Encontro

Tentei encontrar abrigo na ponta dos dedos. A língua salivante no céu da boca enquanto a noite de verão tece seus desejos e infortúnios e a fome e loucura assombra-me entre as pernas. Tento, talvez em vão, encontrar o momento de sobriedade na realidade além daquele quarto quente cujo ventilador exausto espalha o vento quente e viciado. Na penumbra deste quarto pestilento de desejos não realizados e versos mal construídos e sem compromisso, vejo minhas fotografias de criança penduradas na parede, próximas ao espelho. Aquela menininha banguela, pirracenta e cheia de ironia me dá um sorriso envolto de sarcasmo. Entro então em uma prosa em primeira pessoa, uma lembrança de um tempo em que a vida consistia em ficar em cima do telhado de casa, era a vida vista de cima, sob o olhar curioso de uma criança cheia de perguntas e que na maior parte do tempo, passava sozinha, tentando entender  algumas metáforas que surgiam naquele pequeno mundinho que a cercava. Aquela criança que me encarava naquele papel antigo de fotografia, achava que beijos apaixonados era nojento. A saliva quente se misturando nas bocas alheias não era o que hoje é pra mim uma sinfonia gostosa escorrendo em baixo ventre. Diante de fantasias e pensamentos eróticos, uma banho frio nesta noite pestilenta traria-me novamente a razão e a sanidade. Voltei a lembrar da enorme ratazana que eu e os vizinhos encontramos no quintal… Um café me faria bem agora. Um café forte, quente e denso…

Cais de poesia

1 – Assombro

Barcos no horizonte, sombras na areia
O sorriso incontido de felicidade clandestina
Andando pela praia, sol que deita na pele
Baixei os olhos para o silêncio de meus dias
Enquanto uma marola de beleza invadia meu peito
E as palavras ditas e não ditas, escritas em tinta preta
Soltas em devaneios que dançam conforme a maré
E as cores intransigentes no horizonte vespertino
Buscaram sua paz naquele quadro de sol com dilúvio
Ao longe, a tempestade se aproxima com seus raios e trovões
E um eco de perfeição ao longe que escorre na pele
A chuva que molha meu corpo e ensandece meu juízo
Tinge minha paz no conforto daquele gosto de céu
E longe do caos, do barulho ensurdecedor de minhas dores
Caminho sem rumo, como um barco em alto mar
Guiando-me pela minha necessidade de solidão egoísta
Deveria voltar, e aceitar aquela chama que não se apaga
Suspirar pelas trilhas de pedras e erros no meio do caminho
Eu deveria ficar, tingindo meu céu de cores de Dalí…
Debaixo de um pano cinzento e silencioso de nuvens parvas
O meu amanhecer é quase estoico… E as tardes são transigentes
A noite chega para me contar sua beleza e seus encantos
Os dias trazem as carícias de desejo e assombros.

2 – Dilúvio

De repente o céu desaba, é um dia de Verão
Crianças brincando na rua, desatinam a correr
Algumas lambem o céu, outras pulam as poças
Mulheres na calçada correm para o lar
A chuva cai e leva consigo papéis e folhas
Cada gota que escorre dos meus lábios
É o gosto de um amor amargo de Verão

3 – Acaba?

E nunca acaba, nunca termina
Dia após dia a soma de aquarelas bucólicas
Desenhos canções e tragédias em furta-cor

4 – Encore, une fois

Tingindo de vermelho os caminhos desnudos,
Todos os caminhos solitários na bruma da noite
Meus quadros de cores esvaídas ao fundo
Instinto animalesco de depravações conscientes
Aquele softporn solitário, satisfações pesadas
Fazendo o desalinho em lençóis solitários
Domina-me por completo meu conjunto de sombras
Chamando para dançar na beira de um abismo
Lá embaixo, apenas metáforas e desejo úmido e incontido.

5 – Baque

Causa-lhe horror,
Rasga-lhe a alma
O martírio e o dedo na ferida
Resigna-se… Cruel
Ofereço o céu
As cores
As dores
O corpo
Mãos em desespero
Desorientadas
Quentes,
Como uma estrada no verão…
Perfeita esta ilusão
O baque,
De nossos corpos
Caindo…

6 – Just another night in Portland

Apostei todos os meus medos
Em copos de rum e deslumbres
Teci minhas metáforas em linhas de seda
Tão macias quanto aquela canção de fim de tarde
Na manhã de domingo a névoa me envolveu
E encheu meus cabelos de orvalho
Preenchi meus dias com vinho e cigarro
Preenchi meus dias com amores vazios
E na tarde de domingo deitei meus olhos
Para nunca mais voltar, apostei meus medos
Misturei desejo em um copo de gin
Joguei cartas e quebrei garrafas
Foi apenas uma noite como outra qualquer.

Emulador de emoções

“Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quando a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.” Albert Camus

Chamas. Naquele acampamento do auge de meus quinze anos, eu via as chamas dançando enquanto a batata com fondor (aquele pó amarelo que segundo a lenda, “amacia” carne), assava na fogueira, envolta de papel alumínio. E eu aprendi, que se você esquentar a água com uma pedra dentro, a temperatura se mantém como uma garrafa térmica. E me perguntam, “não seria mais fácil ter levado uma garrafa térmica?”. Sim, seria, mas eu penso que o ato falho do esquecimento da bendita garrafa, nos faz voltar a um estado primitivo. Tem gente que odeia acampar… “Onde vou conectar minhas máquinas?Ou ainda, existe camping com energia elétrica, já vi gente levando o grill, aquela coisa que só faz sujeira e deixa a comida borrachuda ou máquinas de fazer pão. Muitas vezes queria fugir para um lugar onde não existissem tantas máquinas de fazer coisas. Penso que daqui a pouco teremos máquinas que vão sorrir por nós. Algo como uma tela com um visor, e várias opções:

  1. Bom dia!
  2. Boa Tarde!
  3. Boa Noite!
  4. Tudo ótimo!
  5. Sim, muito! ( aquele sorriso de concordância, sabe?)!
  6. Tudo bem!E você?
  7. Tive um lindo final de semana
  8. Eu te amo!
  9. Sou feliz!
  10. Que dia lindo hoje!
  11. Tenho dinheiro na conta! (mentira, você está no cheque especial!)

