Janela

Talvez eu seja jovem demais pra impedir que um bom amor dê errado

Chuva. Homens e mulheres apressados lá embaixo com seus guarda-chuvas negros, com os olhares sempre baixos, como se estivessem procurando suas lamentações,juízo e razões perdidas no meio das poças que se formam aos montes nas calçadas esburacadas. Passos apressados, sapatos velhos, novos, pequenos, grandes. Pessoas sem proteção correndo, alguns se protegendo com sacolas plásticas, mas sempre a velha pressa. Algumas, aguardavam a chuva terminar, embaixo de alpendres, cheios de rachaduras, pichações e cheiro de urina. Apenas a nudez do mundo, ao mesmo tempo calada com o silêncio arrebatador das pessoas cinzentas como o tempo e o ensurdecer dos motores de carros e ônibus. Diante da janela do apartamento, durante um gole e outro de café forte, amargo e sem açúcar, aquele mundo morno e requentado. Ao final da tarde, a chuva vai terminar. O sol aparecerá tímido, entre as nuvens cinzentas, e talvez, um sorriso surgirá naquelas pessoas taciturnas lá embaixo. Entre um gole e outro, eu penso naquele tempo em que meu velho amor ficava me encarando, enquanto eu contemplava a fúria e o frescor da noite na janela do quarto. Deitado, com um braço cruzado atrás da cabeça, soltando a fumaça de um maldito cigarro,  como veio ao mundo, um menino em corpo de homem, com seus medos, desejos, delírios, suas aventuras de ir e vir, contadas numa euforia entre um riso e outro. As luzes amareladas dos postes da metrópole invadiam o quarto, quase sem querer, sem pedir permissão. Eu, minha xícara de café, nua de meu pudor, coração aberto a expressões de prazer quando você beijava meus ombros quando passava por mim para alcançar o cinzeiro. E aquela mescla de nicotina com balas de menta, nos meus lábios de café, tomava café adoçado, você reclamava das minhas grandes gotas de adoçante, o tempo passou e comecei a sentir a vida de uma forma mais amarga. E você me dizia que eu parecia estar imersa em outro mundo paralelo, enquanto ficava diante da janela, cheia de convicções, medos, histórias e lembranças úmidas entre as pernas. E eu lhe observava de canto de olho, enquanto deitado, talvez um medo de você incendiar a casa, adormecendo com o cigarro aceso em cima da cama. Ao final, me transformei naquela piranha sem coração que você deixou, sem nem ao menos olhar para trás. Talvez eu pisasse no seu coração com a mesma força do homem correndo apressado lá fora, talvez, eu seja orgulhosa demais para pedir desculpas, talvez eu sinta uma pequena incógnita tirando meu sono, enquanto molho meus sapatos, enquanto sinto cada gota de chuva escorrer entre meus lábios, é aquela maldita cena de você indo embora naquele sábado chuvoso. O café amargo e sem açúcar é apenas minha nova forma de ver o amor. Um dia me disseram para colocar um chocolate Alpino no café, mas eu penso que isso é apenas um disfarce sutil. Ao final, a amargura toma o lugar da doçura e posso sentir a minha úlcera gritando, e aquele amargo estrangulando, apertando a garganta, mas é algo bom, estimulante, forte, porém amargo. Adotei um gato, e ele fica me olhando com os grandes olhos amarelos. Ainda deve ter uma lata de comida na dispensa. Ele se aninha e esfrega-se em minhas pernas, soltando um ruído estranho. Eu coloco uma tigela de comida e entre uma bocada e outra, ele senta e lambe as patinhas, e me olha com aqueles olhos, aqueles olhos que me dizem que a cama está pronta, os lençóis impecáveis, a louça na pia, que tenho de ligar para mamãe e que mais uma vez eu trouxe trabalho para casa. Eu devo abrir a janela e deixar a chuva entrar, eu devo assistir a cena toda, sentada no sofá, sem roupas, apenas com cinco gotas de colônia atrás do pescoço. Eu poderia esperar você entrar pela porta e beijar meus ombros de novo, tal como diz naquela canção, “my kingdom for a kiss upon her shoulder”. Talvez eu me contorça de desespero, talvez eu venda tudo e desapareça mundo afora, contemplando a nudez na metrópole de outro país. Enquanto penso nestes disparates, na nítida e mesquinha falta de sorte, meu café esfria, e em goles de sadismo, minha amargura fria desce pela garganta. O sol começa a aparecer. Talvez um arco-íris surja lá fora… Vou escutar o mesmo disco, várias e várias vezes. Tomarei as cervejas que você deixou na geladeira, fumarei todos os seus cigarros que estão na gaveta, sem nem ao menos saber tragar. Soltarei um sorriso sádico enquanto a nicotina acaba com meus pulmões, e na próxima chuva, sairei lá fora, sem guarda-chuva, tomarei um café duplo e amargo naquela cafeteria que íamos todos os dias, e voltarei para casa, na mesma fúria amarga. E talvez isso nunca acabe, o gato continuará me encarando, tomarei meu café na janela na próxima tempestade e pensarei nisso novamente. Talvez eu me lembre de colocar o tapete escrito “Seja bem vindo” na porta de casa, talvez eu me lembre de comprar um guarda-chuva. Quando você voltar, não se esqueça de limpar os pés e trancar a porta. Você deveria aparecer…

Taninos

A metrópole, as luzes no horizonte, a eterna busca de amplos sentidos já tão desajustados
Em busca de cores num quadro vazio, sem folhas, nem papel, pincéis, a Arte é sem rosto
Apenas vãs memórias algozes e insatisfeitas, manchadas em aquarela sem dono a quem clamar
Numa galeria de uma estreita rua abandonada pelos amantes decadentes e cães sem dono
Tempos longínquos por demais falham-me à memória, sonhos e acordes de desapego
As cores vibrantes tocam um piano, ensurdecem-me com notas carregadas de vaidades irônicas
Desafinadas, dançando as melodias, refrões descontentes, errando o passo de desejos insolentes
Noite de domingo silenciosa, cálices de éter brindam o ensurdecer de minha paz tão almejada
Traço linhas tortas na contramão do meu juízo, quebro o sétimo espelho de minha sorte
Sorrisos perdidos na contramão, via única de sorrisos enebriados pela mentira de outros pecados
Tenho a saudade atropelada por trilhos de escuridão, sentidos sinestésicos e cores sem nome
Perco o rumo com o traçado de perfumes descoloridos, perdidos na solitude do desengano
Tal como um mapa mal tracejado em papel velho, sujo e disperso na boca do lixo cheio de fel
Invocações de lembranças minimalistas,palavras soltas, lento desengano de poeta esquecido
Tal como uma velha mensagem na garrafa em alto-mar, esperando a velha saudade dar-lhe adeus
Saudade em pedaços, saudade rubro-doce, sussurrando, sua dona andarilha e faminta
Apenas sonhos vagando em universos paralelos e longínquos, desejo consumido em sonhos
O abrir de olhos alheios aos amanheceres estoicos, tão cheios de si e tão vazios de crenças
Apenas um quadro esquecido nas almas desnudando-se em um completo desdém infame
Desintegra-se em milhões de grãos de areia fina do deserto de seu mais temido pesadelo
A centelha divina do teu desejo já sem nome, perdido na noite repentina de luar inerte
Não há nenhuma brisa lá fora, nenhum som, nenhuma alma, nenhum odor, muito menos pudor
A nudez embriagada de corpos em chamas, apenas um baixo ventre a latejar…

Des’alma

Des’almada transviada, alma suja desejada
Descarnada, esfomeada, o sexo exposto… Receoso,
Viv’alma desnorteada, frio, fome, alma desavisada!
Sãos caminhos, meu lento incômodo, fome intensa
Olhos lívidos em torpor, lento sonho em desengano.

Vinho doce nobre, lento desengano em pele branca ensandecida
Pele arrepiada, doce toque intransigente, face rubra e quente
A beijar-lhe uma trilha indecente de promessas feitas sem pressa
Noite adentro sem juízo e sem pudor, frio e insano amor envaidecido
Jogando os dados noite afora, num jogo de vaidades já tão esquecidas
Des’alma deságua, noite adentro, gemidos ensandecidos… Des’alma… Minh’alma!

29 cores, 29 milhas, 29 desejos.

