A menina má.

Acordou numa manhã preguiçosa qualquer. Foi na geladeira, pegou um abacate grande, cortou ao meio, tirou a semente, cortou um limão, fez uma pasta verde e mole, espremeu o limão e depois, duas colheres de açúcar na mistura. Estava lá, a mistura verde quase alienígena. Levou ao quarto, comeu na cama enquanto lia o jornal que foi jogado no quintal às cinco horas da manhã.

Depois de corpo e alma alimentados, tomou um banho para expulsar aquele resto de sono que ainda habitava o corpo. De alma então renovada, saiu enfim ao trabalho, de salto alto, “meia fina” e vestido meia estação. Pegou seu livro de MarioVargas Llosa em cima da cabeceira e foi em direção ao ponto de ônibus. Como sempre, esqueceu-se de alguma coisa. Voltou correndo para sua casa buscar o carregador do celular… Correndo de salto alto, cabelo balançando de um lado para outro. Pegou o celular, fechou o portão e escutou o ônibus aproximando-se, correu de novo. O motorista da linha 325 a conhecia, pois habitualmente ela sempre pegava o mesmo ônibus. Ele parou a cem metros depois do ponto de ônibus, e então ela subiu esbaforida, suada, cabelo em desalinho. “Bom dia”, disse o motorista, rindo do desespero do medo de se atrasar e a graça dos cabelos bagunçadas da passageira habitual.

Ela passou pela catraca e sentou-se no primeiro banco desocupado que viu. Abriu o livro “Travessuras de uma menina má”. Começou a ler as primeiras linhas do capítulo em que havia parado. Viajou, ela não estava mais ali, estava fora de si mesma, enquanto isso, as paisagens urbanas passavam pela janela, e o vento entrava pela janela. Em seu mundinho de encontros e desencontros, esqueceu-se de arrumar os cabelos em desalinho, e nem percebeu a linha que se soltava da manga de seu vestido ¾, vestido meia estação. “Moça, moça, chegamos!”. Era o motorista do ônibus gritando de forma simpática e risonha, avisando que havia chegado ao terminal. Ela olhou ao redor, todos os demais passageiros haviam descido. Era o chamado para a vida. Deixou de ser menina má.

Estou lendo este livro. É maravilhoso!
Estou lendo este livro. É maravilhoso!

O pão no prato.

Letícia escrevia sua monografia numa vontade que a aniquilava. Mais dispersava do que escrevia. Odiava escrever com prazos. Escrevia durante a madrugada, pois era o tempo que ela tinha. Curava o sonho com doses de cafeína. Não tinha mais vida, não tinha mais nada. Perdeu as contas de tanto tempo que não vê mais os amigos, perdeu as contas de quantas latas de cerveja já tomou nesse tempo…Sozinha. O cartão de crédito bem sabe suas idas ao mercado para comprar um fardo de energético. Ela não sabia contar os pigmentos das suas olheiras. Traços escuros embaixo dos olhos. Se houvesse alguma forma de contar, seria mais um método para dispersar sua obrigação. Tirou todos os livros legais da estante, colocou-os numa caixa no porão. Sem dispersões…sem dispersões. Nem o gato estava mais lá, ela poderia dispersar ao olhar pra ele, e dar risada ao lembrar do amigo que quando criança atirou o gato da janela do segundo andar: “Queria saber se ele cairia em pé”, e então ela divagava e ria, pois num restaurante em dia chuvoso os dois divagavam sobre teorias malucas. “Talvez, se você amarrasse um pão com manteiga nas costas do gato, ele não cairia de pé…Porque o pão com manteiga sempre, mas SEMPRE, cai no chão com a manteiga para baixo”. E lá estava ela, dispersando. Queria ficar longe, de coisas legais, aquelas que lhe tirassem o foco, a concentração que tanto precisava. E queria colocar fogo em tudo. Em um mundo de cobranças, o sacrifício que por horas era tão digno e necessário, parece decantar em potes de preguiça. Queria jogar-se nos braços do sono, e em sonhos de uma eternidade, sonhar com um mundo menos besta e mais sensato.

Sua mãe fez um lanche para ela, antes de ir dormir, deitar sozinha com toda a vida de viúva estampada na cara. Preocupava-se com a filha, muitas vezes ela só ficava no café com bolachas. Todos os dias, a mãe preparava-lhe um sanduíche, batia na porta do quarto, colocava o lanche e o copo de leite em cima da mesa, lhe dava um abraço, um beijo e um “Boa noite minha querida, vá dormir cedo”. O leite sempre acabava nos beiços do gato. Cerveja e leite não davam certo.

“Mamãe deveria namorar”, pensou Letícia, fugindo novamente…Mas sabia que sua mãe estava desiludida demais para querer ter outro relacionamento. Chega uma hora, pensou ela, que as ilusões vão embora e sobram-nos apenas momentos de extrema lucidez, que tantas horas são mais venenosas do uma vida de sonhos e crenças que o ser humano pode ter compaixão e ser isento de crueldade. Letícia acreditava na possibilidade de existirem dias melhores, talvez uma grande tragédia mudasse a visão das pessoas, e que talvez fizesse o mundo melhor. Tem gente que só aprende quando apanha na vida, quando perde. Ela acreditava nisso, nas boas ações. O pão que sua mãe preparou, continuou em cima da mesa durante duas horas, ali, descansando no prato. O gato por perto, pois sentia o cheiro do patê de atum. Sua mãe preocupou-se com ela, mas o pão continuava no prato, como se ele não existisse.

O relógio sem pilhas.

Lucas estava lendo um livro, de maneira gostosa, preguiçosa, corpo todo esparramado no sofá da sala. A cachorra dormia perto dos pés dele, e tirando os roncos dela, ali, naquele local, não havia mais barulho algum, além do barulho da troca de páginas. Páginas virando, cachorro roncando, páginas virando, cachorro roncando…Era uma sinfonia agradável. Ele esfregava os pés na barriguinha preta da cachorra tão pequena, uma bola de pelos preta que roncava, passeou e correu o dia inteiro, e agora estava ali em seu momento de paz, suspirando baixinho com o seu dono fazendo um carinho gostoso com os pés. Lucas ficou dessa forma, perdido nas páginas de um livro, até dar-se conta que precisava dormir, pois amanhã terá que acordar cedo para ir trabalhar. O ônibus da empresa parava em um ônibus perto da sua casa, bastava andar alguns poucos metros.