Acordaremos de manhã, faremos nossas tarefas por vezes odiosas, tal como sair da cama, arrastar-se até o banheiro e começar a amaldiçoar o dia desde as seis horas da manhã, e isso se torna insuportável desde a segunda-feira. Normal, estamos sempre reclamando, jogando o celular na parede quando ele não para de despertar. Imagino nossas cabeças explodindo junto ao nosso ódio das passagens do tempo, junto com nossas convicções de que estamos ficando velhos. Sendo assim, viveremos com nossa máquina de sorrisos, talvez um aplicativo no celular que manda sinais para algum chip implantado nas nossas cabecinhas perturbadas, algumas bem ocas, só com o eco do vento entrando pelas têmporas e saindo por outro lado. Vamos emular sorrisos eletrônicos!Bons eram os tempos de criança. Criança não tinha a maldade de simulação…

Parece que pintamos uma fotografia daqueles tempos de criança sem compromisso, sem malícia e aquela perspectiva de que a vida seria uma eterna brincadeira, ou como os filmes da TV. Eu me lembro de que sempre quis viver uma aventura, brincar de pirata, e nunca mais envelhecer. Um sonho na Terra do Nunca. Crianças e seus sonhos… Um dia, eu queria ser caixa de supermercado. Na minha cabeça de criança, eu imaginava que todo aquele dinheiro que entrava no caixa, seria todo meu. Eu achava que as caixas de supermercado eram donas de tudo e moravam em suas confortáveis casas com uma piscina no quintal. Eu tive um amigo que dizia que seu sonho era ser coletor de lixo. Ele pegava os sacos de lixo escondido da mãe e espalhava no quintal, alguns com brinquedos dentro, e outros ele pegava da lixeira.  Tinha um triciclo azul, e andava pelo quintal, apanhando os sacos, colocando nas costas e levando até a lixeira. Quando o caminhão de lixo passava, saía no portão e olhava emocionado para aqueles homens que corriam atrás do caminhão. E sempre ele mandava “tchau” para os coletores que passavam no portão. No final do ano, ele pegava parte de suas economias, e entregava para os coletores, que passavam nas ruas, fazendo festa. Ele me contou que um dia, ao entregar o dinheiro para um deles, ele disse com um sorriso que quando crescesse, ele queria ser “catador de lixo”. O coletor sorriu, e quase chorou, porque aquele menino de cabelos bagunçados e boca suja de chocolate, dizia que se sentia orgulhoso, e não ligava para o cheiro ruim do caminhão de lixo. No meio de tantas pessoas passando e tampando o nariz, estava ali um ser que nunca deixou de cumprimentar ou dizer “Boa Tarde”.

“Não queira ser lixeiro bom garoto!Promete?”

E então o coletor saiu, correndo atrás do caminhão e olhando pra trás, deu um sorriso para o garotinho com ares de incógnita, parado no portão, com o cachorro louco correndo e latindo no pequeno jardim que havia na casa de infância. Para ele, não importava se a mãe dizia que aquilo era serviço de quem não estudou para ser alguém na vida. Aquele garotinho que mais tarde se tornou meu amigo e contamos nossos sonhos de criança numa mesa de almoço corporativo, não conseguia imaginar a sobrevivência em um mundo cheio de lixo… E nesse nosso mundinho de chorume, eu penso que acordaremos, e vamos escolher num visor a opção de sorriso. Sorrir dá trabalho, existem máquinas de fazer arroz, máquinas de fazer sanduíche, máquinas de fazer café… Enfim, máquinas. Hoje eu apertaria o botão: “Sorriso sarcástico com ponta de ironia”, mas a máquina de sorrisos apenas simula sorrisos de felicidade. No mundinho de lixo, acordamos emulando “sem querer querendo” sorrisos de felicidade, apenas para agradar, e evitar perguntas desnecessárias. Hoje, simulamos que somos correspondidos, por mais que nosso Amor nem nos olhe na cara ou que se preocupe com você da mesma ou na mínima maneira como você se importa,  ou quando dizemos “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite” às pessoas e as desgraçadas não respondem, quando nos sentamos no banco de terminal de ônibus, cansados e introspectivos, com fone de ouvido ou um livro… Ou os dois… Chega sempre alguém querendo conversar, e você quer apenas fugir dali, mas sente-se obrigado a ouvir ou expressar um “É…”, “Hummm”, “Legal”, “É mesmo” na conversa. E quando chegamos finalmente em nosso lar, podemos pensar o quão nós somos mesquinhos. Já dizia Renato Russo, estamos mergulhados em nossa arrogância, esperando um pouco de atenção, sabe? Aquela que não damos aos outros. E eu vou lá, emular o meu sorriso de “Estado de Felicidade incondicional”, mas na verdade, estou com olhos de saudade, e um sorriso de lábios secos. Sabe? Arrogante, esperando um pouco de atenção e todo Amor do mundo para incendiar…

Detalhes

 Estava quase anoitecendo, começava no céu aquelas cores indecisas, um misto de claro-escuro, céu em tom roxo-alaranjado e o jasmineiro da esposa todo em flor. Lembrou-se de que quando criança, gostava de sentar-se na varanda com o avô e escutar suas histórias. Todas elas começavam com “há muito tempo atrás”. Perguntava-se qual a diferença disso com o comum “era uma vez”. Pode ser que o “era uma vez” referia-se a algo que nunca aconteceu, apenas uma lenda. As histórias de vovô eram de verdade. Sultões impiedosos, monstros, meninos com poderes mágicos, pássaros e mulheres donas de uma beleza inquietante. Eram essas histórias que impermeavam o seu imaginário de garoto. Hoje quase não houve mais histórias, ou estórias… que seja! Vovô morreu e as crianças não ligam mais para “essas coisas”. A história que ele mais gostava era de como o vovô conheceu a vovó. Fazia parte das histórias das mulheres de beleza inquietante. Toda vez que ele contava esta história ele sempre colocava elementos de coincidências, talvez, para tornar tudo mais poético, ou seria uma verdade carregada de poesia?