Andei por aí sem olhar para atravessar a rua. Senti pressa ao atravessar fora da faixa. Onde os carros viravam eu não tinha visão nenhuma, mas eu tinha muita pressa para chegar ao outro lado, e eu sei que ninguém me daria a mão para atravessar a avenida. Não sou mais uma garotinha que dá as mãos para um adulto, mas sou uma criança que anda por aí chutando o que restou das folhas do outono passado. De vez em quando sinto medo do escuro, e se eu pudesse, como nos meus sonhos de criança, pegar um pincel e jogar 29 cores nessa minha escuridão, talvez eu veria o amanhecer com mais otimismo, pois na madrugada passada eu brinquei de pintar um quadro com as cores do meu medo. Peguei cada um deles e joguei numa vela tela em branco que encontrei no porão de minhas lembranças. Um rosto tão antigo, uma fisionomia de uma velha lembrança parecendo numa porta em meu momento de desassossego. Enquanto tomava meus goles de razão, a fisionomia de uma velha lembrança que deixei pra trás, com a convicção de ter superado, um velho amor do passado a entrar pela porta de meu mundinho até então quietinho nos meus dias sem graça tentando ser racional e não me entregar à tolices.

E eu tentei negar toda a mistura de minhas cores, jogando para o alto as milhas que eu caminhei todo esse tempo, procurando por cores desatentas ao meu olhar tão cansado, mas sempre por onde eu passei, eu pisei em tons escuros, onde as cores não se misturam. Eu me recordo das aulas de artes e a teoria da mistura das cores. E eu pintava quadros bonitos, eu desenhava bem, eu poderia desenhar todo o perfil do teu rosto imberbe, mas estavas tão bonito, mesmo assim, estava bonito, e eu lá, toda descolorida, tingida de uma timidez e uma vontade de sair correndo. A cada gole de vinho e tentava firmar minha felicidade repentina naquele misto de surpresa, diante de um dia tão incomum, diante de todas as surpresas que estão batendo na minha porta, me chamando para entrar, mas diante de um lapso de razão, estou sendo educada e apenas espreitando na soleira da porta. De vez em quando eu olho de canto de olhos, mas tento manter minha frieza, finjo não estar nem aí para o que aconteceu ou deixou de acontecer. Ando numa fase extremamente egoísta, evito toda e qualquer demonstração de amor, pulo a parte de cenas românticas de livros, partindo para livros de história, sociologia, filosofia. Sem as baboseiras de amor. Amor é para os fracos, e eu não quero viver de ilusões e de expectativas. A vida poderia ser um poesia, mas está mais para uma prosa sem pé nem cabeça. Eu queria, naquela fatídica quinta-feira não pensar em nenhuma espécie de poesia. Queria apenas sentar, encher a cara e ir pra casa dormir, semi-embriagada, pois afinal, naquele dia, eu teria de ir embora de ônibus, e estar sóbria o suficiente para saber onde era o ponto que eu tinha de descer. Não queria lembrança nenhuma, mas eu nunca esqueço uma fisionomia. Como eu poderia simplesmente ignorar, e ficar apenas observando, tal como um gato em cima do muro, poderia passar por despercebida, eu, minha taça de vinho e meu prato de frios, mas depois de tal surpresa, tal como uma imagem num telescópio em céu nublado, eu não pude conter meu misto de satisfação e surpresa. Talvez se eu tivesse ignorado, eu poderia ter tido sonhos mais leves. Se eu fosse uma pessoa religiosa, estaria me confessando ao padre por ter sonhos impúdicos.  Ainda se fosse somente sonhos impúdicos regados a 100% de agave (ahhh, a tequila…) e a maldita ressaca de sexta-feira, impermeada de uma noite mal dormida, eu ainda estaria bem, destinada a apenas alguns dias no inferno, tal como as pinturas de Gustave Doré para a “Divina Comédia”. Eu poderia estar bem até, acho as partes do paraíso um pé no saco. Talvez eu goste de fazer da minha própria vida um inferno/purgatório dantesco, e quando eu achei que encontrei minha paz, dentro do meu inferno pessoal, a Beleza chegou subitamente num dia de total despreparo, um dia enlouquecido, em que eu peguei a primeira roupa do armário, passei o primeiro perfume que vi pela frente, um dia sem pretensões, sem esperas, apenas mais um dia comum em que eu não estava nem aí pra merda alguma. Um dia em que eu me senti um retrato do diabo de feia, com minha estima lá embaixo, literalmente, me sentia um pobre diabo. Mas o pobre diabo foi embora pra casa com um sorriso no rosto,  e uma velha fisionomia na memória. Uma fisionomia incrivelmente mais bonita pessoalmente.  Imberbe, mas bonita.

Ao final da noite, o garçom que tinha pedido para entregar as duas doses de Tequila 1800 e o bilhete escrito com minha letra horrorosa e tremida veio conversar comigo.  Me disse:  “Eu achei que ele iria devolver as doses, mas poxa, “mó” bonita a atitude dele! Tirei meu chapéu”. Eu respondi dizendo que era algo que eu não esperava, e que me deixou feliz e quase embriagada, seja poeticamente e literalmente. A beleza me deixa embriagada, por isso fujo dela.  “Você gosta dele não é? Deu pra perceber enquanto conversava…”, disse o garçom enquanto tirava minha taça de água. Eu apenas dei uma risada, irônica, aquelas com o olhar pra baixo e um sorriso, e terminei de matar meu segundo café expresso para terminar a noite. Eu poderia ter entregue o bilhete, as doses, e simplesmente ter ido embora logo em seguida. Mas enfim, pedi uma terceira taça de vinho seco, peguei mais queijos e pensei em tolices, tolices fora do meu escopo de razão planejado para minha nova vida. Uma, duas, três, quatro taças. Para finalizar, a ultima taça foi de um vinho doce, tão doce e bem-vinda quanto aquela fisionomia que eu nunca esqueço. Fisionomia mais bonita pessoalmente, do que eu imaginava. Já não é mais aquele garotinho que eu me lembro aos treze anos…

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Eu poderia ter escrito sobre a minha surpresa dessa inesquecível quinta-feira, dia 29 de agosto na madrugada do dia 30, mas isso implicava em escrever com a mistura quase erótica de vinho e tequila. Sendo assim, à princípio, eu pensei, por motivos “éticos?”,”morais?” não iria escrever porra nenhuma sobre o que aconteceu, e fingiria que o tal encontro mais “Eu não acredito o que meus olhinhos de ressaca estão vendo entrar pela porra daquela porta!”(foi mais ou menos isso o que eu pensei, acrescentado de “Só podem estar zuando com a minha cara, era tudo o que eu precisava!”). Mas eu sou sim, um pobre diabo, e sendo pobre diabo, não perco minhas manias malditas. Mas enfim, escrevi isso sóbria, mas eu estou ocultando 60% das coisas que eu pensei. E não tocarei mais no assunto. Preciso de uns dias para digerir meus sentimentos e escondê-los novamente dentro da minha caixa de “Causas perdidas”. Preciso de mais uns seis meses para fingir novamente que eu não me importo mais.

Quantas vezes…

* Este texto é um fluxo mental escrito de forma contínua. Se não tiver sentido, tiver algo errado, é pq simplesmente não tive a mínima vontade de corrigir ou querer que faça algum sentido. Fluxos mentais são contínuos, instantâneos e INCORRIGÍVEIS. Grata pela atenção!

Toda a beleza nas pequenas coisas, são minhas emoções reprimidas em pedaços de papel rabiscados de forma não linear. Pequenos fragmentos de uma diálogo pessoal e eloquente sobre as pequenas coisas sem sentido ou seria “com” sentido. Não sei definir a beleza daquilo que eu não tenho ao meu lado. Almejo a beleza de longe, vendo as pequenas luzes amareladas da cidade, lá no horizonte.. Não almejo que elas se aproximem, pois sei que toda beleza, principalmente aquelas que nós julgamos como eternas, são, de fato, as que nos empurra para um abismo de perdições e perguntas sem repostas. Quantas vezes eu almejei a beleza das pequenas coisas que estão tão distantes, tal como as estrelas… Gostaria de pegar o brilho delas e colocar dentro de um vidro. Quantos passos largos que o homem já deu em vida! Quem sou eu para definir o tamanho dos passos dados em desconexo, em avenidas largas ao qual eu ando com o guarda chuva aberto embaixo das marquises, para somente me proteger das ofensas e gotas de escárnio que vem lá de cima. Deus está sempre a me enviar tentações, uma prova de o quanto eu sou fraca. Mas eu não acredito em Deus, então , sendo assim, porque ele é merecedor de aparecer aqui? Não sei, eu já perdi as contas de quantas vezes eu falei o nome dele em vão. Mas o que importa? Nada neste mundo importa. Mamãe dizia que sempre nos importamos muito com as coisas. Queria eu ser totalmente desapegada. Não queria sentir amor, de nenhuma forma. Amor não existe. Amor é uma coisa que os idiotas inventaram para poder apaziguar aquela dor mesquinha que a solidão causa. Sou tão feliz na minha solidão, no escuro das noites de domingo, deitada na cama, ouvindo o som do motor do meu ventilador de teto, enquanto penso em tolices, que logo torço para minha querida razão varrê-la do chão de minhas emoções. Queria ter emoções vazias, mas sem me tornar uma pessoa vazia… Seria possível?