Verificou quantas páginas precisava ler para encerrar o capítulo, pois tinha uma mania de sempre ler um capítulo até o fim, para que no outro dia não pegue o assunto pela metade, aquela coisa de pegar o bonde andando, pra ele, uma espécie de sensação ruim, para digerir o que foi lido, ele precisa juntar peça por peça, começar um capítulo pela metade, é o mesmo que pegar um jogo de xadrez em andamento. Perde-se a estratégia, aí é necessário recomeçar. Logo, um tempo perdido. Leu até o final do capítulo, fechou o livro, não havia mais o barulho do “virar de páginas”, apenas a cachorra roncando. E sentiu falta, de um barulho: o tic-tac do relógio de parede da sala…

Olhou para o relógio, aquele som que o atormentava não estava mais ali. O som congelou-se nas sete horas da noite. Seu celular marcava duas horas da manhã. Queria ele que as coisas continuassem paradas nas sete horas da noite. Queria ele levar uma vida mais calma, muitas vezes queria enganar o Tempo, congelando-o, como aquele relógio sem pilhas. Ele sabia que tinha de pegar o banco da cozinha, abrir a gaveta, procurar pilhas, subir no banco, pegar o relógio, tirar as pilhas, separar as pilhas velhas para serem jogadas em lixos específicos, colocar as pilhas novas, arrumar os ponteiros, pendurar o relógio na parede novamente, guardar o banco. Ele sabia de tudo isso, mas ficou lá, no sofá, contemplando o Tempo com seu ponteiro congelado. A cachorra deu um suspiro, e assim como a vida, ela lambia seus pés…Vida úmida, movida com pilhas alcalinas.

Era o relógio de meu avô, e quando o ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda a esperança e todo desejo; é extremamente provável que você o use para lograr o reducto absurdum de toda a experiência humana, que será tão pouco adaptado às suas necessidades individuais quanto foi às dele e às do pai dele. Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo. Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhum batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e néscios.

Willian Faulkner

Tempo-Livres-de-todo-Mal

O Tempo e o Vento

“E aí meu velho amigo, como vai?, disse o Vento ao Tempo, como aqueles que não querem nada. “O que você quer?”, o Tempo falou, rabugento e desconfiado, já que o Vento não era nem um pouco confiável, pois levantava a saia e vestidos de mulheres quase indefesas, bagunça os cabelos daqueles que vão numa entrevista de emprego, destrói guarda-chuvas na companhia da amiga Tempestade. “Qual é velho Tempo?Teus ponteiros acordaram de TPM?, “Tu sabes que eu não tenho sexo. Não sou mulher e nem homem, não me venha com brincadeiras imbecis, não tens o que fazer não?Sabes que comigo ninguém brinca, pois sou a única verdade que existe neste universo, eu e a Morte, somos a única coisa na certeza dos pobres e tolos humanos”. O Tempo estava raivoso, bufando seus minutos e segundos. “Calma aê sabichão, mestre do universo!Os “tolos” humanos tentam te enganar o tempo inteiro, atrasando ou adiantando os seus ponteiros, mulheres aplicam um tal de botox pra esconder as rugas causadas por ti, outros “pobres” humanos, simplesmente te ignoram. Você assim como eu, é tão ou mais odiado, na mesma proporção daqueles que te amam. As pessoas vivem querendo brincar contigo, voltando ou adiantando seus minutos. Qual teu argumento agora, meu Rei?”, disse o Vento, com o raro aspecto sério, tão sério que por alguns minutos os moinhos de vento do planeta Terra pararam de girar. O Tempo encarou o Vento bufão, um verdadeiro bobo da corte, divertido mas muito chato. “Os tolos humanos que tentam me enganar, enganam somente a si mesmos, por isso são tolos, se acham tão espertos, que ao final se iludem, achando que conseguiram escapar das minhas areias, que escorrem tão lentamente numa antiga ampulheta. Humanos, sempre se desvencilhando das horas, mal sabem eles, que elas infindavelmente escorrerão por entre os dedos.” Na televisão de Dona Janete, a previsão do Tempo anunciava tempestade com rajadas de Vento…

Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.
Érico Veríssimo

 

Quatro minicontos antes de dormir.

1-     Lola, a porca de Clarice.

Clarice tinha uma porca de estimação. A porca se chamava Lola, e gostava de dormir embaixo do tanque. Naquele sítio florido herdado de uma sucessão de gerações da família, ela corria em volta do casarão de mais de duzentos anos, feliz, com seu sorriso banguela na boca. Lola dormia estirada no gramado. Lola era quase um cachorro, só faltava latir. Tinha em seu pescoço um lindo lenço vermelho, tomava banho e só comia do bom e do melhor. Era paparicada por tudo e todos. Todas as visitas do sítio amavam aquela porquinha. Um dia, Clarice, no florescer de seus 16 anos, conheceu um rapaz, era seu primeiro contato com as maravilhas do sexo, e existia ali um pouquinho de amor, mas era, a princípio, apenas um tesão louco incontido. Numa manhã de sexta-feira seus pais viajaram, e voltariam apenas no domingo ao entardecer. Clarice queria ser popular, reconhecida, queria que todos a olhassem como uma garota descolada. Ela cansou de ser a garota caipira, já não era mais virgem, perdeu a virgindade no banheiro de uma festa regada à refrigerante e coxinha. Era uma festa da escola, proibido a ingestão de álcool por menores de 18 anos, mas ela bebia seus goles de vício agachada aos pés do seu namoradinho juvenil. Bebeu um copo de guaraná e comeu um brigadeiro. Queria tirar o gosto do licor de seu garotinho da boca. Estava com raiva, ele lhe disse que seus dentes raspavam muito e que ela precisava praticar mais. Mas ele sempre gozava, ”Filho da puta”, pensou ela.

Tudo pronto, Clarice conseguiu arrecadar dinheiro para as biritas e alguma comida. A festa rolando, gente se pegando, gente se drogando. Ela já havia bebido tequila, fumado um baseado e agora se preparava para o chá de cogumelos. O sexo nunca foi tão primitivo, as cores eram muito mais vivas, e o queijo da pizza onde as moscas deitavam suas emoções nunca foi tão delicioso.

A festa rolou, até tarde da noite do sábado. Sua fome era intensa. Perdeu as contas com quantos se deitou, até que o cansaço não a permitia mais viver a luxúria adolescente. Dormiu nua no gramado, e no dia seguinte tinha porco no rolete. Não era uma bad-trip, era Lola, sua amada porca rolando num espeto improvisado.

2 – Uma nuca, um pescoço, pele branca…Barba por fazer.

Era tarde da noite. Estava voltando do trabalho. Estava precisando de umas horas-extras para aquietar a mente. Aquietar no sentido de lhe tirar as coisas que a atormentavam. Ficou esperando o ônibus do outro lado da passarela. Colocou uma música nos ouvidos, e pensava o quanto o cansaço a fez querer sua quente e solitária cama. Entrou no ônibus, cumprimentou Chris, o motorista, e ele perguntou, “mais uma vez trabalhando até tarde! Assim vai ficar rica!”. Ela sorriu um riso cansado, os olhos pesados, querendo fechar. Sentou-se no banco nos fundos do ônibus. Hoje, ela não pensaria no seu amado, seria uma noite apenas para seu cansaço. Ela sabe que iria sonhar com ele de qualquer forma, e que de noite as ruas são escuras demais para ver as flores amarelas que nascem no asfalto. O girassol do jardim do bairro de subúrbio caiu e morreu, mas tinham as pequenas e graciosas florzinhas amarelas ou alaranjadas.