– No dia em que eu beijei sua avó pela primeira vez, a flor de minha mãe abriu. Ela nunca tinha florescido.

-Quando eu disse para sua avó que eu amava, uma estrela cadente passou no céu, e eu fiz um pedido. E ele se realizou…

Foi há muito tempo atrás e ele conseguia reconstruir os detalhes como se fosse um filme em sua cabeça. Seu avô tinha mostrado velhas fotografias de sua avó Martha, ainda quando jovem. Conheceu ela com 23 anos e ela tinha 15 anos. Andava com os cabelos escuros presos em uma trança, e usava impecáveis vestidos e linho e seda que iam até o joelho.

-Eu vi sua avó pela primeira vez quando eu comecei a entregar o jornal para o bairro. Trabalhava numa banca de um velho amigo da família. Passava nas casas interessadas, arremessando os jornais, que ficavam dentro de um cesto na bicicleta. Sua avó ia para a escola todas as manhãs, a casa dela ficava no alto de uma ladeira. Todos os dias, sete horas em ponto, sua avó saia de casa. Eu eu, admirado olhava ela andando, indo para a escola. A trança dela balançando de um lado para o outro,cuja ponta terminava em uma fita de cetim branco ou vermelho. E aquelas panturrilhas, a canela fina, o barulho do salto ao tocar no chão. Eu amava ver aquele movimento, aquele som, ela andando e a melodia do assobio de uma música. Às vezes ela cantarolava. Nos primeiros dias ela nem ligava pra mim, passei semanas fazendo aquele ritual.

Engraçado, pensou ele… Apaixonou-se pelas canelas. Não foi uma bunda, não foram peitos. Seu avô gostava das canelas e meia panturrilha, que aparecia a partir de onde o vestido acabava.

-Um dia, o tio de sua avó morreu, era amigo de meu pai. Tive a oportunidade de dar uma carona pra ela, ela conversou um pouco comigo, mas bem pouco, estava transtornada e cheirando a jasmim. Hoje, toda vez que eu vou ao jardim de sua mãe, e vejo o jasmineiro em flor, eu lembro da minha velha. São os pequenos detalhes sabe?

– Detalhes? Não… Eu ainda não sei, o que são detalhes?

– Um dia, quando crescer, vai ouvir falar de um tal de Flaubert. Tem uma frase que atribuem a ele, “Alguns detalhes se desvaneceram, mas a saudade permaneceu”… Do que você sente saudades?

-Sinto saudades do bolo de cenoura da vovó, feitos em dias de chuva. Nós comíamos na varanda, vendo a chuva cair. E nós contávamos os segundos, depois que um raio caía. E depois Brrrrrrrr! Trovão. Às vezes eu me assustava e vovó me abraçava. Mas, o que isso tem a ver com detalhes? O que é desvaneceram?

– Você acabou de responder sutilmente o que é detalhe. Desvaneceram vem de desvanecer… Tá vendo o céu agora? Está entardecendo, o sol, está sumindo? Entendeu?

-Entendi… É como o chá de cidreira da vovó!

-Por que?

– Quando ela preparava, o cheiro ficava na casa, mas depois, conforme o chá esfriava, o cheiro desaparecia.

-Isso mesmo… Eu não me recordo de muitos detalhes do dia em que eu conheci a sua avó. Eu não me lembro mais de muitas coisas, mas este entre outros detalhes, construíram uma saudade… Mais tarde, você entenderá.

-Mais tarde quando vovô? Amanhã?

-Sim, amanhã, depois de muitos entardeceres, como este.

E era mais um entardecer, depois de muitos. Foi um detalhe como esse, que o fez sentir saudades.

Front

Já estive aqui antes, contemplando outros amanheceres. Já estive aqui, andando de um lado para o outro, com as mãos manchadas de sangue. Já vi meus velhos amigos perderem a luta em campos de batalha, minhas mãos e roupas cheias de sangue. Matei meu melhor amigo com um tiro na cabeça, porque ele me implorava para acabar com os sofrimentos que sentia. As tripas saltando da barriga, e ele segurando-as nas mãos, numa tentativa desesperada de botá-las para dentro de novo. Mate-me, por favor, por amor à sua vida, mate-me… Ouço isso me atormentando, dia após dia, ano após ano… Já ouvi os sinos da velha capela anunciar muitos funerais. Pessoas de luto a murmurar orações, cujos ecos invadem meus ouvidos, levando ao longe velhos murmúrios já tanto desgastados, e aquele som entalado na minha garganta. E Deus, aquele velho tolo que não existe… Estou sempre cansado de lamentações. Se eu pudesse, andaria milhas e milhas pelos campos de centeio, e como Holden Caulfield, eu salvaria as crianças de caírem dentro do abismo. Muito prazer minha amiga, sinta todo o calor de minhas mãos trêmulas. Mas você tem as mãos tão frias, que me sinto diante de minha própria morte. Teu rosto já tão fundo, as olheiras marcando um profundo desespero embaixo de teus olhos. Tens a fala mansa, muitas vezes eu não escuto. E olhando dentro dos teus olhos, vejo apenas uma garotinha aturdida, perdida. Talvez, falte algumas mãos empurrando-lhe, naquele balanço velho, perto do velho poço. Quando eu era um garotinho, sem barba na cara, você chegava e me pedia para empurrar-lhe no balanço. Você não tinha forças, minha cara amiga, para dar sentido ao teu próprio voo. Dizia-me que me encontraria algum dia, perto da velha capela. Fiquei esperando, anos e anos. Amigos morreram, guerras aconteceram, ouvi tiros, explosões, gritos de desespero. Cruzei rios, pegando cadáveres que boiavam ao meu redor. Esperava que com o tanto de peso que tinha, eu afundasse, para abraçar o inferno que tanto me espera. Mas era apenas eu e o fedor de meus companheiros mortos em campos de batalha. E hoje carrego no peito uma medalha  de ouro ridícula, pelo trabalho realizado, salvando vidas e a honra de companheiros. Consegue ver, o quão bonito é isso? Lembro-me das noites que passei em bares, enchendo a cara, e ao final da noite saía com prostitutas. Elas amavam um homem de farda. Algumas me davam de graça, e por mais que eu implorasse que aceitassem o pagamento, diziam que um homem de honra deve ter amor todos os dias. E que merda de Amor é esse?