Eu poderia escutar música, mas meus ouvidos já estão saturados demais dos sons daquelas músicas que me trazem uma lembrança triste daquilo que eu almejei e não tive mais. Músicas me trazem lembranças de velhas fotografias, rasgadas, trituradas e perdidas. Velhas fotografias que me trazem aquele sorriso que eu dei enquanto viajava com meus pais, para lugares longínquos. Sorriso é uma coisa que muitas vezes eu vejo forçado nos rostos das pessoas. Aquele sorriso amarelo do encontro com a pessoa que você odeia, mas que por mera educação, você abre um sorriso, e sai embora xingando. Pessoas… Perdi as contas de quantas vezes as pessoas são o pior retrato da humanidade, e não sei porque a palavra humanidade se relaciona com pessoas. Animais são muito mais humanos do que as pessoas. Eu perdi as contas de quantas vezes eu tento rabiscar um desenho bonito, eu também perdi as contas de quantas vezes eu pensei em dizer para o rapaz dos olhos bonitos e cabelo de leão que eu gostaria de vê-lo andando descalço andando numa praia de areia branca, tal como a praia do velho de Hemingway. Mas eu já me machuquei demais em assuntos de amor. Aliás, eu nem acredito em amor, sendo assim, porque eu teria alguma vontade de exaltar qualquer forma de admiração? Não sei ainda porque eu escrevo poemas, mas me bate aquela vontade de rasgar tudo e jogar fora. Qualquer dia eu vou pegar um dia de ventania. Vou pegar minha coletânea de poemas e romances bestas de minha autoria, vou rasgá-los e joga-los ao vento. Rasgar em pedaços bem pequenos, para que as pessoas não almejem em juntar os pedaços e querer entender todas as bobagens que eu escarrei naquele pedaço de papel. Eu poderia colocar alguma mensagem numa garrafa, e jogar no mar ou em um rio. E esperar até morrer… Eu já perdi as contas de quantas vezes eu esperei uma mensagem que me abrisse um sorriso nos lábios, eu já perdi as contas de quantas vezes eu manifestei meu amor incondicional para pessoas erradas. Ilusão é uma palavra que minha mãe sempre disse que era para eu não ter: “Não tenha ilusões”, mamãe sempre dizia, mas eu sou a filha teimosa, talvez um pouco alienada, e agora, choro minhas dores por não ter dado ouvidos. Engraçado a vida… Eu já perdi as contas de quantas vezes eu dei risada de minha própria desgraça. Dizem que bem- aventurados são aqueles que reconhecem suas tragédias e dão risadas delas. Posso estar ficando maluca, olha só, estou usando o gerundismo. Que horrível o tal do gerúndio, mas quem sabe um dia, eu posso estar ficando feliz…

Eu já perdi as contas de quantas vezes eu me proponho a fazer algo e não faço. Eu já perdi as contas de quantas vezes eu sai pra caminhar e tentei procurar algum tipo de beleza amargurada naquelas flores que nascem entre a rua e a calçada. Quantas vezes eu tentei transformar isso em poesia, e talvez, atingir o olhar incólume das pessoas que perdem seu tempo lendo todas as baboseiras que eu escrevo em momentos de insônia e tédio. Eu já perdi as contas de quantas vezes eu jurei que não escreveria nada que fosse um fluxo mental, tal como faço agora. Mas eu não pago promessas, eu não cumpro promessas. Não acredite em mim, quando eu dizer que eu vou fazer algo. O tempo é algo que passou não existir pra mim. Eu digo dias, e isso pode durar meses, e talvez anos. Eu perdi as contas de quantas vezes eu usei as palavras de maneira desconstruída. Quantas vezes eu jurei tantas coisas… Jurar é uma palavra feia, que denota nossa própria falta de confiança. Eu juro, eu juro. Jura uma ova. Nós escarramos em todas as promessas que jogamos para o alto, e nós não nos esforçamos para levantarmos as mãos e pegarmos nossas falácias, nossas promessas fajutas. Não acredite em mim, não espere nada, pois eu não tenho muito o que oferecer. Eu já perdi as contas de quantas vezes eu fiz uma construção tão negativa de mim mesma, tal como estou fazendo agora. É uma coisa deliciosa se destruir por si mesma. É mais suave, e talvez mais sincero, talvez mais poético… Ou talvez mais imbecil. Eu perdi as contas de quantas vezes eu já julguei algo por ser imbecil. Todo ser humano é imbecil, todos, entenda, não há exceções! Já saí da minha toca de utopia, tenho agora a tendência de julgar tudo na pior situação possível. Um dia vi uma matéria alegando que as pessoas pessimistas vivem mais do que as otimistas. Talvez eu aceitaria alguns anos a menos de vida, se eu pudesse realmente acreditar naquela palavra chamada esperança, naquela coisa de não ser apenas um objeto, se eu pudesse acreditar no amor das pessoas, aquela forma de amor sem exigir nada em troca. Mamãe dizia que as pessoas são sempre amáveis naquilo que é do interesse delas. Não tenha ilusões… Não tenha ilusões. Um dia colei essa frase na porta do meu quarto, para que cada vez que eu acordasse, eu pudesse olhar e levar aquilo para o meu dia-a-dia. Mas um dia, Cervantes escreveu um romance com um personagem chamado Dom Quixote. E nas ilusões de Dom Quixote, moinhos de vento eram dragões. E eu perdi quantas vezes eu me doei… Por amor àquilo que dão o nome de “causas perdidas”. Quantas vezes… Quantas vezes… Quantas vezes serão necessárias minhas caminhadas solitárias para dentro de meus pensamentos que tanto me afligem, me fazem ficar quieta dentro de um redoma de proteção. E eu tento fechar meu guarda-chuva, e andar embaixo da chuva, e talvez colocar a língua pra fora, e sentir um pouco do pedaço do céu. Eu perdi as contas de quantas vezes eu usei as metáforas para tornar o meu mundo mais bonito… Gotas de chuva escorrendo no vidro da janela são apenas gotas de chuva. Falar que são como lágrimas, é apenas uma idiotice. Mas eu ainda adoro metáforas… Você também… Você também.

Chernobyl: No rastro do vento negro

Este texto é uma matéria feita para o site Causas Perdidas: http://www.causasperdidas.literatortura.com

“A pequena Marina perguntou à minha mãe: “Professora, por que é que nossas avós fizeram o sinal de cruz para o nosso trem?” Os olhos de minha mãe expressaram profunda dor. Minha mãe que vinha encorajando a todos sem descanso, correu para a plataforma do vagão e chorou em voz alta.”

Tempo atrás estava no Terminal Barão Geraldo, quando fui ver a oferta de livros do bazar de um asilo do bairro que sempre está por lá em algumas semanas do mês. Sempre encontro livros interessantes a um preço muito acessível (no máximo seis reais). No meio de uns vinte títulos, um livro de capa amarela chamou-me a atenção. Com o título de “Bonecos de Neve e Chernobyl”, o livro que estava despercebido foi levado comigo após eu ter pagado dois reais por ele. Sim, dois reais. O conteúdo do livro é bem interessante, e ao mesmo tempo dá uma tristeza sem fim. Gosto muito de histórias e relatos, e, creio que o relato de quem viveu todo o contexto de uma tragédia sem precedentes, enriquece e dá muito mais credibilidade ao contexto. O livro que me custou a bagatela de dois reais, ou um suco de laranja da barraca de pastéis que fica do lado do terminal, deu-me uma semana de reflexões sobre os prós e contras da energia nuclear. E por qual motivo? Bem, para entender, vou contar a história deste livro que infelizmente não tem mais edições, podendo ser encontrado apenas em sebos e em sites que vendem coisas usadas.

