Crônica Urbana

São várias as faces do mundo urbano, basta dar apenas um pouco de atenção. Por volta das dez horas da manhã, as crianças estão brincando no quintal de areia e cheio de brinquedos da creche perto de casa. No quintal da creche há uma pequena casa, onde as crianças entram dentro e algumas delas ficam com a cabeça pra fora, olhando o movimento. Outras disputam o balanço. Num canto coberto, as crianças sentam-se ao chão e ficam com os olhos e ouvidos atentos para a professora com livros de fábulas nas mãos. Enquanto as crianças aproveitam e vivem a juventude, na rua de cima, no final da tarde, um homem está encostado na parede com as mãos na nuca, enquanto a polícia o revista. No bolso, celular roubado e um pacote de capsulas de cocaína. O policial questiona onde estavam os outros integrantes do furto da residência que ocorreu a uma quadra dali. Ele disse que não participou de nada: “Não sei de nada não senhor”, “Mas o senhor bate com as características dadas pela pessoa que denunciou”, “Mas não fui eu não senhor”. Uma senhora carregando duas sacolas cheias e aparente pesadas, parou de frente com o policial e disse que uma casa da rua dela foi assaltada no dia anterior. Indagada pelo policial se a mesma havia chamado a policia, a senhora respondeu que chamou e a viatura nunca chegou. “Liguei umas três vezes senhor policial, na última disseram que estavam sem viatura no distrito”, “A dona da casa abriu boletim?”, “Não sei senhor, a casa é dela, deve ter aberto não é? Se a casa fosse minha é o que eu teria feito”. E então ela foi embora, com uma cara feia, e desabafando que as coisas nunca dão certo. Ela passou por mim, no final da tarde enquanto eu aguardava o ônibus para ir a um curso. Olhou pra mim e apenas exclamou: “É brincadeira né? Nós pagamos para eles não trabalharem!”, e continuou descendo a rua esbravejando, sozinha. Eu apenas olhei e dei um sorriso sem graça. Enquanto homem era algemado, o ônibus chegou. “Boa Tarde Chris! Sua filha melhorou?”, “Pois é menina, dei uma correção nela. Está de castigo em casa, um mês sem sair de casa. Quem sabe ela esquece aquele filho da mãe!”, “Vai dar tudo certo, o Tempo cura qualquer coisa, é o que dizem não é?”. Uma semana antes, Chris, o motorista estava tristonho num canto do terminal do ônibus. Conhecido por ser uma pessoa que está sempre conversando e rindo de alguma coisa, ou na rodinha de fumantes na entrada externa do terminal, estranhei aquele comportamento atípico. Naquela noite, eu havia saído e comprei algumas fatias de torta de frango e empadas de palmito. Ofereci ao Chris, que naquele horário sempre estava com fome e nunca recusava nada. Disse ele que estava com dor de estômago, e que nada descia, que a fome não existia mais pra ele. Perguntei se havia acontecido alguma coisa, ele respondeu que a filha estava lhe dando úlceras por causa de uma paixonite pelo aviãozinho do tráfico de drogas da região. Disse que ela se dizia apaixonada, e que tinha planos de se casar. “Ela só tem quinze anos, é uma menina! Se ela me aparece grávida deste sujeito, o que eu posso fazer?”. Pediu desculpas pela indisposição. Disse-me que quando resolvesse o problema, aceitaria um pedaço de torta. E naquele fim de tarde, aparentemente o velho Chris estava com um sorriso no rosto. Eu pensei se ele realmente acreditava que um mês trancafiada sua filha iria deixar de gostar do tal rapaz. Eu quase perguntei, mas muitas vezes podemos nos enganar. Quem vai dizer que aquilo era Amor real? Poderia ser apenas uma paixonite fogo de palha. Às vezes este Tempo seja mesmo suficiente. Quem sou eu para questionar as ações de um pai de família desesperado e que perdeu a fome de preocupação?

 Chegando ao terminal, próximo de embarcar em um segundo ônibus que enfim me levaria ao meu lugar de destino, um grupo de rapazes improvisava uma música de funk ostentação. Uma delas era uma homenagem ao MC Daleste, morto recentemente durante um show. O ônibus chegou e as pessoas se acomodaram. Os rapazes da improvisação sentaram no fundo do ônibus e começaram a rolar as letras, carregadas da vida de luxo, uma vida cheia de aparências. Em outros momentos, rolava um proibidão, e o desconforto que já era visível nos passageiros do ônibus, se intensificava. O ônibus parou no acostamento da avenida e o cobrador desceu de sua cadeira alta do alto da roleta e proclamou a expulsão dos rapazes, caso eles não parassem de cantar. Enfatizou que a música cantada por eles era tão proibida quanto ao funk tocado em aparelhos celulares sem fone de ouvido, e que estava incomodando os passageiros. Um dos rapazes alegou que não tinha nada a ver, e que aquela atitude era puro preconceito, porque se fosse qualquer outro tipo de estilo musical, ninguém iria reclamar, “Se eu começasse uma bossa nova aqui, seria aplaudido, sacumé meu irmão, bossa nova é chique, é da elite, funk é povão, classe baixa, oprimida, leva tiro de anônimo no meio da multidão.” E prometeram que ficariam em silêncio. Num dado momento da trajetória, os rapazes entoaram um novo hino:

