boca suja de chocolate, dizia que se sentia orgulhoso, e não ligava para o cheiro ruim do caminhão de lixo. No meio de tantas pessoas passando e tampando o nariz, estava ali um ser que nunca deixou de cumprimentar ou dizer “Boa Tarde”.

“Não queira ser lixeiro bom garoto!Promete?”

E então o coletor saiu, correndo atrás do caminhão e olhando pra trás, deu um sorriso para o garotinho com ares de incógnita, parado no portão, com o cachorro louco correndo e latindo no pequeno jardim que havia na casa de infância. Para ele, não importava se a mãe dizia que aquilo era serviço de quem não estudou para ser alguém na vida. Aquele garotinho que mais tarde se tornou meu amigo e contamos nossos sonhos de criança numa mesa de almoço corporativo, não conseguia imaginar a sobrevivência em um mundo cheio de lixo. E nesse nosso mundinho de chorume, eu penso que acordaremos, e vamos escolher num visor a opção de sorriso. Sorrir dá trabalho, existem máquinas de fazer arroz, máquinas de fazer sanduíche, máquinas de fazer café… Enfim, máquinas. Hoje eu apertaria o botão: “Sorriso sarcástico com ponta de ironia”, mas a máquina de sorrisos apenas simula sorrisos de felicidade. No mundinho de lixo, acordamos emulando “sem querer querendo” sorrisos de felicidade, apenas para agradar, e evitar perguntas desnecessárias. Hoje, simulamos que somos correspondidos, por mais que nosso Amor nem nos olhe na cara ou que se preocupe com você da mesma ou na mínima maneira como você se importa,  ou quando dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” às pessoas e as desgraçadas não respondem, quando nos sentamos no banco de terminal de ônibus, cansados e introspectivos, com fone de ouvido ou um livro… Ou os dois… Chega sempre alguém querendo conversar, e você quer apenas fugir dali, mas sente-se obrigado a ouvir ou expressar um “É…”, “Hummm”, “Legal”, “É mesmo” na conversa. E quando chegamos finalmente em nosso lar, podemos pensar o quão nós somos mesquinhos. Já dizia Renato Russo, estamos mergulhados em nossa arrogância, esperando um pouco de atenção, sabe? Aquela que não damos aos outros. E eu vou lá, emular o meu sorriso de “Estado de Felicidade incondicional”, mas na verdade, estou com olhos de saudade, e um sorriso de lábios secos. Sabe? Arrogante, esperando um pouco de atenção e todo Amor do mundo para incendiar…

Brilho eterno de uma mente de criança

Eram duas crianças, totalmente isentas de conhecimento que atordoa. Crianças apenas. No vai e vem de balanços, sorrindo uma pra outra. Não precisavam do empurre de outra criança ou de um adulto. Lá no alto, indo e voltando, crianças completamente alheias e dispersas nesse nosso mundinho tão perdido. E eu sentada em um banco de praça, observando o movimento, trazendo à tona minhas lembranças de infância. Lembro-me que eu ia à praça comer algodão doce, e quando eu me sentava no banco de concreto, vários pombos se reuniam em volta, pedindo com seus olhos esbugalhados e vermelhos, um pedaço do açúcar em fios cor de rosa que manchavam meus dedos. Eu gosto de algodão doce até hoje, e de lamber meus dedos como uma criança. Mas faz tanto tempo… Tanto tempo que eu não me sinto mais como uma criança. Sinto saudades, muitas vezes, dos tempos em que não éramos atingidos pela malícia, e que pensávamos que a solidão de fato é algo apenas como ficar sem os pais, por exemplo, de acreditar que o brilho das estrelas são pessoas mortas queridas. Hoje sei que as estrelas que estão ali são talvez uma luz que nem exista mais. Mas eu vejo uma linda poesia nessa coisa toda. Eu adoro astronomia. Queria poder ficar num gramado ou um local aberto, longe da civilização e estudar as constelações. Ter uma luneta ou um telescópio. Queria poder viver das estrelas, estudá-las… Mas, eu queria muitas coisas. Ser humano sempre querendo mais e mais, sempre descontente com algo ou, mesmo feliz, tem aquele ingrediente perdido no meio da receita. Entendem? É como ser um bolo de fubá, mas sem erva-doce. Ahhh, minhas abstrações, mas enfim. Minha vida é gostosa como uma bolo de fubá, mas falta algo como erva-doce ou queijo minas frescal.