Imagine ler relatos de crianças e adolescentes que tiveram a infância minada por dores, injeções de iodo, sessões intermináveis de quimioterapia, muitas delas esperando apenas que a morte chegue? Enquanto o governo não avisava os perigos da radioatividade para o população, jovens comiam hortaliças frutas e nadavam em águas contaminadas. Era primavera em Pripyat, cidade da Ucrânia onde fica a usina Vladimir Ilyich Lenin, conhecida como Usina de Chernobyl. As crianças gostavam de sair para colher bétulas. Depois do dia 26 de abril de 1986, as bétulas foram cobertas de poeira assassina. Após o acidente, e quando finalmente o governo alertou os moradores sobre o perigo da região, as pessoas não sabiam mais o que fazer. Entraram em pânico, os mais velhos, resistiram, sendo que vários deles foram encontrados mortos em suas casas, dias depois pelos “Exterminadores/Liquidadores”, que vou contar mais a frente o papel dessas pessoas que hoje em dia não são lembrados. O termo “heroísmo” está fadado a Neymar e integrantes do BBB. Espero que este texto relembre e nos devolva o conceito de heroísmo. Esta tragédia dramática levou as pessoas a pensarem mais sobre a história do país, sobre a importância da terra natal. Uma história que retrata o quão importante é a contribuição do povo ao país. Neste livro, temos o relato de 25 crianças e adolescentes que viveram com o perigo da radiação e a saudade da terra natal. Além dos depoimentos, temos fotos e ilustrações. A coletânea da edição brasileira foi retirada de “Rastro do Vento Negro”, que foi publicada na Bielorússia e de uma versão editada no Japão, e foi publicada 10 anos depois do acidente, tendo toda a renda da comercialização destinada às crianças vitimadas pela poeira radioativa do acidente. O livro foi viabilizado com a contribuição voluntária de tradutores e revisores, muitos deles, anônimos. A tradução foi feita da edição japonesa e russa, e foi possível a tradução de apenas 25 dos 100 textos que foram selecionados de 500 redações enviadas para o concurso “Chernobyl e Meu Destino”, pois foram encontradas dificuldades em achar tradutores dos idiomas, sendo que na versão russa, a presença de dialetos locais dificultava ainda mais o trabalho. Foram duas edições do livro, e sua tiragem foi de 3000 exemplares cada edição.

Em 26 de abril de 1986, o reator 4 da usina explodiu à 1 hora e 23 minutos, durante um teste, liberando na atmosfera e nos arredores, cerca de 50 milhões de curies de radionuclídeos, 400 vezes mais do que foi liberado em Hiroshima e Nagasaki, durante o lançamento da bomba nuclear em 1945. Falando em níveis de radiação, com o acidente, a escala de radioatividade nos arredores ficou entre 40 milhões de curies de Iodo 131 e cerca de 3 milhões de curies de Césio 137, além de Estrôncio 90 e Plutônio . Estas foram as principais substâncias tóxicas que ceifaram muitas vidas. Além delas, teve emissões de gases nobres, tais como Criptônio 85, Xenônio 133. O Césio 137 tem meia vida de 33 anos. Mas o que é meia vida? O termo meia-vida é o intervalo de tempo para que a substância pare de emitir metade de sua radiação. O Césio 137 espalha-se no sistema muscular e causa mutações genéticas degenerativas. O Estrôncio 90 tem meia vida de 29 anos. Foi o radioisótopo causador de leucemia, pois ele se irradia na medula óssea. Iodo 131 possui meia vida curta, cerca de oito dias, mas foi o principal causador do câncer na tireoide nas pessoas que moravam na chamada “Zona de 30 km”, região que teve o maior índice de contaminação radioativa. Cerca de setenta por cento do território da República da Bielorússia foi atingido. Segundo estimativas, cerca de 2,3 milhões de pessoas sofrem com as sequelas da contaminação radioativa, sendo 500 mil delas, crianças, isso em 1994. Na região dos 30 km, ocorreram alterações na genética de animais e plantas. Foi o maior acidente nuclear da história, tendo além de mortes e muitos feridos até hoje devido às consequências dos lançamentos de substâncias radioativas na atmosfera e solo, houve também uma considerável perda econômica.

A evacuação da maior parte da região ocorreu no dia 27 de abril de 1986, após a Suécia perceber que houve um aumento dos níveis de radiação. Até o dia 20 de julho de 1986 faleceram 28 pessoas e cerca de 30 estavam internadas em estado grave, foram vítimas da Síndrome da Radiação Aguda, que atinge cerca de metade dos indivíduos que receberam altíssimas dosagens de radiação. As vítimas desta síndrome estavam entre os bombeiros, médicos e os mineradores que trabalharam na construção de um túnel que os levava até o reator, pois teve uma ameaça de uma segunda explosão que caso ocorresse, faria com que a Europa na maior parte de seu território fosse totalmente dizimada. As doses mais baixas de radiação causaram efeitos tardios em quem as recebeu. Causa tumores malignos e deformações congênitas, sendo que as crianças foram as mais atingidas. Hoje, na região da Bielorússia, há pessoas que ainda estão em contato diariamente com a contaminação, e outras estão desabitadas, como a cidade fantasma de Pripyat e seus vilarejos, também conhecidos como aldeias. Na vila de Dronki, por exemplo, moravam seis mil habitantes que foram retirados à força. Nos locais onde estas pessoas vivem os radioisótopos ainda são ingeridos através de verduras, leite e carne. Os radioisótopos são amplamente distribuídos através da cadeia alimentar, ou seja, o vegetal absorve a substância radioativa do solo, e como servem também de alimento aos animais, a radiação propaga-se para a carne e o leite. Após o acidente de Chernobyl, o índice de câncer na tireoide entre crianças foi para 400 casos. Antes do acidente, a média era de 20 casos.

“Alguma coisa esverdeada estava grudada em nossas roupas e sapatos… Aquela cinza impregnou não somente a minha roupa, mas também penetrou no meu corpo, no meu sangue e no meu destino”

Os habitantes da região do acidente não sabiam a verdadeira proporção do acidente. A maioria continuou com suas rotinas normais, como se nada tivesse acontecido. O silêncio sobre o ocorrido era grande, e o desconforto era também, quando alguém tocava no assunto. Como em todo acidente de vasta escala, demorou, e muito, para que a população tivesse as informações sobre o que aconteceu, a verdade foi escondida junto aos escombros em brasa do reator da usina. Enquanto desconhecidos dos perigos da radiação, a população plantava flores naquela primavera, e após a chuva, as crianças que brincavam no jardim ficaram molhadas de chuva radioativa e impregnadas de cinzas. Na inocência, elas acharam que eram apenas polens. A situação poderia ter sido muito pior se tivesse ventado na noite do acidente.

“De manhã, a úmida neblina interceptava a luz do sol. Fomos à chácara com papai e preparamos a terra para a semeadura. Mais tarde o sol raiou e tomamos banho de sol com muita alegria. Tendo terminado o trabalho matutino, após o almoço toda a família foi de Moscovita para o bosque. No dia seguinte, fomos extrair suco das bétulas brancas da floresta em Sokolóvka. Fizemos a fogueira, assamos toicinhos e tomamos o suco. Assim passamos momentos felizes e alegres. Levamos o suco para casa e o distribuímos a amigos e vizinhos. Também guardamos um pouco no porão para ser tomado durante o verão. No dia primeiro de maio daquele ano – Dia do Trabalho – o tempo estava muito bom também. A praça ficou cheia de bandeiras vermelhas e o povo sorria alegre. Nós participamos do desfile e clamamos em frente do palanque “Hurrah”, glória ao comunismo da União Soviética. (…) Ninguém nos avisou sobre o perigo em colher os morangos e os cogumelos do bosque durante os 2 ou 3 anos. Nós tomamos o suco das bétulas brancas de Chernobyl, comemos morangos e cogumelos contendo césio, estrôncio e plutônio, tomamos banho de sol com o ar poluído de radiação e nadamos nos rios e lagoas contaminados.” (Victor Bisov, 15 anos, no relato “Hiroshima, Nagasaki, Chernobyl)