Encarei a vida como um pássaro voando sem rumo no horizonte. Lembro-me, quando criança, de matar um a um com estilingadas, sentia todo o prazer de enterrá-los, um cemitério de pássaros, no jardim de minha casa. E você me ajudava, colhendo flores para fazermos o enterro. Eu já gostava do teu sorriso sádico, desde quando você era uma criança, descabelada, desdentada, com seu vestidinho branco impecável, sempre sujo de terra ao final do dia.  São essas doces lembranças que me fazem escorrer lágrimas de delírio.

Queria agora, dar tiros em todas as direções, ver pessoas correndo de desespero, implorando por misericórdia, enquanto seguro a arma, ouvindo um coral de anjos desafinados a cada gota de sangue derramado, e eu poderia lhe ver dançando nua em cima do mar de sangue formando-se aos seus pés e então eu amaria cada pedaço de tua pele, como se fosse a coisa mais divinamente perfeita neste mundo. E diante de deuses em fúria, cometeria o maior pecado do mundo, e seria então feliz, discordando da boa moral e costumes das pessoas que eu mais amei, apenas você e eu, num mundo vermelho, manchado de injúrias, apenas com a dor e tristeza de passeatas fúnebres. Mas estou aqui neste funeral, e a marcha militar fúnebre vai começar. E o barulho dos tiros ao alto, sou apenas um homem na multidão, um homem condecorado, um herói de guerra, manco… Salvei vidas e quase acabei perdendo a perna. A ironia da vida quase me mata, e os gritos de sofrimento ainda me perseguem, ainda tenho o mesmo pesadelo durante anos. Ainda amo a mesma mulher, ainda desejo casar e ter filhos e contar-lhes crônicas de guerra. Ainda quero andar embaixo da chuva, mas sem que nenhum pensamento me atordoe. No próximo anoitecer, durante a madrugada, serei um andarilho miserável vagando pela casa com uma arma na mão, uma garrafa e murmúrios. Vejo você, dizendo-me que sou apenas um homem fracassado, largado à sorte de meu próprio destino. Se chover nesta noite querida, deixarei que cada gota d’água escorra para meus lábios e que lave este meu rosto de ressaca. Poderei estourar os vasos que herdei de minha mãe. Dentro de cada um deles tem as cartas que ela me enviava durante a guerra. Muitas se perderam no front de batalha, algumas têm manchas de sangue, algumas outras me trouxeram alguns minutos efêmeros de paz e aconchego. Minha velha mãe na soleira da porta me dando adeus. Foi a última imagem dela que eu tive em minha vida. E a saudade do aconchego dos braços de minha velha mãe, é o único calor que me traz um sorriso no rosto. O calor do amor materno, as palavras de apoio, os sermões. Se eu pudesse trazer algo de volta, seria ela, mas os anos passaram, perdi amigos, amei e fui amado. Tento parar de pensar nesses disparates, a fim de manter longe o canhão de meu revólver longe de minhas têmporas.  E é assim todas as noites. Tenho apenas uma bala no tambor do revólver, e sei bem como usá-la. Quando vier me visitar, limpe o meu sangue, troque os lençóis, apague a luz e feche as portas.

Something

O gato dos olhos amarelados no muro, encarando-a enquanto sentada na soleira da porta. Está no momento de frescura momentânea de tragar cigarros de menta. Dispensou o álcool esta noite, será que ela deveria? Talvez um vinho merlot descendo na garganta seja mais anestésico. Anestésico de quê? Talvez ela perca um pouco da razão que restou, já que grande parte dela foi embora, partindo com a ventania e o aroma de eucalipto, enquanto mirava seus olhos no horizonte, naquelas luzes amarelas, pequenas, distantes… O esplendor e a fúria do caos urbano lá no horizonte, como um sorriso, sarcástico, cínico. Ela sussurra uma canção, em tom baixinho, só pra ela. Nem o gato pode ouvir, mas parece que aqueles olhos grandes e brilhantes do gato gatuno a traduzem, lendo-a, como um caleidoscópio. Conheceu um único olhar de caleidoscópio, um azul claro, que muda de cor, fica cinzento, de acordo com o tempo.

A imoralidade cantando uma doce canção, o vento lá fora e a sensação da chuva que caiu em seu corpo enquanto caminhava numa longa avenida num bairro pacato e distante da cidade. A cabeça, cheia de preocupações, de medos, sentimentos, verdades, meias-verdades, mentiras, quase-mentiras, as verdades camufladas, todas elas descendo, corpo encharcado e cada gota d’água que escorria nos lábios dela, era uma dádiva de sentir-se viva. Ela poderia sentir-se completamente bem, e tomar apenas para si, as íntimas sensações egoístas e despudoradas. Queria fumar um cigarro, mas ela estava no meio da chuva. Tinha onde abrigar-se, onde entrar e tomar um café quente. Tinha um livro na bolsa, um bloco de anotações. Talvez ela encarasse o biscoito no pires do café, e poderia rir sozinha, um riso bobo e tímido. Poderia encontrar outros olhos de dilúvio em olhares alheios, mas eles não contariam histórias. Gosta de histórias, de palavras, o silêncio a incomoda ao mesmo tempo em que a encanta. Ela gosta do caos, da desordem, da orgia das palavras criando falácias, traçando, transando e traduzindo o incômodo, desassossego, amargor, pequenas felicidades tímidas querendo uivar feito um lobo, mas aquele nó na garganta, que estrangula, impedindo a maldita e talvez nefasta vontade de colocar para fora todas as palavras que ficaram presas nas estações passadas. Ela poderia falar sobre as folhas secas que chutou durante o outono, as mesmas em que ela sentou em cima nas manhãs e finais de tarde. Ao olhar para a cópula da árvore de folhas multicoloridas, ela via toda a beleza e simplicidade dos raios de sol brincar com as cores, enquanto o vento balançava as folhas que por fim, caiam em seus pés. E teve toda a frieza, mistério e quietude do inverno, e agora a primavera, com todas as cores. Cores… Ela adora cores. Existem pessoas com cores lindas, mas que trancam suas cores dentro de uma caixa. Ela coloca todas as cores dela em um papel ou editor de texto. No dia-a-dia, em frente à outras pessoas, ela carrega as cores dela fechadas, dentro de uma caixa. Elas dançam lá dentro, pintam quadros, cantam, bordam… Tem medo de elas esvanecerem, são como aquarelas, diante das lágrimas do mundo, elas borram e a ação e exposição do tempo e outros eventos externos, fazem com que elas percam a força, a beleza e o poder. Ela não quer perdê-las em um mundo que não para de gritar.