Ficou olhando as notícias no celular, o ônibus tardaria a sair, e nesse dia nem ao menos um livro tinha. Não conseguia dormir no ônibus, lhe incomoda dormir em coletivos, dá-lhe a impressão que vai se perder e que ela será esquecida, pois estava escondida, lá atrás. Entrou um rapaz no ônibus, ele sentou-se no banco à frente dela. Ela nem viu nada, estava por hora, delirante, pensando no projeto para a empresa. Ergueu os olhos, e se deparou com uma nuca, os fios castanhos claros do cabelo, que se encerravam na nuca, um pescoço branco, barba por fazer. Ela viu apenas uma nuca, uma linha tênue de pescoço, e um pedaço de uma barba acastanhada, e lembrou-se daquele que ela deixou duas marcas roxas num acesso de excitação e devoção. Não havia nada que a fizesse deixar seu dia branco de lembranças doces e selvagens. Os olhos daquele rapaz nem eram azuis, mas aquele pescoço foi o estopim para ela se perder na beleza dos olhos nus e expressivos daquele que lhe tirou o sono.

3 – Plástico

Letícia tinha regador de plástico, mas ela não tinha flores de verdade para regar, pois todas as flores que ela tinha sua vontade de cuidar delas era tão falsa quanto a sua vontade de viver.

Julio tinha uma boneca inflável de plástico, que segundo ele, gemia, adorava fazer sexo oral e transar com ele. Mas ele não tinha uma mulher de verdade para transar.

Cláudia tem uma árvore de natal, enfeitada e colorida. Tem presentes de plástico para dar à família. Todo natal tem risos, mas por dentro, ela é sempre de um riso de poliestireno e emoções plastificadas de PVC.

Marlene tem um homem que lhe diz todos os dias que a ama. Mas quem a satisfaz é seu brinquedinho de plástico.

Marcos queria ser amado, mas queria transar com uma mulher que não tivesse vínculo afetivo nenhum com ele. Poderia visitá-la e transar quando quiser, sem cobranças, uma mulher sem dor de cabeça e dias ruins. Pagou por Luciana, com seu dinheiro de plástico, no crédito e fatura só para daqui 40 dias.

4 – Esquina

Nas ruas amarelas do bairro de subúrbio, uma prostituta espera pelos clientes em seus carros esporte, suas desculpas de que trabalharam até tarde, seus desabafos sobre esposa frígida que finge orgasmo e acha que os engana. Ela sente frio em sua minúscula roupa, mas um conhaque com limão no bar da esquina a faz ignorar o frio insano da madrugada. Na última hora esteve com um cliente, ele queria apenas uma massagem, e ele gostava apenas de olhar. Ele pedia a ela que transasse com si mesmo, ele sempre pedia isso para a esposa, mas ela tinha vergonha. Jogou cem reais na cama e saiu de lá feliz. Ela não teve trabalho nenhum, bastava apenas pensar no seu velho homem, que um dia poderia voltar naquela esquina, em qualquer hora, talvez na próxima primavera.

 

 

Dez minicontos de 150 palavras.

1 – A Garota no espelho

É de madrugada, neste domingo chuvoso a dor no peito tomou conta. No sábado passado dormiu o dia inteiro, por oras perdeu os instantes digerindo um livro e contando suas angústias para aquele que lhe cura sem falar muito. Ela pensa: “interessante a vida”, e faz isso olhando seu corpo preso em um vestido preto de malha amarrotado. Seus cabelos em desalinho, por um dia inteiro rolando na cama, e se ao menos fosse sexo, mas a única coisa que ela tinha era fazer amor consigo mesma.

Diante daquele espelho em sua pequena casa, aquela forma de mulher ali exposta eram suas entranhas, todas elas dispostas numa tábua, com cebolas, tempero. Mais tarde, seria gratinada com manteiga ou azeite, e servida em linhas insones, linhas gourmet. Tomou um banho e deitou-se, nua, olhou lá fora, a brisa da tempestade saudava seu corpo como um amante. Sorriu.

2 – O Homem Girassol

Acordou de manhã, arrastou seu corpo cansado até o chuveiro. Embaçou suas emoções no espelho do banheiro. Sonhou com teu amor massageando-lhe as costas durante o banho. E ela disse que amava todos os vincos do rosto dele e quando ele acordava com os olhos azuis comprimidos e cheios de sono. E o sol que entrava pela janela iluminava o rosto dele, e aquilo era de uma beleza tal como um verbo irregular, ela não conseguia conjugar. Quando chovia, gotas tímidas, aquele tempo indeciso de chove não chove, seu amor era como um girassol em um jardim, ele se encolhia, tímido, e colocava-se a olhar os pés, mas quando o sol imponente se erguia no céu, ele se tornava um rei soberano, e naquele sorriso de homem silencioso, ela não conseguia exprimir em palavras o seu encanto. No canto esquerdo de uma rua, um girassol sorria no jardim.

3 – Maresia de Hemingway

Caminhou pelas areias fofas da praia durante várias horas. Deixou com que as marolas serenas lhe molhassem os pés. Quando seu corpo suava, ela dava um mergulho no mar, e ficou lá, meditando sobre seu eu salgado. Queria ela ter a doçura de todos os dias, mas as horas do tempo lhe trazem sabores e dissabores. Por vezes, sua natureza é amarga, outras horas ardente, nos braços daquele que a chama pra fora de sua redoma de ego e proteção.

As gaivotas se reuniam no céu, um barco pesqueiro balançava no horizonte. E ela se colocava a pensar se era a sorte ou falta dela que acompanhava aquele barco no horizonte. Depois de banhar-se e enrugar todos os vincos da pele, ela sentou-se placidamente na areia, observando a vida ao redor, crianças brincando na areia. O barco pesqueiro chegou à orla, e ele transbordava sorte e cansaço.

4 – Refúgio

Nos papéis perdidos na escrivaninha, em meio de livros, pequenos papéis com meias verdades, com mentiras de fundo vago, cantou uma canção de melodia desconexa. Estava ali lhe fitando nos olhos, um inseto na parede, esfregando as patinhas, ela deveria matá-lo, mas apenas ligou seu ventilador de teto. E quando as hélices começaram a girar numa simplicidade complexa, ela deitou-se na cama, tinha o louvor e o desejo de um Amor não incontido, verborrágico e jogado na sorte, algo ao qual ela não poderia comprar. Os ponteiros de seu relógio de parede pararam. Tinha ela, de comprar pilhas novas?Não, ela queria ali, poder voltar no tempo, e ficar apenas naquele instante que ela tentou em vão manter sua eloquência de raciocínio, antes de ser tomada por um beijo doce e inesperado no seio direito, e mãos tão maliciosas na graça de um anjo diabólico passeando em sua virilha. Desejo.

5 – Domingo à tarde.