Os Likvidátori

Na “Zona dos 30 km” foi proibido o cultivo de cereais, ingerir água e criar animais. Os animais da região foram todos sacrificados. No livro, há um comovente relato sobre o sacrifício de cavalos e gado, que antes do acidente andavam livremente pela região das pradarias em torno da usina. O relato foi contado para a jovem Galina Poteenko pelo seu tio, que trabalhou como Likvidátori (Liquidador), termo dado aos 600 mil homens que trabalharam dentro da região contaminada. Foram eles que combateram os incêndios, realizaram tarefas de descontaminação e limpeza. Os que sobreviveram, são hoje inválidos, recebendo pensões do governo para arcar com os tratamentos médicos de doenças. Verdadeiros heróis, os que morreram são enterrados como cidadãos comuns, totalmente esquecidos, e a culpa nunca é do Chernobyl, mas sim de câncer. A maioria dos Likvidátoris possuía de 18 a 40 anos. Segundo estimativas de entidades que tratam das consequências do acidente de Chernobyl, 16 mil morreram e o restante luta contra a invalidez, causada por exposição à radiação beta e gama, que são aquelas de maior poder de irradiação no organismo. No relato “Histórias do tio Dmitri”, a jovem ginasiana Liudmila Láptsevitch conta sobre a vida dura e heroica daqueles que combateram os males de Chernobyl. Segundo o relato, os Liquidadores vieram de países como Rússia, Lituânia, Latóvia entre outros países da ex-U.R.S.S. Eles passavam dificuldades como o frio e fome. O governo distribuía carne enlatada para duas pessoas, o que não era suficiente, pois era uma lata de 328g para ser dividida entre duas pessoas. Para que sobrevivessem, eles se alimentavam das frutas e cereais contaminados. As roupas que utilizavam não eram suficientes para suportar o frio e as fogueiras eram proibidas, pois a radiação era espalhada. Depois de receberem relatos sobre a fome, o governo aumentou a alimentação fornecida, e as condições melhoraram. Os primeiros Liquidadores trabalharam desarmados, mas depois, com o aumento dos saques na região, eles começaram a andar armados. Havia ladrões que roubavam as hortaliças na tentativa de vendê-las nos mercados da Bielorússia, mas como as hortaliças estavam totalmente contaminadas com a radiação, as áreas de agricultura foram fortemente vigiadas, rodovias foram interditadas, árvores derrubadas para fabricação de estacas que foram utilizadas para pregar os arames farpados. Quando a prefeitura raramente autorizava alguns moradores de retirar bens das casas em que moravam antes da evacuação, os Liquidadores os ajudavam a carregar os pertences, sendo que muitos foram saqueados durante o período em que as equipes de Liquidadores eram insuficientes para a região. Apesar de a evacuação ter sido por questões de sobrevivência, muitas pessoas recusaram-se a sair. Era o caso de muitos idosos e por isso, os Liquidadores levavam pão a eles. Alguns foram encontrados mortos, dias depois. Morreram sozinhos, mas morreram ao menos em sua terra natal. Os Liquidadores também ajudavam a espalhar uma solução química que aglutinava a cinza radioativa que contaminava o solo. Com isso, diminuía-se a precipitação delas no ar, mas ainda assim, não diminuía a contaminação, apenas evitava que ela se espalhasse.

Os Liquidadores também eram responsáveis pelo sacrifício dos animais selvagens e domésticos, que se tornaram ameaça a eles. Gatos e cães abandonados pelas famílias que foram impedidas de levá-los tornaram-se uma ameaça. Cavalos, gado, ovelha, foram todos dizimados com tiros e lança-chamas. Abaixo, um trecho do relato, chamado “O dia em que os cavalos choraram”, da ginasiana Galina Poteenko. O relato dela foi baseado numa história que a jovem ouviu de um Liquidador.

“O meu serviço, bem como de meus companheiros, era o transporte de gado para ser morto. Carregávamos vacas e porcos, e assim que os deixávamos na beira do precipício, homens trajando uniforme do exército, que ali se encontravam, os fuzilavam imediatamente.
Na primeira noite, o grito triste dos animais e o barulho dos tiros das pistolas automáticas não saiam de meus ouvidos. Não conseguia pegar no sono. Nunca havia presenciado cena tão horrível.
Na manhã seguinte, recebi ordens para transportar cavalos. Creio que jamais poderei esquecer o que ocorreu naquele dia. Já viram alguma vez cavalos chorarem derramando lágrimas? É um acontecimento muito raro. Pois eles choravam. Choravam alto. Como se fossem crianças pequenas. Ao serem colocados na carroceria, eles deitavam suas cabeças sobre a cabine do motorista. Era como se quisessem firmar seus corpos. O choro miserável dos cavalos machucou meu coração. Eles seriam atirados no precipício ficando com os ossos estraçalhados. Fiquei imóvel, cobri o rosto com as duas mãos, e chorei em voz alta. Eu nunca havia chorado desta maneira. Os cavalos foram queimados com lança-chamas usados na guerra. Talvez isso amenizasse a dor desses animais, mas era um verdadeiro inferno.
Passei a beber como se estivesse me banhando. Durante as duas semanas de trabalho naquele lugar, os meus cabelos embranqueceram por completo, a ponto de nem minha mulher me reconhecer. Creio que não poderei esquecer, até minha morte, as cenas daquela grande matança. À noite, elas surgem em meus sonhos. O pesadelo continua”.

O Amor e a saudade da Terra Natal e parentes vítimas da radiação

Além de perdas de entes queridos, vitimados pela radiação, o acidente em Chernobyl também ceifou o lugar onde as pessoas cresceram, cultivaram lembranças. Um lugar onde as crianças brincavam e se sentiam seguras. Em todos os relatos do livro permeia a saudade da terra onde nunca mais puderam voltar. Sentem-se refugiados, mesmo durante os anos que se passaram. Falam das aldeias (vilarejos) que viviam e do sofrimento, principalmente dos idosos, que tiveram que abandonar suas terras. Recebiam cartas com relatos de como as aldeias foram destruídas e transformadas em meras colinas.

“O “enterro” da aldeia consistiu em usar uma escavadeira para fazer um buraco de cinco metros. Os bombeiros lançaram água do telhado à base de cada casa para não levantar o pó radioativo, e um monstruoso trator de esteira foi “varrendo” a aldeia para dentro do grande buraco. Não quisera ter visto essa coisa assustadora, bem diferente de um simples funeral. Quando penso no monte redondo de terra amarela que se formou ali, meu peito fica dolorido e minha garganta apertada.
Aquela aldeia transformou-se realmente numa aldeia fantasma, Dentro do silêncio triste, algumas casas ficaram em pé e cobertas de ervas daninhas. As janelas de algumas delas estão pregadas com tábuas em cruz e nas ruas não há ninguém – nem gente, nem cães, nem gatos -, apenas a vibração do chão onde estão sendo abertos os buracos do cemitério. Aldeia sem gente. Aldeia da morte.” ( Galina Róditch, no relato “Minha Mãe, eu e o amigo de Vovô”)

“Toda vez que eu vejo os gigantescos carvalhos centenários,
Que contemplo o riacho, ouço o seu burburinho,
O cantar das aves,
Receio que o meu coração vá saltar e subir ao céu.
Por não suportar tamanho esplendor temo perder a visão,
Não ouvir mais os sons e
Não conseguir mais apreciar
A beleza natural da minha terra natal.” ( Liudmila Tchúbtchik, 14 anos)

Apenas no dia dos mortos, as famílias podiam visitar seus entes, alguns deles enterrados em caixões de chumbo, para evitar que o solo fosse contaminado com a radiação. No cemitério de Mitsino, estão as lápides de 27 heróis que trabalharam no combate do incêndio no reator. Vasili Ignatenko, Vladimir Pravik, Nikolai Kibenok, Uladzimir Tsialiatnikau, Viktor Kibiánok, Uladzimir Tsichura, Mikalai Tsitsiánok, Leonid Tsialiatnikau são alguns dos heróis de Chernobyl, e a maioria deles e demais companheiros que estiveram na área de perigo morreram entre 2 a 30 dias depois da exposição. Vasili Ignatenko tinha 25 anos e era 1º tenente dos bombeiros. Ele subiu uma das escadas de setenta metros de alturas e ao pular sobre o telhado da sala de máquinas esteve de frente com a morte em forma de dose letal de radioatividade. Ele conseguiu livrar a sala das máquinas do incêndio, mas morreu no dia 13 de maio, vítima da Síndrome da Radiação Aguda. Deixou sua esposa Lyudmila grávida de uma menina. Quando ela foi visitar o marido que estava em seus últimos dias de vida, ela não pode abraçá-lo, nem beijá-lo, mas desobedeceu as ordens e mentiu para a enfermeira. Ela disse à enfermeira que já tinha filhos, pois se ela dissesse que estava grávida do primeiro filho de Vasili, a enfermeira não a deixaria entrar e somente veria um caixão pesado e lacrado de chumbo. O fato de estar grávida salvou a vida dela, pois parte da radiação passou para a criança em seu ventre, que morreu cinco dias após nascer. Hoje, Lyudmilla está inválida e tenta sobreviver da pensão que recebe.

