Entrelinhas

Apenas escreva… Vi isso no canto do editor de texto no modo “escrita sem distrações”. Com todo o sol do entardecer que entra na minha humilde casa, fica um pouco difícil escrever sem me preocupar com as coisas alheias que o sol já tímido deste fim de tarde toca. Eu olhei pela fresta da porta e vi que a ventania que estava de manhã já está querendo silenciar. Quando eu acordei, já tarde, devido à madrugada naturalmente e intimamente sem sono, eu pude perceber o quanto eu gosto do barulho da persiana se mexendo com o vento que entra pela janela. É muito melhor que o barulho do meu ventilador de teto, e me traz coisas mais significantes do que um mero barulho motorizado pendurado no teto. E eu pensei na poeira que deve estar na parte de cima das hélices. Besteira… Deixei pra lá. Pensei em dezenas de coisas bonitas. Pensei em sair lá fora para caminhar, sem pensar que a ventania deixaria meus cabelos mais indefinidos que eles já o são. Pensei em pegar um livro e ler enquanto tomo meu café com leite de todos os dias. Lembrei então que eu tinha roupas no varal a serem recolhidas. Levantei da cama e tomei um banho rápido. Quando saí lá fora e me deparei com este inverno indefinido, eu pensei nos meus tempos de inverno rígido no sul do país. Foram lembranças do tempo em que andar empacotada com quilos de roupa era um mal necessário. Mas era bom acordar e ver as casinhas de madeira, e subir no ônibus amarelo que me levava até outro terminal onde eu subia em outro ônibus para finalmente chegar na empresa em que eu trabalhava.

Quando eu saí lá fora, deixei a água do meu café com leite esquentando no fogão. Fui para a lavanderia que fica na parte de trás da casa e comecei a recolher minhas roupas. E o cheiro das roupas lavadas é o mesmo das que minha mãe me entregava para guardar na gaveta, quando vivia com meus pais. Compro o mesmo amaciante que ela usa nos lençóis. Assim quando eu vou dormir de certa forma faz-me lembrar de quando eu não tinha de me preocupar se eu tinha roupa no varal. Traz-me a lembrança de casa, da cama que meu pai comprou quando eu cheguei e dos meus lençóis cheirosos e coloridos. Não tenho fronhas, pois não durmo com travesseiro. Meu travesseiro é um bicho estranho que ganhei de meu ex-namorado. Acostumei a dormir sem travesseiro, e um dia eu pensei que mulheres sozinhas abraçam o travesseiro na hora da saudade. Eu não tenho travesseiro, mas abraço minhas lembranças empoeiradas nos confins de minha memória. Existem noites que eu estou tão cansada que eu nem sei mais o que são as lembranças, e meu cansaço ignora tudo o que eu tenho guardado. Às vezes torço pelo meu cansaço vir a galope, e que minha mente hiperativa trabalhe apenas para me trazer escritas sem distrações, ou leituras que não me acarretem em nada, ou filmes que não me façam pensar. Mas o tédio me acomete. Tentei meditação a fim de acalmar a mente. Tive um dia a concepção de que meditar é não pensar em nada, e eu tentei em vão não pensar em absolutamente nada. Errei! Estou sempre caindo em erros, alguns deles repetidos, mas eu sempre penso que todo erro cometido por Amor é um erro aceitável. Paixão não é erro. Talvez o erro seja apenas uma mera consequência que a vida nos traz. Em meus tropeços eu me reergo em passos de Aquiles. Dizem que o ponto fraco dele é o calcanhar. O Amor de certa forma é uma pedrada em meus calcanhares. Então eu assumo a forma de Ícaro e tento alcançar o sol. Mas minhas asas são de cera, e quando eu me aproximo, eu caio no oceano.  Mas eu não sou salva, eu acordo inconsciente na beira da praia, caminho algumas horas sem destino e quando eu chego em meu aconchego, aquela paz que é me tão necessária me atinge a trancos e solavancos. Da praia cheia de areia branca e águas-vivas que me queimam a sola dos pés, devido minha caminhada às cegas, vou para uma montanha solitária e silenciosa. Há tempos sou uma eremita tragando meu cachimbo de razão. Há tempos faço de meu silêncio o meu melhor aplauso. Estou tentando levar a minha vida de maneira mais justa e racional, a questão é que eu amo meus vícios. Eles me tragam, cheiram, injetam. E eles ficam enebriados com minhas idas e vindas, os meus sonhos de ir e vir nas minhas concepções de um mundo que poderia ser mais justo e perfeito, nas minhas crenças de que o mundo pode sim ser perdoado, se houver amor. Vidas sem amor devem ser jogadas aos confins das chamas do inferno. Não sei se o inferno existe, mas se existir eu creio que é pra lá que caminham as almas sem amor… O que diria Dante Alighieri? Tentei ler o capítulo sobre o paraíso, mas a Divina Comédia reside no inferno e purgatório. Talvez eu seja sádica e goste de imagens traduzidas em sofrimento e tristeza. Já me disse alguém um dia, que a tristeza é um mal necessário. Dizem por aí que meus olhos são tristes. Já me disseram que eles são expressivos. Eu já não sei mais o que meu olhar representa, mas sei que os olhos são o espelho da alma, talvez a minha seja um misto de tristeza, expressão e ressaca.