Enquanto algumas pessoas rezam indo à missa ou contam piadas na mesa de família, a tarde pedia um banho. Ela negava que naquele momento, as gotas que  caiam no corpo, trouxeram-lhe a doce lembrança de um pequeno rio de vinho correndo nas costas, e uma língua languida. E os dois, talvez, levados pela sensação de uma leve embriaguez, cravou em seu peito e armário de memórias, um momento inesquecível e único. E naquele momento, enquanto as gotas mornas tiravam-lhe a eloquência de raciocínio, ela queria que ele estivesse ali, com seus beijos em sua pele nua. Cada momento, que ela sentia algo escorrer-lhe nas costas, ela sentia o cheiro dele aproximando-se.  Seu toque, ora doce, ora selvagem, uma sinestesia violenta, uma vontade de amar-lhe imoralmente na frente de uma multidão. E o som de piano tomou espaço n’alma. Ela enxugou seu desejo com uma toalha felpuda.

6 – Inverno

Perdeu a beleza dos instantes. Adormeceu no metrô, não viu o título do livro nas mãos do homem que estava sentado ao teu lado. Apenas gravou seu cheiro de água de banho. Em seu sonho de preguiça  numa manhã de uma metrô lotado, ela estava abraçando o tempo e seus ponteiros, e não largava, o enchia de beijos e deixava-lhe  invadir seu ventre numa fúria inconstante. Estava chovendo, e havia neblina lá fora. Nos túneis tristes do metrô há apenas a escuridão, e o monstro de ferro a toda velocidade carregando pessoas encharcadas de sonhos, esperando um pouco de atenção, uma alma de cores entrando em seus mundinhos de tons tempestuosos. Ela continuou ali sonhando, amando a frieza do inverno, e a eloquência de se proteger por debaixo de dezenas de roupas. O inverno silencioso calava sua alma, e diante de  tal beleza, ela se contorcia por dentro.

7 – Delírio

Do alto da sacada de seu apartamento, Lola colocou-se a pensar no tempo e em delírios. Havia uma varejeira grande e verde rodeando o vidro da janela, desejando as migalhas de comida da mesa. Sorte que a porta está fechada. Aquela mosca nojenta poderia entrar e pousar na sua comida, ou nas suas emoções perdidas durante a noite de sono. Segurava uma xícara de café, sua vida insone clamava por cafeína todas as manhãs. A insônia era uma (in)sanidade que a perseguia de noite, debaixo de cobertas, embaixo das hélices barulhentas de seu ventilador de teto, mas dentro dela, um silêncio devastador, que pode ser escutado na banda de pensamentos tão altos quanto o barulho de uma fanfarra em dia da independência. Era um silêncio, quieto, e muitas vezes inoportuno. Seu grito é uma canção muda, escutado por poucas pessoas. Talvez aquela mosca na janela a compreendesse. Porque não?

8 – Mosca

O vento balançava seus cabelos, do alto daquela sacada a vida era miúda, mas não deixava de ser bonita. Era como suas olheiras. Era um fruto trágico, mas ela gostava. A insônia não a tornava mais feia, a Beleza é relativa. Noites mal dormidas tinham seu “q” de beleza. Ela poderia tirar o sábado para dormir, deitar um pouco de suas emoções na luz do dia, e acordar de madrugada para fazer uma xícara de chá e sentar-se na sacada do apartamento, observar estrelas e imaginar uma cena de um quadro surrealista, e talvez cantarolar alguma canção oportuna para aquele dia, cantar baixinho, como o zunzum da mosca inquieta e gulosa que rodeava o vidro. A mosca estava faminta. Se Lola tivesse olhos de microscópio, enxergaria a salivação daquela mosca, suas 4 pupilas dilatadas, lembrou das aulas de Biologia.  Uma mosca pode ter de dois a quatro olhos.

9 – Isabela

Isabela sonhava que estava voando por cima de um campo cheio de lírios, leve como uma borboleta, e o desabrochar de um milhão de flores tímidas encharcadas de lirismo enalteciam sua alma. Ela já estivera ali antes, em tempos remotos, andando em uma velha bicicleta amarela, já enferrujada pela umidade do tempo. E ela corria naquele campo. Nem os urubus na arvorezinha de galhos retorcidos e secos, tiravam a beleza daquele lugar. Naquele sonho, naquele lugar que ela poderia chamar de seu, amanhecia um dia de cores multicoloridas, e seu desejo incontido de ser a nuance principal daquele jardim de delícias e prazeres angelicais, se diluíam quando ela escutou o despertador a chamar para a realidade. Ela que estava tão confortável embaixo de suas cobertas protetoras, acordou com o som do carro de gás que passava na rua e com o latido incontrolável do seu cão. Sentou e chorou.

10 – Irregular

A Beleza é um verbo irregular ao qual não se conjuga. Renata escreveu no guardanapo de papel que seu pai colocou em cima da mesa do café. Embrulhou o papel e meteu ele num cantinho da bolsa. Iria para a faculdade naquela manhã, e estava entediada. Dias de tédio a fazem escrever momentos e lapsos de razão ou a falta dela, em meio de linhas tortas e sonolentas. Ela estava ali, presente de corpo físico, mas ali, nas aulas inúteis, ela pensava apenas em anjos e bisões extintos.  Pensando em seu esconderijo no refúgio da arte, que poderia ter tanto sentido para ela e Humbert Humbert de Vladimir Nabokov e sua Lolita imortalizada. Pensou na imortalidade de seu Amor, ele era como o cântico das baleias, teria de navegar longe para poder ouvi-lo, desamarrar seu barco de beira mar, e navegar em direção da beleza irregular dos olhos dele.

 

Miniconto extra. Presente para os meus leitores.

11 – Trânsito

Lançava-se nos passos na pressa incalculável. De repente, o tempo parou, seus passos diminuíram. Ficaram tímidos, como os olhos dos súditos ao soberano. Na floricultura, da esquina um lindo rapaz com um vaso de lírios. Ele saiu e foi em sua direção com um sorriso. E naquele instante, ela mirou a Beleza sem baixar os olhos. Encarou o verbo irregular, Beleza era teu nome. Estava ali o refúgio da arte que ela tão timidamente não acreditava que pudesse existir. Ela suspirou e perdeu a respiração. Seus olhos de ressaca fecharam-se, e seu corpo padecia no asfalto com pessoas ao redor feito urubus. O rapaz dos lírios foi quem atirou o lençol em seu corpo esmagado pela linha 331. A Beleza a encarou, tirando-lhe toda a razão. O tempo pra ela não tinha mais conjugações e a Beleza com lírios nas mãos exclamou: “Ela não olhou a rua ao atravessar.”

A imoralidade mora no céu…E no coração dos homens.