O convívio com a doença e a espera da Morte

“Na avenida, ainda há sobras da neve do inverno que está terminando. Os meninos fizeram um boneco de neve, colocaram-no numa bandeja do hospital e o trouxeram para o nosso pavilhão.
O boneco de neve é lindo! Com certeza foi Tólik que o fez. Ele sempre quis ser escultor e por isso está sempre modelando peças com massa. Hoje, ele foi autorizado a se levantar também levantar o moral do ambiente. Afinal, começou a primavera.
Ao lado do boneco de neve foi colocada uma mensagem: Atenção meninas, essa é a última neve de vocês.
Por que última? Nós nos perguntávamos chorando.
O boneco de neve foi se derretendo pouco a pouco. Parece que se derreteu por causa de nossas lágrimas”. ( Trecho do diário de Nadzéica, no relato “O último boneco de neve”)

A edição brasileira chama-se “Bonecos de Neve e Chernobyl”. A escolha deste nome deu-se por causa do relato comovente de um dos jovens, Ígor Maroz, que conta a luta de sua prima, Nadzéika, contra o câncer. Aos quinze anos ela passou a sofrer de câncer, e então ela escrevia em seu diário. No relato, Igor diz que sua prima adorava a natureza, e tinha sonhos de ser pintora. Estudava no laboratório de artes. Os últimos dez dias de vida foram os mais tristes, e Igor nos traz trechos de seu diário. Nos trechos, ela diz que numa visita de seu avô ao hospital, ela lhe pediu que caso ela viesse a falecer, não gostaria de ser enterrada em um cemitério, mas sim numa planície ou bosque, ao lado de um pé de pera ou maçã. Tentou suportar a dor de todas as maneiras, faz pinturas e retratos para seu avô, chorou a morte do menino de sete anos do quarto 10. Um dia ela recebeu a visita de uma representante da Organização de Ajuda a Vida Humana da Dinamarca. Esta senhora havia perdido a única filha em um acidente de trânsito. Ela chorava e fazia carinho em Nadzéika, “a pureza do amor é sempre igual no mundo inteiro.” Na página referente ao dia nove de março, Nadzéica nos traz a tristeza de saber que o final está próximo:

“Acabou a fábula. Comecei a ficar ruim novamente. Nunca estive tão mal quanto agora. Já estou sem vontade de lutar contra a doença. As convulsões não param. O remédio não faz mais efeito. Tenho muito medo. Meus cabelos saem aos chumaços da minha cabeça.
Na consulta periódica, Dra Tatsiana me disse que o tratamento terminou. De agora em diante, tenho que recuperar minha saúde em casa. A médica olhou profundamente em meus olhos. Entendi e compreendi tudo.”

Ela morreu no final de março e sua última palavra deixada em seu diário foi a palavra em latim “VIXI”, que significa, em português, VIVI.

No relato “O destino da Bielorússia é o meu destino”, Volga Gantcharova, 16 anos, nos conta que seu pai, assim como outros Liquidadores, recebeu como “reconhecimento”, um certificado que dizia:

“Sargento Maior da Polícia – Alaksandr Miháilavitch
Cumpriu ordens na zona de 30 km.
Secretária do Interior de Khóinitsk.

Volga sofreu com a doença do pai, que veio a falecer dois anos depois do seu retorno ao lar, após trabalhar como Liquidador nas zonas radioativas. Com um tumor maligno na espinha dorsal, a família Gantcharova lutou até a exaustão para conseguir a cura do patriarca, que foi totalmente esquecido pelas autoridades da União Soviética. Segundo o relato, quando levaram o pai a um hospital de Moscou, após serem rejeitados em Minsk, um médico disse: “Porque vieram aqui? Não temos obrigação de tratar todas as pessoas da União Soviética”. Seu pai conseguiu tratamento nos Estados Unidos, mas depois de pouco tempo foi enviado novamente para Moscou para continuar o tratamento. Ele foi abandonado pela assistência médica e morreu no aniversário de 14 anos de Volga, data que nunca mais foi comemorada com alegria. Volga desde os catorze anos sente saudades de enfeitar a árvore de natal, enfeitar a mesa de aniversário. Segundo ela, no dia de seu aniversário de 14 anos, ela enfeitou o túmulo de seu pai, abrindo mão do aniversário. E deixou em seu relato uma pergunta que com certeza está até hoje entalada na garganta de vítimas do acidente, que recebem uma “Taxa de Caixão”, apelido dado ao pagamento oferecido pelo governo para as famílias que moram em zonas de risco:

“Onde estarão agora os responsáveis, líderes e respeitados cientistas que enfiaram milhões de pessoas no inferno da irradiação nuclear?”

Ler os 25 relatos de dor, sofrimento e indignação de jovens adolescentes que tiveram a infância e o auge da juventude destruída por um acidente até hoje perigoso, nos traz um olhar pouco explorado e esquecido sobre um “passado” que continua vivo e despedaçando vidas das pessoas que tanto amaram aquela terra devastada pelo erro humano. O reator 4 da usina de Chernobyl está coberto por um sarcófago e lá dentro, segundo os especialistas, material radioativo continua queimando. Será necessária a construção de mais um sarcófago, pois o que está lá já apresenta rachaduras e outros problemas decorrentes ao passar do tempo, mas a Rússia alega que não tem capital para tal, e os países ao redor também não se manifestam em ajudar.

As gravações e fotografias do local apresentam falhas decorrentes da radiação. Ainda hoje o entorno de Pripyat tem traços de radiação, crianças continuam nascendo com problemas decorrentes da irradiação dos pais afetados pela radiação. Ex-combatentes, que arriscaram suas vidas em pro da família e da pátria, lutam para sobreviver com o pouco dinheiro que recebem do governo. São considerados inválidos e são impedidos de trabalhar. Muitas pessoas sofrem de insônia e depressão, mesmo o acidente ser datado de 27 anos atrás. Não é apenas dor física, é também dor emocional. Muitas crianças da época ouviram, quando adultas, que não há mais nada o que se pode fazer para combater a doença. As crianças não podiam correr nos campos, colher flores, tomar sol ou banhar-se nos rios e lagoas em dias de calor. Passaram a infância vendo placas de proibições e trancadas em hospitais, vendo outras crianças e jovens morrerem. Os mais velhos acham que já viveram o suficiente, mas temem pela vida dos próximos da geração que está por vir. Em Chernobyl e arredores, a dor e a incerteza não é um fantasma, é uma consequência da radioatividade. Seria muito útil que todas as 100 redações das edições japonesa e russa fossem traduzidas para o português, e que houvesse mais edições desta obra que infelizmente está esquecida. Esta, entre outras obras que nos contam relatos de grandes tragédias são tão necessários para refletirmos sobre as grandes questões. Ler ficção é confortável, pois sabemos que as mentiras são mais confortáveis. A verdade dói, e cada relato deste horrível retrato das consequências de um acidente nuclear, nos traz a tona sobre o uso da energia nuclear. O quão seguro são as usinas Angra 1 e Angra 2? Vale lembrar que a terceira usina do complexo nuclear brasileiro está em fase de construção e tem término previsto para julho de 2016. Devemos ou não deixar de lado a energia nuclear?

“Mesmo depois de anos, séculos
Esta dor não nos abandonará
É uma dor tão grande, tão infinita
Que não podemos nos afundar e esquecer
É uma herança da derrota.
Ficará por séculos acompanhando nossos descendentes
Permanecendo nos corações deles
E tirará a tranquilidade para sempre
Quero que cada um que vive sobre a Terra
Se lembre daquele ano, daquele dia terrível…” ( Maria Galúbovitch, 13 anos, no relato “Por favor, não apague a luz da vida”.)

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O vento na janela

Vede a criança, rodeada de porcos a grunhir,
Desarmada, encolhendo os dedos dos pés.
Chora, não sabe fazer mais nada senão chorar.
Será alguma vez capaz de ficar de pé e de caminhar?
Coragem! E depressa, penso eu,
Podereis ver a criança dançar;
Logo que conseguir manter-se de pé,
Haveis de a ver caminhar de cabeça para baixo.

Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”

Ela estava concentrada olhando a ventania lá fora sacudindo as árvores e também sua saudade, já tão abandonada às moscas que ansiosamente debatem no vidro da porta querendo entrar. A casa cheirava à peixe. Sua mãe fritou os peixes que seu pai havia trazido pela manhã, após uma semana lançado aos infortúnios e surpresas do alto mar. Já era uma mulher crescida, mas a brisa marítima que entrava na casa em frente à praia quase intocada daquela cidadezinha à beira mar, trazia a certeza dos seus dias de sol e a lembrança dos dias que corria descalça pela areia branca da praia enquanto chovia, e a voz de sua mãe, ainda nos tempos sem os cabelos brancos, “Volta pra casa menina, você vai tomar um raio!”. Os ecos da saudade do tempo de menina eram trazidos com o prenúncio dos ventos da tempestade.

Ficou preocupada, de noite anunciava tempestade e o seu pai estava no pesqueiro em alto mar. Lembrou do dia que o barco de seu velho naufragou e ele ficou à deriva por quatro dias. A família já velava a morte mesmo tendo nenhum cadáver anunciado devorado pelos peixes, mas já esperavam o pior. Encontraram-no quatro praias depois, cheio de queimaduras e desidratado. Ficou uma semana internado, e assim que saiu já queria ganhar o oceano novamente. Ela sempre viu o pai como uma fortaleza, e a primeira vez que o viu chorar foi quando ele voltou pra casa do hospital e vou suas redes e linhas de pesca. O que mais o deixou triste foi a possibilidade de não poder mais trazer o sustento da família, e de não vê-la crescer. Ela ensinou seu pai a ler e escrever, e um dia ele até arriscou um poema, escrito por linhas tortas, e entregue no dia do professor, escrito em um saco de pão:

Amanhece minha menininha
As redes de pesca bagunçadas
Seus cabelos também
Cheiro de café, cinco horas da manhã
Dorme minha doce e travessa menininha

O seu velho pai ainda a vê correndo pela areia e a sorte ou a falta dela o acompanha todos os dias em alto mar.