E sentada na beira da cama, ela contempla o tempo cinzento lá fora. Só Deus sabe… Aquele velho bobo, louco e talvez inexistente, o quanto ela torceu para um dia ensolarado. Deixou seu egoísmo de lado, por ela, poderia cair um dilúvio, para poder ficar olhando a água descendo na rua, carregando pequenas flores e frutos da mangueira a alguns metros acima na rua de casa. Ela poderia ver as pessoas caminharem com suas cabeças baixas, escondidas embaixo de negros guarda-chuvas, poderia esperar que uma mulher passasse de mau humor e com uma sacola de supermercado na cabeça, ou um homem com um guarda-chuva prateado que me lembrasse de filmes de caos futurístico. Poderia ver crianças brincando na enxurrada, mas sabe… Faz tanto tempo que ela não vê isso. Ela contentou-se com as gotas d’água escorrendo na janela, e toda a beleza delas caindo, traçando rabiscos d’água no vidro da janela. Quando isso acontece à noite, com as luzes apagadas do quarto e apenas a luz externa, as gotas da janela pintam o chão e o e o corpo seminu deitado na cama, enquanto as hélices do ventilador de teto rodopiam. A chuva lá fora, garoa tímida ou dilúvio selvagem que também lhe contam histórias que ela pode ou não colocar no papel… Ela sente o cheiro de terra molhada, lembranças de texturas envolvendo-a em sonhos, e é tão real como o turbilhão de beijos oníricos e sinestésicos que a deixa em um misto de desejo incontido. É por isso que às vezes ela senta na soleira da porta, altas horas da madrugada, noite adentro na filosofia da beleza, desespero, algumas mesquinharias, bobagens e muitas lembranças. Às vezes toma um chá, seu método natural de afastar os demônios pessoais. Pensa muito no quão é egoísta… Tão egoísta que faz amor consigo mesma e filmes soft-porn são apenas poesias eróticas. Prefere pornografia literária sutil. Mulher com um “q” de elegância sutilmente vulgar, a vulgaridade das metáforas propositalmente colocadas sem querer. Poderia ser mais simples, pensa ela, enquanto fuma ridículos cigarros de menta. Queria ter a simplicidade de poder olhar nos olhos e fazer um discurso, mas a garganta, mesmo clamando para gritar verdades e inverdades, existe um nó quase cego, enquanto na cabeça ela desenha linhas e linhas.

Pensou em vários disparates, que pra ela era uma incógnita agradável. Hoje seu amigo faz aniversário. Vive dizendo que está velho. Ela esperou que o dia fosse ensolarado, esperou que o vento estivesse ideal, que o calor do sol fosse um abraço e não um estorvo de 40 graus. Mas o dia amanheceu triste. Esperou que os olhos e a alma dele não ficassem cinzentos com o dia de hoje.  Pode ser que ele tenha, após ter acordado, ficado algum tempo deitado de barriga pra cima, olhando para o teto, enquanto faz uma retrospectiva dos anos que passaram. Sonolento, incompleto e mal humorado até tomar uma ducha, e enquanto a ducha cai nas costas, aquela sensação de paz, calma, relaxamento e a carícia de uma toalha, como um toque, leve, gostoso. Quando era de manhã, o dia estava meio tristonho, mas isso não deve ter-lhe tirado a vontade de ter um dia só pra ele. Talvez tenha saído lá fora, recolhido o jornal, brincado com a sua bolota preta e gordinha que pula nas pernas e fica cheirando-o quando ele chega de algum lugar em que ela não foi junto. Acendeu um cigarro? Ou ele não é daqueles que acendem um cigarro na primeira hora após acordar? Prefere a beleza e a simplicidade de um café e um pão com manteiga? Ela almejou que ele tenha tido o teu bocado de sorte diária, e que a tal da fração diária da tal sorte tenha sido comprada por um preço justo. Ela já ouviu dizer por aí, que a sorte não prevalece em tudo, dá-se de um lado e tira de outro. Provavelmente ele deve ter pensado na falta de sorte em umas coisas e a existência dela em outras, nada mais normal quando 356 dias de existência se completam novamente. Geralmente pensamos em crônicas de sonhos e pesadelos, boas e más lembranças, realizações, metas, sonhos perdidos, ilusões… Perdas e ganhos. Longe da selva de pedra, ele saiu para um lugar só pra ele, longe de formalidades e falsidades. Ela é péssima em receber e dar felicitações, mas muitas vezes temos de ser hipócritas o bastante e sermos mais “humanos” ou “convencionais”, ela não sabe ao certo qual palavra utilizar para isso.

Nada como um dia após o outro. Hoje o dia foi ranzinza, mas ela almejou que ele não tenha levado as cores frias do tempo para dentro dele, pois apesar dos olhos dele serem de dilúvio, ela gosta de vê-lo quando segue em direção ao sol, e o vento acariciando o rosto barbado ou imberbe e quem sabe um breve arrepio aparece. Lembrou do rosto de menino, do dia em que ele resolveu tirar a barba áspera cuja textura ela gostava tanto. Queria permitir-se dar a ele um texto singelo e levemente imoral, um presente feito de palavras jogadas sem rodeios. É a melhor coisa que ela poderia oferecer ao invés de dizer a ele apenas um “Feliz Aniversário”. E hoje, enquanto a chuva caia torrencialmente em seu corpo cansado, enquanto caminhava na longa avenida daquele bairro bonito e distante do caos urbano, ela não desejou a ele, felicidades para sempre. Ela não deseja utopias para as pessoas que ela gosta, mas deseja que elas tenham sabedoria suficiente para se levantar dos tombos que levarão por serem levianas ou idiotas. Na concepção dela, ignorância é desejar felicidade sempre, desejar uma utopia é o mesmo que desejar a cegueira à alguém. Ela se acha absurdamente hipócrita ao dizer “muitas felicidades” para os outros. Nada como um dia após o outro, nada como os ponteiros de um relógio ensandecido o suficiente para não nos preocuparmos com ele. Todos nós temos algo a dizer… Todos nós, sem exceção. Algo…

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhum batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.

