Durante a chuva

Existem pedaços minúsculos espalhando sonhos e possibilidades. Respiramos metade de nossas convicções, aquelas que achamos que podem vir a calhar. O resto jogamos fora, largado num pedaço não iluminado no porão de nossos possíveis e eventuais fracassos. E os homens e mulheres seguem suas vidas querendo tocar o céu de seus amores, tristezas e alegrias, mas este céu possui tantas cores, que não é possível unifica-lo numa cor só, e fazer um tecido, cobrir o corpo nas horas de frio, aquele frio que não passa. É uma metáfora maldita, ou talvez incompreensível, penso na capacidade de abstração das pessoas. São tão limitadas que a capacidade de abstrair acaba se tornando coisa de homens e mulheres loucos. Vou ignorar a abstração aqui, voltarei ao céu, aquele do entardecer, que ao meu ver é o mais bonito aos olhos. Agora neste momento começou a chover. Estava esperando um céu indeciso desde ontem, quando acordei depois de parcas horas de sono e vi o céu com nuvens cinzas de agonia. Recolhi-me ao meu canto, esperando a chuva cair e então me fechar em uma grande esfera impenetrável de pensamentos silenciosos, ora confusos, ora cheios de razão. Mas esse momento não veio, chegou agora, e então eu coloco “Rain Song” do Led Zeppelin para não fugir de meus dias clichês de chuva. E cada vez que olho lá fora e vejo as pequenas gotas de chuva escorrendo pelo vidro de minha janela, eu penso que cada gota daquele vai cair e lavar nossas almas. Robert Plant tinha razão, quando ele escreveu essa música, sobre chuva e estações. Falou sobre o Amor talvez na sua forma mais primitiva, em comunhão absoluta com as intempéries do tempo. E eu penso agora que daqui a pouco as pessoas passaram a reclamar da chuva, sendo que antes reclamavam da secura do ar que lhes entravam pelas narinas. O ser humano é tão ingrato…

Quando chegar a primavera, os toques que eu desejo tanto talvez sejam executados numa fração irrisória de milionésimos de segundo, naquele momento cheio de canções, de notas musicais breves, usadas em exaustidão. Um tom desafinado, petulante, beirando o silêncio que tanto me atordoa e ao mesmo tempo, tão necessário. Um dia José Saramago escreveu que o silêncio era o melhor aplauso. E então eu refleti, e cheguei a conclusão que o Silêncio é necessário, mas que as palavras devem ser usadas em seu momento certo. Silêncio por demais atordoa, nos leva à descrença e mágoa, uma vontade de não estar. Palavras são necessárias, mesmo que sejam apenas jogadas ao vento ou por puro sentimento de obrigação. Nos calamos perante a Beleza, nos permitimos apenas encará-la com os olhos, pois a Beleza que nos atordoa e nos faz por algum motivo perder a razão, é aquela tal como um verbo que não se conjuga. Quando nos calamos perante aquilo que nos perturba ou nos assusta, nos tornamos cínicos, mergulhados em pura ironia. Vamos olhar nossos demônios pessoais, encarando-os com os olhos, para que o Tempo passe devagar. Se a Beleza lhe és maldita, faça dela um poema com os olhos a sorrir. Escreva um poema em memória, mas não deixe de sorrir com os olhos. Seja por puro orgulho, ou na singela falta de não saber como lidar. Seria tão bom se todos soubessem usar as palavras, mas eu penso que ao mesmo tempo o Silêncio é um aplauso necessário. E então sigo minha vida perdida entre palavras jogadas ao vento, e elas navegam no oceano de minha reclusão. Passo meus dias como uma eremita sem cachimbo, perdida numa selva de pedra. Enquanto as pessoas amaldiçoam o mal tempo, eu penso nas intempéries dos “por quês” de tudo aquilo que me aflige ou me move.

 Agora já parou de chover. Foi apenas uma chuva rápida, talvez apenas para me dar um pouco da felicidade da espera terminada. Almejei a chuva desde ontem, e eu sei que as estrelas não aparecerão nesta noite de céu nublado. Talvez todas elas, escondidas atrás das nuvens, são apenas um brilho mórbido. E a Morte nunca me pareceu tão bonita aos olhos. As estrelas morrem ao perder combustível e ao olhar para este céu a enegrecer, eu ainda busco por quasares pulsantes, ao entardecer, na calada da noite, até o quase amanhecer, hora ao qual eu fecho meus olhos. E é neste momento, que minha alma tão inquieta, descansa, como um diamante bruto na natureza, nunca antes encontrado. Qual é o nosso preço? Dizem que somos poeira de estrelas, sendo assim, nós humanos malditos e inquietos, não temos preço para compra… Ao pó retornaremos. Sem mais, apenas as gotas de chuva a secar na janela.
Anúncios

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s