Brilho eterno de uma mente de criança

Eram duas crianças, totalmente isentas de conhecimento que atordoa. Crianças apenas. No vai e vem de balanços, sorrindo uma pra outra. Não precisavam do empurre de outra criança ou de um adulto. Lá no alto, indo e voltando, crianças completamente alheias e dispersas nesse nosso mundinho tão perdido. E eu sentada em um banco de praça, observando o movimento, trazendo à tona minhas lembranças de infância. Lembro-me que eu ia à praça comer algodão doce, e quando eu me sentava no banco de concreto, vários pombos se reuniam em volta, pedindo com seus olhos esbugalhados e vermelhos, um pedaço do açúcar em fios cor de rosa que manchavam meus dedos. Eu gosto de algodão doce até hoje, e de lamber meus dedos como uma criança. Mas faz tanto tempo… Tanto tempo que eu não me sinto mais como uma criança. Sinto saudades, muitas vezes, dos tempos em que não éramos atingidos pela malícia, e que pensávamos que a solidão de fato é algo apenas como ficar sem os pais, por exemplo, de acreditar que o brilho das estrelas são pessoas mortas queridas. Hoje sei que as estrelas que estão ali são talvez uma luz que nem exista mais. Mas eu vejo uma linda poesia nessa coisa toda. Eu adoro astronomia. Queria poder ficar num gramado ou um local aberto, longe da civilização e estudar as constelações. Ter uma luneta ou um telescópio. Queria poder viver das estrelas, estudá-las… Mas, eu queria muitas coisas. Ser humano sempre querendo mais e mais, sempre descontente com algo ou, mesmo feliz, tem aquele ingrediente perdido no meio da receita. Entendem? É como ser um bolo de fubá, mas sem erva-doce. Ahhh, minhas abstrações, mas enfim. Minha vida é gostosa como uma bolo de fubá, mas falta algo como erva-doce ou queijo minas frescal.

E a praça, cheia de coisas curiosas, um brinde aos meus pensamentos sobre a vida, o universo e tudo mais. E tinha a inveja infantil… A criançada brincando num canto de areia, construindo castelinhos. E um menino dos olhos claros teve seu castelo destruído pela guriazinha chorona. E ela gritava: ” Seu castelo é mais bonito que o meu.” Num tempo de castelos sem princesas, a inveja e o ego começa a reinar desde cedo. Quando eu estava no jardim, lá na escolinha Sete Anões, em Limeira, eu me lembro dessas intrigas infantis. Tinham os “vendedores” de areia molhada. Eles traziam de casa as garrafas plásticas de refrigerante. Enchiam de água e areia, e passeavam pelo parquinho vendendo suas garrafas para as crianças escultoras ou crianças cozinheiras. Eu fazia dos dois. Bolos de barro e montanhas que eu colocava meus bonequinhos, que eu costumava dizer que eram moradores da “minha montanha”. E o escambo era geral. Nós costumávamos ir para o campo de areia, depois do recreio. E os que estavam interessados em areia molhada trocavam a garrafa com o barro pronto, por balas, chicletes, frutas, chocolate. Tudo dependia do que você tinha a oferecer. Tinha aqueles “Depois eu pago”… E ficavam sempre no depois. E então vinham as brigas, criançada correndo e gritando pelo pátio da escola BRIGAAAAAA!!!!! Os vendedores de areia molhada versus os caloteiros. E a briga corria solta, e as inspetoras vinham correndo. E dá-lhe diretoria! E no dia seguinte, a venda de barro continuava rolando solta, sob olhos atentos das “tias”.

E eu disse que no começo do texto não existia a malícia. Bem tinha um pouco sim. Tinham os beijinhos atrás da moitinha, as flores que os meninos entregavam para as guriazinhas tidas como as mais bonitas. E eu me lembro, hoje, lembrança ao qual eu dou risada. Havia um guri que gostava de mim, e me dava flores todos os dias. Mas ele era bagunceiro e mal criado. Roubava os lanches alheios, batia nos meus amiguinhos e gostava de mim. Um dia, teve o primeiro ensaio da quadrilha da festa junina da escola. A professora, que se chamava Ana, colocou ele como meu par. Eu o odiava, mas ele vibrou e me chamou de “Meu Amor”. E então eu fiz um escândalo. Comecei à chorar. Quiseram me obrigar a dançar com ele, mas eu fiquei muito tristinha e me recusei a ir na escola. Minha mãe, foi à escola e então eu fui a única aluna que não dançou quadrilha. E eu digo, até hoje, não gosto de dançar quadrilha. Tem certas coisas que ficam enraizadas, não digo que seja um trauma de infância, ou seria? Mas foi a primeira vez que eu fui forçada a fazer algo que eu não queria. Eu não queria tomar injeção, mas eu de alguma forma sabia que aquilo era para o meu bem. Aquele menino tentava me beijar a toda hora e dizia que se casaria comigo. E não, aquilo não era agradável, de forma alguma.

Quando eu entrei na minha primeira série, eu tinha seis anos. Entrei mais nova, não fiz o pré, pois já sabia ler e escrever. Lembro-me que meu primeiro amor ( bem, não era amor, mas vamos deixar por assim “amor”) foi um japonês. Ele se chamava ( lembro-me até hoje), Caio Muriel Tanaka. Tudo que ele tinha era do Japão, inclusive a mochila, era uma preta, meio quadradona. Ele tinha o cabelo de tigelinha. Era um linda criança, não sei como, mas lembro-me do rosto dele até hoje. Era o melhor aluno da sala, de longe. Éramos amiguinhos, mas apenas isso. Eu tinha vergonha que ele soubesse que eu “gostava” dele, e naquela época eu seguia o conceito de amor platônico sem nem ao menos saber quem era Platão. Eu gostava do japonês, mas eu tinha um admirador, de seis anos, que me mandava cartas de amor. Chamava-se André Luís, e era loiro dos olhos verdes. Tenho um episódio único de minha infância com esse garotinho…

Um belo dia, estava eu e André Luís voltando da escola. Tínhamos comprado aquelas balas quadradas de doce de leite. No meio do caminho tinha uma pomba, aparentemente “deitada” tal como aves fazem, no meio da calçada. Eu como criança deslumbrada em um mundo de pássaros entre outros bichinhos, me agachei enquanto André Luís permanecia de pé, chupando uma bala atrás da outra. A pomba permanecia quieta, e eu achava que ela estava dormindo. André pegou um graveto e me deu. E quando viramos ela, tinham vermes devorando suas entranhas. Foi o meu primeiro contato com a morte. Aquela coisa efêmera ali na minha frente, trouxe-me uma série de questionamentos, e eu nunca me esqueço, do local, das pedras na calçada, de André Luís e o cheiro de balas quadradas de doce de leite. E até hoje, quando sinto cheiro de doce de leite, lembro do menino André tentando me acalmar, mesmo sendo uma criança. Ele me viu chorar, e me deu a mão até eu chegar em casa. Se despediu com um beijinho no rosto, e me mandava cartas coloridas com letras tortas. Ahhh a infância… Brilho eterno de uma mente… Com lembranças.

O bom menino.

Você mostrou-me teus olhos, até então cobertos por um véu. As ruas do subúrbio escondem a tristeza fria e sedutora dos homens. E quando os olhares se encontram, é como se estivéssemos gritando, com medo, com frio. Os muros estremecem, são as marretadas do nosso medo, batendo de frente com nossas emoções. Nobre coração, correndo, batendo voluptuoso e insano em cima das bicicletas do subúrbios. Jovens, homens e mulheres compartilhando a brisa batendo no rosto. Nunca tivemos tanta certeza, que nossos sentimentos traiçoeiros estão nos sorrindo, perdidos nos becos, e então nós rimos, porque afinal, nosso sarcasmo e ironia nos corrompe docemente nas memórias noturnas, quando adultos. E eu me lembro… Daquelas tardes ensolaradas no subúrbio. Nós nunca gritamos tão alto…

Éramos jovens, você se lembra? Corríamos pelas ruas do subúrbio buscando sonhos desacordados, com canções em tons desafinados, cores ajustadas, como a mistura de Renoir num quadro pintado em Paris. Posso estar escrevendo coisas das linhas pra fora. Entenda querido, já são além da uma da manhã, e eu ando tendo madrugadas insones. Há um silêncio lá fora que me convida para contemplar os gatos por cima do muro. Eles andam numa graça inocente por entre as grades, e quando me veem com os cabelos ao vento, no meio dessa madrugada de outono indeciso, eles me encaram com os olhos brilhantes. Há um gato, negro como a noite, eu só vejo os olhos amarelos, me encarando como se soubesse dos meus sonhos de ir e vir, das minhas noites tecendo a saudade em meu tricô imaginário de vinho Merlot. Hoje bebo no gargalo, desde que te conheci ignorei a etiqueta de tomar vinho como gente educada. Eu não sou mais educada, sou tresloucada.