Stains on the memory…

Não se discute. O silêncio perante uma série de discussões sem razão na noite de domingo, enquanto a televisão vomitava seu lixo indigesto. Fui picando uma folha de papel abandonada na escrivaninha da sala. Enquanto as pessoas riam das desgraças alheias e alguns tinham sorrisos incontidos dentro das calças. Cada pedaço de folha branca rasgado às mínguas, papéis sem importância, despedaçados. Sinto o vinho dilacerar a alma como se quisesse me cortar em pedaços. Minutos antes, eu ouvia o tilintar de copos, garfos, facas, bocas se mexendo, comida sendo mastigada. Mais um pouco de percepção, eu poderia ouvir a comida caindo no estômago e o barulho do ácido gástrico queimando o pedaço de carne ao molho madeira sendo destruído. E as bactérias dos intestinos alheios fazendo festa. Era só mais um pouco para escutar a festa torpe de todos os humores da sala e os mesquinhos pensamentos de uma vida vazia e sem pretensões. Era só mais um copo de vinho, para adormecer com a cara na mesa, e em sonhos desconexos eu ver os rostos das pessoas que eu mais amei, misturando-se em desenhos e manchas de paredes. Eu acordei, com uma cara embasbacada, amassada, assustada com os olhares alheios de quem disse que eu falava sozinho. O jornal noturno passando na televisão, a desgraça do acidente de caminhão com engavetamento, “Morreram todos, que desgraça, que desastre”, “Morreram todos”, “O motorista estava bêbado”… E aqueles olhares perdidos, balbuciando que eu perdi a programação de domingo, como se eu realmente me importasse com aquilo tudo. E a garrafa de vinho quase vazia com seu conteúdo vermelho me ditando as desgraças e os sentimentos desentendidos do mundo. No dever de esvazia-la, lanço meu copo a toda sorte de calor e bem aventurança, a toda sorte de acordar no dia seguinte com a ressaca me questionando os porquês, com aquela dor de cabeça gritando aos quatro ventos, e os olhares de reprovação, com o zíper da calça aberto, com os botões da camisa aberto, toda em desalinho.  A barba por fazer, como um irresponsável. A empregada perguntando se eu quero um copo de café, e eu apenas querendo fazer uma pequena festa entre o meio das pernas dela. O café quente e forte… Posso sentir o cheiro de sabonete exalando do pedaço de pele me servindo, mas eu gosto mais do cheiro do final do dia, aquele suor, misturado com o desespero de querer voltar para casa. Eu poderia espiar a sua nudez no banheiro, ao tirar as roupas velhas de trabalho, mas minha cabeça dói demais, e a cada gole de café eu me lembro daqueles tempos de menino, em que as meninas impúberes iam para escola e em suas camisetinhas brancas eu via a ponta dura dos mamilos ainda em formação. Apenas menininhas, menininhas em hormônios a festejar, me olhavam com desejo, eu sei, mas a garota Suzy… Ahhh Suzy! A única que me deixou ir além. Eu me recordo ainda hoje, aquele beijo molhado e desajeitado, aos meus treze anos, encostado na mureta, longe de olhares. Atrevi-me, e senti aqueles peitos macios escondidos por trás de um sutiã de algodão, e aquela pressão, aquela coisa, o desespero de achar o local certo ao colocar meu tímido e desajeitado amigo, no meio daquelas roliças pernas de Suzy. A empregada aparece de novo, fazendo contato, o braço dela perto do meu, e sem perguntar se eu desejava mais café, encheu minha xícara, e aqueles braços, aquele perfume. Um dia me apaixonei pelos braços da vizinha. Estava na soleira da porta de casa, numa mágoa adolescente, vi aquela senhora balzaquiana chegando com sacolas pesadas. Pude ver todos aqueles tendões e veias saltadas. Ofereci ajuda, carreguei algumas sacolas. Ganhei biscoitos e chocolate quente. Ela me falava da vida, enquanto amassava a massa do pão. Aquela penugem rala dos teus pelos, embranquecida com a farinha, e o movimento sublime dela lavando os braços, embaixo da água fria da pia da cozinha, e aquele olhar de que sabia que eu a desejava, mas eu queria apenas amar aqueles braços, aqueles tendões, aquela brancura, a extensão para as mãos cujos dedos finos ela lambia para experimentar a massa de bolos que ela achava que me agradava. E ela achava, ela achava que eu frequentava a casa dela por causa de biscoitos e doces. Eu era apenas um adolescente inocente, apaixonado pelos seus braços. O tempo passou, os amores vieram, e também se foram, e hoje, eu sou apenas um homem em devaneios de ressaca aquecendo a garganta e a alma com café amargo. A empregada me dá um sorriso, faço-me por desentendido, pego mais café e sento no sofá da sala. E fico ali, olhando para o teto pintado