E a praça, cheia de coisas curiosas, um brinde aos meus pensamentos sobre a vida, o universo e tudo mais. E tinha a inveja infantil… A criançada brincando num canto de areia, construindo castelinhos. E um menino dos olhos claros teve seu castelo destruído pela guriazinha chorona. E ela gritava: ” Seu castelo é mais bonito que o meu.” Num tempo de castelos sem princesas, a inveja e o ego começa a reinar desde cedo. Quando eu estava no jardim, lá na escolinha Sete Anões, em Limeira, eu me lembro dessas intrigas infantis. Tinham os “vendedores” de areia molhada. Eles traziam de casa as garrafas plásticas de refrigerante. Enchiam de água e areia, e passeavam pelo parquinho vendendo suas garrafas para as crianças escultoras ou crianças cozinheiras. Eu fazia dos dois. Bolos de barro e montanhas que eu colocava meus bonequinhos, que eu costumava dizer que eram moradores da “minha montanha”. E o escambo era geral. Nós costumávamos ir para o campo de areia, depois do recreio. E os que estavam interessados em areia molhada trocavam a garrafa com o barro pronto, por balas, chicletes, frutas, chocolate. Tudo dependia do que você tinha a oferecer. Tinha aqueles “Depois eu pago”… E ficavam sempre no depois. E então vinham as brigas, criançada correndo e gritando pelo pátio da escola BRIGAAAAAA!!!!! Os vendedores de areia molhada versus os caloteiros. E a briga corria solta, e as inspetoras vinham correndo. E dá-lhe diretoria! E no dia seguinte, a venda de barro continuava rolando solta, sob olhos atentos das “tias”.

E eu disse que no começo do texto não existia a malícia. Bem tinha um pouco sim. Tinham os beijinhos atrás da moitinha, as flores que os meninos entregavam para as guriazinhas tidas como as mais bonitas. E eu me lembro, hoje, lembrança ao qual eu dou risada. Havia um guri que gostava de mim, e me dava flores todos os dias. Mas ele era bagunceiro e mal criado. Roubava os lanches alheios, batia nos meus amiguinhos e gostava de mim. Um dia, teve o primeiro ensaio da quadrilha da festa junina da escola. A professora, que se chamava Ana, colocou ele como meu par. Eu o odiava, mas ele vibrou e me chamou de “Meu Amor”. E então eu fiz um escândalo. Comecei à chorar. Quiseram me obrigar a dançar com ele, mas eu fiquei muito tristinha e me recusei a ir na escola. Minha mãe, foi à escola e então eu fui a única aluna que não dançou quadrilha. E eu digo, até hoje, não gosto de dançar quadrilha. Tem certas coisas que ficam enraizadas, não digo que seja um trauma de infância, ou seria? Mas foi a primeira vez que eu fui forçada a fazer algo que eu não queria. Eu não queria tomar injeção, mas eu de alguma forma sabia que aquilo era para o meu bem. Aquele menino tentava me beijar a toda hora e dizia que se casaria comigo. E não, aquilo não era agradável, de forma alguma.

Quando eu entrei na minha primeira série, eu tinha seis anos. Entrei mais nova, não fiz o pré, pois já sabia ler e escrever. Lembro-me que meu primeiro amor ( bem, não era amor, mas vamos deixar por assim “amor”) foi um japonês. Ele se chamava ( lembro-me até hoje), Caio Muriel Tanaka. Tudo que ele tinha era do Japão, inclusive a mochila, era uma preta, meio quadradona. Ele tinha o cabelo de tigelinha. Era um linda criança, não sei como, mas lembro-me do rosto dele até hoje. Era o melhor aluno da sala, de longe. Éramos amiguinhos, mas apenas isso. Eu tinha vergonha que ele soubesse que eu “gostava” dele, e naquela época eu seguia o conceito de amor platônico sem nem ao menos saber quem era Platão. Eu gostava do japonês, mas eu tinha um admirador, de seis anos, que me mandava cartas de amor. Chamava-se André Luís, e era loiro dos olhos verdes. Tenho um episódio único de minha infância com esse garotinho…

