Janela

Talvez eu seja jovem demais pra impedir que um bom amor dê errado

Chuva. Homens e mulheres apressados lá embaixo com seus guarda-chuvas negros, com os olhares sempre baixos, como se estivessem procurando suas lamentações,juízo e razões perdidas no meio das poças que se formam aos montes nas calçadas esburacadas. Passos apressados, sapatos velhos, novos, pequenos, grandes. Pessoas sem proteção correndo, alguns se protegendo com sacolas plásticas, mas sempre a velha pressa. Algumas, aguardavam a chuva terminar, embaixo de alpendres, cheios de rachaduras, pichações e cheiro de urina. Apenas a nudez do mundo, ao mesmo tempo calada com o silêncio arrebatador das pessoas cinzentas como o tempo e o ensurdecer dos motores de carros e ônibus. Diante da janela do apartamento, durante um gole e outro de café forte, amargo e sem açúcar, aquele mundo morno e requentado. Ao final da tarde, a chuva vai terminar. O sol aparecerá tímido, entre as nuvens cinzentas, e talvez, um sorriso surgirá naquelas pessoas taciturnas lá embaixo. Entre um gole e outro, eu penso naquele tempo em que meu velho amor ficava me encarando, enquanto eu contemplava a fúria e o frescor da noite na janela do quarto. Deitado, com um braço cruzado atrás da cabeça, soltando a fumaça de um maldito cigarro,  como veio ao mundo, um menino em corpo de homem, com seus medos, desejos, delírios, suas aventuras de ir e vir, contadas numa euforia entre um riso e outro. As luzes amareladas dos postes da metrópole invadiam o quarto, quase sem querer, sem pedir permissão. Eu, minha xícara de café, nua de meu pudor, coração aberto a expressões de prazer quando você beijava meus ombros quando passava por mim para alcançar o cinzeiro. E aquela mescla de nicotina com balas de menta, nos meus lábios de café, tomava café adoçado, você reclamava das minhas grandes gotas de adoçante, o tempo passou e comecei a sentir a vida de uma forma mais amarga. E você me dizia que eu parecia estar imersa em outro mundo paralelo, enquanto ficava diante da janela, cheia de convicções, medos, histórias e lembranças úmidas entre as pernas. E eu lhe observava de canto de olho, enquanto deitado, talvez um medo de você incendiar a casa, adormecendo com o cigarro aceso em cima da cama. Ao final, me transformei naquela piranha sem coração que você deixou, sem nem ao menos olhar para trás. Talvez eu pisasse no seu coração com a mesma força do homem correndo apressado lá fora, talvez, eu seja orgulhosa demais para pedir desculpas, talvez eu sinta uma pequena incógnita tirando meu sono, enquanto molho meus sapatos, enquanto sinto cada gota de chuva escorrer entre meus lábios, é aquela maldita cena de você indo embora naquele sábado chuvoso. O café amargo e sem açúcar é apenas minha nova forma de ver o amor. Um dia me disseram para colocar um chocolate Alpino no café, mas eu penso que isso é apenas um disfarce sutil. Ao final, a amargura toma o lugar da doçura e posso sentir a minha úlcera gritando, e aquele amargo estrangulando, apertando a garganta, mas é algo bom, estimulante, forte, porém amargo. Adotei um gato, e ele fica me olhando com os grandes olhos amarelos. Ainda deve ter uma lata de comida na dispensa. Ele se aninha e esfrega-se em minhas pernas, soltando um ruído estranho. Eu coloco uma tigela de comida e entre uma bocada e outra, ele senta e lambe as patinhas, e me olha com aqueles olhos, aqueles olhos que me dizem que a cama está pronta, os lençóis impecáveis, a louça na pia, que tenho de ligar para mamãe e que mais uma vez eu trouxe trabalho para casa. Eu devo abrir a janela e deixar a chuva entrar, eu devo assistir a cena toda, sentada no sofá, sem roupas, apenas com cinco gotas de colônia atrás do pescoço. Eu poderia esperar você entrar pela porta e beijar meus ombros de novo, tal como diz naquela canção, “my kingdom for a kiss upon her shoulder”. Talvez eu me contorça de desespero, talvez eu venda tudo e desapareça mundo afora, contemplando a nudez na metrópole de outro país. Enquanto penso nestes disparates, na nítida e mesquinha falta de sorte, meu café esfria, e em goles de sadismo, minha amargura fria desce pela garganta. O sol começa a aparecer. Talvez um arco-íris surja lá fora… Vou escutar o mesmo disco, várias e várias vezes. Tomarei as cervejas que você deixou na geladeira, fumarei todos os seus cigarros que estão na gaveta, sem nem ao menos saber tragar. Soltarei um sorriso sádico enquanto a nicotina acaba com meus pulmões, e na próxima chuva, sairei lá fora, sem guarda-chuva, tomarei um café duplo e amargo naquela cafeteria que íamos todos os dias, e voltarei para casa, na mesma fúria amarga. E talvez isso nunca acabe, o gato continuará me encarando, tomarei meu café na janela na próxima tempestade e pensarei nisso novamente. Talvez eu me lembre de colocar o tapete escrito “Seja bem vindo” na porta de casa, talvez eu me lembre de comprar um guarda-chuva. Quando você voltar, não se esqueça de limpar os pés e trancar a porta. Você deveria aparecer…

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