de um verde ridículo. Queria estar louco o suficiente para ver aquelas manchas dançando na parede, aquele mofo formando imagens desconexas, e minha mente voando em um turbilhão de luxúria, corpos ensandecidos como vermes, se misturando, tocando-se, em delírio de gemidos, dor e inconsciência. Mamãe me disse que eu era um doente sacana. Eu sou apenas um homem, que vivia constantemente em uma ressaca quase cigana, de bar em bar, após o trabalho, afogando minhas mágoas e desdém do mundo rançoso. As corporações. Eu poderia escrever um poema sujo e deslavado sobre elas. As pessoas, tão mesquinhas, falsas, o gerente que nada sabe, as pessoas puxa-saco, lambe-saco, chupa-rolas. É como um prazer desnorteado, insano. Queria dar um tiro de fuzil em cada uma delas. Queria explodir todos os meus relatórios, toda aquela baboseira de índices de gestão. Toda aquela frescura, aquela imundície. E o salário de merda todo final do mês, que minha mãe dizia “Ahhh o dinheiro abençoado”, só se for abençoada pela total falta de amor, todo o ódio dos sorrisinhos alheios das minhas companheiras de trabalho, toda falta de amor, mas excesso de tesão daquela recepcionista que me pedia aos gritos para que eu a levasse  ao delírio. Ela tinha uma bela bunda, peitos macios, mas uma boca que exalava esgoto. Eu a amava, desde que ela fosse como um vinho. Eu a amava, mantendo-a na horizontal, com a boca ocupada. Não é machismo meu caro amigo… Certas mulheres devem ser mantidas na horizontal, com uma rolha na boca, tal como o vinho, entende? Ouço seus pensamentos agora, exclamando “Machista de merda, desgraçado”. Pouco me importo, a sinceridade incomoda, o Amor incomoda.  O amor anda junto com o fracasso. Sentado nesta sala, vejo a empregada limpando o armário. Dá pra ver as marcas da calcinha cavada. Ela me solta outro sorriso sacana. Eu poderia amar essa mulher, essa mulher pode sentir algo por mim, ou apenas achar que eu posso dar-lhe uma boa vida. Estou suando… Suando como um porco, está calor lá fora, ela me diz… E olha para minha camisa suada. Diz que Dona Alzira, minha mãe, saiu. E as manchas na parede parecem estar sorrindo agora, e aquela calcinha cavada também me faz um sorriso. Ela está começando a ter aquele cheiro que eu gosto tanto. Eu poderia consumar o ato no sofá da sala. Tranco-me no quarto, e coloco-me a fitar os lençóis brancos chacoalharem no varal. Aquilo me acalma, por alguns momentos. Aquele desespero sufocante, me atiçando, crescendo e inflando minhas calças, e aqueles braços, o cheiro de café e sabonete, as roupas, os lençóis, a brisa plena da manhã das dez horas, o latido do cachorro, o olhar de desaprovação do gato no galho de árvore. Livre-me, livra-me ó Deus tolo… Dos pecados que me atormentam a alma. Livra-me da vontade de fazer cócegas e desejos molhados na pele daquela mulher. Livra-me de minha mãe dizendo que eu sou um vadio. Eu poderia desertar, me divertir em braços de prostitutas com gonorreia, o amor sufocado e contagioso que eu tanto preciso. Copos de conhaque,cigarros paraguaios, apostas que nunca findam, o dinheiro sujo me dando o poder que eu, um tolo, vulgar e sedento, tanto preciso. Ao final da noite e ao amanhecer satisfaço minhas vontades em uma mulher que eu não sei ou não me recordo o nome. Darei um beijo naqueles ombros, e a mandarei  queimar no inferno. Encontro-lhe mais tarde, meu pedaço de prazer, acariciando suavemente teu íntimo, queimando em labaredas a lhe dizer um milhão de sacanagens ao pé da orelha. E eu vejo todas elas, as mulheres que eu amei, e as que eu fingi que amei, indo embora, com um sorriso no rosto, achando que eu realmente voltaria… Eu era… Minha amada, EU sou apenas um garotinho perdido, na soleira da minha porta, em sonhos, em devaneios, aquela falta de sorte regada com o desespero de ter beijos sórdidos todas as noites, de tomar um café ou tomar um vinho sem pensar no meu próprio desespero. Vou deitar nesta cama, cobrir-me com estes lençóis brancos, deitarei nu, com meu sexo totalmente ereto e livre de pudor, deixarei que a brisa noturna me leve todos os meus medos e desencantos. Abra a porta e me veja, contemplando o vazio, como se todas as estrelas do céu viessem me saudar. A velha garrafa jogada ao pé da cama. Entre conhaque, vinho e cigarros, sou apenas um garoto perfeito, uma explosão de vozes e loucura que nunca acaba. Sou apenas uma carícia infindável, aquela carícia que lhe deixa marcas. Eu sou apenas um homem minha querida, carregado nos ombros do pai e da mãe, carregado de sonhos de ir e vir. As estrelas lá fora, como candelabros…