Um belo dia, estava eu e André Luís voltando da escola. Tínhamos comprado aquelas balas quadradas de doce de leite. No meio do caminho tinha uma pomba, aparentemente “deitada” tal como aves fazem, no meio da calçada. Eu como criança deslumbrada em um mundo de pássaros entre outros bichinhos, me agachei enquanto André Luís permanecia de pé, chupando uma bala atrás da outra. A pomba permanecia quieta, e eu achava que ela estava dormindo. André pegou um graveto e me deu. E quando viramos ela, tinham vermes devorando suas entranhas. Foi o meu primeiro contato com a morte. Aquela coisa efêmera ali na minha frente, trouxe-me uma série de questionamentos, e eu nunca me esqueço, do local, das pedras na calçada, de André Luís e o cheiro de balas quadradas de doce de leite. E até hoje, quando sinto cheiro de doce de leite, lembro do menino André tentando me acalmar, mesmo sendo uma criança. Ele me viu chorar, e me deu a mão até eu chegar em casa. Se despediu com um beijinho no rosto, e me mandava cartas coloridas com letras tortas. Ahhh a infância… Brilho eterno de uma mente… Com lembranças.

Onde morrem os candelabros

“Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso perdidos, mas nunca iguais…”

Foi em uma noite cheia de estrelas, aquelas que Mario Quintana diz que nasceram porque o céu tinha medo da própria escuridão… Lembro-me delas, as estrelas, por minutos escondidas por algumas nuvens brancas metálicas, do quanto a lua presenteava um tom prateado para as nuvens que passeavam timidamente no céu. E a cidade com suas luzes amareladas reféns do medo dos homens. Lá longe,  no horizonte, os sonhos dos homens mandavam seus recados aos cosmos, e nos éramos meros espectadores, talvez sem a mínima noção do resplendor que víamos à nossa frente. Havia apenas o cheiro de uma grama úmida pela orvalhada da madrugada, e um hálito de uvas merlot em nossos lábios. Penso naquelas estrelas, ali, em cima de nossos corpos, como milhares de candelabros acesos, e quando fechamos os olhos, por alguns instantes eles se apagam, mas isso não é etérico. O que você pensa sobre o éter? Um dia, eu li um livro em que os personagens captavam o éter em frascos de vidro. Ao final, a protagonista captou o éter e a alma do homem que amava. E eu penso que isso é uma analogia sincera sobre lembranças. Eu captei, em frames, de éter? Talvez… Guardei a mais terna lembrança de um tempo em que os momentos podem ser eternos, onde profusão de cheiros e sensações são presentes no primeiro estopim de nossos dias, desde o mais transloucado, aos dias de chuva, tão cinzentos e acolhedores à reflexões sobre a vida, o universo, e o “tudo mais”.

