O vento na janela

Vede a criança, rodeada de porcos a grunhir,
Desarmada, encolhendo os dedos dos pés.
Chora, não sabe fazer mais nada senão chorar.
Será alguma vez capaz de ficar de pé e de caminhar?
Coragem! E depressa, penso eu,
Podereis ver a criança dançar;
Logo que conseguir manter-se de pé,
Haveis de a ver caminhar de cabeça para baixo.

Friedrich Nietzsche, in “A Gaia Ciência”

Ela estava concentrada olhando a ventania lá fora sacudindo as árvores e também sua saudade, já tão abandonada às moscas que ansiosamente debatem no vidro da porta querendo entrar. A casa cheirava à peixe. Sua mãe fritou os peixes que seu pai havia trazido pela manhã, após uma semana lançado aos infortúnios e surpresas do alto mar. Já era uma mulher crescida, mas a brisa marítima que entrava na casa em frente à praia quase intocada daquela cidadezinha à beira mar, trazia a certeza dos seus dias de sol e a lembrança dos dias que corria descalça pela areia branca da praia enquanto chovia, e a voz de sua mãe, ainda nos tempos sem os cabelos brancos, “Volta pra casa menina, você vai tomar um raio!”. Os ecos da saudade do tempo de menina eram trazidos com o prenúncio dos ventos da tempestade.

Ficou preocupada, de noite anunciava tempestade e o seu pai estava no pesqueiro em alto mar. Lembrou do dia que o barco de seu velho naufragou e ele ficou à deriva por quatro dias. A família já velava a morte mesmo tendo nenhum cadáver anunciado devorado pelos peixes, mas já esperavam o pior. Encontraram-no quatro praias depois, cheio de queimaduras e desidratado. Ficou uma semana internado, e assim que saiu já queria ganhar o oceano novamente. Ela sempre viu o pai como uma fortaleza, e a primeira vez que o viu chorar foi quando ele voltou pra casa do hospital e vou suas redes e linhas de pesca. O que mais o deixou triste foi a possibilidade de não poder mais trazer o sustento da família, e de não vê-la crescer. Ela ensinou seu pai a ler e escrever, e um dia ele até arriscou um poema, escrito por linhas tortas, e entregue no dia do professor, escrito em um saco de pão:

Amanhece minha menininha
As redes de pesca bagunçadas
Seus cabelos também
Cheiro de café, cinco horas da manhã
Dorme minha doce e travessa menininha

O seu velho pai ainda a vê correndo pela areia e a sorte ou a falta dela o acompanha todos os dias em alto mar.

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