Este texto é a coisa mais imoral que eu já escrevi. Eu sou humana, fraca, eu tento resistir à tentação, mas ela é mais forte do eu. Eu não sou um eco de ninguém, apenas permito-me escrever um fluxo de pensamentos, um fluxo de coisas que fazem parte da minha tão simples vida. Sim , eu escrevo sobre a vida, eu adoro metáforas, eu acho a sutileza algo extremamente elegante. Eu demorei muito para escrever essa metáfora sobre o Sol e a Lua, entre outras coisas da Terra, eu terminei de escrevê-lo eram três horas da manhã. Fiquei por minutos, pensando se valia a pena publicá-lo ou não. Publiquei primeiramente no meu outro blog, que um grupo de escritores e ilustradores. E por que, você se pergunta, que eu fiquei por tempos pensando se publicava ou não? Porque este texto pode ser considerado muito, mas muito, absurdamente imoral. Mas este texto tem alma própria, é bonito, sensível, e se eu pensei em alguém pra escrever isso, não é porque não tenho idéias próprias, mas a partir do momento que algo entra em nossas vidas a ponto de refletirmos sobre nossas atitudes, razões, emoções, que nos traz um sorriso mais largo, enfim, não creio que seja imoral. Pode ser um tentação irresistível, claro, pode mesmo, e o que nos resta, como seres humanos, é quando não podemos vencer nossas convicções, nos entregamos ao pecado. E teria outro jeito? Renunciar, talvez, eu sou teimosa, odeio renúncias, sou uma eterna errante, eu não nego e não renúncio, eu luto até o fim. Não sou de renunciar sentimentos, já machuquei-me muito por ser assim, mas creio que tudo nesta vida vale a pena, tudo nós levamos como uma lição, e não devemos deixar de correr riscos. Sigo por aí, traindo minhas convicções, pecando, mas não deixo de ser única, ter virtudes reais, sentimentos intensos, ideias e pensamentos que voam como uma folha na fúria de um vento. Se deixo-me inspirar, é porque permito-me olhar o que há de Belo nesta vida, e eu não falo só de lindos olhos azuis e um sorriso. Existem muitas coisas além disso,  muitas coisas além do que os nossos olhos enxergam. Somente a Beleza não me basta, é preciso que toque meu coração e que me tire completamente da toca. São bem poucos, não passa nem de uma mão, se eu contar nos dedos, as pessoas que me fizeram crer que nem tudo está perdido. Sou uma eterna errante, tal como Dom Quixote, estou sempre em busca de causas perdidas.

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Este texto que vem logo abaixo é um conceito. Deve ser lido como uma fantasia, um sonho, uma metáfora. O Sol, a Lua, como dois apaixonados, trocando mensagens entre si.  Quem sabe, você, querido (a) leitor (a), leia este texto pensando na pessoa amada, mesmo que ele (a) não esteja anos luz de distância, mas sempre, ao amanhecer, no pôr do sol ou numa noite de lua cheia, quando olhar para o céu, é o sorriso desconcertante do ser amado que lhe surge  na memória. O amanhecer e os primeiros raios da manhã que nos aquece, o entardecer e os raios alaranjados do Soberano Sol, a Lua com suas fases…Todas esses fatores “astronômicos”, influenciam não só o movimento das marés do oceano, mas também os sentimentos e pensamentos dos homens e mulheres na Terra. Já dizia Lord Henry, em “O Retrato de Dorian Gray”, livro de Oscar Wilde:

– Não existe boa influência – respondeu Lord Henry. – Toda influência é imoral – imoral do ponto de vista científico -, porque influenciar uma pessoa é dar-lhe sua própria alma. Ela já não pensa com seus próprios pensamentos nem sente suas próprias paixões. Suas virtudes não são reais para ela. Seus pecados, se existem tais coisas, são emprestados. Torna-se um eco da música de outra pessoa. O objetivo da vida é o autodesenvolvimento. Cumprir a própria natureza perfeitamente – essa é a razão por que estamos aqui. As pessoas têm medo de si mesmas, hoje em dia. Esqueceram-se de seu principal dever. Claro que são caridosas: alimentam os famintos, vestem os mendigos. Mas suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. O terror da sociedade, que é a base da moral, e o terror de Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam. Mas eu acredito que se um homem vivesse sua vida completamente, desse forma a todo sentimento, expressão a todo pensamento, a realidade a cada sonho, acredito que o mundo ganharia um impulso novo de alegria. Mas o mais corajoso dos homens tem medo de si mesmo. Cada impulso que lutamos para estrangular aninha-se na mente e nos envenena. O corpo peca uma vez e não tem nada mais a ver com o pecado, pois a ação é um modo de purificação. Nada permanece, a não ser a lembrança de um prazer ou desgosto. A única maneira de se livrar de uma tentação é entregar-se a ela…

Quando o Sol ou a Lua não aparecem, é porque estão cansados de ser a inspiração e influência amorosa dos seres da Terra. Eles se entristecem de tal forma, que se escondem por trás de nuvens. Por vezes, a lua fica minguante, ela quer mostrar apenas uma parte da sua saudade, mas ela é amada mesmo assim. Nós, humanos, entregamos todas as nossas tentações e pecados embaixo do calor de uma estrela imponente, e fazemos declarações sob o Luar.

Espero que gostem, e que ao terminarem de ler este texto, pensem na pessoa amada, mandem uma mensagem dizendo “Eu te amo”, ou dizer que está com saudades, e agradeça, de alguma forma, por essa pessoa ter surgido em sua vida e iluminado seu sorriso e razão de viver. E se você, querido (a) leitor (a), que ama alguém, e a pessoa não saiba disso, meu amigo (a), eu digo-lhe que a vida é muito curta para não tentar. Não se vive sem correr riscos, lembrem-se disso. Obrigada e boa leitura!

Prólogo.

– No começo existia apenas a escuridão. Então surgiu o sol, seu nome é Guaraci. Um dia ele ficou muito cansado e precisou dormir. Quando Guaraci fechou os olhos, tudo escureceu. Então, para iluminar a escuridão deixada por ele, enquanto ele fechava os olhos por longo período de tempo, ele criou a lua, e lhe deu Jaci, de alcunha. Ele Guaraci, criou uma Lua tão bonita que imediatamente apaixonou-se por ela. Encantou-se de uma forma tão intensa, que o seu brilho a ofuscava, como se ela estivesse assustada perante tal intensidade de seus raios de sol. Ela, Jaci, era uma menina desajeitada perante o brilho inebriante do Sol, e este, um menino desajeitado perante a intensidade da Lua. A Lua desaparecia tímida, quando o Sol aparecia. Guaraci criou, então, o Amor, deu-lhe o nome de Rudá, e este era seu porta-voz. O Amor até então, a única coisa que ele conhecia, era a Luz ou as Trevas. Não importando as estações do ano, a passagem do tempo, o momento, não importava nada… Rudá sempre podia dizer a Jaci o quanto Guaraci, o rei soberano, era apaixonado por ela. Vendo que a Lua estava sempre sozinha, Guaraci criou também companheiras para ela. Deu-lhe o nome de Estrelas, elas tornaram-se então, suas irmãs. O rei soberano, enquanto dormia, não queria que sua amada ficasse sozinha. Os dois se amavam, apesar de toda distância. Guaraci ama tanto a Jaci, que lhe deu seu brilho e calor enquanto dormia.
De tempos em tempos, os amantes se tocam… E quando eles transformam-se em seres únicos, mesmo na efemeridade deste encontro, visto à unidade de tempo do nosso universo, o Amor, a maneira de como um toca o outro, se torna única. E foi assim, segundo os indígenas, que tudo o que existe quando olhamos o céu, é fruto do Amor de Guaraci e Jaci.