The Spell (broken) – Karien Deroo

Janela

Talvez eu seja jovem demais pra impedir que um bom amor dê errado

Chuva. Homens e mulheres apressados lá embaixo com seus guarda-chuvas negros, com os olhares sempre baixos, como se estivessem procurando suas lamentações,juízo e razões perdidas no meio das poças que se formam aos montes nas calçadas esburacadas. Passos apressados, sapatos velhos, novos, pequenos, grandes. Pessoas sem proteção correndo, alguns se protegendo com sacolas plásticas, mas sempre a velha pressa. Algumas, aguardavam a chuva terminar, embaixo de alpendres, cheios de rachaduras, pichações e cheiro de urina. Apenas a nudez do mundo, ao mesmo tempo calada com o silêncio arrebatador das pessoas cinzentas como o tempo e o ensurdecer dos motores de carros e ônibus. Diante da janela do apartamento, durante um gole e outro de café forte, amargo e sem açúcar, aquele mundo morno e requentado. Ao final da tarde, a chuva vai terminar. O sol aparecerá tímido, entre as nuvens cinzentas, e talvez, um sorriso surgirá naquelas pessoas taciturnas lá embaixo. Entre um gole e outro, eu penso naquele tempo em que meu velho amor ficava me encarando, enquanto eu contemplava a fúria e o frescor da noite na janela do quarto. Deitado, com um braço cruzado atrás da cabeça, soltando a fumaça de um maldito cigarro,  como veio ao mundo, um menino em corpo de homem, com seus medos, desejos, delírios, suas aventuras de ir e vir, contadas numa euforia entre um riso e outro. As luzes amareladas dos postes da metrópole invadiam o quarto, quase sem querer, sem pedir permissão. Eu, minha xícara de café, nua de meu pudor, coração aberto a expressões de prazer quando você beijava meus ombros quando passava por mim para alcançar o cinzeiro. E aquela mescla de nicotina com balas de menta, nos meus lábios de café, tomava café adoçado, você reclamava das minhas grandes gotas de adoçante, o tempo passou e comecei a sentir a vida de uma forma mais amarga. E você me dizia que eu parecia estar imersa em outro mundo paralelo, enquanto ficava diante da janela, cheia de convicções, medos, histórias e lembranças úmidas entre as pernas. E eu lhe observava de canto de olho, enquanto deitado, talvez um medo de você incendiar a casa, adormecendo com o cigarro aceso em cima da cama. Ao final, me transformei naquela piranha sem coração que você deixou, sem nem ao menos olhar para trás. Talvez eu pisasse no seu coração com a mesma força do homem correndo apressado lá fora, talvez, eu seja orgulhosa demais para pedir desculpas, talvez eu sinta uma pequena incógnita tirando meu sono, enquanto molho meus sapatos, enquanto sinto cada gota de chuva escorrer entre meus lábios, é aquela maldita cena de você indo embora naquele sábado chuvoso. O café amargo e sem açúcar é apenas minha nova forma de ver o amor. Um dia me disseram para colocar um chocolate Alpino no café, mas eu penso que isso é apenas um disfarce sutil. Ao final, a amargura toma o lugar da doçura e posso sentir a minha úlcera gritando, e aquele amargo estrangulando, apertando a garganta, mas é algo bom, estimulante, forte, porém amargo. Adotei um gato, e ele fica me olhando com os grandes olhos amarelos. Ainda deve ter uma lata de comida na dispensa. Ele se aninha e esfrega-se em minhas pernas, soltando um ruído estranho. Eu coloco uma tigela de comida e entre uma bocada e outra, ele senta e lambe as patinhas, e me olha com aqueles olhos, aqueles olhos que me dizem que a cama está pronta, os lençóis impecáveis, a louça na pia, que tenho de ligar para mamãe e que mais uma vez eu trouxe trabalho para casa. Eu devo abrir a janela e deixar a chuva entrar, eu devo assistir a cena toda, sentada no sofá, sem roupas, apenas com cinco gotas de colônia atrás do pescoço. Eu poderia esperar você entrar pela porta e beijar meus ombros de novo, tal como diz naquela canção, “my kingdom for a kiss upon her shoulder”. Talvez eu me contorça de desespero, talvez eu venda tudo e desapareça mundo afora, contemplando a nudez na metrópole de outro país. Enquanto penso nestes disparates, na nítida e mesquinha falta de sorte, meu café esfria, e em goles de sadismo, minha amargura fria desce pela garganta. O sol começa a aparecer. Talvez um arco-íris surja lá fora… Vou escutar o mesmo disco, várias e várias vezes. Tomarei as cervejas que você deixou na geladeira, fumarei todos os seus cigarros que estão na gaveta, sem nem ao menos saber tragar. Soltarei um sorriso sádico enquanto a nicotina acaba com meus pulmões, e na próxima chuva, sairei lá fora, sem guarda-chuva, tomarei um café duplo e amargo naquela cafeteria que íamos todos os dias, e voltarei para casa, na mesma fúria amarga. E talvez isso nunca acabe, o gato continuará me encarando, tomarei meu café na janela na próxima tempestade e pensarei nisso novamente. Talvez eu me lembre de colocar o tapete escrito “Seja bem vindo” na porta de casa, talvez eu me lembre de comprar um guarda-chuva. Quando você voltar, não se esqueça de limpar os pés e trancar a porta. Você deveria aparecer…

Taninos

A metrópole, as luzes no horizonte, a eterna busca de amplos sentidos já tão desajustados
Em busca de cores num quadro vazio, sem folhas, nem papel, pincéis, a Arte é sem rosto
Apenas vãs memórias algozes e insatisfeitas, manchadas em aquarela sem dono a quem clamar
Numa galeria de uma estreita rua abandonada pelos amantes decadentes e cães sem dono
Tempos longínquos por demais falham-me à memória, sonhos e acordes de desapego
As cores vibrantes tocam um piano, ensurdecem-me com notas carregadas de vaidades irônicas
Desafinadas, dançando as melodias, refrões descontentes, errando o passo de desejos insolentes
Noite de domingo silenciosa, cálices de éter brindam o ensurdecer de minha paz tão almejada
Traço linhas tortas na contramão do meu juízo, quebro o sétimo espelho de minha sorte
Sorrisos perdidos na contramão, via única de sorrisos enebriados pela mentira de outros pecados
Tenho a saudade atropelada por trilhos de escuridão, sentidos sinestésicos e cores sem nome
Perco o rumo com o traçado de perfumes descoloridos, perdidos na solitude do desengano
Tal como um mapa mal tracejado em papel velho, sujo e disperso na boca do lixo cheio de fel
Invocações de lembranças minimalistas,palavras soltas, lento desengano de poeta esquecido
Tal como uma velha mensagem na garrafa em alto-mar, esperando a velha saudade dar-lhe adeus
Saudade em pedaços, saudade rubro-doce, sussurrando, sua dona andarilha e faminta
Apenas sonhos vagando em universos paralelos e longínquos, desejo consumido em sonhos
O abrir de olhos alheios aos amanheceres estoicos, tão cheios de si e tão vazios de crenças
Apenas um quadro esquecido nas almas desnudando-se em um completo desdém infame
Desintegra-se em milhões de grãos de areia fina do deserto de seu mais temido pesadelo
A centelha divina do teu desejo já sem nome, perdido na noite repentina de luar inerte
Não há nenhuma brisa lá fora, nenhum som, nenhuma alma, nenhum odor, muito menos pudor
A nudez embriagada de corpos em chamas, apenas um baixo ventre a latejar…

Des’alma

Des’almada transviada, alma suja desejada
Descarnada, esfomeada, o sexo exposto… Receoso,
Viv’alma desnorteada, frio, fome, alma desavisada!
Sãos caminhos, meu lento incômodo, fome intensa
Olhos lívidos em torpor, lento sonho em desengano.

Vinho doce nobre, lento desengano em pele branca ensandecida
Pele arrepiada, doce toque intransigente, face rubra e quente
A beijar-lhe uma trilha indecente de promessas feitas sem pressa
Noite adentro sem juízo e sem pudor, frio e insano amor envaidecido
Jogando os dados noite afora, num jogo de vaidades já tão esquecidas
Des’alma deságua, noite adentro, gemidos ensandecidos… Des’alma… Minh’alma!