“Aê hipocrisia a bordo do busão

Eu faço com meu funk ostentação

Tua bossa nova não vai te levar a nada

Esse som de elite metida,tudo marmelada

Daqui um tempo, eu nas ruas com meu carrão

E você aí meu irmão, ainda andando de busão.”

E desceram do ônibus, cantando. Algumas pessoas riram, outras abaixaram a cabeça, talvez a refletir sobre o trecho dos rapazes da “periferia”. E o silêncio ficou até eu descer em meu ponto de ônibus. Na outra esquina, parei na loja de conveniência para fazer hora enquanto meu curso não começava. O assunto era os R$2,59 do litro da gasolina. Enquanto bebericava meu café expresso duplo, uma rodinha se formava cheia de opiniões a respeito da alta dos preços, e a coisa começava a ir para outros setores. Um senhor disse que ele se lembrava de uma época que o leite custava um real, e não tinha todos os nomes estranhos que se vê na lista de ingredientes. E o assunto mudou, a pauta era o leite: “Hey mocinha, tem leite no teu café?”, “Não, estou tomando apenas café”, “Você gosta de café com leite?”, “Adoro, de manhã, com pão com manteiga ou requeijão, ou um cappuccino caprichado”, “Pois é minha cara, saiba que esse leite que você gosta de tomar, está longe do que se tomava antigamente, a não ser que você tome aqueles vendidos em garrafa PET, direto da roça, esse é o verdadeiro! É esse que você toma mocinha?”, “Não, é desses de caixinha…”, “Então minha filha, esqueça, o que você toma não é leite”. Pensei sobre o caso, já tinha lido um artigo bem interessante do Dr. Feldman sobre o leite. Não deixarei de tomar leite, mas quase que pensei em ficar apenas no meu café duplo. Quando paguei a conta, a discussão estava na fonte de cálcio, e o carinha do caixa comentou que a tia dele estava com osteoporose porque ela não gostava de leite. “Hoje ela toma cálcio através daqueles “bagulho” de “Calcitran” não sei das quantas. É caro pra caralho, antes ela ter gostado de leite”. E então eu pensei antes eu tomar leite, do que Calcitran D12. Chegando em minha casa pesquisei novamente sobre o bando de siglas e o tal do Ultra UHT que vem escrito nas embalagens Tetra Pak das caixas de leite. Realmente o leite não é mais como era antigamente, e então eu passei a pensar também: Nada é mais como era antigamente. Continuaremos a cantar o saudosismo por aí. Mas de uma coisa eu sei bem, hoje ao sair novamente pela manhã, vi uma flor que nasceu entre a calçada e o asfalto. Quebrou as barreiras do concreto. O ônibus passou por mim e uma mulher jogou uma garrafa plástica pela janela do ônibus. Quase me acertou com seu espírito de porco. Quantas pessoas atiram coisas pela janela? Quantas pessoas seguram o “lixo” para enfim jogá-lo em lugar apropriado? Jovens bebem nas calçadas do posto e deixam as garrafas no meio fio, pessoas sentam no lugar dos idosos e quando eles chegam, fingem que dormem. Quantas pessoas se recusam a levar uma vida saudável em nome do prazer do vício? São tantas coisas a se pensar, e nisso, nos meus pensamentos diante daquela flor do asfalto, uma senhora me entrega um panfleto sobre o grupo de oração da vinda do Papa. Dei uma olhada, quase indiferente, mas ela tinha um olhar bondoso. Não vou discutir com uma senhora crédula que a vinda do Papa só vai beneficiar uma minoria. Recebi um texto nesta semana dizendo que “reza a lenda” nos trará sim benefícios, que os gastos pagos com dinheiro dos cofres públicos serão retornados em forma de benefícios públicos. Isso me faz lembrar a JMJ que ocorreu em Madrid, em 2011. Hoje a Espanha está em crise. Devolvi um sorriso pra ela. “Você vai participar”, “Não senhora, tenho compromisso neste dia”. Já me disseram um dia: “Verdades doem, mentiras são agradáveis”. Olhei a flor ali no chão. Pensei em ir à banca comprar jornal e tomar um café com leite na esquina. A flor ainda continuou ali, alheia, pedindo um pouco de atenção.

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