Cartas ao meu Rei Soberano

Esta noite eu me lembrei de você. Não sei por que exatamente escrevo-lhe “Esta noite”, pois você sabe que todas as noites, aqui no nosso céu, você sabe que eu penso em você e que eu posso sentir seus raios me aquecendo mesmo em noites de inverno, mesmo quando as nuvens me encobrem, quando eu me sinto cansada da contemplação dos seres humanos, quando o uivo dos lobos, e o miado dos gatos que namoram nos telhados ou em árvores, enfim, estes sons me enlouquecem e por momentos, meu Amor, eu quero ficar surda. Quero apenas que me toque, e que me aqueça ainda mais. Quero que olhem nosso Amor, e fiquem todos cegos. Alguns humanos, eu percebi, ficam acanhados perante um casal que se ama, os que estão solitários, olham pra mim e me pedem uma paixão, um Amor, alguns, sofrem, platonicamente, e me pedem que lhe trague o ser amado ao qual amam à distância. Eu posso ver o amor platônico deles rolando numa cama iluminada pela minha luz, mas nesta Terra, os humanos acreditam em algo que eles chamam de Esperança. Eu também, todas as noites, eu tenho algo bem semelhante a este sentimento dos terráqueos, seria também, Esperança? Amor, meu rei soberano, queria que o Universo adiantasse nosso encontro. Eu sinto muitas saudades, mesmo você deixando em mim todo o teu calor, eu sinto uma saudade extrema do momento efêmero de deitar-me em teu peito.

Esta noite, quando olhei lá embaixo, num bairro de subúrbio qualquer, eu encontrei uma flor chamada Girassol, dizem por aí que ele é UM flor, e não UMA flor. Ele é lindo, imponente, de uma beleza que o nosso amigo Tempo me contou que é como um verbo que não se conjuga. Alguns humanos se calam perante a Beleza do Girassol, outros dizem, o quanto é belo, tão belo quanto tu. Outros humanos, dizem que seus amados possuem a mesma beleza e sentimentos do Girassol. Um lobo me contou, que o Girassol, em dias chuvosos, murcha e coloca-se a olhar para os pés, tímido, como se estivesse acuado, ou se a chuva trouxesse a ele todos os tons de cinza que ela carrega. Ele, Girassol, agradece pelas gotas de chuva que caem aos pés, se sente pleno com a água escorrendo nas pétalas, mas ele sente falta do teu brilho, sente falta do teu calor aquecendo-lhe as pétalas. Quando você o aquece e ilumina, ele fica altivo e contente.

O lobo contou-me também, que o Girassol também gosta do silêncio. Ele pede para aqueles que pousam em seu ombro, que respeitem seu Silêncio. O Girassol é de poucas palavras, o Silêncio que ele carrega, é como um belo poema. O Girassol se fosse um ser humano, como os homens que caminham na Terra, ele amaria com olhos.

Alguns pássaros pousam nele e comem as sementes que saltam de seu miolo. E ele não esbraveja, sente-se feliz, e um dia, ele finalmente morre. Mas alguns pássaros, distraídos, deixam algumas sementes caírem ao chão.  Depois de alguns dias de chuva, outros dias iluminados com tua Força, Beleza e Calor, outro Girassol surge, mas, todos os Girassóis, me disse o Lobo, ficam extasiantes diante de ti. Eu confesso meu Amor, eu senti uma ponta de ciúme desta flor, pois ela está lá, sempre lhe contemplando, isso me perturba um pouco, pois sou eu, a sua Dama, aquela que lhe espera, sempre nova, para poder me aconchegar-me no teu peito, encher-lhe de beijos, e sussurrar meu êxtase nos teus ouvidos. Mas eu percebo, que da mesma maneira que aparentemente o Girassol lhe contempla, ele também me observa nas noites de minha estação nova ou cheia. Ele me olha, nos olhos, parece que quer me dizer algo, mas não consegue. É como se o Silêncio que ele carrega timidamente, fosse uma forma de aplauso. A Beleza do Girassol me deixa extasiada, por lembrar tanto você, as pétalas do Girassol, lembram-me teus raios, que me envolvem naquele momento que eu tão espero.

Eu te amo meu Amor, eu sei que já lhe escrevi isso, durante toda a nossa existência. As nuvens me dizem que você também sente saudades, que quando fecha os seus olhos e eu abro os meus, é comigo com quem sonha. Peço-lhe meu querido, toda a calma do universo. Eu, sempre mais expressiva, talvez porque os humanos, uma espécie de humano que eles chamam de “Poetas”, dizem que eu tenho alma feminina, que sou como as mulheres na Terra, porque elas, assim como eu, são cheias de fases, mas todas elas querem um abraço, o calor de um homem, que neste caso, dizem por aí, estes mesmos “Poetas”, que você, meu Sol soberano, é como o Homem, pois é de poucas palavras. Você gosta do Silêncio, eu sou verborrágica. Rudá entrega-lhe minhas mensagens em muitas linhas, você é tão calado que sinceramente eu lhe digo que teu silêncio por vezes me corrói. Eu me preocupo contigo, eu sei que estás aí, brilhando alto e imponente, que às vezes, como o Girassol, se esconde encolhendo-se em dias de chuva. Mas você não é sempre assim. Uma coruja buraqueira contou-me, que um dia, estava chovendo, e ela estava tomando um banho no toco de uma cerca na beira da estrada. E você apareceu, no meio da chuva, e fez uma coisa que os humanos chamam de arco-íris. Mas, ela disse-me que você chora toda vez que faz isso, ao entardecer. E você, em seu silêncio, nunca me contou.

Enfim, saiba meu Amado, que enquanto você estiver vivo, radiando seu calor, em Silêncio, eu sei que está por perto, pois eu sinto teu calor toda vez que eu acordo, e ele me lembra do dia em que eu me deitei em teu peito. Fique bem, pois aonde quer que esteja o meu pensamento eu levo junto a ti. 

Cartas do Rei Soberano para sua Rainha.

Olá, tudo bem? Andei muito ocupado. Alguns humanos estão construindo centros que captam minha energia. Chamam isso de Energia Solar, inserido num contexto que eles chamam de sustentabilidade. Eles me sufocam, e eu também os sufoco com o meu calor. Mas eles estão me sufocando tanto, que qualquer hora vai ter daquelas minhas tempestades solares. Ando muito cansado. Desculpa se eu não falo muito contigo. Sabes tu que eu gosto do silêncio, eu não tenho toda a sua intensidade, entenda, este é o meu jeito de ser.