Eu poderia traçar um mapa de sentimentos, cheio de legendas. Poderia, dizer-lhe ao pé do ouvido as quantas vezes que eu acordei no meio da madrugada, sem sono, e coloquei-me ao pé da minha porta, olhando para as estrelas e traçando um mapa mental de teu cheiro, transmutado em cheiros perdidos ali naquele local cheio de natureza. E as árvores da rua onde eu moro, balançam, em meio ao vento frio, igual àquelas árvores enormes e perfumadas que nos rodeava naquela noite. E eu com meu velho casaco preto, observando a rua, vazia, apenas com ecos de corujas, grilos e alguns gatos de namorico no telhado. Cachorros sentem o cheiro dos gatos em cópula. Ficam enlouquecidos, cadelas talvez entrem automaticamente no cio. De vez em quando olhos amarelos gatunos me fitam ao longe, na madrugada, um olhar profundo e em comunhão, parecia que aqueles olhos de gato sabiam que o que eu sentia chamava-se saudade. Talvez ele me olhasse com reprovação, estou à mercê de interpretações errôneas, mas sabe o que eu penso disso? Nada. Não tenho espaço em meus pensamentos, tenho meus demônios pessoais, dançando um tango noite afora. Não tem nada desaforado nisso, vivo em constante paz recheada de gritos silenciosos com meus pequenos bailarinos, e quando a noite chega eles transformam meus pensamentos saudosos em um pornô soft. Tudo culpa da saudade, culpa… Que culpa ela tem? Blasfêmia… Desculpa saudade, você é tão difamada, carrega uma cascata de troça e falsas convicções nos ombros, se é que tem ombros, mas vou usar o poeta da pedra no meio do caminho, sobre a precipitação da dor, do sono na praia, ao vento frio, nu: A saudade carrega todas as dores no mundo… Nos ombros.

O que justifica nossos momentos perante os candelabros do céu? Eu queria mostrar-lhe o céu mais lindo, e sim, eu disse algum desaforo aqui? O céu é o mesmo em todos os lugares… Digo-lhe como se eu tivesse um céu próprio, todo iluminado, egoísta, só meu. Dizem por aí que o Amor é egoísta, pois se ele não fosse, viveríamos numa boa em uma poligamia. Estrelas são poligâmicas. Fazem amor com todos, sem distinções, não são egoístas, se deixam amar por todos. E o que nós fizemos? Deixamos-nos ser amados por elas? Por nós mesmos? Um confronto de amor próprio gladiador com suor e pele antes tão arrepiada. Eu senti frio, depois que amanheceu, e as estrelas foram embora. Senti o frio de uma despedida, mesmo antes ter sido tão bem aquecida. Agora está amanhecendo, vejo um tom azul-acinzentado querendo entrar pela janela. O céu não está limpo. O nublado tinge o céu de cinza, aos poucos, cinza no azul… Eu penso na cor que resulta essa mistura.  E eu aqui protegida, embaixo de cobertas, recém-acordada de uma dança diabólica, cheias de pedras enormes no horizonte, o brilho de uma metrópole no horizonte e dois corpos entrelaçados. Lembrei-me de teus olhos e consequentemente de um poema de Pablo Neruda. Onde morrem os candelabros, é o alvorecer do dia, antes disso, uma noite incomum, um par de olhos de dilúvio azul acinzentados, sedutores talvez sem querer, tão límpidos quando os candelabros morrem ao amanhecer. Foi numa penumbra tingida de sensatez que eu senti a aspereza de seu rosto com um cheiro levemente apagado de água de colônia ou sei lá o que tu usas para perfumar tua pele, outrora tão fria e arrepiada. E ficaste preocupado em eu sentir frio, e ao final, não era meu corpo que se encolhia e tremia. Eu achei engraçado, uma ironia risonha, saudosa ao te aquecer, como eu poderia deixar-lhe alheio ao frio, se meu corpo explodia de calor? Eu tremi de frio, ao amanhecer. Os candelabros se apagaram. Amanheceu e a saudade veio no galope… Ficou só você, desenhado em meus sonhos de ir vir, nas madrugadas de éter, amanheceres estoicos e entardecer intransigente cujas cores são nuances indecisas. Ficou só você…

Se eu tivesse um conto que pudesse contar a você
Eu contaria um conto que pudesse fazer você sorrir
Se eu tivesse um desejo que pudesse desejar a você
Eu desejaria que o sol brilhasse o tempo todo


——————————————–Algumas considerações———————————————-

PS: O conceito de éter que utilizo aqui, vem da mitologia grega.  “É o ar elevado, puro e brilhante, respirado pelos deuses, contrapondo-se ao ar obscuro, ἀήρ (aếr), que os mortais respiravam, sendo deus desconhecido da matéria, em consequência as moléculas de ar que formam o ar e seus derivados.”


Sobre Pablo Neruda, lembrei de um poema muito bonito dele:

“Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.”