Agora, neste parágrafo, o sol já foi embora, e agora o céu está dando lugar para nuvens cinzentas. Disseram-me ontem que neste final de semana a chuva será intensa. Costumo ler na Praça da Paz, um lugar lindo que fica numa universidade perto de casa. Às vezes me dá a loucura e vou pra lá caminhando, em passos lentos, escutando música. Quando chego lá tiro um descanso na grama. Fico pensando nas folhas que o outono deixou pra trás, e sempre vejo as formigas levando os pedaços delas para algum lugar. Existem muitos sabiás por lá. E eles ficam sempre por perto, voando de galho em galho embaixo da árvore que eu costumo ficar. E as pessoas passam correndo, para manter o corpo em forma, outras passeiam com seus cães. Alguns cães passam por perto fazendo graça e eu os chamo. Geralmente volto para casa com pelos de cães na roupa. Chego em minha casa, tomo um banho sento e escrevo. Gosto de colocar minhas reflexões nem que seja em apenas um pedaço de papel qualquer. Tenho reflexões nunca publicadas, notas mentais que eu esqueço-me e recordo-me duas semanas depois. Ontem fiz uma pequena faxina em casa, encontrei anotações tardias, e pensei em produzir algo. Elas me olham agora em cima da minha mesa. Mas eu finjo que elas não existem. São como retratos de pessoas que já se foram. Eles estão na sua frente, sabe você de alguma forma que estas pessoas não vão voltar, você olha, admira, mas no fim, ignora. Sei que essas anotações me olham diretamente nos olhos, mas ignoro a metáfora. O que é passado deve ficar no passado, existem anotações ali que não me fazem mais sentido algum. Existem pessoas que não me fazem mais sentido algum. É como ter vinil sem ter onde tocar, uma ressaca que lhe dá indigestão, mas queira ou não você gosta delas. Entende? Você gosta! Elas não fazem mais parte da sua existência atual, elas não lhe retornam mensagens e não perguntam se você está bem. Elas simplesmente existem, na concepção delas, no mundo delas, no exato instante que você olha para as estrelas elas também olham, mas não compartilham isso com você, ou pelo menos não aparenta compartilhar. Penso que compartilhar vidas seja tão imoral quanto ter inspiração. Eu já não sei dizer mais o que é inspiração. Agora escrevo independente dos dias, das estações, do meu humor, do meu estado de felicidade, se estou amando ou não. Parei de pensar nisso, cansei de ter musos de inspiradores. Eu não sou o eco de ninguém. O eco é tão traiçoeiro que acaba por lhe devolver aquilo que você não almeja. Eu poderia me inspirar em velhas fotografias, em um presente não entregue ou em entardeceres intransigentes. Poderia continuar a escrever sobre o amanhecer tão estoico, mas a saudade foi inteiramente corroída pela razão. Eu não sou mais a menininha amedrontada da bicicleta de rodinhas, velha, amarela e enferrujada. Um dia meu pai me pegou pelos braços e me disse que eu tinha muito de ver na vida. Eu tinha oito anos, nunca me esqueço. Eu brincava numa rua sem saída cheia de buracos… E eu já pensava desde tenra idade o que eu teria de ver tanto na vida. A vida pra mim era tão simples. Consistia em ir e vir de patins na calçada lisa e íngreme da vizinha fofoqueira do outro lado da rua. Era emocionante pegar velocidade e se arrebentar. Hoje não sei mais como fazer isso. Tenho um par de patins profissional com rodas 90 mm e morro de medo de pegar descidas. Eu ainda sou uma garotinha amedrontada escrevendo entrelinhas.

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