Eu tenho uma surpresa pra você, estive conversando com tal de Deus, e ele me disse que há muito tempo atrás, ele criou uma espécie de flor que se assemelha a mim. O nome dela é Girassol, ele tem minhas cores, é calado. Tu já deves ter olhado para ele, e se sentido estranha alguma vez. Deus me confessou que fez à minha imagem e semelhança, algo que os humanos chamam de metáfora. Conhece essa palavra?Achei-a bem bonita, ME-TÁ-FO-RA, lindo não é? Deus disse que esta flor, fica imponente com meus raios, e quando eu vou dormir, este tal de Girassol fica na terra, e quando você aparece, ele contempla-lhe, e de uma maneira simbólica, “metaforicamente” falando, aquela flor ali, sou eu olhando pra ti. Deus é tão sacana, depois de bilhares de anos, ele foi-me contar isso só agora. Aquele Girassol é um mimo pra você, se você o olhar, e amá-lo, é a mim que está contemplando. Quando eu acordo, o Girassol sempre me fala que você estava linda, com suas manchinhas. Desculpe-me falar disso só agora, eu ando meio esquecido. Eu sempre esqueço as coisas, esses dias eu esqueci um dos meus neutrinos no espaço, achei até que havia esquecido, porém, desta vez eu encontrei.

Esses dias foram chuvosos, eu não apareci no céu, mas tentei pela bilionésima vez deixar um presente pra ti. Eu sou teimoso, eu sei que talvez não vá dar certo nunca, mas eu não desisto. Um dia você vai acordar, e a noite irá nascer duas vezes pra ti. Quando chove, eu saio timidamente da minha toca, e tento criar junto com minha amiga Chuva, um arco de sete cores. Você me disse que gosta de cores, e eu vejo sua alma assim, cheia de cores, nuances. Mas eu fico triste, pois esse arco é efêmero, quando chega o entardecer, ele some. Se você pudesse ver a Beleza dele, se encantaria. Eu sei, eu já lhe disse que a influência é imoral, mas se você pudesse ver o arco-íris, seria tão lindo. Estarei eu traindo a minha convicção?Eu acredito que não poderia ser melhor, mas eu confesso, eu sou como o Homem lá na Terra. Dizem os humanos, que o homem perante do que é belo e caótico, sente-se como um menino desajeitado. Eu não lhe prometo a mesma intensidade verborrágica, não tenho a mesma coragem que tu. Meus instantes, talvez sejam mal traduzidos, mas é minha forma de ser. Peço que releve isso. Boa noite querida.

A loucura das quatro estações – Parte 1

1 – Muito prazer, meu nome é Verão e eu aqueço sua alma.

Elisa estava na praia, caminhando. Sua família estava embaixo de um guarda-sol observando ao redor. Algumas crianças cavavam buracos, outras construíam castelos, uns pequenos, outros grandes. E as crianças não tinham pressa, ou falta de paciência. Se chegasse alguma onda e destruísse o castelo, elas andavam outros passos à frente e construíam outros, muitas vezes melhor que os primeiros. E as mães as chamavam para reaplicar o protetor solar. Elisa gostava do sol, ela gostava de sentir os raios do soberano sol lhe tocando a pele. Quando chegava na praia, pela manhã, sentia um pouco de frio, mas este logo passava quando ela se colocava a caminhar pela areia, e logo alguns poucos minutos, o primeiro suor escorria-lhe pela testa, e ele tinha um gosto salgado. Elisa queria se enferrujar com a maresia. Estava de saco cheio de uma vida de regras. Ela via os barcos pesqueiros no horizonte, e pensava na liberdade. Ela queria um barco, só pra ela, e sairia por aí, sem rumo, sem destino, talvez escreveria uma mensagem numa garrafa e jogaria no mar. Cada mensagem seria a continuação de uma estória, uma estória com meias verdades de uma história, e uma estória de mentiras mal contadas ou mal interpretadas, mas aquilo ali, não deixaria de desembocar na areia aos pés de um desconhecido, talvez alguns cinquenta anos depois, quando seu corpo já estiver atirado ao mar, devorado por tubarões. Se ela morresse, em terra firme, gostaria de ter o corpo cremado, e que suas cinzas fossem jogadas ao mar. E ela queria que isso fosse feito em dia de chuva. E ela pensava nas pessoas de preto, encharcadas. Seu espírito estaria ali e as lágrimas daquelas pessoas se misturariam com a chuva, e a beleza da dor seria algo tristemente bonito. E o barco pesqueiro tremulava no horizonte. Ela pensou em Santiago e Manolin, personagens de um livro de Hemingway. Seria Elisa, o velho ou Manolin?Sua falta de sorte a perseguia, talvez estivesse mais para o velho Santiago, se ela tivesse um velho barco e um par de remos, colocaria roupas velhas e sairia pra pescar. Talvez pegasse um marlin que mais tarde seria devorado por tubarões, ou ficariam alguns anos sem pegar peixe algum. No seu mundo de delírio, ela faria amizade com uma gaivota, e como um gavião da Mongólia, ela treinaria a gaivota para lhe buscar peixes. E assim, não morreria de fome. E o Sexo, e o Amor, onde estaria?Seu Amor seria unicamente a vida, e o sexo não existiria. Uma mulher ao mar se esqueceria de aquecer o coração em meio de suor, saliva, beijos, deslizes… Ela não veria uma viv’alma, seria ela ali, ela, os deuses e as estrelas guiando-a mar adentro.

"Se vai tentar, Vá em frente. Não há outro sentimento como este Ficará sozinho com os Deuses E as noites serão quentes Levará a vida com um sorriso perfeito É a única coisa que vale a pena." Charles Bukowski
“Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.”
Charles Bukowski

Estava calor e Elisa caminha na orla, as marolas batiam ora tímidas, oras com fúria, em seus pés. Rapazes de corpos atléticos a olhavam, mas não era aquele mundo que a pertencia. A Beleza para Elisa era apenas um ponto a mais. O que a cativava eram pessoas que observavam o mundo tal como o seu, pessoas que ao encontrar uma água viva, parassem no meio do caminho e pensassem na beleza daquele cnidário, passeando pelo mar, e quando o sol bate no corpo, assume a forma de um prisma. Ela apreciava a Beleza, ora mortal das águas vivas, e lembrou-se do dia que sentiu os tentáculos de uma delas chicoteando na perna. Não foi agradável, mas era a forma daquele animal se proteger. Nada mais justo. A natureza tem lógica, complexa, mas tudo nesta vida tem sentido. O sol lhe aquecia a cabeça, estava pegando fogo, precisava de uma boa sombra agora.

“Acorda Elisa… Consegue escutar a minha voz?”Elisa acordou, imobilizada numa cama em um hospital psiquiátrico. “O que sonhava Elisa?”, perguntou a enfermeira jovem mas com primeiros fios brancos querendo surgir. Elisa sonhava com a praia, com o horizonte, e o verão dilatando os seus poros. “Elisa, está na hora de seu banho de sol querida, é verão e o dia lá fora está lindo.”, “Terá águas vivas? Golfinhos e navios pesqueiros?”, “Sim Elisa, no jardim encontrará seu mundo”. E então Elisa, fazia do jardim do hospital, o lugar onde tanto amou nessa vida, um lugar onde a vida da sua família foi ceifada por um naufrágio. Mas ela apenas se lembrava de ter sido socorrida por pescadores de marlins.