Se eu fumasse, acenderia um cigarro, talvez um mentolado, ou aqueles doces, de cereja. Ficaria soltando anéis de fumaça no ar, quem sabe eu fizesse um grande o bastante? Tem uma coruja aqui perto do terreno baldio, ela mora num buraco. Em meus sonhos, ela poderia passar voando nos meus anéis de fumaça mentolados. Ela passaria por dentro deles e daria um rasante no chão. Talvez, pegasse minhas emoções que jazem no chão, e levaria para bem longe, talvez para um inferno Dantesco, ou para o paraíso dos sonhos de Beatriz. Lá existe um pouco de Amor. Eu escuto Chico Buarque e sinto Amor, e eu queria que quando eu passasse você me estendesse a mão, ou o chapéu, mas tu não usas chapéu. Um dia queria que me mostrasse o sol, aquele que lhe faz sorrir, assim, mais de duas vezes ao dia. Percebe? Eu te mostraria toda a beleza de um dia chuvoso, talvez encontrássemos alguma coruja tomando banho, enquanto as pessoas passam aturdidas com seus guarda-chuvas, com raiva, passos largos. Eu contaria os segundos, contigo, e depois me apoiaria em teu ombro quando o trovão bradasse a fúria dos Deuses lá naquele horizonte de campo aberto.

Quando eu era criança, eu gostava de andar de bicicleta embaixo da chuva. Eu passava na poça de lama, e conforme ia pedalando, a roda de trás respingava lama nas costas da minha camiseta velha de guerra. Meu pai sempre falou que eu poderia tomar um raio na cabeça, mas a única coisa que eu tomei, foram gotas de chuva que me escorriam nos lábios. Eu era uma criança levada. E você ficou com minhas fotografias… Tem uma delas que eu estou feliz e banguela num balanço. Tem outras que estou acampando em Brotas, e eu praticava trilha na serra com minha mãe e aquele que um dia eu chamei de pai. É uma longa história, queria te contar um dia, sobre minhas aventuras, dos dias que eu subia no telhado escondida. A vida era incrível vista de cima, e pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não dão valor para quase nada, não tinham um olhar apurado, nunca ninguém me viu lá em cima, ninguém, só pardais e pombas que balançavam nos fios do poste… Ahhh, e o cachorro da vizinha, que eu tinha que passar de fininho, porque ele ficava nervosinho e se colocava a latir ininterruptamente. Tinha medo de ele chamar a atenção da minha vizinha balofa que não dormia porque o marido roncava. Ela poderia acabar com a minha brincadeira infantil de ser uma stalker das alturas. Um dia, atirei uma pedra no cachorro dela. Você vai me dizer:

“Malvada”…

Mas um dia, você me contou que jogou o gato da janela. Tu eras uma criança, tão malévola quanto eu, ou não… Apenas queria ver se o gato cairia de pé… Lembra? Quando você me contou isso, eu lhe disse pra você amarrar um pão com manteiga nas costas do gato, assim ele cairia de costas… Mas você cresceu meu bom menino… E nas ruas desse subúrbio, enquanto você dorme, com seus sonhos que talvez nem se lembre quando acordar, eu lembro da sua travessura de menino, como cenas de um frame despedaçado. Eu posso ver duas crianças correndo pelo subúrbio… Mas isso é apenas um devaneio, perdido entre meus anéis imaginários de fumaça. Na primeira tragada eu vou achar que vou morrer. Tentei tragar uma vez, quase morri, mas você tentou me ensinar. Eu acho que ainda não aprendi, ou tenha me esquecido. Fico apenas na vontade de menta, cereja ou pinho…

Eu poderia te reconstruir, como um vitral, daquelas igrejas europeias, mas não seriam imagens santificadas, já lhe disse um dia, eu fujo de tudo que é convencional, e faço isso sem querer, sou tresloucada… Quando criança chutava os formigueiros e passava o tempo observando o caos. Eu me perguntava se as formigas gritavam, como as pessoas na televisão quando aconteciam aqueles terremotos lá no Japão. Hoje só escuto meu próprio grito. O resto eu ignoro. Além de louca, sou egoísta. Mas eu te amo, mesmo tendo atirado o gato da janela. Você chega até mim nessa noite, com seus sonhos e travessuras de bom menino.

Bordeaux

Entre um gole e outro vou cavocando lembranças madrugada adentro. O barulho do ar-condicionado não me tira a concentração. Entre um gole e outro vou digerindo como um doce pecado as páginas de um livro. Encosto-me a parede de maneira não anatomicamente correta. Eu detesto coisas politicamente corretas. Eu gosto do caos. Aquele caos indecente dentro da minha organização. Daqui a pouco sei que vou dormir provavelmente com o livro em cima do peito, ou simplesmente vou beber o último gole que decanta indecentemente no final da garrafa. EU olho pela janela, vejo as casinhas de luzes amareladas no horizonte, e estou perto do mar, mas não escuto as marolas, escuto a molecada insone conversando na rua, e um calor que me aflige, de todas as formas. Pode ser o vinho, carregado de calor das emoções tingidas de lembranças. Ou seria o contrário?Estou tomando um vinho Bordeaux, se fosse um Merlot, já estaria em meu quarto, e não em um mesa de tampo de vidro. Entre um gole e outro, bebo minhas tórridas lembranças em goles de uma certa melancolia. Talvez seja o calor, aqui em Salvador é extremamente quente.

 

Hoje eu passei na beira da praia. Foi a primeira orla que eu vi em meus vinte e cinco anos que possuí cactos. Adoro cactos sabia? Mas não tanto quanto girassóis. Tive um momento de epifania, assim que encontramos o primeiro posto depois de uma viagem de avião Teco-Teco da Trip. Chegamos ao aeroporto e subimos no carro. Tínhamos pela frente cerca de duas horas e meia de viagem. Paramos em um posto de conveniência, era de madrugada, bateu uma fome. Logo na entrada da loja, tinha uma escadaria e um jardim de girassóis. Alguns estavam despedaçados, mas mesmo os girassóis incompletos me encantam de tal forma, que seria um poema de muitas estrofes se eu fosse escrever meu amor diante os girassóis. Quando eu era jovem, eu amava, aliás, eu ainda amo, aquela música do “Ira!”, “O Girassol”, mas não sou fã da música “Girassol” do Cidade Negra. Acho enjoativa e repetitiva.

 

“Um Girassol sem sol, um navio sem direção…” (algo assim. É tarde da noite e estou com doses de tanino na cabeça).

 

Mas a música mais linda que se aproxima da beleza de um Girassol, é “Sunshine”, do John Denver. Eu amo essa música, se eu soubesse cantar, eu cantaria essa música numa serenata, mas enfim, escrever é uma das certezas que eu tenho que de alguma forma eu sei fazer, mesmo que algumas vezes eu tropeço em pedras no meio do caminho. Como escritora insone, quando o dia ameaça amanhecer, fico cansada demais para revisões minuciosas. Este escrito aleatório, além de ser escrito madrugada adentro, tem o fato “Tanino” com notas de saudades, aroma de lembrança com poesia e um pouco de breguice incontida e imensurável. Às vezes a saudade é tanta, que eu poderia construir vários prédios azuis, com tijolos velhos, apenas para matar o tempo. Muitas vezes tenho vontade de cometer um crime contra o tempo. Poderia sacanear os ponteiros, convidá-los para dançar na beira de um abismo. Iria rodopiá-los, até os ponteiros ficarem tontos e se atirarem sem querer no abismo. Assim ficaria somente o agora. Não teríamos que ficar pensando nos dias de amanhã, remoendo a desconstrução os sonhos, embriagando-se na falta de perspectiva de tudo o que nos cerca, aquelas coisas aos quais deitamos a cabeça no travesseiro e perdemos noites de pesadelos cheios de medo do fracasso. Queremos algo como o poema “Lídia”… Seria bom se pudéssemos ficar na beira do rio, como pagãos tristes, com flores no colo, mas a vida seria monótoma… Ou não, posso estar delirando à toa. Gosto de fazer isso, divagar… Divagar, principalmente com taninos na cabeça…

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Girassóis baianos de uma escadaria de um posto de meia estrada… Epifania.