Cloto, Láquesis e Átropos

“Segue o teu destino…
Rega as tuas plantas;
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias” (Fernando Pessoa)

Uma mulher se contorcia em cólicas, gritava e suava, sentada numa cadeira na sala de espera de um hospital lotado. O líquido da bolsa já havia escorrido entre as pernas, numa mistura de sangue, e as pessoas olhavam a cena toda com um misto de nojo, emoção e inconformidade. Seu marido estava na beira do desespero, implorando ajuda médica. “Todos os médicos estão numa emergência”, disse a atendente. Não adiantou, Luis, de mecânico, virou médico e com a ajuda de duas mulheres fez o parto de sua esposa. Nasceu assim Joana, numa noite chuvosa de 29 de julho. Num canto da sala de espera, uma mulher tricotava, sempre atenta aos detalhes. Era uma moça bonita, de jeans e camiseta, lábios vermelhos, cabelos presos numa trança. Parecia não esboçar nenhuma emoção. Aos pés, tinha uma sacola de bordados  diversos, de vários tamanhos e cores. Joana, a recém-nascida  foi entregue para a mãe, depois dos procedimentos neo-natal. A mãe foi internada, amamentou e desmaiou, inconsciente. Foi entubada, corria risco de parada respiratória, a pressão estava nas alturas.  Bernardo ficou na sala de espera, andando de um lado para o outro, entre lágrimas e orações. A moça continuava bordando, mas agora, ao lado, estava com uma mulher, que aparentava ter lá seus 35 anos. Ela estava vendo os bordados que estavam na sacola da mulher que bordava.

– Cadê o manto? Precisamos modificar o manto dele. Muitas coisas vão mudar a partir de hoje…

A mulher pegou um manto verde, e começou a desfazer e refazer. Bernardo apenas olhava aquela cena, com um ar total de dúvidas e muitas perguntas. O que faziam aquelas mulheres bordando dentro de um hospital? Poderia ser que esperavam alguém receber alta, mas achou uma total falta de respeito a frieza diante tais acontecimentos, não que elas fossem obrigadas a se “emocionar”, mas pelo simples fato de ter sido uma cena de dor e desespero. Enquanto todos no recinto demonstravam sua indignação, aquela garota e agora, a mulher junto dela, se mostrava concentrada em seu bordado, como se nada estivesse acontecendo. Mas continuou, andando de um lado para o outro, sempre perguntando da esposa para todo mundo que saia da porta que dava caminho para dentro da ala de internação.

Depois de uma hora esperando, uma enfermeira se aproxima de Bernardo, disse que era para ele ver a esposa. O médico também se aproxima e pede para ele ser forte, pois a esposa estava numa situação entre a vida e a morte. Ele ficou inerte, parado, sem expressão, até ajoelhar-se no chão e cair em desespero. As pessoas da sala de espera o acudiram, colocaram-no numa cadeira, ofereceram-no água e várias palavras, desajeitadas, para dar-lhe esperança. Ele olhou à frente e lá estavam as duas mulheres, encarando-o. Alguns minutos depois, entra uma senhora bem velha, curvada, aparentemente cega. As duas mulheres cedem o lugar do meio para ela. Ela se senta e pega um manto vermelho da sacola. Começou a desfazê-lo, e as linhas de lã começam a cair no chão. Bernardo começou a berrar:

– Qual o problema de vocês? O que vocês fazem aqui? Aqui não é lugar de tricotar, aqui é a porra de um hospital e minha mulher está prestes a morrer. O que vocês fazem? Tricotam para os doentes? Para os médicos, enfermeiras…

– Tricotamos para todos, sem distinções meu senhor. Pra você, sua esposa e sua filha. Não vendemos o que produzimos, apenas fazemos e desfazemos o destino.

Num acesso de raiva, Bernardo pega a sacola com os bordados e atira longe. Começa a chamá-las de malucas. A velha está quase no final no desfazer do manto. Tinham duas colunas para serem desfeitas.

– Acho melhor que vá ver sua esposa Senhor, antes que seja tarde… – disse a velha.

Ele se levantou e foi ver a esposa, depois que se aclamou um pouco. Entrou no quarto, viu sua esposa deitada, mergulhada numa poça de sangue. A enfermeira e o médico entrou, disseram que não havia mais nada a se fazer, pois era a terceira hemorragia e a transfusão de sangue não resolveu o problema. Bernardo segurava a mão dela e 5 minutos depois ela faleceu.

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As três deusas mitológicas do Destino, também conhecidas como Parcas:

Cloto: tece o fio da vida

Láquesis: Cuida da extensão e caminho. Tece o destino no decorrer da vida

Átropos: Desfaz, corta o fio. Representa a morte.

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Um comentário sobre “Cloto, Láquesis e Átropos

  1. …Belo texto! Bem tecido e alinhavado com palavras que mostram nossa cruel, irônica e metáforica vida. Onde depende-se de tudo e de todos: para nascer, viver ou morrer. A vida, que é um milagre, torna-se banal, e perde o seu sentido mais profundo…

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