Um conto em três atos: O Sonho, A Beleza e a Razão

E de uma vez eu soube que não era magnífico
Perdido acima do corredor da estrada
(Vagas irregulares, cheias de gelo)
Eu poderia ver por milhas, milhas, milhas

Ato 1: O sonho

Isabela sonhava. Sonhava que estava voando por cima de um campo cheio de lírios. Ela se sentia leve como uma borboleta, e o desabrochar de um milhão de flores tímidas encharcadas de lirismo enalteciam sua alma. Ela já estivera ali antes, em tempos remotos, andando com sua velha bicicleta amarela, já enferrujada pela umidade do tempo. E ela corria naquele campo, quando seus pés preparavam seu pouso, por vezes desengonçado. Nem os urubus na arvorezinha de galhos retorcidos e secos, tiravam a beleza daquele lugar. Naquele sonho, naquele lugar que ela poderia chamar de seu, amanhecia um dia de cores multicoloridas, e seu desejo incontido de ser a nuance principal daquele jardim de delícias e prazeres angelicais, se diluíam quando ela escutou o despertador a chamar para a realidade. Ela que estava tão confortável embaixo de suas cobertas protetoras, acordou com o som do carro de gás que passava na rua e com o latido incontrolável do seu cão.
Abriu os olhos, timidamente, ela queria acreditar que ainda estava sonhando, mas o cheiro de café e pão na chapa que seu pai fazia todas as manhãs, a chamou para fora da toca. Sonolenta, mas com um sorriso preguiçoso nos lábios, deixou as roupas irem caindo pelo chão e foi para o banho. Ligou o chuveiro, esperou o primeiro vapor embaçar a sua face amassada refletida no espelho do banheiro. Ela tinha ali, olhos de ressaca, tal como Capitu, de Machado de Assis, uma incoerência coerente surgiam no brilho de seu olhar. E os cabelos vermelhos desbotados e bagunçados, ficaram úmidos com o vapor que emanava da ducha. Entrou no banho, usou um sabonete de lavanda e se colocou a pensar no seu sonho. Algo ali poderia ser real. Talvez ela poderia ganhar um lírio, tal como viu no seu sonho, ou ela poderia trombar com borboletas multicoloridas quando cruzasse o jardim da sua casa. E ela ficou ali, de cabeça baixa, deixando que aquele banho morno trouxesse suas emoções oníricas em forma de relaxamento. E ela se sentiu bem, em paz, ali naquele mundo real, ora tão cheio de ódio e tristeza, naquela manhã ela se permitiu olhar o mundo com mais Amor e Esperança. Nem tudo está perdido, pensou ela, ainda há esperança de existirem pessoas com nuances de um arco-íris, que nasce num horizonte infinito e acaba em seu coração, tão desajeitado e maltratado pelas areias do tempo.

2 – A Beleza

A Beleza é um verbo irregular ao qual não se conjuga. Isabela anotou isso no guardanapo de papel que seu pai colocou em cima da mesa. Embrulhou o papel e meteu ele num cantinho da bolsa. Ela estava empolgada, iria para faculdade naquela manhã, sem se sentir entediada com as aulas de “Blá blá blá”, nome que ela dava para aquelas matérias que eram apenas pura encheção de linguiça. Aulas que a faziam escrever momentos e lapsos de razão ou a falta dela, em meio de linhas tortas e sonolentas. Perdeu seu fone de ouvido em algum lugar, ela não conseguiria, até arrumar dinheiro para um novo fone, fingir que estava tendo uma aula agradável. Ela estava ali, presente de corpo físico, mas ali, nas aulas de “Blá blá blás”, ela pensava apenas em anjos e bisões extintos, e que deveria estar fazendo Artes Visuais ao invés de Sistemas de Informação. Talvez assim, seu esconderijo no refúgio da arte, tivesse tanto sentido quanto Humbert Humbert de Nabokov.
Isabela abraçou o pai, e partiu em direção à rua que seguiria durante meia hora até chegar no campus da faculdade. Ela queria poder ler um livro e andar ao mesmo tempo, sem que isso a fizesse esbarrar nas pessoas, sem que essas pessoas tão ranzinzas a encarassem como uma louca fora do ninho. Ninho de proteção…Ela criava sua própria redoma de vidro, quando se sentia ameaçada. Não ousava olhar nos olhos de um rei, não era como um gato. Dizem por aí que somente gatos tinham coragem e loucura suficiente para olharem fixamente nos olhos de um soberano. Quando ela via um par de olhos que a chamava para fora da toca, ela mirava o chão ou a mesa de madeira da sua sala, ou qualquer outro ponto fixo que a tirasse da sensação de se deixar seduzir. A Beleza, segundo a definição de Isabela numa tarde de domingo depois de se embriagar na solidão de seu quarto, enquanto observava os cães copulando desenfreadamente no jardim, era como os ponteiros de um relógio invertido, com ponteiros tortos, que contavam os segundos em direção contrária. A Beleza, pensava ela, atrasava a razão e a eloquência de raciocínio. A Beleza deveria ser evitada, pois a beleza vicia, e nos tira toda a noção da realidade. Ela pensou na beleza de seu sonho, e o quanto este fato fez o tempo correr mais devagar, pois a Beleza nos faz perder o rumo, e os segundos passam devagar como o desabrochar de uma flor. Pétala a pétala, a Beleza nos embriaga com seu perfume. Isabela chegou na sala de aula e desembrulhou o guardanapo de papel que trazia na bolsa, e quando começou o blá blá blá, traiu suas convicções e pensou numa Beleza que não se conjuga…E a sala se encheu de lírios.

3 – A Razão

As aulas acabaram naquele dia. Ela saiu da faculdade apressada, pois seu pai a esperava para visitar os avós. Ela, de início, lançava-se nos passos com uma pressa incalculável. De repente, o tempo parou, seus passos diminuíram. Ficaram tímidos, como os olhos dos súditos ao soberano. Na floricultura, da esquina um lindo rapaz estava comprando um vaso de lírios. Ele saiu pela porta e foi em direção à ela. E ele tinha o sorriso e os olhos mais belos que ela já viu na vida. E naquele instante, ela mirou a Beleza sem baixar os olhos. Ela permitiu-se encarar o verbo irregular com os olhos de ressaca. Estava ali o refúgio da arte que ela tão timidamente não acreditava que pudesse existir. E ele segurava um lírio, tão lindo quanto aqueles que ela via desabrochar em seu sonho…Ela suspirou e perdeu a respiração. Seus olhos fecharam-se, e seu corpo padecia no asfalto. O guardanapo manchado de sangue, pessoas ao redor feito urubus. O Belo rapaz dos lírios foi o que atirou o lençol em seu corpo esmagado pela linha 331. A Beleza a encarou, e o tempo ali passou a ser irregular. O tempo parou pra ela. A Beleza tirou-lhe toda a razão…O tempo pra ela não tinha mais conjugações.